CAPITULO XXIX

_Como o Infante D. Pedro avisou e percebeu o reino sobre os alvoroÁos

que se ordenavam_

E Tanto que o Infante D. Pedro foi em Camarate, que era no comeÁo de

Setembro do anno de mil e quatrocentos e XXXIX, logo escreveu a todolos

logares do reino notificando-lhe os movimentos que se esperavam, de que

era certificado, e as causas de quem procediam, encommendando-lhe que

logo se fizessem e estivessem prestes para quando vissem seu recado; por

quanto de semelhantes uniıes n„o se podia seguir, salvo desserviÁo de

Deus e d'El-Rei e grande mal e damno de seus reinos e naturaes, e assi

foram avisados do Infante os messageiros que levaram as cartas, que

todas em todo o reino a um dia certo e logo assignado por elle, fossem

dadas. E tanto que assi escreveu, se partiu para Coimbra e suas terras.

A carta para Lisboa foi dada na Camara da Feitura a XV dias, sendo j· o

Infante partido, e depois de vista foi posta nas portas principaes da

SÈ, onde esteve alguns dias sem haver logar de se poder acabar de lÍr, e

de noite com candeias a vinham trelladar; e sobre as cousas d'ella as

praticas e alvoroÁos eram tamanhos, que em publico e em secreto n„o se

fallava em outra cousa.

Os da cidade depois de haverem seu conselho acordaram responder ao

Infante, em que remercearam sua notificaÁ„o, e se offereceram para

todalas cousas que fossem de sua honra e serviÁo, e elle dispozesse e

mandasse. As outras cidades e villas do reino responderam todas conforme

a isto em sustancia; sÛmente a cidade do Porto emadeo mais, que queria

que o Infante D. Pedro sÛ, sem outra ajuda nem companhia fosse Regedor:

e com estas cartas houve no reino grande alvoroÁo, com alguma indinaÁ„o

contra a Rainha, por n'ellas se tocar entrada de gentes extrangeiras

n'este reino em seu favor e ajuda.

Mas se o Infante isto escreveu por ter d'isso a esse tempo alguma

certid„o, ou o fez de industria por alvoroÁar as gentes contra a Rainha

e contra os que seguiam sua tenÁ„o, isto fique a Deus e em sua

conciencia, sÛmente È de crÍr que o Infante o n„o faria sem causa;

especialmente porque a esse tempo os Infantes d'Arag„o irm„os das

Rainhas de Portugal e de Castela prosperavam n'aquelle reino; e era de

presumir que nos aggravos de que se ella queixava, se socorreria a

elles, que a deviam e podiam bem ajudar, e elles lh'o n„o denegariam por

seu sangue e grandeza.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 52 / 103 题