_Da situaçaõ, etymologia, e clima deste Reino._
1 Na parte mais occidental da Europa, como coroa de toda a Hespanha,
sitio estabelecido da clemencia do Ceo para cabeça do mais dilatado
Imperio, está collocado o famoso Reino de Portugal entre o parallelo
de 37, e 42 gráos de latitude septentrional, e entre os 9, e 13
gráos de longitude,[9] cuja distancia intermedia reduzida a leguas,
commensuradas pela margem maritima, vem a fazer 100 no seu justo
comprimento, e 35 na sua mayor largura. De circumferencia tem 285
leguas: as 135 de ribeira maritima, respeitando alguns angulos; e as
150 de raya terrestre, conforme a Geografia Blaviana.[10]
2 Este calculo vay formado na hypotesi de que damos 18 leguas a cada
gráo do Meridiano, e 14 a cada gráo do parallelo; e que o Reino tem de
latitude 5 gráos com alguns minutos, e 3 de longitude.
3 As partes, ou limites confinantes saõ estes: Galiza fica-lhe ao
Norte, ou Septentriaõ; a costa do Algarve ao Sul, ou Meyo dia; o mar
Oceano, chamado de Portugal, pelo Occidente; e Castella a velha, Leaõ,
e Andaluzia confinaõ pelo Oriente.
4 O primeiro nome, que teve este Reino, foy o de _Lusitania_, querendo
os mais dos Geografos, e Historiadores que Luso, ou Lysias, filho de
Baco, fosse o que pelos annos 800 do diluvio universal lhe conferisse
o nome, deduzido com pouca differença do seu proprio.[11] Porém
este systema taõ constantemente recebido, e patrocinado padece as
contradições, que occasionaõ as fabulas, em que se funda.
5 Quem quizer dar credito ao doutissimo Samuel Bocharto,[12] a
palavra _Lusitania_ he vocabulo Fenicio, derivado da raiz _Luz_, que
se interpreta _Amydgdalum_, isto he, _Amendoa_, dos quaes frutos
foy sempre fertil Portugal:[13] e como os Fenices costumavaõ dar
nome às terras, que habitavaõ, conforme os frutos, de que eraõ
mais abundantes,[14] naõ parecia improvavel, nem incongruente esta
conjectura, por ser estabelecida em historia verdadeira, se acaso naõ
tivera tambem a objecçaõ de serem os Fenices os que só povoaraõ a costa
do cabo de S. Vicente, que naquelle tempo naõ se chamava Lusitania, mas
Celtica.
6 Mons. de La Clede[15] tem por etymologia mais certa deduzir a palavra
_Lusitania_ dos antigos povos chamados _Lusos_, que habitaraõ este
nosso continente, a qual na lingua Celtica significava homem de alta,
e robusta disposiçaõ, vocabulo conveniente ao valor, e esforço dos
antigos Portuguezes.
7 Quanto ao nome de _Portugal_, por naõ darmos derivaçaõ antiga a hum
vocabulo moderno, temos por mais certo que se deduzio da povoaçaõ
chamada _Cale_, que antigamente houve na margem austral do rio Douro,
fronteira à Cidade do Porto: a qual povoaçaõ pela frequencia das
gentes, que alli concorriaõ, se foy fazendo affamada. Depois com o
progresso do tempo se deu este mesmo nome à Cidade do Porto, que se
fundou defronte; e como a fortuna tambem favorece aos lugares, desde o
anno 1057 pouco mais, ou menos, como quer Estaço, ou 1069 como dizem
outros, se extendeo a todo o Reino aquelle nome de Portugal, que era
proprio de huma só Cidade.[16]
8 Naõ averiguamos se a palavra _Cale_, como quer Joaõ Salgado de
Araujo,[17] foy imposta por aquelles Gregos, que fizeraõ transito a
estas partes com o Principe Meneláo, e fundaraõ huma povoaçaõ na foz
do Douro com o nome de _Cale_, que significa _Porto ameno, e seguro_;
porque naõ sabemos que haja historia verdadeira, em que esta memoria
se possa fundar. Da mesma fórma rejeitamos todas as mais etymologias,
como improvaveis, e nugatorias.
9 Inclue-se Portugal no clima sexto, e principio do setimo, e por
isso he o seu mayor dia de 15 horas: mostrando-se neste breve espaço
de terra, taõ benigna a inclinaçaõ do Ceo, que em algumas das nossas
Provincias tempera de sorte os extremos do frio, e do calor, que faz
confundir os tempos com suavissima equivocaçaõ.[18] Com esta favoravel
temperança influem Sagittario, Capricornio, e Piscis com taõ feliz
aspecto, respirando neste Reino ares taõ benevolos, que o constituem
patria de todos; pois vemos que as gentes das mais remotas partes do
mundo attrahidas da benignidade deste clima, para aqui vem, e aqui
vivem longo tempo satisfeitos, sem estranharem a mudança dos ares, nem
com a saudade da patria, nem com a ausencia de seus patricios.
10 Deste influxo celeste nasce a fertilidade de terreno taõ fecundo
em todo o genero de frutos, summamente encarecidos dos Escritores
antigos:[19] e se agora naõ experimentamos taõ grande abundancia, he
porque nas comarcas do Reino se poupaõ mais ao trabalho da cultura com
a esperança da providencia alheya: e quando as terras estaõ vagas,
e ociosas, naõ podem corresponder a seus donos com fertilidades
sufficientes.[20]