_Do despacho que se deu aos embaixadores de Castella_
Os embaixadores de Castella, que eram na cÙrte, como se atr·s disse,
pelos desvairos que sobre o Regimento houve em Torres Novas n„o foram
ouvidos, nem despachados atÈ Lisboa, onde juntos · Rainha e Infantes com
os deputados do conselho deram sua embaixada, a qual, por ser desgosto
d'este reino, se crÍ que tardou tanto em se ouvir; porque j· a sustancia
d'ella seria revelada.
Requereram em nome d'El-Rei D. Jo„o o segundo, que ent„o reinava em
Castella, que as egrejas que pela Cisma ent„o foram tiradas aos bispados
de Tuy e Badalhouce, e eram regidas por administradores, se tornassem a
seus proprios prelados. Outrosi que os mestrados d'Aviz, e Santiago
d'estes reinos tornassem um · Ordem e obediencia de Calatrava, e o outro
· de Santiago de Castella, cujos membros foram, e que os titulos
ficassem, como eram, e as enliÁıes se fizessem c·; mas as confirmaÁıes
d'elles se houvessem pelos superiores de Castella. Requereram outrosi
que alguns bispados d'estes reinos reconhecessem superioridade ao
arcebispo de Sevilha, como Metropolitana sua, que sempre fÙra. E assim
apontaram sobre tomadias de navios, que se fizeram, requerendo
restituiÁ„o, apontando e allegando sobre cada uma d'estas cousas muitas
razıes e fundamentos de direito: porque entre elles era um grande doutor
de direitos.
Ouvida esta embaixada, em que tambem os embaixadores tocaram aggravos de
sua tardanÁa, houve sobre o despacho d'elles grandes divisıes, segundo
os votos de cada um; porque a uns parecia bem responder-lhe manso,
poendo a defesa d'esto em razıes de direito; e a outros parecia que no
esforÁo e confianÁa d'armas e valentes coraÁıes; e finalmente foi havido
ent„o por melhor acordo envia-los, como enviaram, sem alguma certa
resposta, escurando-se com os movimentos, torvaÁıes e pouco assessego
que pela morte d'El-Rei ainda no reino havia; e que El-Rei, depois
d'haver em todo seu conselho, enviaria logo a El-Rei de Castella a
resposta com sua embaixada.
E o que d'estes requerimentos se pÙde logo saber, foi que n„o nasceram
da propria vontade d'El-Rei, em cujo nome vinham; mas dos Infantes
d'Arag„o, seus cunhados, que ent„o picavam com elle, e governavam o
reino, com fundamento de meter este reino em necessidade, e elles por
seus meios e com sua privanÁa o remedearem, e esperando que por isso
carregariam maior obrigaÁ„o a El-Rei de Portugal e a seus reinos e
vassalos, para as necessidades suas, em que esperavam de se vÍr, como
viram: por quanto fizeram ent„o lanÁar fÛra d'El-Rei de Castella e de
sua cÙrte o condestabre D. Alvaro de Luna, grande poderoso, e muito seu
imigo.