CAPITULO XII.

_Das Moedas de ouro, prata, e cobre antigas; e modernas, que se tem

lavrado em Portugal._

1 As moedas mais antigas, de que ha noticia em o nosso Reino, saõ as

do famoso Sertorio, Capitaõ Romano, o qual vindo a Portugal no anno

83 antes de Christo com o projecto de se fazer senhor de Hespanha,

mandou bater moedas. Tinhaõ de huma parte esculpido o seu rosto de meyo

perfil, e da outra banda a figura de huma corça, como offerece huma

estampada o erudito Chantre de Evora Manoel Severim de Faria.[326] Era

ella de prata do tamanho de seis vintens, e semelhante a esta foraõ

achadas outras. Foy isto muito antes dos Imperadores Romanos.

2 Com a morte porém de Sertorio, ficando a nossa Lusitania reduzida

a Provincia sujeita ao Imperio Romano, o dinheiro que entaõ corria

nestas partes, era o mesmo de Roma; e ainda que se achaõ algumas moedas

daquelle tempo abertas em algumas Cidades, e terras nossas, era por

especial privilegio dos Imperadores, dos quaes se tem descuberto em

todas as nossas Provincias muita quantidade das de ouro, prata, e

cobre, como referem o mencionado Severim, e outros.[327]

3 Acabado o Imperio dos Romanos, seguiraõ-se os Godos; e desde o anno

411 de Christo até o de 570, que he o em que governou Leovigildo com

poder absoluto, tambem naõ ha memoria de moeda alguma. De Leovigildo

até D. Rodrigo, ultimo Rey Godo, achaõ-se algumas, ainda que mal

abertas, de ouro, e prata, como as expressa o allegado Severim no §. 3.

Fr. Bernardo de Brito diz, que no tempo do Rey Godo Flavio Recaredo, o

qual morreo pelos annos de Christo 601 havia moedas de ouro, e prata

batidas em diversas partes da Lusitania; e que além da que refere

Ambrosio de Morales batida em Evora com seu rosto de ambas as partes, e

a letra de seu nome com a outra ELBORA. JUSTOS; conservava elle em seu

poder outra de ouro baixo com seu rosto esculpido grosseiramente, e no

reverso huma Cruz com esta letra OLISBONA, PIUS. Donde se deixa ver,

que havia em Lisboa officina de bater moeda em tempo deste Rey. Tambem

diz que vira outra do Rey Svintila, de ouro, batida na Cidade de Evora,

com seu rosto de huma parte, e ao redor SVINTILA REX: da outra banda

huma Cruz com esta bordadura: EBORA VICTOR. Vencedor em Evora. Sem

embargo de que o Padre Argote diga, que naõ vira em Author algum moeda

de prata do tempo dos Godos.[328]

4 Seguiraõ-se depois os Mouros no anno de 714, ou 716, e introduziraõ

as suas moedas por toda a Hespanha em todos os tres generos de

metal, ouro, prata, e cobre, de que se tem achado ainda algumas,

principalmente no Alentejo, e terras do Algarve, e nós vimos bastantes

de prata com certos caracteres Arabicos, que se descubriraõ em Loulé.

Hum dos dinheiros, de que usavaõ os Mouros, era chamado Maravedi, e

permaneceo tanto em Hespanha, que até o reinado delRey D. Fernando

I. de Leaõ todas as computações das contas se faziaõ por maravedis,

assim como nós as fazemos agora pela valia de reis. Pouco depois se

estabeleceo a Monarquia Portugueza com Reys proprios, e das moedas, que

estes mandaraõ lavrar, e das que presentemente correm, faremos huma

resumida memoria pelo estylo, que observamos.

