ALGUMAS FIGURAS

Janeiro--1900.

Urbano de Castro, com um olho tôrto e um chapelinho afadistado, na

aparencia reservado e sardonico, sae-se encantador na intimidade. Os

seus amigos adoram-no, o Camara, o Schwalbach, a antiga roda do _Correio

da Manhã_. Trouxe para o jornalismo uma grande leitura de

classicos--conhece muito a lingua--e uma forma ironica e precisa: em

meia duzia de linhas incisivas deixa o adversario a sangrar. Os

politicos temem-no tanto, que uma das condições impostas pelo José

Luciano, quando do pacto com o Hintze, foi que o Urbano terminasse na

_Tarde_ com o _Espirito de S. Ex.^a_.

Eis algumas maximas de Urbano de Castro:

--A paciencia é uma virtude de capote e lenço.

--Quanto mais leve é a cabeça da mulher, mais pesada é a do marido.

--Os homens publicos são como os papeis de credito--o que hoje tem

uma alta cotação, amanhã não vale, e inversamente.

--Quando tiveres muitos argumentos, não empregues senão os

melhores. Quando não tiveres nenhum, emprega todos.

--A paternidade é, muitas vezes, um rotulo. A garrafa é a mesma,

mas o vinho é outro.

--Viuva rica, com um olho dobra, com outro repica.

--No coração mora-me Deus, no figado o diabo.

--Mortal é o contrario de imortal. Imortal é o que é sempre. Logo,

mortal--é o que não é nunca.

--Theologia--a arte de fazer comprehender aos outros aquillo que

nós não entendemos.

--De todas as armas, a mais dificil de manejar é o pau... de dois

bicos.

--Jornalista--fabricante da opinião publica. Cada um afirma que a

unica genuina é a da sua lavra.

--Se os homens de mais juizo pensarem a serio em muitos dos seus

actos hão de reconhecer que não teem juizo nenhum.

--O suicida tem para mim um lado sympathico--não se julga

insubstituivel.

Junho--1903.

Deparo hoje com o Garrido, redondinho, baixo, de bigode grisalho e um

ventre de proprietario. Nunca se altera nem perde a paciencia. Jovial?

Não, triste e falando sempre baixinho. Tem ganho fortunas, tem dissipado

fortunas com o mesmo ar inalteravel. Houve ocasiões em que todos os

theatros do Rio representaram peças com o seu nome. Está cheio de

dividas. E o seu ideal, o ideal d'esta existencia de acaso, com aflições

de morte, ou dispersa pelo Brazil entre dois numeros de opereta--pan!

pan! pan!--e dinheiro atirado a rodos, é um casebre no campo, duas

arvores n'um retalho de horta viçosa e uma nora pingue que pingue no

fundo do quintal. Paz. E não escrever uma linha.

Um agiota não o larga. É este velhinho paternal, de cabellos brancos,

que faz recados, deita as cartas ao correio e leva coiro e cabelo.

Parece inofensivo. Começou a vida por creado de servir e esfolou os

patrões. Afirma que o Garrido é capaz de arrancar dinheiro a um morto:

--Este senhor Garrido dá-me cada aflição! Até me faz crear caspa!

Fevereiro--1900.

A paixão d'este homem é não ter um livro de geito. G... só escreveu trez

folhetos, e por ahi ficou o seu talento. Espremido não deu mais nada. É

no entanto uma figura epigramatica e nitida de conversador e um typo

curioso de bohemio lisboeta. Dormiu nas escadas dos predios, pertenceu

ao grupo que o Fialho arrastava pelas ruas até ante manhã, dispersando

com elle o oiro da sua esplendida phantasia. Para essa meia duzia de

bohemios improvisou o grande escriptor as suas melhores satyras. Uma

noite, no café, G... aludiu á sua obra, e logo do lado o Fialho acudiu:

--A tua obra, bem sei... Vinte e cinco cartas a vinte e cinco amigos

pedindo vinte e cinco tostões emprestados.

G... embezerrou. Mas passados minutos aproveitou uma pausa no dialogo,

para perguntar com indiferença ao Fialho, que tinha ha pouco casado rico

com uma prima, que gastou a vida a esperal-o no fundo da provincia:

--O Fialho fazes favor de me dizer que horas são... no relogio do teu

sogro?

Fevereiro--1903.

Vejo sempre diante de mim o D. João da Camara, já cansado e e asmathico,

olhando por cima das lunetas, e falando baixinho com receio, uma

modestia no dizer, e um medo de magoar... A barba espessa, a grenha

espessa e um chapelinho pôsto ao lado, completam a figura um pouco

molle. É quasi um santo. Joga e jejua. Dá tudo o que tem. Exploram-no.

--O que me perdeu na vida foi não ter energia. Nunca me decido.--E mais

baixo:--Isto vem talvez dos jesuitas que me educaram. Tive alguns

condiscipulos que são homens notaveis e ninguem dá por elles.

Vive de noite, com uns e outros, ao acaso, nos bastidores dos theatros,

ou encantado com uma ceiasinha na taberna, que descobriu no Arco da

Bandeira. Se encontra o Pinturas está perdido: não se largam mais. Vae

sempre para casa de manhã, e a sua vida é tão aflictiva que desejaria,

como o Schwalbach, que o metessem algum tempo no Limoeiro, para não

pensar no dia seguinte.

Hontem contou-me isto que é encantador:

--Não me importava nada de ter quatorze filhos em vez de sete. São muito

meus amigos. O Vicente nunca sae de casa sem me dar um beijo. Eu estou

sempre a dormir... Esta manhã--estava acordado, mas fingi que dormia,

quando aquelle rapagão me entrou no quarto, pé ante pé, para não me

acordar, e beijou-me...

E fica extatico.

Ás vezes fala-me das peças que ha-de fazer, do _Sermão da Montanha_ e de

outra com tipos de sonhadores, que se alimentam de mentira e de um

passado que nunca existiu, forjado ponto por ponto. Assobia-se, por

exemplo, um trecho d'opera, e logo este atalha:--Bem sei é da

_Dinorah!_... Tempos que já lá vão! O que eu vivi com Fulano e Sicrano,

e as ceias que demos juntos!--Tudo ilusão! tudo sonho! Vae-se a ver nem

sequer conheceram as pessoas de quem falam... Outras vezes conta-me a

sua vida:

--O que eu tenho sofrido! Tive muitos dias d'angustia... N'essa noite _O

Pantano_ cahira. Toda a gente dizia mal de mim. Nos bastidores a intriga

fervia com a Lucinda á frente. Sahi do theatro a pensar no que havia de

empenhar no dia seguinte. Fui para casa muito tarde.--Não haveria que

pôr no prégo?--Por fim descobri uma casaca, e, ainda muito cedo, sahi

com o embrulho debaixo do braço, n'um papel de jornal. O papel amolecia,

a casaca rompia para fóra, e eu batia de prégo em prégo. Sete horas da

manhã... Estavam todos fechados. N'um disseram-me com seccura:--Não

emprestamos sobre casacas.--Fui a outro e esperei no portal que abrisse.

Lembro-me como se fosse hoje. Chovia a potes. Defronte, estava uma

carroça, com um cavallo branco. Era um burro pelle e osso, a cabeça

metida n'uma linhagem, a comer. E eu no portal, com o embrulho já todo

roto debaixo do braço, invejei aquelle cavalo!...

