SEGUNDA EDIÇÃO

[Ilustração: Logótipo da sociedade editora]

LISBOA

EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL

_Sociedade editora_

LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA

_R. Augusta 95_ || _45, R. Ivens, 47_

1903

I

Era no anno de 18*** N'um palacete proximo á Calçada de Santo André,

vivia, em companhia de seu filho e de duas creadas, D. Marianna de

Mendonça, filha bastarda de Manuel Pires de Athayde, que fôra em tempos

de pouco saudosa memoria alcaide-mór da cidade de * * *

Poucos mezes antes de morrer, Manuel Pires de Athayde, entregára a sua

filha dezeseis mil cruzados em dinheiro, afóra joias e outros objectos

de valor, pedindo-lhe ao mesmo tempo que acceitasse por esposo a Alvaro

de Mendonça seu primo co-irmão, moço serio e de bom porte, e, além

d'isso, possuidor de riquezas quasi eguaes ás que o alcaide-mór lhe

legava.

Recusando, a principio, o noivo que o pae lhe indicava, D. Marianna, por

ultimo, não teve mais remedio senão acceder aos seus desejos.

Tres mezes depois, com grande alegria de todos os parentes, recebeu se

com Alvaro de Mendonça na freguezia dos Anjos.

O pobre velho parecia apenas aguardar a realização d'este ultimo desejo

para volver a alma ao Creador, entre as lagrimas da filha e dos amigos

que o estremeciam. Ao cabo de oito dias de casada, D. Marianna ficava

sem pae.

Manuel Pires de Athayde não se havia enganado na escolha; Alvaro de

Mendonça era o exemplo dos maridos. A sua proverbial honestidade

tornava-o estimado em todos os logares onde apparecia, acompanhado quasi

sempre pela esposa, digna e respeitada como elle.

Ao fim d'um anno, a Providencia, prodiga em lhes proporcionar todas as

venturas, concedeu-lhes a maior que póde dar aos que deveras se amam

sobre a terra, e que medem o mundo todo, pelo curto espaço do seu

domicilio: um filho.

Manuel--tal foi o nome do recemnascido--de dia para dia se tornava mais

robusto. Era um gosto vel os á tarde por sobre os canteiros do seu

pequeno jardim, correndo com o Manuelito, e disputando entre si, qual

dos dois alegraria mais a creancinha.

Marianna, por esse tempo, teria uns dezoito a vinte annos, Alvaro trinta

e quatro.

Amor, saude, mocidade, riquezas e um filho! Que lhes faltava para serem

felizes?

Pelo espaço de doze annos, trabalhando mais do que as forças lh'o

permittiam, afim de melhorar o futuro da creança, correu a vida de

Alvaro de Mendonça, sem que uma só vez podesse D. Marianna deixar de

levantar as mãos aos céus, para agradecer á Providencia o esposo que lhe

havia concedido.

Uma circumstancia apenas lhes toldava de vez em quando o iris da sua

felicidade; eram os continuos receios que um velho primo lhes infundia,

sobre a precoce intelligencia do estremecido fructo dos seus amores

patriarchaes.

«Não puchem pelo rapazola se o não querem ver no cemiterio, dizia-lhes

elle muitas vezes. Um talento como este deve ser muito poupado. Se meu

pae não me tem acudido a tempo, retirando-me do collegio, talvez lhes

não estivesse agora dando este conselho. Eu fui o mesmo que o Manuelito;

aprendi a grammatica portugueza de _fio a pavio_ em menos de um mez. Não

percebia bem o que dizia, é verdade, mas sabia tudo de cór, que era até

um gosto ouvirem-me. Sabem o que fez meu pae? Annuiu aos desejos do

mestre, que era um doidinho por mim, e retirou-me do collegio para que

não estudasse mais. É certo que estou hoje sem saber coisa alguma,

porquanto a grammatica esquece muito, mas pelo menos tenho vida e saude,

que é o principal.»

A despeito d'estas e de outras judiciosas reflexões, Manuel continuou a

frequentar a aula, onde era querido por todos os professores e

condiscipulos. Estes, longe de lhes causar inveja o seu inquestionavel

merecimento, todos á uma se ufanavam em lh'o proclamar.

Aos quinze annos já tinha feito os exames de philosophia e latinidade.

