_Da Lingua Portugueza._
1 A primeira lingua, que se fallou em Portugal, foy a que communicou
Tubal aos Turdulos, primeiros habitadores de Lisboa, os quaes
multiplicando-se foraõ povoar depois parte da Turdetania, ou
Andaluzia;[345] porém que lingua fosse aquella, he toda a difficuldade.
Dizem huns, que fora a lingua Hebraica,[346] outros a Caldaica, ou
alguma das setenta e duas, em que Deos prodigiosamente dividira
a primitiva na torre de Babel. Muitos se capacitaõ, que a lingua
primeira, e geral de toda a Hespanha fora a Vasconça, ou Biscainha.
2 Filippe de la Gandara julga[347] que era idioma particular, e
distincto do Caldeo, e Hebreo; mas conforme os caracteres, de que
usavaõ os antigos Turdulos Portuguezes, infere Fr. Bernardo de
Brito,[348] que seria a lingua dos Hetruscos, usada em Italia desde o
tempo de Noé; porém ou fosse hum, ou outro idioma, he certo que a tal
lingua dos Turdulos naõ foy universal em toda esta nossa Peninsula,
porque comprehendia differentes nações, e cada huma, em quanto
viveo sobre si, conservou seu particular idioma, conforme assevera
Plinio.[349]
3 Com a fama, e attractivo das riquezas de Hespanha fizeraõ transito a
estas partes muitas gentes de outras nações;[350] e como as linguas
entraõ nas Provincias com os seus Conquistadores, introduziraõ
os Cartaginezes, e Gregos muitos vocabulos dos seus idiomas, que
ainda conservamos, e retemos.[351] Depois vieraõ os Romanos, e para
expulsarem de Hespanha aos Cartaginezes, gastaraõ naõ menos que
duzentos annos até a vinda de Augusto Cesar.
4 Em todo este espaco de tempo foraõ os Romanos intromettendo, e
espalhando pouco a pouco as suas leys, costumes, e locuçaõ;[352] e
confederando-se com os nossos por casamentos, fundando Colonias, e
estabelecendo Conventos Juridicos, para que todo o governo de paz, e
guerra dependesse delles, obrigaraõ por este modo politico, e sagaz
a que todos os Lusitanos fallassem Latim. Nelle sahiraõ taõ insignes
alguns, que depois o foraõ ensinar dentro a Roma.[353]
5 Corria o anno de Christo 409, quando os Godos, Alanos, Vandalos,
Suevos, e outras Nações barbaras Septentrionaes invadiraõ Italia,
França, e Hespanha e assim como esta barbaria Gotica fez descahir da
pureza da lingua Latina aos Romanos, produzindo em Italia o dialecto
Italiano, em França o Francez, em Hespanha o Castelhano, assim em
nossos Paizes fez nascer a lingua Portugueza.[354] Verdade he que os
Godos desejaraõ muito accommodarse com a lingua Romana, mandando verter
em Latim os nomes dos officios de seus palacios, Corte, e exercitos;
porém como era gente mal disciplinada, misturou de tal fórma hum
com outro idioma, que enchendo-o de sollecismos, barbarismos, e
impropriedades, relaxou, e corrompeo totalmente o Latim, que os nossos
fallavaõ, mudando-lhe até os caracteres Latinos em letras Goticas, que
introduzio o Bispo Ulfilas,[355] especialmente nos livros sagrados, e
Ecclesiasticos.
