_Invasaõ, e dominio dos Mouros._
1 Derrotado, e extincto o exercito dos Godos nas prayas do Guadalete
em dia de S. Martinho 11 de Novembro de 714 conforme a melhor
computaçaõ,[541] e refugiando-se nas terras de Portugal o infeliz
Rey D. Rodrigo, onde passados alguns annos acabou com a morte os
seus dias junto a Viseu,[542] entraraõ os Arabes a executar com todo
o furor a conquista de Hespanha, vendo-se logo nos seguintes dous
annos a mayor parte della, e do nosso Reino sujeita, e subordinada ao
dominio barbaro, excepto aquellas porções de Galiza, e Asturias, que
pela aspereza de suas brenhas se fizeraõ inaccessiveis às armas dos
Africanos.[543]
2 O lastimoso estado, em que se achariaõ nossas terras com aquelle
improviso, e accelerado cativeiro, bastantemente se faz crivel,
vendo-se em taõ pouco tempo sem liberdade, afflictas, e tributarias
a huma Naçaõ barbara, e contraria da Fé Catholica: as Igrejas, e
Sacerdotes desprezados com desacatos, e insultos, experimentando
estes golpes primeiro que outras aquellas povoações, que estavaõ mais
proximas ao Oceano.[544]
3 Havia-se achado na batalha do Guadalete o Infante D. Pelayo, da
antiquissma familia dos Hespanhoes Cantabros,[545] que com as breves
reliquias de alguns Godos se tinha acolhido às montanhas das Asturias.
Passado algum tempo, resentido da violencia, que hum Governador
Mouro fizera a huma sua irmã, tomando-a por mulher, estando elle
ausente,[546] com o motivo de taõ justa vingança, e de sacudir dos seus
hombros, e de seus nacionaes o gravame de tal jugo, convocou, ou se lhe
aggregou muita gente valerosa com armas, e petrechos proporcionados à
empreza; e depois de o acclamarem Rey no valle de Cangas, ou Covadonga,
noticioso Alahor, Governador Arabe, daquella sublevaçaõ, o mandou
accommetter com o formidavel exercito de cento e oitenta e sete mil
Mouros, aos quaes milagrosamence destruio D. Pelayo.[547]
4 Divulgada a noticia deste primeiro triunfo, respirou o animo dos
Christãos dispersos ao mesmo tempo, que se abateo o furor barbaro; e
concorrendo ao estrondo deste feliz successo D. Affonso, filho de
D. Pedro, Duque de Biscaya, descendente do glorioso Recaredo, Rey
Godo,[548] se offereceo com bom numero de Biscainhos a ElRey D. Pelayo,
o qual reconhecendo animo, e valor heroico na pessoa de D. Affonso, o
desposou com sua filha Ermesenda.
5 D. Affonso agradecido a elle favor, querendo explicar bem o seu zelo,
e gratidaõ, entrou poderosamente em Portugal pela Provincia do Minho, e
recuperando Braga, Porto, Viseu, Agueda, e outras terras deste Reino,
libertando-as da escravidaõ Sarracena, se recolheo vitorioso, deixando
com estes triunfos aturdidos os barbaros, que já começavaõ a tratar os
nossos mais com algum respeito, e menos oppressaõ.[549]
6 O governo politico se praticava, nomeando o Governador Mouro a hum
Conde Christaõ em cada Comarca, o qual sentenciava as causas ordinarias
segundo as leys Goticas, excepto a sentença de morte, que só a podia
dar o Alcaide dos Mouros, que pouco a pouco foraõ introduzindo, e
intimando as suas leys.[550]
7 Como o Catholico Rey D. Affonso, (o qual pela morte de D. Favila,
seu cunhado, havia recebido o Cetro, e a Coroa,) naõ podia nesta
gloriosa conquista pela falta de gente conservar nas terras, que
resgatava, aquelle presidio sufficiente, que rebatesse as sublevações
dos inimigos; acontecia que humas vezes ficavaõ nossas terras na
obediencia dos Christãos, outras na dos Barbaros, e nesta inconstancia
de dominio permaneceo o Reino nos tempos de D. Froila, D. Aurelio,
D. Silo, D. Mauregato, e D. Bermudo, todos Reys de Asturias, até que
ElRey D. Affonso _o Casto_, reforçado com mayor poder, se avançou desde
as Asturias até Lisboa, que bloqueou, venceo, e guarneceo de mayor
presidio, e a outras muitas terras, que lhe ficavaõ intermedias do
Minho, e Beira, por onde passara.
