CAPITULO XXII

_Como o Infante D. Pedro e o Infante D. Jo„o ambos se viram e fallaram

sobre o Regimento_

Pelo qual o Infante D. Pedro enviou pedir ao Infante D. Jo„o, que era em

Alcohete, que se vissem, como viram logo ambos, no Oratorio de Santa

Maria do Paraiso, em que se depois fundou e mudou o mosteiro de Santos

da Ordem de Santiago.

E porÈm ante da ida do Infante D. Jo„o, elle primeiro foi avisado do

capit„o Alvaro Vaz, como de si mesmo, da tenÁ„o porque o Infante D.

Pedro se queria com elle vÍr.

Alli os Infantes se apart·ram sÛs, onde o Infante D. Pedro com largo

recontamento propoz a tenÁ„o em que era de leixar a parte do Regimento

que tinha: como era aconselhado pelo contrairo, apontando as causas e

razıes em que uns e outros se fundavam: e que porÈm lhe pedia que n'isso

o aconselhasse; por que na confianÁa que tinha de seu saber e certid„o

de amor, que entre elles havia, sua vontade era seguir o que a elle

melhor parecesse.

O Infante D. Jo„o lhe respondeu:

´Senhor irm„o, ante d'isto eu tinha j· n'este caso ass·s consirado; e,

porque mui em breve vos responda, sabei que se chamais erro acceitardes

o Regimento, como sois aconselhado, n„o sei cousa que possaes acertar,

c· se vÛs nascereis primeiro e vos n„o fizera Deus t„o bom e t„o

prudente como soes, e assi ao Infante D. Anrique nosso irm„o, crÍde que

eu requerÍra o Regimento para mim; e se m'o n„o quÏzerem dar, eu o

tom·ra ou morrÍra sobre isso; porque com quanto a Rainha È mui virtuosa

e mui discreta e amiga de Deus, nunca vi mÛr vergonha e abatimento

nosso, que sermos regidos por ella; pois È mulher, e mais estrangeiraª.

O Infante D. Pedro lhe respondeu:

´Senhor irm„o, bem vejo o que dizeis ter fundamento de muita raz„o, se

por todos se quizesse assi consirar com juizos livres de paix„o; mas

como n'este caso haja propositos e tenÁıes desvairadas, tenho receio

nascer d'ellas alguma divis„o, que a qualquer reino grande faria perder,

quanto mais a este de Portugal t„o pequeno, que sem sua destruiÁ„o n„o

padece algum desacordo; e por elle ser a herdade em que nascemos e que

nos criou, e porque nosso padre tanto sangue espargeu, e tanto trabalhou

pela conservar e manter, eu sentiria em egual de morte para mim ser eu

causa de sua perdiÁ„o: verdade È que, se com prazer de todos e sem

alguma divis„o se podesse fazer, logo por serviÁo de Deus e d'El-Rei meu

Senhor, e bem de seus reinos e minha honra, folgaria aceitar este

cargo.ª

O Infante D. Jo„o lhe disse:

´A divis„o e desacordo do reino que temeis, n„o querendo vÛs usar do

Regimento, n„o se escusa se a Rainha com estes que agora esforÁam sua

tenÁ„o o reger; porque elles n'esta contrariedade que seguem n„o h„o

respeito a algum amor que tenham · Rainha, nem menos ao reino em que

vivem, mas sÛmente por segurarem e escaparem os castigos de seus erros

passados, e d'outros, se os fizerem; e para com achaque de necessidades

fingidas tomarem causas de pedirem e encurtarem o patrimonio real e

acrecentarem o seu; e por esta conta, que È verdadeira, a justiÁa e a

fazenda do reino, em que consiste toda sua sustancia, cairiam com elle

de necessidade na perdiÁ„o que temeis: e alÈm de o cuidado e trabalho de

reger ser incomportavel ·s forÁas da Rainha, hei ainda mais por

principal inconveniente o Regimento d'este reino ficar sÛ · sua

disposiÁ„o esta vinda dos Infantes de Arag„o, seus irm„os, a Castella;

porque, como s„o homens amigos de novidades, e tem no mesmo reino

grandes competencias, certo È que se h„o de favorecer com este, e poer

muitas vezes as gentes d'elle em perigo; e as rendas em despesa por sua

ajuda e favor: assi que por estas razıes e inconvenientes, que em vÛs

regendo todos cessam, meu conselho È que vÛs todavia rejaes: e quando o

vÛs n„o quizerdes ou n„o poderdes fazer, que o faÁa o Infante D. Anrique

nosso irm„o; e des-hi eu, se o caso a isso chegar, e da divis„o que

tocaes, n„o tenhaes receio; porque o Infante D. Anrique e o conde de

Barcellos, e seus filhos, os condes d'Ourem e d'Arrayllos, que s„o as

pessoas principaes do reino, seguiriam em tudo nossa tenÁ„o, quanto mais

esta, em que ha tanta necessidade, justiÁa e honestidade: e se d'alguma

parte devem de esperar honra e interesse, em vÛs a ter„o mais certa: e

por tanto eu me affirmo que todavia deveis reger; e que logo o

declareis; e nas cÙrtes que se ora h„o de fazer ·cerca d'isso, eu darei

e susterei a voz por vÛs: e n„o sinto alguem t„o ousado, que m'a ouse

contrariar.ª

O Infante D. Pedro finalmente disse:

´Que seu parecer era, que por ent„o n„o devia ·cerca d'isto fazer

altercaÁ„o nem mudanÁa alguma; porquanto atÈ ·s cÙrtes havia ainda bom

espaÁo de tempo, no qual poderia ser que a Rainha mesma cansaria n'este

cargo, e n„o se sentiria desposta para elle, e seria contente d'algum

tal meio, porque cessassem odios e escandalos entre elles, e o reino

seria regido em outro bom assessego, como desejava.ª

E n'este acordo ficaram; e o Infante D. Jo„o se tornou a Alcochete; e o

Infante D. Pedro se foi a Camarate, junto com Sacavem.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 45 / 103 题