Já não joga. Mas antigamente ia todos os dias para casa ás cinco horas,

tendo perdido tudo:--Foi n'essas noites que imaginei as minhas melhores

peças...--Cuidadosamente punha sempre de lado um tostão para o

americano--e quasi sempre succedia tambem que um velho fidalgo, das suas

relações, lhe pedia o tostão emprestado para um calice de vinho do

Porto, que se habituara a beber ahi pelas tres da madrugada. O D. João

dava-lh'o, e lá ia a pé para a Junqueira, a sonhar nas peças, sob a

lufada, molhado até aos ossos, de casaco de alpaca.

[Figura: _Columbano._--Auto-retrato.]

Junho--1903.

Passei a noite em casa do Columbano, com o Raphael Bordalo Pinheiro.

Durante o jantar falou sempre. Todo elle mexe, todo elle é caricatura e

imprevisto: os olhos, o nariz, as mãos e até o bigode que se encrespa,

desenham e imitam.--Era um homem com um ôlho assim...--E logo o ôlho se

lhe envieza. Em rapaz o seu sonho era o theatro. Chegou a ter lições do

Rosa pae. Está um pouco cansado. Queixa-se muito. Amua.--Ninguem faz

caso de mim...--Estranha quando o não vão esperar á estação--e está

sempre a chegar das Caldas e partir para as Caldas. Depois esquece-se e

põe-se a rir. Depois torna:--Eu não jogo, mas lá em casa todas as noites

jogam e pedem-me dinheiro emprestado.--Agora arremeda este e aquelle de

quem fala. Conta que em Paris ouviu o rei dizer:--Isto aqui é uma terra,

lá é uma piolheira.--E que o infante, quando lhe perguntaram:--Então em

Londres que tal, com aquelles principes todos?--Mal, mal... eu sou um

principe aza de mosca...

E acaba--é nas vesperas do jantar que lhe vão oferecer no theatro D.

Maria--por dizer:--Veja o senhor que desgraça a minha! Daqui a pouco não

posso fazer a caricatura de ninguem!

Efectivamente lá estavam no banquete todos os homens imponentes, os

conselheiros, os politicos decorativos, a serie completa das figuras do

_Antonio Maria_. Não faltou ninguem á chamada. E nos camarotes

aplaudiram-no com delirio as lisboetas palidas de que troçou em tantas

paginas de genio. Confundiram-no e arrazaram-no. Creio que foi a

primeira vez que perdeu a linha.

Gostou sempre de fazer partidas. É o Schwalbach que conta:

--O imperador do Brazil logo que chegava ao theatro metia-se no

camarote, descalçava as botas e calçava com regalo uns chinelos. Uma

noite o Raphael, que estava então no Rio, foi pé ante pé, meteu a mão

pela cortina e roubou-lhe as botas. O pobre homem não se desconcertou:

sahiu em chinelos, atravessou em chinelos a multidão, saudando para a

direita e para a esquerda, desceu ao pateo, e meteu-se em chinelos na

carruagem.

Dezembro--1900.

Latino Coelho, contado por Maximiliano d'Azevedo:

Tinha coisas absurdas: estava sentado a conversar e levantava-se sem

mais nem menos, compunha a trumpha, e ia espreitar á janella. Era todo

de enguiços. Nunca sahia de dia. E que memoria! Dizia-se-lhe qualquer

banalidade, e elle, d'ahi a mezes, repetia-a palavra por palavra.

Discursos que revelam o conhecimento inteiro d'uma epocha, como o de

Camões, que leu na Academia, e que foi escripto das sete ás onze da

manhã, e lido ao meio dia, compunha-os com extrema facilidade.

D'uma vez estava elle em casa politicando com alguns amigos reformistas,

o Mariano, o Lopo Vaz e não sei quem mais. Discutia-se a revolução de

onze de maio. O Latino, dando um geito á trumpha, chegou á janella e viu

o carro, puxado a mulinhas, do Saldanha:

--Ahi vem o duque... E aposto que vem para cá.

Efectivamente o carro parou á porta. Era o Saldanha. O Latino foi

recebel-o n'outra sala, e, depois dos cumprimentos habituaes, o Saldanha

perguntou-lhe:

--Sabe a que venho? Venho saber a sua opinião sobre o dia de hontem.

--Mas não tenho opinião nenhuma...

--Não se recuse, Latino. Peço-lho como amigo.

--Então, marechal, deixe-me dizer-lhe que quem como V. Ex.^a conquistou

um nome glorioso com a espada, não deve servir-se da canalha para fazer

o que fez. A sua situação é deploravel.

--Não me diga isso! E se eu aproveitasse a situação para firmar de vez a

liberdade em Portugal e salvar o paiz?

--Se V. Ex.^a quizesse...

--Mas é que quero, e para isso venho ter comsigo.

Combinaram que o Latino redigiria os decretos ampliando as liberdades

publicas, tornando-as efectivas, e convocando constituintes com poderes

amplissimos.

--O maior segredo...--recomendou o Latino.

N'essa noite não dormiu. Acompanhado d'um amanuense do ministerio,

redigiu os decretos, que no dia seguinte o proprio Saldanha foi buscar,

metendo-os dentro da pasta. Mas fosse que os amigos que lá estavam em

casa tivessem desconfiado; fosse que o Saldanha désse á lingua, o que é

certo é que o rei foi prevenido a tempo por alguem que lhe disse:

--O Saldanha vae trazer-lhe uns decretos. V. Magestade não os assigne ou

está perdido.

Quando o Saldanha chegou ao Paço o rei abraçou-o:

--Pois o duque ajudou a conquistar-me o throno e não quer que meus

filhos reinem? Nem talvez eu chegue até ao fim da vida no poder...

Saldanha que era um fraco recuou. D'ahi a dias encontrou-se com o Latino

que lhe disse:

--V. Ex.^a não podia deixar-me dormir a minha noite socegado?

Por trez vezes, conclue Maximiliano, o Latino me contou isto. Já tenho

querido descobrir os decretos. Devem estar em casa do irmão, n'um quarto

interior, onde a traça vai roendo os papeis do grande escriptor...

* * * * *

Um dia o Saraiva de Carvalho foi propor a revolução ao Latino:

--Mas ha-de ser tudo assassinado--toda a familia real.

--Isso não!--protestou logo o Latino.

* * * * *

Morreu virgem, como Newton. No dia de sua morte, estava o cadaver na

cama, apenas coberto com um lençol. Alguem disse para o Maximiliano:

--Bastaria arrancar aquelle lençol para descobrirmos o segredo de toda a

sua existencia.

* * * * *

Junqueiro dizia de Latino:

--Sim, é um homem admiravel, que em logar de c... tem duas castanhas

piladas!

Maio--1903.

Um jornal publica hoje esta noticia:

POVOA DE LANHOSO, 29--Faleceu, sepultando-se hoje, o sr. dr.

Joaquim da Boa Morte Alves de Moura, da freguezia de Santo Emilião,

bacharel formado em philosophia e mathematica pela Universidade de

Coimbra.

O povo apelidava-o de santo, pelas suas sublimes virtudes christãs.

Tinha 92 annos de edade; o falecido fôra frade agostinho.

O homem, a quem estas seccas linhas se referem, era na verdade um santo.

