CAPITULO XI.

_Dos Mineraes._

1 A tanta fertilidade, e mimo de especies sensitivas, e vegetaveis,

como temos summariamente mostrado haver neste nosso Reino, quiz Deos

tambem ajuntarlhe as estimaveis riquezas de preciosos mineraes. Os

de ouro, e prata saõ muito antigos em toda a Hespanha, como refere

a Escritura sagrada;[286] e taõ naturaes em o nosso Portugal, como

affirma Plinio,[287] e o confirma Estrabo,[288] rendendo ao Senado de

Roma cada anno dos direitos, que se tiravaõ das minas de Asturias,

Portugal, e Galiza, trinta mil marcos de ouro: sendo este sem duvida

o unico attractivo, e reclamo, que chamou de taõ longe os Frigios,

Fenices, Tyrios, Carthaginezes, e Romanos a fazernos guerra, e

tributarios à sua cubiça.

2 Mas deixando a lembrança das minas antigas, como as de que faz

mençaõ Justino[289] que havia na Provincia do Minho, e as que houve na

Freguezia de S. Mamede de Val-Longo do Concelho de Aguiar de Sousa,

e no Lugar de Villa-Verde, termo de Mirandella,[290] e no termo de

Grandola, e no sitio de Alfarella da Provincia de Tras os Montes, e no

Lugar do Seixo naõ longe de Anciães,[291] e em outras muitas partes do

Reino, esgotadas pela ambiçaõ dos Romanos.

3 He certo que no anno de 1290 concedeo ElRey D. Diniz privilegios

aos que tiravaõ ouro na Adiça, junto à foz do Tejo entre Almada, e

Cezimbra, que era a officina mais antiga, donde se tirava ouro neste

Reino em grande copia. Os mesmos privilegios concederaõ os mais Reys

até ElRey D. Manoel, em cujo tempo com o descubrimento das riquezas da

Asia foraõ diminuindo as extracções das minas de Portugal, como tudo

conta a Monarquia Lusitana.[292]

4 Tambem no anno de 1628 se descubrio no Lugar de Paramio, tres leguas

da Cidade de Bragança, huma mina de prata taõ fina, que de oito arrobas

de pissarra ficavaõ na fundiçaõ seis de prata; e havia tanta quantidade

della, que promettia o Superintendente oito arrobas cada dia livres

para ElRey.[293] Bem sabido he, e celebrado pelos antigos o purissimo

ouro, que se tirava de entre as areas do Tejo,[294] e tambem naõ he

para esquecer o Cetro, que ElRey D. Joaõ III. mandou fazer do ouro

extrahido das mesmas areas, o qual Cetro affirma Duarte Nunes,[295] que

muitas vezes vira nas mãos dos nossos Monarcas em occasiaõ de Cortes, e

que ainda se conserva no Thesouro Regio.

5 Se nós fizermos huma natural reflexaõ acerca do muito, que nossos

primeiros Reys dispendiaõ, já com o sustento de grandes exercitos em

continuas campanhas; já com grossas armadas; já na erecçaõ de Templos,

e Palacios sumptuosos; nos thesouros riquissimos, que deixavaõ a seus

filhos; nas distribuições generosas, e soccorros poderosissimos, com

que ajudavaõ a muitos Principes Catholicos,[296] sem que naquelle

tempo houvesse tanta renda dos direitos Reaes, nem o descubrimento das

riquezas da Asia tivesse ainda contribuido com seus thesouros para

supprir estes gastos, forçosamente devemos inferir, que em Portugal

havia opulentas minas. Este pensamento confirma com bastante erudiçaõ o

Doutor Fr. Serafim de Freitas,[297] dizendo, que antes do descubrimento

da India naõ havia Reino na Europa mais opulento que Portugal: por isso

com elevado episodio, e sabio fundamento introduzio o erudito Botelho

na infancia de Portugal a idade preciosa de ouro,[298] que o singular

Camões no cant. 9. e 10. attribuio ao tempo, e governo do sempre

saudoso Rey D. Manoel.

