_Entrada das Nações barbaras, e dominio dos Godos._
1 Pela ambiciosa perfidia de Estelicon, ayo, e sogro do Imperador
Honorio, que pertendia recahisse a coroa Imperial em seu filho
Eucherio, o que naõ conseguio, se introduziraõ na Hespanha certas
gentes Septentrionaes de Alemanha, chamadas _Vandalos_, _Suevos_,
_Alanos_, e _Selingos_, os quaes depois de terem saqueado Roma, e
destruido grande parte de França, invadiraõ nossas terras com huma
expediçaõ taõ barbara, talando campos, e edificios, que igualavaõ a
colera com a crueldade.[520]
2 O anno, em que se experimentou esta invasaõ, naõ he fixo na epoca
dos Escritores: entre os annos de 409, e 416 de Christo sem duvida que
aconteceo; mas a mayor parte dos Historiadores Hespanhoes se inclinaõ
a assinar esta invasaõ na Era de Cesar 447,[521] que corresponde aos
annos 409; e sendo a Cidade de Lisboa a primeira povoaçaõ nossa, que
esteve a risco de ser devorada pela fereza daquelles leões, que a
tinhaõ em cerco, brevemente o levantaraõ por num pequeno donativo, que
os Cidadãos lhe offereceraõ; porém continuando com a mesma ferocidade,
arruinaraõ outras terras da Lusitania, e o que estava sujeito ao
Imperio Romano, cujo estrago foy o intuito principal, a que todos estes
barbaros se encaminhavaõ.
3 Cada parcialidade destas gentes tinha seu Rey, a que obedeciaõ; e por
naõ se confundirem nesta assolaçaõ, os Vandalos, e Selingos com o seu
Rey _Gunderico_, ou _Mondigelesio_, occuparaõ Andaluzia, que delles
adquirio nome: os Alanos, e Suevos com os seus Reys _Resplandiano_,
e _Hermenerico_ possuiraõ a Lusitania, e Galiza, ficando Asturias, e
Biscaya permanecendo na sujeiçaõ Romana.[522]
4 Morto _Resplandiano_ se lhe seguio _Atáces_, o qual estribando seu
atrevimento nas mayores forças por senhorear mayor parte da Lusitania,
foy accommetter _Hermenerico_, Rey dos Suevos, a quem tomou algumas
terras, especialmente Coimbra, que entaõ se achava existente no sitio
de Condeixa a velha, e principiou a edificar a que agora existe,
obrigando ao trafego da obra toda a qualidade de pessoas.
5 Quizera Hermenerico resistir, e castigar os atrevimentos de Atáces;
convoca em seu favor a Gunderico, Rey dos Vandalos; fortifica-se no
Porto, e fortifica tambem a Cidade. Chegaõ a litigar os dous exercitos,
e declinando de huma parte o poder, fica Hermenerico derrotado; tudo
porém se compoz logo, offerecendo Hermenerico a ElRey Atáces sua
filha Cindasunda para esposa com hum thesouro por dote de riquezas
consideraveis.[523] Nesta paz viveraõ socegados sogro, e genro,
occupando-se unicamente em fazer algumas correrias contra os que
seguiaõ o partido Romano.
6 Tinhaõ-se incorporado os Vandalos, e Suevos para maquinarem rijo
accommettimento concra os Alanos, que com a soberba do seu Rey Atáces
pertendiaõ usurpar as terras dos seus visinhos. Honorio havia feito
pazes com os Godos, e tambem com os Vandalos; e soccorridos estes com
taes auxilios, deraõ batalha, pelejarão valerosamente, e venceraõ a
Atáces.
7 Recuperaõ outra vez os Alanos, e Selingos as terras perdidas, fundaõ
a Villa de Alenquer, e já sem Rey, que os governasse, tornaõ a ser
feudatarios ao Imperio Romano. Ajustaõ pazes com os Suevos, e com
tal uniaõ se enlaçaraõ, que desde esta confederaçaõ se começaraõ os
Portuguezes a chamar Suevos.[524] Passaõ os Vandalos para Africa em
numero de oitenta mil, e os Alanos, e Suevos se deixaraõ ficar na
Lusitania possuindo aquellas terras, que lhe couberaõ em forte.