Deixou tudo para viver pobre, perto de S. Martinho do Campo, entre

cavadores e a gente humilde da terra que o adorava. Vi-o muitas vezes

passar na estrada, todo branco, minguado, com o burel, que nunca quiz

largar, no fio, e os sapatos rotos. Era efectivamente formado em

philosophia e direito, e até por vezes fôra convidado para lente da

Universidade de Coimbra. Recusou sempre, recusou tudo, preferindo a

convivencia com a gente do povo e com a natureza que o rodeava. Ha entre

as duas povoações, S. Bento e S. Martinho, que ficam á beira da estrada

da Povoa de Lanhoso, uma fonte que brota da raiz de uma arvore. Perto

fica a ermida. Alli se costumava o santo homem sentar, horas e horas

embebido nas suas meditações. Em que scismava? Decerto no passado

longinquo...

Lembram-se d'uma narrativa de Alexandre Herculano, que se chama, creio

eu, «O ultimo dia de convento?» Um frade chora ao deixar para sempre a

cella caiada, onde passou a vida inteira. É só isto, afóra a ternura, as

lagrimas, a prosa do grande escriptor. Assim D. Joaquim da Boa Morte

contava tambem as ultimas horas de convento. Velhinho, tremulo, vivendo

de esmolas, recolhido por caridade em casa de duas mulheres, que o

cuidavam, nunca esqueceu o convento, a cella, o dia de separação. E, ao

pé da arvore, junto ao fio limpido d'agua, lhe ouvi mais d'uma vez

contar o que sofrera.

--E dos seus companheiros lembra-se? Teve mais tarde noticias?

E elle, com os olhos razos de lagrimas:

--Viveram ainda dispersos por esse mundo. Ha annos, ha muitos annos,

recebi, dum d'elles um recado, esta palavra:--«Adeus!» Foi o ultimo!

Agora acompanhava-o sempre um rapazinho. Com a vida, ia-se-lhe desfeito

o burel, rôtos os sapatos. Deixára de dizer missa, mas o povo d'aquelles

logares, que é ingenuo e crente, consultava-o nas suas doenças e nos

seus sofrimentos. É que D. Joaquim fazia milagres. Excusam de sorrir...

O milagre é uma comunicação entre pessoas que têm radicada e viva esta

força enorme:--a fé. D. Joaquim da Boa Morte curava as creaturas

simples, as mulheres, as creanças e os homens da serra que o iam

visitar, com boas palavras, e, quando muito, com alguns cachos de uvas,

que elle proprio colhera e lhes distribuia, depois de benzidos.

Antes de morrer pediu que o enterrassem embrulhado na manta coçada que

pertencera a sua mãe e que alli tinha no fundo da arca. Essa velha manta

como eu lh'a invejo! Era n'um farrapo assim, com um resto de calor e de

ternura, que eu queria ir aconchegado para a terra. Nem a eternidade das

eternidades, nem o isolamento, nem o frio dos frios, conseguiriam jamais

trespassal-a.

Que descance em paz. Quem escreve estas linhas deve-lhe uma das maiores,

mais elevadas e puras impressões que tem recebido na vida. A sua grande

figura só desaparece da terra, depois de ter feito muito bem e estancado

muitas lagrimas.

Julho--1903.

O Silva Pinto a respeito do Cardia, que ha tres dias, em plena mocidade,

meteu uma bala no coração:

--Eu não faço como elle, não me vou embora, porque tenho duas creanças,

o Mario e o Raul. Era de certo a isto que o Manuel se referia ao

escrever: «Não faço falta a ninguem». Isto atura-se lá a sangue frio e

determinadamente! Matava-me para me ver livre d'estes bandalhos!

E os olhos enchem-se-lhe de lagrimas, arrasta a perna apegado á bengala,

e sacode a cabelleira branca. Parece um trapo ameigado, mas resistente

ainda:--Arre bandidos!

De repente, sem transição, põe-se a rir:

--Sabe de que me rio? Lembrou-me o Camillo, que tinha uma lingua

viperina e dizia mal de toda a gente. Um dia em Seide falei-lhe n'este e

naquelle, disse mal de todos. Por fim:--Sempre me refugio em Victor

Hugo, para ver se você tambem diz mal d'elle...

E o mestre:

--Esse velho não era nada tolo!

Ri-se. Depois fica outra vez triste:

--Aquellas paginas de Hugo quando o avô vê entrar o neto ferido pela

porta dentro!

* * * * *

O Fialho descrevendo o Cardia, esse rapaz ingenuo, insinuante e

espontaneo, que aos dezanove annos se lembra de estourar o coração com

uma bala, por causa d'uma reles cantora de quarenta e dous annos--o

Fialho diz:

--...era isto e aquillo e uma mão enorme atirada p'ra aqui e p'ra acolá

a toda a gente, apertando a nossa.

O que nunca mais me esquece são aquelles olhos tristes e a bocca moça

sempre a sorrir!...

Fevereiro--1904.

Hoje almoço em casa do Schwalbach com o Bulhão Pato, o Camara, João

Chagas, Antonio Bandeira, etc. O Bulhão Pato é um homensinho secco e

resistente, de cabeleira e pera branca--miniatura do alentado Pato

caçador que todos nós imaginamos ao ler-lhe algumas paginas. Parte no

dia 20 para S. Miguel, de passeio... Quando morrer desaparece com elle

toda uma epocha:--Meu rapaz podes ter lido todos os philosophos, que se

não tiveres sentimento... Minha mulher, uma velhinha lá fica... Não vae

comigo, porque recolhemos em casa uma pequena pobre, pobrissima, e

queremos-lhe como se fosse nossa filha. Sentamol-a á nossa meza... Bem

sei que ha por ahi uns moços que dizem mal de mim. Não me importo.

Quando vejo um rapaz de talento abro-lhe logo os braços.

No fim do almoço, beija a mão ás senhoras. Conviveu com o Herculano,

ouviu-lhe dizer:--Isto dá vontade de morrer! «Que faria--accrescenta--se

vivesse hoje!»--O Conservatorio lembra-lhe o Palmeirim--«que foi da

minha creação»--É simpathico, vivo e cheira a outros tempos: conserva,

como o linho guardado no fundo d'um armario, o perfume da maçã. E que

contraste com os outros, com o Chagas, com o Schwalbach, sempre aflicto

e sempre despreocupado, com o Antonio Bandeira, que, sob uma aparencia

futil, é pratico como o diabo, e que conta que foi uma noite em Roma,

com alguns portugueses, mulheres e guitarras, bater o fado para as

ruinas do Colyseo! Depois, por _blague_, sustenta com o Chagas, que

ninguem devia ter mais de duzentas e cincoenta grammas de principios.

Março--1904.

Encontrei hoje o Marcellino Mesquita: ventas largas, marcas de bexigas,

barba com muitas brancas aparada rente, chapeu desabado, capinha curta e

olho vivo. Tipo crestado do sol, materialista e secco.

--A gente quando chega a certa edade tem de se isolar para não viver

n'uma perpetua irritação. Olhem agora se eu encontrava o Pequito

ministro, o Pequito de quem a gente fazia troça em rapaz! E muitos

outros, que aos quarenta annos começam a desafinar-nos os nervos... Vivo

no Cartaxo, n'um descampado: a quinta fica entre duas estradas. Não

passa lá ninguem... Leio, fumo, e trabalho. Tinha um moinho; primeiro

acrescentei-lhe uma cozinha, depois um quarto: agora tenho lá uma casa.

E já não posso viver sem o ruido das mós. O meu quarto fica mesmo por

cima. D'aqui a oito dias, com as macieiras em flôr, aquillo é

adoravel...

Abril--1903.