6 Esta observaçaõ he só por huma natural conjectura; porque he

infallivel haver sempre muitas minas de ouro, e prata por todo

o Reino, como ainda ha na Villa de Borba, Béja, Evora, no termo

de Barcellos, e Thomar, em Tras os Montes, e em outras partes

conhecidas,[299] as quaes naõ se praticaõ hoje por certa razaõ de

Estado, que aponta Plinio[300] nas de Italia, e Duarte Nunes,[301]

e as Memorias instructivas de hum viajor nas de Portugal: ou tambem

porque com o descubrimento das Minas da America no Estado do Brasil

taõ fecundas, e com as mais modernas de diamantes, descubertas no

Serro do Frio, de cujos riquissimos transportes resulta ao Reino taõ

copioso lucro, (pois chega a vinte milhões de cruzados o que nos vem

todos os annos das Minas,) attrahidos desta fertilidade, e opulencia os

Portuguezes, se esqueceraõ do que tinhaõ mais perto.

7 Naõ só enriqueceo a natureza o Reino de ouro, e prata, mas tambem

de pedras preciosas. No monte do Oiteiro, que cerca a Villa de Borba,

achaõ-se finissimas _Turquezas_, as quaes naõ saõ de cor verde, como

disse Duarte Nunes,[302] e por sua informaçaõ Manoel de Faria, e a

Corografia Portugueza,[303] mas sim de cor azul opaco, segundo bem

adverte, e emenda o Padre Bluteau.[304] Na ribeira de Bellas, pouco

distante de Lisboa, e principalmente no Lugar do Suimo, ha muita

quantidade das pedras preciosas chamadas _Jacinthos_, que na cor

arremedaõ muito à flor Bemmequer.[305] No Algarve achaõ-se _Rubís_. Na

serra de Cintra ha minas de _Magnetes_, ou pedras de cevar,[306] de que

os estrangeiros se tem aproveitado mais do que nós. E no rio Cávado

apparecem _Amethystos_, _Jacinthos_ e _Crystaes_ finissimos.

8 Tudo isto he muy conforme com o que dizem Botero, e Gil Gonçalves

de Avila,[307] que em Portugal naõ só ha muitas minas de preciosos

metaes, mas muitas pedras preciosas; donde Fr. Marcos de Guadalaxara

Xivier, tratando da nova França, diz,[308] que naquella terra se achaõ

_Diamantes_ semelhantes aos que ha no Tejo: e isto naõ póde causar

duvida, quando sabemos que na Real Capella de Villa-Viçosa ha huma

Custodia, cuja pedraria, de que está cravejada, foy toda extrahida das

minas de seus contornos.[309]

9 De _Cobre_ se descubrio no anno de 1620 na serra de Grandola huma

mina muito boa. De _Estanho_, e muito fino temos em Amarante, Bouzella,

S. Pedro do Sul, Belmonte, e em outras partes,[310] que nós vimos no

anno de 1736 pela diligencia de Monsieur Damy. De _Ferro_ ha bastante

copia nas Villas de Penella, e Thomar;[311] e affirma o erudito Severim

de Faria,[312] que he o melhor ferro do mundo, pois delle se costumaõ

fabricar espingardas muy estimadas de todos os Principes. O _Crystal_

em muitas partes deste Reino se acha em pedaços; e refere Duarte

Nunes,[313] que na Villa do Crato havia no seu tempo poços, donde se

tirava grande quantidade. O mesmo se acha nas montanhas de S. Mamede

de Val-Longo, termo de Aguiar de Sousa, e em S. Vicente de Caldellas,

termo de Pica de Regalados.[314]

10 No Concelho de Gondomar na Freguezia de S. Christovaõ de Rio-Tinto

ha minas de _Talco_ taõ bom, que se conduz por negocio para muitas

partes. _Chumbo_ se extrahe de Aremenha. Que diremos das grandes

cantarias de tantas variedades de pedras, quantas vemos em todo o

Reino? Os marmores brancos taõ admiraveis, que se tiraõ da Villa de

Estremoz: os pretos de Cintra: os vermelhos, azuis, amarellos, e pardos

de Pedro Pinheiro, com os quaes se fabricou o Real Templo de Mafra,

que, com o adorno de tanta diversidade de pedras, bem podemos dizer,

que he huma joya preciosa, ou hum vistoso ramalhete, em que está unida

a robustez com a delicadeza, o natural com o artificioso. Com igual

estimaçaõ vemos os pórfidos de Setubal, e os celebrados marmores

da serra da Arrabida, e os de Montes Claros, e os de Villa Viçosa,

dos quaes se tem aproveitado ainda os melhores edificios de terras

estranhas.[315]

11 Naõ longe de Coimbra ha huma casta de pedra muy clara, e lustrosa,

mas taõ branda, que basta qualquer prego sem maceta para a lavrar.[316]

