Produced by Júlio Reis, Fernanda Brojo, Manuela Alves,
Rory OConor and the Online Distributed Proofreading Team
at https://www.pgdp.net
JOSÉ DE ALENCAR
UBIRAJARA
[Illustration]
FRANCISCO ALVES & C.a
RIO DE JANEIRO
166, Rua do Ouvidor, 166
S. PAULO
65, Rua de S. Bento, 65
BELO HORIZONTE
1055, Rua da Baía, 1055
AILLAUD, ALVES & C.a
PARIS
96, Boulevard Montparnasse
(Livraria Aillaud)
AILLAUD, ALVES, BASTOS & C.a
LISBOA
73, Rua Garrett, 75
(Livraria Bertrand)
1911
UBIRAJARA
Composto e impresso na Tipografia JOSÉ BASTOS Rua da Alegria,
100--Lisboa
J. DE ALENCAR
UBIRAJARA
LENDA TUPI
[Illustration]
FRANCISCO ALVES & C.a
RIO DE JANEIRO
166, Rua do Ouvidor, 166
S. PAULO
65, Rua de S. Bento, 65
BELO HORIZONTE
1055, Rua da Baía, 1055
AILLAUD, ALVES & C.a
PARIS
96, Boulevard Montparnasse
(Livraria Aillaud)
AILLAUD, ALVES, BASTOS & C.a
LISBOA
73, Rua Garrett, 75
(Livraria Bertrand)
1911
[Illustration]
UBIRAJARA
I
O CAÇADOR
Pela marjem do grande rio caminha Jaguarê, o joven caçador.
O arco pende-lhe ao hombro, esquecido e inutil. As flechas dormem no
coldre da uiraçaba.
Os veados saltam das moitas de ubaia e vêm retouçar na grama, zombando
do caçador.
Jaguarê não vê o timido campeiro; seus olhos buscam um inimigo capaz de
rezistir-lhe ao braço robusto.
O rujido do jaguar abala a floresta; mas o caçador tambem despreza o
jaguar, que já cançou de vencer.
Elle chama-se Jaguarê, o mais feroz jaguar da floresta; os outros fojem
espavoridos quando de lonje o presentem.
Não é esse o inimigo que procura, porém outro mais terrivel, para
vencel-o em combate de morte e ganhar nome de guerra.
Jaguarê chegou á idade em que o mancebo troca a fama do caçador pela
gloria do guerreiro.
Para ser aclamado guerreiro por sua nação é precizo que o joven caçador
conquiste esse titulo por uma grande façanha.
Por isso deixou a taba dos seus e a prezença de Jandira, a virjem
formoza que lhe guarda o seio de espoza.
Mas o sol tres vezes guiou o passo rapido do caçador através das
campinas, e tres vezes como agora deitou-se além nas montanhas da
Aratuba, sem mostrar-lhe um inimigo digno de seu valor.
A sombra vai decendo da serra pelo vale e a tristeza cae da fronte sobre
a face de Jaguarê.
O joven caçador empunha a lança de duas pontas, feita da roxa craúba,
mais rija que o ferro.
Nenhum guerreiro brandiu jámais essa arma terrivel, que sua mão primeiro
fabricou.
Lá estaca o joven caçador no meio da campina. Volvendo ao céu o olhar
torvo e iracundo, solta ainda uma vez seu grito de guerra.
O bramido rolou pela amplidão da mata e foi morrer lonje nas cavernas da
montanha.
Respondeu o ronco da sucurí na madre do rio e o urro do tigre escondido
na furna; mas outro grito de guerra não acudiu ao dezafio do caçador.
Jaguarê arremessou a lança, que vibrou nos ares e foi cravar-se além no
grosso tronco da emburana.
A copa frondoza ramalhou, como as palmas do coqueiro ao sopro do vento,
e o tronco gemeu até á raiz.
O caçador repouza á sombra de sua lança.
* * * * *
Salta uma corça da mata e veloz atravessa a campina.
Mais veloz a persegue gentil caçadora com a seta embebida no arco
flexivel.
Ergue-se Jaguarê.
Seu olhar ardente voou, sofrego de encontrar o inimigo que lhe tardava.
Avistando uma mulher, a alegria do mancebo apagou-se no rosto sombrio.
Pela faxa côr de ouro, tecida das penas do tucano, Jaguarê conheceu que
era uma filha da valente nação dos Tocantins, senhora do grande rio,
cujas marjens elle pizava.
A liga vermelha que cinjia a perna esbelta da estranjeira dizia que
nenhum guerreiro jámais possuira a virjem formoza.
A corça veiu cair aos pés de Jaguarê, atravessada pela flecha certeira
da joven caçadora que a seguia de perto.
A virjem reconheceu o cocar da nação que na ultima lua chegára aos
campos do Taari e da qual os pajés tinham dado noticia.
--Guerreiro araguaia, pois vejo pela pena vermelha de teu cocar que
pertences a essa nação valente; se pizas os campos dos Tocantins como
hospede, bem vindo sejas; mas se vens como inimigo, foje, para que tua
mãi não chore a morte de seu filho e tenha quem a proteja na velhice.
--Virjem dos Tocantins, Jaguarê já soltou seu grito de guerra. Elle piza
os campos de teus pais como senhor. Tu és sua prizioneira. Não que
vencer a corça timida seja gloria para o caçador; mas tu chamarás o
inimigo que elle espera.
--Se o veado te der a sua lijeireza, joven guerreiro, elle não te
servirá senão para ver o rasto de meu pé antes que o vento o apague.
A linda caçadora desferiu a corrida pela imensa campina. Após ella se
arremessou Jaguarê, que muitas vezes vencera o tapir.
Mas a virjem dos Tocantins corria como a nandú no dezerto, e o caçador
conheceu que seu braço nunca a poderia alcançar.
Travou do arco e o brandiu. A seta obedeceu-lhe, pregando no tronco do
assaí a faxa que flutuava ao sopro do vento.
--A filha dos Tocantins tem no pé as azas do beija-flôr; mas a seta de
Jaguarê vôa como o gavião. Não te assustes, virjem das florestas; tua
formozura venceu o impeto de meu braço e apagou a cólera no coração
feroz do caçador. Feliz o guerreiro que te possuir.
--Eu sou Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, pai da grande nação
Tocantim. Cem dos melhores guerreiros o servem em sua cabana para
merecer que elle o escolha por filho. O mais forte e valente me terá por
espoza. Vem comigo, guerreiro araguaia; excede aos outros no trabalho e
na constancia, e tu romperás a liga de Arací na proxima lua do amor.
--Não, filha do sol; Jaguarê não deixou a taba de seus pais, onde
Jandira lhe guarda o seio de espoza, para ser escravo da virjem. Elle
vem combater e ganhar um nome de guerra que encha de orgulho a sua
nação. Torna á taba dos Tocantins e dize aos cem guerreiros cativos de
teu amor, que Jaguarê, o mais destemido dos caçadores araguaias, os
dezafia ao combate.