Vi o Marianno nas camaras. É um cadaver, com uma sobrecasaca riquissima

de gola de veludo. Nunca phisionomia exprimiu maior cansaço, indiferença

ou desprezo, a palpebra cahida, o olhar vazio de expressão.--Que me

importa! que me importa!...--Parece um morto, farto de sofrimento e de

goso, e, sob aquella apparencia de sceptico raros se magoam como elle.

Toda a vida tem sido ludibriado. Contam que a mulher passa horas a

descompol-o. Elle, sentado, escreve tiras e tiras de papel, a tarefa do

jornal, sem dizer palavra nem levantar a cabeça. D'uma vez chamou-lhe

tudo quanto lhe veio á bocca, e elle inalteravel, curvado sobre os

linguados, sem lhe dizer palavra... Por fim ella, desesperada,

berrou-lhe:

--És um estupido!

Elle então parou, ergueu a cabeça, e muito calmo:

--Teem-me chamado tudo, mas estupido é a primeira vez!

E continuou a escrever.

Por fóra uma aparencia de sceptico, por dentro uma sensibilidade enorme.

Anda sempre metido em complicações e negocios, em caminhos de ferro, em

pedaços de Africa, bahia de Lobito, etc., e afinal não passa d'um

sonhador que tem as propriedades de Azeitão hipothecadas em quatorze

contos de reis.

Setembro--1903.

O Antonio José de Freitas, homem de lettras mediocre, é um conversador

admiravel. Se conseguisse escrever como fala, e désse á prosa aquella

vida que dá á palavra, seria um grande escriptor. Pequeno, branco, na

ponta dos pés, sempre a segurar as lunetas, todo elle nervos:

--Dei-me muito com o Castello-Melhor. Um dia começou a imaginar que

estava pobre, porque no Banco de Portugal lhe não quizeram, como sempre

se fez, descontar uma lettra só com o nome d'elle. Disse ao Barros

Gomes:--Vae beber da merda!--E sahiu furioso. D'ahi começou a imaginar

que tinha cahido na pobreza e alugou o jardim para o circo Whytoine. Uma

vez sahi com elle d'um baile pela madrugada e acompanhei-o a

casa.--Sobe.--Tenho ainda que escrever para o Brazil...--Insistiu,

subi--e eil-o a clamar no quarto:--Que diriam meus avós se vissem alli o

circo e os palhaços!...--Estava desesperado. Descompul-o.

Passaram-se annos e morreu de repente. Vestimol-o n'aquelle mesmo

quarto, e, altas horas da noite, ouvimos, de repente, um clamor: era o

circo Whytoine que ardia. E eu assisti ao espectaculo do cadaver,

iluminado pelo clarão do incendio, alli onde o ouvira evocar com

desespero os seus mortos. Foi tudo ao enterro. O povo abria alas, e

quando chegamos ao cemiterio e quizemos pegar no caixão, veio de roldão

uma chusma de cocheiros e vadios, que nol-o arrancaram das mãos, e,

erguendo-o no alto dos braços, levaram-no até á cova...

* * * * *

--O Eça usou toda a vida bentinhos ao pescoço. Vi-lhos eu, que dormi por

diferentes vezes com elle no mesmo quarto...

* * * * *

Depois fala no Resende:

--Se vivesse era decerto o chefe do partido conservador. Que homem

encantador, polido e sceptico! E tinha uma poderosa ascendencia

magnetica sobre nós todos. O medico, já quando elle estava muito mal,

recomendou-lhe ares do mar. Passeava n'um bote no Tejo. Umas vezes ia eu

com elle, outras o Soveral, e levavamos-lhe botijas com agua quente,

porque sentia sempre um frio mortal. Estou a ver o Soveral, com uma

botija em cada mão. O _Rabecão_, um jornal de caricaturas do tempo,

disse que nós iamos emborrachar todas as noites para o rio. Muito nos

rimos... Pois o Resende, atheu toda a vida, morreu como um crente.

Foi elle que se esmurrou com o Eça n'uma das piramides do Egypto. Nessa

viagem ouviram ambos missa no tumulo de Jesus, em Jerusalem. O Eça cahiu

logo de joelhos; quando levantou a cabeça para ver o quadro, dois ou

trez mil peregrinos tinham como elle ajoelhado sob o mesmo impulso

irresistivel: só a seu lado, de badine e sobretudo no braço, se

conservava de pé, sem perder a serenidade nem a linha, um unico homem: o

Resende.

* * * * *

Os _vencidos da vida_, depois que se juntaram diziam mal uns dos outros.

Não se podiam ver.

Março--1900.

Ha mezes que Junqueiro não aparecia na Praça, onde outrora era certo á

noite, rodeado de esbirros, e discutindo politica ou arte com alguns

amigos mais intimos. Eil-o agora de volta, depois de umas febres

palustres apanhadas n'essa longinqua quinta que replanta de vinha lá

para a Barca d'Alva.

Vem curioso. Teem por acaso os senhores noticia d'um Junqueiro adunco e

janota, mephistophelico, com ditos em braza explodindo sobre o ultimo

acontecimento, e conhecem talvez a lenda da casa de hospedes celebre da

rua dos Retrozeiros, d'onde em tempos sahiram gritos subversivos,

pamphletos, versos, theorias philosophicas, satyras e revistas do anno,

e onde--consta dos archivos da policia--morou o proprio Diabo em pessoa,

na intimidade do poeta?... Lembram-se? Depois, n'outra phase da vida,

viram-no talvez autoritario e feroz, com o mesmo perfil em bico d'aguia,

sob um chapéo molle e gasto, atacar o velho Padre Eterno?... Pois ahi o

teem agora philosopho e christão. Parece um prégador

socialista-tolstoiano, um santo cavador, de barba negra e inculta: traz

ainda terra pegada nas mãos e uma roupa velha, a que só faltam alguns

remendos cosidos á ultima hora... Usa uma camisola de lã e diz

assim:--Eu não me visto: cubro-me.

Chega da Barca d'Alva, um terreno enorme lá para a raia, entre pantanos,

que reuniu leira a leira, depois d'uma scena, que dava um capitulo á

Balzac. É elle mesmo que a evoca em meia duzia de traços, e a gente vê

logo d'um lado os cavadores tartamudos e hesitantes, do outro o Senhor

Poeta, como elles lhe chamam, com um livro de cheques na algibeira,

encafuando-os a todos na sala do cartorio:--Se chegam a concertar-se era

uma discussão para seculos. Pediam-me uma fortuna!--Um a um compareceram

diante do tabelião:--Quanto quer? Assigne!--E sahiam logo por outra

porta.

Já pouco a pouco a lenda se forma, discutindo-se a nova thebaida, que

d'aqui a annos será visitada como Valle de Lobos e Seide. Que procuram

os nossos grandes escriptores, desde Herculano a Fialho, na natureza,

que pouco nos dá em troca do muito que lhe damos? Afastar-se dos outros

ou esquecer-se a si proprios? Talvez as arvores e os montes nos preparem

melhor para o sepulchro e para o verme, ainda que eu julgue que não ha

como um 6.^o andar, com livros e papeis, e um cinematographo no rez do

chão, para acabar com a vida.

Seria um curioso estudo aquelle que comparasse Valle de Lobos, Seide e a

quinta de Junqueiro, a decoração escolhida por tres homens superiores--o

fundo de tres grandes retratos. Na Barca tem o poeta uma casota de cão,

com os muros ainda em osso, e uma varanda onde passeia todo o dia

infatigavelmente. De quando em quando escreve na cal da parede versos ou

contas. Seide, n'um cahir de tarde outomniça, lembra a alma de Camillo.

