_Descripçaõ circular pela margem maritima, e raya terrestre._
1 Antes de entrarmos a ver o Reino interiormente, faremos pela parte
de fóra hum giro, ou descripçaõ hydrografica, e geografica, rodeando-o
todo, e informando dos principaes portos, surgidouros, e praças
fronteiras, de que consta. Principiando pois pela margem septentrional,
o primeiro porto, que se nos offerece, he
2 _Caminha_. Fica esta barra sobre o rio Minho, e he o termo, que
divide Portugal de Galiza, ficando-lhe opposta a Villa da Guarda, e os
Lugares de Tamugem, Rosal, e outros dos Galegos. Na entrada tem huma
Ilha, onde está o forte de Nossa Senhora da Insoa. Faz esta Ilha duas
barras pequenas: huma para o Norte, e he perigosa: outra para o Sul; e
continuando a distancia de tres leguas para o Meyo dia, segue-se
3 _Viana_ na foz do rio Lima: he barra estreita, e da parte de fóra da
ponta do Norte ha hum recife, que corre ao Sul, e dá capacidade para
ancorarem embarcações naõ muito grandes, porque hoje está mais entupida
de arêas. Sobre a barra tem hum Castello com cinco baluartes, dous
revelins, e defronte da mesma barra tem mais huma plataforma para sua
defensa. Daqui se continúa até
4 _Esposende_, que dista de Viana tres leguas para o Sul. Nesta barra,
onde desagua o rio Cávado, naõ ha surgidouro capaz de embarcações
grandes, porque de maré cheya naõ tem mais que duas braças escaças de
agua, e assim só caravellas lhe frequentaõ o porto. Corre o rio Cávado
por entre a Villa de Esposende, e o Lugar de Faõ, ficando aquella para
a parte do Norte, e este do Sul. Defronte deste Lugar, quasi meya legua
da barra, estaõ huns penhascos, que correm de Norte a Sul hum quarto de
legua em tres fileiras, a que os mareantes chamaõ _Cavallos de Faõ_,
entre os quaes, e a terra podem bordejar navios, pois tem cinco, ou
seis braças de fundo em preamar. O Author da Corografia Portugueza tom.
1. pag. 310. diz, que este era o porto, em que se carregavaõ de ouro as
frotas delRey Salamaõ, àcerca do qual veja-se tambem a Antonio de Sousa
de Macedo nas Flores de Hespanha cap. 4. excel. 2. O mais certo he, que
foy este o porto, donde sahiaõ as armadas dos Romanos para fazerem as
suas conquistas. Vindo caminhando para o Sul o espaço de tres leguas,
segue-se a
5 _Villa do Conde_. Dá entrada a esta barra a foz do rio Ave, porém
estreita. Na boca da barra tem hum forte de cinco baluartes delineado
pelo insigne Engenheiro Italiano Filippe Tersio. Daqui vay correndo a
marinha até o
6 _Porto_, quatro leguas para o Sul, deixando neste caminho o porto de
Leça, ou de Matozinhos. Faz nesta barra sua foz o rio Douro, e fica
distante da Cidade meya legua. Ha na barra duas lages, huma da parte do
Norte, e outra do Sul, por entre as quaes he a carreira ordinaria de
entrar, e sahir, mas ha de ser com tres quartos de agua cheya, sendo
navio grande, e entrando de Veraõ; porque de Inverno sempre he perigosa
pela mayor quantidade de arêas, que se ajuntaõ. Perto da entrada da
barra para a parte do Norte está o Castello de S. João da Foz em
quadro prolongado; consta de quatro baluartes pequenos. Hum dos seus
lados estreitos, que olha ao Poente, cahe sobre o mar, e no outro lado
opposto está a porta cuberta com hum pequeno revelim. Aqui se termina a
Provincia do Minho; e continuando da barra do Porto sempre para o Sul o
espaço de dez leguas, se encontra a primeira barra da Beira, que he
7 _Aveiro_. Desagua aqui o rio Vouga, e fica a barra distante da Cidade
