_Dos Montes, Promontorios, e Serras de mayor nome._
1 Quasi todos os principaes montes, e serranias, que fortalecem,
e ornaõ este nosso Continente, saõ ramos, e esgalhos dos celebres
Pyrineos, que dividem França de Hespanha, os quaes, entrando por varias
partes do Reino, adquirem o nome conforme as terras por onde se vaõ
descubrindo; e com tal elevaçaõ em alguns sitios, que justamente lhes
chamou Athlantes o famoso Caramuel,[181] pois com sua altivez pertendem
coroarse de estrellas, e suster os Ceos em seus hombros. Dos mais
affamados daremos a breve informaçaõ, a que o nosso methodo nos obriga.
2 _Abelheira._ Descobre-se esta serra no termo da Villa de Moura em o
Alentejo, e participa da serra da Adiça, communicando-se tambem com
a dos Machados, que lhe fica meya legua distante. Dá pastos a muitos
gados, e cria-se nella caça de todo o genero, e muitas hervas de grande
virtude medicinal. Ha outra serra deste mesmo nome na Provincia de Tras
os Montes no sitio da Igrejinha, onde se descobrem ruinas de edificios
Arabes.
3 _Aboboreira._ Fica na Provincia do Minho perto do Concelho de Gouvea.
He inculta, e inhabitavel em todos os quatro mil passos de ambito, que
occupa o seu terreno, posto que naõ he esteril para a muita caça que
alli se cria.
4 _Achada._ Começa esta serra desde a ribeira de Cascaes, e se vay
unir com a de Montejunto. Participa de aspero temperamento, naõ
obstante admittir cultura pelas suas raizes.
5 _Açor._ Há no Reino duas serras com este mesmo nome; huma na Beira,
que principia no termo da Villa de Coja, e acaba na de Arganil,
occupando o espaço de quasi sete legoas de comprido, e duas de largo, e
lança varios braços por diversos sitios. A outra serra jaz no Algarve.
6 _Albardos._ Serra aspera da Estremadura, lançada desde o termo de
Santarem até Porto de Mós. He de clima destemperado, e nella nascem
alguns rios, e canteiras de pedra fina. Os Religiosos de Alcobaça saõ
Senhores de todos os limites desta serra.
7 _Alcaçovas._ Está junto da Villa do seu mesmo nome na Comarca de
Evora. Levanta-se em desmedida altura, pois do cimo della se descobrem
povoações muy distantes. O insigne Fr. Luiz de Sousa diz[182] ser
provavel haver aqui no tempo dos Romanos algum edificio nobre, segundo
se collige de algumas moedas que se tem descoberto, e de outros
vestigios de antiguidade, que refere o Diccionario Geografico do Padre
Cardoso. A ribeira chamada Odiege, ou Diege, que discorre por esta
serra, fertiliza grandemente aquellas porções, que se deixaõ cultivar,
e onde se cria abundancia de caça, e de gado.
8 _Alcubertas._ Fica no termo da Villa de Alcanede, onde se descobre
huma grande concavidade, e dentro della huma casta de pedra brilhante,
que parece cristal; e outras, que congeladas da neve com a mistura
da terra saõ muy galantes, e procuradas para ornar embrechados, e
grutescos.
9 _Aleidões._ Apparece no Alentejo, e no termo de Grandola,
estendendo-se até Santiago de Cacem. Participa de ares saudaveis, e
consta de muitas carvalheiras, dando pasto a bastante gado, que alli
se cria, e a innumeraveis colmeas para a produçaõ de mel.
10 _Algáres._ Principia esta serra a descobrirse huma legua distante
da Villa de Grandola para a parte do Levante, e continuando contra o
Nascente, vay acabar onde chamaõ o Castello velho pelo espaço de duas
leguas. He quasi toda minada por baixo, e foy de donde os Romanos
extrahiraõ bastantes riquezas. Fica sobranceira ao rio Corona, que
separa pelo meyo os termos de Grandola, e Alvalade. A _Corografia
Portugueza no tom. 3. pag. 336._ refere outras circunstancias desta
serra, da qual naõ trata o Diccionario Geografico.
