Colombo embarca-se em uma, coberto com um manto encarnado, de espada em
punho e sustentando no outro braço o estandarte real de Castella e
Aragão. Os dous irmãos Pinzons descem para as outras duas. Rema-se para
terra. Os habitantes curiosos fogem para os bosques. Colombo salta:
ajoelha-se, rende Graças a Deus, beija o chão e derrama lagrimas de
alegria! Resoam os ares com canticos a Deus, em córos repetidos. Colombo
estende então a espada, levanta o estandarte, e, rodeado de seus
companheiros, declara a terra de posse e propriedade da rainha de
Castella e do rei de Aragão, e dá-lhe o nome de S. Salvador. Manda pelo
escrivão lavrar termo com todas as formalidades e jura aos Santos
Evangelhos que, na qualidade de almirante e governador em que se
considera desde aquelle instante, obedecerá escrupulosamente ás régias
magestades, que representa como subdito fiel e dedicado.
Todos saudam, applaudem o chefe, proclamam sua autoridade, e juram-lhe
egualmente obediencia.
Os naturaes da terra descoberta, notando a attitude tranquilla dos
invasores, vão perdendo os sustos, de que a principio se tinham
apoderado; sahem á pouco e pouco dos bosques, bem que se mostrem
bastantemente suspeitosos. Homens, mulheres, todos nús, de uma côr de
cobre, cabellos pretos e compridissimos, ás vezes pelo corpo, pelos
narizes e pelo rosto pinturas toscas com tintas differentes: talhe
ordinario e elegante!
Mais se confirma Colombo de que está nas Indias, porque Marco Paulo
dizia que a côr dos Indios não era branca como a dos Europeus, e que na
China, Japão e Tartaria puxava ella mais ou menos para o bronzeado e o
amarello. Como porém estavam nús? Como não via habitações, cidades, taes
e tão ricas como Marco Paulo apregoara?
Dirigiram-se para os gentios signaes de chamada, gestos de caricias,
mostrando-lhes bugigangas de pedrinhas, rosarios de contas, carapuças
coloridas. Posto que exprimindo palavras meigas e amigaveis, não eram
entendidos! Mas a pouco e pouco se foram os gentios approximando,
empunhando lanças pontudas de páo, e sem ceremonia recebendo os
presentes, que se lhes offertavam, e que pareciam alegral-os.
Ao cahir da tarde retiraram-se os hespanhóes para bordo das caravellas;
no dia seguinte viram, antes de desembarcarem de novo, numerosos
gentios nadando á roda dos navios e batendo palmas, como para saudal-os,
e muitos em canôas compridas ou pirogas movidas com remos. Traziam de
terra bolos ou pães de mandioca, que offereceram aos navegantes europeus.
Estavam travadas as relações. Voltaram á terra os hespanhóes. Perceberam
então pequenos ornamentos de ouro, de que os gentios usavam, e que
trocavam por bugigangas, rosarios e carapuças. Colombo prohibiu logo o
trafico do ouro, por pertencer á Corôa por seu contracto.
Perguntou-lhes por signaes onde estava o ouro, e elles apontaram para o
lado do sul. Havia, pois, terras ao sul, e nellas ouro. O ouro era o
principal incentivo dos aventureiros.
No dia 14 reconheceu o almirante, embarcado em uma chalupa, as costas da
ilha, e viu ao pé uma outra pequenina, que hoje se chama Whattling, e
que era a que mostrara-lhe a luz, por elle percebida na noite de 11.
Arvoredo espesso, excellentes aguas, praias faceis, e umas pequenas
aldêas nos bosques.
Tomou o almirante a seu bordo sete gentios, na intenção de ensinar-lhes
castelhano e servirem elles de guias e interpretes. Prestaram-se-lhe de
boa vontade, convidados com caricias.
Deixou a ilha de S. Salvador e seguiu rumo do sul, e o mais lindo
panorama se lhe desdobrou então aos olhos. Numerosissimas ilhas
salpicavam os mares. Penetrava-lhe pelos sentidos um aroma agradavel dos
bosques.
Cada vez mais acreditava Colombo que estava nas Indias, porque Marco
Paulo declarara que o Cypango continha uma enorme quantidade de ilhas,
abundantes de especiarias e arvores odorificas.
Em uma desembarcou, dando-lhe o titulo de Conceição, povoada como S.
