_Como a Rainha por meio do conde de Barcellos enviou pedir ao Infante D.
Pedro o alvar· que lhe tinha dado sobre o casamento d'El-Rei_
O conde de Barcellos, como quer que assignou este Regimento, n„o foi
porÈm d'elle satisfeito, por lhe n„o ficar n'elle alguma parte; e como
homem que para acrecentar por qualquer maneira seu nome e proveito, teve
sempre grande cuidado, desejando que todavia o casamento d'El-Rei com
sua neta se fizesse, vendo que o alvar· que a Rainha tinha dado ao
Infante D. Pedro lhe era para isso grande embargo, ordenou por si e por
outros de sua tenÁ„o que a Rainha com razıes obrigatorias com que a
moveram, mandasse pedir o alvar· ao Infante D. Pedro. A qual como quer
que, como virtuosa o refusasse, por n„o quebrar sua verdade, e mais a
determinaÁ„o d'El Rei D. Duarte seu marido; porÈm como importunada e
induzida lh'o fizeram consentir.
E, porque algum dos outros que eram n'este acordo, n„o ousou de ir em
nome da Rainha ao Infante pedir-lhe o alvar·, o conde de Barcellos
acceitou o cargo, e foi ao Infante, e lhe disse:
´Senhor, a Senhora Rainha vos manda dizer que sabeis, que vos tem dado
um alvar· sobre o casamento d'El-Rei nosso Senhor, seu filho com vossa
filha; e por quanto este caso È de tamanho peso e importancia, que o n„o
devera passar sem accordo e conselho dos principaes do reino, a que
tambem toca; e agora por estes movimentos n„o È, nem pÛde n'isso
entender, vos roga que lhe mandeis o alvar·, e que sobre isso ter· a
maneira que vir que cumpre, fallando primeiro com nÛs outros, de quem
sabeis que n„o ha de sahir, salvo cousa que seja vossa honra e
acrecentamento.ª
O Infante lastimado da embaixada e avisado de sua destruiÁ„o, d'onde
nacia, a que fim vinha, disse:
´O alvar· que dizeis, È em meu poder; e eu, se quizesse, justa e
honestamente podia denegar · Senhora Rainha a entrega d'elle; porque n„o
sei como o que por El-Rei meu Senhor e irm„o me foi outorgado, e por
ella depois a mim lembrado, requerido e outorgado, se me pÛde revogar
sem causa; bem creio que em suas virtudes haveria firmeza de cumprir o
que promette, e mais em cousa t„o justa e t„o honesta, se a n„o movessem
d'ella conselheiros pouco fieis, no que lhe fazem pouco serviÁo; porÈm,
porque n„o pareÁa que eu por forÁa quero, nem tomo, o que com raz„o me
devia ser requerido e dado, dae a sua Senhoria seu alvar·, e ir· roto, e
n„o s„o a seu poder, em testemunho da quebra de sua verdade, que me
quebrou.ª
E logo o tirou de um cofre, e o rompeu, e roto o entregou ao conde.