VICTOR SCHOELCHER

Victor Schoelcher pertenceu a essa mocidade alegre e enthusiasta que

forneceu ao author dos _Miseraveis_ o seu typo d'Enjolras, o estudante

de todas as sociedades secretas e de todas as conspirações. Franco-mação

e conspirador, filiou-se na loja franceza dos _Amis de la verité_ e na

_Sociedade Aide-toi, le ciel t'aidera_.

Estas eram, com algumas outras, as associações dos _malfeitores_

d'aquelles tempos, no dizer picante e ironico de um distincto jornalista

parisiense.

[Gravura: Victor Schoelcher]

A grande e gloriosa figura de Schoelcher destaca-se na sua

brilhantissima campanha contra a escravidão. Quiz vêr de perto e

observar pelos seus proprios olhos a triste situação dos negros. E, para

poder denunciar ao mundo a ignominia e a barbarie dos homens, partiu

para a America, d'onde regressou, com o coração angustiado pela dôr e o

espirito horrorisado por tudo o que havia presenceado e visto. Sendo

sub-secretario d'Estado, no ministerio da marinha, por occasião da

revolução de 1848, o seu primeiro cuidado foi apresentar um decreto para

a libertação immediata dos negros.

Schoelcher encontrava-se ao lado de Baudin, na celebre e já hoje

historica barricada da Bastilha.

A tropa marchava sobre a barricada, sem dar um tiro.

«--Amigos! gritou Schoelcher, voltando-se para o povo, nem um tiro até

que a tropa abra o fogo. Avancemos; se ella atirar, a primeira descarga

será nossa; se nos matar, vós nos vingareis.»

E dirigindo-se depois aos soldados:

«--Nós somos os representantes do povo, exclamou. Em nome da

constituição, reclamamos o vosso concurso, para fazer respeitar as leis

do paiz. Vinde a nós; será vossa a gloria.»

E avançou para os soldados, commandados por um official. Seis dos seus

collegas seguiram-n'o. A tropa parou indecisa.

--Cumpro as ordens, respondeu o official. Retire-se, se não quer que dê

a voz de fogo.

--Mate-nos, se quizer, replicou Schoelcher.

E, dando o exemplo que foi seguido pelos companheiros, gritou: «Viva a

Republica!»

O official mandou carregar.--«Avançar!»--ordenou.

Ouviu-se o ruido sêcco das baterias. Alguns representantes

descobriram-se e quedaram-se com o chapéu na mão, esperando serenamente

a morte. N'esse instante, um soldado atacou Schoelcher á baioneta. Os

defensores da barricada, suppondo que se attentava contra a sua vida,

desfecharam e mataram o soldado. A tropa respondeu por uma descarga

geral. Foi então que Baudin subiu á barricada para exhortar os soldados.

Uma bala feriu-o na fronte, cahindo logo fulminado.

Schoelcher, n'esse dia memoravel da sua vida, esteve á altura dos

grandes heroes; e, á semelhança dos antigos paladinos, só abandonou o

campo, quando nada mais restava a fazer. A barricada da Bastilha fôra

improvisada de um momento para o outro; construida no ar, para assim o

dizer, sem elementos de resistencia, desfez-se e cahiu como um castello

de cartas. Mas o patriotismo opera milagres. E só patriotas sinceros e

devotados seriam capazes de semelhante audacia e de semelhante arrojo!

Chamaram-lhe idealista--um puro e nobre idealista!--a elle, que todos os

seis mezes, na camara franceza, apresentava um projecto de lei para a

abolição da pena de morte. Para o mundo, egoista e utilitario, são

idealistas e são sentimentalistas, todos os que lhe não acceitam as

falsas convenções e o tôrpe e vilissimo mercantilismo. E é precisamente

de idealistas e de sentimentalistas que carecem e precisam as sociedades

modernas! As grandes commoções da historia foram um producto do ideal e

do sentimento humano. Assim como é preciso pensar para obrar, na phrase

de Augusto Comte, é tambem preciso sentir para querer. Nem d'outro modo

se comprehende o patriotismo, nem d'outro modo se poderiam comprehender

as revoluções e os grandes dramas sociaes.

Perdida a causa em que pozéra todo o seu heroismo e todos os seus

esforços, Schoelcher emigrou para Inglaterra, onde permaneceu durante o

imperio, regressando a Paris em 1870. Estava no Hotel-de-Ville, a 4 de

setembro, e tomou parte na defeza de Paris, na sua qualidade de chefe

d'Estado-maior da guarda nacional.

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O Primeiro de Maio · 第 15 / 101 题