11 _Alpedreira._ Fica no Arcebispado de Evora, e se communica com
a serra de Portel. He secca, e esteril. Cria muito lobo pelas
concavidades que tem; e em algumas partes se cultiva com trabalho para
sementeira de centeyo.
12 _Alqueidaõ._ He da Estremadura, e fica no territorio de Leiria. A
sua temperie he fria, e em parte se cultiva trigo, milho, e linho. Cria
tambem alguma caça miuda.
13 _Altar de Trevim._ He huma serra que fica no termo da Louzã,
demasiadamente aspera, e empinada, de cuja eminencia se avistaõ muitas
Villas, e Lugares, que causaõ aos olhos agradavel perspectiva. Tem
muita caça, e cria porcos montezes, e lobos, naõ sem prejuizo dos gados
que por alli pastaõ.
14 _Alvaõ._ Na Provincia Transmontana, e na Comarca de Guimarães.
He fria, e no inverno cheia de neve. Cria muito lobo, e muito mato
rasteiro; cultiva-se em partes, e tem caça de perdizes, coelhos, e
lebres.
15 _Alvayazere._ Fica junto à Villa de seu nome no Bispado de Coimbra.
He serra aspera, e pedregosa, com quatro legoas de comprido. Cria
muito alecrim, e por isso o muito mel que as abelhas fabricaõ da sua
flor, he o mais estimavel. Está aqui huma grande gruta muy espaçosa,
onde se entra, e onde nasce agua capaz de se beber. Suppoem-se que
seria habitaçaõ dos Romanos, segundo vestigios que no cimo da serra se
descobrem.
16 _Airó._ Esta serra, que fica a hum lado da Villa de Barcellos, tem
bastante eminencia, e no mais alto se estende huma planicie banhada
por diversas fontes de bella agua, onde ha huma Ermida com huma devota
imagem da Senhora da Fé. Em outro tempo se denominava Monte aureo,
de que se derivou o nome, que tem presentemente a serra. Em pouca
distancia da dita Ermida ainda existem as ruinas de outra dedicada a S.
Silvestre, obra do servo de Deos Joanne o Pobre natural de Catalunha,
Varaõ penitente, e virtuoso, que alli viveo solitario, e morreo com
sinaes de predestinado.
17 Na raiz desta serra encostado ao Norte está o Convento de Villar
de Frades, hoje dos Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, e
antigamente dos Monges de S. Bento, onde aconteceo aquelle prodigioso
caso a hum Monge, que reflectindo sobre as palavras de David no Psalmo
89. onde diz: _Que mil annos diante de Deos saõ como hum dia, que
passou_, se foy contemplando a trás da armonia de hum passarinho, que
com a suavidade da sua voz o enterteve extatico na cerca do Convento
o espaço de sessenta annos, sem ser visto, nem achado de ninguem;
dando-lhe Deos a entender pelo engodo transitorio daquella ave canora,
quanto na sua adoravel presença as eternidades de gloria parecem
instantes, como bem diz o Doutor Villasboas, que refere este caso na
Nobiliarquia Portugueza cap. 9. e o Agiologio Lusitano tom. 1. Toda
esta serra he fertil de pastos, e arvores, em que se dá o melhor vinho
de enforcado, que deste genero ha no Reino.
18 _Amarella._ He serra do Minho muy despenhada, e quasi principio da
do Gerez. Descobrem-se da sua mayor altura muitas povoações distantes,
e do mar Oceano quanto a potencia da vista póde alcançar; alargando-se
tambem a vista até grande parte de Galiza, que lhe serve de termo.
Cria muito lobo cervaz, e javalizes, que damnificaõ os gados, por cujo
motivo os moradores dos Concelhos alli proximos lhes vaõ fazer montaria
em tempos determinados, por obrigaçaõ.
19 _Amoreira._ Fica na Provincia da Estremadura, e nos limites de
Odivellas, de cujo cume se descobrem por todas as partes muitas
povoações. Todo o seu mato saõ fetos, e consta de excellentes pedreiras
negras para alvenaria, donde se extrahe muita parte para varias obras
de primor.
