_De como veiu a El-Rei embaixada de Castella, e como foi recebida_
Ao mez d'Outubro d'este anno de mil e quatro centos e quarenta, estando
ainda El-Rei em Santarem e a Rainha em Almeirim, lhe veiu d'El-Rei de
Castella uma grande embaixada, em que vieram por pessoas principaes D.
Affonso, filho bastardo d'El-Rei de Navarra, que depois morreu duque de
Villa Formosa, e um Bispo de Coria, pessoa de muita autoridade, e outros
letrados, e por esta embaixada ser a primeira que veiu a El-Rei, foi da
cÙrte muito bem recebida, e d'El-Rei e dos Infantes com muitas grandezas
cerimoniada, e a sustancia do que a El-Rei e ao Regente, e assi aos
Infantes e conselho propozeram, se fundou em duas cousas. Uma em se
queixarem de danos e tomadias que os portuguezes fizeram por mar e por
terra aos naturaes de Castella, e a outra mais principal acerca das
cousas da Rainha e restituiÁ„o do Regimento em que sobre todo mais
insistiram, e tambem pediam a El-Rei em nome da Rainha D. Lianor, com
que j· tinha fallado, que a leixasse ir para Castella, mostrando que n„o
queria estar no reino para que tantos males se aparelhavam; porque ao
tempo que esta embaixada sahiu da cÙrte de Castella, os Infantes
d'Arag„o ainda regiam e governavam a pessoa d'El-Rei; e por isso se fez
l·, e propoz c· com as gravezas, protestaÁıes e cautellas, que elles em
nome d'El-Rei ordenaram. Affigurando que por ventura o povo de Portugal,
com receio de futuras guerras que elles tocavam, desistiria da parte do
Infante ·cÍrca do Regimento, e seguiria a da Rainha.
E para os embaixadores fazerem mais geral esta impress„o, pediram ao
Regente logar e licenÁa para esta mesma embaixada irem dar pelas cidades
e villas, e assi aos principaes do reino; mas o Regente por ser cousa
nova e ent„o desacostumada o n„o outorgou nem consentiu, e se escusou
com a semraz„o d'elles, e com outras razıes assaz justas e honestas; e
emfim o Regente para lhe responder, tomou alguns dias d'espaÁo, dentro
dos quaes a todalas pessoas principaes do reino que n„o eram presentes,
enviou pedir conselho por escripto, com o trellado da embaixada. E esta
ordenanÁa guardou sempre o Infante emquanto regeu, de nunca em cousas
sustanciaes tomar conclus„o sem conselho escripto dos presentes e
ausentes, e depois que houve a resposta de todos, e se conformou com o
que melhor pareceu, respondeu aos embaixadores:
´Quanto ·s tomadias, que para justificaÁ„o d'ellas se pozessem juizes de
uma parte e da outra nos estremos danificados. E quanto ·s cousas que
tocavam · Rainha, que El-Rei enviaria seus embaixadores a El-Rei de
Castella com tal resposta com que devesse ser satisfeito.ª
E sobr'isso foi enviado Lopo Affonso Secretario, com fundamento de
dilatar e temporisar o negocio; porque o Regente soube secretamente por
o Bispo de Coria, embaixador, que esta embaixada em que elle vinha era
de cumprimento para a Rainha e para os Infantes d'Arag„o, mas n„o da
vontade d'El-Rei de Castella, a quem parecia bem a maneira que no
Regimento do reino se tivera, e assi n„o leixarem · disposiÁ„o da Rainha
a criaÁ„o d'El-Rei, pois era mulher; porque elle mesmo Rei sentia em si
quanto mal recebera por em semelhante caso ser criado em poder da Rainha
D. Caterina sua madre, e que o contrairo n„o se esperava de taes
Principes como eram os filhos d'El-Rei D. Jo„o.
E · Rainha enviou o Regente em nome d'El-Rei pedir com palavras de muito
acatamento, e com razıes que faziam assaz por sua honra, honestidade e
proveito, que houvesse por bem n„o consentir que de seus reinos se fosse
para os estranhos. Mas isto n„o lhe assessegou a vontade que tinha para
se ir; porque assi pela determinaÁ„o passada da partida, como pelo novo
alvoroÁo que d'alguns dos embaixadores para isso recebeu, determinou
muito mais em si de o fazer.
Os embaixadores n„o se houveram d'esta resposta do Regente por
satisfeitos nem despedidos, antes disseram que traziam em mandado de seu
Rei que sem determinada resposta de todalas cousas, sem outro seu
especial mandado n„o se partissem, e a carta em que isto se continha
d'hi a dois dias a mandaram mostrar ao Regente, o qual como prudente
consirou que taes cartas e instrucÁıes, t„o sem raz„o e vindas t„o
brevemente se compilavam em Almeirim, c· poderiam trazer de Castella
signaes d'El-Rei em branco e sÍllos de fÛra, sobre que poeriam o que
quizessem, como fizeram. E para d'isto ser certificado, avisou d'isso a
gram pressa o Condestabre D. Alvaro de Luna, o qual era fÛra da cÙrte; e
porÈm por seus meios secretos, que com El-Rei trazia, soube logo d'elle
que nunca tal mand·ra, de que logo certificou o Regente por carta da
propria m„o d'El-Rei: pelo qual o Regente n'esta confianÁa determinou
com alguma mais graveza despedir como despediu os embaixadores, e lhes
mandou ´que pois eram respondidos, que se fossem embora dos reinos e
cÙrte d'El-Rei seu Senhor.ª Mas elles n„o se despacharam assi
brevemente, que ainda n„o estivessem em Santarem, ao tempo que a Rainha
se partiu para o Crato, como ao diante se dir·.