6 Sobrevieraõ os Mahometanos, e entaõ se acabou de arruinar, e
perverter a lingua totalmente com as palavras Arabigas. Hum nosso
Author muito erudito[356] diz, que na invasaõ dos Mouros, ficando
livres as montanhas de Asturias, para onde foraõ refugiarse os
Hespanhoes, que ficaraõ depois do ultimo Rey Godo D. Rodrigo, se
conservara entre elles illezo o Romance, que era vulgar no dominio
Gotico, sem mescla do idioma Arabe. Assim seria; mas quem poderá negar
que dos Arabes se deduziraõ, e permanecem ainda em o nosso dialecto
muitas dicções, que principiaõ por _al_, e _xa_, e as que finalizaõ em
_z_, como observou o insigne Joaõ de Barros?[357]
7 Entrou finalmente em Portugal o Conde D. Henrique, primeiro tronco
dos Reys Portuguezes; e como elle era Francez, e casou com Princeza
Castelhana, causou na lingua outra mudança, aggregando-lhe novo
complexo de palavras Castelhanas, e Francezas; porque como bem advertio
o discreto Bembo,[358] tratando da alteraçaõ, que tinha havido na
lingua de Roma até o anno de 1540, conforme saõ os Soberanos, que
governaõ, assim saõ os idiomas, que se fallaõ; porque o discurso como
o corpo se costuma vestir, e ornar, segundo o uso, que ordinariamente
sempre segue o exemplo do Rey: e attendendo a este peregrino, e verbal
matiz, disse o Padre Joaõ de Mariana,[359] que a lingua Portugueza era
mesclada de Latim, Francez, e Castelhano. Todavia as composições feitas
em vulgar Portuguez, que daquelle seculo permanecem, saõ de fórma,
que hoje se fazem imperceptiveis, e de ingrata dissonancia aos mesmos
compatriotas.[360]
8 Ainda no tempo delRey D. Diniz, do qual affirma Manoel de Faria[361]
que fora douto, e Poeta, e que o nosso idioma grangeara por esse
respeito mais perfeita cultura, se conferirmos, e cotejarmos o estylo,
e as palavras daquella era com as de agora, acharemos infinita
differença. O Padre D. Antonio Caetano de Sousa[362] transcreve huma
carta daquelle Rey em resposta de outra de sua Santa consorte a Rainha
Santa Isabel, cuja locuçaõ bem confirma o que dizemos. Veyo ultimamente
o grande Virgilio Portuguez Luiz de Camões com as suas Poezias epicas,
e lyricas, e o incomparavel Demosthenes Lusitano o Padre Antonio
Vieira com as suas declamações Evangelicas, para communicarem o ultimo
resplandor, formosura, e perfeiçaõ à lingua Portugueza.
9 Com este augmento, e estado participa ella presentemente de todos
aquelles attributos, que a podem fazer summamente estimavel entre
as melhores da Europa, porque tem abundancia de termos, e copia de
palavras, com que se explica; e algumas taõ efficazes, que as que
saõ nativas, e propriamente Portuguezas, em nenhuma outra lingua se
encontraõ semelhantes, nem ainda equivalentes. Só o Portuguez com a
unica palavra _Saudade_ sabe exprimir com muito mayor força, e energia
a constancia do amor ausente; e com a voz _Magoa_ a penetrante dor do
sentimento. Para fallar em todo o genero de assumptos tem a extensaõ
necessaria de vocabulos, e modos abundantes: por isso disse bem o Tito
Livio Portuguez Joaõ de Barros,[363] que se Aristoteles fora nosso
natural, naõ fora buscar lingua emprestada para escrever na Filosofia,
e em todas outras materias, de que tratou; e se lhe faltara algum termo
succinto, fizera o que vemos em muitas partes aos presentes, que quando
carecem de termos Theologaes os Theologos para entendimento real da
cousa, os compozeraõ, e assim os Filosofos, Mathematicos, Juristas, e
Medicos: e o recurso a idiomas estranhos na introducçaõ de vozes novas
naõ só he licito, mas preciso.
10 Nós naõ podemos negar que a nossa lingua se tem valido, enriquecido,
e aproveitado das vozes, e frazes de outras Nações, como até agora
temos visto: mas qual será o idioma, que naõ tenha usado deste
subsidio? Naõ nos dá o breve methodo, que seguimos, lugar para nos
deter com exemplos demonstrativos; porém só notamos, que a lingua
Castelhana, (da qual intenta mostrar hum Author[364] que a Portugueza
he seu dialecto,) mendigou tambem da nossa algumas palavras; e se
nós foramos mais solicitos nas traducções Latinas, como tem sido a
gente Castelhana, Italiana, e Franceza, tiveramos avocado muitos mais
vocabulos, e vozes da lingua Latina, em fórma que a Portugueza naõ
parecesse já corrupçaõ sua, como lhe chamou Camões,[365] mas muito mais
semelhante a ella, como filha legitima de mãy taõ nobre.[366] E assim
como por meyo das conquistas da Asia, e Africa adquirimos as palavras:
_Lascarim_, _Chatino_, _Zumbaya_, e outras muitas, que nos saõ já
domesticas, da mesma sorte tiveramos conquistado inteiramente a lingua
Latina, cujos vocabulos ainda assim tem degenerado taõ pouco no idioma
Portuguez, que sem violencia podem nelle comporse muitos discursos com
a mesma conformidade com a Latina,[367] o que naõ succederá facilmente
às outras locuções, que se prezaõ de serem seus dialectos.