20 _Anciam._ Tem seu assento na Beira entre as Villas do Rabaçal,
e Pombal, e corre de Thomar até Coimbra. Em algumas partes he mais
eminente que em outras, mas sempre de vista alegre, pois cria muito
alecrim, e variedade de boninas, e outras flores, que servem de pasto
aos muitos enxames de abelhas, de que fabricaõ excellente mel. Dizem
que fora habitada pelos Mouros, de que ha ainda alguns vestigios. Aqui
se vê huma grande lapa chamada _Algar da agua_ aberta em hum penhasco
taõ espaçosamente, que podem caber dentro quinhentos homens. Cria
tambem abundancia de perdizes, coelhos, lebres, e rapozas. O Author da
Corografia chama a esta serra a Carreira.[183]
21 _Araceli._ He huma serra do Alentejo no Arcebispado de Evora, que
tem meya legua de comprido, despovoada, e que em algumas partes admitte
cultura. O seu mato he rasteiro, e nelle se criaõ hervas medicinaes, a
agrimonia, a douradinha, e com especialidade o arbusto Daro, de cujas
bagas se faz azeite muito bom para as luzes, e tambem para o prato,
e tem particular virtude para as dores de flatos. Ha aqui muita caça
de toda a casta, e muitas colmeas de abelhas, de que se tira bastante
mel. No cimo da serra se logra huma boa vista desafogada, e se adora a
imagem da Senhora com o titulo de _Araceli_, que deu nome à serra.
22 _Arada._ Serra junto ao Concelho de Lafões, que terá tres leguas de
comprido. Tem grandes despenhadeiros, e perigosos. Na planicie da sua
mayor altura, que he espaçosa, está o Lugar da Coelheira. Consta toda
esta serra de mato real, onde se cria muita caça, até aguias, e hervas
medicinaes.
23 _Arga._ Chama Ptolomeu a esta serra Promontorio Avaro.[184] Divide
ella os termos de Viana, Ponte de Lima, Coura, e Caminha, e deu terreno
antigamente a hum Convento Benedictino entre as densas matas do seu
ambito, o qual hoje he Paroquia, cujo Reitor assiste em Filgueiras. Tem
esta serra cousas muito especiaes, que mais extensamente se podem ver
na Corografia Portugueza, e no Diccionario Geografico.[185]
24 _Arrabida._ He esta serra huma aspera montanha da Estremadura, que
corre direita de Nordeste a Sudueste no mais desabrido della pelo
espaço de duas leguas, e continúa mais tres até o Cabo de Espichel por
sitio menos agreste fazendo varias quebradas. Fica-lhe na raiz para a
banda do Norte o sitio de Azeitaõ; para a parte do Sul as prayas do
Sado. Olhando de cima para o mar Oceano, se vê Cezimbra à maõ direita,
e Setubal à esquerda: e desta mesma parte, quasi no meyo da serra,
está o Convento dos Padres Arrabidos da mais estreita observancia
Franciscana, muy penitentes, e onde viveo muitos annos S. Pedro de
Alcantara.
25 Conforme diz Gaspar Barreiros[186] o nome de Arrabida he derivado
da antiga _Arabriga_, que Ptolomeu, e Ortelio situaõ com igual
demarcaçaõ perto da dita serra; e mostra ter mais probabilidade, que
o que dizem o Doutor Alvaro Gonçalves de Camões, a quem seguem Fr.
Antonio da Piedade, e Joaõ de Brito de Mello,[187] os quaes a derivaõ
do nome _Errabundus_; porque os que subiaõ a esta serra, sempre erravaõ
o caminho. O Padre Fr. Francisco Gonzaga diz,[188] que os Mouros,
quando aqui habitaraõ, lhe pozeraõ este nome, que no seu idioma
significa o mesmo que Oratorio, ou lugar solitario, e proprio de fazer
penitencia.
26 Os Romanos chamaraõ a esta serra _Promontorio Barbarico_; ou
porque os seus habitadores, chamados Sarrios, levaraõ daqui para Roma
muita grã, de que a serra abunda, com a qual os Romanos tingiaõ os
seus vestidos, a cuja cor encarnada davaõ o nome de barbara, e aos
conductores barbaros, como diz André de Resende;[189] ou porque os
povos, que primeiramente aqui viviaõ, tinhaõ costumes barbaros, e
rusticos, como observa Fr. Bernardo de Brito, e Floriaõ do Campo.[190]
27 Na bella descripçaõ desta serra, que vem no Diccionario Geografico,
se diz, que à sua vertente onde se erigio a torre de Outaõ, se chamou
antigamente o Promontorio de Neptuno; e que se presume havia alli
templo dedicado àquella falsa divindade, segundo huma estatua de
bronze, com varias inscripções, e outros nobres vestigios, que se
descobriraõ, e hoje se naõ achaõ pela barbaridade dos que fizeraõ pouco
caso dellas.
