CAPITULO LXVI

_De como o Regente foi avisado da secreta partida da Rainha, e do que

logo sobr'isso se fez_

E o Regente pouco mais de meia noite foi avisado da partida da Rainha

sumariamente, por Gil Pirez de Resende, contador de Santarem, sem lhe

saber dizer o caminho que fizera, nem se levara consigo as Infantes, e a

poucas horas tornou o Infante a ser certificado do caminho da Rainha, e

como levava consigo a Infante D. Joana, e leixava doente a Infante D.

Lianor, que depois foi Imperatriz, e d'esta mudanÁa mostrou o Regente

grande tristeza e sentimento, ainda que alguns diziam que era fingida; e

porÈm mandou logo a Martim Affonso de Miranda com notairos, a escrever e

segurar todo o que se achasse em Almeirim. E o que se conhecesse por da

Rainha, que era j· sÛmente roupa de camas e pannos, mandou entregar aos

officiaes d'El-Rei, e as outras cousas dos seus se entregaram por

recadaÁ„o a um Martim d'Almeida, cavalleiro de Santarem. E foi logo a

Almeirim pela Infante D. Lianor, que entregou a D. Guiomar de Castro,

que foi sua aia atÈ o tempo que d'estes reinos partiu para Allemanha.

E assi mandou logo o Regente em nome d'El-Rei caminho do Crato Diogo

Fernandes d'Almeida, que era vÈdor da fazenda, pedindo · Rainha, sua

madre com mui brandas razıes e mui fortes seguranÁas que se tornasse, e

que elle e os Infantes iriam por ella, e se o n„o quizesse fazer que ao

menos entregasse a Infante D. Joana. E que se isto tudo denegasse, que

presentes notairos que consigo levava lhe fizesse em nome d'El-Rei

protestaÁıes a n„o ser obrigado elle, nem o reino dar-lhe dote nem

arras, nem outra cousa alguma.

Diogo Fernandes aceitou a embaixada; mas segundo o que d'elle se

suspeitou, elle a n„o cumpriu como devera; porque chegou sÛmente a Alter

do Ch„o, uma lÈgua do Crato, e d'alli se tornou para Santarem, sem obrar

nada do que lhe mand·ram; dando por raz„o que alli fÙra por maneira

informado da tenÁ„o da Rainha para n„o fazer nada do que lhe ia

requerer, que houvera por escusado ir mais adiante; mas a geral opini„o

foi que por ser casado com uma filha do Priol do Crato, elle era sabedor

de todolos movimento passados, e que folgou de n„o fazer por si cousa em

que a Rainha recebesse nojo nem desserviÁo contra seu sogro.

O Regente avisou logo d'este caso os Infantes seus irm„os, e assi os

grandes, e cidades e villas principaes do reino, requerendo-os e

percebendo-os com seus corpos e armas, para serviÁo d'El-Rei e defens„o

do reino, crendo que a Rainha n„o faria de si tal movimento sem muito

esforÁo e atrevimento de Portugal e de Castella.

E no provimento d'estas cartas e avisos, poz o Regente tanta diligencia,

que em dia de todolos Santos ante das missas foram todas feitas e

enviadas, e assi uma sua e de sua m„o · Rainha, que n„o aproveitou, em

que lhe pediu muito por mercÍ que se tornasse, prometendo-lhe que com

sua tornada elle faria quanto ella mandasse.

Os embaixadores de Castella eram ainda a este tempo em Santarem como

disse; de que o Regente por seu descargo e limpeza houve prazer; porque

sabia que a elles era mui claro quanto elle procurava por seu assessego

d'ella, e os mandou logo chamar, e em saindo para a missa lhes fez com

muita autoridade uma falla de sua desculpa acerca da partida da Rainha,

rogando-lhes que pois se fÙra t„o sem conselho e tanto contra o que

cumpria a seu estado, e sem licenÁa d'El-Rei seu filho, fizessem com

ella que ante de sair do reino se tornasse · cÙrte, com grandes

prometimentos de elle em seus feitos fazer tudo o em que ella recebesse

contentamento, prazer e serviÁo: e d'isto para seu resguardo pediu

estromentos.

N'este dia e nos outros logo seguintes, trouxeram ao Regente presos

muitos dos que d'Almeirim se iam para a Rainha, e os que achava serem

seus moradores, logo os mandava todos soltar com liberdade e licenÁa

segura de a irem servir se quizessem, salvo um Jo„o Paez Cantor, e Diogo

de Pedrosa, que eram casados com criadas da Rainha, aos quaes por haver

n'elles alguma sospeita, que estando o Regente nos paÁos de Santarem

tratavam de o matarem · bÈsta, foi dado tormento d'aÁoutes nos pÈs, e

por n„o confessarem culpa que os obrigasse a outra maior pena, os mandou

soltar.

O Regente por segurar as comarcas do reino em que tinha alguma suspeita,

encomendou a da Beira ao Infante D. Anrique, e a d'entre Tejo e Odiana

ao Infante D. Jo„o. E mandou · cidade do Porto Ayres Gomez da Silva,

para com a cidade fazer defensa e resistencia a quaesquer rebates que

n'aquella comarca sobreviessem. E assim mandou que aos do Crato n„o

fosse em todo o reino dado mantimento, mais do que cumprisse · Rainha, e

a vinte pessoas que a servissem, de que se ella muito aggravou.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 89 / 103 题