_Erecção do senhorio de Portugal separado dos mais dominios de
Hespanha, e estabelecimento dos soberanos Monarcas Portuguezes._
Ainda a mayor parte das nossas terras era perseguida, e infestada
dos Mouros, sem ter sido bastante o grande poder dos Reys de Leaõ, e
Asturias para os lançar fóra de Hespanha, quando apparecendo o Conde D.
Henrique no anno de 1080 com o intento de se naturalizar na gloria das
conquisquistas delRey D. Affonso, mereceo com as suas grandes proezas
o premio de que este lhe désse por esposa huma sua filha, e em dote
naõ só o que estava em Portugal conquistado aos Sarracenos, mas tudo
inteiramente o que seu valor aspirasse a conquistar. Desse esclarecido
tronco se produzio a fecundissima arvore da Casa Real Portugueza com
huma uniaõ de florecentes ramos em periodo gloriosamente continuado,
como já entramos a ver.
_Conde D. Henrique._
2 Cinco pontos mais difficultosos exporemos primeiramente na vida deste
illustrissimo Conde. O primeiro: _Qual he a sua origem?_ Naõ menos que
seis opiniões houve acerca deste verdadeiro conhecimento, que se podem
ver no destro politico Duarte Ribeiro de Macedo.[559] A mais certa, e
verdadeira, com que os Authores deste seculo se conformaõ, he a que
faz ser ao Conde D. Henrique descendente por varonia dos Duques de
Borgonha, e da Casa Real de França. Funda-se esta opiniaõ no celebre
_Exemplar Floriacense_, que se achou em França na livraria do Convento
de Fleury, donde o alcançou Pedro Piteu para o dar à impressaõ no anno
de 1596. He huma Historia Genealogica de França, escrita em tempo do
proprio Conde por hum Religioso de S. Bento, a qual he tida por texto
indubitavel.
3 Depois de toda esta segurança, e certeza taõ recommendada tambem pelo
grande Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa,[560] fomos encontrar
huma passagem no Capitulo 11. da Historia manuscrita da fundaçaõ de
Santa Cruz de Coimbra por Fr. Jeronymo Romano, Religioso douto de Santo
Agostinho, e de quem muitas vezes se lembra nosso Chronista Brandaõ
com credito. Este pois referindo o epitafio antigo, que estava na
cabeceira da sepultura do invicto Rey D. Affonso Henriques, antes que
ElRey D. Manoel a mandasse reformar, diz, que se lia alli, entre outras
clausulas, a seguinte:
_Aqui jaze sepultado el muy poderoso, y muy excelente Principe Don
Alonso Henriques, primero Rey de Portugal, el qual de parte de su
Padre Don Henrique, Conde de Astorga, deciende por linea derecha de
los Reyes de Aragon, y de parte de su madre de los Reyes de Castilla,
&c._
4 Alguma violencia nos causa querer dar assenso à verdade deste
epitafio; porque primeiramente lembrando-se delle o grande
Brandaõ,[561] diz, que estava em versos Latinos, e os transcreve; mas
nem em huma só palavra se conforma com o que diz Fr. Jeronymo. Mais:
Accrescenta este huma reflexaõ sobre a mesma clausula da inscripçaõ,
digna de reparo, dizendo: _En lo que toca a ser su padre el Conde D.
Henrique de linage de los Reyes de Aragon, y haver-se llamado Conde de
Astorga, es muy facil de provar, y por no ser para aqui, lo dexo._
5 Chamamos reflexaõ digna de reparo, porque o mesmo Fr. Jeronymo no
Capitulo primeiro da vida do infante D. Fernando deixou dito, que
o Conde D. Henrique era Principe da Casa Real de França,[562] em
que coincide com o Exemplar Floriacense, e se aparta da sobredita
reflexaõ do epitafio. Sirva isto sómente de noticia, a qual quizemos
communicar, porque esta obra, como outras tambem de Fr. Jeronymo, naõ
anda impressa, supposto correrem alguns transumptos pelas mãos dos
curiosos, e delle conservamos alguns Tratados. Veja-se porém Damiaõ de
Goes na Chronica delRey D. Manoel part. 4. cap. 72.
6 O segundo ponto difficultoso he: _Se a Rainha Dona Teresa, mulher do
Conde D. Henrique, foy filha legitima delRey D. Affonso VI. de Leaõ?_
A razaõ de duvidar vem a ser; porque ElRey D. Affonso sendo casado com
Dona Ximena Nunes de Gusmaõ, da qual teve a Senhora Dona Teresa, foy
depois separado deste matrimonio pelo Papa Gregorio VII. como consta da
sua Carta, ou Breve, que principia: _Dici non potest_, escrita ao mesmo
D. Affonso, por se contrahir sem dispensa do parentesco, que a dita
Dona Ximena tinha com outra mulher delRey D. Affonso, o qual foy casado
seis vezes.
7 Fundados nesta nullidade, affirmaraõ Authores Castelhanos, e ainda
Portuguezes, que a Senhora Dona Teresa era filha bastarda, tendo por
sua parte esta opiniaõ o Exemplar Floriacense,[563] objecçaõ forçosa,
com que argumenta Manoel de Faria.[564] Porém isto naõ obsta; porque
além de constar da contextura da Carta Pontificia, que ElRey D. Affonso
tinha a Senhora Dona Ximena por legitima mulher, como tambem o dá a
entender Baronio,[565] he certo que os filhos havidos de matrimonios
separados por falta de dispensaçaõ de parentesco, saõ reputados filhos
legitimos, e successores, como bem diz Brandaõ, e com elle Duarte
Ribeiro.[566] Este ponto está taõ admiravelmente discutido pelo
erudito, e infatigavel D. Joseph Barbosa, que parece escusado duvidar
já na legitimidade da Senhora Infanta D. Teresa.[567]
8 A terceira difficuldade he: _Saber o anno, em que entrou o Conde
D. Henrique a governar Portugal, e as terras, que lhe deraõ em dote?_
Quanto à primeira parte, resolve o laborioso D. Joseph Barbosa[568]
que entrara o Conde no anno de 1093. O fundamental Genealogico D.
Antonio Caetano[569] he de parecer que viera no anno antecedente; e
outros ainda anticipaõ mais esta entrada. Quanto à segunda parte, o
dote foraõ as Provincias do Minho, Beira, e Tras os Montes, e em Galiza
naõ comprehendia terra alguma, como affirma o Chronista Brandaõ,[570]
contra o que alguns disseraõ. Este era o estado de Portugal, que o
valeroso Conde augmentou depois com as outras terras, que foy ganhando
aos Mouros, por onde livremente podia.
9 O quarto ponto difficultoso he: _Se o Reino de Portugal foy dado
ao Conde D. Henrique com alguma obrigaçaõ de feudo?_ Os Authores
Castelhanos dizem que sim;[571] porém o certo he que foy dado
independente, e sem genero algum de subordinaçaõ aos Reys de Castella.
Assim o mostra, e prova com evidencia o erudito D. Joseph Barbosa,[572]
e o discreto Academico Joseph da Cunha Brochado;[573] porque naõ se
descubrindo em algum Archivo ou nosso, ou de Castella, copia deste
contrato dotal, devemos recorrer à mais constante tradiçaõ, de que foy
hum dote puro, sem imposiçaõ, ou clausula de reserva de alguma direita
soberania.
10 A quinta difficuldade he: _Saber em que tempo foy o Conde D.
Henrique à conquista de Jerusalem, se antes, ou depois de haver entrado
em Portugal?_ Brandaõ diz,[574] que depois, e no anno de 1103. Manoel
de Faria affirma, que antes, mas em tempo, que já estava casado,[575]
e que fora elle hum dos doze Capitães, que Urbano II. Author daquella
expedição, nomeara para a mesma empreza. Temos por segura a sentença de
Brandaõ.
11 Suppostas estas mayores duvidas, e com brevidade resolvidas, o que
resta saber das acções gloriosas deste valeroso Conde, saõ as muitas
vitorias, que alcançou dos Mouros. Dezassete se lhe contaõ das de mayor
fama. Deu foraes a Coimbra, Tentugal, Soure, Certã, Zurara, S. Joaõ da
Pesqueira, Guimarães, e a outras muitas Villas. Dotou, e enriqueceo
muitas Igrejas com rendas, e beneficios, e depois de ampliar com
egregios merecimentos seu grande espirito, foy chamado pelo Senhor ao
descanço eterno em o primeiro de Novembro de 1112, tendo vivido setenta
e sete annos, e governado mais de vinte. Jazem seus ossos, e cinzas na
Sé de Braga.
_D. Affonso Henriques, I. Rey._
12 Nenhum Principe mereceo mais justamente, o titulo de Heroe famoso,
e o nome de primeiro Hercules Lusitano, que o preclaro, e soberano Rey
D. Affonso Henriques; porque se meditarmos os preciosos trabalhos, que
passou na ampliaçaõ da Fé, e estabelecimento da Monarquia Portugueza,
naõ lhe fica o epitheto fabuloso, mas taõ verdadeiro, que o excede.
13 Teve o seu nascimento na Villa de Guimarães, (primeiro Solio, e
Corte dos Principes Portuguezes) a 25 de Julho de 1109 conforme o
melhor calculo;[576] e sendo seu nascimento festejado, assim como
era util, moderou o contentamento de pays, e vassallos hum defeito
corporal em sua pessoa. Dos braços de sua ama Dona Ausenda[577] passou
logo à cultura, e instrucções de Egas Moniz, varaõ de maduro juizo,
e destinado para seu Ayo. Este por continuas deprecações alcançou da
purissima Virgem saude, e desembaraço aos pés do Principe, collocando-o
por divina revelaçaõ no altar da imagem da Senhora de Carquere junto a
Lamego, prodigio, que referem quasi todos os nossos Historiadores, e de
que parece duvidar Mons. de la Clede.[578]
14 Corria o anno 1125, e o inclyco Principe contava dezaseis de idade,
quando na Igreja Cathedral de Çamora, que por este tempo estaria
sujeita à Coroa de Portugal, elle mesmo se armou Cavalleiro, tomando
as insignias militares do altar do Salvador.[579] Passados dous annos,
considerando-se já em idade competente de poder suster o Cetro,
intentou dar principio ao seu governo. Duvidou a Rainha sua mãy, que
até alli governava, entregar-lhe o dominio, e foy preciso ao filho
excluilla por força de armas, e à custa de huma escandalosa batalha,
que lhe ganhou no campo de S. Mamede junto a Guimarães em 24 de Junho
de 1128.
15 Deste dia por diante ficou D. Affonso com absoluto senhorio
de Portugal; e reclusa a Rainha no Castello de Lanhoso, mandou
pedir a ElRey de Leaõ adjutorio, que prompto a veyo soccorrer, mas
infelizmente, pois ficou desbaratado na Veiga de Valdevez;[580]
porém tornando no anno seguinte com exercito mais poderoso, cercou a
Villa de Guimarães, onde se achava o Principe D. Affonso, e a tanto
aperto reduzio a Villa, que se naõ fora Egas Moniz ir occultamente
ajustar com o Leonez certas condições, e estipular para isso sua
palavra, ficaria D. Affonso a arbitrio de seus inimigos; porém naõ
querendo o Principe depois convir nos artigos do Tratado, que Moniz
havia feito, dizem,[581] que este fora a Toledo com mulher, e filhos
presentarse a ElRey de Leaõ, para que tomasse nelle vingança pela falta
do promettido; acçaõ, que o mesmo Rey queixoso julgou sufficiente
satisfaçaõ da palavra de hum vassallo taõ fiel a seu Soberano.
16 Proseguia D. Affonso a conquista da Estremadura com a fortuna taõ
prospera, que parecendo-lhe já pequenos os limites do seu Estado,
passou ao Alentejo, Provincia entaõ sujeita a Ismael, Rey Arabe
poderoso, e com o projecto de augmentar o seu dominio, e extinguir
os Barbaros chegou ao Campo de Ourique. Aqui triunfou de cinco Reys
Mouros, e quinze Regulos confederados, e unidos em hum grosso corpo de
quatrocentos mil combatentes.[582]
17 Facilitou-o para taõ memoravel batalha o prodigioso apparecimento
de Christo crucificado, o qual escolhendo-o para baze da Monarquia
Portugueza, lhe declarou como queria nelle, e nella estabelecer para si
hum Reino com as regalias de Imperio, e que para final distinctivo da
sua promessa lhe dava por estendarte, e escudo as suas cinco Chagas.
Animado o venturoso Principe, antes de entrar no conflicto assentio a
que o acclamassem Rey em 25 de Julho, dia felicissimo do anno 1139,
a cujo titulo se naõ oppoz, tanto que o soube, ElRey D. Affonso de
Castella,[583] e confirmou depois o Papa Alexandre III. no anno 1179
pela Bulla, que começa: _Manifestis probatum est argumentis._[584]
18 A verdade desta mysteriosa visaõ se confirma do juramento do
mesmo Rey D. Affonso, que fez na presença dos Grandes da sua Corte,
passados treze annos, no de 1152, e se conserva no Cartorio de
Alcobaça, donde se tem extrahido alguns traslados,[585] além de hum
grande numero de Authores naõ só nacionaes, mas estranhos, que deste
admiravel apparecimento fazem memoria, como se póde ver nos que
abaixo allegamos,[586] naõ sendo digno de se ler neste particular
o Padre Mariana,[587] que a esta visaõ de Christo, e derivaçaõ das
suas sagradas Chagas ao nosso escudo tem por fabulosa, contra hum taõ
authentico monumento, sendo nelle taõ claros os erros, quando diz aqui
mesmo, que o campo do escudo das armas de Portugal, onde estaõ as
cinco Quinas, he azul, constando a todos ser branco, e que a orla dos
Castellos de ouro em campo vermelho ajuntara D. Sancho II. constando
por escrituras da Torre do Tombo a ajuntara D. Affonso III.
19 Como tudo neste mundo está sujeito ao juizo dos homens, se oppozeraõ
os mal affectos, contradizendo esta appariçaõ, a cujos argumentos
responderemos com brevidade. Dizem naõ haver noticia em Portugal de
hum caso taõ celebre, e maravilhoso, antes de se descobrir a firma do
juramento em tempo delRey Filippe II. Responde-se: que na Chronica
delRey D. Affonso Henriques, que recopilou de outra antiquissima por
mandado delRey D. Manoel o Chronista Duarte Galvaõ se diz assim no
cap. 15.: _E o Principe sahio fóra da sua tenda; e segundo elle mesmo
deu testimunho em sua Historia, vio a Nosso Senhor em a Cruz na mesma,
maneira que disse o Ermitaõ._ Camões, que morreo muito antes da vinda
do Rey Filippe, o cantou tambem no _Cant. 3. oitava 45. e 46_. O
letreiro que mandou pôr ElRey D. Sebastiaõ no arco triunfal do campo de
Ourique escrito em Portuguez, e em Latim pelo insigne André de Resende,
como elle o confessa no _liv. 4. de Antiquit_. faz memoria desta
appariçaõ. O mesmo affirmaõ outros muitos Escritores antiquissimos.
20 Dizem mais: que para taõ grande favor lhe faltava ao Rey competente
santidade. Responde-se que he falso; pois sempre foy tido por Santo;
donde Sá de Miranda na _Carta 5. est. 9._ disse fallando de Coimbra:
_Cidade rica do Santo
Corpo do seu Rey primeiro,
Que inda vimos com espanto,
Há taõ pouco tempo inteiro,
Dos annos que podem tanto._
Confirma esta santidade a tradiçaõ constante, com que assim o nomea
ainda, e publica o vulgo; fazendo-se em nossos tempos na Igreja
de Santa Cruz de Coimbra com grande jubilo nova demonstraçaõ da
integridade de seu corpo, para servir de huma authentica prova ao
projecto, com que o Papa Benedicto XIV. o pertendia beatificar a
instancias dos Reys Fidelissimos D. João V., e D. Joseph I. cujo
processo ficou suspenso pelo embaraço de outros negocios politicos mais
urgentes.
21 Dizem mais: que se o Rey decretou as Armas do Reino com os cinco
escudos em memoria das cinco Chagas de Christo, como houve nellas tanta
variedade, segundo consta de moedas antigas? Responde-se: que sem
embargo de haver nas Armas Variedade no accidental, sempre conservaõ a
substancia dos cinco Escudos, e trinta dinheiros contados de diversos
modos, como bem mostra Manoel de Faria nos Commentarios de Camões cant.
3. desde a est. 153.
