CAPITULO VIII.

_Das Fontes mais notaveis._

1 Neste Capitulo fazemos só memoria daquelas fontes, que por alguma

particularidade se fazem dignas de admiraçaõ; pois seria intentarmos

hum quasi impossivel querer dar noticia de todas as que circulaõ

por nossas terras, sendo verdadeiramente innumeraveis. Nós em outra

Obra[259] já referimos algumas, e o Doutor Francisco da Fonseca

Henriques em o seu curioso _Aquilegio_ faz mençaõ de outras.

Repetiremos outra vez as mais singulares, pois que assim o pede o

assumpto, e a ordem, que seguimos, nomeando primeiramente para mayor

clareza as terras, donde emanaõ, e onde correm.

2 _Abrantes._ Na distancia de quatro leguas desta Villa sobre a ribeira

de Sor ha huma fonte, a que chamaõ da Fedegosa, a qual nascendo em

mineral de enxofre tem qualidades frescas, e sara muitos achaques,

que peccaõ em quentura. E no seu termo junto da Ermida de nossa

Senhora do Tojo ha outra fonte de taõ excellente agua, que a mandaõ

buscar para os doentes beber: e accrescentaõ os moradores huma cousa

(diz a Corografia Portugueza, que para mim he incrivel) e vem a ser:

que havendo algumas differenças sobre quem ha de encher primeiro,

visivelmente se diminue a agua na mesma fonte.[260]

3 _Aguiar de Sousa._ Na Freguezia de S. Mamede de Val-Longo ha no mais

alto da montanha hum poço muy profundo, que de Inverno secca-se, e de

Veraõ tem tanta abundancia de agua frigidissima, que serve naõ só de

regalo à gente, mas tambem aos milhos, que com ella se regaõ.

4 _Alandroal._ A fonte desta Villa he memoravel pela grande copia

de agua, que expulsa, a qual dizem que se lhe communica de hum rio

subterraneo. Formou aqui a natureza huma larga concavidade, a que os

moradores chamaõ _Algar_, em cujo fundo se acha hum poço com bocal

feito ao picaõ, e delle sahe huma levada de agua muito grande.[261]

Nesta mesma Villa, na estrada, que vay para Terena, ha outra fonte, que

naõ corre de Inverno, senaõ no Estio.[262]

5 _Alcacer do Sal._ Na herdade das Praxanas, distante duas grandes

leguas da Villa, existe huma fonte, cuja agua he buscada de muitas

leguas para remedio contra o mal da pedra; e tem as mesmas virtudes da

que ha na Villa de Almada.

6 _Alcanede._ No termo desta Villa, e no Lugar dos Amiaes debaixo

corre huma fonte, que bebendo da sua agua qualquer pessoa, que tiver

sanguisugas na garganta, immediatamente lhas faz expellir, e se

comprova com muitas experiencias.

7 _Aljustrel._ Em distancia de meya legua desta Villa, chegado à Ermida

de S. Joaõ do Deserto, ha huma fonte de agua taõ azeda, que ninguem

a bebe, nem ainda os animaes; porém tomada como medicina, serve de

excellente vomitorio, e boa para lançar fóra sezões.

8 _Almada._ Nesta Villa ha huma fonte, cuja agua tem conhecida virtude

para os achaques de pedra, e areas.[263]

9 _Amarante_. No campo chamado da Feitoria, que fica defronte do

Convento de S. Gonçalo desta Villa, brota huma Fonte abundantes aguas,

que tambem tem notoria analogia, e semelhante virtude à de Almada.

10 _Ançaõ._ Nesta Villa se acha huma fonte, que lança de Veraõ agua

frigidissima, e pelo Inverno tepida. Tambem por experiencia se tem

observado, que a sua agua bebida facilita os partos, e preserva dos

achaques de pedra, e outras enfermidades.

11 _Armamar._ Huma fonte ha no termo desta Villa, que tem virtude as

suas aguas para varias enfermidades. No sitio, onde nasce, ha muitas

pedrinhas quadradas semelhantes àquellas, que vem da India, e se

attribue, que a virtude, que tem a agua, será communicada das pedras.

12 _Batalha._ Perto desta Villa ha huma fonte no Lugar das Brancas,

cuja agua com facilidade, e em breve tempo se transmuta em sal.

13 _Besteiros._ Fica este Lugar no termo da Villa de Anciães, e aqui

existe huma fonte de agua taõ delgada, que com ella naõ se póde

fabricar azeite.

14 _Braga._ Em distancia de hum quarto de legua desta Cidade, na quinta

dos Religiosos de Santo Agostinho corre de huma fonte agua taõ fria,

que no tempo mais ardente do Veraõ mal se póde aturar a maõ dentro

della nem ainda em quanto se reza huma Ave Maria; e em poucos minutos

reduz a vinagre hum frasco de vinho, se o meterem dentro della.

15 _Bragança._ Além de outras fontes, que ha nesta Cidade notaveis, ha

huma na quinta de Val de flores, que a sua agua he efficacissima para

facilitar a digestaõ, e abrir a vontade de comer.