28 De muitas cousas notaveis he fertil todo o corpo desta montanha,
que os estreitos limites a que me cingi, me naõ permittem relatar com
miudeza. Os desejosos de mayores noticias podem ver o primeiro tomo
da Chronica da Arrabida do Padre Fr. Antonio da Piedade, que no cap.
5. faz huma descripçaõ desta serra extensamente, posto que em estylo
mais poetico, do que historico. Excede a todas as descripções, a que
vem no primeiro tomo do Diccionario Geografico de Portugal feita pelo
Padre Antonio dos Reys, da Congregaçaõ do Oratorio, e que publicou
seu irmão o Padre Luiz Cardoso. Naõ nos esqueçamos porém da admiravel
circunstancia de ser toda a serra limpa de bichos venenosos; nem
da pedra, que daqui se extrahe, salpicada de cores diversas, que à
maneira de remendinhos pardos, brancos, vermelhos, e negros a esmaltaõ,
e matizaõ galantemente. Della se fabricou o exquisito retabulo, ou
frontaria exterior da Igreja do Hospital Real no rocio de Lisboa,
presentemente arruinado, e extincto.
29 _Atalaya._ Ha no Reino tres serras com este nome; duas na
Estremadura, e huma na Beira. A que fica no termo do Pombal, consta de
canteiras de excellente pedra, e admitte cultura, e criaçaõ de alguma
caça. A que se vê junto da Freguezia de Santo Estevaõ das Galés, tem
hum quarto de legua de comprido, e toda de admiravel vista. He regada
com algumas fontes, que nascem alli mesmo, e dá terreno para habitaçaõ
de dous lugares, e pasto para os seus gados. Cria com especialidade
muita herva medicinal, e outros varios frutos, e caça. A da Provincia
da Beira fica no termo de Trancoso, e he muy destemperada, mas
abundante de lenha, e caça miuda.
30 _Barregudo._ He huma serra, que fica no termo de Torres Vedras, e
que na distancia de tres legoas caminha a entestar com a de Montejunto.
Adquire nomes differentes segundo os sitios. No de Penedos negros se
encontraõ varias pedrinhas miudas, muy resplandecentes; e huma casta de
areya muy brilhante. Dá passagem ao rio Sizandro, e se deixa cultivar
com utilidade, produzindo tambem caça rasteira, e do ar.
31 _Barris._ He hum braço da serra da Arrabida, que fica ao Poente da
Villa de Palmella. Abunda de aguas com boa qualidade, e cria muitas
hervas medicinaes, e a finissima grã, sendo todo o seu terreno hum
admiravel composto de alegre divertimento para os passageiros, a quem
suavisaõ tambem muito a continua armonia dos passaros que por alli se
criaõ.
32 _Besteiros._ He huma serra aspera, e cheia de penedia escabrosa pela
distancia de huma legua no Bispado de Viseu, onde se acha huma fonte de
agua taõ fria, que naõ se póde aturar nella a maõ. Cria mato rasteiro,
e se lhe cultiva centeyo, e milho, que o produz em abundancia. Pastaõ
nella muitos rebanhos de gado miudo, e grosso.
33 _Bornes de Monte mel_ fica no termo de Braga, e tem duas leguas de
comprido. Recebe muita neve em tempo de inverno. O mais especial della
he ser taõ alta, que se descobrem do sitio chamado Miradouro, povoações
de treze Bispados.
34 _Borralheira._ Daõ este nome a huma serra, que com bastante
eminencia se levanta junto da Villa da Ponte, Comarca de Pinhel. No
mais alto está huma Ermida de Santa Barbara, que a Camera da Villa
mandou edificar por causa dos muitos rayos, e coriscos que alli cahiaõ,
os quaes depois da Ermida erecta nunca mais offenderaõ o sitio, nem
atemorisaraõ aos moradores.[191] O Diccionario Geografico, naõ fazendo
mençaõ desta serra, dá noticia de outra com o mesmo nome na Provincia
de Tras os Montes, e na Freguezia de S. Pedro de Paradella, e naõ tem
cousa notavel.