22 Hum dos fortes argumentos he ter a escritura a data da Era de
Christo, que naquelle tempo naõ se usava, mas sim a de Cesar.
Responde-se: que naõ só esta escritura, porém outras do mesmo Rey se
achaõ com a Era de Christo, como he a em que fez o Reino feudatario
a Santa Maria de Claraval, que se conserva em Alcobaça com o sello
pendente do Rey, e subscripções dos Grandes daquelle tempo, segundo
a transcreve Brito na Chronica de Cister _livro 3. cap. 5._ e outras
muitas que se podem ver na mesma Chronica _l. 3. c. 6._ e na _Monarquia
Lusitan. liv. 8 c. 26._ e na _Historia Ecclesiast. de Lisboa part. 2.
cap. 56._
23 Deixando outros argumentos, he infallivel, que reconhecendo-se
D. Affonso filho obediente da Igreja, quiz expressar esta devoçaõ
à Sé Apostolica, offerecendo aos Summos Pontifices, naõ por modo
feudatario, mas liberal tributo, dous marcos de ouro,[588] cujo
reconhecimento durou até tempo delRey D. Affonso III. O mesmo acto de
vassallagem devota, e pia, fez a Santa Maria de Claraval em cincoenta
escudos cada anno: e como a sua religiaõ foy igual à sua fortaleza,
tudo, quanto ganhava na guerra, distribuia pelas Igrejas, edificando
magestosos Templos, e tantos, que dizem chegaraõ ao numero de cento e
cincoenta,[589] dando a todos rendas perpetuas com tanta opulencia, e
liberalidade, que alguns delles tem hoje mais, do que entaõ rendia todo
Portugal.[590]
24 Instituio as duas Ordens militares; da Aza, que se extinguio; e de
Aviz, que permanece: admittindo tambem em seu Reino os Cavalleiros de
S. Joaõ de Malta, e Santiago, com quem distribuia donativos cortados
com maõ naõ só liberal, mas prodiga. Perseguio fortemente os Mouros, e
libertou do seu jugo impio muitas terras da Estremadura, Alentejo, e
Algarve em hum progresso continuado de triunfos, que alcançou de vinte
Reys, e dous Imperadores.
25 No anno de 1146 casou com a Rainha Dona Mafalda, filha de Amadeo
III. Conde de Saboya, e Moriana, cujo Real consorcio Deos fecundou
com a producçaõ de tres filhos, e quatro filhas. Contando finalmente
setenta e seis annos de idade, quatro mezes, e doze dias, exhalou
o espirito aos 6 de Dezembro de 1185, estando em Coimbra, havendo
governado cincoenta e sete. Jaz seu corpo inteiro no Convento de Santa
Cruz de Coimbra com grande veneraçaõ, obrando Deos por elle alguns
prodigios, como se podem ver no argumento 10. do _Apparato Historico_,
que para a Beatificaçaõ deste veneravel Rey imprimio em Roma no anno
de 1728 o Doutor Joseph Pinto Pereira, o qual lhe tece vinte e sete
elogios fabricados pelos testimunhos das pessoas mais conspicuas em
virtude, que bem acreditaõ os indicios de serem os merecimentos deste
santo Rey premiados com a eterna felicidade.
_D. Sancho I. segundo Rey._
26 Nasceo D. Sancho em Coimbra a 11 de Novembro de 1154, e creado com
os exemplos, e instrucções de taõ grande pay, logo nos primeiros annos
mostrou os affectos de valor na propensaõ, que tinha ao exercicio das
armas. Ainda naõ contava quatorze annos de idade, quando se achou
na jornada, ou batalha do Arganhal, em que capitaneando o exercito
Portuguez contra o delRey de Leaõ, deixou ao menos indecisa a vitoria,
e defendido seu pay.[591] De vinte e hum annos casou com Dona Dulce,
filha de D. Ramon, Principe de Aragaõ, e logo no anno de 1178, tendo
vinte e quatro de idade, atravessou com hum exercito de doze mil homens
por Castella dentro, até se pôr à vista de Sevilha, Cidade a mais bem
presidiada dos Mouros, e até alli impenetravel às armas christãs.
27 Os Barbaros olhando-nos com desprezo, e como quem se offendia
da nossa confiança, sahiraõ raivosos em tom de batalha, mas foraõ
taõ fatalmente cortados pelas nossas lanças, que a grande copia do
sangue derramado dos corpos fez sensivelmente mudar a cor às aguas do
Guadalquivir.[592] Com este glorioso triunfo mais qualificado ainda
com a opulencia dos ricos despojos, se recolhia D. Sancho a Portugal,
quando noticioso do novo, e apertado cerco, em que os Mouros tinhaõ
posto a Elvas, voou a soccorrer a necessidade daquella Praça; e
desassombrando-a da oppressaõ, que padecia, continuou a jornada, vindo
primeiro satisfazer grato ao Ceo as vitorias recebidas com as liberaes
offertas, que tributou ao Mosteiro de S. Joaõ de Tarouca, de quem se
prezou ser seu especial bemfeitor.[593]
28 Succedeo a morte delRey seu pay, e passados os tres dias das
honras funebres, foy D. Sancho acclamado, e coroado Rey em Coimbra
aos 9 de Dezembro de 1185, anno em que contava trinta e hum de
idade, como bem diz Brandaõ,[594] e naõ trinta e oito, como dizem
outros.[595] Logo solicito em introduzir a paz no seu reinado, cuidou
em convertella em utilidade publica: fez guarnecer muralhas, reparar
edificios, fundar Villas, reedificar Cidades, e cultivar as terras,
acções, que lhe grangearaõ os honrosos cognomes de _Povoador_,[596]
e _Pay da Patria_,[597] manifestando-se muito mais a sua piedade, e
grandeza com os donativos, que offerecia às Ordens Militares com tanta
prodigalidade, que naõ contente de dar a Deos o que possuia, fazia
offerta até do que ainda esperava ter.[598]
29 Com o soccorro de huma poderosa armada do Norte, que caminhando em
direitura das terras da Palestina, mas forçada de hum rijo temporal
veyo abrigarse na foz do Tejo à sombra de Lisboa, foy D. Sancho
conquistar o Algarve; e fundando na Cidade de Silves Igreja Cathedral
com Bispo, continuou a conquista de outras terras daquelle Reino,
intitulando-se Rey tambem do Algarve desde o anno 1188 até 1190.[599]
Porém no anno seguinte 1191 entrando Miramolim Aben Joseph pelas terras
de Portugal com hum poderosissimo exercito, assolou tudo, e recuperou
no Algarve o que tinhamos adquirido, sem ser possivel a D. Sancho
resistirlhe, por nos ter naquella occasiaõ huma grande peste, e fome
attenuado muito as forças.[600]
30 Persuadido em fim que a vista do Principe concilia o amor dos
povos, por se fazer amavel, e estimado, visitava as terras mais
populosas do Reino, e ainda as que o naõ eraõ, fazendo a todas naõ
só a honra da sua presença, mas as mercês da sua generosidade,[601]
sendo primeiramente soccorridos os Lugares sagrados com fabricas,
e esmolas, experimentando-o especialmente o sumptuoso Convento de
Alcobaça, e outros mais da Ordem de S. Bernardo, de quem foy particular
bemfeitor,[602] acabando todos de ver o governo, e a piedade deste
Rey nas clausulas do seu testamento, pelo qual deixou grandes sommas
de ouro, prata, joyas, e tapeçaria repartido por seus filhos, amigos,
pobres, Hospitaes, e Igrejas com taõ boa formalidade, que o Papa
Innocencio III. lho confirmou por huma Bulla, que se conserva no
Mosteiro de Lorvaõ.[603] Depois de reinar vinte e seis annos, deixou em
Coimbra no fim de huma grave doença os alentos vitaes para sempre em 27
de Março do anno de 1211, contando cincoenta e sete de idade. Jaz em
Santa Cruz de Coimbra.
_D. Affonfo II. terceiro Rey._
31 Suspenderaõ-se as mal enxutas lagrimas, que se haviaõ derramado na
morte de D. Sancho, com a festiva acclamaçaõ de seu filho D. Affonso
no mesmo dia 27 de Março de 1211, contando vinte e seis annos de
idade, e havendo já dez que era casado com a Senhora Dona Urraca, por
se ter recebido no anno 1201.[604] Havia nascido em Coimbra a 23 de
Abril de 1185, e padecendo na infancia a continuada molestia de hum
achaque perigoso, foy livre delle milagrosamente pela virtude de Santa
Senhorinha, a quem D. Sancho foy em pessoa supplicar à sua Igreja de
Basto a melhoria, gratificando-lhe depois aquelle beneficio com o
liberal donativo de muitas terras, e privilegios para ellas.[605]
32 Apenas D. Affonso subio ao throno, expressou logo o seu animo
generoso, dando a Villa de Aviz aos Cavalleiros da Ordem militar deste
nome, que haviaõ residido em Evora; e como pelos annos 1212 se havia
alterada a paz estabelecida entre ElRey D. Affonso IX. de Castella, e
Mahomet IV. intentando este a conquista de Hespanha, e empenhando todas
as forças, foy tambem preciso a ElRey de Castella valerse, além de
outros, do adjutorio delRey de Portugal, que lhe mandou grande numero
de soldados, os quaes tiveraõ grande parte no triunfo, que dos Arabes
alcançou ElRey de Castella na celebre batalha chamada das Navas, por se
appellidar assim sitio, onde se deu, junto à serra Morena a 16 de Junho
de 1212.[606]
33 Pouco affavel, e conforme se mostrou D. Affonso com seus irmãos, e
assim intentou tirar as Villas, e terras a suas Santas Irmãs, que seu
pay lhes havia deixado, de que resultaraõ graves litigios, que em parte
fez serenar o Pontifice com censuras, e ElRey de Leaõ com as armas;
e temendo igual perseguiçaõ seus irmãos, D. Fernando, desamparando a
patria, passou-se para Castella, e D. Pedro para Marrocos.[607]
34 No anno de 1217 haviaõ partido de varios portos do Norte
differentes náos para a expediçaõ, e conquista da Terra santa, as quaes
chegando a incorporarse na altura do Algarve, compunhaõ huma fortissima
armada de trezentas vélas. Quizeraõ voltar o Cabo de S. Vicente, e
levantando-se furiosa tormenta, vieraõ demandar o abrigo da barra de
Lisboa, de cuja vinda aproveitando-se o Bispo della D. Sueiro, (e naõ
D. Mattheus, como nossos Historiadores dizem, sem reflectirem no reparo
do insigne Chronista Brandaõ),[608] ajudado com outros Commendadores
das Ordens Militares, e das reclutas de gente, que ElRey havia mandado
conduzir, foraõ todos expugnar a Villa de Alcaçer do Sal, Praça de
armas fortissima, presidiada dos Mouros, e huma das mais importantes,
que elles conservavaõ na Hespanha. Naõ obstante a grande resistencia,
que faziaõ ao nosso sitio com resoluçaõ, e esforço auxiliado dos Reys
de Cordova, Sevilha, Jaen, e Badajoz, ficaraõ finalmente rendidos
depois de repetidos assaltos, e porfiada peleja.
35 Parece que o aspecto desta vitoria, que alcançámos, taõ formidavel
para os Arabes, os devia intimidar; porém elles mais irritados,
renovando numerosos esquadrões, entraõ por Portugal com intentos de
ganharem Elvas, a quem ElRey com felicidade promptamente soccorreo, e
venceo; e penetrando por Andaluzia vitorioso, poz grande terror aos
Mouros. Outras muitas batalhas ganhou nosso Monarca sempre em grande
credito das armas christãs, até que completando trinta e oito annos de
idade, e doze de reinado, concluio seus dias em Coimbra aos 25 de Março
de 1223. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.
_D. Sancho II. quarto Rey._
36 Foy Coimbra patria de D. Sancho, onde nasceo a 8 de Setembro de
1202, padecendo logo na sua infancia as disposições de pouca saude.
Entrou a governar a 25 de Março de 1223, e mostrou que naõ degenerara
do valor de seus predecessores, nem nos desejos de dilatar a Fé, nem
de extinguir os Arabes; pois ainda que o mayor numero dos nossos
Chronistas o infamaraõ de pouco cuidadoso para o governo, sabemos
que no anno de 1225 entrara pelo Alentejo na frente de hum poderoso
exercito assolando o poder Ismaelita com tanto valor, que mereceo por
esta acçaõ os publicos, e honrosos elogios, que o Papa Honorio III. lhe
mandou.[609]
37 Continuou a guerra contra os Mouros sempre vitorioso até o
anno de 1242, recobrando delles à força de armas muitas Praças, e
Villas do Alentejo, e Algarves, Elvas, Jurumenha, Serpa, Aljesur,
Mertola, Cacela, Ayamonte, e Tavira. Fez porém ElRey diminuir estes
prosperos successos, consentindo na oppressaõ, que se fazia ao estado
Ecclesiastico, de que resultaraõ gravames, queixas, e censuras
Pontificias. Outros attribuem estas desordens à demasiada introducçaõ
dos validos nas cousas do governo, e nimia frouxidaõ delRey, procedida
tambem da sua bondade, como diz o Plataõ Portuguez.[610] Porém vendo
o Pontifice que as suas admoestações eraõ inuteis quanto ao vexame
do Clero, Innocencio IV. o depoz do throno pelo Decreto, que anda
inserto no livro 6. das Decretaes cap. 2. que principia _Grandi non
immerito_,[611] substituindo em seu lugar por Governador a seu irmão
D. Affonso, Conde de Bolonha, que entaõ se achava no Reino de França.
38 Chegou o Infante Regente novamente nomeado, e aceito por commum
consentimento dos Tres Estados do Reino, e vendo-se D. Sancho
infelizmente deposto do governo, se valeo de seu primo ElRey D.
Fernando de Castella, o qual formando hum exercito em seu favor,
marchou contra Portugal; mas intimando-se aos Generaes Castelhanos as
censuras, e Decretos Pontificios contra os que embaraçassem a regencia
de D. Affonso,[612] desenganado D. Sancho da sua pertençaõ, se recolheo
a Toledo, onde entregue a obras pias, executou acções dignas de eternos
elogios; porque naõ satisfeito de ter declarado a sua generosa virtude
com a erecçaõ de alguns Templos em Portugal, mandou fazer a Capella
dos Reys na Sé de Toledo, onde se mandou enterrar. Acabou finalmente
cheyo de desgostos, e merecimentos para alcançar a verdadeira coroa da
eternidade feliz em 4 de Janeiro do anno de 1248, tendo quarenta e seis
de idade, e vinte e cinco de governo.
_D. Affonso III. quinto Rey._
39 Era D. Affonso irmaõ segundo delRey D. Sancho, e havia casado no
anno de 1235 em França com Matilde, Condesa proprietaria de Bolonha,
sendo chamado para governar Portugal pelos defeitos, que inventaraõ, ou
criminaraõ a D. Sancho. Jurou primeiramente em França na presença de
certos Prelados Portuguezes, que lá se achavaõ a 6 de Setembro de 1245,
alguns artigos pertencentes ao bom governo. No anno seguinte entrou
no Reino com intento de conquistar o Algarve, empreza, que no anno de
1250 o conseguio quasi plenamente,[613] e em que se distinguio muito o
insigne D. Payo Peres Correa, Mestre da Cavallaria de Santiago.
40 Como as conquistas de Portugal, e todas as mais terras de Hespanha
occupadas pelos Mouros eraõ sem limite, e ficavaõ no dominio daquelles
Principes Christãos, que primeiro as ganhavaõ, intentou D. Affonso
depois de sujeitar o Algarve reduzir tambem a seu dominio algumas
terras de Andaluzia, como com effeito subordinou as Villas de Aroche, e
Arecena, que ao depois passaraõ para o senhorio de Castella.[614]
41 Proseguia D. Affonso com tranquillidade no seu governo,
estabelecendo leys muy uteis para o bom regimen;[615] porém no meyo
de tanta paz elle mesmo se constituio causa de hum geral escandalo, e
perturbaçaõ do Reino com o repudio, que fez de sua legitima esposa a
Condessa Matilde, casando segunda vez com Dona Brites, filha bastarda
delRey D. Affonso _Sabio_ de Castella no anno de 1253, motivo de haver
tanto disturbio com as censuras Ecclesiasticas, que opprimiraõ o povo,
e naõ tiveraõ fim, senaõ com a morte da Condessa sua primeira mulher.