5 _Alfonsim_. Esta moeda mandou lavrar ElRey D. Affonso IV. que delle

tomou o nome, com o consentimento do Clero, e Povo.[329] Era de tres

qualidades, cobre, prata, e ouro: o Alfonsim de cobre valia pouco mais

de hum real dos nossos: o de prata era do tamanho de hum tostaõ, e

valia pouco mais de quarenta reis. Tinha de huma parte sobre o nome

_Alfo_ huma coroa, e por baixo do nome delRey havia humas, que tinhaõ

a letra _L_, por serem abertas em Lisboa, outras a letra _P_, por

serem feitas no Porto, e pela orla tinhaõ esta inscripçaõ: _Adjutorium

nostrum in nomine Domini_. O mesmo se lia da outra parte, onde estavaõ

os cinco escudos do Reino postos em Cruz. O Alfonsim de ouro valia

quinhentos e tantos reis.[330] Todas estas moedas tinhaõ o mesmo cunho.

6 _Aureo_. Foy moeda, que correo no tempo delRey D. Sancho II. pelos

annos 1240, como se acha em escrituras publicas. O Reverendo Padre

Fr. Francisco de Santa Maria em hum Tratado, que fez das moedas de

Portugal, e anda incorporado no tom. 4. da Historia Genealogica da

Casa Real a pag. 261. he de parecer, que esta moeda fosse daquellas

mesmas dobras de ouro, que fez lavrar ElRey D. Sancho I. com a sua

figura armado a cavallo, com a espada na maõ, e a letra: _Sancius Rex

Portugaliæ_ de huma banda, e da outra os cinco escudos em Cruz, que

nós chamamos quinas, e dentro em cada hum cinco dinheiros naõ mais,

e a letra à roda: _In nomine Patris, & Filii, & Spiritus Sancti.

Amen_;[331] e sendo esta tal moeda, valia o tal Aureo pouco mais de

cento e vinte reis da nossa moeda corrente, e he a mais antiga, que se

acha no Reino.

7 _Barbuda_, ou _Celada_. Foy moeda de prata muito ligada, que mandou

lavrar ElRey D. Fernando com o valor de 36 reis. De huma parte tinha

hum capacete com viseira, e peito de malha, a que tudo chamavaõ

Barbuda, ou Celada, donde tomou o nome, e em cima huma coroa, e pela

orla da moeda a letra: _Si Dominus mihi adjutor, non timebo_: da outra

parte huma Cruz da Ordem de Christo, que tomava todo o vaõ, e no meyo

da Cruz hum escudo pequeno com as quinas de Portugal, e nos angulos da

Cruz quatro castellos, e em roda a letra: _Fernandus Rex Portugaliæ,

Alg._ No tom. 4. da Historia Genealogica da Casa Real vem aberta a sua

figura, cuja circumferencia se póde ver melhor, que por informaçaõ dos

Authores, os quaes discrepaõ muito nas medidas da sua grandeza.

8 _Calvario._ Era certa moeda de ouro de 22 quilates, e tambem

chamavaõ cruzados, que mandou lavrar ElRey D. Joaõ III. com o valor

de quatrocentos reis, que depois subio a seiscentos reis. Tinha de

huma parte a Cruz sobre o monte Calvario, que daqui tomou o nome, com

a letra em roda: _In hoc signo vinces_: da outra banda o escudo Real

coroado, e a letra: _Joann. III. Port. & Algarb. R. D. Guin._

9 _Ceitil._ Mandou lavrar esta moeda de cobre ElRey D. Joaõ I., ou na

occasiaõ em que tomou a Cidade de Ceuta aos Mouros, como dizem alguns

Authores, ou porque era cada dinheiro destes a sexta parte de hum real

de cobre, e por isso ceitil he o mesmo, que sextil, e esta nos parece a

mais verdadeira deducçaõ. Lavraraõ-na os Reys successores até ElRey D.