--Arací vai, pois assim o queres. Se fores vencido, ella guardará tua
lembrança, pois nunca seus olhos viram mais belo caçador. Se fores
vencedor, será uma alegria para a virjem do sol pertencer ao mais
valente dos guerreiros.
A virjem disse e dezapareceu na selva. Os olhos de Jaguarê seguiram o
passo lijeiro da formoza caçadora, como o guachimim que rasteja a
zabelê.
Quando ella dezapareceu, o joven caçador recostou-se ao tronco da
emburana e esperou.
* * * * *
Do outro lado da campina assoma um guerreiro.
Tem na cabeça o canitar das plumas de tucano, e no punho do tacape uma
franja das mesmas penas.
É um guerreiro tocantim. De lonje avistou Jaguarê e reconheceu o penacho
vermelho dos araguaias.
As duas nações não estão em guerra; mas sem quebra da fé póde um
guerreiro cansado do longo repouzo oferecer a outro guerreiro combate
leal.
Quando o tocantim armou o arco, Jaguarê já tinha brandido o seu e
disparado no ar uma seta, mensajeira do dezafio.
Respondeu o guerreiro disparando tambem uma flecha no ar, para dizer que
aceitava o combate.
Então os dois campeões caminharam um para o outro com o passo grave e
pararam frente a frente.
--Eu sou Jaguarê, filho de Camacan, chefe da valente nação dos
araguaias, que vem de lonje em busca da terra de seus pais. Minha fama
corre as tabas e tu já deves conhecer o maior caçador das florestas. Mas
Jaguarê despreza a fama de caçador; elle quer um nome de guerra, que
diga ás nações a força de seu braço e faça tremer aos mais bravos. Se
tua nação te aclamou forte entre os fortes, prepara-te para morrer; se
não, passa teu caminho, guerreiro vil, para que o sangue do fraco não
manche o tacape virjem de Jaguarê.
--O caraiba guiou teu passo ao encontro de Pojucan, o matador de gente,
guerreiro chefe da terrivel nação tocantim, que enche de terror as
outras nações. Ha tres luas, desde que fujiram espavoridos os barbaros
Tapuias, que Pojucan não combate; e seu tacape tem fome do inimigo. Tu
não és digno dos golpes de um guerreiro chefe; mas Pojucan se compadece
de tua mocidade e consente em combater comtigo. Terás a gloria de ser
morto pelo mais valente guerreiro tocantim. Os cantores de meus feitos
lembrarão teu nome; e todos os mancebos de tua nação invejarão tua
sorte.
--Jaguarê agradece a Tupan que te fez um grande guerreiro e o chefe mais
feroz da terrivel nação tocantim, Pojucan, matador de gente. A tua morte
será a primeira façanha do caçador araguaia e lhe dará um nome de guerra
que se torne o espanto dos seus e o terror das outras nações.
Os dois campeões recuaram passo a passo até que se acharam a um tiro de
arco.
Então soltaram o grito de guerra e se arremessaram um contra outro
brandindo o tacape.
* * * * *
Os tacapes toparam no ar e os dois guerreiros rodaram como as torrentes
impetuozas no remoinho da Itaoca.
Dez vezes as clavas bateram, e dez vezes volveram para bater de novo.
Os animais que passavam na floresta fujiram espavoridos, como se a
borrasca ribombasse no céu.
Ainda uma vez encontraram-se os dois tacapes e voaram em lascas pelos
ares.
--O ubiratan é forte; mas ha outro ubiratan que lhe reziste. Como o
braço de Pojucan é que não ha outro braço. Já viste, joven caçador, o
veado nas garras da giboia? Assim vais morrer.
--Se tu fosses a cascavel que sómente sabe morder, Jaguarê te esmagaria
a cabeça com o pé e seguiria o seu caminho. Mas tu és a giboia feroz; e
Jaguarê gosta de estrangular a giboia. Não morrerás pelo pé, mas pela
mão do caçador. Lança teu bote, guerreiro tocantim.
Pojucan estendeu os braços e estreitou os rins de Jaguarê, que por sua
vez cinjiu os lombos do guerreiro.
Cada um dos campeões pôz na luta todas as suas forças, bastantes para
arrancar o tronco mais robusto da mata.
Ambos, porém, ficaram imoveis. Eram dois jatobás que naceram juntos e
entrelaçaram os galhos ligando-se no mesmo tronco.
Nada os desprende; nada os abala. O tufão passa bramindo sem ajital-os;
e elles permanecem quedos pelo volver dos tempos.
Um pajé que passou na orla da mata viu os lutadores e esconjurou-os,
pensando que eram as almas de dois guerreiros prezos no abraço da morte.
Já a sombra se desdobrava pelo vale fóra e o sol despedia-se dos cimos
dos montes, sem que os campeões se movessem.
Por fim afrouxaram os braços e cada lutador recuou para contemplar seu
adversario. Nenhum mostrava no rosto sombra de fadiga.
Conheceram que podiam lutar corpo a corpo, a noite inteira, sem que um
prostrasse o outro.
--Tu és igual na valentia e na força ao guerreiro chefe da nação
tocantim. Mas Pojucan não consente que haja na terra quem rezista a seu
braço. É precizo que tu morras, Jaguarê, para que elle seja o primeiro
dos guerreiros que o sol alumia.
--Pojucan, matador de gente, guerreiro feroz da nação tocantim, Jaguarê
deixou-te viver até este momento para saber se tu eras digno de dar-lhe
um nome de guerra. Agora que te conhece como o primeiro dos guerreiros
que existiram até este momento, elle quer que tua derrota seja a sua
primeira façanha.
Disse, e, arrancando do tronco da emburana a lança de duas pontas,
caminhou outra vez para Pojucan.
--Esta arma que tu vês é a lança de duas pontas. Jaguarê fabricou-a do
rijo galho da craúba, endurecido pelo fogo. Sua mão foi a primeira que a
arremessou e teu corpo é o primeiro cujo sangue ella vai beber. Empunha
a lança de duas pontas, guerreiro chefe, e ataca Jaguarê para receberes
a morte dos valentes.
* * * * *
Pojucan repeliu a lança que o joven caçador lhe aprezentára.
--Jámais no combate um guerreiro tocantim atacará seu adversario
dezarmado; nem Pojucan preciza da lança. Ataca tu, Jaguarê, que não tens
confiança em teu braço; o de Pojucan basta para te prostrar.
--O orgulho te cega, guerreiro chefe. A lança conhece Jaguarê que a
inventou e lhe obedece como o arpão á corda do pescador. Aperta-a bem em
tua mão robusta e Jaguarê estará duas vezes mais armado do que tu, que
não sabes manejal-a.
O chefe tocantim cruzou os braços.
--Toma a lança, Pojucan, se não queres que te chame covarde; pois tu
sabes que Jaguarê não te matará dezarmado, mas te abandonará como
indigno de combater com o filho do maior guerreiro araguaia, o grande
Camacan.