Entaõ pedindo os Bispos de Portugal ao Pontifice quizesse dispensar com
ElRey no segundo matrimonio, tudo concedeo o Papa Urbano IV. e ficou o
Reino aliviado dos terriveis effeitos daquella Regia contumacia.[616]
42 Alguns Escritores se enganaraõ[617] em dizer que o Reino do Algarve
fora dado em dote a D. Affonso III. e tal naõ foy, como doutissimamente
provaõ D. Joseph Barbosa, e outros,[618] porque só consta que os Reys
de Castella eraõ usufructuarios do Algarve desde o anno 1253 até o de
1264, em que se commutou em cincoenta lanças, com que Portugal havia
de ajudar a Castella em caso de necessidade. Depois no anno de 1267
se tirou esta pensaõ em agradecimento de hum grande soccorro, que o
Infante D. Diniz levou a D. Affonso o _Sabio_ contra os Mouros.
43 Vendo-se ElRey desassombrado das guerras, e censuras Pontificias,
tornou a meter o Reino em novas oppressões com o máo tratamento, que
dava ao Sacerdocio Portuguez. Os Prelados, querendo defender o seu
respeito, queixaraõ-se ao Papa, que entaõ era Clemente IV. o qual
reprehendendo-o, e continuando as violencias no estado Ecclesiastico,
continuaraõ tambem os Pontifices successores Grerio X., e Joaõ XX. ou
XXI. com repetidas censuras, a que finalmente ElRey mostrou querer
obedecer, e sujeitarse às determinações do Papa.[619]
44 Naõ obstante esta contumacia, pela qual talvez nosso Poeta[620]
equivocadamente lhe chamasse _Bravo_, foy ElRey D. Affonso de notavel
governo: adiantou o commercio, reedificou muitos Lugares do Reino,
fundou alguns Conventos, como o de S. Domingos de Lisboa, o de Elvas,
e Santa Clara de Santarem.[621] Alimpou o Reino de facinorosos,
estabeleceo feiras publicas, e morreo em Lisboa a 16 de Fevereiro de
1279 com trinta e dous annos de reinado, e sessenta e nove de vida. Foy
depositado seu corpo no Convento de S. Domingos de Lisboa, e daqui se
trasladou para o de Alcobaça no anno de 1289, onde agora jaz.
_D. Diniz sexto Rey._
45 Nasceo em Lisboa a 9 de Outubro do anno 1261. Conferio-lhe o
Sacramento do Bautismo o Bispo do Porto D. Vicente Mendes, e foy seu
padrinho D. Egas Lourenço da Cunha, hum dos principaes Cavalheiros
desta nobilissima familia, e privado delRey D. Affonso III. Teve por
ayos a Lourenço Gonçalves Magro, neto do grande Egas Moniz, e a Nuno
Martins de Chacim, que ambos concorreraõ para pulirem o precioso,
e Regio animo de D. Diniz, unidos com os desvelos de seu Mestre D.
Aymerico, que depois foy Bispo de Coimbra.[622]
46 A primeira acçaõ notavel de D. Diniz, sendo ainda menino de quatro
annos e meyo, foy quando seu pay ElRey D. Affonso III. o mandou a
Sevilha com hum poderoso exercito soccorrer a ElRey de Castella seu
avô[623] contra os Mouros Africanos, que invadiraõ no anno 1266 a
Hespanha, e correndo o de 1279 em 16 de Fevereiro, dia, em que morreo
D. Affonso III. foy acclamado Rey com todas as ceremonias costumadas
em Lisboa, tendo dezoito annos de idade menos oito mezes, e começando
a governar em companhia da Rainha sua mãy, naõ consentio muito tempo o
novo Rey esta coadjutoria, e assim a excluio com respeito, mas naõ sem
mágoa, e sentimento da Rainha.
47 Constituido D. Diniz Senhor do Reino, principiou a visitallo, como
era costume, sendo o Alentejo a primeira Provincia, que logrou esta
honra da sua presença, da qual tambem participou a Beira, e Estremadura
com a confirmaçaõ dos seus foros, e privilegios, fortificaçaõ das
fronteiras, e boa administraçaõ da justiça, experimentando tambem as
mesmas honras as outras Comarcas do Reino nos annos seguintes.
48 No de 1282, estando ElRey em Trancoso, recebeo por sua mulher a
Rainha Santa Isabel em 24 de Junho, dia de S. Joaõ Bautista, e neste
mesmo anno compoz as controversias, que havia no estado Ecclesiastico,
e estabeleceo leys muy uteis para a Republica, especialmente remediando
a dilaçaõ nas demandas, e assinando modo facil para se processarem
as causas, e que a justiça nos pobres tivesse mais segurança. Este
cuidado experimentaraõ tambem as povoações, as quaes ElRey melhorou,
mudando algumas para sitios mais defensaveis, e accommodados, como foy
Mirandela, e outros.
49 Huma das acções suas bem considerada, e que os Historiadores louvaõ,
foy revogar todas as doações inofficiosas, que tinha feito em dispendio
dos bens da Coroa logo no principio do seu reinado, incorporando outra
vez com melhor acordo, e conselho de pessoas doutas ao Padroado Real
todas as terras, e fazendas, que inconsideradamente doara; e costumava
dizer, quando lhe fallavaõ nesta materia: _Que justamente se tirava o
que injustamente se concedera._[624] Passou esta Ley em Coimbra a 26 de
Dezembro de 1283, na qual revogaçaõ exceptuou unicamente o Chanceller
Mór D. Domingos Annes Jardo, Bispo de Evora, e Lisboa, pelos grandes
serviços, que tinha feito ao Reino.
50 Naõ causou pequenos cuidados a ElRey D. Diniz o orgulho de seu irmão
D. Affonso, porque andando com o projecto de lhe usurpar o Reino, pois
dizia que a elle lhe pertencia, por nascer depois que o Papa revalidara
o matrimonio de seu pay com a Rainha Dona Brites, e D. Diniz ter
nascido antes, e por isso illegitimo,[625] com este motivo chegaraõ
a pegar em armas, e D. Diniz cercando-o em Arronches apertadamente,
o fez convir em composições, intervindo tambem na reconciliaçaõ dos
dous irmãos a Rainha Santa Isabel, e a Rainha de Castella Dona Maria,
ajustando-se as pazes em Badajoz, onde tambem se acharaõ a nossa Rainha
Dona Brites, e sua filha a Infanta Dona Branca aos 13 de Dezembro de
1287.
51 Alcançou D. Diniz do Papa Nicolao IV. no anno 1288 o poder separarse
a Ordem Militar de Santiago da sujeiçaõ dos Mestres de Castella; e como
era muy amante das letras, e que sabia cultivallas, instituio em Lisboa
a primeira Universidade, que houve no Reino, por Bulla do mesmo Nicolao
IV. expedida em Roma a 13 de Agosto de 1290,[626] e continuando os
estudos publicos em Lisboa com grande fruto, e aceitaçaõ, considerados
todavia alguns inconvenientes, ordenou o mesmo Rey que se transferisse
para Coimbra no anno 1308.
52 Entre algumas leys notaveis, que fez promulgar, foy huma, em que
prohibio as Religiões herdarem bens de raiz, acudindo nisto à eminente
ruina do estado dos Nobres, e mais povo, se continuassem as Igrejas
nas heranças, como bem adverte o Chronista Brandaõ;[627] e porque esta
limitaçaõ nos bens Ecclesiasticos naõ fosse interpretada por acçaõ
menos pia, desmentio o minimo conceito contra a sua generosidade,
dispendendo na fabrica de Templos, e erecçaõ de Conventos muito
cabedal, bastando para prova da sua devota grandeza, e justificarse de
naõ desaffecto aos bens da Igreja, a fundaçaõ do Real Mosteiro de S.
Diniz de Odivellas no anno de 1295, e o de Santa Clara de Coimbra, e
Villa do Conde, dotados tambem em seu tempo, ainda que naõ foraõ estes
dous participantes da sua liberalidade.
53 Foy ElRey D. Diniz Principe insigne em muitas virtudes, e em tres
excedeo a todos os Monarcas do seu tempo, na _Justiça_, _Verdade_, e
_Liberalidade_. Pela primeira foy eleito Juiz arbitro em companhia
delRey de Aragaõ para sentenciar a causa delRey D. Fernando de
Castella, e D. Affonso de Lacerda sobre a Coroa de Castella, e Leaõ,
em cuja causa deu sentença na Cidade de Tarragona de Aragaõ sem queixa
de nenhuma das partes, e compoz outras differenças, que havia entre os
Reys de Castella, e Aragaõ.
54 A sua liberalidade foy tanta, que a D. Fernando, hum dos mesmos dous
Reys, pedindo-lhe grande somma de dinheiro emprestado, D. Diniz lho
deu gratuitamente com grande magnificencia, e ainda mais do que pedia,
porque lhe deu hum milhaõ de escudos, e huma copa de huma finissima
esmeralda, que se avaliou em onze mil e tantos cruzados,[628] e naõ
houve Cavalheiro de ambos os Reinos, que delle naõ alcançasse dadivas,
e mercês grandiosas; e com tudo deixou, quando morreo, muita riqueza a
seu filho sem offensa de seus vassallos.
55 Elle foy o primeiro, que introduzio no Paço rezarem-se as Horas
Canonicas, e ter para isso Capella permanente. Instituio a Ordem
Militar de Christo dos bens dos Templarios, que se extinguiraõ no seu
tempo. Da Agricultura teve hum especial cuidado, donde obteve o cognome
de _Lavrador_, aos quaes chamava nervos da Republica, e por este
augmento, e diligencia mereceo chamarem-lhe tambem _Pay da Patria_.
Teve desavenças com ElRey D. Fernando de Castella, e entrou por seu
Reino com poderoso exercito, porém com casamentos serenou a guerra.
58 Em seus ultimos annos padeceo alguns desgostos com seu filho o
Infante D. Affonso, procedidos da dura condiçaõ do Infante, e inveja,
que tinha dos favores, que ElRey fazia a D. Affonso Sanches, seu meyo
irmaõ. Houve guerras civis com grande disturbio do Reino, e cessaraõ
com as supplicas da Rainha Santa Isabel, e de S. Raimundo. Morreo
em fim este glorioso Rey em Santarem a 7 de Janeiro de 1325, tendo
vivido sessenta e tres annos, e tres mezes, reinado quarenta e cinco,
dez mezes, e vinte dias.[629] Jaz seu corpo no insigne Mosteiro de
Odivellas em soberbo mausoleo.
_D. Affonso IV. setimo Rey_.
57 Começou a empunhar o Cetro ElRey D. Affonso IV. desde 7 de Janeiro
de 1325 em idade de trinta e tres annos, e onze mezes, menos hum dia,
contados desde 8 de Fevereiro de 1291 de seu nascimento em Coimbra,
conforme a exactissima, e verdadeira Chronologia do Academico Francisco
Leitaõ Ferreira.[630] Desde a primeira idade mostrou o aspero natural,
de que era dotado. Casou em Mayo de 1309[631] com a Senhora Dona
Brites, filha delRey D. Sancho o IV. de Castella, e em Lisboa se
celebraraõ os desposorios com grande fausto, e pompa.
58 Com o novo estado, que o fez separar de casa, e governo, foy dando
entrada a muitas occasiões de o perverterem homens estragados, fazendo
capricho de os amparar; e dando-se todo ao exercicio da caça, tomava
por occupaçaõ o que só devia ser divertimento, e este excesso lhe
causou alguns desgostos. Como o animo, e condiçaõ delRey era aspero,
de fórma que por elle grangeou o epitheto de _Bravo_, emprendeo acções
arduas, e teve grandes discordias com seu pay, e seu sobrinho D.
Affonso Rey de Castella, com bastante damno de ambos os Reinos.[632]
59 Todavia estas desavenças naõ foraõ sufficientes para deixar de
ajudar com sua pessoa, e vassallos a ElRey seu genro na famosa batalha
do Salado contra Ali-Boacem, Rey de Marrocos, e ElRey de Granada,
cujos exercitos rompeo, desbaratou, e venceo com grande credito do
valor Portuguez em 30 de Outubro de 1340.[633] Fez por duas vezes
mudar os Estudos geraes, que seu pay instituio; a primeira de Coimbra
para Lisboa no anno de 1338, a segunda de Lisboa para Coimbra no de
1354,[634] concedendo-lhe, e ampliando-lhe varios privilegios.
60 Obrou algumas acções de piedade regia, como foy o edificio da Sé
com erecçaõ de Capellas, e renda fixa para os Capellães cantarem;
hospitaes, e outras acções pias. O que lhe causou mayor affronta na
sua memoria, foy além das discordias, e desobediencia, que temos dito,
o consentir que no anno 1355 tirassem a vida com tanta crueldade à
formosa D. Ignez de Castro, que clandestinamente estava casada com o
Principe D. Pedro seu filho. Falleceo na Cidade de Lisboa em 28 de Mayo
de 1357 com sessenta e seis annos de vida, tres mezes, e vinte dias, e
de reinado trinta e dous anos, quatro mezes, e vinte e hum dias. Jaz na
Basilica de Santa Maria, que foy a antiga Metropole de Lisboa, da parte
do Evangelho, e na Capella Mór[635].
_D. Pedro I. oitavo Rey._
61 O dia do nascimento delRey D. Pedro I. he calculado com muita
variedade pelos nossos Escritores. O diligentissimo Academico
Francisco Leitaõ Ferreira depois de referir todas as opiniões, que
ha neste ponto, conclue, e assina por mais certo o dia 18 de Abril na
antemanhã de huma Sesta feira em o anno do Senhor 1320.[636] Tanto
que este Monarca tomou posse do governo, que foy a 28 de Mayo de
1357, tendo entaõ de idade trinta e sete annos, hum mez, e nove dias,
cuidou logo em se vingar dos que foraõ complices na morte de Dona
Ignez. Tinhaõ elles fugido para Castella, e como em Portugal andavaõ
tambem refugiados tres Hespanhoes facinorosos, contratou ElRey com
o de Castella que lhos entregaria, com condiçaõ de lhe dar a Alvaro
Gonçalves, Meirinho Mór, Pedro Coelho, e Diogo Lopes Pacheco, que eraõ
os aggressores daquella innocente morte.
62 Fez-se o contrato com grande escandalo, porque dizem que elle havia
promettido com juramento a ElRey seu pay de perdoar aos executores da
morte de Dona Ignez. Na Villa de Santarem se poz por obra a vingança,
e D. Pedro mandando justiçar a dous, (porque Diogo Lopes salvou-se a
beneficio de hum pobre, que o avisou antes de prenderem os outros,) com
fera, e terrivel execuçaõ lhes mandou tirar os corações a hum pelas
costas, a outro pelos peitos, e depois queimallos.[637] Parece que
este excesso, com que castigava os delictos, lhe adquirio o epitheto
de _Justiceiro_, que o vulgo com menos respeito, e mais ignorancia
mudou para o cognome de _Cruel_, de que os deixou desenganados o Plataõ
Portuguez Sá de Miranda, quando disse delle:[638]
_Pedro, que amores teve com a Justiça Real, e naõ cruel inclinaçaõ._
63 Socegada a indignaçaõ delRey, passou a mostrar ao Reino com toda a
legalidade como Dona Ignez de Castro tinha sido sua legitima mulher,
fazendo depois de morta que a reconhecessem como Rainha, e ordenando
lhe humas honras funebres nunca até aquelle tempo vistas com tanto
apparato, e pompa. Como era taõ amante da Justiça, fez leys para a
boa administraçaõ della, que com temor, e reverencia se observava,
administrando-a elle muitas vezes, como se fora particular Ministro.
Ordenou que naõ houvesse Letrados, que advogassem, e assim evitou as
dilações, que costuma haver nos litigios por causa delles.
64 Admiraõ-se com razaõ os nossos Chronistas, quando caracterizaõ o
genio delRey D. Pedro; porque sendo por huma parte muy severo, por
outra era muy affavel, amigo de festas, e alegrias; muy liberal, de
fórma que lhe parecia dia perdido aquelle, em que naõ fazia mercês: e
unidas estas boas qualidades com a paz, que conservou no seu reinado,
soube infundir em seus vassallos hum tal amor, que depois da sua morte
diziaõ, que _taes dez annos, como os de seu governo, nem os tinha visto
Portugal, nem esperava de os tornar a ver_. Achando-se na Villa de
Estremoz, faleceo aos 18 de Janeiro de 1367 em huma segunda feira pela
madrugada. Viveo quarenta e seis annos, e nove mezes justos; reinou
nove annos, sete mezes, e vinte e hum dias. Está sepultado em Alcobaça
junto de sua amada esposa a Rainha Dona Ignez de Castro.