Outra mais admiravel se produz no Lugar das Antas, termo da Villa da

Arruda, com a qual costumaõ ladrilhar os fornos, em que se coze o paõ;

porque tem ella tal virtude, e calor intrinseco, que basta receber pela

manhã a quentura sufficiente, para a conservar todo o dia, sem ser

necessario renovar-se o fogo, ou administrarlhe mais lenha.[317] A esta

especie podemos ajuntar as pedras molares de Cezimbra, e Porto de Mós,

e as admiraveis pederneiras de espingarda, que ha por Alcantara junto

de Lisboa, com todas as suas pedreiras matrizes de muita differença de

pedra, que com a falta de curiosidade inda ignoramos.

12 Poucas terras levaráõ vantagem à nossa na producçaõ dos _Barros_

finos, aptos para a fabrica de cousas domesticas. Entre todos merece

o primeiro lugar o barro vermelho, e odorifero de Estremoz, de que

se fazem preciosos pucaros, os quaes naõ só tem a galantaria de

ficarem prezos, e pendurados nos beiços, quando por elles se bebe,

mas tem a virtude bezoartica, e alexifarmaca, com que se extenuaõ as

qualidades do veneno,[318] pelo que he bem merecida a estimaçaõ, que

em toda a parte lograõ. Em Roma no Museo do Padre Kirker, e Bonani,

que se conserva no Collegio dos Padres Jesuitas, os vimos com especial

recato; e em muitos gabinetes de Monsenhores, e Principes de Italia

constituem naõ pequeno adorno. Depois destes seguem-se os de Lisboa,

chamados pucaros da Maya, ou do Romaõ, feitos com summa delicadeza,

e formosura especialmente aquelles, a que chamaõ de alètria, de hum

barro tambem odorifero, com os quaes lá lhe achou huma bella analogia

o discreto Camões[319] para comparar as formosas Damas Lisbonenses. Os

de Montermór o Novo, Sardoal, Aveiro, e Pombal saõ fabricados de barros

igualmente selectos, naõ sendo para desprezar a louça de barro, que se

fabrica na Villa das Caldas.

13 De _Azeviche_ ha muitos mineraes, mayormente na Villa da Batalha,

de que se fazem curiosos brinquinhos, e figuinhas, as quaes trazidas à

vista dizem que saõ contra o quebranto, e fantasmas melancolicas:[320]

por isso rara he a criança neste Reino, que naõ ande armada de muitas

destas figas contra o máo olhado. O Padre Eusebio Nieremberg[321]

approva a virtude natural do azeviche para este effeito, mas condemna a

effigie.

14 A formosura do _Coral_ nos contribue muitas vezes o mar de Peniche,

lançando-o pelas prayas em ramos, e esgalhos bem galantes, de que temos

visto alguns. O _Vermelhaõ_ se colhe no rio Minho, donde tomou o nome,

e de que falla Justino.[322] No tempo delRey D. Manoel se descubriraõ

minas de vermelhaõ, e de _Azougue_.[323] O cheiroso _Ambar_ acha-se

algumas vezes pelos areaes de Troya defronte de Setubal, que o mar

lança fóra, quando tem andado tempestuoso. O _Salitre_ naõ falta pelas

grutas de Alcantara.[324]

15 O _Sal_ se coalha copiosamente nas muitas marinhas, que ha em

Aveiro, Santo Antonio do Tojal, e em Setubal, bastando só os direitos

Reaes destas salinas de Setubal para satisfazerem aos Hollandezes

os milhões, que se obrigou o Reino a pagarlhe pelo Tratado da liga

defensiva, concluindo-se o anno de 1703 o seu ultimo pagamento.

Bastante prova he desta fertilidade o grande numero de navios

estrangeiros, que continuamente vemos em nossos portos a fazerem

carregações do sal, que lá nas suas terras naõ tem: e he isto taõ

antigo, que affirma Pedro de Mariz[325] verse em tempo delRey D.

Pedro I. nos portos de Lisboa, e Setubal muitas vezes quatrocentos, e

quinhentos navios a esta carga, e outras nossas mercadorias. Seguia-se

tratarmos agora do Commercio do Reino; mas como reservamos esta

noticia para quando descrevermos Lisboa, primario archivo de todas as

grandezas, e trafegos de Portugal, passemos à averiguaçaõ das moedas,

que se tem lavrado, com toda a sua diversidade, e valor.

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II · 第 80 / 163 题