8 Teriaõ passado oito annos, quando os infieis, creando novos alentos,
sahiraõ com poderoso exercito, que commandava Aliatan, e recuperaraõ
todas aquellas terras, que reconheciaõ o nome delRey D. Affonso; porém
este fazendo-lhe valerosa oppugnaçaõ, os obrigou a pactear. Em fim com
este perturbado governo se foy continuando bastantes annos o estado
das nossas Provincias, conforme era a fortuna, que experimentavaõ; e
mudando-se para conhecida prosperidade em tempo, que governava ElRey D.
Affonso VI. se vio o Imperio Christaõ em grande augmento.
9 Discorriaõ as armas Catholicas taõ felizmente, que ao pregaõ de
seus gloriosos progressos vinhaõ muitos Capitães de nome, emulos do
valor, e da honra, militar pelo credito da Fé à sombra das bandeiras
de taõ venturoso Monarca. Entre estes veyo o illustrissimo, e valeroso
Conde D. Henrique, do qual procedeo huma florentissima arvore dos
soberanos Monarcas Portuguezes, que no Capitulo seguinte havemos de
expôr, demorando-nos agora hum pouco, em quanto mostramos em abbreviado
Catalogo a serie dos Reys de Asturias, cujo dominio reconheceo
Portugal, como sua primeira, e propria conquista sobre os Arabes; e
destes tambem fizera-mos Catalogo chronologico pelo que pertence aos
seus Califas, ou Governadores em o tempo do imperio, que tiveraõ em
Portugal, se acaso os Escritores Arabes foraõ coherentes nas suas
Hegiras, ou Chronologias, cuja confusaõ nos absolve deste trabalho,
podendo quem quizer mayores noticias das expedições dos Mouros, e
guerras intestinas, que fizeraõ em toda Hespanha, ver a obra de
Abulcacim Tarif Abenterique, traduzida em Castelhano por Miguel de
Luna, e impressa no anno de 1600, ou o que se acha junto no Chronicon
de Vaseu. _Catalogo chronologico dos Reys de Asturias, e Leaõ, que em
tempo dos Mouros começaraõ a conquistar, e governar Portugal._
| Ann. |
| de |
| Chr. |
| |
| 738 | _D. Affonso I._ chamado o _Catholico_, filho
| | do Duque de Biscaya. Casou com a filha delRey
| | D. Pelayo: foy o primeiro Rey de Asturias,
| | que depois da perda de Hespanha teve
| | dominio sobre os Portuguezes, e conquistou
| | aos Mouros terras de nosso paiz: fundou,
| | e reparou muitas Igrejas. Governou dezanove
| | annos.
| |
| 757 | _D. Froila_, ou _Fruela_, filho de D. Affonso.
| | Ganhou algumas batalhas aos Mouros, e lhe
| | conquistou Béja, Setubal, e outras terras de
| | Portugal. Com inveja de ser mais bem quisto
| | seu irmaõ Vimarano, o matou, deslustrando
| | com esta crueldade todas as boas obras,
| | que tinha feito. Reformou o estado Ecclesiastico
| | de Hespanha, e no seu tempo succedeo
| | a vinda do corpo de S. Vicente a Portugal.
| | Seus vassallos o mataraõ, e foy sepultado
| | na Igreja de Oviedo, que elle fundou.
| | Governou onze annos e meyo.
| |
| 768 | _D. Aurelio_, filho de D. Fruela. Serenou
| | com prudencia num grande tumulto de escravos,
| | que se levantaraõ contra seus senhores.
