_Das ceremonias, e estylo, que se praticava nas mortes dos Reys._
1 Havia costume antigamente em Portugal, deduzido desde o tempo da
gentilidade, tanto que morria alguem, conduzirem a preço certas
mulheres, chamadas pranteadeiras, para virem assistir aos defuntos, e
acompanhallos até à cova, chorando, e pranteando sobre elles. Por esta
ceremonia começava a demonstraçaõ do sentimento; e quando a pessoa
era Real, se executava com muito mayor excesso, e mayor numero de
pranteadeiras, ou carpideiras, as quaes entre as lagrimas, e os gemidos
misturavaõ louvores do defunto, que se era Rey, diziaõ delle o bom
tratamento, que fizera ao seu povo, que o naõ vexara com tributos, que
introduzira tanto dinheiro no thesouro, accrescentando tanto mais sobre
o que herdara; e com estes, e outros elogios gritando, e soluçando
faziaõ mais lustuoso aquelle Regio funeral.[895]
2 Assim consta que se fizera no enterro delRey D. Diniz, e no delRey
D. Fernando,[896] até que no tempo delRey D. Joaõ I. fez o Senado da
Camera de Lisboa extinguir semelhante costume,[897] conservando-se
porém ainda até o tempo delRey D. Manoel o luto de burel branco,
porque o primeiro luto negro, que se usou neste Reino, foy o que se
vestio na morte da Senhora Dona Filippa, tia delRey D. Manoel.[898]
Isto supposto, tanto que falecia algum dos Reys Portuguezes, se
despachavaõ logo Correyos para as Comarcas do Reino, com a qual noticia
se levantavaõ nas Cathedraes, e Paroquias tumulos de madeira cubertos
de lutos para se fazerem os Officios, e funeraes, dobrando ao mesmo
tempo os sinos.
3 Depois sahia em dia determinado da Casa do Senado a comitiva
seguinte: A principal pessoa hia a cavallo vestida de luto, e levava
huma bandeira negra ao hombro, que arrastava até o chaõ. Com o mesmo
luto, e da mesma sorte o seguiaõ os tres Vereadores daquelle anno
acompanhados de toda a Nobreza, e assistidos de tres Ministros, que
lhes levavaõ tres escudos pretos; e caminhando para a parte mais
publica do lugar, onde já estava prevenido hum estrado com alguns
degráos, cuberto tudo de pannos negros, se subia nelle o primeiro
Vereador com hum escudo preto nas mãos, e voltado hum pregoeiro para o
povo, dizia tres vezes em voz alta: _Ouvide_, _ouvide_, _ouvide._ Logo
o primeiro Vereador dizia estas palavras, que levava escritas: _Choray,
povo, choray a morte do vosso Rey, que vos governou com justiça, e amor
de pay_. E subindo o escudo sobre a cabeça, o deixava cahir em terra, e
se quebrava. Com as mesmas circunstancias se repetia a mesma ceremonia
pelos outros Vereadores, levantando ao mesmo tempo o povo grandes
clamores, e prantos. Depois caminhavaõ para a Igreja, na qual assistiaõ
ao funeral, que tambem se fazia com aquella expressaõ de pena, e dor,
que merecia a grandeza da perda. Veja-se a Damiaõ de Goes, Garcia de
Resende, e outros Chronistas antigos, que as descrevem com miudeza.
4 Na Corte se fazia este acto com mayor pompa, porque ao Alferes da
Cidade pertencia levar a bandeira, aos Vereadores varas pretas nas
mãos, a dous Juizes do Crime, e hum do Civel o levarem sobre a cabeqa
os tres escudos, que pela referida ordem se quebravaõ, o primeiro
no taboleiro da Sé, o segundo no meyo da rua nova, o terceiro no
Rocio.[899] As mayores demonstrações de sentimento, que neste Reino se
tem feito por pessoas Reaes, foraõ as que se viraõ na morte do Principe
D. Affonso, filho delRey D. Joaõ II. refere-as por extenso Garcia de
Resende;[900] porém as de mayor formalidade, e pompa foraõ as que se
executaraõ no enterro delRey D. Joaõ I. vindo-se a concluir tudo nas
breves, e verdadeiras clausulas desta sentença:[901]
_Tot mundi Principes, tanta potentia:
In ictu oculi clauduntur omnia._