8 Numerava já o mundo Christaõ mais de quatrocentos e cincoenta annos,
quando Theodorico, Rey Godo, entrando por Hespanha contra Reciario, Rey
dos Suevos, depois de o apertar com huma guerra cruenta, o venceo junto
a Astorga, dissipando naquelle dia todas as grandezas, e nome Suevo,
para fundar nas suas ruinas o Imperio Gotico; e deixando as terras de
Portugal já sujeitas à sua obediencia, se retira a França.
9 Os Suevos vendo-se destruidos recorrem ao Rey Godo por meyo dos
Bispos, supplicando-lhe a liberdade de acclamarem Rey proprio, e
nacional com o reconhecimento de feudatarios. Orou nessa embaixada
eloquentemente Idecio, Bispo de Lamego, por cuja efficacia, e persuasaõ
lhe outorgou Theodorico com grandeza regia quanto pediaõ. Voltaõ os
Prelados para Braga, e elegem a Masdra para seu Rey.
10 Alguns dos nobres mal satisfeitos da eleiçaõ, com o pretexto de
naõ se acharem presentes, acclamaraõ em Lugo por seu legitimo Rey a
França. Daqui principiarão a nascer muitas discordias, cujos effeitos
descarregando em insultos sobre os povos, lhes fizeraõ sentir, e
padecer as molestias, e os riscos daquella opposiçaõ.
11 Socegaraõ em fim com a morte de Masdra, e com o tratado de paz, que
seu filho Remismundo, successor no governo, fez com o Franta; mas como
a este se lhe seguisse Frumario, e persistisse na teima de ser elle
o Rey legitimo, fez resuscitar as antigas contendas, que ultimamente
feneceraõ com o fim dos seus dias, ficando Remismundo com todo o
principado da Lusitania, e dos Suevos.
12 Para mayor segurança do seu dominio mandou Remismundo pedir ao Rey
Godo Theodorico lhe quizesse confirmar o tratado das pazes, que seus
antecessores tinhaõ feito, expressando-lhe a prompta fidelidade, e
reconhecimento, em que vivia. Lisongeado Theodorico desta attençaõ,
houve por bem suas conquistas, e lhe deu por esposa huma sua filha,
a qual, como era Arriana, introduzio em Portugal esta seita, que
inficionou todo o Reino,[525] na qual foraõ permanecendo outros Reys
até Theodomiro, que foy quem resuscitou a Fé Catholica, e fez que
abjurassem os Suevos os dogmas da perfidia Arriana, em que tinhaõ
vivido noventa annos.
13 Reinava na Monarquia Gotica Leovigildo, e estimulado das tyrannias,
que Andeco usava com os Suevos, em cujo governo se introduzira,
voltando as armas contra elle, o cativou, e se fez senhor de todo o
Reino, e dominio Suevo pelos annos 585,[526] principiando daqui para
diante o governo, e Imperio dos Godos em Portugal.
14 Subordinada já nossa Peninsula ao total poder Gotico, foraõ
continuando em seu governo os seus Monarcas, pondo em algumas terras
Governadores com titulo de Condes, que residiaõ a arbitrio dos Reys
Godos.[527] Passados annos, chegou a Monarquia a perigar na falta de
successor; mas por conselho do Romano Pontifice, que para isso teve
revelaçaõ divina,[528] foy escolhido Vamba, natural, e habitador de
Idanha, onde o foraõ achar bem alheyo de outro governo, que naõ fosse o
dispotico exercicio da sua agricultura.