tres leguas: he larga na boca, e chega a ter em preamar vinte e quatro
palmos de agua de alto, porém he mudavel, por ser de arêa. Corre da
ponta da barra até a Villa de Ovar hum canal profundo pela distancia
de sete leguas, e retalhando a terra com varios braços, e esteiros no
ambito de quinze leguas, se reparte em muitas peninsulas, e lizirias,
onde se fabricaõ marinhas de sal clarissimo, e se cultiva todo o
genero de lavoura. Proseguindo o espaço de oito leguas ao Sudoeste,
encontramos a barra do
8 _Mondego_. He na entrada baixa, e para dentro montuosa. Na boca
da barra para o Norte está o forte de Santa Catharina, e fora do
forte meya legua na Costa fica a Villa de _Boarcos_, onde tambem ha
surgidouro com seis, ou sete braças de fundo de arêa. Na distancia
de dez leguas tambem para o Sudoeste segue-se já na Provincia da
Estremadura a
9 _Pederneira_. He enseada pequena, onde só entraõ patachos, e
caravelas. Para a parte do Norte está na eminencia do monte a Igreja
de Nossa Senhora de Nazareth, imagem milagrosa, e bem conhecida pelo
concurso de muitas romagens. Daqui pela mesma linha a pouco espaço de
duas leguas está
10 _Selir_, pequeno porto. Verdadeiramente esta barra pertence à Villa
de S. Martinho, e está entre duas serras de grandes penhascos, por onde
entra hum braço de mar, que pela parte da terra faz huma enseada, que
terá meya legua de circuito, onde se abrigaõ caravelas, e patachos. De
Selir, continuando a Costa para o Sudoeste cinco leguas, segue-se
11 _Peniche_, onde tambem chamaõ _Cabo de Carvoeiro_. Fica, estando a
maré cheya, a modo de peninsula, donde tomou o nome. Da banda do Norte
he terra baixa, e do Sul he onde tem o surgidouro em seis, ou sete
braças de fundo. Duas leguas para o Oeste do cabo de Peniche estaõ
duas Ilhas pequenas com muitos penhascos ao redor, a que chamaõ as
_Berlengas_, onde ha a fortaleza de S. Joaõ. Do cabo de Peniche para
o Sul, caminhando onze leguas, está a _Ericeira_, e a pouco espaço o
_Cabo da Roca_. Para diante mais duas leguas está _Cascaes_, onde ha
capacidade de se dar fundo, pois tem dezoito até vinte braças de alto.
Daqui proseguindo interposto o espaço de duas leguas, se encontra o
famoso porto de
12 _Lisboa_. Esta barra, onde desemboca o Tejo, está no meyo de duas
fortalezas, chamadas vulgarmente de S. Giaõ, ou Juliaõ, e S. Lourenço,
ou Torre do bogio, que outros dizem Cabeça seca, em distancia huma
da outra de 980 passos geometricos de sete palmos e meyo cada passo.
Em tempo do insigne Geografo Estrabo tinha a boca desta barra 2500
passos; agora se tem estreitado muito mais, e por causa dos cachopos,
que existem no meyo della, se faz difficil a entrada, a qual se divide
em dous canaes: o que toma por entre os cachopos, e a fortaleza de S.
Giaõ, chama-se canal da terra, e he perigoso: o que vay por entre os
cachopos da Trafaria, e a Cabeça seca, ou fortaleza de S. Lourenço,
chama-se carreira da alcaçova, e he a mais segura, porque tem 500
braças de largo, e 9 de alto com bom fundo. Entrando pela barra dentro,
a duas leguas se vê a formosa torre de Belém, obra delRey D. Manoel,
fundada 200 passos sobre o Tejo; e continuando a pequena distancia de
huma legua da parte do Norte, se vê a grande Cidade de Lisboa: mas como
o Tejo fórma aqui o mais famoso porto do mundo, e hum grande seyo,
fazendo-se navegavel no espaço de vinte leguas, posto que naõ continue
na mesma largura, daremos noticia de todos os portos, que ha desde a
barra para dentro do Tejo de huma, e outra parte.