| | Governou seis annos.
| |
| 774 | _D. Silo._ Succedeo na Coroa, por casar com
| | Adosinda, filha de D. Affonso o Catholico.
| | Teve paz com os Sarracenos, e só com os
| | Gallegos teve huma guerra, em que venceo.
| | Entrou poderosamente na Cidade de Merida,
| | donde tirou o corpo de Santa Eulalia, e o
| | depositou na Igreja de S. Joaõ Evangelista de
| | Pravia, onde elle está enterrado, com huma
| | inscripçaõ na sua sepultura em labyrintho,
| | que diz, e se lê por todos os lados: _Silo Princeps
| | fecit_. Governou nove annos.
| |
| 783 | _D. Mauregato._ Obteve a Coroa por usurpaçaõ;
| | porque a Rainha Adosinda pertendeo
| | que os Grandes de Hespanha acclamassem
| | por successor a D. Affonso, seu sobrinho,
| | filho delRey D. Fruela; e sabendo isto Mauregato,
| | filho bastardo de D. Affonso o _Catholico_
| | havido em huma Moura, anhelando
| | tambem ao Cetro, se foy valer de Abderramen,
| | Rey de Cordova, promettendo-lhe vassalagem,
| | se o soccorresse na sua pertençaõ.
| | Foy o promettimento dar-lhe todos os annos
| | cem donzellas de tributo, cincoenta nobres,
| | e outras tantas plebeas, e se mandavaõ recolher
| | em Asturias, Portugal, e Galiza. D.
| | Joseph Pellizer,[551] a quem segue D. Joaõ
| | de Ferreras,[552] quizeraõ persuadir que este
| | Rey nem se chamava Mauregato, nem promettera
| | ao Mouro o tributo annual das cem
| | donzellas Christãs; porém naõ tem razaõ,
| | segundo o que se lê na Monarquia Lusitana,[553]
| | e o que diz o Padre Fr. Francisco de Bergança.[554]
| | Governou cinco annos.
| |
| 789 | _D. Bermudo I._ filho de D. Fruela. Sendo
| | Diacono, e destinado à Igreja, por instancias
| | dos Grandes do Reino entrou a governar.
| | Naõ quiz contribuir aos Governadores
| | Mouros com o tributo das cem donzellas.
| | Depois de haver governado tres annos, e oito
| | mezes, renunciou o Reino em D. Affonso,
| | filho de seu primo D. Fruela, e passou
| | a buscar o habito de Monge no Mosteiro de
| | Sahagum, onde viveo muitos annos.
| |
| 791 | _D. Affonso II._ chamado o _Casto_. Encarregando-se
| | do governo, que lhe cedeo D. Bermudo,
| | começou a se fazer temido dos Mouros.
| | Recuperou Lisboa por assalto, e conquistou
| | as Cidades de Lamego, Viseu, Coimbra,
| | Braga, e outros Lugares. Mahamet
| | fez pazes com elle, e o servia como vassallo.
| | Em seu tempo se descubrio o corpo do
| | glorioso Apostolo Santiago, a quem mandou
| | edificar huma Igreja com magnificencia Real.
| | Governou conforme a nossa Chronologia cincoenta
| | e hum annos; porém a Clave Historial
| | do Padre Fr. Henrique Flores lhe assina
| | trinta e quatro.
| |
| 842 | _D. Ramiro I._ filho delRey D. Bermudo.
| | Logo no principio do seu reinado se levantou
| | contra elle hum Conde das Asturias, chamado
| | Nepociano, a quem venceo, e castigou,
| | mandando-lhe tirar os olhos, supplicio
| | ordinario daquelle tempo. Com fortuna igual
| | ao seu valor ganhou aos Mouros o Porto, Lamego,
| | Viseu, Coimbra, e Montemór o Velho.