15 Intimaraõ-lhe os Embaixadores o grave negocio, a que hiaõ, e
elle, que teve a embaixada por equivocaçaõ, o cargo por impossivel,
respondeo, e protestou, cravando a aguilhada na terra, que só entaõ
seria Rey, quando aquella vara brotasse flores. Assim succedeo, pois
ella começou logo a florecer, e elle sendo obrigado pela palavra,
foy conduzido para Toledo, onde o ungiraõ e respeitaraõ Rey de toda
Hespanha[529] na Era de 710.[530]
16 Venceo este Rey varias batalhas, promulgou leys, fez celebrar
Concilios, ajustou os limites na jurisdicçaõ das Igrejas, e por hum
accidente, em que o reputaraõ por morto, tornando a si, renunciou a
Coroa em Ervigio, e tomando o habito de Religioso Benedictino em o
Convento de Pampliega, cinco leguas entre Burgos, e Valhadolid,[531]
acabou seus dias tranquillamente, deixando de si fama taõ gloriosa, que
Arnoldo Ubion o poem no Catalogo dos Santos.
17 Seguio-se Ervigio, que foy jurado Rey com toda a solemnidade, depois
Egica seu genro, e a este Witiza seu filho, que collocando sua Corte
humas vezes em Braga, outras em Tuy, ou em Toledo, de qualquer parte
lançava rayos, como astro maligno, que tudo inficionava. Chamaraõ-lhe o
Nero de Hespanha: tal era seu infame procedimento.[532]
18 Com melhor esperança de que extinguisse os escandalos passados
acclamaraõ os Godos a ElRey D. Rodrigo; porém depressa viraõ
desvanecidos os seus conceitos, porque este Principe tudo obrava por
appetite; e o Conde D. Juliaõ, que era seu Capitaõ da guarda, por
conservar sua fortuna sempre prospera, executava francamente a arte
da lisonja. Vivia no Paço, como era costume, huma filha do tal Conde,
chamada Florinda, ou vulgarmente Cava, dama de estremada formosura:
affeiçoou-se ElRey della, e para grangear melhor os seus agrados, lhe
prometteo na uniaõ do Matrimonio a igualdade da Coroa; porém naõ se
passou muito tempo, que repudiasse a Florinda por coroar a Eylata, ou
Egilona, formosa Princeza de Africa, a quem a braveza das ondas fizera
por hum incidente arribar a Hespanha.[533]
19 Sentio Florinda aquella affronta, ou violencia, e meditando com
seu pay algum genero de vingança, e desaggravo proporcionado, elle
se passou a Africa, se acaso naõ estava já lá, como querem outros,
por ser Governador daquelles dominios posto pelo mesmo D. Rodrigo; e
conciliando hum poderoso exercito de Sarracenos, vieraõ accommetter
Hespanha pelas instrucções do Conde, obrando total estrago na florente
Monarquia dos Godos.
20 Esta he a substancia de toda a Historia da perdiçaõ de Hespanha, que
corre entre os Authores com mais vulgaridade, supposto que em algumas
circunstancias haja entre elles differença. Todavia considerando outros
com reflexaõ mais prudente a facilidade, com que os Mouros em dous
annos conquistaraõ quasi toda a Hespanha, e a negligencia, com que
os Hespanhoes a defenderaõ, naõ succedendo assim com os Fenices, nem
Cartaginezes, nem Romanos, nem ainda com os mesmos Godos, pois qualquer
destas Nações gastou muitos annos para entabolar o seu dominio; julgaõ
que o motivo desta fatalidade se originou por haver naquelle tempo
alguma guerra civil na Monarquia Gotica, e esta acharse dividida em
parcialidades, das quaes a menos poderosa se foy valer dos Arabes, e
que estes em lugar de soccorrer a outrem, foraõ conquistando para si, o
que alcançaraõ facilmente por causa da mesma divisaõ.[534] E porque os
Suevos, e Godos foraõ senhores das nossas terras, he justo que façamos
delles total memoria, ainda que seja em resumida chronologia.