Ha lá um calvario d'arvores decepadas que parecem forcas. Ha lá uma casa

tragica, pintada d'amarello. Um ermo, que, a meia legoa da estrada, fica

ao cabo do mundo, e que parece escolhido de proposito para esconder uma

desgraça ou combinar um crime. Peor: ficou na casa abandonada, no

ambito, nas pedras, alguma coisa daquella alma dilacerada de sceptico e

de crente, mixto doloroso que só tinha como solução o infortunio. O que

se ouve são risos ou gritos de dor? Depressa! depressa!... Parece que

elle anda ainda por aqui, sardonico e immenso, desgraçado e immenso.

Valle de Lobos, se uma vez o avistaram, não emociona de uma forma toda

diferente, e não diz bem com a alma de Herculano?... Quanto a Junqueiro,

a sua paizagem querida é indubitavelmente a trasmontana, grave, revolta

e grandiosa como o seu genio.

Camillo não encontrou decerto resignação nas arvores, nem nos montes,

porque, para o mestre, em toda a natureza só o homem existia:--Não ha na

sua obra uma arvore, nota o poeta...--Nem Guerra Junqueiro por ora se

isola. Está na lucta, com os seus livros, as suas theorias, a sua

maneira suprema de discutir e de encarar os problemas do universo.

--Para viver na aldeia é preciso, diz elle, ser João Brandão ou S.

Francisco d'Assis.

De forma que a Barca d'Alva não é bem uma thebaida para o poeta. Os

senhores vão agora conhecel-o sob este aspecto novo--agricultor. A Barca

é-lhe mais que um refugio: é (palavras que fazem bater o coração de

todos os homens) o futuro dos seus filhos. E Junqueiro, agricultor, tem

ainda genio: inventa e descobre. Quatrocentos cavadores desbravam-lhe a

terra, que deve produzir um vinho magnifico. O mosquito propaga a febre.

O jornaleiro macilento bate o queixo com sezões. Elle ordena, dirige e

resolve as questões agricolas muito melhor que os lavradores da região,

de quem diz:

--Plantam vinhas, como quem joga na batota--ao acaso!

Ouçam-no! Desfilam os jornaleiros, que adquirem logo uma vida

extraordinaria, as boccas que não falam, a Maria Colhôna, que tem filhos

de toda a gente, filhos para o Brazil, filhos para soldados, filhos para

a desgraça, os sêres deformados e enormes, os tipos que se transformam

em simbolos... Descobriu um novo processo para evitar que a enxertia,

essa operação cirurgica, como elle lhe chama, falhe, e, sob as suas

ordens, trabalham alguns centos de homens, que se encostam ás enxadas

para ouvirem o Senhor Poeta... Não é raro vel-o subito, tempo humido,

perigo para as vides, abalar para a quinta com saccos de sulphato.

Adivinha, presente melhor a natureza que os sabios--e cria. Tudo o que

toca toma sob as suas mãos um aspecto novo, tão certo é que os homem de

genio, como quer Carlyle, são sempre superiores e ineditos.

E de que maneira paradoxal elle expõe as suas theorias! Nervoso,

pequeno, calcando o lagedo da Praça, a mordiscar a ponta do charuto, que

giganteas formas de sonho não vae creando aquella magica palavra!... A

sua phantasia é eminentemente decorativa.

--Sabem--dizia o poeta uma noite--sabem que scismo na fórma de

transformar toda a agricultura? Acabaram-se os pobres, a fome, os annos

tristes! Para o vinho, d'aqui em deante, não bastarão toneis como torres

e para o pão arcas como predios. Uma carrada de bois será apenas

suficiente para carregar uma abobora, e um simples cacho de uvas dará

vinho para duzias de borrachões. Como? Aplicando ás arvores, ás vides,

ás plantas emfim, o methodo de Brown-Séquard. O sabio dá a um organismo

gasto uma vida assombrosa, injectando-lhe a vitalidade de coelhos.

Calculem o resultado d'esse sistema aplicado na agricultura...

Um castanheiro dura seculos, tem uma vida extraordinaria. É mais que uma

arvore--é uma força. Apodera-se dos montes. As suas raizes alastram, os

seus ramos tocam no céo. Imagine que injecto polen de castanheiro n'uma

vide... Obtenho logo uvas como as da Terra da Promissão. D'um pé de

melancia tiro um fructo capaz de carregar um carro. Tres maçãs metem no

fundo uma náu.

E eis, por uma noite de invernia, a natureza transfigurada, pelo poder

da phantasia e do sonho. Flores são arvores abrindo lá em cima no céo em

parasoes roxos; pinheiros transformam-se em montanhas; monstros erguem

as suas corolas de veludo, e na verdade não passam de humildes flores

bravias. Uma petala desaba com o fragor de penedos, e multidões sobre

multidões sequiosas veem dessedentar-se n'este fructo colossal:--o

morango. Ha que tempos que eu erro perdido n'esta floresta monstruosa de

papoulas!...

Junqueiro na intimidade é prodigioso de genio, de imprevisto, de

elevação. Vê os factos mais simples com um olhar que os engrandece.

Assombra de pitoresco e de inedito. O homem de genio é, como todos os

homens, filho da mesma lama, mas, por acaso, vão n'esse humus lagrimas,

aguas correntes, detrictos de florestas, restos de nuvens e a emoção

profunda da natureza. Por isso sabem tudo, sentem tudo... É pena que as

suas conversas, os seus fragmentos, esses pedaços de sonho e de vida,

atirados com febre, perdidos, e decerto esquecidos, se não possam

juntar, porque dariam um dos aspectos mais extraordinarios do seu genio.

Seria esse talvez o seu melhor livro. Assim, por exemplo, as cathedraes

de Hespanha, onde Jesus está preso e a ferros, a explicação prodigiosa

dos Christos de madeira--o Christo dos soldados, o dos ladrões, o dos

cavadores, da sua sala de jantar, unicas obras d'arte de que não quer

desfazer-se, e a sua philosophia, a maneira superior como encara o

universo e ilumina o desconhecido...

Pois ahi o teem de novo no Porto, de barba hisurta, embrulhado n'um

casaco coçado, com um ar iluminado de Santo. Direis que vae prégar ás

multidões. Demais já ha annos que elle escrevia:

Tolstoi o meu sapateiro...

E um dia, ao saber Camillo sceptico, Camillo com noites de sombrio

desespero, palpando a coronha do revólver, não foi de proposito

procural-o para lhe prégar Deus?

Era n'uma dessas tardes tragicas de Seide, de que o grande escriptor

fala nos _Serões_. A natureza chorava revolvida: a acacia de Jorge

batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem é que o chama? Atormentado de

dores, ouve vozes, vê phantasmas, e sae do horror com blasphemias e

sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na dolorosa tinta do

crepusculo, com a pala com que escrevia sobre os olhos, absorto, calado,

desesperado, o rosto marcado de dedadas, «esboçado n'uma argila côr de

mel», segundo o retrato de Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo... O poeta

tenta arrancal-o ao negrume que o envolve: desenrola theorias,

explicações, argumentos; ataca-o a fundo, persuade-o talvez... Já o

julga abalado e convertido, quando d'essa figura só osso e dor, saem

emfim estas palavras ironicas:

...--Sim, sim, Junqueiro, você convencia-me se eu não tivesse ainda no

estomago, desde o almoço, tres bolinhos de bacalhau, que me estão aqui

como tres Voltaires.

Março--1904.