| | Aqui poz por Governador a seu tio o
| | Abbade Joaõ, o qual cercado dahi a tempos
| | pelos Barbaros, vendo que todos pereciaõ
| | irremediavelmente por falta de mantimentos,
| | resolveo com os mais, que se as mulheres, velhos,
| | e meninos haviaõ ficar expostos ao furor
| | dos tyrannos, fossem elles mesmos os que
| | sacrificassem a innocencia por victima da sua
| | honra: e assim cada hum degollou por suas
| | proprias mãos a quem mais amava. Sahiraõ logo
| | a acommetter desesperadamente aos Mouros,
| | os quaes naõ podendo soffrer aquelle tremendo
| | modo de pelejar, se deraõ por vencidos
| | à custa de setenta mil que pereceraõ. No
| | outro dia voltando alguns à Villa, se lhes offereceo
| | novo motivo para a admiraçaõ, vendo
| | que todos os degollados viviaõ resuscitados
| | milagrosamente. Referem este caso nossos
| | Historiadores,[555] e parece que o acredita
| | a tradiçaõ de pays a filhos, que ainda permanece
| | nesta Villa. No seu Castello está hum
| | antiquissimo padraõ, que supposto ter já muitas
| | letras carcomidas, bem se percebe da contextura
| | ser narraçaõ deste prodigio. Havendo
| | finalmente D. Ramiro governado sete annos,
| | e oito mezes, morreo no primeiro de
| | Fevereiro de 850, e está sepultado na Igreja
| | de Oviedo.
| |
| 850 | _D. Ordonho I._ filho de D. Ramiro, a quem
| | succedeo com universal applauso, por ser
| | Principe de grande valor, e talento. Serenou
| | huma rebelliaõ dos Vascões seus vassallos, e
| | venceo ao renegado Musa, de grande nome
| | entre os infieis, por cuja vitoria ficaraõ muy
| | temerosos. Ganhou Santarem, Leiria, e outras
| | terras de Portugal. Morreo de gota, e
| | governou dezaseis annos.
| |
| 866 | _D. Affonso III._ chamado o _Magno_ pelas
| | grandes vitorias, que alcançou dos Mouros,
| | e sumptuosos Templos, que edificou, e esmolas,
| | que deu. Os seus o perseguiraõ, rebellando-se,
| | e os Barbaros oppondo-lhe fortes
| | exercitos; mas elle pacificou huns, e triunfou
| | dos outros. Em Portugal reedificou
| | muitas Cidades arruinadas, Braga, Porto,
| | Chaves, e Viseu. Renovando-se as inquietações
| | domesticas, e sabendo que os seus mesmos
| | filhos queriaõ despojallo do Cetro, pelos
| | naõ vencer a elles naquella violencia, se
| | venceo a si, e repartindo o Imperio, deu a
| | D. Garcia o governo de Leaõ, Oviedo, e
| | Castella, e a D. Ordonho Galiza, e Portugal,
| | ficando elle só com a espada contra os
| | Mouros, de quem ainda alcançou vitorias.
| | Governou quarenta e quatro annos.
| |
| 910 | _D. Garcia._ Entrou a governar bem, explicando
| | o seu valor na vitoria, que teve dos
| | Mouros em Talavera, prendendo ao General
| | Ayola, que ao depois lhe fugio. Governou
| | tres annos.
| |
| 913 | _D. Ordonho II._ Morto D. Garcia, foy acclamado
| | Rey pelos Bispos, e Principaes do
| | Reino. Combateo a Cidade de Béja, que era
| | a mais opulenta, que os Mouros occupavaõ,
| | e a ganhou matando toda a gente da guarniçaõ.
| | Poz grande terror aos Barbaros, de fórma
| | que ElRey de Merida lhe veyo render
| | vassallagem. Suspeitando que os quatro Condes,
| | que governavaõ entaõ Castella, se queriaõ
| | rebellar, mandou-os vir a Tejares junto
| | do rio Carrion, segurando-lhes queria tratar
| | com elles materias importantes; mas dissimuladamente
| | os prendeo, e os fez degollar. Governou
| | nove annos, e meyo.