_D. Fernando, nono Rey._
65 Em huma segunda feira, que se contavaõ 31 de Outubro de 1345,
vespera de todos os Santos, nasceo em Coimbra ElRey D. Fernando,
conforme a Chronologia mais bem averiguada.[639] A natureza o dotou
de taõ gentil, e regia presença, que ainda disfarçado entre muitos
era logo conhecido como Rey pela magestade da pessoa.[640] O genio,
e condiçaõ era muy suave, e branda: froxo, e remisso lhe chamou
Camões,[641] e totalmente diverso do rigor delRey D. Pedro. Esta
brandura ajudada com o assenso, que deu a validos, o fizeraõ arruinar,
e correr quasi a mesma fortuna delRey D. Sancho II.
66 Subio ao throno em o mesmo dia, que faleceo seu pay, contando
vinte e dous annos de idade, e começando a governar o mais rico, e
opulento Rey, que até alli conheceo Portugal, pelos grandes thesouros,
que tinhaõ junto seu Pay, e Avós.[642] Cuidou logo em reedificar as
Fortificações do Reino, e guarnecer as Praças com o preciso, fazendo
mercês com profusa liberalidade.
67 Mal aconselhado intentou a conquista de Castella por morte de D.
Pedro o _Cruel_, tendo por injusto possuidor a ElRey D. Henrique,
como bastardo, e fratricida, e pertendendo D. Fernando aquella Coroa
como bisneto delRey D. Sancho. Para esta guerra fez liga com ElRey de
Granada, e tambem com ElRey D. Pedro de Aragaõ, a quem pedio sua filha
Dona Leonor por mulher; e durando algum tempo a guerra com mortes, e
damnos de parte a parte, veyo a cessar por intervençaõ do Papa Gregorio
XI. fazendo-se o Tratado de paz com Castella na Cidade de Evora no
ultimo de Março de 1371.[643]
68 Esquecido ElRey de huma taõ ratificada promessa, rendendo-se ao
forte amor de Dona Leonor Telles de Menezes, mulher de Joaõ Lourenço da
Cunha, Senhor de Pombeiro, taõ cegamente se namorou della, que buscando
pretextos para lhe annullar o matrimonio, a usurpou, e recebeo por
mulher propria, atropelando todos os inconvenientes, e naõ fazendo
apreço da murmuraçaõ do povo amotinado.[644] Joaõ Lourenço da Cunha
se passou para Castella, e de lá se oppoz quanto pode a ElRey, já
militando nas tropas inimigas, já intentando darlhe peçonha, por cujos
crimes lhe foraõ confiscados seus bens, que tinha neste Reino.
69 Recebido ElRey D. Fernando, e vendo o de Castella a falta da sua
palavra, o repudio, que havia tambem feito da sua filha, e a infracçaõ
da paz, porque novamente aliado com o Duque de Lencastro, filho delRey
Duarte III. de Inglaterra, que por ser casado com Dona Constança, filha
delRey D. Pedro o _Cruel_, se intitulava Rey de Castella, e pertendia
a Coroa, por todos estes motivos estimulado ElRey D. Henrique delRey
D. Fernando, ao mesmo tempo que esperava delle satisfaçaõ, entrou por
Portugal com grande exercito, dizendo, que naõ embainharia a espada,
sem que vingasse primeiro os aggravos recebidos.
70 Chegou até Lisboa, deixando primeiramente devastadas muitas
povoações da Provincia da Beira com igual ruina, e estrago dos
moradores de tal fórma, que, como bem diz Camões,[645] esteve perto de
destruirse o Reino totalmente. ElRey de Castella se alojou no Convento
de S. Francisco, e a Cidade, e seus habitadores padeceraõ tanta
oppressaõ, que já como desesperados pozeraõ fogo a parte della, e os
Castelhanos ajudaraõ a executar, e augmentar o incendio.[646] Achava-se
ElRey D. Fernando neste tempo na Villa de Santarem muy socegadamente,
vendo correr para Lisboa as bandeiras inimigas, e subir ao Ceo o fumo,
e as lavaredas de huma boa parte desta Cidade queimada, e elle com
tanto descuido, como diz Manoel de Faria,[647] sem dar providencia, ou
remedio a tanta ruina, e insultos, que os Castelhanos commettiaõ já com
soberba descuberta por falta da opposiçaõ.
71 Quiz Deos que o Papa Gregorio XI. que neste tempo ainda residia com
toda a Curia Romana em Avinhaõ de França, atalhasse com sua intervençaõ
promptamente tantas hostilidades, expedindo para ajustamento de pazes
ao Cardeal de Santa Rufina Guido de Monforte, que fez a composiçaõ
entre ElRey Henrique de Castella, e o nosso D. Fernando pacificamente
aos 19 de Março de 1373, avistando-se ambos os Monarcas no meyo do
Tejo defronte de Santarem com grande, e vistosa comitiva de pequenas
embarcações, e jurando nas mãos do Cardeal Legado a observancia dos
artigos das pazes, e o ajuste dos casamentos da irmã, e filha de D.
Fernando.[648]
72 Toda a frouxidaõ, e infelicidade, que ElRey tinha nas emprezas
militares, emendou no governo da paz, executando acções muy benemeritas
de o constituirem por este lado glorioso. Mandou cercar de novos muros
muitas Cidades, e Villas: os de Lisboa, que principiando-se no ultimo
de Setembro de 1373, se viraõ de todo acabados no mez de Julho de 1375.
Santarem, Obidos, Ponte de Lima, Viana, Almada, Torres Vedras, Leiria,
Almeida, com outros muitos Castellos, e fortificações por todas as
Comarcas do Reino. Promulgou tambem leys muy uteis; e para que houvesse
mais Letrados, tornou a mudar a Universidade de Coimbra para Lisboa no
anno de 1377, em razaõ de que alguns Lentes, que mandara vir de Reinos
estrangeiros, naõ queriaõ ler senaõ em Lisboa.[649] Inventou novos
arbitrios sobre a utilidade do commercio,[650] e fez varias mercês com
liberalidade regia.
73 Porém novamente inquieto, renovando a liga com Inglaterra, e
rompendo a paz, continuou a guerra contra Castella no anno 1381, e
padeceo Portugal tanto damno dos amigos Inglezes, como dos inimigos
Castelhanos,[651] concluindo-se finalmente com o casamento de Dona
Brites, filha delRey D. Fernando, com ElRey de Castella D. Joaõ I. que
se effeituou no anno 1383, e neste mesmo anno faleceo ElRey na Cidade
de Lisboa nos Paços do Limoeiro aos 22 de Outubro, tendo de idade
trinta e oito annos, menos nove dias, e de governo dezaseis annos, nove
mezes, e quatro dias. Jaz no Coro novo do Convento de S. Francisco de
Santarem.
_D. Joaõ I. decimo Rey._
74 Com a morte delRey D. Fernando se originaraõ no Reino grandes
inquietações pela falta de Principe legitimo, que succedesse na
Coroa. A mayor parte dos Portuguezes receava muito que o Reino fosse
recahir no dominio dos Castelhanos; e ainda que a Rainha D. Leonor
ficou por Governadora, e Regente de Portugal, em quanto sua filha
Dona Brites, que havia casado com ElRey de Castella, naõ tinha filho
capaz de empunhar o Cetro, ella usando de toda a jurisdiçaõ, e poder,
mandou acclamar, ainda que infaustamente, em algumas Cidades, e
Villas do nosso Reino a ElRey de Castella, e sua mulher por legitimos
successores.[652]
75 Por esta causa se fez a todos odiosa a Rainha, e muito mais pela
grande attençaõ, que ella dava ao Conde de Ourem Joaõ Fernandes
Andeiro, seu escandaloso valido, por cujas mãos corriaõ todos os
negocios, naõ sem murmuraçaõ do povo, e inveja dos Grandes, os quaes
julgando o valimento culpa, e os grandes favores, que a Rainha fazia
ao Conde, infamia da Magestade, induziraõ ao Infante D. Joaõ, Mestre
de Aviz, irmaõ do Rey defunto D. Fernando, e filho natural delRey D.
Pedro, que havia nascido em Lisboa aos 11 de Abril de 1357, a que
obviasse as fatalidades, tropeços, e perigos, em que se via titubear
a Monarquia, matando ao Conde Joaõ Fernandes Andeiro, pedra de tanto
escandalo, como com effeito executou o Infante dentro dos proprios
Paços da Rainha, (que hoje servem de Limoeiro) em 6 de Dezembro de
1383.[653]
76 Executou-se esta fatal acçaõ com grande alvoroço, e contentamento
do povo, o qual estava taõ affeiçoado ao Infante Mestre de Aviz, que
publicamente, e com grandes vivas o declarou Defensor, e Governador do
Reino em 16 de Dezembro do mesmo anno de 1383. Este honroso emprego
começou a exercer o Infante com muita felicidade, sem embargo de ter
contra si a mayor parte da Nobreza, que toda estava pela Rainha, e o
grande poder de Castella, o qual intentando opprimir a liberdade do
nosso Reino, entrando com violencia pelas suas fronteiras, e pondo
sitio a Lisboa por mar, e por terra, foy obrigado a se retirar sem
fazer nada depois de perder bastante gente.[654]
77 Com esta retirada dos Castelhanos, e conseguindo os Portuguezes
algumas vitorias, em que teve grande parte o invencivel valor do famoso
Heroe Nuno Alvares Pereira, estando na Cidade de Coimbra o Infante
Regente D. Joaõ Mestre de Aviz, foy em acto de Cortes acclamado Rey de
Portugal em huma quinta feira, que se contavaõ 6 de Abril de 1385 pelas
nove horas da manhã,[655] tendo entaõ de idade o novo Rey vinte e sete
annos, menos cinco dias, conforme o calculo de alguns,[656] ou vinte
e oito, conforme outros,[657] ou, o que temos por mais certo, vinte e
sete annos, onze mezes, e vinte e seis dias, concorrendo tambem muito
para esta acclamaçaõ o talento do insigne Jurisconsulto Joaõ das Regras
com as efficazes razões, que allegou neste caso.[658]
78 Depois de taõ gloriosa exaltaçaõ, occupado ElRey com mayores
cuidados da guerra, e de segurar na cabeça a Coroa, distribuindo
primeiro algumas mercês pelos benemeritos, passou o seu valor a
occupar aquellas Praças fortes, que conservavaõ o partido de Castella,
reduzindo-as à sua antiga obediencia; e ainda que ElRey de Castella
continuando os seus projectos veyo atacar Portugal com hum formidavel
exercito, o novo Rey lhe desfez inteiramente as forças na celebre,
e grande batalha de Aljubarrota, em que triunfou de mais de oitenta
mil homens, sendo os nossos em numero taõ desproporcionado, que por
isso ajudaraõ a augmentar no mundo a fama de vitoria taõ celebrada,
e gloriosa em todas as memorias,[659] e succedida a 14 de Agosto de
1385, vespera da Assumpçaõ gloriosa da Senhora.
79 Na Cidade do Porto, e em 2 de Fevereiro de 1387 se recebeo com a
Senhora Dona Filippa, filha do Duque de Lencastre em Inglaterra, e com
esta alliança pode recuperar todas as Povoações, e Praças, que nos
tinha usurpado ElRey de Castella, com o qual ajustando o Duque hum
tratado de paz, houve tambem entre nós, e os Castelhanos huma suspensaõ
de armas, que interrompida depois com alguns successos, se veyo
finalmente a segurar a paz no anno 1399 entre os dous Reinos.
80 Desta sorte restabelecida a tranquillidade em Portugal, se resolveo
ElRey ir pessoalmente expugnar Ceuta, Cidade famosa de Africa, para
cuja gloriosa facçaõ mandou compôr huma armada de duzentas e vinte
vélas, que com grande estrago dos Mouros, e credito da Naçaõ Portugueza
conseguio por augmento da Fé o fim de taõ santa idéa dentro de hum dia,
que foy 21 de Agosto de 1415, accrescentando depois aos titulos de Rey
de Portugal, e do Algarve o de _Senhor de Ceuta_.[660]
81 Para evitar a confusaõ, que havia em contar os annos, pondo-se
muitas vezes a Era de Cesar juntamente com o anno de Christo, de que
resultavaõ embaraços, e duvidas nos documentos, e escrituras publicas,
mandou esquecer, e supprimir aquella antiga, e praticada computaçaõ
da Era de Cesar, e que se usasse em todas as escrituras calendar o
anno pela Epoca do Nascimento de Christo Senhor nosso, passando para
isto huma Ley escrita em 22 de Agosto de 1420,[661] que parece só teve
pleno effeito do anno 1422 por diante, conforme o daõ a entender quasi
todos os Escritores.[662] Nisto imitou o exemplo delRey D. Joaõ I.
de Castella, que tambem havia seguido o delRey de Aragaõ, como dizem
Yañes, e o erudito Gerardo Casteel na Controversia 1.
82 Continuando ElRey na boa administraçaõ da Justiça, dando com
igualdade o premio, e o castigo a quem o merecia, promulgou leys muy
uteis, e mandou observar as que havia feito em lingua vulgar o celebre
Joaõ das Regras.[663] Para testimunhas da sua grande devoçaõ sublimou
à dignidade Metropolitana a Cathedral de Lisboa por Bulla, que o Papa
Bonifacio IX. passou à sua instancia em 10 de Novembro de 1394,[664]
servindo de iguaes monumentos da sua piedade a erecçaõ de edificios
sacros, como foy o Regio Convento da Batalha, o Mosteiro de Penha-Longa
da Ordem de S. Jeronymo, o de S. Francisco de Leiria, o de Santa Clara
do Porto, o da Carnota junto de Alenquer, a insigne Igreja de Nossa
Senhora da Oliveira em Guimarães, a Igreja de Nossa Senhora da Escada
junto à de S. Domingos de Lisboa, e outras muitas fundações, para
que concorreo com magnifica generosidade, admittindo tambem no Reino
os Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, chamados commummente os
Loyos.[665]
83 Além de obras taõ santas fez outras, ainda que profanas, magestosas,
e taes foraõ os Palacios de Lisboa, Santarem, Cintra, e Almeirim.
Instituio o tribunal da Relaçaõ, e fez outras doações, e mercês, que
depois revogou naõ sem escandalo.[666] Finalmente no dia 14 de Agosto
de 1433, a tempo que a terra padecia hum tenebroso eclypse do Sol,
exhalou o espirito, deixando de si feliz memoria, e tendo vivido
setenta e seis annos, quatro mezes, e tres dias, e reinado quarenta e
oito annos, quatro mezes, e oito dias.[667] Foy seu corpo depositado na
Igreja da Sé, onde esteve dous mezes, e dez dias, e a 25 de Outubro foy
transferido com pompa magestosa em hum carro triunfal até o Convento da
Batalha, onde jaz em sumptuosa sepultura, que elegantemente descreve
Fr. Luiz de Sousa.[668]
_D. Duarte, undecimo Rey._
84 Era o Senhor D. Duarte filho terceiro delRey D. Joaõ I. e havia
nascido em Viseu a 31 de Outubro de 1391. Os dotes naturaes, e
adquiridos foraõ nelle taõ excellentes, como mal logrados. Foy
destrissimo, e singular no exercicio nobre de andar a cavallo; muy
eloquente, e vigilante da Religiaõ Christã; grande favorecedor dos
homens doutos, como particular professor, e amante das boas letras, em
cujo estudo se aproveitou de modo, que pudera ser Mestre. Delle existem
alguns Tratados, e fragmentos, irrefragaveis provas do seu juizo, e
sciencia.[669]
85 Succedeo a ElRey seu pay, tendo de idade quarenta e hum annos, nove
mezes, e quatorze dias,[670] e foy acclamado aos 15 de Agosto de 1433
nos Paços do Castello de Lisboa. Havia casado a 22 de Setembro de 1428
com a Rainha Dona Leonor, Infanta de Aragaõ; e subindo agora ao throno,
começou a governar com tanta prudencia, que se dizia delle, (talvez
por influxo de lisonja) entendia melhor a arte de reinar, que ElRey
seu pay.[671] Mandou reduzir a hum só tomo todas as Leys, que andavaõ
dispersas, para facilitar a sua liçaõ: promulgou tambem Leys contra o
luxo, embaraçando os excessivos gastos dos Grandes, aos quaes ordenou
fossem residir nas suas terras para os livrar da assistencia da Corte,
que os obrigava a empenhos,[672] excepto aquelles Fidalgos, que por
turno lhe haviaõ de assistir por obrigaçaõ de seus cargos.
