CAPITULO III.

_Descripçaõ circular pela margem maritima, e raya terrestre._

1 Antes de entrarmos a ver o Reino interiormente, faremos pela parte

de fóra hum giro, ou descripçaõ hydrografica, e geografica, rodeando-o

todo, e informando dos principaes portos, surgidouros, e praças

fronteiras, de que consta. Principiando pois pela margem septentrional,

o primeiro porto, que se nos offerece, he

2 _Caminha_. Fica esta barra sobre o rio Minho, e he o termo, que

divide Portugal de Galiza, ficando-lhe opposta a Villa da Guarda, e os

Lugares de Tamugem, Rosal, e outros dos Galegos. Na entrada tem huma

Ilha, onde está o forte de Nossa Senhora da Insoa. Faz esta Ilha duas

barras pequenas: huma para o Norte, e he perigosa: outra para o Sul; e

continuando a distancia de tres leguas para o Meyo dia, segue-se

3 _Viana_ na foz do rio Lima: he barra estreita, e da parte de fóra da

ponta do Norte ha hum recife, que corre ao Sul, e dá capacidade para

ancorarem embarcações naõ muito grandes, porque hoje está mais entupida

de arêas. Sobre a barra tem hum Castello com cinco baluartes, dous

revelins, e defronte da mesma barra tem mais huma plataforma para sua

defensa. Daqui se continúa até

4 _Esposende_, que dista de Viana tres leguas para o Sul. Nesta barra,

onde desagua o rio Cávado, naõ ha surgidouro capaz de embarcações

grandes, porque de maré cheya naõ tem mais que duas braças escaças de

agua, e assim só caravellas lhe frequentaõ o porto. Corre o rio Cávado

por entre a Villa de Esposende, e o Lugar de Faõ, ficando aquella para

a parte do Norte, e este do Sul. Defronte deste Lugar, quasi meya legua

da barra, estaõ huns penhascos, que correm de Norte a Sul hum quarto de

legua em tres fileiras, a que os mareantes chamaõ _Cavallos de Faõ_,

entre os quaes, e a terra podem bordejar navios, pois tem cinco, ou

seis braças de fundo em preamar. O Author da Corografia Portugueza tom.