_Catalogo Cronologico dos Reys Suevos, que reinaraõ em Portugal, e
Galiza._
| Ann.|
| de |
| Chr.|
| |
| 409 | _Hermerico_, ou _Hermenerico_. Teve guerras
| | com os Alanos. Depois dos Vandalos
| | passarem a Africa ficou senhoreando quasi todo
| | o Reino de Portugal da fórma, que hoje
| | está dividido, e ainda algum pedaço de Galiza.
| | Morreo em Merida de huma doença,
| | que lhe durou sete annos, e governou trinta
| | e dous.
| |
| 440 | _Rechila_, filho do antecedente. Fora Principe
| | perfeito, se naõ seguira o Arrianismo.
| | Com prosperidade, e paz governou sete annos.
| |
| 448 | _Reciario_, filho de Rechila. Teve alguns
| | emulos no principio do seu reinado: casou
| | com a filha de Theodorico, Rey Godo: saqueou,
| | e destruio os Vascões: passou a França
| | a visitar seu sogro, e na retirada conquistou
| | muitas terras de Hespanha. S. Balconio,
| | Bispo de Braga, lhe fez abraçar o Christianismo.
| | Na Cidade do Porto foy degollado
| | por seus inimigos, e nelle se extinguio a linha
| | verdadeira dos Suevos. Governou nove
| | annos.
| |
| 457 | _Maldra_, ou _Masdra_. Foy eleito na Cidade
| | de Braga pelos Bispos, e alguma Nobreza do
| | Reino; mas padeceo as opposições, que lhe
| | fez _Franta_, que os do partido contrario
| | introduziraõ no governo, e elle governou tres
| | annos. Seguio-se outro tambem intruso, chamado
| | _Frumario_, que reinou tyrannicamente
| | dous annos, e a Masdra se seguio
| |
| 464 | _Remismundo_, a quem Santo Isidoro chama
| | _Arismundo_, filho de Masdra. Ficou prevalecendo
| | o seu reinado entre os dous precedentes
| | Contendores. Foy cativo, e prezo por
| | ElRey Godo Theodorico, o qual introduzio
| | em Galiza a heresia Arriana. Daqui para diante
| | naõ he muy certa a successaõ dos Reys
| | Suevos por se interromper a sua serie com a
| | morte de Remismundo. Fr. Bernardo de Brito[535]
| | dá por incertos a _Theodulo_, _Veremundo_,
| | _Miro_, _Pharamiro_. Filippe de la Gandara,[536]
| | seguindo o Chronicon de Marco Maximo,
| | assina depois de Remismundo a _Hermenerico_
| | no anno 556 com o governo de quasi
| | cincoenta annos: a _Rechila II._ _Reciario II._
| | a quem S. Martinho Dumiense converteo à
| | Fé Catholica, e a _Ariamiro_, ou
| |
| 560 | _Theodomiro_, filho de Reciario. Converteo-se
| | à Fé juntamente com seu pay, e foy grande
| | defensor da Divindade de Christo. Celebrou-se
| | no seu tempo o primeiro Concilio
| | Bracarense. Os annos do seu governo saõ
| | muito incertos. Santo Isidoro, a quem segue
| | o allegado Gandara, diz que reinou vinte e
| | quatro annos, Yañes dez, Coronelli no seu
| | Prodromo seis, o Abbade de Valclara tambem
| | lhe assina dez annos de governo, e parece
| | o mais provavel. O Padre Argote lhe dá
| | o nome de Theodomiro Junior, porque antes
| | delle diz que houvera outro Theodomiro
| | Senior.[537]
| |
| 570 | _Miro_, ou _Ariamiro_. Foy excellente Principe
| | em piedade, e Religiaõ. Fez convocar
| | em Braga o segundo Concilio para desterrar
| | alguns abusos, e governou treze annos. Aqui
| | ha grande equivocaçaõ em o nome deste Rey,
| | que alguns confundem com Theodomiro, e
| | por isso naõ se ajusta entre os Authores a
| | chronologia como deve ser.[538]
| |
| 583 | _Eborico_, ou _Eurico_. Succedeo no governo
| | ao antecedente. Foy logo despojado do Reino
| | por _Andéca_, padrasto de Eburico, o qual
| | para mais o inhabilitar para a successaõ, lhe
| | fez tomar o habito de Religioso no Mosteiro
| | de Dume, e professar. Esta violencia vingou
| | pelos mesmos fios Leovigildo, Rey Godo,
| | obrigando tambem a Andéca a se ordenar de
| | Sacerdote; e desterrando-o para Béja, tomou
| | posse de todas as riquezas do Reino, o qual
| | no poder dos Suevos tinha durado em ambas
| | as fortunas cento e setenta e sete annos.