Sebastiaõ.[332]

10 _Conceiçaõ._ Esta moeda mandou lavrar ElRey D. Joaõ IV. em ouro,

e em prata no anno de 1648. A de ouro valia doze mil reis: tinha de

huma parte a effigie da Senhora da Conceiçaõ com tres symbolos deste

Mysterio por cada lado, e em circulo as letras: _Tutelaris Regni_: da

outra parte estavaõ as armas Reaes no meyo de huma Cruz da Ordem de

Christo, e na cercadura: _Joannes IIII. D. G. Portugaliæ, & Algarbiæ

Rex_. A de prata tinha o mesmo cunho, mas era de mayor diametro, que os

cruzados novos, e corria com o valor de seiscentos reis. A origem, que

houve para se cunhar esta moeda, foy assim:

11 Depois que o felicissimo Rey D. Joaõ IV. fez tributario o Reino de

Portugal à Conceiçaõ da Senhora em cincoenta cruzados de ouro cada

anno, applicados para a sua Real Capella de Villa Viçosa, jurando, e

tomando neste Mysterio a Senhora por Protectora do Reino em Cortes do

anno de 1646[333] tratou logo de lhe pagar o tributo em moeda especial,

e para isso mandou abrir a França hum cunho da fórma, que temos dito,

o qual trouxe, e fez Antonio Ruiter, a quem se deu tres mil reis, que

dispendeo com a abertura do ferro, como consta do liv. 1. do Registo

da Casa da Moeda pag. 256. vers. donde inserimos, que o primeiro anno,

em que ElRey fez a sobredita offerta, seria no anno de 1648, por ser

este anno o que se vê expresso na sobredita moeda, a qual desde o anno

de 1651 principiou a ser moeda corrente pela ley, que sahio para isso.

E sem embargo de que no tom. 4. da Historia Genealogica da Casa Real

pag. 287. se diga, que humas, e outras moedas corriaõ com pezo de huma

onça, foy equivocaçaõ; porque da mesma ley, que vem no dito tomo a pag.

359. se vê, que as de ouro corriaõ com o pezo de doze oitavas, e valiaõ

por doze mil reis; e as de prata com pezo de huma onça, e corriaõ por

seis tostões: e pezo de doze oitavas he onça e meya.

12 ElRey D. Affonso VI. continuou tambem a mandar lavrar as sobreditas

moedas em todo o tempo do seu governo, e da mesma sorte ElRey D. Pedro

II. e nesta moeda se fazia a offerta de vinte e quatro mil reis no dia

da festa da Conceiçaõ, em cujo dia trazem pendente ao pescoço os tres

Officiaes, que administraõ a Casa da Senhora, huma das taes moedas. No

anno porém de 1685 teve fim a fabrica destas moedas, porque desde entaõ

nunca mais se lavrarão, entregando-se os referidos vinte e quatro mil

reis em outra qualquer moeda para a despeza da festa de Villa Viçosa.

13 _Coroa._ Foy moeda de ouro, que mandou lavrar ElRey D. Duarte com

o valor de 216 reis. ElRey D. Manoel tambem a mandou lavrar, e valia

120 reis: chamava-se _Meya coroa_. Este preço conservou até o reinado

delRey D. Joaõ III. e ElRey D. Sebastiaõ.[334]

14 _Cruzado._ Quando o Papa Pio II. mandou a Bulla da Cruzada para

a guerra santa contra os Turcos, ordenou ElRey D. Affonso V. que se

lavrasse huma moeda de ouro subido de 24. quilates, e que se chamasse

cruzado em reverencia da Bulla, e com o valor de 400 reis. Tinha de

huma parte a Cruz de S. Jorge com a letra: _Adjutorium nostrum in

nomine Domini_; e da outra o escudo Real com a coroa sobre a Cruz da

Ordem de Aviz com estas letras: _Cruzatus Alphonsi Quinti R._ Manoel de

Faria[335] mostra que vio huma moeda destas com differente cunho. No

anno de 1561 valia cada cruzado destes 500 reis, e depois foraõ subindo

ao valor de 600 reis, e deste ao de 640.[336]

15 Presentemente correm cruzados novos de ouro, que mandou lavrar

ElRey D. Joaõ V. desde o anno de 1718 com o valor intrinseco de 400

reis, e na estimaçaõ commua de 480. Por Decreto de 8 de Fevereiro de

1730 mandou o mesmo Senhor que se lavrasse nas Minas quartos de escudo

de ouro com o valor extrinseco de 400 reis cada hum, e intrinseco de

375 reis, tendo de huma banda o retrato delRey, e da outra na parte

superior huma coroa Real, na inferior a era, em que se fabricaõ, e na

circumferencia o nome delRey. A esta moeda chamamos cruzado, dos quaes

já naõ ha muitos.

