_Como o Infante D. Pedro avisou e percebeu o reino sobre os alvoroÁos
que se ordenavam_
E Tanto que o Infante D. Pedro foi em Camarate, que era no comeÁo de
Setembro do anno de mil e quatrocentos e XXXIX, logo escreveu a todolos
logares do reino notificando-lhe os movimentos que se esperavam, de que
era certificado, e as causas de quem procediam, encommendando-lhe que
logo se fizessem e estivessem prestes para quando vissem seu recado; por
quanto de semelhantes uniıes n„o se podia seguir, salvo desserviÁo de
Deus e d'El-Rei e grande mal e damno de seus reinos e naturaes, e assi
foram avisados do Infante os messageiros que levaram as cartas, que
todas em todo o reino a um dia certo e logo assignado por elle, fossem
dadas. E tanto que assi escreveu, se partiu para Coimbra e suas terras.
A carta para Lisboa foi dada na Camara da Feitura a XV dias, sendo j· o
Infante partido, e depois de vista foi posta nas portas principaes da
SÈ, onde esteve alguns dias sem haver logar de se poder acabar de lÍr, e
de noite com candeias a vinham trelladar; e sobre as cousas d'ella as
praticas e alvoroÁos eram tamanhos, que em publico e em secreto n„o se
fallava em outra cousa.
Os da cidade depois de haverem seu conselho acordaram responder ao
Infante, em que remercearam sua notificaÁ„o, e se offereceram para
todalas cousas que fossem de sua honra e serviÁo, e elle dispozesse e
mandasse. As outras cidades e villas do reino responderam todas conforme
a isto em sustancia; sÛmente a cidade do Porto emadeo mais, que queria
que o Infante D. Pedro sÛ, sem outra ajuda nem companhia fosse Regedor:
e com estas cartas houve no reino grande alvoroÁo, com alguma indinaÁ„o
contra a Rainha, por n'ellas se tocar entrada de gentes extrangeiras
n'este reino em seu favor e ajuda.
Mas se o Infante isto escreveu por ter d'isso a esse tempo alguma
certid„o, ou o fez de industria por alvoroÁar as gentes contra a Rainha
e contra os que seguiam sua tenÁ„o, isto fique a Deus e em sua
conciencia, sÛmente È de crÍr que o Infante o n„o faria sem causa;
especialmente porque a esse tempo os Infantes d'Arag„o irm„os das
Rainhas de Portugal e de Castela prosperavam n'aquelle reino; e era de
presumir que nos aggravos de que se ella queixava, se socorreria a
elles, que a deviam e podiam bem ajudar, e elles lh'o n„o denegariam por
seu sangue e grandeza.