O chefe tocantim arrojou-se contra Jaguarê que lhe travou dos pulsos e
outra vez os dois campeões ficaram imoveis.
A noite veiu achal-os na mesma pozição. Tres vezes cessaram a luta, e de
novo a travaram. Mas afinal se convenceram que nenhum derrubaria o
outro.
Então Pojucan disse:
--Guerreiro araguaia, é precizo acabar o combate. A terra não chega
para dois guerreiros como nós. Finca no chão a lança e caminhemos até á
marjem do rio. Aquelle que primeiro chegar, será o senhor da lança e da
vida do outro.
Assim fizeram os dois campeões. Chegados á marjem do rio, dispararam a
corrida. Ao mesmo tempo a mão de ambos tocou a haste da lança; mas
Jaguarê, arremessado pelo impeto da desfilada, não pôde arrancar a arma
que ficou na mão de Pojucan.
* * * * *
O guerreiro chefe enrista desdenhozamente a lança e caminha para
Jaguarê. Não vai como o guerreiro que marcha ao combate, mas como o
matador que se prepara para imolar a vitima.
--Guerreiro chefe, Jaguarê não te quer matar como a serpente que ataca o
descuidado caçador. Dez vezes já, se quizesse, elle te houvera ferido
com tua propria mão.
--Abandona a gloria do guerreiro, que não é para ti, nhengaíba. Pojucan
te concederá a vida, e te levará cativo á taba dos tocantins para que tu
cantes as suas façanhas na festa dos guerreiros.
--Cativo serás tu, mas não para cantar os feitos dos guerreiros. Tu
servirás na taba dos araguaias para ajudar as velhas a varrer a oca.
Arremessou-se Pojucan avante e desfechou o golpe; mas a lança rodára e
foi o chefe tocantim quem recebeu no peito a ponta farpada.
Quando o corpo robusto de Pojucan tombava, cravado pelo dardo, Jaguarê
de um salto calcou a mão direita sobre o hombro esquerdo do vencido e
brandindo a arma sangrenta, soltou o grito do triunfo:
--Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencivel que tem
por arma a serpente. Reconhece o teu vencedor, Pojucan, e proclama o
primeiro dos guerreiros, pois te venceu a ti, o maior guerreiro que
existiu antes delle.
--Se meu valor, que serviu para aumentar a tua fama, merece de ti uma
graça, não deixes que Pojucan sofra mais um instante a vergonha de sua
derrota.
--Não, chefe tocantim. Tu me acompanharás á taba dos araguaias para
narrar meu valor. A fama de Jaguarê preciza de um prizioneiro como o
grande Pojucan na festa da vitoria.
--Tu és cruel, guerreiro da lança; mas fica certo que, se tua arma
traiçoeira me feriu o peito, o suplicio não vencerá a constancia do
varão tocantim que sabe afrontar as iras de Tupan e desprezar a vingança
dos araguaias.
II
O GUERREIRO
Retumba a festa na taba dos araguaias.
As fogueiras circulam a vasta ocara e derramam no seio da noite escura
as chamas da alegria.
Toda a tarde o trocano reboou chamando os guerreiros das outras tabas á
grande taba do chefe.
Era a festa guerreira de Jaguarê, filho de Camacan, o maior chefe dos
araguaias.
No fundo da ocara prezide o conselho dos anciãos, que decide da paz ou
da guerra, e governa a valente nação.
Os anciãos, sentados no longo giráu, contemplam taciturnos a geração de
guerreiros que elles ensinaram a combater, e têm saudades da passada
gloria.
Suspenso em frente delles está o grande arco da nação araguaia, ornado
nas pontas das penas vermelhas da arara.
É a insignia do chefe dos guerreiros, a qual Camacan, pai de Jaguarê,
conquistou na mocidade e ainda a conserva, pois ninguem ouza disputal-a.
Eil-o, o velho chefe, embaixo do arco, que sua mão tantas vezes brandiu
na guerra. Em pé, arrimado ao invencivel tacape, elle dirije a festa.
De um e outro lado da vasta ocara, está a multidão dos guerreiros,
colocados por sua ordem; primeiro os chefes das tabas; depois os varões;
por ultimo os moços guerreiros.
Vêm depois os jovens caçadores que já deixaram a oca materna e estão
impacientes de ganhar por suas proezas a honra de serem admitidos entre
os guerreiros.
Mas para isso têm de passar pelas provas, e sua juventude não lhes
consente ainda a robustez, que tamanho esforço demanda.
Todos invejam a gloria de Jaguarê que hontem era o primeiro entre elles,
e hoje ali está disputando a fama aos mais valentes guerreiros.
Por detraz da estacada apinham-se as mulheres, que segundo o rito
patrio não podem ser admitidas nas festas guerreiras.
De lonje acompanham silenciozas com os olhos, as velhas aos filhos, as
espozas aos seus guerreiros, e as virjens aos noivos.
Exultam quando ouvem celebrar as façanhas dos seus; mas não ouzam
murmurar uma palavra.
Entre ellas está Jandira, a doce virjem, cujos negros olhos não se
cansam de admirar Jaguarê, seu futuro senhor.
Já lhe tarda o momento de ver aclamar guerreiro ao joven caçador, para
ter a felicidade de servil-o como escrava na paz, e acompanhal-o como
espoza ao combate.
* * * * *
No centro da ocara ergueu-se Jaguarê.
Defronte delle, Pojucan, no corpo que a ferida não abateu, mostra a
grande alma, serena em face dos inimigos.
Camacan troou a inubia para ordenar silencio e o filho começou:
--Guerreiros araguaias, ouvi a minha historia de guerra.
«Depois que Jaguarê sofreu as provas do valor, partiu para conquistar um
nome famozo.
«Deixando a taba, viu o falcão negro que despedia o vôo para as aguas
sem fim, e Jaguarê disse:
«O falcão negro é o valente guerreiro dos ares; elle será a fama do
guerreiro araguaia que atravessará as nuvens e subirá ao céu.
«Então Jaguarê marcou o vôo do falcão negro e seguiu por elle.
«O sol despediu-se e voltou; uma, duas, tres vezes. No ultimo sol
Jaguarê encontrou um guerreiro da nação tocantim, senhora do grande rio.
«Guerreiros araguaias, quereis saber qual foi o campeão que Tupan enviou
a Jaguarê para dar-lhe o nome de guerra?
«Elle aí está diante de vós.
«É o grande Pojucan, o feroz matador de gente, chefe da tribu mais
valente da poderoza nação dos tocantins, senhores do grande rio.
«Vós que o tendes aqui prezente, vêde como é terrivel o seu aspeto, mas
só eu que o pelejei conheço o seu valor no combate.
«O tacape em sua mão possante é como o tronco do ubiratan que brotou no
rochedo e creceu.
«Jaguarê, que arranca da terra o cedro gigante, não o pôde arrancar de
sua mão; e foi obrigado a despedaçal-o.