Advertimos, que o erudito Padre Mestre Fr. Paulo Yañes produz huma
serie dos Reys Suevos com diversidade desta, que temos expendido, tanto
em os nomes dos Reys, como em o numero, e calculo dos annos.[539] Este
Author como o seu intuito foy mostrar, e explicar o cap. 7. de Daniel
nestas quatro nações barbaras, que occuparaõ Hespanha, naõ quiz incluir
na serie dos Reys aquelles, que foraõ tyrannos, e intrusos, e assim
exclue a _Frantan_, _Fumario_, e _Andéca_, numerando sómente oito Reys
Suevos legitimos, e verdadeiros.
_Catalogo chronologico dos Reys Godos, que governaraõ Hespanha, e
Portugal._
| Ann.|
| de |
| Chr.|
| |
| 411 | _Ataulfo_. Foy o primeiro Rey Godo, que
| | teve dominio em Hespanha. Suceedeo a
| | Alarico: casou com Gala Placidia, irmã do
| | Imperador Honorio, aquem este deu em dote
| | as terras de Hespanha com o designio de
| | expellir dellas aos Vandalos, e as outras nações
| | Septentrionaes; porém Ataulfo, portando-se
| | com brandura no governo, foy desobedecido
| | pelos seus, e por elles morto em
| | companhia de sete filhos. Dizem huns que
| | governara cinco annos, outros seis.
| |
| 416 | _Sigirico._ Era valeroso Capitaõ, e por isso
| | elegeraõ para Rey. Quiz levar as cousas pelos
| | termos de paz; e naõ se contentando os
| | Godos com o seu modo, tambem lhe tiraraõ
| | a vida. Governou hum anno.
| |
| 416 | _Walia._ Começou a governar com o projecto
| | de conquistar Africa: perdeo huma grande
| | armada: retira-se a Barcelona, faz pazes
| | com Honorio, e depois guerra aos Vandalos,
| | e os vence. Morre em Tolosa, tendo
| | governado tres annos.
| |
| 419 | _Theodoredo_, ou _Theodorico_. Fez guerra aos
| | Romanos, e morreo na cruelissima batalha
| | dos campos Catalaunicos, cahindo de hum
| | cavallo. Governou trinta e tres annos.
| |
| 452 | _Thurismundo_, filho de Theodoredo. Foy
| | morto por industria de seus irmãos. Governou
| | hum anno.
| |
| 453 | _Theuderico_, irmaõ de Thurismundo. Venceo,
| | e matou a Reciario, Rey dos Suevos,
| | e em Braga fez grandes hostilidades. Foy
| | morto por seu irmaõ Eurico. Governou treze
| | annos.
| |
| 466 | _Eurico._ Deu leys escritas aos Godos, expulsou
| | aos Romanos de Hespanha, conquistou,
| | e saqueou muitas terras de Portugal.
| | Neste tempo se achava Hespanha dividida em
| | tres Imperios: os Suevos tinhaõ a Galiza,
| | parte da Lusitania: a Betica, e Catalunha era
| | dos Godos: os Romanos eraõ senhores das
| | Provincias de Cartagena, e Carpentana com
| | o restante da Lusitania. Depois de algumas
| | vitorias morreo em Arlés de França, e governou
| | dezasete annos.
| |
| 483 | _Alarico II._ filho de Eurico. Litigou com
| | Clodoveo, Rey de França, e em huma batalha
| | junto a Carcasona perdeo com ella a
| | vida. Governou vinte e tres annos.
| |
| 506 | _Gesalico_, ou _Gesaleuco_ ou _Gensalarico_, filho
| | illegitimo de Alarico. Foy acclamado
| | pelos Godos na menoridade de Amalarico.