Quando mais venturosa sorria a existencia de Alvaro de Mendonça, coroada

pelos louros de seu filho, a Providencia, como se já estivesse fatigada

de lhe sorrir, fez com que o anjo da morte, descendo lentamente sobre o

seu leito, lhe cerrasse para sempre os olhos.

D. Marianna de Mendonça, ainda que dotada de intelligencia clara e

reflexiva, faltava-lhe comtudo aquella experiencia do mundo impossivel

de conseguir a qualquer senhora que, como ella, tivesse vivido apenas

entregue aos cuidados de sua casa.

Abatida pelo golpe que acabava de soffrer, muito fazia a infeliz viuva

em administrar a sua casa de portas a dentro, e bem assim seguir a

educação de Manuel, que de mez a mez fazia mais rapidos progressos,

continuando a disfructar uma irreprehensivel saude, apezar de todos os

prognosticos de seu primo, o ex-grammatico, que se não cançava de

lembrar á viuva o absurdo da sua insistencia em que o pequeno

continuasse no collegio.

Entre as pessoas que ordinariamente frequentavam a casa da viuva,

distinguia-se o commendador Felix Justino de Araujo, homem probo e

honesto para todos que tinham a honra de lhe merecer a sua confiança, o

que elle prodigamente espalhava afim de conquistar as geraes sympathias.

Corriam varias edições ácerca da sua mysteriosa individualidade,

chegando algumas pessoas a levar o seu arrojo a ponto de dizerem que o

commendador não passava de um refinado velhaco, e que, mais dia menos

dia, as suas gentilezas teriam de ser desmascaradas em praça publica;

isto tudo, já se vê, proferido em voz baixa, depois de com elle terem

gasto os joelhos das calças, nas respeitosas zumbaias que diariamente

lhe dispensavam. É que já n'essa epocha, a raça de commendadores que

hoje invade a capital começava a manifestar-se com toda a força do seu

prejudicial desenvolvimento. Era muito de ver se como toda aquella gente

o tractava no tocante a futeis banalidades. Riam-se uns dos outros, e

todos em sua presença disputavam entre si, qual deveria ser o seu

primeiro thuribulario.

Uns diziam que era viuvo, outros que era casado com uma mulher de baixa

esphera, de quem tinha duas filhas, porém que se não atrevia a

apresental-a na sociedade, em virtude das suas maneiras pouco

distinctas.

A sua riqueza ninguem ao certo a poderia saber; porém o faustuoso luxo

com que se tractava levava a suppôr que enormes rendimentos havia

herdado da sua nobre ascendencia, cujos brazões nobiliarios fariam

estremecer de inveja qualquer puritano.

Uma noite em que D. Marianna de Mendonça se queixava amargamente de um

certo procurador, lembrou-lhe uma das suas amigas que talvez lhe fosse

conveniente entregar a administração da casa ao commendador, se elle

porventura a isso estivesse resolvido, e que ella mesma lhe falaria a

tal respeito.

A viuva acceitou de bom grado o que a sua intima lhe propozera, e

falando esta com o commendador, ao cabo de oito dias Felix Justino de

Araujo tinha geral procuração para arrendar, subrogar, ou alienar

qualquer propriedade, se por ventura assim o julgasse conveniente para o

futuro do seu Manuel que, segundo o dizer do administrador, era tanto

para elle como se fosse seu proprio filho.

Não tardou muito tempo que o magnate fizesse uso de uma das condições da

procuração. Uma fazenda que Alvaro de Mendonça herdára por morte de uma

tia, tres ou quatro annos depois de estar casado com a filha de Manuel

Pires de Athayde, foi-lhe vendida em hasta publica. A venda fôra de um

excellente resultado para a viuva, segundo o commendador affirmava,

porquanto o seu principal rendimento eram arvores de fructa, e essas

mais anno menos anno cairiam todas ao pezo d'uma epidemia que, segundo

as suas observações agronomicas, teria de grassar d'alli a tempo,

assaltando todas as fazendas sem exceptuar uma unica.

Em face d'esta cruel prophecia, quem se negaria a separar-se de qualquer

terreno, por mais dolosa que fosse a venda?

O commendador empregou esse dinheiro n'uma industria cujo dividendo

deveria exceder dez por cento.

Quasi todos deram os parabens á viuva pelo bom negocio que vinha de

fazer, attendendo não só á grande differença do rendimento, como tambem

a ter-se livrado d'esse terrivel cataclysmo, a que estava exposta

conservando uma só arvore.