«Os braços de Pojucan, quando elle os estende na luta, não ha quem os
vergue; são dois penedos que saem da terra.
«Seu corpo é a serra que se levanta no vale. Nenhum homem, nem mesmo
Camacan, o póde abalar.
«Pojucan era o varão mais forte e o mais valente guerreiro que o sol
tinha visto até áquelle momento.
«Foi este, guerreiros araguaias, o heróe que ofereceu combate ao filho
de Camacan; e Jaguarê aceitou, porque logo conheceu que havia encontrado
um inimigo digno de seu valor.
«Elle vos contempla, guerreiros araguaias. Se alguem duvida da palavra
de Jaguarê e da força do guerreiro tocantim, chame-o a combate e saberá
quem é Pojucan.»
O chefe tocantim lançou um olhar ameaçador á multidão dos guerreiros;
mas nenhum ouzou aceitar o dezafio.
* * * * *
Pojucan alçou a mão em sinal de que dezejava falar; todos escutaram com
respeito o heróe, ainda maior na desgraça.
--Guerreiros araguaias, ouvi a voz de Pojucan, vosso inimigo, que
afronta as iras dos fortes e despreza a vingança dos fracos.
«Pojucan, guerreiro chefe da grande nação tocantim, jámais encontrou
guerreiro que rezistisse á força de seu braço invencivel.
«Mas Tupan, cansado de ouvir celebrar em todas as festas o nome de
Pojucan, como vencedor, emprestou sua força a Jaguarê, o maior guerreiro
que já pizou a terra.
«Eu que senti o impeto de sua corajem, posso dizer-vos que só o sangue
tocantim é capaz de gerar um guerreiro tão poderozo.
«Foi alguma virjem araguaia que vagando pela floresta encontrou Pojucan,
e trouxe no seio fecundo a alma do grande guerreiro.
«Seu braço é como o corisco do céu; e a sua força como a tempestade que
dece das nuvens.»
Calou-se Pojucan; e Jaguarê continuou o seu canto de guerra:
«Quando a sombra começava a decer da crista da montanha, Pojucan e
Jaguarê caminharam um contra o outro.
«Toda a noite combateram. O sol nacendo veiu achal-os ainda na peleja,
como os deixára; nem vencidos, nem vencedores.
«Conheceram que eram os dois maiores guerreiros, na fortaleza do corpo,
e na destreza das armas.
«Mas nenhum consentia que houvesse na terra outro guerreiro igual; pois
ambos queriam ser o primeiro.
«Foi então que o chefe tocantim ganhou na corrida a lança de duas
pontas, que Jaguarê havia fabricado.
«Tres vezes seu punho robusto a brandiu, e tres vezes ella escapou-lhe
da mão, como a serpente das garras do gavião.
«Mais uma vez o grande guerreiro investiu com o bote armado; e a lança,
escrava de Jaguarê, cravou o peito do inimigo.
«Elle caiu, o guerreiro chefe, o grande varão dos tocantins, o valente
dos valentes, Pojucan, o feroz matador de gente.
«E Jaguarê brandindo a arma da vitoria bradou:
«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, que venceu o primeiro guerreiro
dos guerreiros de Tupan.
«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro terrivel que tem por
arma uma serpente.»
* * * * *
O trocano ribombou, derramando lonje pela amplidão dos vales e pelos
écos das montanhas a pocema do triunfo.
Os tacapes, vibrados pela mão pujante dos guerreiros, bateram nos largos
escudos retinindo.
Mas a voz possante da multidão dos guerreiros cobriu o imenso rumor
clamando:
--Tu és Ubirajara, o senhor da lança, o vencedor de Pojucan, o maior
guerreiro da nação tocantim.
«Os guerreiros araguaias te recebem por seu irmão nas armas e te aclamam
forte entre os fortes.
«Os cantores celebrarão teu nome como os mais famozos da nação araguaia
e Camacan terá a gloria de chamar-se pai de Ubirajara, como foi gloria
para Jaguarê ser filho de Camacan.»
Quando parou o estrondo da festa e cessou o canto dos guerreiros,
avançou Camacan, o grande chefe dos araguaias.
De um salto o ancião alcançou o arco da nação, insignia do chefe na
guerra, e caminhou para Ubirajara.
O arco era de ubiratan, grosso como o braço do mais robusto guerreiro; a
corda trançada de crautá tinha o corpo do dedo que a brandia.
Os mais possantes varões da nação araguaia a custo empunhavam o grande
arco; mas só um tinha força para disparar a seta.
Era Camacan, o chefe dos chefes, que dirijia na guerra os guerreiros
araguaias.
Assim falou o ancião:
--Ubirajara, senhor da lança, é tempo de empunhares o grande arco da
nação araguaia, que deve estar na mão do mais possante. Camacan o
conquistou no dia em que escolheu por espoza Jaçanan, a virjem dos olhos
de fogo, em cujo seio te gerou seu primeiro sangue. Ainda hoje, apezar
da velhice que lhe mirrou o corpo, nenhum guerreiro ouzaria disputar o
grande arco ao velho chefe, que não sofresse logo o castigo de sua
audacia. Mas Tupan ordena que o ancião se curve para a terra até
dezabar como o tronco carcomido, e que o mancebo se eleve para o céu
como a arvore altaneira. Camacan revive em ti; a gloria de ser o maior
guerreiro crece com a gloria de ter gerado um guerreiro ainda maior do
que elle.
* * * * *
Ubirajara tomou o arco que lhe aprezentava o pai e disse:
--Camacan, tu és o primeiro guerreiro e o maior chefe da nação araguaia.
Para a gloria de Jaguarê bastava que elle se mostrasse teu filho no
valor como é teu filho no sangue. Mas o grande arco da nação araguaia,
Ubirajara não o recebe de ti e de nenhum outro guerreiro, pois o ha de
conquistar pela sua pujança.
Disse, e arremessando no meio da ocara o grande arco, bradou:
--O guerreiro que ouze empunhar o grande arco da nação araguaia, venha
disputal-o a Ubirajara.
Nenhuma voz se ergueu; nenhum campeão avançou o passo.
O trocano reboou de novo, e no meio da pocema de triunfo, a multidão dos
guerreiros proclamou:
--Ubirajara, senhor da lança, tu és o mais forte dos guerreiros
araguaias; empunha o arco chefe.
Então Ubirajara levantou o grande arco, e a corda zuniu como o vento na
floresta.
Era a primeira seta, mensajeira do chefe, que levava ás nuvens a fama de
Ubirajara.
Os cantores exaltaram a gloria dos dois chefes: a do velho Camacan, que
trocára a arma do guerreiro pelo bordão do conselho; e a do joven
Ubirajara, que na sua mocidade já se mostrava tão grande, como fôra o
pai na robustez dos anos.
Pojucan teve o consolo de ouvir seu nome, repetido muitas vezes e
louvado a par com o de seu vencedor.