_Portos do Tejo da parte do Portos do Tejo da parte do
Sul. Norte._
Trafaria. S. Giaõ.
Portinho de Costa. Oeiras.
Torre velha. Caxias.
Porto brandaõ. Carcavelos.
Manatega. Paço d’Arcos.
Alfansina. Cartuxa.
Arrabida. Boa Viagem.
Arialva. Santa Catharina.
Fonte da pipa. Pedrouços.
Cassilhas. Belém.
Caramujo. Junqueira.
Motella. Santo Amaro.
Oliveirinha. Alcantara.
Corroyos. Pampulha.
Santa Martha. Santos velhos.
Talaminho. Caes do Tojo.
Amora. A Dizima.
Rio dos Judeos. Remolares.
Arrentella. Corpo Santo.
Seixal. Caes da Pedra.
Rosario. Alfama.
Porto dos PP. Paulistas. Caes do Carvaõ.
Aldeya. Bica do Sapato.
Cabo da Linha. Santa Apollonia.
Coina. Cruz da Pedra.
Fornos delRey. Madre de Deos.
Palhaes. Xabregas.
A Telha. Grilo.
A Verderena. Beato Antonio.
Barreiro. Poço do Bispo.
Lavradio. A Martinha.
Barra a barra. Braço de prata.
Alhos vedros. Cabo rubo.
Moita. Unho de D. Garcia.
Esteiro furado. Marvilla.
Sarilhos grandes. Olivaes.
Sarilhos pequenos. Sacavem.
Aldeya Galega. Aqui desagua este rio no Tejo
Lançada. por huma grande boca, fazendo
Quinta de D. Maria. huma profundissima foz; e
Samouco. ficando quasi ao Norte da Cidade,
Alcouxete. volta contra o Noroeste, onde
Barroca d’Alva. se encontraõ os vistosos portos
Pancas. de _Unhos_, _Frielas_, _Mealhada_,
Çamora Correa. _Granja_,_ Marnotas_, _Santo Antonio
Benavente. do Tojal, &c_. Continuando pela
marinha direita, segue-se:
Salvaterra. Massaroca.
Escaroupim. Santa Iria.
Mugem. Povoa.
Santa Martha. Alverca.
Almeirim. Alhandra.
Chamusca. Villa-Franca.
Pinheiro. Póvos.
Moita. Castanheira.
Barca. Villa-Nova.
Brito. Azambuja.
Santa Margarida. Casa branca.
Crucifixo. Valada.
&c. Porto de Mugem.
Santarem.
Azinhaga.
Labruja.
Cardiga.
Barquinha.
Tancos.
Payo de pelles.
Praya.
Punhete.
Redemoinhos.
Abrantes.
Tornando agora a seguir o progresso da marinha do Oceano Lusitanico,
prosegue a Costa da Roca de Cintra até o
13 _Cabo de Espichel_ na distancia de oito leguas ao Sudueste. Em outro
tempo se chamou Promontorio Barbarico, habitaçaõ dos póvos Sarrios. No
cimo desta serra está hum Templo dedicado à milagrosa Imagem de Nossa
Senhora do Cabo. Pouco mais para diante huma legua está
14 _Cezimbra_, em que ha fortaleza, e se póde surgir. Daqui à Arrabida
ha duas leguas, e junto della a _Torre de Outaõ_, e huma enseada para
setias, e barcos de tres vélas. Na distancia de huma boa legua para
Leste se offerece a barra de
15 _Setubal_, que tem em preamar cinco braças, e em baixamar vinte
e seis palmos. Faz aqui o Oceano huma grande enseada, e vem nella
mergulhar suas correntes o rio Sadaõ. Distante de Setubal quinze leguas
fica
16 _Sines_ já no Reino, e Provincia do Algarve, onde ha surgidouro em
dez, ou quinze braças. Vay daqui correndo a Costa ao Sul vinte leguas
até o Cabo de S. Vicente, chamado Promontorio Sacro; mas neste caminho
mais tres leguas se vê a
17 _Ilha do Pessegueiro_, antigamente chamada Petanio, como diz Joaõ de
Mariana liv. 1. cap. 21. entre a qual, e a terra ha surgidouro em duas,
e tres braças. Para diante ao Sul mais duas leguas está a barra de
18 _Odemira_, capaz sómente de caravelas, e tem duas varas de fundo.
