CAPITULO XXV

_Ida do conde d'Arrayollos a Lisboa sobre assessego d'ella, e como n„o

aproveitou_

Era a este tempo na cidade Pedro Anes Lobato, homem de grande

auctoridade e bom cavalleiro, ao qual, como quer que de grande condiÁ„o

de sangue n„o fosse, El-Rei D. Jo„o por conhecer d'elle ser bom e

discreto, e em armas homem esforÁado, deu a governanÁa da justiÁa da

casa do civel, e a tinha; e por vÍr a uni„o e desacordo na cidade

tamanho, a que com sua vara e forÁas n„o podia resistir, avisou de todo

a Rainha, e por muitas causas lhe enviou pedir trigoso remedio. A qual

com esses que com ella eram presentes, teve sobr'isso conselho, onde foi

acordado que o conde d'Arrayollos, que estava em uma quinta junto com

Loures, por ter cargo da justiÁa do reino e ser pessoa de valor e

autoridade, fosse poer assessego nas cousas da cidade, para o qual foi

logo chamado, e fallou com a Rainha o que n'aquelle caso cumpria: e

d'ella por ser de boa tenÁ„o e s„ conciencia, e tambem de si mesmo por

ser virtuoso e justo, foi avisado segundo o feito estava, de o tratar e

assessegar mui mansa e temperadamente.

Partiu-se logo o conde para Lisboa com a triganÁa que se requeria, onde

chegou · tarde, e para haver melhor informaÁ„o das cousas, e ter

conselho sobre o remedio d'ellas, quizera repousar algum pequeno espaÁo

de tempo sem n'ellas intender; mas ao outro dia por sua ida foi tanto o

alvoroÁo e desacordo na cidade, e com tanta soltura de palavras

deshonestas e mostranÁas de desobediencia, que o conde n„o sabia que

caminho de remedio tomasse; porque os da parte da Rainha favoreceram-se

com sua ida, affirmando em seu favor que era para fazer justiÁa dos

alevantadores da uni„o sobre o caso dos varejos, e que contrariavam o

Regimento da rainha: e os da parte do Infante D. Pedro e Infante D. Jo„o

com muitos da cidade, que eram d'outro acordo, tomaram receio de ser por

ventura verdade; especialmente porque um Luiz GonÁalves, official na

relaÁ„o, criado de Pedro Anes Lobato, e que ·s cousas da Rainha havia

grande affeiÁ„o, affirmou de praÁa que por a ida do conde · cidade cedo

veriam por justiÁa as gigas da ribeira cheias de pÈs e m„os de muitos,

como de pescado, o que logo se soltou publicamente: e por ser homem

d'algum credito e ter officio na casa da justiÁa, fizeram para isso suas

palavras alguma impress„o e crenÁa; e pareceu que as n„o diria sem ter

alguma cousa d'isso sentido. Pelo qual alguns principaes cidad„os com

verdadeiro temor e occupaÁıes fingidas de proverem suas fazendas, se

ausentaram da cidade, temendo que em tanto alvoroÁo n„o houvesse justo

juizo, e que por ventura poderiam receber pena sem culpa.

Mas os do povo posposto todo o medo assi continuavam, e acrecentavam a

cada vez mais sua uni„o, e com tanto rumor d'algum fim perigoso, que o

conde desesperado de com suas forÁas, nem da justiÁa poder assessegar o

feito como desejava, havido primeiro sobre isso conselho, tentou de o

remedear com prÈgaÁıes, palavras brandas, e de conciencia, que por algum

bom e entendido religioso em ajuntamentos publicos se dissessem.

E havido este por melhor e derradeiro remedio, o conde fez chamar um

Frei Vasco da Allagoa, da Ordem de S. Domingos, ao qual por ser padre

d'auctoridade e de letras, e ter boa audacia para dizer, encommendou que

sobre o caso das uniıes e desaccordos da cidade, o domingo seguinte

prÈgasse no seu mosteiro, avisando-o primeiro que todo seu fundamento

fosse commover o povo a paz e assessego.

E sendo n'aquelle dia por aviamento e rogo do conde juntos no mosteiro

quasi todolos da cidade, Frei Vasco comeÁou seu serm„o, e por ser

servidor da Rainha e ·s cousas de seu serviÁo mais inclinado, esquecido

do aviso que lhe fÙra dado d'amansar o povo com esperanÁa de bem, tocou

o caso e revoltas da cidade com tanta reprens„o dos cidad„os e povo

d'ella, que com altas exclamaÁıes os chamava ingratos e desleaes,

trazendo-lhes ·s memorias entre outros exemplos, a pena que os cidad„os

de Bruges mereceram e houveram pela desobediencia e traiÁ„o que

cometteram contra o duque Filippe.

E estando j· todo o povo mui descontente e escandalisado das palavras de

Frei Vasco, um barbeiro em meia voz, e com rostro iroso disse contra os

que junto com elle estavam:

´E como egual È o nosso caso dos framengos, que quizeram matar seu

principe e Senhor?--NÛs n„o somos tredores mas mui leaes, e n„o havemos

de matar nosso Rei e Senhor; mas porque o amamos havemos todos de morrer

por elle, quando lhe cumprir: mas certo este frade alguma cousa tem

sentida: porque nos pıe esta raiva.ª

E estas palavras com algum rumor comeÁaram ir de puridade em puridade

pelas orelhas de muitos do povo, os quaes assi como as ouviam assi

volviam logo os olhos de sanha contra o frade, e com mostranÁas de tanta

indinaÁ„o, que elle sentindo seu alvoroÁo, por se n„o vÍr em perigo,

desamparou sem conclus„o o pulpito, e se acolheu ao mosteiro.

O conde d'Arrayollos foi mui descontente do prÈgador, por errar em todo

a sustancia de seu proposito, e do que era para o tempo necessario. E

vendo que para amansar o povo j· lhe n„o ficava remedio para o fazer, e

que sua estada d'hi em deante lhe faria abatimento, se partiu da cidade,

e foi · Rainha dar-lhe de tudo conta.

E o povo depois de comer n„o esquecido do escandalo do serm„o foram ao

mosteiro e disseram ao priol que logo lanÁasse Frei Vasco fÛra d'elle,

se n„o que o derribariam e queimariam. E o priol aconselhado da

necessidade do tempo assi o fez; e o prÈgador se salvou secretamente.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 48 / 103 题