Os cantores celebraram depois os grandes feitos da nação araguaia, desde
os tempos remotos em que os projenitores deixaram a grande taba dos
Tamoios, seus avós.
Quando os nhengaçáras entoaram o canto do triunfo, vieram as mulheres
com vazos cheios do generozo cauim e aprezentaram as taças aos
guerreiros.
Jandira suspirou; ella era virjem, e como suas companheiras, não podia
aparecer na festa dos guerreiros.
Sentiu não ser já espoza, para ter o orgulho de encher de vinho
espumante, por ella fabricado, a taça de seu heróe e senhor.
O guincho agoureiro da inhúma resoava na mata, quando começou a dansa
guerreira que durou até perto da alvorada.
III
A NOIVA
Ao raiar da luz no céu, Jandira abriu os lindos olhos negros.
Seu canto foi o primeiro que saudou o nacer do dia e acordou em seu
ninho a viuvinha.
A doce filha de Majé saltou da rêde que embalára os sonhos castos da
virjem, e despediu-se della como a jaçanan que deixa a moita para
habitar o ninho do amor.
A virjem tocantim acreditava ter dormido a ultima noite na cabana
paterna, que essa manhã ia trocar pela cabana do espozo.
O joven caçador que a amava, Jaguarê, fôra aclamado guerreiro, e entre
todos os guerreiros o chefe da nação.
Como guerreiro elle póde tomar uma espoza; e como chefe pertence-lhe a
virjem de sua escolha, entre as mais formozas da taba.
Ainda que a virjem tenha um noivo, ou que o pai a destine a outro, se o
chefe a dezeja, a vontade de Tupan é que lhe pertença.
Tupan assim ordena para que os grandes chefes possam gerar de seu sangue
os mais belos e valentes guerreiros.
Jaguarê antes de ser aclamado chefe já a tinha escolhido, e Jandira não
aceitaria outro noivo senão o joven caçador a quem amava.
Ella o espera. Logo que o sol alumie a terra, Ubirajara, o grande chefe,
ha de vir buscal-a.
Então a virjem se despedirá de Majé; e irá armar na cabana de seu
guerreiro e senhor a rêde da espoza.
Lijeira e contente corre a banhar-se no rio antes que chegue Ubirajara,
para quem purifica seu corpo e se unje com o oleo fragrante do
sassafraz.
Ella quer que o destemido guerreiro ache seu amor saborozo como o vinho
que espumá na taça, e ferve nas veias.
Tornando á cabana, perfumou de beijoim a larga rêde que tecera dos fios
do algodão entrelaçados com as penas do guará.
Essa rêde tinha duas vezes o tamanho de sua rêde de virjem, porque era a
rêde do cazamento em que devia receber o espozo.
Depois arrumou no urú a louça que havia fabricado para o serviço do
guerreiro, e que devia transportar á sua nova cabana.
Quando terminou todos os preparativos, encostou-se á porta da cabana;
seus olhos impacientes chamavam Ubirajara.
Mas o guerreiro não vinha, e o sol já tinha subido além da crista da
serra.
A luz do dia derramava a alegria pelos campos; e a alegria que lhe
afagára os sonhos da noite fujia agora da alma de Jandira.
Então a filha de Majé partiu em busca do noivo que a esquecera.
* * * * *
No mais escuro da mata vaga o chefe dos araguaias.
Seus olhos fojem á luz do dia e buscam a sombra, onde encontram a imajem
que traz na lembrança.
Á noite quando o guerreiro dormia em sua rêde solitaria, Arací, a linda
virjem, lhe apareceu em sonho e lhe falou:
--Jaguarê, joven caçador, tu dormes descansado emquanto os guerreiros
tocantins se preparam para roubar a virjem de teus amores. Ergue-te e
parte, se não queres chegar tarde.
Elle erguera-se para seguil-a; mas a virjem formoza desferiu a corrida
veloz através da campina e dezapareceu na floresta.
Neste ponto do sonho o guerreiro acordára.
Uma estrela brilhante listrava o céu, como uma lagrima de fogo, e
Ubirajara pensou que era o rasto de Arací, a filha da luz.
A jurití arrolhou docemente na mata e Ubirajara lembrou-se da voz
mavioza da virjem do sol.
O guerreiro tornou á rêde, esperando achar ali outra vez o sonho que
vizitára sua alma; porém o sono fujira de seus olhos.
Quando raiou a primeira alvorada, Ubirajara saiu da cabana e buscou no
mais espesso da mata a sombra propicia á saudade.
Seu passo o guiava sem querer para as bandas do grande rio, onde devia
ficar a taba dos tocantins.
É assim que os coqueiros, imoveis na praia, inclinam para o nacente seu
verde cocar.
Ubirajara ouviu o rumor de um passo lijeiro através da mata; de lonje
conheceu Jandira que o procurava.
A doce virjem achára á porta da cabana o rasto do guerreiro e o seguira
através da floresta.
--Que máu sonho aflige Ubirajara, o senhor da lança e o maior dos
guerreiros, chefe da grande nação araguaia, para que elle se afaste de
sua taba e esqueça a noiva que o espera.
--A tristeza entrou no coração de Ubirajara, que não sabe mais dizer-te
palavras de alegria, linda virjem.
--A tristeza é amarga; quando entra no coração do guerreiro, o enche de
fel. Mas Jandira fará como sua irmã, a abelha, ella fabricará em seus
labios os favos mais doces para seu guerreiro; suas palavras serão os
fios de mel que ella derramará na alma do espozo.
--Filha de Majé, doce virjem, ainda não chegou o dia em que Ubirajara
escolha uma espoza; nem elle sabe ainda qual o seio que Tupan destinou
para gerar o primeiro filho do grande chefe dos araguaias.
* * * * *
O labio de Jandira emudeceu; mas o peito soluçou.
A virjem conheceu que o amor de Ubirajara retirava-se della, e que de
todo o perderia se o não defendesse.
Então escondeu a dôr no fundo da alma e chamou o rizo a seus labios, a
alegria a seus olhos.
Ella sabia que os guerreiros amam a flôr da formozura, como a folhajem
da arvore; e que a tristeza murcha a graça da mais linda virjem.
--Chefe dos araguaias, Ubirajara, não desprezes Jandira que outr'ora
escolheste para tua noiva. Se então ella era formoza a teus olhos, mais
formoza se fará para merecer teu amor. Tu gostavas de seus cabelos
negros que arrastam no chão; ella os entrançará com as plumas vermelhas
do guará para que te pareçam mais bonitos. Seus olhos negros que te
falavam, ella os cercará de uma listra amarela como os olhos da jaçanan.
Sua boca, que ainda não provaste, Jandira a encherá de amor para que
bebas nella o contentamento.
Jandira esperou a palavra de Ubirajara; mas os labios mudos do guerreiro
não se abriram.