Salvador; depois em outra que chamou Fernandina; logo após em uma
terceira, cujo aspecto o inebriou, e por isso lhe poz o nome de Isabel;
o mesmo espectaculo presenciou em todas: estavam cobertas de arvoredos
gigantescos, eram habitadas por gentio manso e tranquillo.
Passando pelo meio dessas ilhas numerosas proseguiu para o Sul, apontado
pelos guias gentios de S. Salvador: chegou a uma terra immensa, e
desembarcou em um excellente porto ao Norte, onde corria um rio copioso,
por cujas aguas foi subindo facilmente.
Maravilhado do esplendor e magnificencia da terra, dos passaros
multicores, das plantas que avistava, dos pinheiros e arvores
fructiferas e desconhecidas pelos Europeus--exclamou:--Eis os Campos
Elyseos! Não será Cypango?--Era a ilha de Cuba que elle descobria, e que
intitulou Joanna, por ser este o nome da Princeza hespanhola filha de
Isabel e Fernando.
Viu maior quantidade de ouro nos ornamentos dos gentios, mas não lhes
entendeu a linguagem; nem o Arabe nem o Chaldeo fallavam! Pelos signaes
com que elles respondiam mostrando-se-lhes ouro, atinou logo que o ouro
vinha do paiz que estava mais ao Oriente. Viveu perfeitamente em paz com
os indigenas de Cuba, e gastou dias em reconhecer parte das suas costas
do Norte. Duvidoso si estava em ilha ou em continente, entendeu
todavia não lhe ser util perder tempo em examinar a terra, preferindo
continuar até que deparasse povos civilisados e ricos, e que por
emquanto não encontrava.
Deixou Cuba portanto, e seguiu rota para o ponto designado pelos gentios
da terra, sempre que se lhe fallava em ouro. Navegou para ESE. No dia 5
de dezembro achou-se defronte da ilha do Haity, que denominou
Hespanhola, e que é tambem conhecida pelo nome de S. Domingos.
Estudemos agora, ainda que succintamente, a geographia e topographia
destas localidades, afim de colhermos maiores esclarecimentos que bem
elucidem as peripecias do descobrimento.
Entre a ponta da Florida aos 25 gráos de latitude Norte e ás bocas do
rio Orinoco aos 9 gráos, estreita-se a terra Americana pelo lado
occidental, e forma então um isthmo, que se estende entre os dous
grandes continentes, abrindo pelo Oriente uma larga bahia chamada das
Antilhas, no fundo da qual ao occidente se escondem golphos
importantes como o do Mexico, de Honduras, de Darien e outros. A bacia
que mais propriamente se appellida mar das Antilhas contém em seu seio
as ilhas de Cuba, Jamaica, Haity; e na parte de Léste onde se confunde
com o Atlantico é toda fechada por uma muralha ou linha quasi symetrica
de ilhas maiores ou menores, chamando-se as situadas ao norte Lucayas,
que pertencem ao grupo septentrional, e as do lado do sul Caraibas. Por
entre as do Norte penetrara Colombo quando descobriu S. Salvador.
Está o Haity quasi aos 20 gráos de latitude Norte. É ahi que Colombo
mais encantos encontrou, e foi a ilha que elle mais amou e sempre
preferiu em sua estima. O clima, o sólo, as florestas, as flôres, os
fructos, a posição, as minas de ouro que desde o principio ouviu dizer
existirem nas montanhas do interior; todas estas circumstancias
affeiçoaram-lhe sympathia particular. Durante sua vida considerou-a como
a ilha de Offir, onde reconta a Biblia que Salomão mandava navios buscar
ouro. Colombo morreu na convicção que era o Haity a ilha indiatica
do Offir.
Tratou logo Colombo de firmar pazes com os gentios, e de fundar ahi o
dominio hespanhol, como em um centro que lhe abrisse as relações para as
Indias quer insulares, quer do continente asiatico, que perto devia
achar-se, segundo seus estudos e calculos.
Mostravam-se os gentios, seus habitadores, amigos e innocentes como os
das outras ilhas que visitara; menos selvagens, todavia, porque
observavam-se entre elles signaes de cultura de algodão, ainda que
agreste, caminhos traçados atravez dos bosques, e aldêas regulares
edificadas.
Com um cacique respeitavel chamado Guanacaguary abriu relações,
presenteou-o, visitou-o, recebeu-o a bordo, e banqueteou-o agradavelmente.