16 _Cadima._ Ha aqui neste Lugar, que fica em distancia de Tentugal

duas leguas, a celebre fonte chamada _Fervença_, de que fallaõ muitos

Authores,[264] a qual sorve quanto lhe deitaõ dentro da voragem, que

sempre está em continua fervura. A causa deste fenomeno he, porque

alli ha alguma occulta cataracta, ou precipicio, como bem explica o

doutissimo Feijó.[265] Tambem na Freguezia de S. Mamede, termo de

Alcacer do Sal, donde dista quatro leguas, está da parte do Poente

hum grande olho de agua, que corre para o rio Sado, o qual sorve tudo

quanto lhe lançaõ dentro: chamaõ-lhe a _Anceira_.

17 _Caldezes._ Fica este Lugar no Concelho da Povoa de Lanhoso, e tem

huma fonte chamada do _Tojal_ da qual sahem misturadas com a agua

muitas pedras quadradas, como já dissemos das de Armamar, e que tem a

mesma virtude alexifarmaca.

18 _Cano._ Junto desta Villa ha huma fonte, a que chamaõ dos _Olhos_,

porque em seu nascimento está sempre a agua fervendo, e tem a

particularidade de converter sua agua facilmente em pedra as cousas,

que lhe lançaõ dentro.

19 _Castello de Vide._ Entre a grande quantidade de fontes, que

regaõ esta Villa, pois passaõ de trezentas, ha especialmente huma no

arrebalde, que chamaõ da _Mealhada_, com a excellente virtude de livrar

de dores nefriticas aos que costumaõ beber da sua agua: e no termo da

Villa de Oiteiro ha outra, que dizem ter a propriedade, e natureza do

vinho.

20 _Coimbra._ Perto desta Cidade, e no meyo da estrada poucas leguas

antes de chegar a ella, está a celebre fonte de _Alcabedeque_ huma das

mais copiosas, que ha no Reino, cujo nome lhe deraõ os Mouros pela sua

virtude, pois Alcabedeque na lingua Arabe quer dizer _Agua de Deos_.

Elles que lhe sabiaõ o prestimo mais do que nós, a estimavaõ tanto, que

fizeraõ junto della hum forte para a guardar. Veja-se a _Corografia

Portugueza no tom. 2. pag. 34._

21 _Covilhã._ Na cerca dos Religiosos de S. Francisco desta Villa está

huma fonte de agua frigidissima; e já tem acontecido algumas vezes

acharem convertido em vinagre o vinho, que mandavaõ aqui resfriar.

22 _Envendros._ Existe huma fonte no sitio do Alpalhaõ, termo desta

Villa, cuja agua bebida no lugar em que brota, he ingrata ao gosto,

mas estando em casa, se faz de bom sabor. Attribuem os moradores, que

a causa de se viver aqui muito, e com saude, procede da boa qualidade

desta agua.

23 _Ervedal._ Quasi chegado à estrada, que vay do Ervedal para

Benavilla, termo de Aviz, corre huma fonte, que no mez de Outubro

secca, e vindo Março torna a correr, e dura todo o Estio, por mais

ardente que seja. Reduz tambem a pedra quanto lhe deitaõ dentro.[266]

24 _Estremoz._ A fonte da Lagoa, que ha na herdade dos Alens no termo

desta Villa, tem a mesma analogia que a antecedente, pois secca-se de

Inverno, e corre de Veraõ.

25 _Ferreirim._ Huma legua distante de Lamego, na cerca do Convento de

Santo Antonio de Ferreirim, ha huma fonte de agua taõ fria, que tambem

converte promptamente o vinho em vinagre.

26 _Freixeda._ Este Lugar, que fica no termo de Miranda, comprehende

com admiraçaõ huma fonte de agua muito fria, e taõ corrosiva, que

consome no espaço de meya hora a carne, que se lhe lança dentro,

deixando os ossos esburgados.

27 _Grandola._ Da serra dos Algarves, que dista huma legua desta Villa,

manaõ dous olhos de agua com duas propriedades bem contrarias, sendo

irmãs no nascimento; porque as que sahem para a parte do Sul, saõ

excellentes, e as que correm para o Norte, naõ ha quem as possa beber,

e por isso lhe chamaõ agua azeda. De outro olho de agua, que sahe com

mayor abundancia, se tem observado, que toda a terra, que banha a sua

corrente, fica infrutifera, deixando tambem hum fortissimo gelo, por

onde passa.

28 _Guarda._ Por baixo da Cruz da Faya nos limites desta Cidade emana

huma fonte de agua fria com qualidades taõ nocivas, que passaõ a

mortiferas.

29 _Guardaõ._ Fertilissimo he este Concelho de aguas admiraveis: tal

he a fonte da Pipa junte da Povoa da Longera, a do Lugar das Paredes,

a fonte das Amexieiras, a chamada das Donas, e outras de singular

qualidade, que refere a Corografia Portugueza.[267]

30 _Guimarães._ Afastado da Villa para o Sul fica a milagrosa fonte

de S. Gualter, cuja virtude para varias enfermidades faz attrahir

muita gente, que ou bebendo, ou lavando-se em sua agua, experimentaõ

conhecida melhoria.