Assim decorreram dezoito mezes sem que D. Marianna tivesse a mais

pequena razão de se arrepender da plena confiança que tinha depositado

no seu administrador.

Por este tempo, Manuel, que havia saído do collegio, chegou se a sua

mãe, dizendo-lhe que desejava partir para o Rio de Janeiro, afim de se

dedicar á vida commercial, para que se sentia com decidida vocação.

Recordando lhe ao principio a loucura do seu projecto, a pobre mãe

ponderou-lhe a pouca necessidade de buscar em terra estranha o que já

possuia na sua patria: a riqueza.

Por essa epocha, os bens da casa montavam a uns trinta contos de réis,

graças á herança que Alvaro de Mendonça havia recebido por morte de sua

tia, e ás economias que a viuva fizera durante aquelle tempo.

--Com o dinheiro que possuimos, dizia-lhe sua mãe, poderás dedicar-te ao

commercio, mas aqui em Lisboa. É verdade que não tens um unico parente

que te proteja, mas, graças a Deus, temos meios. Partires, e

deixares-me, filho, acho que será uma grande loucura, ajuntou ella,

arrazando-se-lhe os olhos de lagrimas. Em todo o caso, farás o que te

aprouver. Não quero que um dia me lances em rosto que o muito amor que

te consagro foi a causa de cortar a tua carreira.

N'essa noite, quando appareceu o commendador, D. Marianna manifestou-lhe

os desejos de Manuel.

--Que vá, respondeu elle rapidamente. Seu filho é activo, audaz,

intelligente e emprehendedor. Póde um dia, se Deus o ajudar, vir a ser

um grande homem. Não tenho filhos, acrescentou, porém se um dia os

tiver, nunca os hei de contrariar nas suas resoluções, se ellas forem

justas como as de Manuel.

--Mas que precisão tem elle de expôr a sua saude n'um clima tão

perigoso? Trinta contos ou perto d'elles que possuimos não será o

sufficiente para se viver em qualquer parte do mundo?

-Porém se seu filho é ambicioso, e capricha em adquirir um capital pelo

seu trabalho, é justo que sua mãe lhe impeça a sua determinação? Faça o

que quizer, mas tome o meu conselho, deixe-o partir. Deus ha de guial-o,

porque Manuel é bom, honesto, moral e, sobre todas estas coisas, muito

trabalhador.

--E que dinheiro se lhe deve entregar, sr. Felix? dez contos, quinze,

vinte... que lhe parece?

--Vossa excellencia está louca! acudiu apressadamente o commendador.

Entregar contos de réis a um rapaz da edade de seu filho! Lançar Manuel

n'um paiz como o Rio de Janeiro, proporcionando-lhe os meios de se

perder! Nem por sombras! Quaes contos de réis! Com seis moedas

desembarquei eu em S. Paulo, e ao cabo de doze annos possuia uma fortuna

para cima de dez mil libras! Contos de réis! Só essa me faria rir! A

passagem paga, meia duzia de moedas, e as cartas de recommendação que

para ahi lhe entregarei, são mais do que o sufficiente.

--Mas não me disse v. ex.ª que meu filho era um rapaz de juizo, honesto

e moral? Que receio teremos em lhe entregar o que realmente lhe

pertence? Não é elle o meu unico herdeiro?

--Fará vossa excellencia o que entender, e se lhe quer entregar tudo

quanto possue, faça-o; está no seu direito, e lavo d'ahi as minhas mãos.

Se quer que lhe preste as minhas contas, estou muito prompto a fazel-o.

Sabe que o unico interesse que tenho em tudo isto é apenas o seu bem

estar, e o futuro de Manuel. Se quer estragar tudo quanto tenho feito em

seu proveito, é senhora das suas acções, póde fazel-o, que desde este

momento me considero desligado de todos os meus encargos.

Esta linguagem, rude mas na apparencia sincera, produziu no animo debil

de D. Marianna o resultado que o commendador desejava. Affeita a

obedecer-lhe em tudo, havia-se deixado dominar completamente por aquelle

homem que, segundo a opinião de todas as pessoas que frequentavam a sua

casa, havia sido um anjo salvador.