1. pag. 310. diz, que este era o porto, em que se carregavaõ de ouro as

frotas delRey Salamaõ, àcerca do qual veja-se tambem a Antonio de Sousa

de Macedo nas Flores de Hespanha cap. 4. excel. 2. O mais certo he, que

foy este o porto, donde sahiaõ as armadas dos Romanos para fazerem as

suas conquistas. Vindo caminhando para o Sul o espaço de tres leguas,

segue-se a

5 _Villa do Conde_. Dá entrada a esta barra a foz do rio Ave, porém

estreita. Na boca da barra tem hum forte de cinco baluartes delineado

pelo insigne Engenheiro Italiano Filippe Tersio. Daqui vay correndo a

marinha até o

6 _Porto_, quatro leguas para o Sul, deixando neste caminho o porto de

Leça, ou de Matozinhos. Faz nesta barra sua foz o rio Douro, e fica

distante da Cidade meya legua. Ha na barra duas lages, huma da parte do

Norte, e outra do Sul, por entre as quaes he a carreira ordinaria de

entrar, e sahir, mas ha de ser com tres quartos de agua cheya, sendo

navio grande, e entrando de Veraõ; porque de Inverno sempre he perigosa

pela mayor quantidade de arêas, que se ajuntaõ. Perto da entrada da

barra para a parte do Norte está o Castello de S. João da Foz em

quadro prolongado; consta de quatro baluartes pequenos. Hum dos seus

lados estreitos, que olha ao Poente, cahe sobre o mar, e no outro lado

opposto está a porta cuberta com hum pequeno revelim. Aqui se termina a

Provincia do Minho; e continuando da barra do Porto sempre para o Sul o

espaço de dez leguas, se encontra a primeira barra da Beira, que he

7 _Aveiro_. Desagua aqui o rio Vouga, e fica a barra distante da Cidade

tres leguas: he larga na boca, e chega a ter em preamar vinte e quatro

palmos de agua de alto, porém he mudavel, por ser de arêa. Corre da

ponta da barra até a Villa de Ovar hum canal profundo pela distancia

de sete leguas, e retalhando a terra com varios braços, e esteiros no

ambito de quinze leguas, se reparte em muitas peninsulas, e lizirias,

onde se fabricaõ marinhas de sal clarissimo, e se cultiva todo o

genero de lavoura. Proseguindo o espaço de oito leguas ao Sudoeste,

encontramos a barra do

8 _Mondego_. He na entrada baixa, e para dentro montuosa. Na boca

da barra para o Norte está o forte de Santa Catharina, e fora do

forte meya legua na Costa fica a Villa de _Boarcos_, onde tambem ha

surgidouro com seis, ou sete braças de fundo de arêa. Na distancia

de dez leguas tambem para o Sudoeste segue-se já na Provincia da

Estremadura a

9 _Pederneira_. He enseada pequena, onde só entraõ patachos, e

caravelas. Para a parte do Norte está na eminencia do monte a Igreja

de Nossa Senhora de Nazareth, imagem milagrosa, e bem conhecida pelo

concurso de muitas romagens. Daqui pela mesma linha a pouco espaço de

duas leguas está

10 _Selir_, pequeno porto. Verdadeiramente esta barra pertence à Villa

de S. Martinho, e está entre duas serras de grandes penhascos, por onde

entra hum braço de mar, que pela parte da terra faz huma enseada, que

terá meya legua de circuito, onde se abrigaõ caravelas, e patachos. De

Selir, continuando a Costa para o Sudoeste cinco leguas, segue-se

11 _Peniche_, onde tambem chamaõ _Cabo de Carvoeiro_. Fica, estando a

maré cheya, a modo de peninsula, donde tomou o nome. Da banda do Norte

he terra baixa, e do Sul he onde tem o surgidouro em seis, ou sete

braças de fundo. Duas leguas para o Oeste do cabo de Peniche estaõ

duas Ilhas pequenas com muitos penhascos ao redor, a que chamaõ as

_Berlengas_, onde ha a fortaleza de S. Joaõ. Do cabo de Peniche para

o Sul, caminhando onze leguas, está a _Ericeira_, e a pouco espaço o

_Cabo da Roca_. Para diante mais duas leguas está _Cascaes_, onde ha

capacidade de se dar fundo, pois tem dezoito até vinte braças de alto.

Daqui proseguindo interposto o espaço de duas leguas, se encontra o

famoso porto de

12 _Lisboa_. Esta barra, onde desemboca o Tejo, está no meyo de duas

fortalezas, chamadas vulgarmente de S. Giaõ, ou Juliaõ, e S. Lourenço,

ou Torre do bogio, que outros dizem Cabeça seca, em distancia huma

da outra de 980 passos geometricos de sete palmos e meyo cada passo.

Em tempo do insigne Geografo Estrabo tinha a boca desta barra 2500

passos; agora se tem estreitado muito mais, e por causa dos cachopos,

que existem no meyo della, se faz difficil a entrada, a qual se divide

em dous canaes: o que toma por entre os cachopos, e a fortaleza de S.

Giaõ, chama-se canal da terra, e he perigoso: o que vay por entre os

cachopos da Trafaria, e a Cabeça seca, ou fortaleza de S. Lourenço,

chama-se carreira da alcaçova, e he a mais segura, porque tem 500

braças de largo, e 9 de alto com bom fundo. Entrando pela barra dentro,

a duas leguas se vê a formosa torre de Belém, obra delRey D. Manoel,

fundada 200 passos sobre o Tejo; e continuando a pequena distancia de

huma legua da parte do Norte, se vê a grande Cidade de Lisboa: mas como

o Tejo fórma aqui o mais famoso porto do mundo, e hum grande seyo,

fazendo-se navegavel no espaço de vinte leguas, posto que naõ continue

na mesma largura, daremos noticia de todos os portos, que ha desde a

barra para dentro do Tejo de huma, e outra parte.