35 _Bussaco._ Jaz esta famosa serra na Provincia da Beira, e he parte
da serra da Estrella. Dista de Coimbra tres legoas para o Nordeste, e
meya da Villa de Vacariça. Lança-se de Nascente a Poente pelo espaço de
tres leguas, e do seu cume se descobre grande parte do Reino; porque
para o lado Oriental se avistaõ as serras da Estrella, e a de Castello
Rodrigo, que lhe ficaõ na distancia de trinta leguas. Para a parte do
Meyo dia se vem as serras de Minde, e de Marvaõ, que lhe ficaõ quarenta
leguas distantes. Para o Norte se divisa a serra de Grijó, affastada
quinze leguas; podendo-se livremente da sua altura apontar com o dedo
para terras de sete Bispados, estando os dias claros.
36 Tres etymologias assina Fr. Joaõ do Sacramento[192] ao nome desta
serra, das quaes a mais verosimil he, por haver na sua raiz hum
Convento de Religiosos Benedictinos, erecto em memoria da cova de
Sublaco, que aquelle grande Patriarca escolhera para sua primeira
habitaçaõ, e que de _Sublaco_ vieraõ a alterar a palavra, vertendo-a em
_Bussaco_.
37 Nesta alta montanha se criaõ finissimos marmores, toda a casta de
arvoredo, plantas, flores, e hervas medicinaes, regadas com muitas
fontes de excellente agua artificiosamente conduzida, e repartida por
engenhosa industria do memoravel Bispo de Coimbra D. Joaõ de Mello.
Sobre tudo dá terreno ao devotissimo Convento de Carmelitas Descalços,
que exercitaõ aqui, como os Anacoretas da antiga Thebaida, a vida
contemplativa.[193]
38 _Cabreira_. Fica na Provincia de Tras os Montes, e tem duas leguas
de comprido. He demasiadamente fria por causa da muita neve, que
recebe de inverno. Della nascem varios regatos, de que se fórma o rio
Ave. Avistaõ-se da sua mayor altura as prayas do Oceano para a banda
de Faõ, e Esposende. Ha no Reino outras serras deste nome, de menos
consideraçaõ, que se podem ver no Diccionario Geografico do Padre Luiz
Cardoso.
39 _Cantaro._ No mais alto da serra da Estrella se levanta huma
eminente pyramide formada de rochedos calvos, e escarpados, a que
chamaõ serra do Cantaro; porque, segundo diz o Padre Carvalho na sua
Corografia,[194] costumavaõ os antigos Senhores da Villa de Carvalho,
que lhe fica situada nas suas raizes, ter prompto hum cantaro de agua
para beberem os passageiros, que por alli passavaõ. Cria-se nesta
montanha a herva Argenciana, ou Argenteira, boa para as febres. O mais
que ha nesta serra, diremos quando tratarmos da lagoa _Escura_.
40 _Caramullo._ Fica esta serra quatro leguas distante de Viseu, e
diz o Author da Corografia Portugueza, que alguns lhe daõ o nome de
Besteiros, e antigamente lhe chamavaõ o Monte de Alcoba. No mais alto
deste oiteiro, que he todo composto de penedos huns sobre outros,
ao modo de columna, está huma planicie em que podem caber trezentos
homens, e delle se descortina quanto a vista póde alcançar, excepto
para o Oriente, que lha embaraça a serra da Estrella, donde dista doze
leguas. Em tempo claro se vem as embarcações no mar, e se ouvem os
tiros de artelharia na barra de Aveiro, estando distante oito leguas.
41 _Carpento._ Fica esta montanha no Algarve, de quem se denominou o
Lugar de Moncarapacho. He aspera por natureza, composta de grandes
penedias, e habitaçaõ de muitos bichos, e lobos. Na raiz deste monte
está hum sitio chamado o _Abismo_. He huma cova como hum poço de quatro
varas de profundo. A este sitio descem os curiosos, os quais dizem, que
se descobre lá hum boqueiraõ, pelo qual se entra, e caminha por huma
mina muito profunda, sem se saber até hoje o seu fim, porque ninguem
até agora se animou a descobrillo.