| | Perdeo o que seus antecessores possuiaõ em
| | França; e sendo vencido por Theodorico,
| | Rey dos Ostrogodos de Italia, avô do herdeiro
| | legitimo, morreo de melancolia. Governou
| | quatro annos.
| |
| 511 | _Theudorico II._ Tendo reinado dezoito annos
| | em Italia occupou o Cetro de Hespanha. Dizem
| | huns que como Rey verdadeiro, outros
| | só como tutor, ou administrador de seu neto.
| | Governou quinze annos.
| |
| 526 | _Amalarico_, filho de Alarico. Teve por mulher
| | a Crotilde, Princeza Catholica, filha
| | de Clodoveo, Rey de França; mas como o
| | marido era Arriano, padeceo com elle grandes
| | trabalhos, até que os irmãos a vingaraõ,
| | matando-o, e destruindo muitas povoações
| | de Hespanha. Governou cinco annos.
| |
| 531 | _Theudo_, ou _Theudio_, ou _Teudis_. Tinha sido
| | tutor de Amalarico, e Governador de Hespanha:
| | outros o fazem descendente delRey
| | Theodorico de Italia. Acabou, e extinguio
| | o governo dos Romanos em Hespanha quanto
| | aos Magistrados. Foy morto em seu Palacio
| | por hum homem, que se fingia bobo.
| | Governou dezasete annos.
| |
| 548 | _Theudiselo_, ou _Theudisclo_. Foy Arriano, e
| | hum dos máos Reys dos Godos. Os seus o
| | mataraõ em Sevilha, estando em hum banquete.
| | Governou hum anno.
| |
| 549 | _Agila._ Por eleiçaõ dos Grandes foy eleito
| | Rey. Os Cordovezes o venceraõ. Muitos
| | dos seus se rebelaraõ contra elle, e o mataraõ
| | em Merida. Governou cinco annos.
| |
| 554 | _Athanagildo._ De Capitaõ, que se havia rebelado,
| | ficou com o Reino dos Godos. Morreo
| | em Toledo, e governou quatorze annos.
| |
| 567 | _Liuva_, ou _Luiva_. Depois de reinar hum
| | anno cedeo o senhorio de Hespanha a seu irmaõ
| | Leovigildo, e elle se retira às terras,
| | que tinha em França. Governou hum anno.
| |
| 568 | _Leovigildo._ Alcançou muitas vitorias dos
| | Suevos de Galiza, recopilou as leys Goticas,
| | foy o primeiro, que usou de insignias Reaes,
| | throno, cetro, e coroa. Teve grandes guerras
| | com seu filho Hermenegildo, a quem perseguio,
| | e fez martyrizar em Sevilha depois
| | de huma apertada prizaõ. Governou dezoito
| | annos.
| |
| 586 | _Flavio Recaredo_, filho de Leovigildo, e sobrinho
| | de S. Leandro, e S. Fulgencio. Desterrou
| | a heresia de Arrio das terras de Hespanha,
| | e governou quinze annos.
| |
| 601 | _Liuva II._ filho de Recaredo, que alguns
| | querem que fosse bastardo. Foy pio, e Catholico.
| | Witerico lhe usurpou o Reino, tirando-lhe
| | com tyrannia a vida. Governou
| | dous annos.
| |
| 603 | _Witerico._ Renovou em seu governo a perfidia
| | de Arrio, e por isso o mataraõ, e arrastaraõ
| | pelas ruas publicas de Toledo, dando-lhe
| | immunda sepultura. Governou seis annos.
| |
| 610 | _Gundemaro._ Foy defensor da immunidade
| | Ecclesiastica, e venceo aos Navarros. Governou
| | dous annos.
| |
| 612 | _Sisebuto._ No principio do seu reinado constrangeo
| | aos Judeos a que seguissem a Ley de
| | Christo, por cujo motivo fugiraõ muitos para
| | França. Acabou de lançar fóra de Portugal
| | aos Romanos, que ainda se conservavaõ
| | neste tempo por toda a costa do Algarve, e
| | entre os Cabos de S. Vicente, e de Espichel.