Caminhando-se para diante sete leguas, está
19 _Arrifana_, onde ha huma enseada, na qual se póde surgir em oito
até doze braças. Segue-se em distancia de cinco leguas o Cabo de S.
Vicente, e na pequena distancia de huma legua para o Lesueste está
20 _Sagres_, que da parte de Leste em huma enseada abrigada tem
surgidouro com quatorze, e quinze braças de fundo. Cinco leguas para
diante continúa
21 _Lagos_. Tem hum porto capaz de receber grandes armadas em sete para
oito braças de fundo, e defendido da fortaleza chamada da _Bandeira_,
bem guarnecida de artelharia, encontrando-se por esta Costa outras
muitas fortalezas, que a defendem. Naõ está muito longe de Lagos a foz
de
22 _Alvor_. Foy na opiniaõ verosimil fundaçaõ de Anibal, chamada
_Portos Anibalis_. Navega-se da sua foz até à Villa em lanchas.
Defronte de Alvor meya legua ao mar está huma pedra, que naõ apparece
senaõ em baixamar de aguas vivas. Huma legua para Leste segue-se
23 _Villa-Nova de Portimaõ_, em cuja barra por causa dos bancos de arêa
moviveis se naõ entra sem Piloto pratico. Tem na entrada dous fortes,
hum ao Poente chamado de Santa Catharina, e outro ao Nascente, a que
chamaõ de S. Joaõ, com duas batarias. Terá a barra de preamar vinte e
tres palmos, e de baixamar dez, com que tem capacidade para bastantes
embarcações grandes. Daqui se navega até Sylves, que lhe dista duas
leguas, mas sómente se póde ir em barcos, porque esta bahia tem só meya
legua de comprimento capaz. Descobre-se logo
14 _Albofeira_, onde está o Cabo de Carvoeiro, e nelle hum forte da
Senhora da Incarnaçaõ. Daqui tres leguas para Leste está a Villa de
Albofeira no fundo de huma enseada feita por dous cabos, hum da parte
de Leste, outro de Oeste. Segue-se
25 _Faro_, a entrada de cuja barra he estreita, e fica para a parte de
Leste da Cidade, da qual dista legua e meya. Mais adiante cinco leguas
vemos.
26 _Tavira_, cuja barra terá de surgidouro cinco braças de fundo, e
he defendida por duas fortalezas bem artilhadas. Está para diante a
Villa de Cacella, e logo mais tres leguas, continuando a mesma Costa do
Algarve, está ultimamente
27 _Castro-Marim_ defronte de Ayamonte, que lhe fica da outra parte do
rio Guadiana, o qual desemboca por aqui no mar Oceano, e separa o Reino
do Algarve de Andaluzia. Costeando, e subindo por este rio cinco leguas
com os olhos ao Norte, vemos a Villa de
28 _Alcoutim_, ultima do Reino do Algarve, e fronteira a S. Lucar do
Guadiana. Tem seu Castello, e recinto de muros antigos em terreno
levantado. Pouco mais para cima entra o rio Vascaõ no Guadiana, e
separa o Algarve do Campo de Ourique. Segue-se a Praça de
29 _Mertola_ já no Alentejo, e junto ao Guadiana, onde tem tres váos, o
do Carvoeiro, o dos Moinhos, e o das Vacas. Seguindo para cima a margem
do Guadiana, encontramos na distancia de seis leguas a Praça, e Villa de
30 _Serpa_, a qual com as de _Moura_, _Mouraõ_, _Olivença_, _Ouguela_ e