85 Neste Monarca naõ houve que desejar senaõ melhor fortuna, porque
os unicos cinco annos, que reinou, foraõ todos cheyos de desgraças;
e bastava para fazer infausto o tempo do seu reinado o cativeiro do
Infante D. Fernando seu irmaõ; porque emprendendo os Infantes D.
Henrique, e D. Fernando conquistar aos Mouros a Cidade de Tangere, e
ficando vencidos, e prisioneiros no anno de 1437, para salvarem as
vidas prometteraõ aos Mouros entregarlhe Ceuta, de cuja palavra ficou
em refens dos mais o Infante D. Fernando; porém como os Conselheiros
de Portugal foraõ de parecer, que naõ convinha entregar todo hum povo
Christaõ ao furor dos barbaros pela liberdade de hum só homem, de cujo
acordo dizem que tambem fora o Papa, e o mesmo Infante generoso,[673]
determinou-se em Cortes, que para isso fez convocar em Leiria ElRey D.
Duarte, ficasse o Infante no cativeiro, onde morreo depois de falecer
o mesmo Rey, que todavia no seu testamento mandava se resgatasse o
Infante seu irmaõ por todo o dinheiro, e ainda a troco da mesma Cidade
de Ceuta.[674]
87 Mons. de la Clede[675] accrescenta, que ElRey D. Duarte sem embargo
do que determinaraõ as Cortes, excitado do affecto de seu irmaõ cativo,
e da justa paixaõ de se vingar dos barbaros, com o desejo de procurar
tambem a liberdade dos Portuguezes, que os infieis retinhaõ em suas
infames prizões, mandara pedir ao Papa huma nova Bulla da Cruzada,
que se publicou pelas Provincias do Reino, e ajuntando tropas, e
apparelhando náos para a expediçaõ desta grande interpreza, foraõ
todos os preparos inuteis por causa da peste, que sobreveyo ao Reino,
occupando-o de lamentavel consternaçaõ, como bem o descreve Vasco
Mousinho no canto 5. do seu admiravel Poema; pois derrubando todas
as idéas delRey, o obrigou a andar vagando de Villa em Villa, naõ só
para consolar os povos em aperto semelhante com a sua presença, mas
para evitar aquelle contagio; até que achando-se na Villa de Thomar, e
abrindo huma carta, que vinha inficionada da corrupçaõ venenosa, poz
fim aos dias de sua vida afflicta aos 9 de Setembro de 1438, tendo
vivido quarenta e seis annos, dez mezes, e nove dias, e reinado cinco
annos, e vinte e seis dias.[676] Jaz no Convento da Batalha.
_D. Affonso V. duodecimo Rey._
88 Havia nascido o Principe D. Affonso nos Paços de Cintra aos 15 de
Janeiro de 1432, e quando morreo seu pay ElRey D. Duarte, contava seis
annos, sete mezes, e vinte e cinco dias, e desta idade foy acclamado
logo herdeiro da Coroa na Villa de Thomar; porém o governo ficou à
disposiçaõ da Rainha Dona Leonor sua mãy, e tutora com a assistencia
do Infante D. Pedro, irmaõ delRey D. Duarte, com o titulo de Defensor
do Reino, da qual regencia foy depois a Rainha exclusa, e o governo
entregue ao Infante D. Pedro, de que se originaraõ tantas perturbações,
e de que existem memorias taõ lastimosas.[677]
89 Continuava o Infante o manejo dos negocios, e regencia do Reino com
applauso commum, quando fazendo quatorze annos ElRey, e sendo preciso
entregarse-lhe o Cetro, seu tio Regente o fez com a Solemnidade de
Cortes no anno 1446, e ElRey lhe agradeceo muito o bem, que o servira,
de cujos louvores existe huma carta delRey escrita ao Infante cheya
de grandes, e honrodas expressões,[678] encommendando-lhe, acabado o
acto da entrega, que fosse continuando na mesma fórma, dimittindo de si
totalmente o regimen, e ratificando o casamento, que tinha feito com a
Senhora Dona Isabel, filha do mesmo Infante D. Pedro.
90 Porém a inveja dos emulos fazia taõ máos officios para arruinar a
felicidade do Infante, que lhe maquinou, e conseguio a desgraça delRey,
o qual intempestivamente passado hum anno mandou dizer ao Infante, que
o dava por absoluto, e desobrigado da incumbencia do governo, que lhe
encarregara. Daqui procedeo recolherse o Infante às suas terras, nas
quaes, declarado ElRey seu inimigo por crimes falsos, que imputaraõ ao
Infante, inconsideradamente o foy buscar com maõ armada, e pondo-se o
Infante em defensa, foy morto em o sitio de Alfarrobeira a 20 de Mayo
de 1449.[679]
91 Desejando depois ElRey expressar o seu animo zeloso da Fé no
convite, que o Papa Calixto III. lhe propoz, e tambem a outros
Principes Christãos de ir contra o Turco, para o que mandou para este
Reino a Bulla da Cruzada no anno 1457, começou ElRey a fazer para esta
empreza huns grandes preparos. Escusaraõ-se os outros Principes; porém
ElRey naõ resfriando da santa idéa, transferio a guerra para Africa,
onde parece que a voz do justo D. Fernando ainda clamava vingança;
e encaminhando primeiramente as proas de duzentas embarcações cheyas
de gente para as prayas de Alcacer, o mesmo foy chegar, que vencer
no anno de 1458 em Sabbado 30 de Setembro. Com a mesma felicidade
ganhou a Praça de Arzila em 24 de Agosto de 1471, e se lhe entregou a
de Tangere, cujas gloriosas vitorias lhe adquiriraõ a antonomasia de
_Africano_, e aos titulos da sua grandeza accrescentou elle o _daquem,
e dalém mar em Africa_.
92 Morto ElRey de Castella Henrique IV. que tinha sido casado com a
Rainha Dona Joanna, irmã do nosso Rey D. Affonso V. lhe ficou huma
unica filha, chamada Dona Joanna, herdeira daquelle Reino. Com ella
se dispoz casar ElRey D. Affonso V. seu tio já neste tempo viuvo da
Senhora Dona Isabel. Para isto passou a Castella com hum exercito de
vinte mil homens, porque assim o pediaõ as contradições, que sobre esta
successaõ se levantaraõ, e em Placencia se desposou com sua sobrinha
no anno de 1475. Os Castelhanos, que disseraõ naõ era a Senhora
Dona Joanna filha delRey Henrique, e que por isso naõ lhe pertencia
a herança da Coroa, nomearaõ herdeira a Dona Isabel, irmã delRey
Henrique, e a casaraõ com D. Fernando de Aragaõ.
93 Daqui nasceraõ muitas calamidades em Castella. e Portugal; porque
nosso Rey D. Affonso, querendo defender o que era seu, como de sua
sobrinha, e esposa, foy justamente demandar a D. Fernando de Aragaõ
para litigarem este ponto em argumento de armas. Naõ o levou a ambição,
como lhe attribue Camões,[680] mas sim razão justificada, sem embargo
de ficar desbaratado na baralha de Toro, em que o ajudou valerosamente
seu filho o Principe D. Joaõ.
94 Depois desta memoravel batalha succedida em Mayo de 1476, passou
ElRey logo a França no mez de Agosto, onde se deteve até Outubro do
seguinte anno de 1477; e vendo frustrada a negociaçaõ, a que lhe faltou
ElRey Luiz XI. com pouca fé, se resolveo ElRey D. Affonso a deixar o
mundo, e ir peregrinando até Jerusalem. Desta resoluçaõ deu parte a seu
filho por huma carta, em que lhe ordenava se fizesse logo jurar Rey
de Portugal, que em cumprimento della assim o fez em Santarem a 10 de
Novembro do proprio anno.[681]
95 Teriaõ passado quatro dias depois desta solemnidade, quando sabendo
o Principe Regente que seu pay tornava outra vez para Portugal, porque
ElRey de França lhe embaraçara politicamente a jornada, o foy buscar
a Oeiras, e com solemne procissaõ entrou em Lisboa, e continuou a
governar como de antes, sem o generoso Principe se intrometer em cousa
alguma, proseguindo D. Affonso em executar acções de liberalidade
Regia, e tantas, que affirmou hum Escritor nosso[682] fora entre os
Reys de Portugal o que fez mayores mercês a seus vassallos, assim de
honra, como de fazenda; em tal modo, que dizia o Principe seu filho.
quando lhe succedeo: _Meu pay me deixou feito Rey das estradas, e
caminhos de Portugal_; porque quasi todos os Lugares, e terras tinha
dado.
96 O Real genio deste Monarca tambem se deixava ver na grande
propensaõ, e amor das sciencias, applicando-se aos estudos, e
favorecendo aos estudiosos. Elle foy o primeiro, que no Palacio de
Evora ajuntou copiosa livraria, e o que determinou se escrevessem na
lingua Latina as Historias Portuguezas, mandando para este effeito
vir de Italia a D. Fr. Justo Baldino, Religioso Dominico, e insigne
Latino,[683] que morreo sem fazer cousa alguma por embaraços de
molestia. Finalmente vendo ElRey que os negocios das suas pertenções
se naõ concluiaõ, e achando-se quasi obrigado a convir em hum Tratado
de paz, que se publicou em Outubro de 1479, e com o justo sentimento
de ver a Senhora Dona Joanna sua esposa com huma honesta violencia da
parte de Castella obrigada a entrar em Religiaõ com o unico tratamento
de Excellente Senhora, se retirou melancolico a Cintra, e alli na
mesma casa, onde nascera, enfermou, e morreo aos 28 de Agosto de 1481,
em numa Terça feira, contando de idade quarenta e nove annos, sete
mezes, e treze dias, e de reinado quarenta e dous annos, onze mezes, e
dezanove dias.[684] Jaz no Mosteiro da Batalha na Casa do Capitulo.
_D. Joaõ II. decimo terceiro Rey._
97 Nasceo ElRey D. João II. na Cidade de Lisboa nos Paços da Alcaçova
a 3 de Mayo do anno 1455, e a 25 de Junho do mesmo anno foy jurado
Principe herdeiro do Reino com todas as ceremonias costumadas. Teria
quinze annos, quando, na Villa de Setubal a 12 de Janeiro de 1471
recebeo por esposa a Senhora Dona Leonor de Lancastre sua prima com
irmã, e a 15 de Agosto acompanhou seu pay ElRey D. Affonso na gloriosa
conquista de Arzilla, onde obrou acções mayores que a sua idade
promettia.[685]
98 Depois da morte de seu pay, achando-se em Cintra, e passados os tres
dias de nojo, foy acclamado Rey em 31 de Agosto do anno de 1481, e foy
esta a segunda acclamaçaõ, que teve. Cuidou logo em dar cumprimento
aos legados de seu pay, e applicando-se a conhecer as pessoas, que
se sabiaõ distinguir pela sua capacidade, e talento, as honrava, e
premiava de sorte, que se fez amar, e estimar de todos, especialmente
do povo.
99 No principio de seu reinado aconteceraõ grandes desasocegos nascidos
da altivez dos Nobres, que sahindo da brandura delRey D. Affonso, e
dando na integridade do filho, mal sabiaõ viver em taõ desconformes
extremos, de que procederaõ conjurações contra elle, que severamente
punio, e com grande excesso no Duque de Bragança D. Fernando II.
mandando-o degollar na praça de Evora em 21 de Junho de 1483, tragedia
reputada horrivel, como effeito da causa, cujas circunstancias naõ
mereciaõ tanto rigor,[686] sendo na verdade o Duque Cavalheiro,
conforme o juizo de todos, merecedor de melhor fortuna, como bem
adverte o elegantissimo Marquez de Alegrete.[687]
100 Foy ElRey D. Joaõ Principe de coraçaõ intrepido, como o deu
a conhecer em varias occasiões;[688] de hum engenho muy vivo, e
desembaraçado, que nunca se deixou governar de outrem, parecendo-lhe
que naõ merecia chamarse Rey aquelle, cuja vontade pendia de arbitrio
alheyo. Nunca tardou em fazer mercês, e remunerar serviços, e o que
havia de dar, o dava logo, e muitas vezes sem lho pedirem, trazendo
occultamente hum livro com os nomes das pessoas benemeritas. As mesmas
dadivas mandava distribuir por outras pessoas de outros Reinos, que
lhes serviaõ de promptas, e diligentes espias, ardil, que lhe grangeou
a sciencia politica de muitos negocios, e segredos reconditos.[689]
101 Attendeo muito ao bem publico, e por conta desta conservaçaõ
desfez muitos abusos, e fez com que se evitassem as casas de jogo,
mandando queimar huma, onde concorria mais gente, em cuja acção deixou
aos vindouros hum exemplo mais digno de se imitar, que imitado.[690]
Publicou tambem leys, em que prohibia todo o excesso de galas, e tudo o
que podesse causar destruiçaõ na fazenda, e bons costumes de seu povo.
Deu muitas provas da verdade, com que amava a Religiaõ Christã: fez
todo o excesso, para que os Judeos, que se vieraõ refugiar em Portugal,
se reduzirem à Fé de Christo, obrando a generosa acção de lhes mandar
dar embarcações para se irem os que não quizeraõ converterse.
102 As fundações dos Templos saõ tambem sufficiente prova da sua
Religiaõ. Elle deu principio à magnifica Igreja do Hospital Real de
Lisboa, e lançou a primeira pedra nos alicerces do Mosteiro de Jesus
de Setubal, e deu nova Casa às Commendadeiras de Santos no Convento,
onde hoje existem em Lisboa. Dispoz que na sua Capella Real se rezassem
em Coro as Horas Canonicas, estabelecendo rendas para isso. Aspirando
à gloria de fama perduravel, descubrio com suas frotas o Reino do
Congo, e nelle fundou Igreja, onde se bautizou o Rey com seus filhos,
e bastante parte do povo. Abrio o caminho à navegaçaõ das Indias
Orientaes, e solicitou descubrir incansavelmente por mar, e por terra
a costa de Africa até aquelle tormentoso Cabo, a que chamou de Boa
Esperança, pelas que se abriaõ do descubrimento da India.
103 Taõ grandes brados tinha dado a fama das suas acções, que alguns
Principes estrangeiros vieraõ a Portugal de proposito somente para o
ver; porque sem duvida na liberalidade, na justiça, na piedade, na
generosidade, e na Religião foy singularissimo, recto, admiravel,
pomposo, e Catholico, e assim acabou com a fama de Principe perfeito em
25 de Outubro de 1495 na Villa de Alvor com suspeitas de lhe terem dado
veneno. Viveo quarenta annos, cinco mezes, e vinte e dous dias: reinou
quatorze annos, hum mez, e vinte e cinco dias. Foy sepultado na Sé de
Sylves, donde passados quatro annos, ElRey D. Manoel lhe trasladou seu
corpo para o Convento da Batalha, onde se conserva incorrupto, sinal,
que alguns pertendem attribuir aos que saõ predestinados.[691]
_D. Manoel decimo quarto Rey._
104 Parece, como bem disse o nosso Homero,[692] que Deos tinha
escolhido a ElRey D. Manoel para ser Monarca entre os de Portugal o
mais venturoso. Logo no seu nascimento começou a experimentar o Ceo
propicio; porque achando-se na Villa de Alcochete sua mãy a Infanta
Dona Brites vencida das dores de parto, e com evidente perigo, quasi
milagrosamente o deu à luz no mesmo ponto, que lhe passava pela porta o
Santissimo Sacramento na Procissaõ solemne do Corpo de Deos, por cuja
mysteriosa causa se lhe impoz o nome de Manoel, e por cuja notavel
circunstancia de Festa, e Procissaõ infere, e assina judiciosamente
o Beneficiado Francisco Leitaõ Ferreira,[693] que o verdadeiro dia
natalicio deste Monarca foy no primeiro de Junho de 1469, porque
a letra Dominical daquelle anno, que foy _=A=_, assim o insinua,
prova irrefragavel, que convence a contraria opiniaõ de todos os que
collocaraõ este feliz nascimento no ultimo de Mayo do mesmo anno.
