3 _O Principe D. Joaõ_ successor.

* * * * *

_Filhos delRey D. Joaõ II._

1 O _Principe D. Affonso_ nasceo em Lisboa a 18 de Mayo do anno

1475. Casou com a Princesa Dona Isabel, filha delRey D. Fernando o

_Catholico_, a 23 de Novembro de 1490. Nas suas vodas se fizeraõ

as mayores festas, e demonstrações de alegria em variedade de

espectaculos, profusaõ monstruosa de manjares, e invenções exquisitas

de bailes, quaes nunca se viraõ, nem ouviraõ; porém como se toda

aquella magnificencia, divertimento, e grandeza fora feita por jogo, e

brinco da fortuna, dentro de poucos dias se mudou em subitos prantos, e

lutos, porque este Principe na florida idade de dezaseis annos, casado

de sete mezes, cahindo de hum cavallo, em que risonho corria pelas

margens do Tejo junto a Santarem, se fez em pedaços; e deitado sobre a

humilde cama de feno na choça de hum pobre pescador, exhalou a alma a

13 de Julho de 1491, nos braços delRey seu Pay, da Rainha sua Mãy, e da

Princeza sua Esposa, desfeitos todos em lagrimas, e sentimento por taõ

lastimosa fatalidade. Jaz na Batalha na Casa do Capitulo.[840]

2 Teve fóra do matrimonio a _D. Jorge_, que nasceo em Abrantes a 12 de

Agosto de 1481. Foy sua mãy Dona Anna de Mendonça, Dama da Rainha Dona

Joanna, e Senhora muito nobre, e taõ estimada, e querida delRey, que a

seu respeito (diz o Author do Anno Historico) mandou erigir o Mosteiro

de Santos o Novo, e a nomeou Commendadeira perpetua, onde faleceo

virtuosamente no anno de 1545. Naõ foy menor o amor, que ElRey teve a

este filho, o qual se criou em casa da Senhora Dona Joanna sua tia; e

falecendo esta Princeza, o trouxe para o Paço a Rainha sua madrasta, e

o conduzio a Evora, onde ElRey estava, o Bispo do Porto. Foy esperallo

fóra da Cidade o Principe Affonso seu irmaõ com toda a Nobreza,

mandou-o seu pay tratar de Excellencia, mas por lisonja lhe fallavaõ

por Alteza. Quiz ElRey deixallo por successor do Reino, ao que se oppoz

a Rainha, por ser em prejuizo de seu irmaõ D. Manoel, a quem de direito

tocava, e tambem naõ quiz vir nisso o Papa Alexandre VI. havendo por

esta causa grandes discordias entre ElRey, e a Rainha. Mas como ElRey

naõ pode conseguir o que desejava, fez a D. Jorge o mayor Senhor, que

havia em Hespanha, porque quiz que succedesse aos bens de seu bisavô

o infante D. Pedro, e assim ficou sendo Duque de Coimbra, Senhor

de Montemór o Velho, Marquez de Torres Novas, Mestre das Ordens de

Santiago, e Aviz, e Senhor de outras muitas rendas. Morto ElRey, foraõ

muitos Fidalgos a Villa-Nova buscar o Senhor D. Jorge, e o conduziraõ

a Montemór o Novo, onde estava ElRey D. Manoel. Foy logo em direitura

apearse ao Paço vestido de burel, e assim subio a beijar a maõ a ElRey;

e o Prior do Crato D. Diogo de Almeida, que era seu Ayo, pegando-lhe

pela maõ, se pozeraõ ambos de joelhos, e o entregou a ElRey seu tio,

fazendo-lhe huma eloquente oraçaõ, em que lhe dizia como ElRey defunto

lho deixara encommendado. ElRey D. Manoel lhe fez grandes honras, e lhe

deu casa no Paço. Contava já o Senhor D. Jorge vinte annos de idade,

quando ElRey o casou com Dona Brites de Vilhena, filha de D. Alvaro,

irmaõ do Duque de Bragança D. Fernando II. e deste matrimonio descende

a illustre Familia dos Alencastres. Morreo o Senhor D. Jorge no anno

de 1550, e jaz no Convento de Palmella.[841]

* * * * *

_Filhos delRey D. Manoel._

1 O _Principe D. Miguel da Paz_ foy filho da primeira mulher a Rainha

Dona Isabel. Nasceo na Cidade de Saragoça a 24 de Agosto de 1498. Foy

jurado Principe herdeiro de Castella, e de Portugal. Naõ viveo mais que

dous annos, porque a 20 de Junho de 1500 expirou na mesma Cidade, onde

jaz.

2 _O Principe D. Joaõ_, filho da segunda mulher a Rainha Dona Maria,

foy successor do Reino.

3 _A Infanta Dona Isabel_ nasceo em Lisboa a 24 de Outubro de 1503.