_Noudar_ estaõ no destricto de Andaluzia em huma lisonja, ou cotovelo
de terra, que alli se fórma da parte direita, pondo-nos voltados ao
Norte, deixando à maõ esquerda o Guadiana, cujas terras ficaraõ sendo
nossas desde o anno de 1297 pela concordata, ou tratado de Alcanisses,
que fez ElRey D. Diniz com ElRey D. Fernando IV. de Castella. Pela
margem do mesmo Guadiana está _Jurumenha_, e depois segue-se
31 _Elvas_, fronteira a Badajoz, donde dista tres leguas, e duas
da ribeira do Caya, que divide Castella de Portugal. He Praça bem
fortificada, e de notavel aqueducto. Para diante logo duas leguas está
a Praça de
32 _Campo-Mayor_ em huma grande planicie muy bem fortificada ao moderno
com lago de agua nativa no seu fosso. Daqui para diante seguem-se
_Arronches_, _Alegrete_, _Portalegre_, _Marvaõ_, _Castello de Vide_, e
_Montalvaõ_, Praças todas fronteiras de Castella. Faz por aqui o Tejo a
separaçaõ das duas Provincias Alentejo, e Beira, entrando, ou correndo
por entre Malpica, e Monforte. Passando o Tejo, a primeira Praça, que
se encontra na Beira, indo por esta parte, he
33 _Rosmaninhal_, que de huma parte está fortificada com o Tejo, e de
outro lado com o rio Elja, que faz aqui sua foz. No demais he cercada
de espessura, que a faz muy defensavel. Para diante duas leguas junto
ao rio Elja está a Villa de
34 _Segura_ com seu Castello pequeno, porém que descortina bem o campo.
Vem por aqui o Elja fazendo a raya terminativa de Portugal, e Castella
de Norte a Sul. Adiante para o Norte legua e meya está a Villa de
35 _Salvaterra da Beira_ com Castello forte bem descortinado, e
guarnecido de presidio. Tem opposta a Villa de Sarça, e tambem mais
para dentro a Villa de Alcantara, Praça de armas Castelhana, que se
oppoem às tres Villas nossas Salvaterra, Segura, e Rosmaninhal. Nas
costas de Salvaterra cinco leguas fica _Idanha nova_, cuja aspereza
de sitio serve de fortaleza. Caminhando tres leguas para o Nascente,
segue-se
36 _Penagarcia_ com Castello forte sobre penhasco. Tem humas montanhas,
que lhe servem de grande defensa, e confiança contra qualquer
temeridade inimiga, que intentar invadirnos por aqui. Nas costas de
Penagarcia está situada
37 _Idanha a velha_ quasi em peninsula, que fórma o rio Ponsul: he
sitio doentio, mas tem muros fortes. Na distancia de huma legua
segue-se a Villa de
38 _Monsanto_ com seu Castello fundado em hum monte das mais raras
asperezas, e altura, que dizem ha em Hespanha, porque se despenha a
todos os lados por mais de meya legua. Tem esta Villa a singularidade
de que sendo sitiada desde donde lhe podem deitar o cordaõ, póde
para dentro delle lavrar paõ, vinho, e azeite para se sustentar, sem
o inimigo lho poder impedir: por isso entre os Castelhanos anda hum
adagio, que diz: _Monsanto, Monsanto, orejas de mulo, el que te ganare,
ganar puede el mundo_; e já os Romanos a tiveraõ sete annos de cerco.
Tem por opposto o Castello de Trebejo. Passadas tres leguas, segue-se
ao Norte.