105 Era D. Manoel Duque de Béja, e de Viseu, filho do Infante D.
Fernando, e neto delRey D. Duarte; e com haver nascido sem esperança
de reinar, succedeo no Reino depois de ver como para conseguir esta
felicidade lhe hiaõ fazendo lugar com a morte algumas pessoas, a quem
tocava a successaõ. Subio finalmente ao Throno em 27 de Outubro de
1495, estando em Alcacer do Sal, donde veyo logo a celebrar Cortes
na Villa de Montemór o Novo, dando principio ao governo mais feliz,
que vio o Reino com a reforma, que fez dos Ministros, e Officiaes de
Justiça, e boa arrecadaçaõ da fazenda.[694]
106 Como bom Catholico se lembrou logo da obediencia à Igreja, e assim
despedio para Roma promptamente hum Embaixador, para dar noticia ao
Pontifice da sua investidura do Reino de Portugal, mandando tambem
pedir ao mesmo Papa, que era Alexandre VI. a impetra, para que os
Cavalleiros das Ordens Militares podessem casar, como com effeito lhes
concedeo,[695] e com a mesma protecçaõ augmentou a Ordem de Christo em
gloria, e renda.
107 Imitando o louvavel exemplo dos Reys de Castella, mandou expulsar
fóra do seu Reino aos Mouros, e Judeos, excepto os que se quizeraõ
converter à Fé de Christo;[696] e logo em Outubro do anno 1497 recebeo
por mulher a Senhora Dona Isabel, viuva do nosso Principe D. Affonso,
filho delRey D. Joaõ II. e ella filha dos Reys Catholicos D. Fernando,
e Dona Isabel.
108 Se pertendessemos narrar todas as acções memoraveis deste
Monarca, fariamos hum grande volume; sirva ao menos a expressaõ desta
impossibilidade, segundo a ligeireza do estylo, que guardamos, para
provar a sua grandeza. O certo he, que na regencia delRey D. Manoel
foy o Reino de Portugal elevado ao mayor gráo do seu esplendor. Então
se viraõ quebrantadas as forças dos Reys Africanos; entaõ se acabou
de descubrir a navegaçaõ da India Oriental, que ElRey D. João II.
havia premeditado, sendo o inclyto Heroe Vasco da Gama o primeiro,
que no anno de 1497 logrou a gloria de abordar as prayas de Calecut,
e introuduzir o commercio das suas preciosas especiarias em Portugal,
naõ obstante a grande resistencia, e embaraço, que a isso fizeraõ os
Venezianos.[697]
109 Accrescentou D. Manoel a seu Imperio naõ pequena parte da
Ethyopia, Persia, India, dentro, e fóra do rio Ganges, o Brasil, e
innumeraveis Ilhas do Oceano até alli incognitas. Sujeitou, muitos
Reys; e estando taõ apartados por tanto espaço de mar, e terra, os
fez tributarios: outros se fizeraõ confederados, e amigos. Venceo
muitas vezes na India as armadas do Soldaõ de Babylonia, e de outros
poderosissimos Reys Orientaes. Plantou a Religiaõ Christã na Ethyopia,
India, e outras partes do mundo ainda naõ allumiadas com a luz do
Evangelho, favorecendo, e amparando aos convertidos. Libertou o estado
Ecclesiastico de tributos, e pensões, e dos mesmos aliviou aos mais
vassallos, dando novos foraes às terras, de que mandou formar cinco
livros, que se conservaõ na Torre do Tombo.
110 Para mayor augmento da sua felicidade se vio jurado Rey de Castella
em 28 de Abril de 1498,[698] cuja posse, e titulo brevemente possuio
pela intempestiva morte da Rainha Dona Isabel sua esposa, herdeira
daquelle Reino. Fundou Templos, que podem competir com os melhores
de Roma.[699] Fez nadar em ouro o Reino, e quasi chover em Portugal
perolas, e diamantes; em tal fórma, que se chamou idade de ouro a em
que reinou D. Manoel como bem mostra Manoel de Faria.[700] Agradecido
aos continuados beneficios com que Deos lhe dilatava o Imperio, quiz
religiosamente gratificallos ao Senhor, mandando ao Papa Leaõ X.
entaõ reinante, offerecerlhe, e tributarlhe como a Vigario de Christo
na terra, as primicias das riquezas da India, e Etiopia. Para isso
dispoz huma Embaixada, que a 12 de Março de 1514 fez Tristaõ da Cunha
com tanta magestade, pompa, e grandeza, que nunca se vio semelhante
em Roma.[701] Em fim naõ houve prosperidade, que elle naõ abraçasse,
parecendo ser disto auspicio a grandeza dos braços, que tinha mayores
que nenhum outro homem. Tambem amparou as letras grandemente;[702]
e cheyo de taõ heroicas acções fechou o gyro de seus dias aos 13 de
Dezembro de 1521 pelas nove horas da noite, achando-se em Lisboa nos
Paços da Ribeira, tendo de idade cincoenta e dous annos, seis mezes,
e dous dias, dos quaes reinou vinte e seis annos, hum mez, e dezoito
dias. Jaz no Real Convento de Belém extra muros de Lisboa, que elle
mandou edificar para seu jazigo.
_D. Joaõ III. decimo quinto Rey._
111 Succedeo no Throno a ElRey D. Manoel seu filho D. Joaõ III.
que havia nascido em Lisboa a 6 de Junho de 1502, dia memoravel
pela horrivel tempestade, que houve no Reino de trovões, rayos, e
coriscos.[703] Foy acclamado a 19 de Dezembro de 1521, fazendo-se o
acto à porta do Convento de S. Domingos de Lisboa. Os principios do
seu reinado foraõ tecidos com egregias acções de piedade, clemencia, e
generosidade, adquirindo-lhe estas virtudes amor de seus vassallos, e a
estimaçaõ de todos os Principes da Europa.
112 Foraõ os seus primeiros cuidados proseguir logo vivamente as
conquistas da India, em que os Portuguezes obraraõ façanhas de eterna
memoria, e este mayor projecto lhe fez relaxar aos Mouros de Africa
quatro Praças principaes, Alcacer, Arzila, Çafim, e Azamor, de que
tanto se lamenta Manoel de Faria,[704] e a cujo consentimento attribue
o mayor desacerto deste Rey, ou de seus Conselheiros. Melhorou esta
acçaõ, impetrando do Papa Clemente VII. o veneravel Tribunal da
Inquisiçaõ para este Reino. Reformou muitas das Religiões, que hiaõ
descahindo da sua primitiva observancia. Admittio em Portugal a
Religiaõ denominada da Companhia de Jesus, e lhe instituio em diversas
partes do Reino Collegios; devendo-se a este Monarca a gloria da
conversaõ da gentilidade em taõ continuados progressos na Asia, Africa,
e America, que naquelles primeiros tempos souberaõ plantar com zelo
aquelles Religiosos.
113 Descubrindo ElRey alguns inconvenientes de haver na Corte estudos
publicos, removeo a Universidade outra vez para Coimbra no anno de 1534
conforme dizem huns,[705] e segundo outros no de 1537,[706] mandando
vir a este respeito, e com grandes dispendios os melhores Mestres de
letras, que havia na Europa,[707] de sorte que restabeleceo em Coimbra
a mais florente Academia das sciencias; e extendendo-se este louvavel
affecto para as Conquistas, mandou estabelecer tambem na India escolas
para as artes, e sciencias.[708]
114 Por sua instancia se erigiraõ no Reino os tres Bispados de
Leiria, Portalegre, e Miranda, e outros nas Conquistas; e levantando
em Metropolitana a igreja Cathedral de Evora, reedificou o sumptuoso
aqueducto desta Cidade, que se hia arruinando. Continuou o edificio
Regio de Belém, e fez outros de novo em publica utilidade, como foy
a Alfandega, as Tercenas, os Armazens, e a Torre do Tombo.[709]
Para a boa administraçaõ da Justiça instituio o Tribunal da Mesa da
Consciencia, e Ordens, e para os mais Tribunaes teve o dom de saber
escolher Ministros proporcionados. Amou muito a paz, e por isto dizia,
que _mais perdia no que se gastava na guerra, ao que lucrava com o que
alcançava na vitoria_. Finalmente assim nas cousas da paz, como nas da
guerra foy ElRey D. Joaõ Principe admiravel, nascido para beneficio dos
homens, amparo dos humildes, e estranhos, verdadeiro conservador do
culto Divino, e propugnaculo da Religiaõ Catholica. Morreo em Lisboa
aos 11 de Junho de 1557, e aos cincoenta e cinco annos, e cinco dias
da sua idade, e de governo trinta e cinco annos, e seis mezes. Jaz no
Convento de Belém junto de seu grande Pay. Foraõ muitas as lagrimas,
que o povo derramou na sua morte, a qual foy tida por termo, que o Ceo
punha às felicidades do Reino.
_D. Sebastiaõ, decimo sexto Rey._
115 Foy ElRey D. Sebastiaõ filho do Principe D. Joaõ, e da Princeza
Dona Joanna, e neto delRey D. Joaõ III. Nasceo em Lisboa posthumo a
20 de Janeiro de 1544, e dahi a tres annos, morrendo seu Avô, ficou
herdando o Cetro, mas sujeito à tutoria da prudentissima Rainha Dona
Catharina, e aos preceitos de seu Ayo D. Aleixo de Menezes, e dos do
Padre Luiz Gonçalves da Camera, ambos Fidalgos illustres, os quaes
em toda a sua educaçaõ lhe inspiraraõ o amor da justiça, e o zelo da
Religiaõ Christã.
116 Como os espiritos deste Principe eraõ generosos, e cheyos de hum
grande, e admiravel desejo de aquirir gloria, começou logo a idear
emprezas verdadeiramente temerarias para a sua idade; de sorte, que
chegando aos quatorze annos, se resolveo tomar posse do governo em
20 de Janeiro de 1568, e entaõ dando-se todo ao aspero exercicio das
armas, e da caça, fazia brio de se mostrar intrepido, e destemido em
todas as occasiões. Quando os ventos, e as ondas andavaõ mais irados,
então sahia fóra da barra a lutar com a tempestade; e em fim as suas
acções eraõ todas imagens de seu precipicio, como bem diz Manoel de
Faria.[710]
117 Tanto confiava em seu valor, que tinha para si podia conquistar
todo o mundo; e como sempre sahia bem dos perigos, em que se mettia, se
lhe augmentavaõ cada vez mais os desejos de principiar pela conquista
de Africa. Este santo intento trouxe quasi do berço, e para o executar
se dirigiaõ os seus cuidados, e pensamentos, que assoprados com a
lisonja dos que se queriaõ conformar com o seu fogoso genio, mais lhe
accendiaõ no peito deliberações temerarias. Praticou-as, passando
primeiramente no anno de 1574 a discorrer pelas terras de Tangere, e
Ceuta, onde fazendo differentes correrias, e escaramuças, assustou os
barbaros, mas vio a difficuldade, a que a sua ambiçaõ aspirava.
118 Todavia succedendo despojar Muley Maluco dos Reinos de Marrocos,
e Fez a seu sobrinho Muley Hamet, este se veyo valer do nosso Rey,
offerecendo sua pessoa, e os que o seguiaõ. Preparou-se D. Sebastiaõ
para soccorrer a Hamet, e atropellando todos os conselhos prudentes,
que lhe dissuadiaõ esta perigosa, e incauta jornada, sahio do porto
de Lisboa em 24 de Junho de 1578, anno, e dia taõ infaustos para
Portugal.[711] Compunha-se o exercito delRey de dezoito mil homens,
dos quaes eraõ tres mil Castelhanos, tres mil Alemães, novecentos
Italianos, e os mais Portuguezes, gente a mais luzida, e lustrosa, que
havia no Reino, mas sem exercicio militar.
119 Chegou a Arzila, e logo achou aqui na mostra, que mandou passar,
diminutos os Regimentos, que naõ passavaõ de doze mil homens. Constava
porém o exercito inimigo de cento e cincoenta mil, a mayor parte de
cavallo, de cujo fatal numero opprimidos os nossos ficaraõ vencidos a
cinco de Agosto do mesmo anno de 1578, dia de Nossa Senhora das Neves,
eclipsando-se nesta infeliz, e lastimosa batalha toda a gloria, e
lustre Portuguez nos campos de Alcacere, os quaes ficaraõ memoraveis
pelos tres Reys, que alli morreraõ. Bem he verdade que ninguem verifica
ter visto morrer na batalha a ElRey D. Sebastiaõ, nem depois com
certeza o tornaraõ a ver, donde tomaraõ alguns motivo para esperar
por elle, delirio, que com teimosa tradiçaõ permaneceo bastante
tempo, pertendendo os seus sequazes em taõ fanatica esperança fazer
verdadeiramente crer, que este lamentavel Monarca fosse entre os homens
outra ave Fenix, da qual dizem que existe, mas ninguem a vio. Mons. de
la Clede assenta,[712] que ElRey naõ morrera no conflicto de Alcacere,
mas sim no Castello de San Lucar de Barrameda, opiniaõ, que os nossos
Escritores naõ admittem.
120 A noticia desta fatalidade trouxe a Portugal grande confusaõ;
porque depois della naõ se via, nem ouvia em todos mais que lagrimas, e
impaciencia pela perda geral de hum Reino sem successaõ, e de hum Rey
extincto na flor da sua idade, e com elle a flor da Nobreza, vindo-se
a concluir todo este catastrofe com as exequias, que se celebraraõ
com a possivel expressaõ de sentimento, até que passados quatro annos
chegou a Lisboa, mandado pelo Xarife, o corpo, que diziaõ ser delRey D.
Sebastiaõ, e se mandou sepultar no Convento de Belém, onde jaz todavia
com a incerteza, que indica a inscripçaõ do seu epitafio,[713] o qual
dia assim:
_Conditur hoc tumulo, si vera est fama, Sebastus,
Quem tulit in Lybicis mors properata plagis.
Nec dicas falli Regem qui vivere credit,
Pro lege extincto mors quasi vita fuit._
_D. Henrique, decimo setimo Rey._
121 Tanto que a triste nova da perda delRey D. Sebastiaõ chegou a
Portugal, elegeraõ, e acclamaraõ os Tres Estados do Reino ao Cardeal
D. Henrique, filho delRey D. Manoel, que entaõ se achava na avançada
idade de sessenta e seis annos, contados desde 31 de Janeiro de 1512
em que nasceo. Era elle ornado de excellentes dotes, e virtudes, muy
pio, e temente a Deos, e em tudo mostrou quanto era capacissimo para
o Baculo, e para o Cetro. Amou as sciencias, amparou a orfandade,
soccorreo a pobreza, confundio as heresias, restaurou Templos, e em fim
foy Pastor, e Rey sem embaraçar com as desculpas de Monarca os empregos
de Sacerdote.[714]
122 Acclamado porém a 28 de Agosto de 1578 por legitimo Rey, e
successor de Portugal, cuidou logo no resgate dos Fidalgos, e mais
gente, que ficaraõ cativos na fatal batalha de Alcacere, em que
dispendeo muito dinheiro; porém como os achaques, e a idade já
decrepita lhe diminuiaõ as forças attenuadas, e comprimidas tambem
pelas negociações, e governo de huma Monarquia decadente pela falta de
successaõ, muitos Principes da Europa estavaõ attentos naõ só ao fim,
que por instantes esperavaõ haver no Reino, mas como se Portugal fora
herança, que a todos lhes pertencesse.
123 Eraõ os oppositores cinco descendentes delRey D. Manoel, que
pertendiaõ herdar o Reino por linha transversal, além de outros
pertendentes, que todos fizeraõ sua opposiçaõ, como foy a Rainha de
França Dona Catharina, por allegar que descendia delRey de Portugal D.
Affonso III. e de Dona Matilde sua primeira mulher, mas foy exclusa
sua pertençaõ por improvavel. Tambem a Sé Apostolica pertendia que
fosse huma Coroa o espolio de hum Capello vago, mas naõ se fez caso da
pertençaõ do Pontifice, porque na presente opposiçaõ só se tratava dos
descendentes delRey D. Manoel, como se vê na Taboa seguinte.
| A Infanta Dona }
| Isabel Imperatriz,} Filippe II.
| que casou } Rey de Castella
| com Carlos } 1. pertendente
| V. Imperador, }
| e teve a }
|
| A Infanta Dona } Manoel Filisberto
| Brites, que } Duque de Saboya,
| casou com D. } e Principe
| Carlos Duque } de Piemõte 2.
| | de Saboya, } pertendente.
| ElRei | e teve a }
| D. Manoel |
| entre | O Infante D. }
| outros | Luiz Duque de }
| filhos | Béja naõ casou, } D. Antonio
| teve | mas de Violante } Prior do Crato,
| | Gomes, chamada } 3. pertendente.
| a _Pelicana_, }
| teve a }
|
| O Infante D. } D. Maria, q́ } Rainucio
| Duarte Duque } casou com o } Principe de
| de Guimarães } Principe de } Parma, e 4.
| casou com Dona } Parma, de } pertendente.
| Isabel filha } quem teve a }
| de D. Jayme
| Duque de Bragança,} D. Catharina que casou com
| e teve a } D. Joaõ Duque de Bragança
| } 5. pertendente.
