CAPITULO X.

_Da Fertilidade do Reino em commum._

1 Quando fallámos de cada Provincia em particular, dissemos a benigna

qualidade do sitio, e clima favoravel, que pertencia a cada huma; e

pelo que vimos, naõ ha em Portugal palmo de terra, que seja esteril

em quasi todo genero de frutos. Os Authores antigos naõ só lhe daõ o

titulo de Paiz pingue, senaõ do mais delicioso do mundo;[270] e porque

esta verdade necessita de mais individual expressaõ para inteirar

o conceito dos estranhos, comecemos pelos mantimentos, e pelo mais

preciso.

2 _Trigo._ Todos os nossos Escritores affirmaõ,[271] que em outro tempo

houve mais trigo no Reino, que no tempo de agora; e já Luiz Nunes na

sua Lusitania,[272] comparando sómente Santarem com Sicilia, naõ quiz

que esta Villa cedesse àquelle Reino na secundidade deste producto.

Esta abundancia naõ só de Santarem, mas de outras muitas terras nossas

puderaõ os naturaes experimentalla da mesma sorte presentemente, se naõ

houvera tanta extracçaõ de farinhas para as Conquistas, e houvera mais

applicaçaõ para a agricultura. Tambem este ponto he muy lamentado pelos

zelosos da patria.[273]

3 A verdade he, que temos muitas terras baldias, que se quizeramos

aproveitarnos dellas, cultivando-as, daria-mos trigo a todo o mundo. No

Reino do Algarve ha grandes valles, e fertilissimos, porém devolutos.

No Alentejo ha charnecas, que nunca viraõ arado, nem enxada, e por

causa da ociosidade se achaõ infrutiferas, que de si o naõ saõ; e neste

sentido se deve entender o Padre Mariana, que chama a esta Provincia

esteril.[274] Na mesma Provincia, e no sitio das Vendas Novas, que he

terreno de area solta, e até aqui tida por infrutifera, desde que ElRey

D. Joaõ V. mandou fabricar alli hum grande Palacio no anno de 1728, se

principiou a plantar vinhas, pomares, e hortas muito boas, de que se

colhe grande renda.

4 Certos Authores[275] dizem, que se abrirem o lamaraõ de Sacavem até

Alverca com vallos por dentro, e fizerem diques pela parte do rio,

dará paõ para meya Lisboa, e linho canamo para enxarcias, e amarras. O

mesmo se poderá fazer em outras muitas partes do Reino, onde se achaõ

lamarões, sapaes, e terras alagadiças, tomando o exemplo dos Romanos,

Venezianos, e Senhores de Ferrara, os quaes, como diz Botero,[276]

assim o executaraõ com as lagoas Pontinas, campos de Polesene, e valles

de Comachio em grande proveito de seus vassallos, e interesse dos

direitos Reaes. Deste projecto se aproveitou em outro tempo ElRey D.

Sancho I. que se honrou muito de ser chamado o _Lavrador_,[277] e o

mesmo cuidado teve ElRey D. Joaõ II.

5 Sem embargo de toda esta negligencia, ou ociosidade, que naõ he

defeito das terras, mas dos homens, se naõ houvera tanta gente

superflua estrangeira, que habita em nosso Reino, e a grandeza de

herdades particulares, teria elle para os naturaes paõ superabundante,

e do melhor da Europa, principalmente do Alentejo, e termo de Lisboa,

onde vemos ainda assim as melhores tercenas, ou celeiros de toda a

Europa com a provisaõ deste genero de alimento. Nas outras Provincias,

onde naõ ha tanta abundancia de trigo, suppre o milho, a castanha, a

cevada, e o centeyo, de que fazem farinha, e se sustentaõ.

6 _Azeite._ He tanta a abundancia de azeite, que escusamos repetir o

que neste particular affirmaõ nossos Escritores,[278] principalmente

da fertilidade, e bondade, que ha deste genero em Santarem, Abrantes,

Thomar, Torres-Novas, Montemór o Novo, Coimbra, Evora, Moura, Elvas,

Béja, Beringel, termo de Lisboa, e na Torre de Moncorvo, onde só o

dizimo importa mais de seiscentos almudes, gastando-se na fabrica do

sabaõ dous mil cantaros, e provendo-se Galiza, e outras terras de

Castella do muito, que daqui levaõ.