41 _Cintra._ Esta serra que dista de Lisboa cinco leguas, he huma
das mais famosas do Reino pela composiçaõ rara com que a natureza a
organizou; pois consta de calháos taõ grandes, que alguns tem vinte pés
de diametro, postos huns sobre outros, como se fossem montes de nozes;
mas com tal ligaçaõ, que parecendo estarem ameaçando eminente ruina,
elles se sustentaõ no seu natural equilibrio. No cume da serra se
descobrem vestigios de antiga fortificaçaõ com cinco torres arruinadas,
que se suppoem ser fabrica de Mouros. Em tempo dos Romanos foy chamada
esta serra _Promontorio da Lua_, donde Camões veyo a dizer:
_E nas serras da Lua conhecidas
Subjuga a fria Cintra o duro braço._
43 Teve principio este nome desde que os habitadores Gentios desta
serra determinando dedicar a Octaviano Augusto hum templo, que o
Imperador naõ quiz aceitar, elles o offereceraõ como idolatras ao Sol,
e à Lua; e porque a esta chamavaõ _Cynthia_, se derivou della o nome de
_Cintra_.
_De_ Cynthia _tomou_ Cintra _celebrada
O nome que em rochedos he famosa._
Disse Gabriel Pereira; e Francisco Botelho no seu Alfonso:
_Diola nombre un gran templo, que aun expone
De Cynthia tan magnifico, y notable,
Que ser pudo d’el risco ala oportuna
Casa del Sol el templo de la Luna._
44 Disto ha memoria em varios cippos, que neste sitio se descobriraõ,
referidos pelos nossos escritores, de que daremos noticia, quando
tratarmos desta Villa. Só quero advertir, que o insigne Damiaõ de Goes
naquella admiravel Descripçaõ de Lisboa, que fez em Latim, confunde
o Montejunto com a serra de Cintra.[195] E o nosso grande Poeta
Francisco Botelho erradamente dá a esta serra o nome de Promontorio
_Artabro_,[196] o qual, conforme o melhor parecer dos Geografos, he o
Cabo de _Finis terræ_. Quem quizer mais largas informações desta serra,
lea os Authores abaixo nomeados.[197]
45 _Estrella._ Existe esta serra na Provincia da Beira, e foy
antigamente conhecida com o nome de monte _Herminio_, que queria dizer
aspero, e intratavel.[198] Hoje conserva o de Estrella, porque dizem
ter no mais alto hum penedo do feitio de estrella. He esta serra hum
ramo dos Pyrineos, deduzido daquelle grosso, e grande braço, que aparta
Castella velha de Castella nova: está continuamente cuberta de neve,
que por isso disse hum nosso Poeta:[199]
_Que he de Herminia senhor serra nevada,
Onde o quente Veraõ nunca começa._
46 Para a parte do Poente se despenha com escabrosos precipicios sobre
as Villas de S. Romaõ, Valezim, Loriga, e Arouca da Serra, que lhe fica
nas raizes: da parte do Sul fica a Villa da Covilhã: do Sueste as de
Manteigas, e Balhelhas: do Nascente a Cidade da Guarda: do Norte as
Villas de Linhares, Mello, Gouvea, Santa Marinha, e Cea. Desta serra
nascem os tres celebrados rios Zezere, Alva, e Mondego, perto huns dos
outros, e se encaminhaõ a tres differentes partes.
47 _Falperra._ Fica esta serra servindo de atalaya à Villa de Aguiar da
Penha, que lhe nasce das raizes, e se utiliza das fertilidades do ameno
valle, em que existe.[200]
48 _S. Gens._ Pouco distante da Cidade de Braga corre esta serra, que
tomou o nome de huma Ermida antiga, a qual ainda está no alto della,
da invocaçaõ do mesmo Santo, e que dizem fora edificada por Theodomiro
Rey Suevo. Ao pé desta serra se vê o Convento de Tibães de Religiosos
Bentos. Ha outra serra com este mesmo nome no Alentejo, que he parte da
serra de Ossa, e summamente alta.[201]
49 _Gerez._ Os antigos chamaraõ a esta serra _Juressum_, que Antonio
de Sousa de Macedo[202] diz ser deduzido dos tres celebres Geriões,
que alli habitaraõ; fabula, a que naõ devemos dar credito. Principia
algumas leguas distante de Braga para a parte do Norte, e caminhando
encostada ao Oriente, entra por Galiza. He de summa elevaçaõ, e por
algumas partes taõ aspera, que he intratavel: sómente a habitaõ cabras
montezes, javalis, e lobos, sendo que por algumas partes he aprazivel.