--Teu amor, Ubirajara, ficará em meu seio como a flôr no vale. Jandira
te dará muitos filhos e todos dignos de teu valor. Nestes peitos, que te
pertencem, ella os nutrirá com seu sangue, não menos guerreiro do que o
teu; porque é o sangue de Majé, o maior dos anciãos, depois de Camacan.
Seus braços que outr'ora querias para tua cintura, não servirão
unicamente para te abraçarem, mas tambem para te servirem. Tua espoza te
acompanhará por toda a parte, na taba, como no campo do combate; ella
cuidará de tua cabana; aprontará as mais saborozas iguarias para seu
guerreiro, e fabricará para elle o vinho, que é a alma da festa.
--Jandira é a mais bela das virjens araguaias. Seu amor fará a ventura
de um guerreiro valente. Ubirajara não podia achar para si uma espoza
mais fiel, nem para seus filhos outra mãi tão fecunda. Mas a noite deceu
em sua alma. Só a estrela do dia póde restituir-lhe a alegria que o
abandonou. A filha de Majé merece um guerreiro que tenha olhos para a
sua formozura.
* * * * *
Pojucan sentou-se pensativo á porta da cabana.
O semblante, sempre grave, como convém a um chefe, cobre-se de tristeza.
A noite que foje da terra, vencida pelo sol, parece recolher-se na alma
do chefe tocantim.
Não é sua ferida que o faz sofrer. O balsamo suave da embaiba sára
rapidamente os golpes mais profundos; e os varões tocantins aprendem
desde o berço a desprezar a dôr.
É em seu coração de guerreiro, que Pojucan sente as garras do Anhanga.
O revez de ser vencido e cair prizioneiro, elle o suporta como o varão
forte que viu prostrados por Aresqui no campo da batalha os mais
terriveis guerreiros.
A grandeza do vencedor o consola; resta-lhe ainda a gloria de ter
rezistido a um braço, como o de Ubirajara, grande chefe dos araguaias.
Mas elle esperava que depois de haver ornado com sua prezença a festa do
triunfo, o vencedor fosse generozo, e lhe concedesse a honra do
sacrificio.
É o temor de que Ubirajara lhe recuze uma morte glorioza e o retenha
cativo, que nesse momento acabrunha o chefe dos tocantins.
Elle, um guerreiro livre que pizára outr'ora como senhor aquelles
campos, reduzido á condição de escravo?
Elle, um varão chefe que tinha na obediencia de seu arco mais de mil
guerreiros valentes, obrigado a reconhecer um dono?
Elle, que afrontava a cólera de Tupan, quando o deus irado rujia do céu,
curvar-se ao aceno de um homem, fosse embora o mais pujante dos filhos
da terra?
Pojucan estremecia quando se lembrava que podia ser condenado a tão
grande humilhação.
Em seu terror promovia o passo, com o impeto de fujir para sempre da
taba dos araguaias, onde o ameaçava aquella vergonha.
Mas uma força invencivel atava-lhe a vontade. Elle não se pertencia
desde o momento em que Ubirajara lhe calcou a mão direita no hombro.
Esse era o sinal da conquista, que prendia o vencido ao vencedor;
aquelle que violasse a lei da guerra, perderia para sempre o nobre
titulo de guerreiro.
O desprezo do inimigo o acompanharia aos seus campos nativos; e a taba
de seus irmãos não se abriria para o fujitivo que houvesse dezhonrado o
nome de sua nação.
Por isso na cabana solitaria, Pojucan está mais guardado do que se o
cercasse a multidão dos guerreiros araguaias.
Véla elle proprio em si, porque véla em sua fama.
Póde Ubirajara esquecel-o, que na volta o encontrará ali onde o deixou.
Nada o arrancará da cabana; nem a necessidade de buscar o alimento para
o corpo.
Bem vinda será a fome, se durar tanto que prostre seu corpo robusto, e o
entregue ao seio da terra, onde o guerreiro dorme o sono da gloria.
Além rompe da selva Ubirajara, que se encaminha para a cabana com o
passo rapido.
Segue-o de perto Jandira, como a gentil corça acompanha o caçador, que
lhe roubou o companheiro.
Descobrindo o chefe dos araguaias, Pojucan encerrou a tristeza dentro de
sua alma; e chamou ao rosto a altivez dos grandes guerreiros.
O chefe tocantim não queria que seu vencedor se regozijasse de ter-lhe
abatido o animo inflexivel.
* * * * *
Quando Ubirajara se aproximou da cabana, Pojucan tomou-lhe o passo.
--Ubirajara, senhor da lança, grande chefe da nação araguaia, não
confessaste tu diante dos anciãos das tabas e de todos os teus
guerreiros, que Pojucan era o varão mais forte e o mais terrivel no
combate, que o sol tinha visto até o momento de ser vencido por ti?
--Ubirajara o disse. É a voz da nação araguaia.
--Desde que tu cruzaste comigo a seta do dezafio até este momento,
Pojucan, guerreiro varão, e chefe de uma taba, na valente nação dos
tocantins, mostrou-se pela sua constancia e valor digno do sangue de
seus avós?
--Pojucan o disse; e a fama o repete.
--Então porque Ubirajara, o grande chefe dos araguaias, não concede a
Pojucan a morte glorioza, que os tocantins jámais recuzaram a um
guerreiro valente, e que sómente se nega aos fracos? Já não serviu
Pojucan á tua gloria na festa do triunfo? Esperas delle que te obedeça
como um escravo? Se aviltas o varão, a quem venceste, humilhas o teu
valor que elle exaltava.
O grande chefe araguaia ouviu sem interromper o prizioneiro, e respondeu
com gravidade:
--Ubirajara não recuza ao bravo chefe tocantim, seu terrivel inimigo, o
suplicio, que não negaria a qualquer guerreiro valente. Elle esperava
que tua ferida se fechasse de todo, para que o grande Pojucan possa no
dia do ultimo combate sustentar a fama de seu nome, e a gloria de um
varão que só foi vencido por Ubirajara.
O grande chefe dos araguaias levou aos labios a inubia de Camacan; a voz
do mando reboou pelo vasto ambito da taba.
Apareceram vinte jovens guerreiros, a quem elle ordenou que chamassem a
conselho os anciãos.
Depois tornou ao chefe tocantim:
--Os araguaias receberam de seus avós o costume das nações que Tupan
creou. Elles destinam ao prizioneiro a mais bela e a mais ilustre de
todas as virjens da taba, para que ella conserve o sangue generozo do
heróe inimigo e aumente a nobreza e o valor de sua nação.
--É esta tambem a lei, que os guerreiros tocantins observam em suas
tabas.
--A mais bela e a mais nobre de todas as virjens araguaias, aquella que
se ergue como a palmeira no meio da campina coberta de flôres, é
Jandira, a filha de Majé, que tem no seio os doces favos da abelha.
Travando então do pulso de Jandira, que ali ficára preza de sua vista,
levou-a ao prizioneiro.
--Recebe-a como espoza do tumulo.