Infelizmente na noite do Natal, descuidos dos officiaes de quarto
deixaram a sua caravella arrastar-se pelas correntes impetuosas das
costas, e ella enterrou-se em areias, de onde os mais diligentes
esforços não puderam arrancal-a. Perdida, naufragada assim a _Santa
Maria_, seus tripolantes desembarcaram parte, e parte com Colombo
transferiram-se para a _Nina_.
Encontrou Colombo em Guanacaguary auxilios para o salvamento de tudo que
havia a bordo do navio naufragado. Cuidou incontinenti de estabelecer
uma fortaleza, a que deu o nome de Natividade; nella depositou algumas
peças de artilharia e gente destinada á guarnecel-a, e dispoz-se a
voltar para a Hespanha, afim de levar noticias de seus descobrimentos e
viagens, e pedir reforço de homens, com que pudesse sustentar e
continuar suas conquistas.
Não queria deixar S. Domingos sem que alli permanecessem hespanhóes como
nucleos de povoações futuras, defendidos pela fortaleza levantada e
ligados em sympathia com os gentios. Convinha impôr a estes estima e
respeito, de modo que quando regressasse de Hespanha para S. Domingos
pudesse livremente proseguir em suas emprezas maritimas.
Muitos marinheiros hespanhóes, agradados do clima e do gentio,
prometteram-lhe ficar em terra. Era uma necessidade imperiosa, porque as
duas caravellas, que sobravam, não podiam conter a equipagem das tres,
que commandara, tanto mais que perdida fôra a maior. Ouviu, pois, com
grande prazer que acceitassem quarenta hespanhóes a proposta de
occuparem a fortaleza, durante sua ausencia, e desde logo devotou-se á
idéa de partida.
Enlevou-se-lhe a imaginação em vôos altanados, em allucinações mysticas,
em projectos extravagantes. Não annunciara no seu jornal de bordo que
Isaias o amparava e impellia para espalhar por todas as partes do mundo
que encontrasse, a Religião do Crucificado? Não estava talvez
predestinado para augmentar a influencia da Egreja Catholica? Não
poderia egualmente arrecadar nos paizes conquistados riquezas taes, que
lhe facilitassem os meios de ir com um exercito poderoso salvar o tumulo
de Jesus Christo, e repôr e firmar em Jerusalém o culto do
verdadeiro Deus? Não era isto para elle um sonho; era um desejo, uma
ancia, uma inspiração do céo, que lhe parecia sorrir como idéa
realizavel, tão pratica e facil como fôra o descobrimento das Indias
Occidentaes. Afim de conseguil-o carecia, porém, de gente, de armas, de
soccorros de Castella, e era seu proposito, regressando á Hespanha,
enthusiasmar os monarcas e povos, e alcançar delles os recursos com que
voltasse habilitado para os mais grandiosos emprehendimentos.
Em Genova estava sua familia carnal, seu berço; Hespanha, porém, agora,
Hespanha que o coadjuvara nos seus heroicos designios tornara-se sua
patria de adopção, e por Hespanha e gloria de Hespanha convinha-lhe
sacrificar-se. Exaltado o espirito, inundava-se de visões; é assim
organizado o genio, inflltra-se-lhe um atomo de loucura, e realiza então
grandes feitos ou meritorios, e extravagantes actos que só brotam do
mysticismo das idéas que o dominam. Aquella atmosphera de Hespanha do
XVI seculo respirava o mysticismo, a allucinação, e não se podia
resistir-lhe. Colombo, que já se deve dizer hespanhol, Ignacio de
Loyola, Santa Thereza de Jesus, e tantos outros engenhos superiores,
perdem-se nessa abstracção de idealidade mystica, de arroubos
espirituaes de singular natureza, dignos entretanto da mais sincera
admiração!
Firme no proposito que amadurecera, fortifica seriamente a Natividade
com sufficiente artilharia; confia o presidio á quarenta homens, aos
quaes nomeia chefes, e deixa-lhes instrucções miudas para viverem bem
com os gentios, recommendações de muita prudencia e paciencia, e
affiança-lhes que voltará breve para o meio delles, trazendo milhares de
companheiros, e premios de preço pelos seus serviços e denodo. Com as
equipagens dos tres navios, se não conseguiriam as grandes emprezas que
agora começam; de Hespanha deverão vir os auxilios de gente para
leval-as ao cabo. Aos que ficam cabe mais honra e mais gloria que aos
que o acompanham na volta para a patria. Alcança assim promessas de
obediencia e trata do seu regresso á Europa.