Dois annos depois da sua administração, os vinte contos de réis, que

rendiam á viuva cem mil réis por mez, haviam subido a um rendimento de

um conto e seiscentos por anno, graças á applicação que elle dera a

esses capitaes. Quanto ao producto da propriedade, era um segredo, que

mais dia menos dia seria revelado como surpreza agradavel. Que razão

teria ella para o arguir de mau administrador?

Estas e outras circumstancias faziam com que D. Marianna obedecesse

cegamente a quanto elle lhe impunha.

No dia immediato, Manuel chegou-se a sua mãe, afim de saber o que se

havia passado entre ella e o commendador.

--Sinto deveras que me queiras abandonar, porém se essa é a tua vontade,

vae, e que as minhas orações, acompanhando-te sempre, te possam salvar

de todos os perigos. Quanto a dinheiro ajuntou ella, esperançada em que

o commendador se resolvesse a entregar-lhe maior quantia, dir me-has

quanto necessitas.

--Nunca pedi contas nem a minha mãe nem ao sr. commendador, mas

supponho que não farão grande differença nos capitaes que devemos

possuir quatro ou cinco contos de réis para me estabelecer, mas ainda

assim, se minha mãe suppõe que essa quantia é muito avultada, contentar

me-hei com menos, ou por ultimo, com aquillo que julgarem conveniente. É

tudo quanto tenho a dizer-lhe, accrescentou elle, pregando os olhos no

olhar turvo e entristecido de D. Marianna.

No dia seguinte a viuva foi ao escriptorio do commendador e contou lhe o

que passára com Manuel.

Felix de Araujo, depois de a ter escutado, insistiu serenamente em que

seria uma grande loucura entregar a seu filho uma quantia superior a

essa de que tinham falado na vespera, repetindo porém, que estava no seu

direito de fazer o que lhe aprouvesse.

Todos os espiritos, por mais debeis que sejam, teem um momento na vida,

em que uma circumstancia, ou um milagre providencial lhes dardeja um

raio de valor.

A maneira, o gesto, o olhar, com que a viuva fitou o commendador, foram

sufficientes para que elle comprehendesse que todos os esforços seriam

inuteis. D. Marianna estava resolvida a entregar a seu filho a quantia

que elle lhe havia, senão pedido, pelo menos indicado.

Não havia remedio! Era forçoso entregar esse dinheiro no momento em que

lhe fosse exigido, para que se não realisassem certos boatos que lhe

tinham chegado aos ouvidos, de que mais dia, menos dia, as suas

gentilezas seriam desmascaradas!

--Seja o que vossa excellencia quizer, disse elle, depois de alguns

instantes de reflexão. Que quantia quer?

--Quatro a cinco contos de réis. Como tudo o que possuo é em dinheiro,

não haverá duvida em os receber por estes oito dias.

--Oito dias! replicou o commendador, simulando grande tranquillidade de

animo, hoje mesmo se vossa excellencia quizer; não tenho mais trabalho

do que tiral-o d'aquelle cofre, ajuntou elle, apontando para um grande

armario de ferro.

--Posso portanto ficar tranquilla?

--Póde, mas lembre-se, minha senhora, que vae fazer a desgraça de seu

filho. Conheço o Rio de Janeiro, e sei o que póde succeder a um rapaz da

edade de Manuel, achando-se possuidor de similhante quantia.

--Será o que Deus quizer, respondeu a viuva despedindo se.

Quem, momentos depois, commettesse a indiscrição de o espreitar, no

pequeno gabinete do escriptorio, conheceria immediatamente pela sua

perturbação, que os trinta contos de réis em que consistia a fortuna

d'aquella familia não estavam tão seguros quanto ella os julgava.

Oito dias depois, quando tudo estava preparado para a viagem de Manuel,

sua mãe dirigiu-se a casa do commendador, afim de receber os cinco

contos de réis, e encontrou-o sereno e bem disposto, mas insistindo

ainda em que tão grande quantia seria prejudicial a um moço inexperiente

como seu filho.

--Já disse ao sr. commendador o que tinha a dizer-lhe, respondeu D.

Marianna, sentando-se tranquilamente a seu lado.

