_Ida do conde d'Arrayollos a Lisboa sobre assessego d'ella, e como n„o
aproveitou_
Era a este tempo na cidade Pedro Anes Lobato, homem de grande
auctoridade e bom cavalleiro, ao qual, como quer que de grande condiÁ„o
de sangue n„o fosse, El-Rei D. Jo„o por conhecer d'elle ser bom e
discreto, e em armas homem esforÁado, deu a governanÁa da justiÁa da
casa do civel, e a tinha; e por vÍr a uni„o e desacordo na cidade
tamanho, a que com sua vara e forÁas n„o podia resistir, avisou de todo
a Rainha, e por muitas causas lhe enviou pedir trigoso remedio. A qual
com esses que com ella eram presentes, teve sobr'isso conselho, onde foi
acordado que o conde d'Arrayollos, que estava em uma quinta junto com
Loures, por ter cargo da justiÁa do reino e ser pessoa de valor e
autoridade, fosse poer assessego nas cousas da cidade, para o qual foi
logo chamado, e fallou com a Rainha o que n'aquelle caso cumpria: e
d'ella por ser de boa tenÁ„o e s„ conciencia, e tambem de si mesmo por
ser virtuoso e justo, foi avisado segundo o feito estava, de o tratar e
assessegar mui mansa e temperadamente.
Partiu-se logo o conde para Lisboa com a triganÁa que se requeria, onde
chegou · tarde, e para haver melhor informaÁ„o das cousas, e ter
conselho sobre o remedio d'ellas, quizera repousar algum pequeno espaÁo
de tempo sem n'ellas intender; mas ao outro dia por sua ida foi tanto o
alvoroÁo e desacordo na cidade, e com tanta soltura de palavras
deshonestas e mostranÁas de desobediencia, que o conde n„o sabia que
caminho de remedio tomasse; porque os da parte da Rainha favoreceram-se
com sua ida, affirmando em seu favor que era para fazer justiÁa dos
alevantadores da uni„o sobre o caso dos varejos, e que contrariavam o
Regimento da rainha: e os da parte do Infante D. Pedro e Infante D. Jo„o
com muitos da cidade, que eram d'outro acordo, tomaram receio de ser por
ventura verdade; especialmente porque um Luiz GonÁalves, official na
relaÁ„o, criado de Pedro Anes Lobato, e que ·s cousas da Rainha havia
grande affeiÁ„o, affirmou de praÁa que por a ida do conde · cidade cedo
veriam por justiÁa as gigas da ribeira cheias de pÈs e m„os de muitos,
como de pescado, o que logo se soltou publicamente: e por ser homem
d'algum credito e ter officio na casa da justiÁa, fizeram para isso suas
palavras alguma impress„o e crenÁa; e pareceu que as n„o diria sem ter
alguma cousa d'isso sentido. Pelo qual alguns principaes cidad„os com
verdadeiro temor e occupaÁıes fingidas de proverem suas fazendas, se
ausentaram da cidade, temendo que em tanto alvoroÁo n„o houvesse justo
juizo, e que por ventura poderiam receber pena sem culpa.
Mas os do povo posposto todo o medo assi continuavam, e acrecentavam a
cada vez mais sua uni„o, e com tanto rumor d'algum fim perigoso, que o
conde desesperado de com suas forÁas, nem da justiÁa poder assessegar o
feito como desejava, havido primeiro sobre isso conselho, tentou de o
remedear com prÈgaÁıes, palavras brandas, e de conciencia, que por algum
bom e entendido religioso em ajuntamentos publicos se dissessem.
E havido este por melhor e derradeiro remedio, o conde fez chamar um
Frei Vasco da Allagoa, da Ordem de S. Domingos, ao qual por ser padre
d'auctoridade e de letras, e ter boa audacia para dizer, encommendou que
sobre o caso das uniıes e desaccordos da cidade, o domingo seguinte
prÈgasse no seu mosteiro, avisando-o primeiro que todo seu fundamento
fosse commover o povo a paz e assessego.
E sendo n'aquelle dia por aviamento e rogo do conde juntos no mosteiro
quasi todolos da cidade, Frei Vasco comeÁou seu serm„o, e por ser
servidor da Rainha e ·s cousas de seu serviÁo mais inclinado, esquecido
do aviso que lhe fÙra dado d'amansar o povo com esperanÁa de bem, tocou
o caso e revoltas da cidade com tanta reprens„o dos cidad„os e povo
d'ella, que com altas exclamaÁıes os chamava ingratos e desleaes,
trazendo-lhes ·s memorias entre outros exemplos, a pena que os cidad„os
de Bruges mereceram e houveram pela desobediencia e traiÁ„o que
cometteram contra o duque Filippe.
E estando j· todo o povo mui descontente e escandalisado das palavras de
Frei Vasco, um barbeiro em meia voz, e com rostro iroso disse contra os
que junto com elle estavam:
´E como egual È o nosso caso dos framengos, que quizeram matar seu
principe e Senhor?--NÛs n„o somos tredores mas mui leaes, e n„o havemos
de matar nosso Rei e Senhor; mas porque o amamos havemos todos de morrer
por elle, quando lhe cumprir: mas certo este frade alguma cousa tem
sentida: porque nos pıe esta raiva.ª
E estas palavras com algum rumor comeÁaram ir de puridade em puridade
pelas orelhas de muitos do povo, os quaes assi como as ouviam assi
volviam logo os olhos de sanha contra o frade, e com mostranÁas de tanta
indinaÁ„o, que elle sentindo seu alvoroÁo, por se n„o vÍr em perigo,
desamparou sem conclus„o o pulpito, e se acolheu ao mosteiro.
O conde d'Arrayollos foi mui descontente do prÈgador, por errar em todo
a sustancia de seu proposito, e do que era para o tempo necessario. E
vendo que para amansar o povo j· lhe n„o ficava remedio para o fazer, e
que sua estada d'hi em deante lhe faria abatimento, se partiu da cidade,
e foi · Rainha dar-lhe de tudo conta.
E o povo depois de comer n„o esquecido do escandalo do serm„o foram ao
mosteiro e disseram ao priol que logo lanÁasse Frei Vasco fÛra d'elle,
se n„o que o derribariam e queimariam. E o priol aconselhado da
necessidade do tempo assi o fez; e o prÈgador se salvou secretamente.