102 _Coa._ No Reino temos dous rios deste nome: hum, que corre junto de
Alcobaça, e que se préza de dar nome à dita Villa; outro, que nasce na
serra de Xalma, porçaõ da Gata, e entra em nosso Reino por Folgosinho.
Outros lhe daõ o nascimento mais perto de Alfayates, e concordaõ em
se meter no Douro em Villa nova de Foscoa. Os Romanos lhe chamavaõ
_Cuda_, e aos povos, por cujas terras passava, davaõ o nome de Cudanos,
e Transcudanos. As aguas deste rio saõ boas para tingir lãs, e caldear
ferro; porém pessimas para se beber, porque causaõ melancolia, e dores
de cabeça.
103 _Cobres._ Nasce esta ribeira pouco abaixo de Castro-Verde, e
unindo-se com o Terges, se vaõ incorporar ambos com o Guadiana, onde
perdem o nome.
104 _Corgo._ Nasce perto da Villapouca, discorre pelos limites de
Villa-Real, e vay sepultarse no Douro abaixo de Canellas, e Poyares. Os
Romanos lhe chamavaõ _Corrugo_.
105 _Corona._ Em distancia de huma legua de Grandola corre este rio
pelas raizes da serra dos Algares, e serve de linha divisoria dos
termos de Grandola, e Alvalade.
106 _Coura._ Corre este rio de Nascente para o Poente, e cerca
juntamente com o Minho a Villa de Caminha, e se metem no mar ambos,
formando duas barras, e a ilha Insoa.
107 _Criz._ He hum rio composto de muitas ribeiras, o qual passando
pela Villa de Santa Comba Daõ, se mete no Mondego.
108 _Daõ._ Nasce na serra de Carapito pela parte do Sul, ficando-lhe
da parte do Norte a serra da Estrella; e dando volta ao Poente, vay ao
Castello de Penalva com furia bastante. Faz as extremas dos Bispados de
Viseu, e Coimbra pelas terras do Concelho de Besteiros, e por baixo da
Villa de Santa Comba Daõ, a que dá o nome, se mete no Mondego.
109 _Danços._ Tem sua origem junto da Igreja de Nossa Senhora da
Estrella por cima da Redinha, Bispado de Coimbra. Mistura-se com o
Mondego.
110 _Davino._ Tem seu nascimento na serra, que fica para a parte do
Sul da Villa de Grandola, e corre do Poente para o Nascente; e junto
da Villa, atravessa huma formosa varzea de vinhas, e muitas arvores de
fruta, que fazem deliciosa vista, dando por aqui passagem sobre ponte
de pedra para o Algarve, e Campo de Ourique.
111 _Degebe_, ou _Odigebe_. Nasce este rio na herdade do Passo,
Freguezia de S. Bento do Mato do Alentejo. Atravessaõ-no tres pontes em
outros tantos braços no caminho de Estremoz. Tem outra ponte por onde
passaõ os que vaõ de Monte de trigo, termo de Portel, para a Villa do
Redondo. No Veraõ corre pouco, e conserva a agua só em alguns pégos, ou
poços, por cuja causa os Mouros lhe deraõ o nome que tem, que na sua
lingua significa fosso, ou cisterna.[229]
112 _Deste._ Nasce acima de Braga huma legua pouco mais, ou menos
para a parte do Nascente: rega os arrebaldes de Braga: tem huma ponte
de pouca fabrica, e logo adiante se ajunta com o Ave. Antigamente se
chamava _Aleste_.
113 _Diabroria._ He huma lagoa, que ha no termo da Villa de Grandola
por baixo do olho de agua chamado _Borbolegaõ_, de que já fallamos,
a qual se fórma de huma corrente de agua, que se despenha de huma
altissima rocha; e sem já mais ter diminuiçaõ em tempo algum, nem
se lhe achar fundo, cria muitos safios, eirozes, e outras castas de
peixes, que se pescaõ à cana. Chama-se esta lagoa Diabroria por causa
de hum moinho que alli ha, o qual moe entre dia, e noite dous moyos e
meyo de paõ.[230]
114 _Douro._ Conforme as melhores informações nasce este grande rio
nas montanhas de Cantabria junto à Cidade de Soria, cujos povos
antigamente eraõ chamados _Duraços_. Surte de huma portentosa lagoa, e
descendo por alcantiladas penedias, discorre pelo Reino de Leaõ, onde
se lhe agregaõ o Pisuerga, Carrion, e Tormes. Com este augmento chega a
Çamora, e daqui se introduz em Portugal, passando primeiro por Miranda,
e Freixo. Logo desce ao Porto, e recolhe os rios Coa, Tua, Pinheiro,
Barroza, Tamega, Ferreira, Sousa, e outros, até ir lançarse no mar em
S. Joaõ da Foz. He taõ grande a magestade deste rio, que quando nelle
se introduzem as aguas dos outros, posto que opulentos, naõ fazem
demonstraçaõ alguma na sua entrada.
115 Em Portugal he dos que naõ admittem ponte, porque sempre corre
precipitado, e por isso nunca lha puderaõ fazer. Só nas Caldas abaixo
de Lamego, onde chamaõ os Piares, estaõ sinaes de arcos de ponte, e
por naõ se poderem proseguir, deixaraõ a empreza. Fertiliza muito as
terras, por onde corre, com frutos de todo o genero muy excellentes.
Pescaõ-se nelle grande numero de saveis, e lampreas, que na Primavera
sahem do mar, e desovaõ pelo rio acima vinte leguas até S. Joaõ
da Pesqueira, onde no meyo está hum fragoso cachaõ, que embaraça
a passagem para diante. Em tempo de André de Resende intentou o
Desembargador Martinho de Figueredo desimpedir este precipicio, e fazer
navegavel o Douro mais para cima; porém encontrou taes contratempos, e
resistencia na inveja dos homens, mais duros que o mesmo rochedo, que
se deixou da empreza começada.
116 Tem fama de trazer areas de ouro, e de facto ha pessoas, que no
lugar, onde o Tua entra no Douro, vaõ alli gandaiar, e naõ debalde,
como affirma o grande Argote.[231] O Doutor Francisco da Fonseca
Henriques, fallando deste rio, diz, que as suas aguas tem virtude
deobstruente, porque passaõ por muita tamargueira, e assim saõ uteis
para os opilados do baço. Tambem se affirma, que a vista das suas aguas
causa melancolia, e dores de cabeça.
117 _Elja_, ou _Elga_. Corre direito ao Sul, e passa por entre
Valverde, e Castello das Eljas. Divide por dez leguas Portugal de
Castella, e se diffunde no Tejo entre Rosmaninhal, e Alcantara.