_Portos do Tejo da parte do Portos do Tejo da parte do

Sul. Norte._

Trafaria. S. Giaõ.

Portinho de Costa. Oeiras.

Torre velha. Caxias.

Porto brandaõ. Carcavelos.

Manatega. Paço d’Arcos.

Alfansina. Cartuxa.

Arrabida. Boa Viagem.

Arialva. Santa Catharina.

Fonte da pipa. Pedrouços.

Cassilhas. Belém.

Caramujo. Junqueira.

Motella. Santo Amaro.

Oliveirinha. Alcantara.

Corroyos. Pampulha.

Santa Martha. Santos velhos.

Talaminho. Caes do Tojo.

Amora. A Dizima.

Rio dos Judeos. Remolares.

Arrentella. Corpo Santo.

Seixal. Caes da Pedra.

Rosario. Alfama.

Porto dos PP. Paulistas. Caes do Carvaõ.

Aldeya. Bica do Sapato.

Cabo da Linha. Santa Apollonia.

Coina. Cruz da Pedra.

Fornos delRey. Madre de Deos.

Palhaes. Xabregas.

A Telha. Grilo.

A Verderena. Beato Antonio.

Barreiro. Poço do Bispo.

Lavradio. A Martinha.

Barra a barra. Braço de prata.

Alhos vedros. Cabo rubo.

Moita. Unho de D. Garcia.

Esteiro furado. Marvilla.

Sarilhos grandes. Olivaes.

Sarilhos pequenos. Sacavem.

Aldeya Galega. Aqui desagua este rio no Tejo

Lançada. por huma grande boca, fazendo

Quinta de D. Maria. huma profundissima foz; e

Samouco. ficando quasi ao Norte da Cidade,

Alcouxete. volta contra o Noroeste, onde

Barroca d’Alva. se encontraõ os vistosos portos

Pancas. de _Unhos_, _Frielas_, _Mealhada_,

Çamora Correa. _Granja_,_ Marnotas_, _Santo Antonio

Benavente. do Tojal, &c_. Continuando pela

marinha direita, segue-se:

Salvaterra. Massaroca.

Escaroupim. Santa Iria.

Mugem. Povoa.

Santa Martha. Alverca.

Almeirim. Alhandra.

Chamusca. Villa-Franca.

Pinheiro. Póvos.

Moita. Castanheira.

Barca. Villa-Nova.

Brito. Azambuja.

Santa Margarida. Casa branca.

Crucifixo. Valada.

&c. Porto de Mugem.

Santarem.

Azinhaga.

Labruja.

Cardiga.

Barquinha.

Tancos.

Payo de pelles.

Praya.

Punhete.

Redemoinhos.

Abrantes.

Tornando agora a seguir o progresso da marinha do Oceano Lusitanico,

prosegue a Costa da Roca de Cintra até o

13 _Cabo de Espichel_ na distancia de oito leguas ao Sudueste. Em outro

tempo se chamou Promontorio Barbarico, habitaçaõ dos póvos Sarrios. No

cimo desta serra está hum Templo dedicado à milagrosa Imagem de Nossa

Senhora do Cabo. Pouco mais para diante huma legua está

14 _Cezimbra_, em que ha fortaleza, e se póde surgir. Daqui à Arrabida

ha duas leguas, e junto della a _Torre de Outaõ_, e huma enseada para

setias, e barcos de tres vélas. Na distancia de huma boa legua para

Leste se offerece a barra de

15 _Setubal_, que tem em preamar cinco braças, e em baixamar vinte

e seis palmos. Faz aqui o Oceano huma grande enseada, e vem nella

mergulhar suas correntes o rio Sadaõ. Distante de Setubal quinze leguas

fica

16 _Sines_ já no Reino, e Provincia do Algarve, onde ha surgidouro em

dez, ou quinze braças. Vay daqui correndo a Costa ao Sul vinte leguas

até o Cabo de S. Vicente, chamado Promontorio Sacro; mas neste caminho

mais tres leguas se vê a

17 _Ilha do Pessegueiro_, antigamente chamada Petanio, como diz Joaõ de

Mariana liv. 1. cap. 21. entre a qual, e a terra ha surgidouro em duas,

e tres braças. Para diante ao Sul mais duas leguas está a barra de

18 _Odemira_, capaz sómente de caravelas, e tem duas varas de fundo.