7 _Vinho._ Deste producto soccorre o nosso Reino a muitos dos

estranhos, principalmente das partes Septentrionaes, porque aos

Portuguezes lhes he impossivel dar consumo à grande copia de vinhos,

que todos os annos recolhem das Provincias, sendo os mais gabados

os de Alvor, Béja, Villa de Frades, Vidigueira, Cuba, Peramanca,

Alcochete, Almada, Caparica, Carcavelos, Camarate, Oeiras, Ourem,

Lamego, Monçaõ, deixando os da Beira, e Tras os Montes taõ excellentes,

que os naõ tem melhores todo o mundo, sendo todos estes ordinariamente

bem incorporados, e com especialidade os tintos, que tem força para

lotar os outros. Os Francezes, e Inglezes gostaõ muito dos vinhos

extrahidos do Lugar chamado Barra a barra, que fica da outra banda de

Lisboa; porque dizem, que saõ mais delicados, e menos cubertos,[279]

e por isso conduzem muitos de Alhos vedros, e outras terras para as

suas; naõ deixando de se admirar de que nós naõ estimemos o licor de

Baco, tanto como elles, e que as fontes sejaõ ordinariamente as que

nos mataõ a sede, e naõ as vides. Os peyores vinhos do Reino saõ os

do Minho, chamados verdes,[280] porque duraõ pouco; e ou pela sua

aspereza lhe chamaõ de enforcado, (ou talvez porque lançaõ as vides, e

cachos pendurados nas arvores,) donde veyo a dizer o sentencioso Sá de

Miranda, alludindo ao dito de Cineas:[281]

_Depois nos Olmos mostrado,

Nunca vi, disse, enforcado,

Que a forca, assim merecesse._

8 _Carnes._ Da grande copia em todo o genero de gados, que ha no Reino,

ninguem duvída. O grande consumo, que se faz delles no provimento de

armadas, e frotas, e a consideravel extracçaõ de lãs para o negocio do

Norte, e Inglaterra, bastava para prova desta opulencia, se já o naõ

tiveramos mostrado só na fecundidade da Provincia do Minho. No que se

deve reparar he no sabor, e mimo das _Vacas_, e _Vitellas_ da Beira:

_Carneiros_, _Cordeiros_, e _Leitões_ do Alentejo: _Cabritos_ da serra

de Cintra, e Caldeiraõ, sem omittir a preciosa provisaõ do _Leite_,

_Natas_, _Manteigas_ e _Queijos_ muito melhores que os Flamengos, e

Parmazanos: nem nos esquecermos dos excellentes _Presuntos_ da Beira, e

_Chacina_ do Alentejo.

9 E que diremos da montaria, e caça Real? Sem encarecimento Castella

naõ a tem melhor. Admiraveis saõ as _Corças_, e _Cervos_ da serra

do Algarve: os _Veados_ das serras de Mertola, Portel, Almeirim,

Arrabida, Cintra, e tapada de Villa Viçosa: _Javalis_ da Tapada,

Pinheiro, serras de Portel, Vascaõ, Grandola, e Alcacer: _Lebres_,

e _Coelhos_ das Berlengas, Alcantara, e Nossa Senhora do Cabo, pelo

especial gosto, que lhe causa o pasto do perrexil.

10 _Aves._ Deixando a grande creaçaõ das domesticas, que em grandes

ninhadas, e bandos vemos por todo o Reino em abundancia, _Galinhas_,

_Patos_, _Pombos_, e _Perús_, naõ ha cousa como os _Perdigotos_,

e _Perdizes_ do termo de Lisboa, das serras de Cintra, Beira, e

Caldeiraõ: _Tordos_ de Thomar, e do Alentejo, _Taralhões_ de Cezimbra,

_Rolas_ de Alcacer, _Adens_, e _Galeirões_ dos Paús de Palma, Obidos,

e Benavente, com outros varios bandos de passaros de arribaçaõ, que

com o cibato das nossas terras se fazem muito mais saborosos que os

_Hortolanos_ de Pariz. Aqui se póde aggregar a quantidade grande de

canoras, e vistosas aves, os _Rouxinoes_, _Pintasilgos_, _Chamarizes_,

_Codornizes_, _Cochichos_, _Lavercos_, _Verdelhões_, _Tentilhões_,

_Melros_, _Pintarroxos_, _Tutinegras_, e outros mil suaves passarinhos,

que pelos bosques, e ramos dos alemos, choupos, freixos, loureiros,

e outros arvoredos espessos divertem os olhos, e os ouvidos com

excellente musica natural em distinctos córos.