16 ElRey D. Joaõ IV. mandou lavrar cruzados de prata com o valor de 400

reis, e meyos cruzados com 200 reis de valia. Depois foraõ subindo até

o reinado delRey D. Pedro II. que levantou os cruzados a seis tostões,

e os meyos cruzados a tres tostões, mandando tambem lavrar cruzados

novos de prata com o valor de 480, e meyos cruzados com o de 240, a

que presentemente chamamos doze vintens, e que ainda correm nos nossos

tempos.

17 _Dinheiro._ Foy moeda de cobre, que tinha de huma banda a Cruz da

Ordem de Christo com duas estrellas, e duas meyas luas nos vaõs, e a

letra _A. Rex Portugaliæ_: da outra parte tinha as cinco quinas com a

letra: _Algarbii_. Valia hum ceitil menos hum decimo. Destes dinheiros

faz mençaõ a Ordenaçaõ velha liv. 4. tit. 1. §. 17.

18 _Dobra._ Moeda de ouro de varias castas: _Portuguezas_,

_Castelhanas_, _Mouriscas_, ou _Barbariscas_. As Portuguezas

chamavaõ-se _Cruzadas_, que mandou lavrar ElRey D. Diniz com o valor

de 270 reis: outras se chamaõ _Dobras delRey D. Pedro_, e valiaõ

147 reis. Das Dobras Castelhanas havia humas, que se chamavaõ da

_Banda_, por serem lavradas por ElRey D. Affonso XI. de Castella, e

tinhaõ de huma parte a banda, insignia da Ordem Militar, que o mesmo

Rey instituio, e valiaõ 216 reis: com este nome faz dellas mençaõ a

Ordenaçaõ velha liv. 4. tit. 1. Tambem se chamavaõ _Valedias_, porque

valiaõ, e corriaõ em Portugal. Havia outras dobras com o nome de _Dona

Branca_, e outras _Sevilhanas_, que mandou bater em Sevilha ElRey

D. Affonso o _Sabio_, e valiaõ 600 reis. Tinhaõ de huma parte ElRey

armado a cavallo com a espada na maõ, e a letra em roda: _Dominus mihi

adjutor_: da outra parte as armas de Castella, e Leão com o letreiro:

_Alfons. R. Castellæ, & Leg_.[337] As _Mouriscas_, ou _Barbariscas_

valiaõ 270 reis. ElRey D. Pedro I. mandou lavrar _Meyas dobras_ com o

valor de 73 reis e meyo.

19 _Ducataõ de ouro._ Quando ElRey D. Sebastiaõ foy a Guadalupe, mandou

lavrar esta moeda: huma com o valor de quarenta mil reis, outra de

trinta, outra de dez cruzados.[338]

20 _Engenhoso._ Foy moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. Sebastiaõ no

anno de 1562 com o valor de 500 reis. Tinha de huma parte a Cruz com a

letra: _In hoc signo vinces_; e da outra banda o escudo do Reino com a

letra: _Sebastian. I. Rex Portugal._ Chamou-se esta moeda do Engenhoso,

por assim se chamar Joaõ Gonçalves, natural de Guimarães, que fez o

cunho. Ordenou o elle de sorte, que as moedas sahiaõ fundidas de pezo,

e com hum circulo ao redor para naõ se poderem cercear.[339]

21 _Escudo._ Moeda de ouro com muita liga, que mandou fazer ElRey D.

Duarte com a valia de 90 reis. ElRey D. Manoel a mandou desfazer.