11 Participa mais a lingua Portugueza da estimavel circumstancia de se
poder articular com huma pronunciaçaõ sonora, desembaraçada, e suave;
porque nem he gutural, nem finaliza as dicções em consoantes asperas,
como saõ: _d_, _n_, _t_, _x_, assim como ouvimos a muitas linguas da
Europa. E quando naõ houvera a confissaõ constante de muitos Authores
graves Castelhanos,[368] que affirmaõ haver na lingua Portugueza esta
mesma suave prolaçaõ, bastava o provar aquella aptissima, e notoria
facilidade, com que os Portuguezes adquirem, e fallaõ com cadencia
todas as linguas estrangeiras, a que se applicaõ, o que naõ he taõ
factivel aos outros com a nossa, que poucas vezes atinaõ com a sua
verdadeira pronunciaçaõ.[369]
12 Attribuem muitos esta difficuldade àquella frequencia do nosso
dipthongo _aõ_, corruptamente deduzido do _om_ Francez, e Gallego, em
que nossos compatriotas antigamente acabavaõ todas as dicções, que hoje
terminamos em _aõ_, excepto os da Provincia do Minho, que pela mayor
visinhança de Galiza ainda claudicaõ nisso. A quem se faz mais difficil
articular este dipthongo, he à gente Castelhana, porque tem o costume,
de finalizar com a letra _n_ quasi todas as palavras, que nós acabamos
em _m_. Este embaraço pretendeo desterrar do nosso idioma Antonio de
Mello da Fonseca no seu _Antidoto da lingua Portugueza_, cujo arbitrio
naõ foy bem aceito pelo sabio, e prudente juizo dos criticos, porque
este proprio mytacismo, (se assim lhe quizermos chamar) convem muito
com o _am_ dos Latinos, terminaçaõ frequente assim de nomes, como de
verbos, e com tudo a defende Quintiliano;[370] nem deixa de parecer
grave, e suave a cadencia Latina com estas terminações, que com
mayor facilidade suavizaremos, usando do remedio, que em outra parte
advertimos[371] para a boa elegancia, e eloquencia Portugueza.
13 Desta magestosa armonia procede fazerse o idioma Portuguez apto,
e opportuno para todos os estylos, e assumptos, e para o verso com
especial propriedade. Tal era o apreço, e estimaçaõ, que as Musas
Castelhanas faziaõ da nossa lingua para expressar quaesquer affectos
por meyo do Numen, ou Enthusiasmo Poetico, que deixavaõ a sua lingua
para compôr no rithmo Portuguez. Assim o affirma Argote de Molina,[372]
allegando humas Coplas Portuguezas de Macias, Poeta Castelhano: _Si
alguno le parecer que Macias era Portuguez, esté advertido, que hasta
los tiempos delRey D. Enrique III. todas las Coplas, que se hazian,
commummente por la mayor parte eran en aquella lengua_. De maneira,
que assim como em Italia entre todos os idiomas era a lingua Provençal
a escolhida para o verso por todos os Poetas, ainda que naõ fossem
Provençaes,[373] assim na Hespanha era reputada mais propria para a
Poezia a locuçaõ, e fraze Portugueza por todos os Poetas Hespanhoes,
por lhe acharem genio, e caracter especial para isso. Com o governo
porém delRey D. Joaõ I. que mandou usar da lingua Castelhana nas cousas
publicas, de entaõ para cá deixaraõ os Castelhanos de compor versos no
idioma Portuguez.[374]
14 A vantagem de escrevermos da mesma sorte, que pronunciamos, tambem
he huma das perfeições, que se encontra na lingua Portugueza, e que
se naõ acha nas outras, porque só assim se dá huma regra geral, para
que todos observem huma igual orthografia; pois as etymologias ainda
das linguas mais doutas sempre saõ distantes, e incertas, e como já
mortas se tem corrompido, e alterado muito, havendo varias palavras
Portuguezas, que se derivaõ de outras linguas mais modernas, e naõ
entroncaõ com a Latina, Grega, Arabiga, e Hebraica, senaõ depois que
as Nações menos antigas beberão nas fontes, e alteraraõ a sua nativa
pureza.
15 Neste particular tem grande força o uso, e por isso o grande P.
Vieira, revendo os seus proprios livros, (aos quaes só elle podia
emendar,) disse onde imprimiraõ _Devoçaõ_, lea-se _Devaçaõ_; mas o
primeiro ficou prevalecendo. Alguns Compositores se tem mostrado
nimiamente declarados por esta parte, querendo que a palavra _Homem_,
e outras assim semelhantes se escrevaõ sem _H_, como os Italianos. O
melhor he seguir a mediania, como fazem os doutos, cujo exemplo he
só assequivel, e naõ proceder com affectaçaõ, e estravagancia, assim
como fez certo Author moderno, (posto que engenhoso) em huma nova
orthografia, que usa, pondo tambem ligados dous _rr_ no principio
da dicçaõ,[375] contra toda a norma, e costume dos eruditos. Outras
muitas propriedades, e predicados da nossa lingua observou curiosamente
o Chantre de Evora Manoel Severim de Faria no discurso, que temos
allegado.