11 E ainda que as terras saõ differentes em arvores, e frutos, os de

Portugal saõ tantos, e taõ bons, que se produzem nelle todos os que

nas outras partes saõ estimados; porque de frutas de espinho tem por

toda a parte admiraveis _Laranjas da China_, _doces_, e _bicaes_, a que

os estrangeiros chamaõ frutas propriamente de Portugal: prodigiosas

_Limas_ da serra d’Ossa, _Limões_ em Colares, Cintra, Peninha, Loures,

Póvos, Azeitaõ, Setubal, Couto do Bouro, Condeixa, Borba, Santiago de

Cacem; e as admiraveis _Cidras_ do Landroal.

12 Das frutas de pevide tem especial estimaçaõ as _Camoezas_ de Thomar,

Alcobaça, Torres, Lourinhã, Montemór o Novo: saborosissimas _Peras_ de

muitas castas, e nomes: _De Rey_, _de Conde_, _Bergamotas_, _Bojardas_,

_Cornicabras_, _Carvalhaes_, _Conforto_, _Flamengas_, _Gervasias_,

_Codornos_, _de Rio frio_, _Engonxo_, _de S. Bento_, _de Bom Christaõ_,

_Virgulosas_, e _Lambe-lhe os dedos_, com as formosas, e appetitosas

_Maçãs de Abrantes_, _Baunezas_, _Leirioas_, _Melapios_, _Repinaldos_,

_Verdeaes_, e até _Rainetas de França_ na Villa de Mafra, com outras

muitas, que em dilatados, e frescos pomares daõ que invejar a Reinos

estranhos, pois só na Villa de Montemór o Novo ha quatrocentos pomares

de regadio muy deliciosos.

13 Antecipaõ-se a estes deliciosos productos aquellas frutas de caroço,

que lograõ universal estimaçaõ por primeiras, e por gostosas: taes

saõ as _Cerejas_ de Palayos, Busselas, e Pampilhosa, e as chamadas de

_Saco_ da Lousã, Coimbra, Leiria, e Portalegre: as _Ginjas garrafaes_

de Lamego, Borba, e Alenquer: as _Frutas novas_, e _Ameixas reinoes_

de Montemór o Novo, com as _Brancas_, _Saragoçanas_, e _Abrunhos_ de

Cintra, Collares, Azeitaõ, e Cezimbra: os gentis _Figos lampos_, e

_Perinhas de cheiro_ do termo de Lisboa, e Setubal, com os graciosos

_Damascos_, _Alperches_, e _Pessegos_ de tantas castas em Abrantes,

Aviz, Azeitaõ, e Villa-Franca, sem nos esquecermos das mimosas

_Amoras_, e _Morangos_, e das bellas _Uvas moscateis de Jesus_,

_Tamaras_, _Ferraes_, _Diagalves_, e _Malvazias_ de Punhete: do chamado

singular _Bastardo_ de Cassilhas, Barreiro, e Almada, com os seus

excellentes, e incomparaveis _Figos brancos_: dos selectos _Melões_

da Vellariça, Chamusca, Arrayolos, Benavente, e Muxagata: das doces,

e vermelhas _Melancias_ de Patayas junto da Nazareth, de Coruche, e

Chamusca: das _Romãs_, _Marmellos_, e _Gamboas_ de Santarem, com a

quantidade sem numero de _Castanhas verdes_, e _piladas_ da Beira, e

Minho: de _Amendoas_, _Passas_, _Figos_, e _Alfarrobas_ do Algarve,

principalmente de Estoy: _Nozes_, _Sorvas_, _Nesperas_, e _Avelãs_

da Estremadura: _Bolotas_, _Azeitonas_, e _Pinhões_ do Alentejo, sem

fazermos caso dos _Medronhos_, _Murtinhos_, _Camarinhas_, e _Amoras de

silva_, que a natureza como frutos agrestes produz nos matos, e nas

charnecas: a que se podem ajuntar as chamadas _Tuberas da terra_, de

que a Béja se vaõ vender aos alqueires, e saõ especial prato, ou feitas

à semelhança de Coelho, ou à imitaçaõ de favas.