| |
| 923 | _D. Froila II._ Naõ se conta deste Rey acçaõ
| | contra os Mouros, antes o culpaõ de
| | tyranno, mandando matar os filhos de Olimundo,
| | e desterrar a Fronimio, Bispo de
| | Leaõ, por terem seguido as partes do Infante
| | D. Affonso. Por isto se fez aborrecivel dos
| | vassallos. Morreo de lepra, e governou hum
| | anno.
| |
| 924 | _D. Affonso IV._ Entrando a governar, e conhecendo-se
| | inutil, renunciou o dominio em
| | seu irmaõ D. Ramiro, e elle foy buscar a vida
| | Monastica no Convento Benedictino de Sahagum.
| | Depois passados seis mezes, largando
| | o habito, se foy a Leaõ, onde o admittiraõ,
| | e intitularaõ Rey. Sabendo isto D. Ramiro,
| | passou àquella Corte, e cercando-a, obrigou
| | a D. Affonso a entregarse-lhe, e irado lhe
| | mandou tirar os olhos, e prender até acabar
| | seus dias. Os annos do seu governo, e tempo
| | do Monacato pertendem ajustar Fr. Francisco
| | de Bergança,[556] e Fr. Manoel da Rocha.[557]
| |
| 931 | _D. Ramiro II._ Depois de prender a seu irmaõ,
| | e seus sobrinhos, determinou fazer
| | cruel guerra aos Mouros, como com effeito
| | fez taõ felizmente, que sempre os venceo.
| | Ajudando-o visivelmente Santiago, matou
| | junto de Simancas a setenta mil Mouros. Alguns
| | Historiadores[558] dizem, que morrera
| | sendo Religioso. Governou dezanove annos.
| |
| 950 | _D. Ordonho III._ Foy filho de D. Ramiro,
| | e Principe valeroso, e prudente. Casou com
| | a filha do Conde Fernaõ Gonçalves, o qual
| | querendo rebellarse contra elle, repudiou-lhe
| | a filha, e lha mandou a Castella. Sujeitou
| | aos Gallegos, que se haviaõ levantado,
| | e passando a Portugal, chegou até Lisboa,
| | que entrou sem embaraço, saqueando os mais
| | lugares, que estavaõ em poder dos Mouros.
| | Governou cinco annos e meyo.
| |
| 955 | _D. Sancho I._ chamado o _Gordo_, porque
| | na verdade o era, e foy motivo para ser deposto
| | do throno, e subir em seu lugar o Infante
| | D. Ordonho, filho de D. Affonso IV.
| | intervindo nisto o Conde Fernaõ Gonçalves,
| | e alguns Senhores de Galiza. Passou D. Sancho
| | a Cordova, e alcançando lá remedio à
| | sua queixa, o buscou tambem aos seus interesses,
| | valendo-se delRey Abderramen, que
| | com hum exercito de Mouros fez com que
| | D. Ordonho lhe restituisse o Reino de Leaõ.
| | Os Condes, que governavaõ as terras do Minho,
| | e Galiza, se conjuraraõ contra ElRey;
| | mas elle pacificando-os, os obrigou a jurarem
| | fidelidade, em cujo acto hum dos Condes
| | lhe deu peçonha, de que morreo. Governou
| | doze annos.
| |
| 967 | _D. Ramiro III._ Tomou a investidura do
| | Reino, tendo cinco annos de idade, e começou
| | este governo pelas direcções de sua mãy,
| | e tia. Fez pazes com ElRey de Cordova, recuperou
| | dos Mouros o corpo do glorioso S.
| | Pelagio, destruio pelo valor do Conde Gonçalo
| | Sanches huma armada de Normandos,
| | que aportou em Galiza. Tratando com pouca
| | attençaõ aos Condes de Portugal, e Galiza,
| | estes acclamaraõ por seu Rey ao Infante
| | D. Bermudo, filho delRey Ordonho, a
| | 15 de Outubro de 982. Contenderaõ ambos
| | rijamente, e a morte de D. Ramiro decidio
| | o argumento. Governou dezaseis annos.