O Padre D. Jeronymo Contador de Argote faz deste monte dous especiaes
capitulos.[203]
50 _Guardunha._ Em distancia de cinco leguas da serra da Estrella, e em
sete de Idanha a velha fica esta montanha cercada de muitas povoações,
arvores, fontes, hervas, e frutas deliciosas. A palavra _Guardunha_
he Arabiga, e significa refugio, ou guarda da Idanha; porque sendo os
moradores desta povoaçaõ expulsos pelos Mouros, se foraõ refugiar a
esta serra para se defenderem delles.[204]
51 _Hermello._ He montanha do Minho, que tem huma legua de alto, e no
cume ainda apparecem vestigios da Cidade do Maraõ, quartel de Decio
Bruto.
52 _Labruja,_ ou laboriosa pelo trabalho, que causa aos caminhantes.
Fica esta serra na estrada real, que vay de Ponte de Lima para
Valença.[205]
53 _Louzã._ He ramo da serra da Estrella, e muita parte do anno está
cuberta de neve.[206]
54 _Maraõ._ Esta serra he huma uniaõ de montes altos, que se vaõ
abraçando huns aos outros. Chega ao Douro, e lança o monte de Teixeira,
e o Entrilho, povoado bastantemente de feras, onde está o grande
penedo, que huma criança póde fazer bulir, e tange quando se bole.[207]
Consente o Maraõ que o rio Douro o atravesse; e posto já na Provincia
da Beira, se chama Serra de Almofala, Monte de muros, Serra de Touro,
Serra de Pera, Serra de Fragoas, de Manhouce, de Besteiros, de Cantaro,
de Miranda, do Espinhal, e montes de Penela, onde se une com a serra da
Estrella; e chamada serra de Anciaõ, e de Albardos, se precipita no mar
desde a rocha de Cintra.[208]
55 _Marvaõ._ Esta serra he o Herminio menor, onde ha minas de ouro, e
de chumbo, e ainda se vem ruinas da Cidade Meidobriga, se havemos de
dar credito a Resende.[209]
56 _Minde._ Na Villa de Porto de Mós se prolonga esta serra do Norte
para o Sul, e da parte Meridional nasce hum pequeno rio, que faz sua
corrente para o Norte. Fr. Bernardo de Brito[210] naõ distingue esta
serra de outra chamada Albardos, de que tambem se lembra Manoel de
Faria.[211]
57 _Monchique_, ou _Monsico_. Levanta-se no Algarve com eminencia tal,
que excede à de Cintra. He fertil, e aprazivel, com abundancia de agua
admiravel. Corre de Oriente a Poente, donde se descobre a mayor parte
do campo de Ourique, e do Oceano, servindo de final aos navegantes
para demandarem seguramente a nossa barra; de sorte que principia de
Castro-Marim, e finaliza junto de Aljezur. Alguns Authores lhe daõ o
nome de _Sico_, ou seco por antifrase. Resende diz que he braço da
Serra Morena.[212]
58 _Monte do figo._ No Algarve junto do Lugar de Moncarapacho existe
esta montanha meya legua distante para o Norte. He de aspera subida,
em que se gastaõ algumas horas, por ter quasi hum quarto de legua. Em
cima tem huma admiravel planicie com muitas aguas, e arvores de todas
as castas silvestres, e frutiferas. Sobre esta planicie se levanta
outro monte, a que se sobe com mayor dificuldade, e no cume está huma
Cruz, e huma cova donde se tira muita terra por devoçaõ, e para remedio
de varias enfermidades; porque affirmaõ que apparecera alli o Arcanjo
S. Miguel, o qual he venerado em huma Ermida do seu nome, que por este
motivo os Fieis lhe edificaraõ. He este monte o primeiro que avistaõ os
navegantes, que vem das Indias de Castella, muitas leguas ao mar, por
ser de immensa altura.