14 Seguia-se lembrarmo-nos das hortaliças, que naõ tem que invejar

as nossas cousa alguma às de Italia, ou França; pois em parte alguma

haverá _Couves_ taõ grandes, e _Nabos_ taõ monstruosos, que se possaõ

igualar com as da Beira, especialmente as _Murcianas_ de Azeitaõ, e

Setubal: _Repolhos_ da Villa do Conde: _Cardos_ das hortas de Béja, e

Baleizaõ, e toda a hortaliça de Santarem: e muito menos com a riqueza,

regalo, e recreaçaõ das muitas quintas, e hortas, tendo só Lisboa em

si, e seu termo mais de sete mil; porém toda esta especie naõ cabe

na memoria por infinita, e da mesma sorte a copiosa fertilidade de

legumes de todo o Riba-Tejo, raizes, arbustos, e hervas comestiveis, e

aromaticas. Só com as medicinaes pudera Portugal supprir os balsamos,

as massas, e especiarias da India, se os Portuguezes foraõ mais

curiosos em se dar à intelligencia da Botânica, ou virtude das hervas,

e plantas, sendo certo, como confessaõ os estrangeiros,[282] naõ haver

terreno mais bastecido, e fertil de hervas medicinaes, que Portugal,

ainda no mais escabroso das suas serras.

15 Assim vemos que por ellas cria a natureza prodigamente sem a

diligencia da cultura o _Alecrim_, a _Arruda_, o _Aypo_, a _Argentina_,

a _Alfavaca de cobra_, os _Almeirões_, os _Agrões_, a _Agrimonia_,

a _Artemija_, a _Avenca_, as _Azedas_, a _Bisnaga_, a _Borragem_,

o _Cardo santo_, a _Carqueja_, a _Celidonia_, a _Centaurea_, a

_Congossa_, a _Douradinha_, a _Dormideira_, o _Endro_, o _Ensayaõ_,

a _Erva cidreira_, a _Erva doce_, a _Escabiosa_, a _Escorcioneira_,

a _Eufrazia_, o _Funcho_, a _Filipendola_, o _Gilbarbeiro_ a

_Hepatica_, a _Hera_, o _Hyssopo_, o _Jaro_, a _Labaça_, o _Lirio_, a

_Lingua de Vaca_, a _Losna_, a _Macela_, a _Malva_, o _Malvaisco_, a

_Mangerona_, o _Mastruço_, o _Marroyo_, o _Meimendro_, o _Millefolio_,

a _Moleirinha_, a _Murta_, o _Nardo celtico_, a _Neveda_, o _Oregaõ_,

a _Ortelã_, as _Papoilas_, a _Peonia_, a _Pimpinella_, os _Poejos_,

a _Rabaça_, o _Rosmaninho_, a _Salgadeira_, a _Salsa_, o _Saramago_,

a _Segurelha_, a _Sanguinaria_, a _Semprenoiva_, a _Serpentina_, a

_Solda_, a _Tamargueira_, a _Tanchagem_, o _Tomilho_, o _Trevo_, o

_Trovisco_, a _Valeriana_, o _Verbasco_, a _Versa_, a _Veronica_, a

_Viola_, e outras de experimentada virtude, e prestimo,[283] de que

tambem os multiplicados enxames de abelhas se aproveitaõ para a fabrica

do mel nos excellentes colmeares, principalmente nas serras de Serpa,

Portel, termo de Palmella, e toda a Provincia de Tras os Montes, que

costuma repartir com os visinhos: naõ sendo menos util a copiosa

colheita do _Linho_, _Grã_, e _Esparto_ das Provincias do Minho,

Beira, Estremadura, e Algarve, de que tanto se aproveitaõ as Nações

estrangeiras.