Caminhando-se para diante sete leguas, está

19 _Arrifana_, onde ha huma enseada, na qual se póde surgir em oito

até doze braças. Segue-se em distancia de cinco leguas o Cabo de S.

Vicente, e na pequena distancia de huma legua para o Lesueste está

20 _Sagres_, que da parte de Leste em huma enseada abrigada tem

surgidouro com quatorze, e quinze braças de fundo. Cinco leguas para

diante continúa

21 _Lagos_. Tem hum porto capaz de receber grandes armadas em sete para

oito braças de fundo, e defendido da fortaleza chamada da _Bandeira_,

bem guarnecida de artelharia, encontrando-se por esta Costa outras

muitas fortalezas, que a defendem. Naõ está muito longe de Lagos a foz

de

22 _Alvor_. Foy na opiniaõ verosimil fundaçaõ de Anibal, chamada

_Portos Anibalis_. Navega-se da sua foz até à Villa em lanchas.

Defronte de Alvor meya legua ao mar está huma pedra, que naõ apparece

senaõ em baixamar de aguas vivas. Huma legua para Leste segue-se

23 _Villa-Nova de Portimaõ_, em cuja barra por causa dos bancos de arêa

moviveis se naõ entra sem Piloto pratico. Tem na entrada dous fortes,

hum ao Poente chamado de Santa Catharina, e outro ao Nascente, a que

chamaõ de S. Joaõ, com duas batarias. Terá a barra de preamar vinte e

tres palmos, e de baixamar dez, com que tem capacidade para bastantes

embarcações grandes. Daqui se navega até Sylves, que lhe dista duas

leguas, mas sómente se póde ir em barcos, porque esta bahia tem só meya

legua de comprimento capaz. Descobre-se logo

14 _Albofeira_, onde está o Cabo de Carvoeiro, e nelle hum forte da

Senhora da Incarnaçaõ. Daqui tres leguas para Leste está a Villa de

Albofeira no fundo de huma enseada feita por dous cabos, hum da parte

de Leste, outro de Oeste. Segue-se

25 _Faro_, a entrada de cuja barra he estreita, e fica para a parte de

Leste da Cidade, da qual dista legua e meya. Mais adiante cinco leguas

vemos.

