_De como o Regente foi avisado da secreta partida da Rainha, e do que
logo sobr'isso se fez_
E o Regente pouco mais de meia noite foi avisado da partida da Rainha
sumariamente, por Gil Pirez de Resende, contador de Santarem, sem lhe
saber dizer o caminho que fizera, nem se levara consigo as Infantes, e a
poucas horas tornou o Infante a ser certificado do caminho da Rainha, e
como levava consigo a Infante D. Joana, e leixava doente a Infante D.
Lianor, que depois foi Imperatriz, e d'esta mudanÁa mostrou o Regente
grande tristeza e sentimento, ainda que alguns diziam que era fingida; e
porÈm mandou logo a Martim Affonso de Miranda com notairos, a escrever e
segurar todo o que se achasse em Almeirim. E o que se conhecesse por da
Rainha, que era j· sÛmente roupa de camas e pannos, mandou entregar aos
officiaes d'El-Rei, e as outras cousas dos seus se entregaram por
recadaÁ„o a um Martim d'Almeida, cavalleiro de Santarem. E foi logo a
Almeirim pela Infante D. Lianor, que entregou a D. Guiomar de Castro,
que foi sua aia atÈ o tempo que d'estes reinos partiu para Allemanha.
E assi mandou logo o Regente em nome d'El-Rei caminho do Crato Diogo
Fernandes d'Almeida, que era vÈdor da fazenda, pedindo · Rainha, sua
madre com mui brandas razıes e mui fortes seguranÁas que se tornasse, e
que elle e os Infantes iriam por ella, e se o n„o quizesse fazer que ao
menos entregasse a Infante D. Joana. E que se isto tudo denegasse, que
presentes notairos que consigo levava lhe fizesse em nome d'El-Rei
protestaÁıes a n„o ser obrigado elle, nem o reino dar-lhe dote nem
arras, nem outra cousa alguma.
Diogo Fernandes aceitou a embaixada; mas segundo o que d'elle se
suspeitou, elle a n„o cumpriu como devera; porque chegou sÛmente a Alter
do Ch„o, uma lÈgua do Crato, e d'alli se tornou para Santarem, sem obrar
nada do que lhe mand·ram; dando por raz„o que alli fÙra por maneira
informado da tenÁ„o da Rainha para n„o fazer nada do que lhe ia
requerer, que houvera por escusado ir mais adiante; mas a geral opini„o
foi que por ser casado com uma filha do Priol do Crato, elle era sabedor
de todolos movimento passados, e que folgou de n„o fazer por si cousa em
que a Rainha recebesse nojo nem desserviÁo contra seu sogro.
O Regente avisou logo d'este caso os Infantes seus irm„os, e assi os
grandes, e cidades e villas principaes do reino, requerendo-os e
percebendo-os com seus corpos e armas, para serviÁo d'El-Rei e defens„o
do reino, crendo que a Rainha n„o faria de si tal movimento sem muito
esforÁo e atrevimento de Portugal e de Castella.
E no provimento d'estas cartas e avisos, poz o Regente tanta diligencia,
que em dia de todolos Santos ante das missas foram todas feitas e
enviadas, e assi uma sua e de sua m„o · Rainha, que n„o aproveitou, em
que lhe pediu muito por mercÍ que se tornasse, prometendo-lhe que com
sua tornada elle faria quanto ella mandasse.
Os embaixadores de Castella eram ainda a este tempo em Santarem como
disse; de que o Regente por seu descargo e limpeza houve prazer; porque
sabia que a elles era mui claro quanto elle procurava por seu assessego
d'ella, e os mandou logo chamar, e em saindo para a missa lhes fez com
muita autoridade uma falla de sua desculpa acerca da partida da Rainha,
rogando-lhes que pois se fÙra t„o sem conselho e tanto contra o que
cumpria a seu estado, e sem licenÁa d'El-Rei seu filho, fizessem com
ella que ante de sair do reino se tornasse · cÙrte, com grandes
prometimentos de elle em seus feitos fazer tudo o em que ella recebesse
contentamento, prazer e serviÁo: e d'isto para seu resguardo pediu
estromentos.
N'este dia e nos outros logo seguintes, trouxeram ao Regente presos
muitos dos que d'Almeirim se iam para a Rainha, e os que achava serem
seus moradores, logo os mandava todos soltar com liberdade e licenÁa
segura de a irem servir se quizessem, salvo um Jo„o Paez Cantor, e Diogo
de Pedrosa, que eram casados com criadas da Rainha, aos quaes por haver
n'elles alguma sospeita, que estando o Regente nos paÁos de Santarem
tratavam de o matarem · bÈsta, foi dado tormento d'aÁoutes nos pÈs, e
por n„o confessarem culpa que os obrigasse a outra maior pena, os mandou
soltar.
O Regente por segurar as comarcas do reino em que tinha alguma suspeita,
encomendou a da Beira ao Infante D. Anrique, e a d'entre Tejo e Odiana
ao Infante D. Jo„o. E mandou · cidade do Porto Ayres Gomez da Silva,
para com a cidade fazer defensa e resistencia a quaesquer rebates que
n'aquella comarca sobreviessem. E assim mandou que aos do Crato n„o
fosse em todo o reino dado mantimento, mais do que cumprisse · Rainha, e
a vinte pessoas que a servissem, de que se ella muito aggravou.