CAPITULO XIV.

_Das ceremonias, e estylo, que se praticava nas mortes dos Reys._

1 Havia costume antigamente em Portugal, deduzido desde o tempo da

gentilidade, tanto que morria alguem, conduzirem a preço certas

mulheres, chamadas pranteadeiras, para virem assistir aos defuntos, e

acompanhallos até à cova, chorando, e pranteando sobre elles. Por esta

ceremonia começava a demonstraçaõ do sentimento; e quando a pessoa

era Real, se executava com muito mayor excesso, e mayor numero de

pranteadeiras, ou carpideiras, as quaes entre as lagrimas, e os gemidos

misturavaõ louvores do defunto, que se era Rey, diziaõ delle o bom

tratamento, que fizera ao seu povo, que o naõ vexara com tributos, que

introduzira tanto dinheiro no thesouro, accrescentando tanto mais sobre

o que herdara; e com estes, e outros elogios gritando, e soluçando

faziaõ mais lustuoso aquelle Regio funeral.[895]

2 Assim consta que se fizera no enterro delRey D. Diniz, e no delRey

D. Fernando,[896] até que no tempo delRey D. Joaõ I. fez o Senado da

Camera de Lisboa extinguir semelhante costume,[897] conservando-se

porém ainda até o tempo delRey D. Manoel o luto de burel branco,

porque o primeiro luto negro, que se usou neste Reino, foy o que se

vestio na morte da Senhora Dona Filippa, tia delRey D. Manoel.[898]

Isto supposto, tanto que falecia algum dos Reys Portuguezes, se

despachavaõ logo Correyos para as Comarcas do Reino, com a qual noticia

se levantavaõ nas Cathedraes, e Paroquias tumulos de madeira cubertos

de lutos para se fazerem os Officios, e funeraes, dobrando ao mesmo

tempo os sinos.

3 Depois sahia em dia determinado da Casa do Senado a comitiva

seguinte: A principal pessoa hia a cavallo vestida de luto, e levava

huma bandeira negra ao hombro, que arrastava até o chaõ. Com o mesmo

luto, e da mesma sorte o seguiaõ os tres Vereadores daquelle anno

acompanhados de toda a Nobreza, e assistidos de tres Ministros, que

lhes levavaõ tres escudos pretos; e caminhando para a parte mais

publica do lugar, onde já estava prevenido hum estrado com alguns

degráos, cuberto tudo de pannos negros, se subia nelle o primeiro

Vereador com hum escudo preto nas mãos, e voltado hum pregoeiro para o

povo, dizia tres vezes em voz alta: _Ouvide_, _ouvide_, _ouvide._ Logo

o primeiro Vereador dizia estas palavras, que levava escritas: _Choray,

povo, choray a morte do vosso Rey, que vos governou com justiça, e amor

de pay_. E subindo o escudo sobre a cabeça, o deixava cahir em terra, e

se quebrava. Com as mesmas circunstancias se repetia a mesma ceremonia

pelos outros Vereadores, levantando ao mesmo tempo o povo grandes

clamores, e prantos. Depois caminhavaõ para a Igreja, na qual assistiaõ

ao funeral, que tambem se fazia com aquella expressaõ de pena, e dor,

que merecia a grandeza da perda. Veja-se a Damiaõ de Goes, Garcia de

Resende, e outros Chronistas antigos, que as descrevem com miudeza.

4 Na Corte se fazia este acto com mayor pompa, porque ao Alferes da

Cidade pertencia levar a bandeira, aos Vereadores varas pretas nas

mãos, a dous Juizes do Crime, e hum do Civel o levarem sobre a cabeqa

os tres escudos, que pela referida ordem se quebravaõ, o primeiro

no taboleiro da Sé, o segundo no meyo da rua nova, o terceiro no

Rocio.[899] As mayores demonstrações de sentimento, que neste Reino se

tem feito por pessoas Reaes, foraõ as que se viraõ na morte do Principe

D. Affonso, filho delRey D. Joaõ II. refere-as por extenso Garcia de

Resende;[900] porém as de mayor formalidade, e pompa foraõ as que se

executaraõ no enterro delRey D. Joaõ I. vindo-se a concluir tudo nas

breves, e verdadeiras clausulas desta sentença:[901]

_Tot mundi Principes, tanta potentia:

In ictu oculi clauduntur omnia._

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II · 第 160 / 163 题