Jandira que ouviu espavorida aquellas palavras, quiz fujir; porém a mão
do chefe araguaia a reteve.
--Ubirajara parte, mas elle voltará para assistir a teu suplicio e
vibrar-te o ultimo golpe. Pojucan terá a gloria de morrer pela mão do
mais valente guerreiro.
* * * * *
Ficaram Jandira e Pojucan em face um do outro.
--Virjem dos araguaias, Tupan te rezervou para espoza do mais terrivel
dos inimigos de tua nação. O filho de seu sangue será o mais valente dos
guerreiros; tu sentirás orgulho por havel-o gerado em teu seio.
--Pojucan, chefe tocantim, Jandira nunca será tua espoza.
--Não é Ubirajara o chefe de tua nação, e não te destinou elle para
servir de noiva do tumulo ao guerreiro que vai morrer no suplicio?
--Ubirajara é o grande chefe da nação araguaia; á sua voz cala-se a
palavra dos anciãos; a seu gesto curva-se a fronte dos guerreiros; á sua
vontade obedecem as tabas. Mas no amor de Jandira, ninguem manda, nem
Tupan. Jandira é noiva de Ubirajara, e se elle não quizer aceital-a, o
guanumbí a levará para os campos alegres onde repouzam as virjens que
morreram.
--Pojucan não carece do amor de Jandira. Nas tabas dos tocantins a mais
bela das virjens se regozijaria de pertencer ao mais valente dos chefes,
e de habitar sua rêde. Nas tabas dos araguaias, onde nacem guerreiros
como Ubirajara, não faltarão virjens formozas, que dezejem a gloria de
ser mãi de um filho de Pojucan.
--Jandira seria a primeira, se não conhecesse Jaguarê, o mais belo dos
jovens caçadores, que é hoje Ubirajara, o senhor da lança e chefe dos
chefes. Pojucan merece uma espoza que nunca tenha ouvido o canto de
outro guerreiro, para dar-lhe um filho digno delle.
--Os ritos de tua nação não punem a noiva que rejeita o prizioneiro?
--Jandira sabe que se sujeita á morte; mas a morte é menos cruel do que
o abandono.
--Então foje, virjem dos araguaias, e esconde-te á cólera dos anciãos.
Talvez mais tarde Ubirajara se arrependa e te perdôe.
--Jandira parte. Ella te dezeja uma espoza terna e a morte glorioza.
A filha de Majé penetrou na floresta, e afastou-se rapidamente da taba.
Quando já estava muito lonje, sentou-se á sombra de um manacá coberto de
flôres e cantou:
--Eu fui Jandira, a linda abelha, que fabricava os favos de cêra para
enchel-os de mel saborozo.
«Agora arrancaram-me as minhas azas com que eu voava pela campina
colhendo o pó das flôres; e secou a doçura de meu sorrizo.
«O canto que saía de meu seio era como o da patativa ao pôr do sol,
quando se recolhe em seu ninho de paina macia.
«Agora eu queria ter no coração uma serpente para morder aquella que me
roubou o amor de meu guerreiro.
«Guardei a minha formozura para orgulho do espozo, e inveja dos outros
guerreiros.
«Agora eu trocaria a flôr do meu rosto por um aspeto terrivel que
infundisse pavor.
«Meus seios mais lindos que os botões do cardo por um peito feroz, e as
mãos lijeiras que tecem os fios do algodão pelas garras do jaguar.
«Eu fui Jandira, o manacá viçozo que se vestia de flôres azues e
brancas.
«Agora sou como a jussara que perdeu a folha, e só tem espinhos para
ferir aquelles que se chegam.»
* * * * *
Os anciãos já estavam reunidos na oca do conselho, quando Ubirajara
entrou.
Falou Camacan:
--Ubirajara, senhor da lança, chefe dos chefes, os pais da grande nação
araguaia escutam a tua voz.
O grande chefe tres vezes bateu no chão com a ponta do arco e disse:
--Pojucan, o chefe tocantim, pede a morte do combate; elle a merece,
porque é um grande guerreiro e um varão ilustre. Ubirajara concedeu-lhe
essa honra, como seu vencedor.
--Ubirajara é um inimigo generozo; respondeu Camacan.
Todos os anciãos inclinaram gravemente a cabeça encanecida para
exprimirem sua aprovação ás palavras de Camacan.
Proseguiu Ubirajara:
--É tempo de escolher para o prizioneiro uma espoza digna de acompanhar
em seus ultimos dias ao heróe inimigo, e de ser mãi do marabá, o filho
da guerra.
Todos os abarés dezejavam para si a gloria de oferecer uma filha ao
prizioneiro.
--Ubirajara destinou-lhe Jandira, filha de Majé. Ella o merece por sua
formozura, e pelo sangue do grande guerreiro que gira em suas veias.
--Ubirajara é um grande chefe, disse Camacan.
Os anciãos aprovaram outra vez com a cabeça; Majé acrecentou:
--O sangue do velho Majé não desmentirá em Jandira a fama da nação
araguaia.
--Não! disse Ubirajara e todos os anciãos repetiram: Não!
O grande chefe tornou com a voz pauzada:
--Celebrai a ceremonia da entrega da espoza ao prizioneiro. Ubirajara
parte; só estará de volta na proxima lua para assistir ao suplicio de
Pojucan. Se na auzencia de Ubirajara cair na taba a flecha, nuncia da
guerra, conduzi o trocano ao sitio onde se abraçam os grandes rios, e
soltai a voz da nação araguaia. Nesse dia Ubirajara será comvosco.
Os prudentes anciãos, com a cabeça inclinada para melhor ouvir, recebiam
as palavras do grande chefe e as guardavam na memoria.
Quando Ubirajara se calou, Camacan repetiu, ainda mais pauzado, as
recomendações do filho:
--É esta a vontade de Ubirajara?
--Tu o disseste.
--Os anciãos guardaram a palavra do chefe dos chefes? perguntou ainda
Camacan.
--Ella entrou no espirito dos abarés, como a raiz no seio da terra,
observou Majé.
--Bem dito, repetiram todos.
Ubirajara saiu do carbeto; após elle os anciãos se retiraram
lentamente.
IV
A HOSPITALIDADE
Na entrada do vale ergue-se a grande taba dos tocantins.
É a hora em que as sombras abraçam os troncos das arvores e o sol
descansa em meio da carreira.
A floresta emudece, e todos os viventes se abrigam da calma que abraza.
Ubirajara deixa o escuro da mata e caminha para a grande taba dos
tocantins.
Quando chegou á distancia do tiro de uma flecha despedida pelo mais
robusto guerreiro, tocou a inubia.
O guerreiro de vijia respondeu; e o chefe araguaia, quebrando a seta,
alçou a mão direita para mostrar a senha da paz.
Então avançou para a taba; na entrada da caissara que cercava o campo
dos tocantins, atirou ao chão a seta partida.
Os guerreiros que tinham acudido ao som da inubia, deixaram passar o
estranjeiro sem inquirir donde vinha, nem o que o trouxera.