31 _Marmellos._ He este hum Lugar, que fica no termo da Villa de Lamas

de Orelhaõ, onde existe huma fonte de igual virtude curativa de varias

enfermidades, que a experiencia tem mostrado infallivel.

32 _Massouco._ Junto da Igreja Matriz deste Lugar, que he do termo

da Villa de Freixo de Espadacinta, ha huma fonte, a que chamaõ do

_Xido_, a qual principia a correr do mez de Março por diante: e tem os

moradores feito observaçaõ, que se o anno ha de ser fertil, expulsa muy

pouca agua; e quando ha de ser esteril, brota com abundancia; e desta

fórma vem a ser hum quasi reportorio para as gentes daquelles contornos.

33 _Monchique._ Com a mesma propriedade ha outra fonte neste Lugar,

que fica no Algarve, a qual em Dezembro totalmente se secca. De igual

singularidade se admira outra em Monforte, meya legua distante da

Villa, a qual se secca no mez de Setembro, e em Mayo torna a rebentar

com grande torrente. Em Monsanto tambem corre outra com as mesmas

circunstancias do tempo.

34 _Olmos._ A fonte chamada do _Gogo_, que fica no termo desta Villa,

lança agua de fórma, que faz fio como clara de ovo, e affirma-se ter

virtudes medicinaes.

35 _Ouguella._ Bebem os moradores desta Villa a agua de huma fonte,

que dizem naõ cria cousa viva dentro em si, senaõ sómente rãs. Saõ

presentaneas para matar sanguisugas, e lombrigas. Se por acaso, ou

inadvertencia poem a cozer legumes com esta agua, he escusado gastar

tempo, porque nunca os coze.

36 _Santarem._ Nos limites desta Villa, e no Lugar de Rio-Mayor ha hum

olho de agua salgada seis leguas distante do mar.

37 _Sardoal._ Aqui ha a fonte de Penha, que tem a circunstancia de

naõ correr, senaõ tambem de Veraõ, e seccarse pelo Inverno. Tal he a

providencia de Deos.

38 _Serra da Estrella._ Emana do sitio chamado Valderosim huma fonte

de agua taõ fria, que em pouco espaço de tempo transmuta em vinagre o

vinho, quando o querem resfriar.

39 _Setubal._ Tem a praça desta Villa huma formosa fonte, cuja agua he

petrificante; por isso o seu aqueducto he aberto, para se desintupir

desembaraçadamente.

40 _Thomar._ Em a Freguezia dos Formiguaes, que he do termo desta

insigne Villa, e no Lugar da Quebrada rebenta de Inverno huma fonte com

alguns olhos de agua, pelos quaes sahem alguns ouriços de castanha, naõ

havendo dalli a tres leguas castanheiros.

41 _Valverde._ Só em dia de S. Joaõ Bautista lança agua huma fonte

chamada por este motivo _Santa_, que existe neste Lugar do termo da

Villa da Alfandega da Fé.

42 _Vinhaes._ Affirma-se que a melhor agua, que ha na Provincia de

Tras os Montes, he a que existe no rocio desta Villa em huma fonte

admiravel. Por mais que se beba della, nunca offende o estomago, e

facilita muito a exclusaõ de areas, e pedra. No Lugar dos Casares,

termo da dita Villa, ha outra fonte de agua taõ fria, que metendo-lhe

dentro hum quarto de carneiro, o come todo sem lhe deixar mais que os

ossos; e naõ faz damno aos moradores que della bebem.

43 _Urros._ Chamaõ à fonte, que ha nesta Abbadia da Comarca da Villa de

Moncorvo, a fonte Santa, porque dizem que Santo Apollinario a fizera

rebentar neste sitio; e muita gente se aproveita de suas aguas para

algumas molestias, usando dellas com fé: mas naõ consiste aqui só a

maravilha, porque estando huma legua distante do Douro, se communica de

sorte com elle, que tambem se altera, quando elle se ensoberbece.

44 Com estas, e outras innumeraveis fontes enriqueceo a Providencia

divina este nosso terreno, encontrando-se pelas Provincias do Reino

aguas nativas de exquisitas propriedades, que se a alguns dos Leitores,

ou estranhos, ou forasteiros, fizerem duvida, offerecemos a fé, e

credito dos mesmos naturaes, que o affirmaõ, quando a verdade desta

sincera narraçaõ naõ baste; pois o nosso objecto por agora naõ attende

a sondar, nem a averiguar os occultos arcanos da natureza, como

cousa impropria ao intento Geografico. O Doutor Francisco da Fonseca

Henriques escreveo deste assumpto hum livro, que intitulou _Aquilegio

Medicinal_, a que os curiosos podem recorrer.

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II · 第 74 / 163 题