_De como se a Rainha aconselhou sobre a ida para o Crato, e como emfim
posposto o conselho se partiu_
E com quanto a Rainha no cuidado d'estes cuidados temporaes, tinha para
este mundo ass·s que entender; porÈm porque era Senhora muito devota e
de mui religiosa vida, n„o se partiam de sua alma para o outro outros
espirituaes, que a fizeram mandar ao mosteiro de Bemfica da Ordem de S.
Domingos, por um Frei Jo„o de Moura, seu confessor, padre de grandes
dias e doutrina, e assi de mui santa vida, para com elle em confiss„o
consultar esta secreta mudanÁa. E depois d'ella lhe dizer com largas
palavras sua determinaÁ„o, elle lh'a contrariou com outras mais de tanta
verdade e prudencia, que pareceu dizer-lh'as como por espirito divino.
E certo assi foi, porque ella em seu desterro, desamparo e desaventuras,
que pelo n„o crÍr depois padeceu, sentiu bem que o padre a aconselhava
mais que homem, e como de mandado de Deus, e d'isso ella ao diante se
acusava muitas vezes.
E como quer que Frei Jo„o n„o pÙde em sua presenÁa afrouxar a tenÁ„o da
Rainha, porÈm porque ella era de bom siso e mui s„o proposito, fizeram
depois suas palavras no coraÁ„o d'ella tamanha casa, que assentava j· em
sua vontade n„o se partir, pesando-lhe muito da palavra que dera aos
filhos do Priol. Os quaes a noite de bespora de todolos Santos que
tinham posto, foram com suas gentes acerca de Almeirim, e por n„o serem
sentidos leixaram toda a gente ao Paul da Atella, e elles ambos, cada um
com seu escudeiro e seu page, chegaram aos paÁos j· de noite, com cuja
chegada e vista a Rainha recebeu muita e descuberta tristeza, e lh'a
confessou logo. Do que elles ficaram mui torvados, porque a conheceram
j· mudada de todo, e sobre isso houveram entre si muitos debates, em que
a Rainha finalmente foi dos agravos d'elles vencida, e quiz contra sua
vontade satisfazer ao que tinha prometido.
E d'este segredo era em sua casa sÛmente sabedor Diogo GonÁalves Lobo,
seu vedor, que com muita triganÁa deu aviamento a todo o que cumpria
para sua partida.
A Rainha depois de concertar com elles o feito como seria, ·s nove horas
da noite se tornou com grande assessego e dessimulaÁ„o a seu estrado, e
hi deu boas noites sem algum alvoroÁo, e ·s dez horas se sahiu por uma
porta secreta contra a coutada, e com ella a Infante D. Joanna, de mama,
e sua ama que a criava, e Diogo GonÁalves, e Jo„o Vaz Marreca, seu
escriv„o da puridade, e Maria Dias sua covilheira, e Briatyz Corelho,
donzela Aragoesa. E estas pessoas a acompanharam atÈ o Paul, onde ficara
a gente, com que logo seguiram seu caminho, e n„o muito depressa por
lhes n„o aturarem as bestas em que iam, e ao outro dia ·s dez horas
chegaram sem decer · Ponte do Sor. E hi comeram e repousaram um pouco. E
em anoitecendo foram no Crato, onde o Priol j· a estava esperando, e a
recebeu com grande alegria, dando-lhe as chaves de todas as fortalezas,
com razıes de grande humildade e muita obediencia. E ella o agasalhou
com palavras e mostranÁas de grande aguardecimento, e bem conformes a
sua necessidade.