16 Ainda para recreyo dos sentidos, vista, e olfato se mostra a

natureza taõ provida, e liberal em nossos campos na producçaõ de

infinitas flores, humas brancas, outras encarnadas, outras roxas,

outras amarellas, azuis, e verdes, que naõ ha monte, nem valle,

que no tempo do Veraõ deixe de respirar alegria, e suavidade com

o esmalte, e fragrancia das _Boninas_, _Junquilhos_, _Mosquetas_,

_Lirios_, _Madresilva_, _Legacaõ_, _Azareiro_, _Giesta_, _Murta_,

_Flor de laranja_, e outra muita diversidade, que exhalando agradavel

cheiro, nascem, e se criaõ em qualquer prado, compondo hum continuado

ramalhete; porque a industria da arte nas cercas, e nos jardins tem em

todo o anno constante o Abril, e florecente a Primavera com vistoso

matiz de _Amarantos_, _Ambretas_, _Amores perfeitos_, _Angelicas_,

_Aquilegias_, _Araras_, _Assucenas_, _Artemijas_, _Azareiros_,

_Anemolas_, _Bordões de S. Joseph_, _Botões de ouro_, _Barboletas_,

_Caracoleiros_, _Caxias_, _Cravos_, _Cravinas_, _Disciplinas_,

_Ervilhas de cheiro_, _Esporas_, _Flores pombinhas_, _Flores do

Cabo de boa esperança_, _Flores de Liz_, _Girasoes_, _Goivos_,

_Jasmins_, _Jacintos_, _Junquilhos_, _Lilazes_, _Malmequeres da

sessia_, _Malvas da India_, _Maravilhas_, _Mauritanas_, _Margaritas_,

_Melindres_, _Mogarins_, _Narcisos_, _Noturnos_, _Novelos_, _Orelhas

de Urso_, _Papagayos_, _Papoulas da India_, _Perpetuas_, _Piramides_,

_Primaveras_, _Rainunculos_, _Rosas_, _Saudades_, _Selindres_,

_Suspiros_, _Tulipas_, _Valverdes_, e _Violas_, com as frondosas

latadas de _Caracoes_, _Trepadeiras_, _Chagas_, e _Martyrios_, e o

verde adorno dos crespos, e cheirosos _Mangericões_.

17 Quanto ao _Peixe_, além de o gabar Marineo Siculo,[284] e

Botero,[285] tem Portugal razaõ forçosa para o ter em abundancia, e

muy saboroso, por ser hum Paiz verdadeiramente maritimo, lançado,

e estendido pela costa do Oceano, onde o mar continuamente o está

regalando de differentes peixes, huns mayores, outros menores,

merecendo especial memoria os deliciosos _Salmões_ do Minho: as

gabadas _Azevias_ de Alhandra: os raros _Solhos_, e _Tainhas_ do Sado:

os saboros _Saveis_, e _Lampreas_ do Mondego, e Coa: as _Douradas_,

_Escolares_, e _Atum_ do Algarve: os _Salmonetes_, _Linguados_,

_Redovalhos_, _Bezugos_, e _Sardas_ de Setubal: as admiraveis

_Trutas_, e _Mugens_ da Beira, e Minho: as selectas _Bogas_, _Barbos_,

e _Escalhos_ de Alviella: os _Ruivos_ de S. Joaõ da Foz, e Villa do

Conde: as famosas _Pescadas_, e _Curvinas_ de Cezimbra, Cascaes,

Ericeira, Caminha, e Esposende: os _Congros_, e _Roballos_ de Peniche,

e Buarcos: os _Safios_, _Eirozes_, _Cachuchos_, e _Gorazes_ do Tejo.

E deixando de particularizar outras innumeraveis especies de peixe,

que os rios, ribeiras, e lagoas nos tributaõ com a fecunda pescaria de

_Sardinhas_, e _Carapáos_, e os celebrados _Camarões_ de Villa-Franca,

com os saborosos cardumes de _Ostras_, _Bribigões_, e mais Mariscos

de Aveiro, e Setubal, vimos a concluir, que de tanto genero de

mantimentos, e regalos, com que nos provê benigna a natureza, se vem a

fazer hum todo admiravel contra o que diz Virgilio, que _non omnis fert

omnia tellus_, pois todas as cousas vemos em tanta copia juntas nesta

opulenta Peninsula.

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II · 第 78 / 163 题