22 _Espadim._ Houve neste Reino moedas com este mesmo nome de tres

castas. _Espadins de ouro_ mandou-os lavrar ElRey D. Joaõ II. com o

valor de 320 reis. Tinha de huma parte o escudo do Reino com a letra:

_Adjutorium nostrum in nomine Domini_; e do reverso huma espada

empunhada com a ponta para cima, e em circulo o nome delRey. Em tempo

delRey D. Manoel valia 500 reis. _Espadins de prata_, que mandou

abrir ElRey D. Affonso V. com o mesmo cunho que os de ouro, só com

a differença de ter a ponta da espada voltada para baixo. Chamou-se

Espadim em memoria da Ordem da Espada, que instituio para a Conquista

de Fez, como diz Severim.[340] Valiaõ 24 reis. _Espadins de cobre_

prateados mandou bater ElRey D. Joaõ II. com o valor de quatro reis.

23 _Forte._ Com este nome mandou lavrar ElRey D. Diniz huma moeda de

prata com o valor de dous vintens, ou quarenta reis; e meyos Fortes,

que valiaõ hum vintem. Tinha hum, e outro de huma parte o habito de

Christo com a letra: _Dionysius Rex Portugal. & Algarb._ da outra parte

as armas do Reino, e a letra: _Ajutorium nostrum in nomine Domini_.

Houve outros Fortes, e meyos Fortes, que fez bater ElRey D. Fernando em

preço de 29 reis, que depois abateo a 16.

24 _Frizante._ Foy moeda de prata, que corria no tempo de nossos

primeiros Reys, mas naõ se sabe de que valor era. A Monarquia Lusitana

faz mençaõ desta moeda.[341]

25 _Gentil._ ElRey D. Fernando mandou lavrar esta moeda de ouro, mas de

quatro castas. Havia Gentil de hum ponto, e valia 162 reis: Gentil de

dous pontos 144 reis: Gentil de tres pontos 126 reis: Gentil de quatro

pontos 116 reis. Fr. Antonio da Purificaçaõ[342] diz, que o Gentil

delRey D. Fernando valia 720 reis.

26 _Grave._ Moeda de prata, que mandou bater ElRey D. Fernando do

tamanho de meyo tostaõ, e valia 21 real. Tinha de huma parte a letra

_F_, primeira do seu nome, e sobre ella huma coroa dentro em hum

escudo, e nos lados duas Cruzes, com a letra na orla: _Si Dominus mihi

adjutor_. No reverso tinha a Cruz de S. Jorge sobre hum escudo rodeado

de quatro castellos, e o nome do Rey na cercadura.

27 _Indios._ Mandou ElRey D. Manoel no anno de 1499 lavrar esta moeda

de prata com o valor de 33 reis em memoria do descubrimento da India.

Tinha de huma parte a Cruz da Ordem de Christo com o letreiro: _In hoc

signo vinces_; e da outra parte as armas do Reino com a letra: _Primus

Emanuel_.

28 _Justo._ Esta moeda era de ouro, que mandou fazer ElRey D. Joaõ II.

e valia 600 reis. De huma parte tinha o escudo Real já com as quinas

direitas sem a Cruz de Aviz, e o nome delRey na cercadura; e no reverso

tinha a effigie delRey sentado em hum throno com a espada na maõ entre

dous ramos de palma, e a letra em roda: _Justus ut palma florebit_.

29 _Leal._ Era moeda de prata, que mandou fazer ElRey D. Joaõ II. com

valor de doze reis. Tinha de huma parte a letra _Leal_ por baixo de

huma Cruz; e da outra parte o escudo do Reino com o nome delRey na orla.

