El-rei D. Manuel _encomendou com grande efficacia_ a Ruy de Pina a
chronica de D. Affonso V. E elle escreveu baseado em informaÁıes e nos
documentos que poude alcanÁar, com uma sinceridade notavel em chronista
de palacio occupando cargos de confianÁa regia.
Parcial todavia, pouco inclinado a cousas de Hespanha e da nobreza,
conta-nos a historia d'esse periodo de fÛrma que parece preparar o
espirito do leitor para as grandes luctas do reinado seguinte.
A historia da Èpocha de D. Affonso V importa ao estudo da nacionalidade
portugueza em qualquer ponto de vista. Affirma-se a auctoridade real,
apezar das prodigalidades do rei, a independencia da naÁ„o em combates
rijos, a expans„o ultramarina define-se com o arrojo dos navegantes e
dos homens de guerra, a cultura dos espiritos sÛbe, os costumes
policiam-se, attende-se a melhoramentos materiaes nas povoaÁıes.
A propria figura do rei desperta vivamente a attenÁ„o; os seus primeiros
annos passaram num meio agitado, difficil, triste talvez, pelas luctas
palacianas, mas util para a formaÁ„o de espirito culto pela frequencia,
provavel, de homens superiores como os infantes D. Pedro e D. Henrique.
Pelo que nos conta Ruy de Pina foi lastima que Affonso V fosse rei,
porque era bom de mais, com sua parte de phantasia mansa.
Era um sereno, de _piadosa condiÁ„o_, _familiar_, grande amador de
musica e de livros, e tambem de emprezas arriscadas.
Quando a Excellente Senhora professou, grassava em algumas cidades do
paiz o contagio com grande intensidade, elle desconsolado quiz deixar a
governanÁa, queria ser leigo no seu mosteiro do Varatojo.
Como era generoso e pouco calculista, sem sentir, pouco a pouco, foi
accumulando de mercÍs certos fidalgos insaciaveis, o que originou depois
a grande lucta dos primeiros annos de Jo„o II.
N'esses quadros agitados destacam-se figuras principaes como o infante
D. Pedro, o das sete partidas, e D. Henrique o navegador, sempre com a
sua idÈa fixa de descobrir terras, os condes de Viana, e de Avranches,
grandes senhores, e aquelle singular bispo D. Garcia de Menezes t„o
brilhante orador e guerreiro que tristemente encerrou a sua vida.
Outros vultos de raro perfil movimentam ainda a Èpocha, D. Pedro o rei
intruso de Arag„o, filho do infante D. Pedro, erudito, collecionador de
livros e medalhas, o duque de Borgonha, a Excellente Senhora. No meio
das luctas e intrigas estrondea o casamento de D. Leonor. Depois das
gloriosas jornadas de Alcacer, Tanger, AnafÈ e Arzilla, a ida para
FranÁa.
O chronista n„o esquece os movimentos populares, as luctas na cidade de
Lisboa, as uniıes e alvoroÁos; nem a lucta contra o Turco que em 1480
quasi se assenhoreou do Mediterraneo.
Hoje conhecemos outros documentos, os antecedentes da Alfarrobeira est„o
mais esclarecidos, papeis de aleivosia como o testemunho do escudeiro
Jo„o Rodrigues correm impressos.
Ha documentos tambem para o modo de viver da Èpocha que em geral n„o
mereceram attenÁ„o aos chronistas, os que dizem respeito a costumes, a
questıes economicas, ao direito. A publicaÁ„o das OrdenaÁıes, comeÁadas
em tempo de Jo„o I.^o È facto capital. Em chronicas francezas
encontram-se noticias de valor, ainda n„o approveitadas. Finalmente ser·
preciso estudar noutra parte, e hoje ha muitos elementos publicados, o
admiravel esforÁo do infante de Sagres, e da sua gente, n'este periodo,
nos gloriosos descobrimentos dos novos caminhos maritimos, dos
archipelagos do Atlantico revelados successivamente,
G. Pereira.