CAPITULO I.

_Memorias dos primeiros Povoadores da antiga Lusitania._

1 Entramos nesta segunda parte do nosso Mappa com a laboriosa

averiguaçaõ de hum dos pontos historicos mais difficil do seculo

primeiro Lusitanico. Os Antiquarios Hespanhoes, e commummente os doutos

convem uniformes em que dos descendentes de Jafet, terceiro filho

do Patriarca Noé, (entre os quaes se repartio a povoaçaõ de toda a

Europa, e parte da Asia depois do universal diluvio,) coubera a Tubal,

seu quinto filho, plantar, e propagar Hespanha.

2 Modernamente D. Francisco Xavier da Garma[423] pretendeo excluillo do

continente Hespanhol, substituindo em seu lugar por primeiro Povoador

delle a Tharsis, sobrinho de Tubal, filho de seu irmaõ Javan, e neto

de Jafet: porém esta opinião já seguida antecedentemente por outros,

desfaz com razões mais provaveis o erudito Padre Joseph Moret da

Companhia de Jesus.[424]

3 Assentando pois que os Hespanhoes, e por consequencia os Lusitanos

se originaõ de Tubal, vista a grande authoridade dos Escritores, que

o affirmaõ,[425] nasce daqui hum reparo, e vem a ser: que dizendo

Josefo,[426] procederem os Iberos de Tubal, e interpretando S.

Jeronymo, Santo Isidoro,[427] e outros aos Iberos pelos Hespanhoes,

todavia como na Asia se achaõ tambem semelhantes povos Iberos desde

aquelles primeiros tempos, duvida-se justamente quaes devem ser

reputados por primarios descendentes de Tubal?

4 Os Authores, que se persuadem fora o mundo povoado pouco a pouco, e

principiara do Oriente, estendendo-se os povos à medida, que a gente

crescia, dizem, que a Iberia Hespanhola, ou Occidental, foy Colonia dos

Iberos Asiaticos.[428] A outros porém se lhes faz mais verosimel que

os Hespanhoes levassem à Asia por transmigraçaõ o nome de Iberos;[429]

donde Rufo Festo Avieno veyo a dizer:[430]

_......Asper Iberus

Hic agit: hic olim Tyrrhenide pulsus ab ora

Cespitis Eoi tenuit sola._

5 Esta opiniaõ parece que se conforma mais com o sentido natural do

Genesis, que no capitulo 10. dá a entender como os primeiros netos

de Noé logo se dividiraõ a povoar o mundo; e cabendo à familia de

Tubal lançar os alicerses, e estabelecer os limites de Hespanha,

veyo positivamente a ella, ou fosse por mar em pequenas embarcações,

passando da Armenia ao Egypto, do Egypto a Africa, e daqui atravessando

o Estreito de Gibraltar até o Promontorio, que depois se chamou Sacro;

ou fosse por terra, caminhando do Egypto a Jerusalem pela Natolia,

depois penetrando a Tartaria, Hungria, Alemanha, França, Hespanha, e

Portugal, sem lhe ser necessario por este caminho passar braço algum de

mar consideravel; ou finalmente transitando por outra qualquer via, que

lhe destinasse a Providencia, para soccorrer a necessidade da segunda

povoaçaõ do genero humano com viagem, que fosse prudente, e naõ

temeraria, como bem adverte o erudito Yañes.

6 Collocado já Tubal, e sua familia nestas partes Occidentaes da Europa

pelos annos 150 depois do diluvio, conforme a melhor Chronologia,[431]

resta saber em que parte da Hespanha fez o seu primeiro assento?

Nisto, por mais que se intente indagar, naõ póde haver certeza; porque

o grande Abulense, julgando ser esta entrada pelos montes Pyrineos,

attribue a Pamplona a primazia das fundações de Tubal em todo este

tracto Hispanico,[432] Floriaõ do Campo a Andaluzia,[433] Martim

de Viciana a Valença,[434] Joseph Moret a Tafalla,[435] outros a

Toledo,[436] e Fr. Bernardo de Brito, Heitor Pinto, e outros muitos

a Setubal em Portugal.[437] Mais facil será crer (diz Manoel de

Faria judiciosamente) ter sido Tubal fundador de muitas povoações

na Hespanha, que o assegurar a primazia de alguma entre todas;[438]

e deste parecer foy o erudito Malvenda, que já allegámos. Todavia o

insigne Commentador de Virgilio Francisco de Lacerda, allegado por

Luiz Marinho de Azevedo, diz, que da Lusitania sahiraõ os primeiros

fundadores de Hespanha[439] a estabelecer povoações em varias partes

della.

7 O certo he, que dos tempos immediatos à primitiva povoaçaõ de

Portugal, até que as armas Cartaginezas, e Romanas abriraõ o caminho à

communicaçaõ das gentes occidentaes da Europa, naõ pode a Historia dar

hum passo, senaõ às escuras, e com a vehemente suspeita de claudicar na

verdade; porque alguns Escritores fundados em documentos ou apocrifos,

ou de pouca authoridade, e exame, constituiraõ em Hespanha, e Portugal

com demaziada, e incauta crença o governo de alguns Reys duvidosos,

como foy Ibero, Jubalda, Briga, Beto, e outros, de que naõ ha historia

verdadeira. Sómente consta, que havia em nossas terras alguns Regulos,

como foy Lucinio, Culca, Gorgoris, Abides, Argantonio, Theron,

Mandonio, e alguns outros, de que fazem memoria Authores veridicos.[440]

8 Tambem temos por certo, que naquelles principios todo este nosso

Continente estava occupado de varios povos, cada hum com seu nome,

costumes, e usos differentes, formando distinctas especies de pequenas

Republicas com suas leys, especialmente desde o governo de Gorgoris,

ou Gorgaris. Naõ será relaçaõ importuna communicarmos aqui hum breve

monumento destes povos primitivos para melhor intelligencia da Historia.

9 _Abobricenses_; ou _Aobricenses_. Habitavaõ pouco distantes de

Chaves.[441] A Hoffmani lhe parece que eraõ os da Villa do Conde, e a

Joaõ de Barros os da Nobrega, ou Valdevez.

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II · 第 94 / 163 题