30 _Livra._ Foy moeda lavrada em varios reinados, e de varias castas,

donde procede a alteraçaõ de seu valor. A _Livra de ouro_ em tempo

delRey D. Diniz valia oito vintens: o mesmo valor tinha já no reinado

delRey D. Affonso III. No tempo delRey D. Joaõ I. valiaõ pouco mais

de 82 reis. A _Livra de prata_ era de dous generos: _Antigas_, e

_novas_. Havia livras antigas, por cada huma das quaes se haviaõ de

pagar setecentas das novas, e assim valia cada huma das antigas 36

reis: e havia tambem livras antigas, por cada huma das quaes se pagava

quinhentas das novas, e entaõ valia cada huma 25 reis. A _Livra de

cobre_ era de tres sortes; porque havia livra de dez soldos, que valiaõ

tres reis e meyo: livras de dez livras pequenas, e valiaõ meyo real:

livras de tres livras e meya, que valiaõ real e meyo, e corriaõ até o

anno de 1407.

31 _Maravedim_, ou _Morabitino_. Foy moeda, que introduziraõ no Reino

os Mouros Almoravides, ou Morabitos, que significa _Fieis_, segundo o

mostra Aldrete.[343] Havia maravedim de ouro, que mandou lavrar ElRey

D. Sancho I. com o valor de 500 reis. Tinha de huma parte a effigie

delRey a cavalo com a espada nua na maõ, e pela orladura: _In nomine

Patris, & Filii, & Spiritus Sancti._ No reverso tinha o escudo Real, e

o nome delRey em gyro. Os maravedís Mouriscos naõ tinhaõ mais que huns

caracteres, ou attributos de Deos de huma parte, e da outra, o nome do

Principe, que os mandara abrir. Houve tambem maravedís de prata, que

corriaõ com o valor de 27 reis.

32 _Mealha._ Naõ era moeda, que tivesse cunho particular, mas era

metade da moeda, que chamavaõ _Dinheiro_, e valia meyo ceitil.

33 _Nomeada._ Moeda de prata, que fez lavrar ElRey D. Joaõ I. e seu

filho ElRey D. Duarte. Naõ se sabe o que valia. Tinha de huma banda a

Cruz de S. Jorge com a letra: _Dominus adjutor fortis_; e da outra o

escudo do Reino com o nome delRey na circumferencia.

34 _Patacaõ._ Era moeda de cobre com o valor de dez reis, que mandou

fazer ElRey D. Joaõ III. Tinha de huma parte o escudo Real coroado

com o nome delRey, e da outra parte a letra _X_, com a inscripçaõ:

_Rex Quintusdecimus_. Havia tambem meyos patacões com a letra _V_, que

valiaõ cinco reis. ElRey D. Sebastiaõ reduzio esta moeda ao valor de

tres reis.

35 _Peças._ Moeda de ouro, que corria no tempo do Infante D. Pedro,

Duque de Coimbra. ElRey D. Joaõ II. a mandou desfazer.

36 _Pé-Terra._ Moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. Fernando com o

valor de 216 reis.

37 _Pilarte._ Foy moeda de prata, que lavrou ElRey D. Fernando com o

valor de treze reis, e dous ceitis. O nome de Pilarte foy posto em

attençaõ, ou memoria dos pagens dos soldados estrangeiros, que lhe

levavaõ os capacetes, ou barbudas, a que o Francez chama _Pilartes_.

38 _Portuguez._ ElRey D. Manoel, do ouro, que lhe vinha das Conquistas

da Asia, fez lavrar humas moedas, que se chamaraõ _Portuguezes_ de 500

ducados cada huma, e depois mandou lavrar outras, que valiaõ quatro

mil reis. Destas houve tanta copia, que nas praças naõ se pagava por

quasi todo o Reino com outra moeda, senaõ com a chamada Portuguezes de

ouro.[344] Tinha de huma parte a Cruz da Ordem de Christo, e a letra

em roda: _In hoc signo vinces_; e da outra o escudo Real coroado com

as letras: _E. R. P. A. C. U. A. D. G._ que queriaõ dizer: _Emmanuel

Rex Portugaliæ, Algarb. q. Citra, Ultra Afric. Dommus Guineæ._ Tinha

outro letreiro por fóra junto à garfila, ou orla: _C. C. N. E. A. P.