Veiu a Lisboa acompanhar, por solidariedade, os lavradores do Douro, o

poeta Guerra Junqueiro. É outro homem, que perdeu talvez em

exterioridades mas ganhou em funda emoção. Tendo-se-lhe um dia deparado

universaes interrogações no caminho; tendo encontrado frente a frente,

ao meio da vida, idéas abaladoras, que só o homem de genio pode encarar

sem o pavor e o deslumbramento que o grande mistério comunica--as raizes

do universo--elle mudou de rumo, tão simplesmente como se praticasse o

acto mais banal da existencia. Sendo já um dos maiores poetas da

Europa--quiz ser tambem um santo... Durante annos procurou como Fausto o

segredo da vida no fundo dos laboratorios. E n'outra phase do seu

espirito decorativo tendo entrevisto, pelo poder do genio, novas veredas

a tentar, seguiu-as, fazendo experiencias que a sciencia d'hoje

plenamente confirma.

Guerra Junqueiro está na mesma: alguns fios brancos a mais na grande

barba de santo, começo de calva amarelada no alto da cabeça, chapéo

baixo, uma simplicidade de trajo que vae bem com a simplicidade

verdadeira ou ficticia da sua alma. E sobre isto os olhos terriveis que

nos fitam e nos adivinham até ao fundo. A conversa é prodigio que evoca,

ilumina, toca em todos os problemas da vida, dando-lhes uma grandeza e

novos aspectos que entontecem.

Fala-se a proposito de um livro, e elle diz, não palidamente, nem

decerto com as inexactidões com que reproduzo, o seguinte:

--É um livro interessante. O autor conseguiu deixar falar a parte de

inconsciente que cada um de nós traz comsigo... Porque, meu amigo, a

porção de infinito que cabe a cada homem é exactamente a mesma. O

camiseiro alli defronte e um homem de genio teem na alma identico

quinhão. Sómente o camiseiro não consegue encontral-a nem pode

exteriorisal-a. Porque? Porque só pensa em camisas. O homem é o universo

reduzido... Que cada um pudesse deixar-se narrar--e teriamos a mais

maravilhosa historia do mundo!...

E como incidentemente se refira á sciencia, eil-o que se desvia por

outro esplendido caminho:

--As ultimas descobertas modificaram completamente a sciencia. Foi um

terremoto. E eu entrevi isto mesmo: ha annos que chegára ao seguinte

resultado:--radiação universal e desassociação dos atomos. Fiz

experiencias, que me deram resultados incompletos, procurei homens de

sciencia que não me quizeram atender. Um dia vim de proposito a Lisboa

falar a Sousa Martins e expuz-lhe as minhas theorias. Ouviu-me... Quando

me fui embora encolheu decerto os hombros. E no emtanto, passados annos,

vejo confirmado experimentalmente tudo o que eu previra... Que quer?...

Faltavam-me como comprehende os meios de verificação. Precisava de

factos.

[Figura: _D. João da Camara._]

Cala-se um momento e depois continua:

--Hei-de publicar, depois da _Oração á luz_, que sae brevemente, uma

serie de memorias, com os resultados dessas experiencias. A vida--é o

Amor e a Dor. Procurar as suas leis eis tudo. Seguir-se-ha a minha

theoria philosophica. Adivinhei todo este terremoto que se deu

ultimamente na sciencia. Hoje a materia não existe: já a

definem--associação d'energias. O que é feito dos materialistas? A

sciencia futura será portanto o estudo de energias. Por ultimo

publicarei uma introducção á sciencia, visto que não posso escrever essa

obra: seria a revisão dos trabalhos de Spencer--a tarefa de toda uma

vida.

--E tem muitos documentos?

--Tenho tudo prompto. Necessito apenas de encontrar a fórma precisa, a

fórma mathematica, para exprimir as minhas idéas.

Incansavel. É de ferro. Pequeno e mirrado passeia horas e horas, a

conversar... Não conversa--monologa.

* * * * *

Da Barca d'Alva diz:

A minha casa de jantar tem uma meza e cadeiras de pinho. Depois de

comer, quando quero um palito, corto-o na meza.

* * * * *

Ramalho definido por Junqueiro:--um pinheiro com uma melancia em cima.

* * * * *

Junqueiro na redacção do «Mundo»:

--D'aqui a pouco reparto a minha fortuna com as minhas filhas e o que me

restar dou-o aos pobres.

* * * * *

Ha outro Junqueiro de que a caricatura se apoderou, o Junqueiro do

_bric-á-brac._ O Junqueiro que a má lingua do Porto afirma que percorre

disfarçado as ruas de Hespanha, com um burro pela arreata

apregoando:--Ha por ahi quem tenha louça para vender?--O Junqueiro que

foi procurado um dia no hotel, em Salamanca:--Está cá o grande poeta

Guerra Junqueiro?--Não conheço,--disse o porteiro.--Mas elle vem sempre

para aqui. É um homem de barbas...--teimou, explicou o outro.--Esse es

Guerra el antiquario!...

Mas até no Junqueiro caricatural algumas linhas são indispensaveis para

completar o retrato. Ha n'este grande homem uma mascara. Sinto uma parte

que se deve ao arranjo--e que é a inferior e outra em que elle obedece á

raça e que é a mais viva, a que tem raizes nos mortos. Melhor: o homem é

sempre um tablado onde varios phantasmas se despedaçam. Ha mãos que nos

puxam para o fundo, ha outras que nos procuram levantar cada vez mais

alto. Deus nos livre de julgar os mortos!

* * * * *

Junqueiro, de volta do Bussaco, indignado:

--E não aparecer um doido, com um grande martelo, que deite tudo aquillo

abaixo! Qualquer dia botam as arvores a terra e põem pedraria até á

Pampilhosa!

Dezembro--1907.

Encontro-o hoje em Lisboa, emagrecido, com um velho casaco comprado n'um

adelo, e muitas rugas, finas como linhas, ao canto dos olhos. E, como o

José de Figueiredo lhe fale no Rodin:

--É verdade, passei um dia inteiro com o Rodin, a explicar-lhe a sua

obra. Disse-lhe: você é um grande artista, mas exactamente, como em

todos os grandes artistas, a melhor parte da sua obra é inconsciente.

Porque em todos nós a razão é nada, o que é grande é o inconsciente.

Aquella cabeça que você tem no Luxembourg, emergindo da pedra--é assim,

é aquillo... Mas falta-lhe não sei quê de simbolico que ligue a cabeça á

pedra. Assim choca, é brutal. É como o _Pensador_, a estatua que está no

Pantheon. Toda a critica franceza tem tentado explicar aquella estatua,

e ainda ninguem disse as palavras necessarias. Eu lh'as digo: Aquillo

não é o _Pensador_, nem o _Pensamento_: é o primeiro pensamento em

cabeça de homem. Dispa você um tipo de verdadeiro pensador, Kant, o

Dante, por exemplo, e encontra um corpo deformado. Porque o pensamento

peza mais de que montanhas. Devora. O que você fez foi uma besta, um

gorilha, um homem capaz de arrastar calháos: Pois bem: inconscientemente

fez uma grande obra d'arte: o primeiro pensamento na cabeça d'homem.

Esse primeiro homem athletico, ao deparar com o primeiro pensamento,

essa flor abstracta, fica dominado, subjugado: cae-lhe o Atlas em cima e

esmaga-o... E adeus, são horas de partir para o comboio.