--Visto não haver meio algum de a convencer, queira vossa excellencia

ter a bondade de me passar um recibo d'esse dinheiro. Levantando-se

serena e fleugmaticamente, o commendador dirigiu se ao armario de ferro,

tirou de dentro d'elle um pequeno cofre e collocou-o sobre a secretaria

de que D. Marianna se tinha approximado para passar o recibo. O

commendador, depois de contar os maços de notas de dez moedas, poz junto

de D. Marianna os que prefaziam a quantia exigida.

N'este momento a viuva acabava de assignar o recibo.

--Se não fosse a profunda sympathia que vossa excellencia sempre tem

sabido inspirar-me, creia que de hoje em deante, deixaria de lhe

administrar os seus bens, e pedir-lhe-hia que mandasse buscar vinte e

sete contos de réis que alli tenho n'aquelle cofre; digo que os mandasse

buscar, porque grande parte d'esse dinheiro está em ouro e em prata, com

que vossa excellencia não poderia. Não o faço, porque além de todas as

outras circumstancias, affeiçoei-me ao Manuel, mais do que se elle fosse

meu proprio filho, como já uma vez lh'o disse.

Se algumas desconfianças começassem a agitar o espirito da viuva, todas

se desvaneceriam em presença d'esta scena. Havia uma dupla intenção nas

palavras do commendador: a primeira inspirar á viuva profunda confiança

no deposito dos seus capitaes; a segunda, evitar ainda a entrega dos

cinco contos de réis. A primeira saiu-lhe bem, a segunda não foi tão

favoravel.

--Então quando é a saida da galera? perguntou elle a D. Marianna.

--Ámanhã, ás duas horas da tarde.

--Não me comprometto a ir ao bota-fóra; ser-me-ia penoso acompanhal-o ao

começo da estrada da sua infelicidade.

--Será o que Deus quizer, respondeu tristemente a pobre mãe, pegando nos

maços de notas e mettendo-os dentro do seu sacco de veludo.

Cinco minutos depois, acompanhada pelo commendador, entrava D. Marianna

para uma sege, e seguia caminho de casa.

No dia seguinte, ás duas horas da tarde, desprendendo se dos braços de

sua mãe, entrava Manuel de Mendonça na galera _Boa Ventura_, e ao cair

da tarde perdia de vista o que ha de mais caro na vida: mãe e patria.

«Acautele-se do commendador» foram as ultimas palavras que Manuel

dissera a sua mãe.

Ao cabo de tres mezes, a viuva recebeu uma carta de seu filho, em que

lhe participava que tinha chegado depois de uma feliz viagem, e que

esperava em pouco tempo estabelecer-se vantajosamente com uma casa

commercial.

* * * * *

Assim passaram mais oito mezes.

As mezadas que D. Marianna recebia de Felix de Araujo continuavam a

ser-lhe entregues com a mesma religiosa pontualidade, o que fazia com

que todas as pessoas que chegaram a duvidar da honestidade do

commendador começassem a proclamal-o homem de evidente credito.

Durou isto perto de um anno. As cartas que Manuel escrevia a sua mãe

eram cada vez mais consoladoras. N'algumas, mandava-lhe dizer que os

seus maiores desejos seriam tel-a a seu lado.

Um dia, finalmente, escreveu lhe seu filho, mandando-lhe pedir

encarecidamente que retirasse quanto antes os capitaes que tinha na mão

do commendador, porque lhe tinham dado as peiores informações a seu

respeito, sendo a primeira não se chamar Felix Justino de Araujo, mas

simplesmente Domingos de Andrade.

Afflicta com esta carta, a infeliz senhora procurou um advogado, que

fôra muito amigo de seu defunto marido, e communicou-lhe os seus

receios.

N'esse mesmo dia, o doutor acompanhou-a a casa do commendador. Este, ao

vel-a, comprehendeu immediatamente do que se tractava.

--Tencionando retirar-me para o Rio de Janeiro, venho prevenir vossa

excellencia de que desejo levantar da sua mão os capitaes que

honestamente me tem administrado. Se não fosse o desejo de ir ver meu

filho, continuaria a aproveitar me da zelosa e desinteressada

administração do sr. commendador.