Aprestadas regular, convenientemente as duas caravellas; carregadas com
pequenas quantidades de algodão, que conseguira; de bastantes plantas
exoticas e aromaticas, papagaios e aves desconhecidas, de colorido
deslumbrante, macacos e uma duzia de gentios que se dispuzeram a
seguil-o; levando tambem a pequena quantidade de ouro em joias e
adereços que recebera dos indigenas; despediu-se Colombo amoravelmente
dos quarenta companheiros que ficavam no forte da Natividade e do
cacique seu amigo, e fez-se de vela, seguindo rumo de NE., tomando o
commando da _Pinta_.
Feliz e quasi tranquilla fôra a viagem para as Indias; a volta, porém,
para Hespanha tornou-se lenta, trabalhada e perigosa. Mais ao norte
dirigindo-se, encontraram-se mares bravios, romperam grandes temporaes e
as duas pequenas caravellas por vezes sossobraram no meio das aguas do
Atlantico, batidas e inundadas pelas vagas furiosas. Quantas vezes
anteviu Colombo perdido todo o seu trabalho! E que dôr o assoberbava,
lembrando-se de que outro não descobriria esse caminho das Indias,
que elle conquistara com seu arrojo e fé, caso morresse nos mares e com
elle seus companheiros, sem que á Hespanha chegassem noticias! Que
pericia não lhe foi preciso applicar ao governo dos navios, que coragem
mostrar para animar as equipagens estafadas e desesperadas! Quantas
promessas á Virgem Santissima, aos santos predilectos, caso se salvassem!
Avistaram felizmente a ilha de Santa Maria, no archipelago dos Açores,
depois de andarem muitos dias á matroca as duas caravellas, entregues ás
correntes do oceano, impellidas para onde os ventos as empurravam, sem
poderem usar das velas, porque seria um perigo, nem tomar alturas por
falta de sol e de estrellas; coberto sempre o céo de negras nuvens!
Com difficuldades obteve Colombo que as autoridades portuguezas da ilha
lhe consentissem concertos nas caravellas e lhe prestassem alguns
soccorros de viveres. Ao deixar Santa Maria, nova tempestade irrompeu, e
tão impetuosa, que separaram-se de uma vez a _Pinta_ e a _Nina_.
Colombo tratou por seu lado de procurar abrigo na primeira costa, e
avistando as montanhas de Cintra, penetrou no Tejo com o seu navio,
emquanto que a _Nina_ commandada por Martim Pinzon, atirada mais para o
Norte, seguia rumo differente.
Que espanto o da população de Lisboa ao avistar a caravella de Colombo
apparecer á barra, subir o Tejo, fundear defronte de Belém, e, visitada,
obter informações de que Colombo descobrira as Indias pelo Occidente!
D. João II mandou-o ir logo á sua presença, interrogou-o, ouviu-o
attentamente e louvou-lhe a façanha em termos lisonjeiros e agradaveis,
não manifestando a menor decepção ou despeito, acolhendo-o antes com
cavalheirismo. Despediu-o com presentes, afim de que livremente seguisse
para a Hespanha, depois de receber os soccorros de que carecia. De
Lisboa tomou Colombo rumo maritimo para o Sul, e dobrado o Cabo de S.
Vicente entrou na barra de Salter, na manhã do dia 15 de março de
1493. Subido o rio Tinto, fundeava ao meio-dia em Palos, depois de quasi
oito mezes de ausencia, que tanto durara a sua excursão maritima! Caso
inesperado! Appareceu e chegou a Palos, na tarde do mesmo dia, a
caravella _Nina_, cuja vista e noticia perdera Colombo desde a altura
dos Açores. Depois de errar longos dias pelo oceano, alcançara
egualmente Pinzon dar fundo no porto, de onde partira.
Imaginai, minhas senhoras e senhores, as impressões, as sensações, as
alegrias, os exaltamentos, os transportes, a admiração dos habitantes de
Palos, ao reverem seus amigos, ao saudarem a empreza portentosa que se
commettera, e que elles nunca haviam pensado que se podesse realizar!
