CAPITULO XVIII

_Do despacho que se deu aos embaixadores de Castella_

Os embaixadores de Castella, que eram na cÙrte, como se atr·s disse,

pelos desvairos que sobre o Regimento houve em Torres Novas n„o foram

ouvidos, nem despachados atÈ Lisboa, onde juntos · Rainha e Infantes com

os deputados do conselho deram sua embaixada, a qual, por ser desgosto

d'este reino, se crÍ que tardou tanto em se ouvir; porque j· a sustancia

d'ella seria revelada.

Requereram em nome d'El-Rei D. Jo„o o segundo, que ent„o reinava em

Castella, que as egrejas que pela Cisma ent„o foram tiradas aos bispados

de Tuy e Badalhouce, e eram regidas por administradores, se tornassem a

seus proprios prelados. Outrosi que os mestrados d'Aviz, e Santiago

d'estes reinos tornassem um · Ordem e obediencia de Calatrava, e o outro

· de Santiago de Castella, cujos membros foram, e que os titulos

ficassem, como eram, e as enliÁıes se fizessem c·; mas as confirmaÁıes

d'elles se houvessem pelos superiores de Castella. Requereram outrosi

que alguns bispados d'estes reinos reconhecessem superioridade ao

arcebispo de Sevilha, como Metropolitana sua, que sempre fÙra. E assim

apontaram sobre tomadias de navios, que se fizeram, requerendo

restituiÁ„o, apontando e allegando sobre cada uma d'estas cousas muitas

razıes e fundamentos de direito: porque entre elles era um grande doutor

de direitos.

Ouvida esta embaixada, em que tambem os embaixadores tocaram aggravos de

sua tardanÁa, houve sobre o despacho d'elles grandes divisıes, segundo

os votos de cada um; porque a uns parecia bem responder-lhe manso,

poendo a defesa d'esto em razıes de direito; e a outros parecia que no

esforÁo e confianÁa d'armas e valentes coraÁıes; e finalmente foi havido

ent„o por melhor acordo envia-los, como enviaram, sem alguma certa

resposta, escurando-se com os movimentos, torvaÁıes e pouco assessego

que pela morte d'El-Rei ainda no reino havia; e que El-Rei, depois

d'haver em todo seu conselho, enviaria logo a El-Rei de Castella a

resposta com sua embaixada.

E o que d'estes requerimentos se pÙde logo saber, foi que n„o nasceram

da propria vontade d'El-Rei, em cujo nome vinham; mas dos Infantes

d'Arag„o, seus cunhados, que ent„o picavam com elle, e governavam o

reino, com fundamento de meter este reino em necessidade, e elles por

seus meios e com sua privanÁa o remedearem, e esperando que por isso

carregariam maior obrigaÁ„o a El-Rei de Portugal e a seus reinos e

vassalos, para as necessidades suas, em que esperavam de se vÍr, como

viram: por quanto fizeram ent„o lanÁar fÛra d'El-Rei de Castella e de

sua cÙrte o condestabre D. Alvaro de Luna, grande poderoso, e muito seu

imigo.

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) · 第 40 / 103 题