--E sabe vossa excellencia se n'este momento lhe poderei entregar esse

dinheiro? Não m'o confiou para negociar, afim de que tivesse maiores

lucros do que estando na sua mão? Na vespera de seu filho partir para o

Brazil, quando dei a vossa excellencia os cinco contos de réis, que me

exigiu, não me promptifiquei a entregar lhe quanto aqui tivesse? Vossa

excellencia não comprehende a possibilidade de que esse dinheiro esteja

empregado em qualquer negocio, e de que n'esse caso me seja difficil

devolver-lh'o de um momento para o outro? Felizmente não succede assim,

pelo que dou graças a Deus! Quanto o estimo! Vossa excellencia, por

qualquer circumstancia, deseja retirar das minhas mãos os seus capitaes,

e não tem o sufficiente valor de m'o dizer de cara a cara! Pois, minha

senhora, continuou elle, simulando um gesto de profundo resentimento, e

levantando um pouco a voz, eu, que tenho a coragem das minhas acções,

escudado pelo meu nome e pela minha honestidade, declaro aqui, alto e

bom som, que sou eu que exijo, que vossa excellencia retire d'aqui os

seus fundos, e quanto antes.

Havia tanta dignidade nas palavras do commendador, a sua voz era tão

firme, tão altivo e tão seguro o seu olhar, que D. Marianna chegou a

convencer-se de que era uma ingratidão o que vinha de fazer.

--Ha perto de quatro annos, continuou o commendador dirigindo se ao

advogado, que eu administro os bens d'esta senhora. O seu rendimento,

que não chegava a um conto e duzentos por anno, subiu a um conto e

seiscentos. Uma propriedade que lhe valia o muito quatro contos de réis,

vendi-lh'a e appliquei o producto d'ella n'um negocio, que rende para

cima de doze por cento. Que necessidade tenho eu d'isto tudo? Tenho

empregado trabalho e tempo; e preciso eu por ventura de capitaes alheios

para fazer as minhas transacções? Escusado será dizer que não. Para que

o fiz? Para o seu bem! Boa paga, não haja duvida. Que esta lição me

sirva! Pois, minha senhora, ajuntou elle, voltando-se para D. Marianna,

rogo a vossa excellencia que ámanhã, sem falta, até ás onze horas da

manhã, encarregue alguem de me tomar contas, e queira vossa excellencia

vir tambem, afim de me passar recibo do dinheiro que tenho na minha mão.

Hoje mesmo, se lhe fosse possivel, apezar de ser tarde, muito prazer me

daria.

--Ámanhã aqui estarei, visto assim o exigir, respondeu D. Marianna,

olhando ao mesmo tempo para o advogado, como que esperando a sua

opinião.

--Sendo onze horas aqui viremos, disse o jurisconsulto, despedindo se do

commendador.

--Que lhe pareceu? perguntou a viuva ao chegarem á porta da rua.

--Um homem honesto, ferido pela ingratidão que acaba de receber,

respondeu fleugmaticamente o doutor. Em todo o caso, accrescentou elle,

faça vossa excellencia o que quizer; sendo dez horas estarei em sua

casa.

No dia immediato, conforme haviam combinado, apresentou se o advogado em

casa de D. Marianna de Mendonça.

Ás onze horas metteram-se n'uma traquitana, e dirigiram-se ao

escriptorio do commendador.

Contra todos os usos da casa ainda estava fechado.

--Que lhe parece isto? perguntou D. Marianna ao advogado, com mais

receio do que na vespera ao perguntar-lhe como lhe havia parecido.

--Que é um homem ferido pela ingratidão, e que anda a tratar de levantar

dinheiro para a embolsar d'essa quantia, respondeu elle ingenuamente.

Momentos depois começaram a apparecer varios individuos. O physionomista

que de perto os observasse, veria em todos elles a mesma sombra de

receio que se revelava no rosto pallido e transtornado de D. Marianna de

Mendonça.

D'alli a duas horas ainda Felix de Araujo não tinha apparecido.

--Que lhe parece isto tudo doutor? dizia a viuva ás cinco horas da

tarde, olhando para o advogado, que a contemplava com uma physionomia

alvar.

Que é um refinado ladrão que nos deixa a todos desgraçados! accudiu um

individuo que ouvira a pergunta feita pela viuva.

O commendador Felix Justino de Araujo havia fechado o escriptorio.

Domingos de Andrade fugira, roubando dinheiro a todos aquelles que, como

D. Marianna de Mendonça, o haviam depositado nas suas mãos.

Cinco dias depois D. Marianna, com a razão perdida, entrava para a casa

dos doidos no hospital de S. José.

O Conde de S. Luiz · 第 18 / 59 题