Foy rara a formosura, com que a dotou a natureza. Casou em Sevilha com

o Imperador Carlos V. a 11 de Março de 1526. As suas virtudes foraõ

mayores que os seus elogios, e estes foraõ innumeraveis. Adoeceo em

Toledo, e aqui expirou no primeiro de Mayo de 1539. Foy conduzido

o cadaver da imperatriz pelo Marquez de Lombay a ser sepultado na

Cathedral da Cidade de Granada; e como fosse preciso para aquella

entrega abrirse o caixaõ, chegando-se o Marquez a tirar a toalha,

que cubria o macilento rosto, vendo-o taõ demudado, e espantoso à

vista, foy causa do prodigioso desengano do Marquez, porque dalli se

converteo em hum S. Francisco de Borja, cujo resplandor de virtudes

illustrou tanto a Companhia de Jesus. No mesmo dia desta portentosa

transformaçaõ, que foy a 7 de Mayo do sobredito anno, vio a grande

serva de Deos Soror Francisca de Jesus, Abbadessa do Mosteiro de

Gandia, estando em oração, sahir do Purgatorio a alma da Imperatriz

assistida de alguns Anjos. A 4 de Fevereiro de 1574 foy trasladado

o corpo para o Escurial, onde jaz. Deste consorcio nasceo ElRey D.

Filippe II.[842]

4 _A Infanta Dona Brites_ nasceo em Lisboa a 31 de Dezembro de 1504.

Casou com Carlos III. Duque de Saboya a 29 de Setembro de 1521. Foy

esta Princeza ornada de grandes virtudes, pelas quaes era muito amada

de seu esposo, e tida por huma singular Heroina daquelles tempos.

Morreo em Niza, Cidade de Saboya, a 8 de Janeiro de 1538.[843]

5 _O Infante D. Luiz_ nasceo em Abrantes a 3 de Março de 1506. Foy

este Principe Duque de Béja, Condestavel de Portugal, Administrador do

Priorado do Crato, e ornado de tantas virtudes, que, como diz Damiaõ

de Goes, para a natureza cumprir de todo com os dotes, que lhe deu,

lhe havia de conceder tambem occasiões para poder conquistar mayores

Reinos, e Senhorios do que Alexandre, porque para a execuçaõ disso

lhe sobejou animo. Assim se vio na famosa expediçaõ, e conquista de

Tunes, que o Imperador Carlos V. seu cunhado fez no anno de 1535, onde

se achou o Infante D. Luiz governando o celebre Galeaõ _Botafogo_, e

Armada auxiliar, que ElRey D. Joaõ III. mandou ao Imperador, devendo-se

à animosa deliberaçaõ do Infante cortarse a fortissima cadea, que

atravessava o porto da Goleta, de que tanta gloria se seguio à

Christandade, credito à Naçaõ Portugueza, e fama ao valor do Infante.

Além destas prendas teve hum sublime engenho, que com o exercicio

das artes liberaes, ensinadas pelo grande Mestre Pedro Nunes, soube

adquirir hum lugar eminente na Republica das letras. Na Religiaõ foy

exemplar, e taõ pio, como o testifica o Mosteiro das Maltezas de

Estremoz, que elle edificou, e outras acções de caridade. Finalmente

faleceo na quinta de Marvilla junto a Lisboa a 27 de Novembro de 1555,

e jaz em Belém. De Violante Gomes, chamada a _Pelicana_, donzella

humilde, mas de rara formosura, a qual morreo professa no Mosteiro de

Almoster, teve ao _Senhor D. Antonio_, que foy Prior do Crato.[844]

6 _O Infante D. Fernando_ nasceo em Abrantes a 5 de Junho de 1507. Foy

Duque da Guarda, e Principe de condiçaõ sincera, muito animoso, amigo

da verdade, e dizia o que entendia sem o rebuço da politica adulaçaõ.

Foy muito dado à lição da Historia verdadeira, e naõ fabulosa, e por

ajuntar quantas Chronicas havia escritas em qualquer lingua que fosse,

gastou grosso cabedal. Mandou fazer huma arvore genealogica illuminada

pelo mais insigne Pintor, que havia em Flandes, e constava desde Noé

até ElRey D. Manoel seu pay. Casou com Dona Guiomar Coutinho, filha

herdeira do Conde de Marialva D. Francisco Coutinho, e morreo em

Abrantes a 7 de Novembro de 1534. Jaz em Belém.[845]

7 _O Infante D. Affonso_ nasceo em Evora a 23 de Abril de 1509. O Papa

Leaõ X. o creou Cardeal Diacono de Santa Luzia. Foy Bispo da Guarda, e

de Viseu, Arcebispo de Lisboa, e o primeiro Prelado, que nestes Reinos

ordenou se lesse o Cathecismo da Doutrina christã nas Igrejas aos

meninos, e que nas Paroquias houvesse livros, onde se assentassem, e

escrevessem os nomes dos bautizados, e casados, sendo elle o que muitas

vezes conferia estes, e os mais Sacramentos com grande caridade. Foy

muito dado à lição dos livros, e teve por Mestres aos insignes Ayres

Barbosa, e Pedro Margalho. Morreo em Lisboa a 21 de Abril de 1540, e

jaz em Belém.[846]

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II · 第 135 / 163 题