Tinham-se descoberto as Indias, e era Hespanha que se gloriava do feito,
e antes que Portugal as deparasse! Por quasi um seculo inteiro Portugal
as procurava em vão, emquanto que logo a seu primeiro ensaio de
navegação maritima, ao primeiro e fraquissimo commettimento que
praticara Hespanha, com tres miseraveis caravellas, abrira para as
Indias o caminho da Europa!
Não se devia tudo ao genio de Colombo? Á sua audacia, á sua pertinacia,
á sua paciencia, á sua sciencia, á seus trabalhos? Não arriscara seu
nome, sua vida, em serviço e gloria de Hespanha?
Pensavam-no perdido, morto talvez, porque nem uma confiança depositavam
nem sabios nem povos em sua temeraria e louca empreza, e eil-o com seus
navios, radioso, triumphante, coberto de glorias!
Correram todos a recebel-o, a vel-o, a ouvil-o, a perguntar noticias dos
amigos, das terras descobertas, dos novos mundos das Indias! Com
difficuldade pôde elle desembarcar, dirigir-se á egreja a render graças
á Deus! As ruas cobriram-se de folhas de arvoredos, as casas ornaram-se
de cortinas, aos ares subiram os fogos, estrondaram as peças de
artilharia, repicaram festivamente os sinos dos templos, repercutiram
estrondosamente os gritos e saudações geraes, espontaneas. Foi para
Palos um dia de incomparavel jubilo, de alegria louca, de transportes
patrioticos! Reis não são acclamados com mais espontaneidade e
enthusiasmos! Como que um delirio se apoderava de todos os animos!
Sabendo Colombo que os reis catholicos estavam em Barcelona, para elles
escreveu logo e fez partir emissarios communicando-lhes sua chegada.
Depois de rever seu amigo, o prior João Perez, a quem tanto devia,
partiu para Barcelona, levando em seu sequito os gentios que trouxera, e
cujas figuras causavam espantosa admiração, e as plantas, aves e animaes
exoticos que trazia das terras descobertas, bem como os pequenos
ornamentos de ouro que colhera e que mais excitavam as cobiças.
Por toda a estrada que vai de Palos á Barcelona derramavam-se multidões
de povo: tomavam suas togas as autoridades, os alcaides, os corregedores
para o comprimentarem; os sacerdotes benziam-no cobertos das mais
esplendidas vestes; a plebe applaudia-o, saudando-o estrepitosamente.
Era uma marcha triumphal, que lembra as honrarias dos antigos vencedores
romanos, voltando de suas conquistas e carregados de despojos e
prisioneiros.
Nas grandes e pequenas cidades que atravessava, ruas, casas, edificios
se paramentavam, levantando bandeiras, espalhando illuminações, tocando
sinos, roncando a artilharia, e resoando os ares com vivas, gritos
enthusiasticos, e sons repetidos de musica.
Custava-lhe escapar á curiosidade das populações, que a cada passo
estorvavam-lhe a marcha. A exageração de seus feitos inventava
prodigios, e coroava-o como ente extraordinario!
Que admiração pelos gentios, pelos macacos, pelos papagaios! Que
esperanças no ouro! Tudo era assombro! Seria milagre, sim, que os
Hespanhóes de então acreditavam em toda a especie de milagres.
Entrou em Barcelona acompanhado por clerigos, fidalgos, autoridades,
militares, pessoas de todas as classes, que o acompanhavam, uns desde
Palos, outros juntando-se-lhe pela estrada!
Acolheram-no os reis catholicos com a maior amabilidade, cercados de
toda a sua esplendida e luzida côrte, e ao chegar Colombo para perto
delles, levantaram-se do throno, abraçaram-no, mandaram-no sentar a seu
lado, e ouviram-no com a maior attenção e curiosidade. _Te-Deums_ nas
egrejas, musicas pelas ruas, trophéos e arcos, illuminações, tudo
manifestava a gloria de Colombo, e os reis de Hespanha passeavam com
elle pelo meio do povo, para o honrarem e engrandecerem!
Decretaram logo os reis um premio á Colombo de trinta corôas de ouro,
por haver sido o primeiro que avistara terras das Indias: não fôra quem
descobrira a luz nocturna da ilha de Wattling, proxima da de S.
Salvador? Concederam egualmente armas á sua familia com a legenda:
Por Castilla y por Leon
Nuevo mundo alhó Colon.