| | Fortaleceo a Cidade de Evora, e fundou em
| | Toledo a Igreja de Santa Leocadia. Governou
| | oito annos e meyo.
| |
| 621 | _Flavio Suyntila_, filho de Recaredo. Destruio
| | os Imperiaes, e sujeitou ao dominio
| | Gotico todo Portugal. Entregou-se aos vicios,
| | e crueldades de fórma, que o Concilio
| | Toledano IV. em que se achou Santo Isidoro,
| | o excommungou, e a sua mulher, e filhos.
| | Os Vice-Godos o privaraõ do Reino.
| | Governou dez annos.
| |
| 631 | _Sisenando._ Foy sublimado ao throno por favor
| | de Dagoberto, Rey de França, a quem
| | deu dez pezos de ouro taõ grandes, que bastaraõ
| | para acabar o grande Templo de S.
| | Diniz. Governou quatro annos.
| |
| 636 | _Chintila._ Por votos uniformes da Nobreza
| | foy eleito Rey; e querendo perpetuar no estado
| | Regio sua descendencia, convocou alguns
| | Concilios para estabelecer o seu intento.
| | Governou tres annos.
| |
| 640 | _Tulga._ Viveo pouco, porém fez obras de
| | grande piedade, e zelo christaõ. Morreo em
| | Toledo com grande sentimento, e saudade de
| | todos. Governou dous annos.
| |
| 642 | _Chindasuindo._ Entrou a governar por violencia,
| | continuou com justiça de forte, que
| | soube temperar o arduo do principio com
| | o suave do progresso. Convocou em Toledo
| | Concilio, fundou o Mosteiro de S. Romaõ
| | entre Toro, e Torresilhas, onde está
| | enterrado. Governou seis annos.
| |
| 649 | _Recesuindo_, filho do antecedente. Entrou a
| | governar sem contradiçaõ, e com justiça.
| | Governou vinte e tres annos.
| |
| 672 | _Wamba_, ou _Bamba_. Foy eleito, e ungido
| | Rey milagrosamente. Ganhou muitas batalhas
| | contra aquelles povos, que se queriaõ
| | eximir do jugo Gotico: até dos Sarracenos
| | triunfou. Hum accidente lhe fez mudar huma
| | coroa por outra: repudiou o Reino, e
| | deixando a purpura pelo habito de Religioso,
| | acabou santamente. Governou sete annos.
| |
| 680 | _Ervigio._ Obteve o Cetro por industrias,
| | que maquinou em vida de Bamba. Governou
| | sete annos.
| |
| 687 | _Egica_, ou _Egiza_, genro de Ervigio. Tomou
| | por companheiro a seu filho Witiza, e
| | obrigou aos Nobres a que lhe jurassem fidelidade.
| | Divide o governo entre si, e o filho,
| | dando a este o dominio de Portugal, e Galiza,
| | e elle ficando com o restante da Hespanha.
| | Governou dez annos.
| |
| 701 | _Witiza._ Tanto que subio ao Throno, fez
| | estabelecer sua Corte em Braga, e dando-se
| | a todo o genero de vicios, chegou ao extremo
| | da maldade, e tyrannia, mandando tirar
| | os olhos a seu irmaõ Theodofredo, que residia
| | pacifico no governo de Cordova. Concedeo
| | varios privilegios aos Judeos, e depois
| | de outras muitas perversidades, que o fizeraõ
| | aborrecivel de todos, morreo em Toledo. Governou
| | dez annos.
| |
| 711 | _D. Rodrigo_, filho de Theodofredo, e neto
| | de Chindasuindo. Pouco se distinguio nos vicios
| | ao antecessor. Os amores, que teve com
| | Florinda, filha do Conde Juliaõ, foraõ causa
| | da sua ruina e de toda Hespanha, introduzindo-se
| | por conducta do Conde offendido
| | no desprezo de sua filha hum grande corpo de
| | exercito Arabe, que derrotou a D. Rodrigo,
| | e todo o poder dos Godos, que havia
| | durado na Hespanha mais de trezentos e oitenta
| | annos.[540]