39 _Penamacor_, cuja Villa, e Castello está sobre hum eminente
penhasco, e he por sitio inexpugnavel. Oppoemse-lhe o Castello de
Elges. A tres leguas de Penamacor está a Villa do
40 _Sabugal_ com muito bom Castello, e detrás delle a Villa de Sortelha
inexpugnavel. Do Tejo até perto do Sabugal se corre a raya com Castella
de Norte a Sul, e desde o Lugar de Meimaõ corre Leste Oeste pela serra
de Malcata até o Lugar de Lagiosa, quatro leguas do Sabugal. De Lagiosa
até o Douro corre a raya Nornordeste a Susudueste, e onde começa a
fazerse esta raya fica a Villa, e Praça de
41 _Alfayates_, tres leguas do Sabugal. Sendo Governador desta Praça
o Capitaõ Braz Garcia Mascarenhas, foy cercada com gyro de 4680 pés
geometricos, excepto as voltas dos baluartes, que tem altura de vinte
e cinco pés. Foy obra de importancia. Tem por oppostos os Castellos de
Payo, e Albergaria. Seguem-se _Villar-Mayor_, e _Castello Mendo_, duas
leguas em distancia hum do outro, indo sempre ao Norte. Outras duas
para diante está _Castello Bom_, e mais outras duas a Praça de
42 _Almeida_, a quem faz frente Cidade Rodrigo. He das melhores Praças
do Reino. Está em huma campina raza, que se descobre por alcance de
vista desde huma legua; e com ser terra chã, se descobrem della terras
de onze Bispados, Lamego, Guarda, Coimbra, Viseu, Braga, Miranda,
Porto, Coria, Ciudad Rodrigo, Placencia, e Salamanca. Na mayor
eminencia tem sua fortaleza, que domina bastantemente o terreno. Tres
leguas para o Norte segue-se
43 _Castel-Rodrigo_ em sitio alto, e forte. Tem esta Villa as armas
Reaes deste Reino ao revés o elmo para baixo, por naõ querer dar
entrada a ElRey D. Joaõ I. passando por alli para Chaves, porque seus
moradores seguiaõ o partido da Rainha de Castella Dona Brites. Acabada
de costear a Provincia da Beira, se passa aqui o Douro, que a divide
de Tras os Montes, onde vemos logo o _Castello d’Alva_, e _Freixo
de Espadacinta_ em sitio baixo, mas com cinco torres, e fortaleza
grandiosa. Segue-se o _Mogadouro_, a _Bemposta_, _Penas-Royas_,
_Algoso_, terras todas fronteiras do Reino de Leaõ. Depois segue-se
44 _Miranda do Douro_ collocada sobre asperos penhascos, a quem o
rio, que lhe dá o nome, a separa pelo Nascente de Castella. Tem bom
Castello com artelharia, e faz frente a Carvalhaes. Segue-se _Vimioso_,
_Outeiro_, cinco leguas cada huma de Miranda; e contaremos nove, se
passarmos daqui Nornoroeste a
45 _Bragança_, a qual existe nas margens do rio Fervença, que a aparta
da raya de Galiza, tendo por opposta a Puebla de Senabria na distancia
de quatro leguas. Seguem-se já na raya de Galiza
46 _Vinhaes_, _Monforte do Rio livre_, _Chaves_, _Montalegre_; e
avisinhando pelo rio Lima, deixando a serra do Maraõ, e entrando na do
Gerez, em cujo encontro se dividem as duas Provincias Minho, e Tras os
Montes, se avistaõ nesta linha alguns Castellos, como o de _Lanhoso_
em correspondencia da fortaleza de Araujo; o _Castello da Nobrega_
com as terras de Entrimo por fronteiras; o _Castello de Lindoso_, a
quem se oppoem o Lugar de Ferreiros; o _Castello Laboreiro_, que tem
por opposto o da Lobeira, tudo na raya de Galiza fronteira do Minho.
Segue-se a Villa de
47 _Melgaço_ com excellente Castello, a quem se oppoem os Lugares
Crecente, Fornelos, e outros. Legua e meya para diante _Valladares_,
que tem oppostos em Galiza os Lugares de Cella, e Marcella. Outra legua
e meya está _Monçaõ_ em sitio eminente. Huma legua para diante segue-se
_Lapella_, e outra
48 _Valença_ fronteira à Cidade de Tuy. Logo outras duas leguas se
offerece _Villa-Nova de Cerveira_, fundada, e cercada de muros de
cantaria. Oppoem-se ao Lugar da Barca de Goyaõ, presidio Galiziano;
e daqui outras duas leguas se encontra outra vez com _Caminha_, donde
principiámos o gyro desta demarcaçaõ.