Fizeram partir incontinente para a França, Italia, Allemanha emissarios
annunciando que Colombo descobrira as Indias para a Hespanha! Os
reis catholicos ostentavam-se vangloriosos dos feitos de Colombo, e
prometteram-lhe coadjuval-o em tudo quanto meditasse e emprehendesse. De
differentes pontos da Europa receberam parabens, e tambem de Roma não
tardaram embaixadores, que o Summo Pontifice enviava para congratular
Isabel e Fernando e entregar-lhes uma bulla que promulgaram na cidade
eterna, concedendo-lhes, no tocante ás regiões descobertas por seus
subditos, direitos eguaes aos que Portugal recebera no tempo do infante
Dom Henrique de Vizeu. Para que se não travasse conflicto entre as duas
Corôas, que tinham entrado em emprezas de conquistas ultramarinas,
declarou o Summo Pontifice na referida bulla, que traçada uma linha
ideal do polo do Norte para o polo do Sul, a cem leguas ao Oeste das
ilhas dos Açores e Cabo-Verde, as terras do oriente pertenceriam a
Portugal e as do occidente á Hespanha. Assim decidia o Papa da sorte do
mundo, não sendo de estranhar que o rei de França perguntasse-lhe em
que verba do testamento de Adão achara Sua Santidade o direito de
distribuir os territorios do globo!
Convencidos os reis em presença da exposição pomposa que lhes fez
Colombo das grandezas das ilhas indiaticas que descobrira; das vantagens
que colheriam fazendo dellas suas conquistas, e povoando-as de
Hespanhóes; do ponto de apoio que ahi deparariam para estender suas
relações e dominação ás Indias; convencidos mais ainda ao
apresentar-lhes Colombo os gentios e explicar-lhes que eram da raça das
Indias, segundo ensinavam os livros dos viajores que tinham visitado
aquellas partes do mundo, e conformes em tudo, traços, côr e fórmas com
os chins e tartaros, doceis para receberem o baptismo, e crerem na
religião de Christo, não se demoraram em expedir ordens terminantes para
apromptar-se uma esquadra de navios, embarcar-se nella grande quantidade
de gente, artilharia, armas, munições, cavallos, gado, e o que mister
fosse para lá empregar-se, e confiar tudo á inteira e exclusiva
disposição de Colombo, afim de que proseguisse nas descobertas, munido
de elementos poderosos com que praticasse a guerra, sendo preciso, e
firmasse posses da Corôa, que durassem, e excluissem alheias pretensões.
QUARTA CONFERENCIA
28 de junho de 1891
Logo que soou aos espertos ouvidos de El-Rei D. João II, de Portugal, a
noticia de que o Santo Papa publicara e enviara aos reis de Castella e
Aragão uma bulla concedendo-lhes terras a descobrir, além de 100 leguas
ao Occidente das ilhas de Cabo-Verde, protestou immediatamente contra o
direito que a curia romana se arrogara e declarou aos reis de Castella e
Aragão que se não submettia ás bullas Pontificias.
Um conflicto poderia nascer deste incidente, caso não chegassem a
accordo amigavel os monarcas de Castella, Aragão e Portugal; um tratado,
porém, celebrado em Tordesilhas, em 1493, estendendo a linha ideal
traçada de 100 a 365 leguas, e compromettendo-se os soberanos a
respeitar em tudo mais a bulla referida, serenou os animos timoratos, e
puderam, então, desassombrados de sustos de guerra, cuidar os reis de
Hespanha de aprestar a expedição maritima, militar e colonisadora,
promettida a Colombo, para que elle continuasse na empreza do
descobrimento das Indias Occidentaes, tão felizmente iniciada em sua
primeira viagem.
Olhava Isabel particularmente para os interesses da religião catholica.
Quanto não ganharia Castella propagando o Christianismo nas Indias,
chamando ao gremio da Egreja Romana tantas almas pagãs, perdidas
naquelles desertos, baptizando e salvando infelizes creaturas, a quem
estava feixado o reino dos céos!
Para outra direcção pendia Fernando de Aragão. Salvação de almas era
para elle questão secundaria. A principal consistia em conquistar
terras, augmentar dominios, alcançar riquezas para Hespanha, e dos
relatorios pomposos e discursos bombasticos de Colombo derivava-lhe
a ideia de que immensas vantagens resultariam de uma segunda viagem de
exploração.
Combinavam, portanto, agora, tanto Isabel como Fernando nos desejos e
propositos de coadjuvar a Colombo, e de facultar-lhe todos os meios com
que podesse realizar seus projectos.