59 _Montejunto._ Duas leguas e meya de Alenquer contra o Norte se
extende esta serra, a que antigamente chamavaõ monte _Tagro_, de que
talvez se originaria o nome de _Tagarro_ a huma povoaçaõ edificada nas
suas vizinhanças.[213] Dizem alguns,[214] que he a mais alta serra de
Portugal, e que terá de circuito mais de quatro leguas, e de altura
meya legua. No alto he terra fertil, e ha duas lagoas de boa agua.
Venera-se huma Ermida de Nossa Senhora das Neves, e o primeiro Convento
dos Relgiosos Dominicos neste Reino, que fundou o Veneravel Fr. Sueiro
Gomes.[215]
60 Das eguas, que por esta montanha pastavaõ, e concebiaõ do zefiro,
escreveraõ maravilhas os antigos, e ainda modernos,[216] e em outra
obra[217] nós o reprovamos, como fabula originada da grande velocidade,
e ligeireza, com que correm os cavallos, que por esta serra se criaõ.
O mais certo he haver aqui canteiras de finissima pedra, e minas de
azeviche.[218]
61 _Monte do Minhoto._ Junto ao rio Zezere está esta serra, muy alta, e
povoada de grandes penhascos bastantemente debruçados para a parte do
rio. Em cima ha huma Ermida de Nossa Senhora da Estrella, e hum poço
de agua admiravel, porque nunca se seca. Dizem[219] que antigamente
houvera aqui huma azinheira, que em lugar de bolotas dava humas contas
a modo de azeviche, as quaes pizadas serviaõ de remedio para muitas
enfermidades.
62 _Monte-Muro._ Está junto a Evora, e he parte da serra de Besteiros:
os antigos lhe chamaraõ _Mons Maurus_. Toma grande distancia de terra,
mas em si he aspero; e da mesma grosseria, e rusticidade participa a
gente, que o habita.
63 _Ossa._ Fica esta famosa serra entre Evora, e Estremoz pelo espaço
de sete leguas de comprido, e duas e meya de largo. Compoem-se de
muitos oiteiros, que parecem montes de ossos, donde talvez lhe viria o
nome. Manoel de Faria lhe buscou derivaçaõ poetica.[220] Comprehende
em si muitas terras, o Canal, Evoramonte, Terena, Alandroal, Pomares,
Borba, e Villa-Viçosa, regadas todas pela mayor parte das perennes
fontes, que della procedem.
64 No mais alto deste monte, donde se descobre quasi todo o Alentejo, e
parte das duas Estremaduras Portugueza, e Castelhana, está a Ermida de
S. Gens em numa planicie taõ eminente, que às vezes se vê chover pelas
abas da serra, e ella ficar enxuta. Descendo a hum valle ameno, estaõ
fundados os dous celebres Conventos dos Eremitas de S. Paulo, e Val de
Infantes verdadeira Thebaida Portugueza.
65 Tem esta serra tantas fontes, que só em huma herdade do Convento
se contaõ mais de oitenta. Ha no meyo da serra pé de limeira, que
chegou a dar dez mil limas, segundo affirma Joaõ Salgado de Araujo na
_Descripçaõ desta Provincia pag. 173. v._ Descobrem-se tambem nesta
serra minas de pedra de cores escuras, pedras de afiar, enxofre, e
almagre.
66 _Pomares_. Antigamente se chamou _Monte de Venus_. Está junto a
Evora, onde agora se chama o Lugar de Pomares. Foy muy celebre pelos
trofeos, que o famoso Viriato nelle levantou.[221] Da sepultura de
Lucio Silo Sabino, de que Resende lib. 3. de Antiq. e a Evora gloriosa
pag. 17. fazem memoria, já hoje naõ ha noticia alguma.
67 _Sandonho._ Fica dominando Villapouca de Aguiar, e fronteira de
outra serra chamada Falperra.
Estes saõ os montes, que ha no Reino de mayor fama. Póde ser que ainda
encontremos occasiaõ no discurso desta obra, em que demos noticia de
outros.