| |
| 985 | _D. Bermudo II._ chamado o _Gotoso._ Foy pouco
| | afortunado, pois encontrou sempre muy
| | poderoso a seu contrario Almançor. Em Portugal
| | tudo que hia desde a corrente do Douro
| | até o Algarve estava sujeito aos Mouros,
| | e só a pequena Comarca de Entre Douro, e
| | Minho com algumas terras da Beira estavaõ
| | na obediencia delRey D. Bermudo. Unido
| | com ElRey de Navarra, e o Conde Garcia
| | Fernandes, venceo huma grande batalha a Almaçor,
| | que o obrigou a fugir para Cordova,
| | deixando-lhe no campo setenta mil Sarracenos.
| | Morreo arrependido de suas culpas
| | em Galiza, e governou quatorze annos.
| |
| 999 | _D. Affonso V._ filho de D. Bermudo. Succedeo
| | na Coroa, tendo cinco annos de idade.
| | Foy Principe muy pio, e caritativo. Com
| | intentos de destruir os Mouros passou a Viseu,
| | onde elles tinhaõ as mayores forças, e
| | resistencia, e os cercou apertadamente; mas
| | chegando-se perto das muralhas, huma seta
| | disparada das suas ameyas o atravessou, e
| | fez levantar o sitio. Governou vinte e sete
| | annos.
| |
| 1027 | _D. Bermudo III._ filho de D. Affonso. Foy
| | Principe de grande animo, porém infeliz,
| | porque nas guerras, que teve com seu cunhado
| | D. Fernando, Rey de Castella, mettendo-se
| | na batalha do Carrion por entre as
| | armas, lhe tiraraõ a vida. Governou dez
| | annos.
| |
| 1038 | _D. Fernando_ o _Magno_. Por morte de seu
| | cunhado tomou posse do Reino de Leaõ.
| | Deveo-lhe Portugal a restauraçaõ das suas
| | terras desde o Douro até o Mondego. Depois
| | de muitas vitorias mereceo que o glorioso
| | Santo Isidro lhe revelasse o fim dos
| | seus dias; e antes de morrer repartio seus
| | Reinos por seus filhos: a D. Sancho deixou
| | Castella, a D. Affonso Leaõ, e a D. Garcia
| | Galiza, e Portugal. Governou vinte e
| | nove annos.
| |
| 1067 | _D. Garcia._ No seu governo se deixou este
| | Principe levar das lisonjas de hum seu valido,
| | chamado Verna, que foy causa de se
| | descontentarem os illustres Portuguezes, e
| | Gallegos, os quaes levantando-se, tomaraõ
| | armas, e lhe deraõ huma batalha, que elle
| | todavia venceo. D. Sancho, seu irmaõ mais
| | velho, o metteo em prizões, e o Reino de
| | Portugal, e Galiza se lhe entregou, ficando
| | por entaõ incorporado na Coroa de Castella.
| | Governou quatro annos.
| |
| 1071 | _D. Sancho II_ Perseguio fortemente a seus
| | irmãos, e querendo usurpar tambem do poder
| | de sua irmã Dona Urraca a Cidade de
| | Çamora, que poz em apertado cerco, hum
| | Cavalleiro chamado Velhido Dolfos o matou
| | com huma lança. Governou hum anno.
| |
| 1072 | _D. Affonso VI._ Teve o titulo de Imperador,
| | e reinou em Castella, Leaõ, Portugal,
| | e Galiza. Foy hum dos mais bem afortunados
| | Principes de Hespanha, e o que conquistou
| | mais terras aos Mouros, aos quaes
| | atropelou com o valor do celebrado Cid.
| | Distribuio o governo de algumas Comarcas
| | de Portugal por illustres pessoas. O Conde
| | D. Sisnando governava as terras de entre
| | Douro, e Mondego. Egas Ermigio Arouca.
| | O Conde D. Nuno Mendes a Provincia
| | do Minho, a quem succedeo o illustrissimo
| | Conde D. Henrique, gloriosa origem dos
| | Reys Portuguezes, de cujo assumpto ornaremos
| | só como epitome o Capitulo seguinte.