I._ que dizia: _Comercio, Conquista, Navegaçaõ, Ethiopia, Arabia,

Persia, India._ ElRey D. Joaõ III. tambem os mandou lavrar da mesma

fórma. ElRey D. Joaõ V. mandou lavrar em Lisboa no anno de 1718

_Portuguezes de ouro_ de 22 quilates, e com o valor de 19200 cada

Portuguez, os quaes foraõ sómente para se lançar nos alicerses da Real

Igreja de Mafra. Tambem ElRey D. Manoel mandou fabricar _Portuguezes de

prata_ no anno de 1504, e valia cada hum 400 reis. A estes Portuguezes

depois resuscitou ElRey D. Joaõ IV., e ElRey D. Pedro II. chamando-lhe

_Cruzados_.

39 _Quatro vintens._ Mandou lavrar esta moeda de prata ElRey D. Joaõ

III. que de huma parte tem o nome do Rey com coroa, e o numero LXXX. e

na orla a letra: _Rex Portug. & Algarb._ Da outra parte tem a Cruz de

S. Jorge com a sabida inscripçaõ: _In hoc signo vinces._

40 _Real._ Esta moeda a mandou lavrar em prata varias vezes ElRey

D. Joaõ I. sempre com o mesmo valor, mas cada vez de menor pezo. Os

primeiros valiaõ nove dinheiros, os segundos seis dinheiros. Até o

tempo delRey D. Manoel corriaõ Reaes de prata com o valor de vinte

reis, e outros de trinta. ElRey D. Joaõ III. tambem os mandou lavrar

com o valor de quarenta reis, e com os mesmos cunhos da moeda de quatro

vintens, mudando o numero 80 em 40. A mesma moeda fez lavrar D. Joaõ

IV. e he o chamado meyo tostaõ, que hoje corre. Havia Real de cobre

de varias sortes: huns tinhaõ mistura de estanho, com que ficavaõ

mais claros, e se chamavaõ _Reaes brancos_. Mandou lavrallos ElRey

D. Duarte, e D. Affonso V. Os que se lavraraõ antes do anno de 1446

valiaõ dez ceitis. Havia outros Reaes chamados _Pretos_, por serem de

cobre puro, e valiaõ pouco mais de hum ceitil. ElRey D. Joaõ II. para

desterrar tanta confusaõ de Reaes, fez lavrar Real de cobre de seis

ceitis. O mesmo fizeraõ seus Successores até ElRey D. Joaõ III. Tinhaõ

de huma parte hum _R_, debaixo de huma coroa, e da outra o escudo do

Reino com o nome delRey na orla. ElRey D. Sebastiaõ fez lavrar _Meyos

Reaes_ com a valia de tres ceitis: tinha de huma banda hum _S_ coroado,

e da outra hum _R_ entre dous pontos.

41 _Sinquinho._ Moeda de prata delRey D. Joaõ II. e D. Manoel: valia

cinco reis. O delRey D. Manoel tinha de huma parte os cinco escudos do

Reino em Cruz com as letras: _Emmanuel P. R. & Al._ da outra huma malta

com a mesma letra. Tambem ElRey D. Joaõ IV. fez lavrar Sinquinhos de

prata.

42 _Soldo._ Foy moeda das mais antigas do Reino lavrada em ouro, prata,

e cobre. A de ouro valia oito reales, ou dezaseis vintens: a de prata

dez reis: a de cobre hum real. Este soldo em tempo delRey D. Joaõ I.

chamava-se _Moeda-Febre_.

43 _Talento._ Corria esta moeda no governo delRey D. Sancho I. no anno

de 1188, e valia quatro ducados, ou cruzados, e era de ouro.

44 _Tornezes._ Moeda de prata em tempo delRey D. Pedro I. Tinha de

huma parte a cabeça delRey com barba comprida, e a letra: _Petrus Rex

Portugal. & Algarbii_: da outra banda o escudo do Reino, e na orla a

letra: _Deus adjuva me_. Valia treze reis. ElRey D. Fernando tambem

lavrou _Tornezes_, que valiaõ oito soldos, ou quatorze reis.