26 _Tavira_, cuja barra terá de surgidouro cinco braças de fundo, e

he defendida por duas fortalezas bem artilhadas. Está para diante a

Villa de Cacella, e logo mais tres leguas, continuando a mesma Costa do

Algarve, está ultimamente

27 _Castro-Marim_ defronte de Ayamonte, que lhe fica da outra parte do

rio Guadiana, o qual desemboca por aqui no mar Oceano, e separa o Reino

do Algarve de Andaluzia. Costeando, e subindo por este rio cinco leguas

com os olhos ao Norte, vemos a Villa de

28 _Alcoutim_, ultima do Reino do Algarve, e fronteira a S. Lucar do

Guadiana. Tem seu Castello, e recinto de muros antigos em terreno

levantado. Pouco mais para cima entra o rio Vascaõ no Guadiana, e

separa o Algarve do Campo de Ourique. Segue-se a Praça de

29 _Mertola_ já no Alentejo, e junto ao Guadiana, onde tem tres váos, o

do Carvoeiro, o dos Moinhos, e o das Vacas. Seguindo para cima a margem

do Guadiana, encontramos na distancia de seis leguas a Praça, e Villa de

30 _Serpa_, a qual com as de _Moura_, _Mouraõ_, _Olivença_, _Ouguela_ e

_Noudar_ estaõ no destricto de Andaluzia em huma lisonja, ou cotovelo

de terra, que alli se fórma da parte direita, pondo-nos voltados ao

Norte, deixando à maõ esquerda o Guadiana, cujas terras ficaraõ sendo

nossas desde o anno de 1297 pela concordata, ou tratado de Alcanisses,

que fez ElRey D. Diniz com ElRey D. Fernando IV. de Castella. Pela

margem do mesmo Guadiana está _Jurumenha_, e depois segue-se

31 _Elvas_, fronteira a Badajoz, donde dista tres leguas, e duas

da ribeira do Caya, que divide Castella de Portugal. He Praça bem

fortificada, e de notavel aqueducto. Para diante logo duas leguas está

a Praça de

32 _Campo-Mayor_ em huma grande planicie muy bem fortificada ao moderno

com lago de agua nativa no seu fosso. Daqui para diante seguem-se

_Arronches_, _Alegrete_, _Portalegre_, _Marvaõ_, _Castello de Vide_, e

_Montalvaõ_, Praças todas fronteiras de Castella. Faz por aqui o Tejo a

separaçaõ das duas Provincias Alentejo, e Beira, entrando, ou correndo

por entre Malpica, e Monforte. Passando o Tejo, a primeira Praça, que

se encontra na Beira, indo por esta parte, he

33 _Rosmaninhal_, que de huma parte está fortificada com o Tejo, e de

outro lado com o rio Elja, que faz aqui sua foz. No demais he cercada

de espessura, que a faz muy defensavel. Para diante duas leguas junto

ao rio Elja está a Villa de

34 _Segura_ com seu Castello pequeno, porém que descortina bem o campo.

Vem por aqui o Elja fazendo a raya terminativa de Portugal, e Castella

de Norte a Sul. Adiante para o Norte legua e meya está a Villa de

35 _Salvaterra da Beira_ com Castello forte bem descortinado, e

guarnecido de presidio. Tem opposta a Villa de Sarça, e tambem mais

para dentro a Villa de Alcantara, Praça de armas Castelhana, que se

oppoem às tres Villas nossas Salvaterra, Segura, e Rosmaninhal. Nas

costas de Salvaterra cinco leguas fica _Idanha nova_, cuja aspereza

de sitio serve de fortaleza. Caminhando tres leguas para o Nascente,

segue-se

36 _Penagarcia_ com Castello forte sobre penhasco. Tem humas montanhas,

que lhe servem de grande defensa, e confiança contra qualquer

temeridade inimiga, que intentar invadirnos por aqui. Nas costas de

Penagarcia está situada

37 _Idanha a velha_ quasi em peninsula, que fórma o rio Ponsul: he

sitio doentio, mas tem muros fortes. Na distancia de huma legua

segue-se a Villa de

38 _Monsanto_ com seu Castello fundado em hum monte das mais raras

asperezas, e altura, que dizem ha em Hespanha, porque se despenha a

todos os lados por mais de meya legua. Tem esta Villa a singularidade

de que sendo sitiada desde donde lhe podem deitar o cordaõ, póde

para dentro delle lavrar paõ, vinho, e azeite para se sustentar, sem

o inimigo lho poder impedir: por isso entre os Castelhanos anda hum

adagio, que diz: _Monsanto, Monsanto, orejas de mulo, el que te ganare,

ganar puede el mundo_; e já os Romanos a tiveraõ sete annos de cerco.

Tem por opposto o Castello de Trebejo. Passadas tres leguas, segue-se

ao Norte.