Era este o costume herdado de seus maiores, que o hospede mandava na
taba aonde Tupan o conduzia.
Ubirajara passou entre os guerreiros, e dirijiu-se á cabana mais alta
que ficava no centro da ocara.
A figura do tucano, feita de barro pintado, e colocada em cima da porta,
dizia que era ali a cabana do grande chefe.
Mas Ubirajara já o sabia; pois antes de penetrar na taba, subira á
grimpa do mais alto cedro da floresta para conhecer o sitio onde
habitava Arací, a estrela do dia.
A cabana estava dezerta naquelle instante, mas ouvia-se a fala das
mulheres que trabalhavam no terreiro.
Ubirajara transpôz o limiar, e levantando a voz disse:
--O estranjeiro chegou.
Acudiram as mulheres, e conduziram Ubirajara á prezença do grande chefe
dos tocantins.
Itaquê passava as horas da ardente calma á sombra da frondoza gameleira,
que podia abrigar cem guerreiros em baixo de sua rama.
Repouzando dos combates, o formidavel guerreiro não desdenhava as artes
da paz em que era tão consumado como nas batalhas.
Assim honrava as fadigas da taba, dando o exemplo do trabalho á familia
de que era pai, e a nação de que era chefe.
Nesse momento as mulheres colocadas em duas filas, com as mãos erguidas,
urdiam os fios de algodão, passados pelos dedos abertos em fórma de
pente.
Itaquê manejava a lançadeira, tão destro como na peleja vibrava o
tacape. Sua mão lijeira tramava a teia de uma rêde, que entretecia das
penas douradas do galo da serra.
Quando chegou Ubirajara, o grande chefe dos tocantins, depois de ter
rematado a urdidura, entregou a lançadeira ao guerreiro Pirajá que
estava a seu lado, e veiu ao encontro do hospede.
--O estranjeiro veiu á cabana de Itaquê, grande chefe da nação tocantim,
disse Ubirajara.
--Bem vindo é o estranjeiro á cabana de Itaquê, grande chefe da nação
tocantim.
Então o tuxava voltou-se para Jacamim, a mãi de seus filhos:
--Jacamim, prepara o cachimbo do grande chefe, para que elle e o
estranjeiro troquem a fumaça da hospitalidade.
Os mensajeiros já corriam pela taba, avizando os guerreiros moacaras da
vinda do hospede á cabana de Itaquê.
Os moacaras, revestidos de seus ornatos de festa, se encaminharam com o
passo grave á oca principal afim de honrar o hospede do grande chefe da
nação tocantim.
Ali chegados, cada um dirijiu ao estranjeiro a pergunta da hospitalidade
e deu-lhe a boa vinda.
* * * * *
Depois que Itaquê ofereceu a Ubirajara o cachimbo da paz, e com elle
trocou a fumaça da hospitalidade, os cantores entoaram a saudação da
chegada:
«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz a alegria á cabana; e quando
parte leva comsigo a fama do guerreiro que teve a fortuna de o acolher.
«Nas tabas por onde passa, e na terra de seus pais, elle conta aos
velhos, que depois ensinam aos moços, as proezas dos heróes que viu em
seu caminho, e de quem recebeu o abraço da paz.
«O hospede é mensajeiro de Tupan. Elle traz comsigo a sabedoria; na
cabana do guerreiro que tem a fortuna de o acolher, todos o escutam com
respeito.
«Em suas palavras prudentes, os anciãos da taba aprendem, para ensinar
aos moços, os costumes dos outros povos, as façanhas de guerra
desconhecidas por elles, e as artes da paz, que o estranjeiro viu em
suas viajens.
«O hospede é mensajeiro de Tupan. O primeiro que apareceu na taba dos
avós da nação tocantim, foi Sumê, que veiu de onde a terra começa e
caminhou para onde a terra acaba.
«Delle aprenderam as nações a plantar a mandioca para fazer a farinha, e
a tirar do cajú e do ananaz o generozo cauim, que alegra o coração do
guerreiro.
«O hospede é mensajeiro de Tupan. Quando o estranjeiro entra na cabana,
o guerreiro que tem a fortuna de o acolher, não sabe se elle é um chefe
ilustre ou o grande Sumê que volta de sua viajem.
«O sabio ensina por onde passa os segredos da paz, e o heróe as façanhas
da guerra; mas ambos deixam na cabana da hospitalidade a gloria de ter
abrigado um grande varão.
«O hospede é mensajeiro de Tupan. Por seu caminho vai deixando a
abundancia e a festa; depois do banquete da boa vinda as arvores vergam
com os frutos, e a caça não cabe na floresta.
«A cabana que fecha a porta ao hospede, o vento a arranca, o fogo do céu
a abraza. O guerreiro que não se alegra com a chegada do hospede, vê
murchar ao redor de si a espoza, os filhos, as mulheres e as roças que
elle plantou.
«Bem vindo seja o estranjeiro na cabana de Itaquê, o grande chefe da
nação tocantim, que teve a gloria de ser escolhido pelo hospede.
«Os guerreiros exultam com a honra de seu chefe, e os cantores te
saudam, mensajeiro de Tupan.»
Emquanto na cabana resôa o canto da boa vinda, Jacamim, a espoza de
Itaquê, chamou as amantes do marido, suas servas, para ajudal-a a
preparar o banquete da hospitalidade.
As servas pressurosas estenderam á sombra da gameleira as alvas esteiras
de palmas entrançadas de airis e colocaram sobre ellas os urús cheios de
farinha d'agua.
Trouxeram tambem os camocins razos, onde se apinhavam as moquecas
envoltas em folha de banana, e peças de carne, assada no biaribí, que
ainda fumegava nos pratos feitos de concha de tartaruga.
Depois suspenderam a caça mais volumoza, veados e antas, assim como as
igaçabas de cauim, nos ramos inclinados da arvore, em altura que o braço
do guerreiro podesse alcançar.
Frutas de varias especies, pencas douradas de banana, cachos rôxos de
assaí, os rubros croás, e os fragrantes abacaxis, enchiam o giráu
levantado no meio do terreiro.
* * * * *
Jacamim conduzira o hospede á sombra da gameleira, onde o esperava o
banquete da chegada.
Ao lado de Ubirajara sentou-se Itaquê e depois os moacaras que tinham
vindo para a festa da hospitalidade.
Os guerreiros comeram em silencio. As mulheres dilijentes os serviam,
enchendo de vinho de cajú e ananaz as largas combucas, tintas com a
pasta do crajurú que dá o mais brilhante carmim.
Quando o hospede, depois de satisfeito o apetite, lavou o rosto e as
mãos, Jacamim ordenou ás servas que recolhessem os restos das provizões,
e retirou-se com ellas.
Tambem se afastaram os jovens guerreiros que ainda não tinham voz no
conselho. Só ficaram sentados com o hospede, Itaquê, e os moacaras
senhores das cabanas.