* * * * *

D. Carracida, professor de chimica biologica na Universidade de Madrid,

homem ilustre e que conhece perfeitamente a literatura portugueza, diz

assim de Junqueiro... (D. Carracida fala portuguez pausadamente).

--O senhor Junqueiro, grande poeta, é um mistico... Está agora no

misticismo. O senhor Junqueiro e eu passeavamos juntos no jardim de

Villa do Conde, de cá para lá--e o senhor Junqueiro prégava a piedade e

o amor. Uns rapazinhos acendiam balões para uma festa, e eu e o senhor

Junqueiro passeavamos de cá para lá... O senhor Junqueiro prégava a

piedade e o amor, e um dos balões cahiu na cabeça do senhor Junqueiro,

que levantou a bengala e deu com ella no rapazinho... E nós continuamos

a passear de cá para lá, e o senhor Junqueiro a prégar a piedade e o

amor...

Março--1903.

Fialho não é este janota de palio rico, com uma joia tão grande que

parece falsa na gravata de veludo. Fialho era outro estranho tipo,

intratavel e pobre, com o pêlo ralo e a bocca enorme cheia de sarcasmo.

Um principe de gabinardo, que fazia cahir as peças do alto do

galinheiro, a um gesto seu irrespeitoso. Seguia-o a malta atonita de

matulas suspeitos e jornalistas de ocasião, que deslumbrou de sonho e

atascou em sonho.--Fialho! Fialho!...--Esses aplaudiram-no e

amaram-no... Esquecidos do frio e da pobreza, não despregavam os olhos

d'aquelle sonho desconforme.--Fialho! Fialho!...--Depois sumia-se n'um

terceiro andar, ou procurava os pobres que não pedem: só a mão sae da

noite e implora. Havia uma velha--nunca mais me esquece--alli á porta do

Monte Pio, que fazia parte do muro alto e espesso, e a quem elle, ao

dar-lhe esmola, lhe afagava a cabeça... Depois, amargo, feroz,

insuportavel, eil-o tornava com sarcasmos, transtornando as figuras

decorativas, cheias de veneras, que á sua voz desatavam ás cambalhotas

como palhaços. Vi-o exasperado, vi-o atordoado de phrases, como quem

quer fugir ao proprio phantasma. Vi-o mergulhar n'uma absorpção

dolorosa, e desaparecer na noite em correrias que duravam até de manhã

pelos bairros escusos ou pelas azinhagas de crime, n'um debate perpetuo

de que sahia livido, exhausto, e com a mascara transtornada. Este que

fala do seu vinho:--Livros?... O que eu trato de editar é um vinhinho

branco lá de Cuba...--este, que vem, de quando em quando, a Lisboa

deslumbrar-nos com um novo e horrivel fato, é outro Fialho, que talvez

tenha saudades d'essa vida absurda de outros tempos...

Fialho! Fialho!... Pronuncio este nome e diante de mim desfila o

assombro, pamphletos, a obscenidade e o genio--farrapos arrancados a

ferro e tão vivos que mal ouso tocar-lhes--o estoiro d'uma bexiga

d'entrudo--ironia e esgares. E logo gritos! e agora gritos!... Ouço a

dor, sinto a dor, sinto-a sempre atravez da forma imprevista, d'uma

audacia e d'um rithmo incomparavel, escorrendo sonho, aflição, miseria,

sinto-a até nos impetos de máo gosto, nos pontapés aos leitores

surprehendidos e irritados. Está aqui diante de mim aquella bocca

enorme, aquella figura de gabinardo e chapeu molle que nas noites de

tristeza e abandono me dizia:--O que eu sofri! o que eu

sofri!...--Vejo-o sempre invejar o barqueiro louro e sardento, de que

fala nos _Gatos_, bello como um ephebo á prôa do seu barco.--Como eu

queria ter saude e ser forte!--Deu-lhe Deus o mais rico quinhão que

imaginar se pode, a lingua incomparavel para exprimir a chimera e a dor,

e, esse macaco sem fé, esbanjou-a com o mais absoluto impudor:

serviu-lhe para a chacota. Transtornou tudo, engrandeceu tudo, riu-se de

tudo. As descripções perderam a proporção, as figuras a realidade,

transformadas em figuras de dor ou de grotesco; a propria cidade

resurgiu a uma tinta livida de antemanhã, com a casaria a escorrer vicio

e aspectos tetricos... É isto sim, mas isto creou-o elle de pobreza e

desespero, creou-o de gritos que nunca ninguem lhe ouviu.--E maior!

ficou maior! A sua obra só tem outra que se lhe compare, a de Camillo.

Exigem-lhe um livro harmonico--_Os cavadores_. Porque é que toda a gente

reclama dos outros aquillo de que elles são incapazes? A obra de Fialho

não podia ser senão esta, aos arrancos e enorme. Fialho via os

pormenores atravez d'uma lente, e deturpava tudo, deformava tudo, dando

genio á propria obscenidade. Nunca conheceu Barjona, nunca viu Barjona,

e, com duas ou tres anecdotas, creou uma figura com um relevo que falta

ao mediocre Barjona da realidade. Precisou sempre de se exagerar para se

encontrar. Sacrificou o seu melhor amigo a um dito, é certo, mas começou

por se sacrificar a si próprio. Foi sempre o primeiro a sofrer. Houve

tempo em que alguem o definiu um doente com inveja das doenças dos

outros... Desatou então a gargalhar com lagrimas nos olhos. Perdeu o pé.

Arrancou as azas disformes ao Sonho e rojou-as com maldade no

enxurro.--Encharcou-as de lama e empoou-as de estrellas... O vestido

ficou mas era o d'um espectro... Não nos podemos medir todos pela mesma

craveira. Fialho tem de tudo na alma: a casa de hospedes, a existencia

reles d'estudante, a pobreza, as mil saburras, os pequenos nadas que

gastam, desgastam e transformam, e uma alma vibratil, um feixe de nervos

(capaz de tempestades que se domam com uma palavra) ligado a uma

enchente de sonho e a um orgulho doentio, como os que sentem dentro de

si, e o suportam, um mundo desconhecido e nunca dantes navegado. Fialho,

se o virassem do avêsso, escorria ternura... É tambem um timido capaz de

todas as audacias, e que sae da doença e do isolamento com desespero e

escarneo. Esta figura tão conhecida de todos nós, não é a exacta

expressão da sua alma. Ainda hoje ninguem se entende...

[Figura: _Eça de Queiroz._--Desenho de Antonio Carneiro.]