45 _Tostaõ._ ElRey D. Manoel mandou bater esta moeda em ouro, e em

prata. A de ouro era o quarto de ouro dos _Portuguezes_: a de prata

valia cem reis. Tinha de hum lado a Cruz da Ordem de Christo com a

letra: _In hoc signo vinces_; e do outro as armas do Reino com coroa, e

o nome do Rey na orladura. Mandou lavrar tambem _Meyos tostões_ com os

mesmos cunhos, e letras, e valiaõ cincoenta reis.

46 _S. Vicente._ Moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. Joaõ III. com

o valor de mil reis. Tinha de huma parte a imagem de S. Vicente com

huma náo na maõ esquerda, e hum ramo de palma na direita com a letra:

_Zelator Fidei usque ad mortem_: da outra parte o escudo Real com a

letra: _Joan. III. Rex Portug. & Algarb._

47 _Vintem._ Moeda de prata, que teve principio no tempo delRey D.

Affonso V. e todos os mais Reys continuaraõ a mandar lavrar, ainda que

com a fórma, e figura mudada, mas sempre com o valor de vinte reis.

Em tempo dos Reys Filippes houve a moeda de meyo vintem em prata, que

valia dez reis.

_Dinheiro, que presentemente corre._

_Em ouro._ _Valor._ _Pezo._

Dobraõ de 24U000 15 oitavas.

Meyo dobraõ de 12U800 1 onça.

Dobra de 4 escudos 6U400 4 oitavas.

Meya dobra de 2 esc. 3U200 2 oitavas.

Moeda de ouro de 4U800 3 oitavas.

Meya moeda 2U400 oitava e meya.

Escudo 1U600 1 oitava.

Quarto de moeda 1U200 54 grãos.

Meyo escudo U800 meya oitava.

Cruzado novo U480 21 grãos.

Quarto de escudo U400 18 grãos.

_Em prata._ _Valor._ _Pezo._

Cruzado novo 480 4 oitavas 59 grãos.

Doze vintens 240 2 oitavas 29 grãos.

Seis vintens 120 1 oitava 14 grãos.

Tostaõ 100 1 oitava.

Tres vintens 60 43 grãos.

Meyo tostaõ 50 36 grãos.

Vintem 20 17 grãos.

_Em cobre._ _Valor._

Moeda de 10 reis.

Moeda de 5 reis.

Moeda de 3 reis.

Moeda de 1 real e meyo.

Por Ley do anno de 1732 prohibio ElRey D. Joaõ V. que se lavrassem

Dobrões de doze mil e oitocentos, Moedas de quatro mil e oitocentos,

nem outras, que excedaõ o valor de seis mil e quatrocentos reis; e que

em todas, assim nas que corriaõ, como nas que se lavrassem, se pozesse

a sarrilha, que tem as de prata.

_Noticia, do valor, que tem tido o marco de ouro, e prata

neste Reino em varios governos._

_Rey._ _Metal._ _Valor._

D. Sancho I. Ouro 6U480.

D. Pedro I. Idem 7U380.

Idem Prata U945.

D. Fernando Idem U900.

D. Joaõ I. Idem 2U600.

D. Affonso V. Idem 1U260.

D. Manoel Idem 2U280.

D. Joaõ III. Ouro 30U000.

Idem Prata 2U600.

D. Sebastiaõ Idem 2U400.

Idem Idem 2U680.

D. Henrique Ouro 40U000.

Idem Prata 4U000.

D. Joaõ IV. Ouro 42U240.

Idem Idem 51U200.

Idem Idem 55U680.

Idem Idem 80U000.

Idem Prata 3U600.

Idem Idem 4U000.

Idem Idem 5U000.

D. Affonso VI. Idem 4U400.

Idem Idem 4U600.

D. Pedro II. Ouro 85U312.

Idem Idem 96U000.

Idem Prata 5U600.

D. Joaõ V. Ouro 96U000.

Idem Prata 5U600.

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II · 第 82 / 163 题