39 _Penamacor_, cuja Villa, e Castello está sobre hum eminente

penhasco, e he por sitio inexpugnavel. Oppoemse-lhe o Castello de

Elges. A tres leguas de Penamacor está a Villa do

40 _Sabugal_ com muito bom Castello, e detrás delle a Villa de Sortelha

inexpugnavel. Do Tejo até perto do Sabugal se corre a raya com Castella

de Norte a Sul, e desde o Lugar de Meimaõ corre Leste Oeste pela serra

de Malcata até o Lugar de Lagiosa, quatro leguas do Sabugal. De Lagiosa

até o Douro corre a raya Nornordeste a Susudueste, e onde começa a

fazerse esta raya fica a Villa, e Praça de

41 _Alfayates_, tres leguas do Sabugal. Sendo Governador desta Praça

o Capitaõ Braz Garcia Mascarenhas, foy cercada com gyro de 4680 pés

geometricos, excepto as voltas dos baluartes, que tem altura de vinte

e cinco pés. Foy obra de importancia. Tem por oppostos os Castellos de

Payo, e Albergaria. Seguem-se _Villar-Mayor_, e _Castello Mendo_, duas

leguas em distancia hum do outro, indo sempre ao Norte. Outras duas

para diante está _Castello Bom_, e mais outras duas a Praça de

42 _Almeida_, a quem faz frente Cidade Rodrigo. He das melhores Praças

do Reino. Está em huma campina raza, que se descobre por alcance de

vista desde huma legua; e com ser terra chã, se descobrem della terras

de onze Bispados, Lamego, Guarda, Coimbra, Viseu, Braga, Miranda,

Porto, Coria, Ciudad Rodrigo, Placencia, e Salamanca. Na mayor

eminencia tem sua fortaleza, que domina bastantemente o terreno. Tres

leguas para o Norte segue-se

43 _Castel-Rodrigo_ em sitio alto, e forte. Tem esta Villa as armas

Reaes deste Reino ao revés o elmo para baixo, por naõ querer dar

entrada a ElRey D. Joaõ I. passando por alli para Chaves, porque seus

moradores seguiaõ o partido da Rainha de Castella Dona Brites. Acabada

de costear a Provincia da Beira, se passa aqui o Douro, que a divide

de Tras os Montes, onde vemos logo o _Castello d’Alva_, e _Freixo

de Espadacinta_ em sitio baixo, mas com cinco torres, e fortaleza

grandiosa. Segue-se o _Mogadouro_, a _Bemposta_, _Penas-Royas_,

_Algoso_, terras todas fronteiras do Reino de Leaõ. Depois segue-se

44 _Miranda do Douro_ collocada sobre asperos penhascos, a quem o

rio, que lhe dá o nome, a separa pelo Nascente de Castella. Tem bom

Castello com artelharia, e faz frente a Carvalhaes. Segue-se _Vimioso_,

_Outeiro_, cinco leguas cada huma de Miranda; e contaremos nove, se

passarmos daqui Nornoroeste a

45 _Bragança_, a qual existe nas margens do rio Fervença, que a aparta

da raya de Galiza, tendo por opposta a Puebla de Senabria na distancia

de quatro leguas. Seguem-se já na raya de Galiza

46 _Vinhaes_, _Monforte do Rio livre_, _Chaves_, _Montalegre_; e

avisinhando pelo rio Lima, deixando a serra do Maraõ, e entrando na do

Gerez, em cujo encontro se dividem as duas Provincias Minho, e Tras os

Montes, se avistaõ nesta linha alguns Castellos, como o de _Lanhoso_

em correspondencia da fortaleza de Araujo; o _Castello da Nobrega_

com as terras de Entrimo por fronteiras; o _Castello de Lindoso_, a

quem se oppoem o Lugar de Ferreiros; o _Castello Laboreiro_, que tem

por opposto o da Lobeira, tudo na raya de Galiza fronteira do Minho.

Segue-se a Villa de

47 _Melgaço_ com excellente Castello, a quem se oppoem os Lugares

Crecente, Fornelos, e outros. Legua e meya para diante _Valladares_,

que tem oppostos em Galiza os Lugares de Cella, e Marcella. Outra legua

e meya está _Monçaõ_ em sitio eminente. Huma legua para diante segue-se

_Lapella_, e outra

48 _Valença_ fronteira à Cidade de Tuy. Logo outras duas leguas se

offerece _Villa-Nova de Cerveira_, fundada, e cercada de muros de

cantaria. Oppoem-se ao Lugar da Barca de Goyaõ, presidio Galiziano;

e daqui outras duas leguas se encontra outra vez com _Caminha_, donde

principiámos o gyro desta demarcaçaõ.

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II · 第 26 / 163 题