Destes foy excluido o Prior do Crato por illegitimo, o Duque de Saboya
por estrangeiro, o Principe de Parma por falta de representaçaõ, pois
já era bisneto, e tambem porque sua Mãy, casando fóra do Reino, perdeo
o direito, que a elle podia ter, como se mostra das Cortes de Lamego;
de sorte que só ElRey Filippe, e a Senhora Dona Catharina, como estavaõ
em igual gráo, tinhaõ jus para a pertençaõ, e mayor a Senhora Dona
Catharina.
124 Naõ queria ElRey D. Henrique decidir este ponto, e assim
nomeou em Cortes Juizes para a decisaõ delle, e cinco Governadores
para sentenciarem a quem verdadeiramente tocava o Reino; e depois
passando-se para Almeirim por causa da peste, que já lavrava em Lisboa,
veyo a falecer em 30 de Janeiro de 1580 com sessenta e oito annos de
idade, e dezasete mezes de governo. Houve hum grande eclipse da Lua na
mesma noite, em que espirou, e hum geral sentimento, porque todos viaõ
com aquella morte o Reino tambem eclipsado. De Almeirim foy conduzido
seu corpo para Belém, onde agora jaz em nobre sepultura, que lhe
mandou fazer o Senhor Rey D. Pedro II. no anno de 1682, e por causa
da trasladaçaõ foy visto, e achado seu corpo inteiro, depois de terem
passado cento e dous annos, por cujo sinal he crivel esteja gozando da
Bemaventurança.
125 Com a morte delRey D. Henrique começaraõ os cinco Governadores a
usar do Cetro; mas taõ desunidos, temerosos, e abalados, que cada hum
seguia o partido dos oppositores, a que a propensaõ o inclinava, ou
talvez o attractivo do interesse. Muito mais ficaraõ perplexos, quando
viraõ que ElRey D. Henrique no seu testamento naõ attendera mais que às
cousas da sua alma, deixando as do Reino ao arbitrio dos Juizes.
126 O Prior do Crato, ainda que estava excluido, tornou a fomentar a
sua pertençaõ; e adquirindo algum sequito de gente popular, esta o
acclamou Rey em Santarem a 14 de Junho de 1580,[715] e logo passando-se
a Lisboa, soltou os prezos do Limoeiro, aposentou-se nos Paços da
Ribeira, começou a passar Provisões, mandar bater moeda, e finalmente a
intitularse Rey, seguindo a sua facçaõ algumas Villas do Reino.
127 Sabendo ElRey D. Filippe de Castella as operações, que em Lisboa
executava o Prior do Crato, despedio hum sufficiente corpo de exercito
de mais de vinte mil homens,[716] e dous mil gastadores, commandados
pelo grande General o Duque de Alva; e chegando a Setubal sem
resistencia alguma, fez transito a Lisboa, onde alojou suas tropas
junto da ponte de Alcantara. No dia seguinte, que se contavaõ 26 de
Agosto de 1580, pelas dez horas da manhã atacou D. Antonio, Prior do
Crato, ao exercito Castelhano; porém este desbaratou os esquadrões
Portuguezes,[717] e D. Antonio se poz em salvo, passando ao depois
varia fortuna até vir a morrer em Pariz no anno de 1595.
128 Pacificada algum tanto a furia dos vencedores, que naõ fez pequeno
damno aos arrabaldes de Lisboa, os Governadores della entregaraõ
as chaves ao Duque, o qual mandou logo presidiar o Castello com
tres mil Castelhanos, e muita artelharia, e a Nobreza do Reino foy
à sua presença dar obediencia ao novo Rey introduzido, que à força
de armas, invadindo o Reino, decidio o litigio a seu favor, sem
esperar pelo acordaõ dos Jurisconsultos contra todo o Direito, e boa
consciencia.[718]
_D. Filippe II. III. e IV. de Castella, e em Portugal Reys decimo
oitavo, decimo nono, e vigesimo intrusos._
129 Declarado Rey de Portugal D. Filippe II. nas Cortes, que se
celebraraõ em Thomar a 19 de Abril de 1581, caminhou para Lisboa, onde
fez huma publica entrada com o mayor apparato, e grandeza, que até
alli se tinha visto.[719] Começou a tratar os Portuguezes com muita
affabilidade, e industria, fazendo-lhe varias mercês, e augmentando
os privilegios do Reino, com a qual politica temperou os desgostos
passados. Desta sorte fazia parecer mais suave aos Portuguezes aquella
violenta sujeiçaõ, e elles vendo que se diminuiaõ as esperanças de
recobrar a antiga liberdade, cuidavaõ muito em merecer a graça delRey
Filippe, o qual tornando para Castella, e deixando por substituto a seu
filho o Serenissimo Cardeal Alberto, Archiduque de Austria, morreo a 13
de Setembro de 1598 no Convento do Escurial, que elle havia fundado,
e onde jaz em soberbo mausoleo, tendo vivido setenta e hum annos,
governado em Portugal dezoito, e quarenta e tres em toda a Hespanha.
130 Succedeo no Throno seu filho D. Filippe III. e para nós II. que
havia nascido em Madrid a 14 de Abril de 1578, e agora contava já vinte
annos de idade. No seu governo deixou facilmente penetrar quaes eraõ os
seus designios; e naõ eraõ elles outros mais que reduzir os Portuguezes
a huma taõ debil fortuna, que nunca podessem ter forças para sacudir
o dominio Castelhano, conforme as normas, que lhe deixara seu pay.
Naõ pode porém conseguir tudo o que intentava, porque lho embaraçou
a morte, que lhe sobreveyo em Madrid no ultimo de Março de 1621 com
quarenta e dous annos de idade, e vinte e dous e meyo de reinado. Jaz
no Convento do Escurial.
131 D. Filippe IV. foy filho do antecedente, e nasceo a 8 de Abril de
1605. Poucos dias depois da morte de seu pay começou a governar com
grandes annuncios de felicidades, mas para Portugal com muy poucas;
porque naõ cessando de quebrantar as promessas, e juramento, que seu
Avô tinha feito de conservar este Reino em seus antigos foros, e
privilegios, todo o seu ponto foy abatello, aniquilallo, e obrar tudo
em nosso prejuizo. Naõ escapou artificio algum em ordem a consumir o
Reino, que deixassem os seus Ministros, e Conselheiros de lhe apontar
para nossa ruina. A mesma experimentou a India, e as mais Conquistas,
que tanto nos custaraõ a ganhar. Dilatadissima seria a narraçaõ destas
desordens, se pertendessemos renovar dellas a memoria: naõ faltaõ
Escritores, que as referem.[720]
132 Impaciente já todo o Reino com tanta vexaçaõ, e desejosos todos da
commum liberdade da patria, começaraõ a pôr os olhos no Serenissimo
Duque VIII. de Bragança D. Joaõ, no qual concorriaõ razão, e justiça
para o acclamarem Rey, e Senhor verdadeiro do Reino naõ só pelo
direito, que o acompanhava de sua Avó a Senhora Dona Catharina,
filha herdeira do Infante D. Duarte, a qual havia de preceder a
todos os oppositores da Coroa, porque representava a seu Pay, que se
vivera, havia de ser Rey,[721] mas tambem por ser o Serenissimo Duque
natural do Reino, e o mayor Senhor delle, a quem por suas qualidades
verdadeiramente Reaes tocava protegello, amparallo, e libertallo das
oppressões, que padecia.
133 Por estes, e outros muitos fundamentos, persuadidos os Portuguezes
quanto lhe era util acabarem já com taõ pezado jugo, determinaraõ
ajustar o modo mais conveniente para negocio taõ arduo. Achava-se
presidindo no governo de Portugal a Duqueza de Mantua Margarida de
Saboya, prima delRey Filippe IV. desde o anno de 1635, em que passou a
fazer assistencia em Lisboa: tinha por Secretario de Estado a Miguel
de Vasconcellos, aborrecido do Reino por soberbo, descomedido, e
ambicioso, que com industriosa independencia ministrava os negocios de
Portugal, e a quem muito favorecia a Princeza Margarida, e o primeiro
Ministro de Hespanha o memoravel Conde Duque,[722] ambos interessados
na agencia de Vasconcellos, que lhes servia como de canal, por onde se
enchiaõ continuamente os seus insaciaveis cofres do perenne curso de
dinheiro extrahido da substancia do cabedal do Reino, e de tributos
exorbitantes.
134 Esta oppressaõ, e violencia dos Ministros acabou de exasperar mais
a todos os Portuguezes; até que escolhendo o dia de Sabbado primeiro
de Dezembro do anno 1640 para aquella gloriosa empreza, depois de
varias conferencias, que entre si tiveraõ os Fidalgos amantes, e
zelosos da patria,[723] convidando tambem a outros com todo o segredo,
se acharaõ no terreiro do Paço sem fazerem rumor, e assim que deraõ
nove horas accommetteo cada hum aquelle posto, que se lhe destinou
por interpreza. Tudo o que se havia premeditado, a pezar de todos os
incidentes, que se atropellaraõ, se poz em execuçaõ no dia predito
com tanta felicidade, e maravilha, que dentro em tres horas se vio na
Cidade de Lisboa morto Miguel de Vasconcellos, deposto Filippe IV.,
acclamado o Serenissimo Duque de Bragança D. Joaõ por legitimo Senhor
do Reino de Portugal, que no espaço de sessenta annos gemeo debaixo da
sujeiçaõ de Principes estrangeiros, aonde o tinha levado a Providencia.
_D. João IV. vigesimo primeiro Rey._
135 Conseguida prodigiosamente a saudosa liberdade do Reino, e
restituido com tanta gloria, e justiça o Cetro da Monarquia Portugueza
ao Senhor Rey D. Joaõ IV. o qual havia nascido em Villa Viçosa a 19 de
Março de 1604, e casado com a Senhora Dona Luiza Francisca de Gusmaõ
em 12 de Janeiro de 1633, se expediraõ diversos avisos para os Lugares
Ultramarinos da nossa Coroa, para reconhecerem, e acclamarem o mesmo
Soberano Rey; e foy esta noticia recebida com tanto gosto, como se
experimentou na prompta obediencia da vassallagem, e nos vivas, e
festas, com que expressaraõ todos a estimaçaõ daquella felicidade,[724]
sendo para admirar completarse este reconhecimento dentro de quinze
dias por todo o Reino sem guerra, sem armas, sem violencia, estando
todas as Praças governadas, e presidiadas por Ministros, e soldados
Castelhanos. O certo he que foy obra da maõ do Altissimo.[725]
136 Logo que o novo Rey chegou de Villa Viçosa a Lisboa, e dispoz as
expedições, que temos dito, determinou dia para a sua coroaçaõ, que
foy em 15 de Dezembro, a qual se celebrou com toda a pompa, e alegria
do povo. Depois passou promptamente a cuidar nos negocios interiores do
Reino: nomeou Ministros para os Tribunaes: Generaes, e Cabos para as
Provincias. Estava o Reino destituido de forças, sem armas, sem gente
com exercicio militar, sem náos, e sem dinheiro para se poder defender,
e isto foy motivo para se descuidarem tanto em Castella, considerando
seus Ministros ser impossivel podermos resistirlhe na conjunctura
debil, em que estavamos; e assim disseraõ a ElRey Filippe, que naõ era
necessario fazer guerra offensiva a Portugal, porque com duas mãos de
papel firmadas por S. Magestade se reduziria outra vez brevemente o
Reino à sua obediencia.[726]
137 Este mysterioso descuidoso foy causa da nossa prevençaõ, e
fundamental seguranqa, dando-nos tempo para mandarmos vir armas
do Norte, fortificar Praças, e fazer confederaçaõ com França,
Inglaterra, Hollanda, Suecia, e Dinamarca, que todos nos ajudaraõ
com gente, dinheiro, munições, e náos de tal fórma, que quando os
Castelhanos quizeraõ accommetternos por Olivença, foraõ bem rechaçados,
experimentando a mesma adversa fortuna em todos os choques, e batalhas,
que tiveraõ com os nossos exercitos, ficando mais memoravel a de
Montijo, que no anno de 1644 conseguio com tanta gloria Portugueza o
intrepido Mathias de Albuquerque; e desta sorte conseguimos outras
muitas vitorias em grande credito da Naçaõ por todas as Provincias do
Reino.
138 Naõ causava pequena inveja a Castella este feliz progresso das
nossas armas; e vendo que à força dellas naõ podia tomar vingança
da nossa liberdade, maquinou a da aleivosia, e astucia, fiando mais
do ouro, que do ferro; e corrompendo com elle algumas pessoas suas
affectas com esperanças de mayores augmentos, se conjuraraõ contra
ElRey D. Joaõ; porém descubrindo-se, foraõ prezos, sentenciados, e
degolados[727] a 29 de Agosto de 1641 em publico cadafalso na praça
do Rocio de Lisboa. Eraõ elles o Marquez de Villa Real, o Duque de
Caminha, o Conde de Armamar, e D. Agostinho Manoel de Vasconcellos;
sendo o principal motor desta conjuraçaõ o Arcebispo de Braga D.
Sebastiaõ de Matos, que se mandou meter em segura custodia. Em todos
estes movimentos se vio o particular auxilio de Deos, com que sempre
livrou a ElRey D. Joaõ da iniquidade de seus inimigos, que intentaraõ
tirarlhe a vida por meyo do perverso Domingos Leite, o qual sendo
convidado a executar aquelle enorme delicto por quatrocentos escudos,
foy tambem descuberto, e castigado como merecia a grandeza da sua culpa.
139 Continuando ElRey o seu governo com tanta felicidade, e desvelo,
estabeleceo leys utilissimas para a sua conservaçaõ, erigio novos
Tribunaes, o Concelho de Guerra, o da Junta dos Tres Estados, o do
Conselho Ultramarino, e o da Junta do Commercio. Foy muito devoto do
Mysterio da Conceiçaõ da Senhora, e assim a tomou por Protectora do
Reino em Cortes do anno de 1646, fazendo-o tributario em cincoenta
cruzados cada anno,[728] e em 25 de Março do proprio anno jurou, e
declarou authenticamente a immaculada Conceiçaõ da Virgem Maria Senhora
nossa, fazendo com que seus vassallos fizessem o mesmo, mandando
intimar às Universidades do Reino, que todos os estudantes, quando
tomassem qualquer gráo, jurassem defender o tal Mysterio.[729]
140 Finalmente achando-se em Lisboa, e opprimido com huma molesta
suppressaõ, fechou o circulo de seus dias em huma segunda feira 6 de
Novembro de 1656 na idade de cincoenta e dous annos, sete mezes, e
dezoito dias, e de reinado dezaseis annos, menos vinte e quatro dias.
Jaz no Convento de S. Vicente de Fóra.
_D. Affonso VI. vigesimo segundo Rey._
141 Teria o Principe D. Affonso treze annos de idade, contados desde 21
de Agosto de 1643, em que nasceo, até 15 de Novembro de 1656, quando
subio ao Throno, e foy acclamado Rey pela morte de seu glorioso Pay;
mas em razão da sua menoridade ficou sujeito à tutoria da Rainha sua
Mãy, a quem ElRey seu marido tinha deixado por tutora, e Governadora
do Reino, que com tanta prudencia, e desvelo exercitou; porém passados
seis annos, a 23 de Junho de 1662, contando ElRey dezanove annos de
idade, tomou posse do governo com a formalidade costumada.[730]
142 Antes de ElRey tomar posse do governo a tinhaõ já tomado da sua
vontade o Conde de Atouguia, Sebastiaõ Cesar de Menezes, e o Conde
de Castello-Melhor, descançando neste ultimo o pezo dos negocios da
Monarquia, e a cuja disposiçaõ se vio luzir em prosperos successos
a fortuna delRey com as vitorias das nossas armas; porque fazendo
Castella pazes com França, e unindo em varios corpos de exercito os
bellicosos espiritos dos alliados, cercou todas as nossas Provincias
com hum estrondoso poder, mas sempre ficou Portugal triunfante. Assim
se vio nas celebres batalhas do _Amexial_, do _Canal_, e de _Montes
claros_, em que os nossos Generaes acreditaraõ o seu valor, e sciencia
militar.
