CAPITULO LXII

_De como veiu a El-Rei embaixada de Castella, e como foi recebida_

Ao mez d'Outubro d'este anno de mil e quatro centos e quarenta, estando

ainda El-Rei em Santarem e a Rainha em Almeirim, lhe veiu d'El-Rei de

Castella uma grande embaixada, em que vieram por pessoas principaes D.

Affonso, filho bastardo d'El-Rei de Navarra, que depois morreu duque de

Villa Formosa, e um Bispo de Coria, pessoa de muita autoridade, e outros

letrados, e por esta embaixada ser a primeira que veiu a El-Rei, foi da

cÙrte muito bem recebida, e d'El-Rei e dos Infantes com muitas grandezas

cerimoniada, e a sustancia do que a El-Rei e ao Regente, e assi aos

Infantes e conselho propozeram, se fundou em duas cousas. Uma em se

queixarem de danos e tomadias que os portuguezes fizeram por mar e por

terra aos naturaes de Castella, e a outra mais principal acerca das

cousas da Rainha e restituiÁ„o do Regimento em que sobre todo mais

insistiram, e tambem pediam a El-Rei em nome da Rainha D. Lianor, com

que j· tinha fallado, que a leixasse ir para Castella, mostrando que n„o

queria estar no reino para que tantos males se aparelhavam; porque ao

tempo que esta embaixada sahiu da cÙrte de Castella, os Infantes

d'Arag„o ainda regiam e governavam a pessoa d'El-Rei; e por isso se fez

l·, e propoz c· com as gravezas, protestaÁıes e cautellas, que elles em

nome d'El-Rei ordenaram. Affigurando que por ventura o povo de Portugal,

com receio de futuras guerras que elles tocavam, desistiria da parte do

Infante ·cÍrca do Regimento, e seguiria a da Rainha.

E para os embaixadores fazerem mais geral esta impress„o, pediram ao

Regente logar e licenÁa para esta mesma embaixada irem dar pelas cidades

e villas, e assi aos principaes do reino; mas o Regente por ser cousa

nova e ent„o desacostumada o n„o outorgou nem consentiu, e se escusou

com a semraz„o d'elles, e com outras razıes assaz justas e honestas; e

emfim o Regente para lhe responder, tomou alguns dias d'espaÁo, dentro

dos quaes a todalas pessoas principaes do reino que n„o eram presentes,

enviou pedir conselho por escripto, com o trellado da embaixada. E esta

ordenanÁa guardou sempre o Infante emquanto regeu, de nunca em cousas

sustanciaes tomar conclus„o sem conselho escripto dos presentes e

ausentes, e depois que houve a resposta de todos, e se conformou com o

que melhor pareceu, respondeu aos embaixadores:

´Quanto ·s tomadias, que para justificaÁ„o d'ellas se pozessem juizes de

uma parte e da outra nos estremos danificados. E quanto ·s cousas que

tocavam · Rainha, que El-Rei enviaria seus embaixadores a El-Rei de

Castella com tal resposta com que devesse ser satisfeito.ª

E sobr'isso foi enviado Lopo Affonso Secretario, com fundamento de

dilatar e temporisar o negocio; porque o Regente soube secretamente por

o Bispo de Coria, embaixador, que esta embaixada em que elle vinha era

de cumprimento para a Rainha e para os Infantes d'Arag„o, mas n„o da

vontade d'El-Rei de Castella, a quem parecia bem a maneira que no

Regimento do reino se tivera, e assi n„o leixarem · disposiÁ„o da Rainha

a criaÁ„o d'El-Rei, pois era mulher; porque elle mesmo Rei sentia em si

quanto mal recebera por em semelhante caso ser criado em poder da Rainha

D. Caterina sua madre, e que o contrairo n„o se esperava de taes

Principes como eram os filhos d'El-Rei D. Jo„o.

E · Rainha enviou o Regente em nome d'El-Rei pedir com palavras de muito

acatamento, e com razıes que faziam assaz por sua honra, honestidade e

proveito, que houvesse por bem n„o consentir que de seus reinos se fosse

para os estranhos. Mas isto n„o lhe assessegou a vontade que tinha para

se ir; porque assi pela determinaÁ„o passada da partida, como pelo novo

alvoroÁo que d'alguns dos embaixadores para isso recebeu, determinou

muito mais em si de o fazer.

Os embaixadores n„o se houveram d'esta resposta do Regente por

satisfeitos nem despedidos, antes disseram que traziam em mandado de seu

Rei que sem determinada resposta de todalas cousas, sem outro seu

especial mandado n„o se partissem, e a carta em que isto se continha

d'hi a dois dias a mandaram mostrar ao Regente, o qual como prudente

consirou que taes cartas e instrucÁıes, t„o sem raz„o e vindas t„o

brevemente se compilavam em Almeirim, c· poderiam trazer de Castella

signaes d'El-Rei em branco e sÍllos de fÛra, sobre que poeriam o que

quizessem, como fizeram. E para d'isto ser certificado, avisou d'isso a

gram pressa o Condestabre D. Alvaro de Luna, o qual era fÛra da cÙrte; e

porÈm por seus meios secretos, que com El-Rei trazia, soube logo d'elle

que nunca tal mand·ra, de que logo certificou o Regente por carta da

propria m„o d'El-Rei: pelo qual o Regente n'esta confianÁa determinou

com alguma mais graveza despedir como despediu os embaixadores, e lhes

mandou ´que pois eram respondidos, que se fossem embora dos reinos e

cÙrte d'El-Rei seu Senhor.ª Mas elles n„o se despacharam assi

brevemente, que ainda n„o estivessem em Santarem, ao tempo que a Rainha

se partiu para o Crato, como ao diante se dir·.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 85 / 103 题