46 _Tamacanos._ Viviaõ nas margens do Tamega pelo sitio, onde elle
entra no Douro.[475]
47 _Transcudanos._ Pelos annos de 560 pouco mais, ou menos antes de
Christo, deixando alguns dos Turdulos antigos a costa maritima, em que
viviaõ, foraõ habitar aquelle espaço de terra, que se extende de Norte
a Sul entre os rios Coa, e Agueda; e pela situaçaõ, em que ficaraõ além
do Coa, se vieraõ a chamar povos Transcudanos.[476]
48 _Turdetanos._ Possuiaõ a mayor parte do Algarve, e do Alentejo,
e era tudo o que vay de Béja até Sines. Foraõ reputados por insignes
guerreiros até à segunda guerra Punica. Eraõ engenhosos, tinhaõ
politica, e amavaõ as sciencias com fruto, e cultura. Prezavaõ-se de
ter leys escritas em verso, e todas as suas antiguidades conservadas em
livros de seis mil annos anteriores; mas cada anno constava só de tres
mezes. Estrabo os julga taõ opulentos, e ricos, que escreve tinhaõ até
nas estrebarias argolas de prata.[477]
49 _Turdulos_. Eraõ de duas especies, huns antigos, outros modernos.
Os Turdulos antigos foy a gente mais veterana, e nobre da Lusitania:
tinhaõ por domicilio todas as terras, que estaõ do Norte ao Meyo dia
entre o Tejo, e o Douro, das quaes eraõ as principaes Lisboa, Santarem,
Alfeizeraõ, Coimbra, Leiria, Aveiro, Lamego, e Viseu. Os Turdulos
modernos tinhaõ o Tejo pela parte do Norte: pelo Meyo dia confinavaõ
com os Celtas, e nos costumes pouco se differençavaõ huns dos outros.
Christovaõ Cellario[478] situa os Turdulos no Alentejo, e em parte do
Algarve com pouca distancia dos Turdetanos. Samuel Bocharto confunde
huns com outros.[479]
50 _Turolos_. Habitavaõ nas margens do rio Minho da parte esquerda,
onde está a Freguezia de S. Martinho de Lanhelas.[480]
51 _Tyrios_. Eraõ povos, que antes dos Cartaginenses vieraõ com os
Celtas acommetter aos Iberos.[481]
52 _Vacceos_. Tinhaõ a sua habitação entre Coimbra, e o Porto, e
tomaraõ o nome do rio Vouga.[482]
53 _Vetones_. Viviaõ junto do Tejo na Estremadura entre os povos da
Lusitania.[483]
54 Todos estes povos, ou os mais delles, independentes huns dos outros
se governavaõ conforme as leys, e costumes particulares, que tinhaõ.
Nas guerras elegiaõ seus Capitães, a que obedeciaõ com tanta efficacia,
que desprezavaõ a vida, se acaso aquelles morriaõ na batalha.
Armavaõ-se regularmente com duas espadas, huma comprida, outra mais
curta, ao modo das nossas espadas, e adagas, que ainda alcançámos ver.
Os naturaes da serra da Estrella foraõ os primeiros, que a inventaraõ;
donde veyo a cantar o nosso Botelho:[484]
_Van muchos del confin, y heroico assiento,
Que ilustra la altivez del monte Herminio:
La espada Lusitana, que es su invento,
Manejaban con fuerte predominio._
55 Usavaõ tambem de huma certa especie de pequeno escudo, que mais
propriamente era broquel, que adarga, a que chamavaõ _Cetras_, segundo
explica Diogo Mendes de Vasconcellos nos Escolios de Resende; e batendo
huns nos outros, faziaõ hum tripudio sonoramente horrivel.[485] Assim
cantou delles Silio Italico:[486]
- - - - - -_Misit dives Gallæcia pubem,
Barbara nunc patriis ululantem carmina linguis,
Nunc pedis alterno percussa verbere terra,
Ad numerum resonas gaudentem plaudere cetras._