Silva Telles, por exemplo, conheceu um estudantinho aplicado e mediocre,

que se chamava José Valentim Fialho d'Almeida; ha ainda talvez quem se

recorde d'um moço de botica reservado e triste; e, o que é mais

extraordinario, de outro Fialho respeitoso, que não podia suportar o

exagero alheio, e d'outro, noctambulo e feroz, com risadas estridulas de

sarcasmo--e de outro, de outro maior, de outro espectro, que vem aqui

sentar-se a meu lado na sua tragica mudez. No fundo talvez tudo aquillo

fosse dor. No fundo, bem no fundo, quando irrompia n'uma phrase cruel,

não era aos outros que dilacerava, era a si proprio que se dilacerava, e

tão a serio que todos o viamos sangrar. Reparem: pouco a pouco a figura

range de dor. Arfa atravez da sua obra. É o filho do professor

d'instrucção primaria, d'aquelle homem severo, de quem dizia

baixinho:--O meu pae foi duro! o meu pae foi tão duro! Era um homem sem

ternura...--É o praticante de botica alheado e transido, o neto

deformado de cavadores, que inveja a sociedade distante, e que só aos

impetos se atreve a enchel-a de sarcasmos. Que inveja o grande

escriptor, o desgraçado Fialho, o homem de genio que passou a vida a

fazer chacota das veneras, das academias, das elegancias, dos grotescos

cobertos de patacos--que lhe faziam falta? Tanta tinta, tanto desespero

calcado e recalcado, tanta contradição e pobreza, e uma lucta de noites

e noites de que sae amarfanhado--e com paginas soberbas! Mas tu não vês

que no dia em que te roçares por elles estás perdido, como no dia em que

a cobra perde o veneno? Vae-se-te o melhor do teu genio...--Não, eu

rio-me, eu sofro...--Tantas paginas bellas!--Se soubesses como isso se

paga!--Então explica-te...--Não posso, não sei. Até dos idolos postiços

que deito abaixo me ficam saudades... Nem eu proprio sei o que

quero.--Pobre Camillo, que estoirou a cabeça de desespero, pobre

Anthero, exilado e em debate com uma sombra com que não podia arcar;

pobre Fialho, pobre cavador de genio, em perpetua discussão com os seus

mortos, em lucta comsigo e com os outros e no fundo um reverente--foi-o

sempre--sahindo em farrapos d'este inferno a que se chama a vida!...

Da sua existencia oculta faz parte uma figura de dor calcada e

recalcada, sobre a qual outra se encarniça com desespero. Talvez seja a

verdadeira... Contentemo-nos em fixar duas ou tres aparencias, apontando

n'este canhenho algumas anecdotas frivolas... Se elle podesse gritar

gritava ainda. D'essa figura contraditoria restam farrapos--mas que

farrapos! d'essa lucta suprema existem vestigios, que nunca encarei sem

espanto... Vio-o algumas vezes ao amanhecer, n'um 3.^o andar do Arco da

Bandeira, quando elle cahia exhausto sobre a banca de tortura, á luz

d'um candieiro de petroleo, com um frasco d'alcool ao lado e o cobertor

enrodilhado nos pés. A mascara livida estava de todo mudada. Era outro!

era outro! Surprehendi-o em noites, nos giros sem destino pela Graça,

pela Penha, pelo Monte--quando o seu dedo apontava boqueirões de treva,

tropeis de casaria, sitios ermos onde duas ou tres oliveiras torcidas se

ajuntam para concertar um crime, ou, peor ainda, nas horas de amargo

descalabro, em que, dorido e sem phrases, procurava fugir de si proprio

para muito longe. Não queria então que ninguem o seguisse nas caminhadas

que duravam até ao dia--elle e a dor, elle e a noite! Amigos,

silencio...

* * * * *

--O que eu sofri!--dizia elle.--Tiveram-me preso oito annos n'uma botica

alli na Bemposta, ao pé da Escola do Exercito, na idade em que queria

viver. Estragaram-me a vida, encheram-me de desespero. Quando me

soltaram não imagina a minha alegria! Podia ter sido outro... Ter saude,

ser forte!... O que eu sofri! D'uma vez, no _Reporter_, o Martins

mandou-me escrever um artigo sobre uma kermesse de fidalgas. Fui e fiz

uma troça, e elle rasgou-me os linguados na cara. Para me vingar,

tirando um bocado ás noites, escrevi um artigo formidavel para publicar

em folheto. Era na occasião em que essas peidorreiras arranjavam um

bazar para os pobres, que rendeu oitocentos mil reis. Ora eu descobri

por acaso um gallego, que se juntava com outros e tiravam todas as

semanas meio dia de ganho, para irem ao domingo ao hospital dar cigarros

aos doentes, penteal-os, cortar-lhes as unhas, untar-lhes a cabeça com

banha de porco. É um velho, de barba de passa piolho, que está sempre no

largo de Camões. Homem de poucas falas. Tratou-me mal. Tive prompto o

folheto em que comparava essas mulheres, cheias de snobismo, com

adulterios e infamias, com esse santo desconhecido... Imagine... Perdi o

artigo.

E depois, falando da mulher Oliveira Martins:--Não era a mulher que

convinha áquelle homem. E elle subordinava-se-lhe. Foi ella que o fez

confessar á hora da morte. Contou-me o Sousa Martins que a sacudira de

ao pé de si ao morrer...

* * * * *

Fala do livro _A Cloaca_, um d'estes livros que se sonham e nunca se

chegam a escrever:

O primeiro capitulo está feito: é uma festa da alta sociedade no

claustro da Batalha... Aproveito a epoca do Burnay e do marquez da Foz,

a lucta da finança, quando o Foz tinha palacios e o Moser carro a duas

parelhas. Deram-se festas esplendidas... Tenho as figuras todas, homens

de negocio e jornalistas, o Mariano e o Navarro... Um dia alugam um

comboio especial e vão dar uma festa no claustro da Batalha. É uma ceia

formidavel, com mulheres da grande roda, politicos, literatos, e, dentro

do claustro, entre a grandeza e a severidade d'aquellas pedras, caem de

bebados e mijam pelos cantos, nos tumulos. O principe tambem lá está,

com o conde de Maricas--fedes: no fim do banquete, á sahida, a babar-se,

escreve nas paredes monumentaes esta palavra obscena: p... Os outros

riem-se, as mulheres aplaudem. Fora a multidão apupa. Outro capitulo ha

de ser a noite em que os jornaes apregoaram em suplemento o escandalo

Foz e a sua prisão:--Foi n'essas horas--dizia a marqueza--que os

cabellos se me puzeram brancos da noite para o dia.

* * * * *

Nunca terminou outro livro _A Quebra_, que chegou a trezentas paginas

impressas, no editor Costa Santos. Tinha capitulos admiraveis. Acabou

por o inutilisar:--A minha dificuldade é a falta de proporções. Perco-me

n'um incidente, e quando mal me percato estou em quatrocentas

paginas.--Sei tambem que escreveu alguns capitulos d'_Os Cavadores_.

Talvez d'_Os Ceifeiros_ pertencessem a esse livro, em que elle queria

pegar no homem do campo e leval-o, sempre explorado, desde o baptismo

até á morte...

* * * * *

Inventou este nome para o conde de Arnoso, a _rainha Draga_, e diz do

retrato a oleo que o Columbano lhe pintou:

--O Columbano é tão cortezão que lhe poz um velho olho do Eça de

Queiroz.

* * * * *

Contemplando o cadaver do Cardia:

--Só aos quarenta anos é que se sabe o que é isto!

_Isto_ é a morte, á qual tem horror, assim como á velhice.

* * * * *

E falando a proposito do Cardia:

--Eu tambem sou assim... Ha dias em que ninguem me arranca seja o que

fôr da cabeça. Sinto a mesma impressão de vasio que o Cardia sentia.

Depois escrevo por impetos uma pagina, pedaços destacados que me matam

de desespero para ligar. E se não escrever logo, passadas horas já não

posso, não sei... Varreu-se-me tudo!

* * * * *

Está furioso com a inauguração do monumento ao Eça. No fundo nunca o

pode vêr: faltou-lhe o carinho, a consideração--e isso maguou-o

muito--que rodeou o grande escriptor dos _Maias_. Elle proprio diz:

ganhou sempre a trabalhar menos que um pedreiro. No jornaleco _A

Tribuna_ escreveu em dois numeros successivos, sem assignatura, as

seguintes notas com o titulo

Memórias · 第 13 / 45 题