143 Naõ correspondiaõ as felicidades da guerra ao governo politico
da Corte, porque ElRey desde a idade de tres annos, padecendo hum
accidente de paralysia, que lhe deixou arida toda a parte direita do
corpo, o mesmo defeito padecia naquella parte interior da cabeça: daqui
se originaraõ varios excessos, e desordens, com que desgostou muito sua
Mãy prudentissima, e a todo o Reino; e como o principal motor destas
indignas acções era hum Antonio Conti, pessoa humilde, mas muito de seu
agrado, que lhe inspirava perniciosos conselhos, de algum modo se lhe
fez applacar os exercicios escandalosos com o degredo de Conti para a
Bahia.
144 Determinou-se o casamento delRey com a Princeza Maria Francisca
Isabel de Saboya, a qual chegou a Lisboa em 2 de Agosto de 1666, e naõ
se passando muito tempo, que experimentando a Rainha a incapacidade
delRey para as obrigações do thalamo, e que muitas vezes lhe faltavaõ
aos respeitos de Rainha, resolveo recolherse no Mosteiro da Esperança
a 2 de Novembro de 1667, e de lá começou a tratar a nullidade do
matrimonio. Logo que se começou o litigio, se teve por certa a sentença
da separaçaõ, e com este fundamento os zelosos da successaõ Real
propozeraõ ao Serenissimo Infante D. Pedro devia casar com a Rainha
pelas razões forçosas, que allegaraõ,[731] e que para evitar mayores
damnos na Monarquia avocasse a si o governo.
145 Assim se conseguio, porque ElRey D. Affonso dimittindo o regimen,
ficando conservando a magestade na pessoa, mas naõ no exercicio, foy
recluso em hum quarto do Paço a 13 de Novembro de 1667, e o Infante D.
Pedro foy jurado Principe Regente, e herdeiro da Coroa nas Cortes de 27
de Janeiro de 1668. Passaraõ depois a ElRey D. Affonso para o Castello
da Ilha Terceira, onde esteve seis annos, no fim dos quaes veyo para
os Paços de Cintra, onde faleceo a 12 de Setembro de 1683, e jaz no
Convento de Belem.[732]
_D. Pedro II. vigesimo terceiro Rey._
146 Em quanto ElRey D. Affonso foy vivo, não quiz o Serenissimo
Principe D. Pedro seu irmaõ outro titulo, que o de Regente do Reino,
cujo encargo tomou pelos repetidos rogos de seus vassallos; mas tanto
que faleceo D. Affonso, foy conhecido pelo soberano titulo de Rey D.
Pedro II. Havia nascido em Lisboa a 26 de Abril de 1648, e se achava já
na idade de trinta e cinco annos ao tempo da morte de seu irmão. Como a
nullidade do matrimonio entre ElRey D. Affonso, e a Rainha Dona Maria
Francisca de Saboya foy julgada, e em virtude da sentença se alcançou
Breve para se receber o Principe com a Rainha, de cujo consorcio naõ
houve outro fruto mais que a Senhora Dona Isabel, e a Rainha tinha
espirado a 17 de Dezembro de 1683, foy preciso que ElRey passasse a
segundas vodas para segurar a sua Real descendencia.
147 Naõ custou pouco determinarse ElRey para segundo casamento; mas em
fim se completou com a Serenissima Princeza Dona Maria Sofia, filha do
Eleitor Palatino do Rhim, em 11 de Agosto de 1687, e nessa ditosa uniaõ
augmentada com a felicidade da paz foy continuando ElRey o seu governo
com grande gosto dos vassallos; porque além de possuir da natureza
dotes muy especiaes na soberana, robusta, e galharda presença exterior,
nos costumes, e prendas do animo excedeo a todos os Monarcas do seu
tempo, porque era muy pio, devoto, compassivo, liberal, benigno para
com todos, e amante das pessoas virtuosas.
148 Com grande acerto levantou muitas judicaturas de novo para bom
regimen da justiça, em que era exacto, se bem na punitiva propendia
mais para a clemencia. Erigio tambem muitos Bispados, o de Pernambuco,
Rio de Janeiro, Maranhaõ, Pekim, Nankim, e o da Bahia elevou à
dignidade de Arcebispado, e teve a fortuna de possuir Ministros em
todos os empregos de grande experiencia.
149 Corria o anno de 1701, quando ElRey fez huma liga offensiva, e
defensiva com França, e Hespanha contra a Casa de Austria, a qual se
desfez depois a 16 de Mayo de 1703, entrando ElRey D. Pedro no Tratado
da grande alliança com o Imperador Leopoldo I., Inglaterra, e Hollanda,
a fim de meterem de posse de Hespanha o Archiduque Carlos filho segundo
do Imperador,[732a] o qual havia de entrar pelas nossas terras, e por
este ajuste se prometteraõ grandes conveniencias a Portugal. Chegou
aqui ElRey Carlos a 7 de Março de 1704, e fazendo huma publica, e
pomposa entrada, depois de assistir algum tempo na Corte, partio com
elle ElRey D. Pedro para a Provincia da Beira, por onde se havia de
introduzir em Castella.
150 Poz-se ElRey Filippe V. em campanha contra Portugal; porém o nosso
exercito, de que era General o Marquez das Minas, fez render varias
Praças de Castella, como foraõ Valença, Coria, Albuquerque, Alcantara,
Placencia, e Ciudad Rodrigo, e sujeitando-as à obediencia delRey,
penetrou até Madrid, onde fez acclamar Rey de Hespanha a Carlos III. em
2 de Julho de 1706.[733]
151 Havia-se ElRey D. Pedro restituido a Portugal em 17 de Novembro de
1704, e depois de ouvir com grande alvoroço, e celebrar com plausivel
contentamento a feliz acclamaçaõ delRey Carlos III. passados cinco
mezes, achando-se na quinta de Alcantara, o accommetteo hum pleuriz
legitimo com perigo manifesto da vida; e no dia 9 de Dezembro de
1706, tendo recebido com grande edificaçaõ o Santissimo Viatico, e o
Sacramento da Extrema-Unçaõ, deu a alma a Deos pela huma hora depois
do meyo dia, deixando por suas singulares virtudes eterna saudade a
seus vassallos. Viveo cincoenta e oito annos, sete mezes, e treze dias:
reinou como Principe Regente mais de quinze annos, e como Rey mais de
vinte e tres. Jaz sepultado no Convento de S. Vicente de Fóra.
_D. Joaõ V. vigesimo quarto Rey._
152 Por falecimento do Senhor Rey D. Pedro II. de saudosa memoria lhe
succedeo no Throno seu filho ElRey D. Joaõ V. tendo dezasete annos de
idade, contados desde 22 de Outubro de 1689, em que nasceo na Cidade de
Lisboa. Foy acclamado no primeiro de Janeiro de 1707, felicitando-lhe
com repetidos obsequios a exaltaçaõ à Coroa naõ só os seus vassallos,
mas todos os Principes da Europa.
153 Começando logo a dirigir suas acções pelo caminho, e maximas da
herocidade, ratificou a grande alliança, que ElRey seu pay celebrara
contra Hespanha; mas esta liga fez experimentar ao nosso exercito em 25
de Março de 1707 a mesma fortuna das Tropas alliadas: porque depois de
termos vencido valerosamente a batalha de Almança na fronteira do Reino
de Valença, melhorou o inimigo com tanta vantagem os seus esquadrões,
que o Duque de Baruvic nos prizionou treze Regimentos à custa de hum
grande destroço da sua gente.[734]
154 No seguinte anno de 1708, elegendo S. Magestade para esposa
a Serenissima Archiduqueza Dona Maria Anna de Austria, filha do
Imperador Leopoldo I. nomeou ao Conde de Villar-Mayor por Embaixador
extraordinario à Corte de Viena para esta negociaçaõ; e conduzida a
Serenissima Rainha pelo mesmo Conde, chegou à barra de Lisboa em 26 de
Outubro do mesmo anno, e a 22 de Dezembro fez sua entrada publica por
entre dezanove arcos triunfaes custosamente ornados, e hum innumeravel
concurso de gente, que com as repetidas demonstrações de alegria faziaõ
aquella funçaõ mais plausivel, e vistosa.
155 A guerra com Castella hia continuando, em que os nossos Generaes
davaõ evidentes provas do seu valor, e sciencia em varios choques,
cercos, e outros movimentos bellicos, recuperando algumas Praças, que
o inimigo nos havia usurpado, quando tudo se suspendeo pelo Tratado
da paz, que entre as tres Coroas de França, Hespanha, e Portugal se
celebrou na Cidade de Utreck em o anno de 1713, e se publicou em Lisboa
a 6 de Abril de 1715.
156 Estabelecida assim a paz no Reino, fez a vigilancia de Monarca
taõ augusto, que nas terras do seu dominio prosperamente florecessem,
e se gozassem os frutos da mesma paz por meyo de utilissimas leys,
extincçaõ de abusos, perfeição de costumes, e outras muitas disposições
produzidas da sua perspicaz advertencia, e Regios pensamentos. O zelo
da Religiaõ, o amor das letras, a observancia da justiça, o cuidado, e
cultura da sua Monarquia foy todo o seu desvelo. . 157 Do zelo, culto,
e respeito da Religiaõ sobejaõ provas, e testimunhos; pois bastando o
incansavel excesso, com que se empregou o seu generoso, e pio animo, à
maneira de outro Salomaõ, nas sumptuosas fabricas de Templos divinos,
fazendo contribuir para elles os mais preciosos marmores nobremente
pulidos, parecendo-lhe ainda pouca toda a profusaõ do dispendio,
excedeo a todo este cuidado o incessante desejo, e a incansavel ancia
de engrandecer, e augmentar cada vez mais o obsequio, e respeito da
mesma Religiaõ, e a formalidade magestosa de seus ritos, e cultos.
158 Este projecto naõ só Christianissimo, mas Regio, o elevou à
generosa obra da erecçaõ da Santa Igreja Patriarcal, onde vemos entre a
pomposa grandeza, e reverente devoçaõ celebraremse os Officios divinos,
e todas as funções Ecclesiasticas perfeitissimamente, ornando este
excellentissimo Collegio Patriarcal de pessoas mais esclarecidas em
sangue, e letras, a que conferio muitas preeminencias, e honras, e a
que ajuntou grandes rendas, conforme a jerarquia das suas Dignidades.
E para que a grandeza, e jurisdiçaõ desta Santa igreja fosse mais
ampla, fez supprimir o Arcebispado de Lisboa Oriental pela Bulla do
Santissimo Papa Benedicto XIV. intimada no primeiro de Setembro de
1741, ficando desde entaõ havendo hum só Cabido Patriarcal em todo o
territorio, e Diocese de Lisboa, que até este tempo estava dividida em
dous Arcebispados, erigindo tambem nos Paços dos antigos Arcebispos de
Lisboa hum Seminario para se educarem os estudantes, que houverem de
servir na Santa Igreja Patriarcal.
159 Incitado do mesmo zelo da Religiaõ, e a rogos do Summo Pontifice
Clemente XI. mandou o nosso magnanimo Rey duas vezes soccorrer Italia
contra o formidavel poder Othomano, devendo-se à esquadra Portugueza,
que se compunha de seis náos de guerra, dous burlotes, e huma tartana,
a gloria de embaraçar ella só a terrivel força de vinte e duas
sultanas, e outras tantas náos de Barbaria, com que o Graõ Baxá vinha
sobre Corfú, e Veneza, fazendo o terror das nossas armas retirallo
injuriosamente para a Moréa com a perda de cinco mil Turcos; e deixando
desassombrados, e seguros os portos naõ só daquella Republica, mas de
toda Italia em Agosto de 1717, ficou nosso Monarca na vitoria deste
conflicto naval constituido arbitro dos que o tem sido do mundo.[735]
160 O amor das letras se vê na util erecçaõ da Academia da Historia,
que teve o seu principio em 8 de Dezembro de 1720, compondo-a dos
homens mais eruditos do Reino, e a cujas Conferencias permittio a
honra da sua Real presença repetidas vezes. Para a celebre Academia
dos Arcades, que ha em Roma, comprou novo domicilio, para se fazerem
as suas assembleas com melhor commodidade. Em todas as Provincias do
Reino ordenou que houvessem Academias militares, para que florecesse
a sciencia Mathematica; e para a da Jurisprudencia erigio tambem
na Universidade de Evora tres Cadeiras do Direito Civil, e duas do
Canonico, excedendo para prova deste affecto naõ só o amparo, que os
eruditos achavaõ na sua benignidade, nem a grande collecçaõ de livros
selectos, com que formou huma das mayores Bibliothecas da Europa, mas a
vasta comprehensaõ das mesmas sciencias, e a continua liçaõ dos mesmos
livros.
161 Naõ he possivel caber na curta esfera deste Mappa a expressaõ
de acções taõ grandes, que obrou ElRey D. João V.: os maravilhosos
edificios de Templos, Palacios, e casas de campo; a utilissima, e
sumptuosa construcçaõ do aqueducto de Lisboa; o desafogo das suas ruas;
a melhor commodidade da navegaçaõ do Tejo; a introducçaõ de novas
fabricas; o augmento dos arsenaes; e sobre tudo o da propagaçaõ da
Fé em todas as suas Conquistas, com a recta observancia da justiça,
saõ acções taõ notaveis, e tantas, que justamente poderá questionar a
posteridade, se foraõ obradas por hum só Heroe, ou por muitos: mas que
muito se no augusto, e magnanimo peito deste Monarca residiaõ juntos
elevadamente os espiritosos brios de todos os Monarcas Lusitanos, e de
fórma o animavaõ, que o faziaõ exceder a todos;[736] ajuntando-se a
todos estes dotes a magestosa presença, e bem proporcionada estatura
de seu galhardo corpo, que, ainda disfarçado, mal podia encubrir o
respeito de Soberano.
162 Com toda esta felicidade padeceo todavia ElRey a 10 de Mayo de
1742 hum fortissimo ataque de paralysia, que lhe debilitou a parte
esquerda do corpo; mas com os banhos das Caldas, chamadas da Rainha,
para onde foy em 9 de Julho do dito anno, e com a applicaçaõ de outros
remedios adquirio alguma melhoria, mas naõ aquella total saude, que os
seus vassallos desejavaõ. Assim foy continuando com grande constancia
de animo o prolongado tormento da sua queixa, que sem embargo de lhe
embaraçar os passos para andar, naõ lhos pode impedir ao progresso da
sua devoçaõ, e piedade.
163 Com esta assistia de continuo na tribuna da Santa Igreja
Patriarcal, adorando, e deprecando a Deos nos muitos sacrificios de
Missas que ouvia, e Officios que rezava. A elle devem as Almas detidas
no Purgatorio o grande suffragio, que por indulto Apostolico obteve da
Santidade de Benedicto XIV. expedido em Roma aos 21 de Agosto de 1748,
para que no dia da Commemoraçaõ dos Fieis defuntos podessem todos os
Sacerdotes dos seus dominios celebrar tres Missas. Este grande animo,
e fervor de espirito, com que favorecia as Almas, foy nelle sempre
inseparavel, dispendendo caritativo no frequente beneficio dos seus
suffragios grosso, e innumeravel cabedal. Destas acções taõ pias, e
magnanimas persuadido o Pontifice Benedicto XIV. lhe concedeo a 23 de
Dezembro do mesmo anno de 1748 para si, e seus successores o titulo de
_Fidelissimo_.
164 Chegando finalmente o prazo ultimo de seus dias, os terminou em
Lisboa aos 31 de Julho de 1750, e foy viver na Bemaventurança em
premio das virtudes que exercitou; tendo-se primeiramente disposto, e
preparado como Catholico com todos os Sacramentos da Igreja. Jaz seu
corpo no Templo de S. Vicente de Fóra.
165 A inclyta Naçaõ Portugueza deu ao publico em Roma numa demonstraçaõ
do seu reverente obsequio à saudosa memoria de taõ grande Monarca:
celebrou na Real Igreja de Santo Antonio as solemnes exequias com
aquella magnificencia, e esplendor, que eraõ devidas às excelsas
prerogativas de hum Principe taõ benemerito da Sé Apostolica: para isto
fez erigir hum sumptuoso Mausoleo com engenhoso artificio pela idéa do
Architecto Portuguez Manoel Rodrigues dos Santos, ornado de primorosas
figuras, medalhas, e epigrafes; concluindo-se todo o apparato lugubre
com a seguinte inscripçaõ: