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*Notas de transcrição:*
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso
em 1892.
Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos
alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura
do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los.
CONFERENCIAS PUBLICAS
EFFECTUADAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
CHRISTOVAM COLOMBO
E O
DESCOBRIMENTO DA AMERICA
PELO CONSELHEIRO
_J. M. Pereira da Silva_
Deputado e Senador durante o Imperio, Membro honorario do Instituto
Historico e Geographico Brazileiro e da Academia Real de Sciencias de
Lisboa
BRAZIL--RIO DE JANEIRO
IMPRENSA NACIONAL
MDCCCXCII
CHRISTOVAM COLOMBO
E
O DESCOBRIMENTO DA AMERICA
CONFERENCIAS PUBLICAS
EFFECTUADAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
CHRISTOVAM COLOMBO
E O
DESCOBRIMENTO DA AMERICA
PELO CONSELHEIRO
J. M. Pereira da Silva
Deputado e Senador durante o Imperio, Membro honorario do Instituto
Historico e Geographico Brazileiro e da Academia Real de Sciencias de
Lisboa
BRAZIL--RIO DE JANEIRO
IMPRENSA NACIONAL
MDCCCXCII
PROPRIEDADE DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO BRAZILEIRO
DEDICATORIA
_Ao_ INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO BRAZILEIRO _offerece a
propriedade das conferencias effectuadas ácerca de_ Christovam
Colombo e do Descobrimento da America, _como homenagem de
consideração, e testemunha de apreço, que lhe tributa seu socio
honorario._
_J. M. Pereira da Silva._
O INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO BRAZILEIRO resolveu em sessão
publica agradecer ao Sr. Conselheiro J. M. Pereira da Silva, e
proceder á publicação de suas conferencias, reunindo-as em um
volume, que sirva para commemorar a celebração do 4º centenario
do descobrimento da America, que o mesmo Instituto pretende
celebrar no dia 12 de outubro de 1892.
ADVERTENCIA
Ao approximar-se o 4º centenario do descobrimento da America por
Christovam Colombo, e ao annunciarem-se festejos, com que tem de ser
celebrado em Madrid, Chicago e Genova, tão fausto e glorioso
acontecimento, entendeu a Sociedade Promotora da Instrucção, fundada no
Rio de Janeiro, que lhe convinha egualmente commemoral-o, restaurando as
conferencias populares á que anteriormente havia presidido, e
encarregando ao Sr. Conselheiro João Manuel Pereira da Silva a missão de
tratar d'aquelle assumpto.
Cinco conferencias effectuou o Sr. Conselheiro, resumindo quanto
interessava á historia do descobrimento da America e á biographia de
Colombo. Acolheram-nas as Gazetas e o publico com a maior benevolencia.
O decano da imprensa brazileira, o _Jornal do Commercio_ do Rio de
Janeiro, as fez apanhar por meio de tachygraphos, e as publicou
integralmente em suas interessantes columnas.
Essas conferencias formam, reunidas, o actual volume.
Não as quiz o autor alterar e nem imprimir-lhes novos additamentos:
entendeu que si valor haviam tido, não o deviam perder, modificadas que
fossem na fórma ou na essencia. Convinha mais que corressem como
foram pronunciadas, corrigidos apenas os erros da imprensa, e riscados
os incidentes da occasião, que só interessavam ao orador e ao auditorio.
O estylo e a linguagem do orador devem a fórma ao improviso da palavra e
das phrases, e por isso apresentam naturalmente incorrecções e lapsos,
porque lhes falta aquella lima que o escriptor emprega em suas vigilias,
quando recolhido ao seu gabinete, e quando adstricto á uma acurada
meditação.
Comprehende-o o leitor intelligente, e, pois, apreciará com justiça.
CHRISTOVAM COLOMBO
E
O DESCOBRIMENTO DA AMERICA
PRIMEIRA CONFERENCIA
17 de maio de 1891
Subindo hoje a esta tribuna que, ha cerca de dous annos, conserva-se
muda, deserta, abandonada, e relanceando os olhos pelo auditorio no
intuito de comprimental-o, e agradecer-lhe o comparecimento, assalta á
meu espirito uma idéa triste, confrange-se-me o coração com uma dolorida
reminiscencia. Noto a falta de um grande patriota que desde o começo e
durante muitos annos seguidos honrou sempre estas conferencias,
animando os oradores com sua presença, incitando os ouvintes com suas
palavras, áquelles pedindo a perseverança no trabalho, a estes
aconselhando concorressem afim de se alcançarem resultados vantajosos e
proficuos aos estudos scientificos e litterarios. Refiro-me ao Sr. D.
Pedro II, que ora, ingratamente expellido da patria, sente de certo
ainda bater-lhe o coração de saudades por ella, e faz votos ardentes
pela sua felicidade e futuro.
Pago este tributo de gratidão, prestada uma homenagem devida de
respeitosa saudação, passo a tratar do assumpto annunciado para nossa
conferencia de hoje, appellando, como em outras occasiões, para a vossa
benevolencia.
Sorriu-me esta idéa com a leitura dos annuncios publicados em periodicos
de varias nações. No proximo anno de 1892 celebrar-se-ha o quarto
centenario do descobrimento da America. Achamo-nos na America, somos
Americanos, porque nos não recordaremos de epoca tão memoravel!
Para que se comprehenda, porém, a historia do descobrimento da America,
necessario nos é começar pelo estudo da situação social, politica,
economica, scientifica e litteraria da Europa durante o seculo XV.
Sahia da edade média, penetrava na da renascença, e passava por
extraordinarias evoluções. Cahia a feudalidade, isto é, o dominio
despotico, brutal e caprichoso de fidalgos, senhores de castellos, de
cidades, de vastos territorios, tanto leigos como ecclesiasticos e que,
independentes dos chamados reis e imperadores, victimavam os povos
residentes em suas terras e sob seu jugo. Elevava-se sobre as ruinas do
feudalismo o poder illimitado dos monarcas, que começavam a governar
nações maiores e mais unidas: apparecia já tambem á tona d'agua,
reclamando liberdades civis, a classe média e popular, que até então
existira esmagada e submettida.
Desenvolvia-se a industria e o commercio; propagava-se a instrucção que
estava monopolisada nos claustros, privativa quasi dos representantes
da egreja christã que succedera ao antigo culto do polytheismo pagão.
Occupava-se, todavia, toda a Europa em guerras ou intestinas ou
externas: Italia era presa de estrangeiros; França lutava com
Inglaterra, unida á Bourgonha e Bretanha; Allemanha fazia e desfazia
imperadores nominaes; Hespanha brigava com Arabes e Mouros, ainda donos
de parte de seu solo, e repartia-se tambem em varios estados christãos
independentes. O imperio grego de Constantinopla estorcia-se em
paroxismos diante das invasões e victorias dos Turcos asiaticos, que o
assaltavam de continuo.
Nenhuma nação possuia então marinha militar propriamente dita e apenas
exercitos, dando-se as grandes batalhas e praticando-se as excursões
bellicas em terra e só em terra.
Havia, porém, em um canto da Europa, o mais occidental, banhado pelo
Atlantico, um povo pouco numeroso, mas guerreiro. Firmara na batalha de
Aljubarrota por uma vez sua nacionalidade apoz tres seculos de separação
e tal qual independencia do resto das Hespanhas. Proclamara-a nas
côrtes de Coimbra de 1385, elevando ao throno D. João, Mestre de Aviz,
filho bastardo de D. Pedro I. Não tinha mais inimigos a combater,
carecia, entretanto, de empregar sua actividade e aspirações audaciosas
em qualquer empreza de vulto.
Desmembrado no principio do seculo XII do Condado da Galiza, convertido
em reino independente, alargara-se pela conquista sobre terras de Arabes
e Mouros até o sul. Mais longe ia-lhe a ambição, e, pois, adiantou para
o mar suas energias e affoitezas. Não tivera ao principio marinha, e
para se apoderar dos territorios meridionaes precisou do auxilio das
armadas do Norte, que se dirigiam ás Cruzadas. Do governo de D. Diniz em
diante aprendera, porém, com os Genovezes a atirar-se ao oceano. Não o
convidava elle com seus murmurios á lançar-se-lhe nos braços?
Feliz como rei, afortunado como pai, foi D. João I. Seus cinco filhos
honraram-lhe cavalheirosamente a familia e a patria, já pelos
talentos e qualidades, já pela bravura do braço e ardentia do animo. D.
Duarte foi rei e rei preclaro. D. Pedro, Duque de Coimbra, illustrado em
todos os conhecimentos scientificos e litterarios da epoca, animo
prudente, superior, e esforçado cavalheiro, ganhou experiencia em
viagens pela Europa e Asia, e era por isso chamado o Infante das sete
partidas do mundo. D. Henrique de Vizeu combatera em Ceuta como um leão,
e entregava-se aos estudos cosmographicos. D. Fernando morreu
prisioneiro de Mouros em Fez, e D. João ainda moço acabou a vida, quando
ambos promettiam egualar nos meritos e qualidades a seus irmãos que
tanto se haviam ennobrecido.
De Mouros estava livre Portugal; nem um pisava em seu solo que não
vivesse em captiveiro: tentou ao rei e aos principes uma grande facção,
atravessar os mares que separam a Africa da Europa, levar a guerra aos
territorios e dominios em que Mouros se achavam, e expellil-os tambem
daquellas regiões, como o haviam sido de Portugal. Dito e feito.
Ceuta, a mais rica e commerciante cidade de Marrocos, foi atacada e
subjugada em 1415 pelas armas de D. João I: teve de arriar o crescente
de Mahomet e ornar-se com a cruz santissima de Christo: e foi o Infante
D. Henrique, seu principal vencedor, nomeado para governar a conquista
verificada.
Teve então D. Henrique ensejo de aprender a lingua arabe, ler seus
livros, estudar seus monumentos scientificos, ouvir seus sabios,
seus cosmographos, e muito lucrou e aprendeu, porque eram ainda os
Arabes o povo mais illustrado da epoca. Terminado seu governo e
restituido á patria, um pensamento, um intuito se lhe fixou no
espirito,--adeantar--estender os conhecimentos cosmographicos e
geographicos--descobrir terras de que já haviam fallado os antigos
Gregos e Romanos, e que então se não conheciam mais--devassar os
segredos dos mares, opulentando com novos dominios sua patria--dilatar e
propagar a religião christã, e desenvolver emfim o commercio com novas
mercadorias e escambos.
Na ponta meridional de Portugal ergue-se o Cabo de S. Vicente: descansam
alli uns penedios açoutados pelos ventos, batidos de continuo pelas
ondas dos mares, e que se prestavam a ser um ponto apropriado para
observações, estudos scientificos, e pratica de navegação. Para esse
sitio agreste recolheu-se o Infante e em Sagres estabeleceu moradia, e
escola de cosmographos e mareantes. Attrahiu sabios Malhorquinos,
Allemães, Italianos, Judeus, Arabes, Portuguezes. Dia e noite, aos
gemidos e marulhar das vagas e aos furores das tempestades, estudavam-se
livros e mappas, e perscrutavam-se os mysterios das estrellas. Tudo
quanto escreveram os antigos, quanto sabiam os Arabes, quanto ensinavam
os viajantes europeus, examinava-se, discutia-se, tirava-se a limpo. O
Duque de Coimbra fizera-lhe presente de exemplares manuscriptos das
viagens do Veneziano Marco Paulo, de Mandeville e de Conti, que fallavam
das opulencias e grandezas das Indias. Chamava-se assim então todo o
continente da Asia, inclusive a China denominada Cathay, e o Japão
Cypango.
Quasi que não passava a navegação de costeira; fugia-se aos altos mares;
apenas a bussola introduzida pelos Arabes servia de instrumento nautico;
consistiam os navios em náos, de cerca de 200 ou mais toneladas, para
carregamentos de mercadorias particulares; em galés de guerra com
tombadilhos á pôpa e prôa, espigões de ferro na prôa, vãos no centro
para 40 a 50 remeiros, dous ou tres mastros para pequenas velas; em
galeotas que se armavam tambem em guerra, mais pequenas; em caravellas e
fustas, sem convez, e as maiores de cem toneladas, e ninguem ousava
praticar viagens sinão com a terra sempre á vista. Os Venezianos,
Genovezes, Pizanos, e Catalães iam buscar as mercancias indiaticas ao
Egypto, á Syria, á Constantinopla, ao mar Negro, onde ellas chegavam em
caravanas, provenientes pelo golpho Persico e pelo mar Vermelho;
percorriam o Mediterraneo, dobravam as costas de Portugal e Hespanha,
dirigiam-se á França, Inglaterra, Allemanha e até á Moscovia. Os
Normandos, Bretões e Flamengos seguiam do norte para o sul encostados
tambem e sempre á terra, e penetravam no Mediterraneo. Os Arabes
conheciam unicos a navegação do Indostão e da Africa oriental, onde
largamente traficavam, trazendo do Egypto para a Mauritania os generos
de que careciam.
É mister penetrar nestas miudezas para se comprehender a temeridade dos
Portuguezes ao coalhar os mares com navegantes e descobridores de
terras: hoje a navegação é facil, grandes os navios, movidos até pelo
vapor, machinismos e construcções admiraveis, instrumentos nauticos
perfeitos, conhecidos os caminhos talhados nos oceanos, e manifestas as
posições dos astros: então eram tudo trevas, difficuldades, perigos,
terrores.
Que fim tinham levado as ilhas da Atlantida e das Antilhas, de que
fallaram Platão e Aristoteles? As terras que os Phenicios diziam ter
conhecido, e que denominavam afortunadas? Onde estavam as ilhas das sete
cidades e de S. Barandon, que se inscreviam nas cartas geographicas da
epoca, confusa e differentemente? Por que se não chegaria ao mar
tenebroso, como se intitulava o Atlantico proximo ao equador, ás
zonas torridas, que se pintavam inaccessiveis e inhabitaveis? Por que se
não dobraria a Africa, que se pensava acabar á 10 gráos de latitude
Norte, correndo então para o oriente á ajuntar-se ás Indias, conforme os
dizeres dos Arabes, que de Marrocos por terra chegavam até quasi o Senegal?
Todas estas questões se propunham e ventilavam-se no areopago fundado em
Sagres por D. Henrique de Vizeu. Plinio, Ptolomêo, Strabo, o Veneziano
Marco Paulo, os Arabes Endrisi e Averrohes, eram os oraculos pelos seus
livros; Jaime de Malhorca e Vasseca os desenhadores mais habilitados de
cartas geographicas.
Convem aqui summariar as lendas que a respeito se espalhavam, e que,
acreditadas não só pelo vulgo, como pelos espiritos cultos e sabios da
epoca, espalhavam terrores de approximar-se ao sul da Mauritania.
Deixemos de parte as fabulas de Platão e Aristoteles quanto ás ilhas da
Atlantida e Antilhas, posto que os mappas de 1400 as mencionem
ainda: como é curiosa a legenda da ilha das sete cidades, onde se
recolheram sete bispos, que calçava de ouro as ruas, possuia palacios de
marmore, asylara o ultimo rei godo-hespanhol Rodrigo, e dera eterna
felicidade á Ennoch e Elias recolhidos á seu seio! Como encanta, a lenda
de que a ilha de S. Brandão fôra visitada por um abbade escossez
Barandon, acompanhado por São Maló, que resuscitou um gigante já
enterrado, baptisou-o e annunciou-lhe a felicidade na outra vida? Sabeis
o que resultou? O gigante, depois de quinze dias, quiz por força morrer
e morreu de novo para alcançar a bemaventurança no Céo! Certo é que esta
ilha figurava em todos os mappas dos seculos XV e XVI, nos proprios
traçados ao depois por Colombo, e no globo attribuido á Behaim. Certo é
ainda que no XVII e XVIII foi mandada procurar por navios hespanhóes,
por ordem do seu governo, porque arrastados por illusões opticas os
habitantes dos Açores teimavam em que era vista, bem perto delles, em
certas epocas do anno.
Resolveu-se D. Henrique a iniciar os descobrimentos, seguindo a costa
Africana, no intuito de apoderar-se della. Custou-lhe espantosamente.
Seu pai animava-o, mas não tinha dinheiro. Empregou o Principe a renda
do ducado e a do mestrado de Christo que administrava. Marinheiros,
pilotos, ninguem queria arriscar-se a ir além do Cabo Non, porque se
espalhava que dahi em diante começava o mar tenebroso e as tradições que
corriam aterrorisavam a todos. Com o emprego de inauditos esforços
conseguiu o Infante que Zarco e Tristão Dias, em 1418, alongando-se pelo
oceano, descobrissem as ilhas do Porto Santo e Madeira, e em 1431
Gonçalo Velho as dos Açores. Nada disso o adeantava todavia. O que elle
procurava era a Africa, era o que havia além do Cabo Non. D'ahi
fugiam-lhe os mareantes, ahi não se atreviam á ir os pilotos. Morrendo
em 1433 D. João I, obteve D. Henrique que o novo rei, D. Duarte,
mandasse expedição guerreira á Mauritania, tendo-o e a seu irmão D.
Fernando á frente; explore-se a Africa por terra, já que o mar está
assustando!
Infeliz empreza! Os Portuguezes foram em Tanger derrotados. D. Fernando
cahiu prisioneiro e morreu no meio de tormentos em Fez. D. Henrique
volveu para o seu promontorio de Sagres em 1437. Não desanimado
perseverou nas lutas com o oceano, cujos segredos anciava descobrir.
Mais lhe firmava no espirito os propositos de percorrer a costa Africana
a ideia de encontrar o caminho para as Indias, e collocal-as em directa
communicação com Portugal. Não diziam os mappas que a costa Africana
parava aos 10 gráos? Não o incitava a leitura de Marco Paulo na
descripção da Tartaria, Cypango e Cathay? Não havia chegado ao Indostão
Alexandre com os seus Gregos, á Armenia os Romanos, á Jerusalem os
Cruzados? Já que não podia ir por terra, combatendo Mouros, ou correndo
a costa septentrional da Africa, por Argel, Tunis, Tripoli e Egypto, não
era indispensavel proseguir em expedições maritimas? Não estaria
reservado a Portugal e a elle o papel glorioso de iniciar e executar
emprezas que espantassem o mundo?
O povo murmurava, a nobreza zombava, era um louco na opinião de muitos,
como são sempre considerados os genios que se adiantam além do seu
seculo. Que lhe importava! Idéas firmadas em fundas convicções não se
desfazem sinão diante de realidades demonstradas. Obteve que Gil Eannes
chegasse ao Cabo Bojador, dobrasse-o, reconhecesse-o e voltasse a
dar-lhe a boa nova; não era ainda o fim do mundo, mas ninguem lá fôra,
salvo mouro ou arabe, e por terra.
Após o Cabo Bojador, descobriu Nuno Tristão, em 1443, o Cabo Branco, e
em 1449, Cadamosto, o Cabo Verde e o Senegal, onde encontrou marfim,
ouro e hordas de pretos, que conduziu para os Algarves, começando então
o trafico de escravos Africanos na Europa. Dous papas mandam bullas de
concessão de todas as terras além do Cabo Bojador, elogiando e
preconisando de heroe o Principe. Os Pontifices Romanos reputavam-se
então autorizados para distribuirem reinos e corôas.
Quantos erros geographicos se emendaram desde logo nos mappas? Quantos
prejuizos populares se desfizeram? Chegara-se no entanto ao gráo 20
e não apparecia o mar tenebroso cuja fama enchia á todos de pavor.
Continuar, continuar, e o caminho das Indias ahi estava proximo e certo,
não tardaria a Africa em terminar, e dobrada que fosse se chegaria ao
reino do Preste-João, de quem tanto se fallava de outiva;
avistar-se-hiam as terras das perolas, dos brilhantes, dos perfumes, dos
tapetes, dos damascos, da pimenta, do cravo, das riquezas consideradas
as maiores do mundo. Não se penetrara já na zona torrida, e não se
descobrira que ella era habitavel?
Falleceu, infelizmente, no correr de 1460, D. Henrique, já nos fins de
sua vida glorificado, endeosado pelos seus e admirado na Europa por
causa das noticias das terras que tinha descortinado, e que se foram
espalhando, apezar das difficuldades de communicações internacionaes
naquella epoca.
Ao cessar a primeira metade do seculo XV tres acontecimentos
verificaram-se, no entanto, na Europa: 1.º Constantinopla, a capital do
imperio grego christão, successora de Roma, cahira em poder dos
turcos, que, derrotando os Arabes, se tinham apoderado de toda a Asia
menor, e dahi passado para Europa, onde fundaram novo imperio, que á
pouco e pouco avassallou a Grecia, a Bulgaria, a Roumania, a Servia e os
estados do Danubio, e começou a ameaçar a Allemanha pela Hungria; 2.º
Descobrira-se em Mayença a arte de imprimir, e os livros tenderam logo á
baratear, as luzes á derramarem-se, e a civilisação á crescer; 3.º
Hespanha esforçava-se por unificar-se, reunindo em um só reino Navarra,
Aragão, Catalunha, Castellas, Galliza, Leão e Bascos; e França alcançara
emfim expellir os inglezes do seu territorio, e procurava alargar-se até
o Mediterraneo, e assenhorear-se da Borgonha e da Provença.
A esses trabalhos entregavam-se as nações europeas, emquanto que
Portugal cuidava de navegações. Agora, mais que nunca, precisava-se de
abrir caminho para as Indias pela Africa, porque os portos da Asia
Menor, do mar Negro e de Constantinopla, submettidos e acurvados
pelos turcos de Mahomet, feixavam as communicações, restando apenas o
Egypto que se conservara independente do jugo quer do Arabe já decahido
e escravisado, quer do Turco, que sobre todos os mussulmanos se erguera,
e apregoava-se o primeiro dos povos de crença Mahometana.
D. Affonso V de Portugal foi de novo guerrear na Mauritania, subjugou
Arzila, Alcacer e Tanger. Por sua morte D. João II preferiu continuar as
excursões maritimas de seu finado tio D. Henrique e approximar-se da
Asia, dobrada a costa Africana: digno successor pela grandeza identica
do pensamento, e mais poderoso porque era rei, e agora entrava a Corôa
nas emprezas com força propria e sob direcção governativa.
Foi nesse tempo que chegou á Portugal Christovam Colombo, pelo anno de
1470, aventureiro audacioso, temerario, instruido em mathematicas e
cosmographia, e ancioso de tomar parte nas emprezas portuguezas, em que
já se empregavam muitos compatriotas seus, e de outras nações
europeas. Chamava Portugal e attrahia á si quantos aventureiros
arrojados desejavam navegar e descobrir terras, porque era Portugal a
unica nação que se devotava á tão proficuo serviço.
Abrira, portanto, Portugal as portas que escondiam os continentes,
rasgara caminhos no seio dos mares, desenvolvia e aperfeiçoava as
sciencias cosmographicas, geographicas, astronomicas, melhorava
instrumentos de navegação, tornara-se o precursor de todo o movimento
progressivo, que seguiu o universo durante o seculo XV.
Christovam Colombo teria então 35 annos, e sua vida, antes desta epoca,
não está ainda hoje conhecida. Os autores que lhe escreveram a
biographia, muitos foram elles, tanto hespanhoes como italianos e de
outras nações, divergem, contradizem-se, por fórma que ao certo se não
alcança a realidade.
Patenteava Christovam Colombo grandes talentos e muitos conhecimentos
mathematicos, geographicos e cosmographicos; escrevia mappas e cartas, e
tratou de empregar-se logo na marinha portugueza, casando-se com a
filha de um Perestelo, navegante habilissimo, gratificado pela Corôa com
a donataria da ilha do Porto Santo. Foi com elle que aprendeu, estudou
os roteiros, recebeu lições, e delle herdou escriptos e mappas
importantes a respeito de navegações maritimas.
Colombo relacionou-se tambem com todos os marinheiros e pilotos que
serviam em Portugal, fez com elles viagens diversas á Africa e aos
Açores, e fixara residencia ordinaria na ilha da Madeira.
Dedicado ao estudo nautico, pesquizador de todos os factos que se
passavam, engenhou logo empreza que lhe désse renome.
Era ambiciosissimo de gloria e, pois, cuidou de desenvolver a sua
actividade, para o fim de adquiril-a.
Nessa epoca era abraçada por muitos sabios e cosmographos a ideia de que
o mundo terrestre formava uma esfera ou globo.
Copernico, já como que tambem adivinhara, que, em torno do sol fixo, é
que gyravam a terra e os demais planetas.
Para que esta theoria fosse, porém, admittida precisava-se ainda que no
seculo XVI os trabalhos de Galileu a demonstrassem cabalmente.
Prevalecia no seculo XV unicamente, e para os sabios só, o principio da
redondeza do globo, formado de terra e aguas, e coberto por uma
atmosphera, onde dominava a lei da gravitação, que arrastava ao centro
todo e qualquer peso.
Christovam Colombo convenceu-se desta theoria, que com o andar dos
tempos cada vez se lhe arraigou mais no espirito.
Com a leitura dos livros então existentes e dos mappas, bem que confusos
e repletos de muitas falsidades e inexactidões, percebeu que se podia ir
ás Indias directamente, seguindo da Europa para Oeste, e que este
caminho era mais certo, curto e commodo que o de dobrar o Cabo das
Tormentas, baptisado com o nome de Boa Esperança, por D. João II, na
ponta sul da Africa.
Não tinha Marco Paulo collocado o Cathay ou China na costa, e bem assim
as ilhas de Cypango ou Japão, de que fallara um seculo antes? Não
ficavam assim esses paizes fronteiros á Europa e á Africa Occidental?
As cartas e mappas de então apresentavam a Asia como mais extensa para o
lado da Europa, e o globo menor do que é na realidade.
Os arabes, entendidos mestres de geographia e astronomia, adoptavam
estas theorias erradas. Ellas, todavia, mais animavam, excitavam e
firmavam a idéa de Colombo, que calculava não exceder a distancia do
Atlantico de duas a tres mil milhas maritimas; tendo, além disto, ouvido
em suas viagens aos Açores, á Madeira e ás Costas Africanas, contarem
marinheiros e pilotos, que as vezes se encontravam madeiras e arvores
lavradas, que na Europa não existiam; e que nos Açores haviam apparecido
naufragados, cadaveres de dous homens de organisação physica diversa da
Europa, cada vez mais robustecia-se seu intento de procurar as Indias,
atravessando o Atlantico e seguindo para o Occidente.
Não era Colombo como navegante superior a alguns pilotos que desde D.
Henrique trilhavam arrojadamente os mares e commettiam grandes e
façanhosas emprezas; não sobrepujava a um Gil Eannes e nem a um
Bartholomeu Dias, quer na intrepidez, e quer na firmeza e tenacidade de
animo.
Como sábio, não excedia tambem nem a Jayme de Malhorca, nem a Behaim,
geographos eminentes da epoca e empregados em Portugal, e menos ainda ao
Infante D. Henrique, cujos conhecimentos mathematicos conseguiram-lhe
justa nomeada no mundo, e proporcionaram-lhe a felicidade de executar e
fazer executar sublimes emprehendimentos.
Atirava-se, porém, Colombo á emprezas com uma certa allucinação,
proveniente de profundissima convicção.
Imaginava-as por si espontaneamente e fazia-se seu proprio executor. É
nisto que fundava a superioridade sobre seus contemporaneos.
Propoz-se então Colombo a D. João II para emprehender uma viagem
directamente ás Indias sem que torneasse a Africa. Para que pensar em
dobrar o Cabo da Boa Esperança? Não estavam alli defronte de
Portugal as Indias com a China e o Japão? Mais depressa e menos
perigosamente se não chegaria lá?
Convocou D. João II a conselho seus mais reputados sabios. Entre elles
figuravam dous judeus, mestre José e mestre Rodrigo, famosos
cosmographos. Opinou o conselho que mais annos menos annos se dobraria a
Africa, e se navegaria seguro para as Indias, e que assim continuasse
El-Rei nos seus planos anteriores; que si não era sonho de Colombo a
viagem directa ao Oeste, por desconhecida se não devia tentar, parecendo
fructo da imaginação mais que da sciencia humana.
Indeferiu D. João II, portanto, a proposta de Colombo, que queria navios
tripolados e garantias de honras e lucros para o caso de sahir-se bem da
empreza.
Desesperado e já então viuvo porque lhe fallecera a mulher portugueza,
abandonou Colombo a terra, á que servia. No correr do anno de 1485 ou já
era 1486 seguiu viagem para Genova.
SEGUNDA CONFERENCIA
31 de maio de 1891
Suspendemos a primeira conferencia effectuada á respeito de Christovam
Colombo e do descobrimento da America, ao referir o despeito que
assaltara á aquelle famoso navegante quando soube que fôra recusado por
D. João II seu projecto de viagem directa ás Indias pelo Atlantico,
seguindo rumo de Oeste.
Disse-vos já que partira de Portugal e dirigira-se para Genova.
Amargurava-se porque desde o principio do seculo era Portugal a unica
nação da Europa, que se entregava á empreza audaz de descobrimentos de
terras novas e desconhecidas; e pois lhe parecia difficil encontrar,
outra que ousasse devassar e curvar os mares e arrancar de seu seio
continentes ignorados.
Não era alli que se apuravam então os conhecimentos geographicos, que se
desfaziam tradições e legendas pavorosas do mar tormentoso da Africa, em
que a edade média acreditava; que mostrara enfim que era fabula a
existencia de monstros marinhos recontados por Endrisi,--de estrellas
luzentes, por Rogerio Bacon,--do cahos impenetravel nas proximidades da
linha segundo Albi,--de basiliscos descriptos por Averrhoes,--de
gigantes, serêas com rabos, pigmêos com olhos nos hombros e de mil
outras ficções extravagantes, devidas á imaginação dos Arabes, que assim
pintando o Atlantico affastavam os espiritos de ousadias de affrontal-o?
Chegado a Genova, convencido sempre Colombo da exequibilidade de seus
planos maritimos, tratou de obter do governo da republica meios para
executal-os, e navios para emprehender a viagem projectada em seu
espirito, affiançando ao estado grandiosas vantagens e glorias
immarcessiveis. Decorria então o anno de 1486, e portanto quando já
bastantes progressos e adiantamentos haviam os portuguezes conseguido,
quer na arte de navegar, quer no emprego á bordo do astrolabio e do
quadrante, que, no reinado de D. João II, juntos á agulha, unica
empregada no tempo de D. Henrique de Vizeu, facilitavam agora as
emprezas de atirar-se aos mares, abandonar as costas terrestres,
podendo-se já, em grandes distancias, reconhecer e tomar as alturas e
ficar-se certo da posição maritima.
Com razão escolhia Colombo a Genova por ser sua patria, no intuito de
dar-lhe as honras do descobrimento das Indias, que convinha effectuar-se
quanto antes pois que os portuguezes proseguiam na sua rota, e com suas
diligencias mais tarde ou cedo encontrariam o Indostão e as Indias
proximas ao Mar Vermelho e ao golfo Persico.
Genova, porém, estava decadente, bem como Veneza, e todas as demais
republicas maritimas da Italia, que tanto poderio e commercio haviam
exercido na edade média, aproveitando-se da fraqueza do imperio grego de
Constantinopla. Trancavam-lhes agora as relações mercantis os Turcos,
senhores do mar Negro, do Bosphoro, e da Syria. Genova não se achava
habilitada, portanto, para assentir-lhe ás propostas.
Dissemos que Genova era sua patria. Foi elle sempre em sua vida
considerado Genovez quer em Portugal quer depois em Hespanha. Todos os
escriptores coevos o affirmavam. Depois de morto, porém, como adquirira
e legara um nome glorioso e immortal, diversos povos, em escriptos a
respeito, tentaram chamal-o seu compatriota: até o Diccionario Larousse
o faz nascer na Saboia! Para esclarecer a questão de um modo terminante,
e provar-se claramente que em Genova e dentro da cidade nascera, e de
familia pobre alli residente, publicou-se em Hespanha, no seculo actual,
seu testamento datado de 1498, e bem assim os processos que contra a
corôa hespanhola e contra seus herdeiros hespanhoes haviam promovido
varios fidalgos e familias italianas, que pretendiam ser
reconhecidos seus parentes e herdeiros em falta de linha directa;
publicaram-se egualmente em Genova, nos nossos dias, umas linhas
escriptas por Colombo, no anno de 1506, dias antes de fallecer, na
pagina branca de um breviario, que existe ainda na bibliotheca Corsini
de Roma.
Duas vezes no testamento falla Colombo de sua patria Genova, em uma
verba legando uma pensão á qualquer membro de sua familia alli
residente, casado e pobre; e exigindo expressamente em outra verba que
seus descendentes amassem e venerassem a cidade de Genova, porque em
Genova elle nascera e de lá sahira.
Na nota do breviario citado depara-se egual declaração por elle firmada.
Dos processos, que mencionamos, resulta tambem a prova de que não
pertenciam á sua familia os Colombos de Escaro e nem outros de Piemonte
que reclamavam os titulos com que elle fôra agraciado pelo governo
hespanhol, e que para conseguirem seus fins allegavam falsamente que
elle nascera, uns em Escaro, e outros em Savona.
Por que mostraria Colombo tamanho amor á Genova, si não fosse alli
nascido? Tanto interesse pela republica, onde apenas passara os
primeiros annos da mocidade, e que, como Portugal, lhe recusara os meios
de ganhar a gloria? Não pulsava-lhe o coração com os impetos do
patriotismo?
Já vos declarei que se ignoram os feitos de sua vida até á edade de 35
annos, quando á Portugal chegara e lá se estabelecera. Uns escriptores
fallam de suas navegações á bordo de navios, sob as ordens do Duque de
Anjou, que pretendia apoderar-se de Napoles; outros referem combates
maritimos em que elle entrou contra armadas Venezianas; minuciam os
francezes o nome de um Colombo que servira em suas náos de guerra.
Nada, porém, se demonstra com esses ditos. Não podiam haver outros
Colombos? Não enganaria o nome ou o appellido?
O que se sabe de certo no tocante á vida de Colombo começa só da chegada
delle á Lisboa, em 1470. Nem mesmo se póde fixar a data do seu
nascimento, por ausencia completa de elementos comprobatorios.
Não esmoreceu Colombo com o indeferimento de Genova; continuou cada vez
a convencer-se mais da exequibilidade de seus planos, com as
correspondencias que então estreitou com um eruditissimo geographo de
Florença, chamado Toscanelli. As cartas de Toscanelli animavam-no
resolutamente á não recuar delles. Enviava-lhe, para fortalecer seus
designios, livros, escriptos, esclarecimentos e mappas, dos quaes
resultava a idéa de que a Asia estava fronteira á Europa; os mares que
as separavam, não comprehendiam distancia maior de duas á tres mil
leguas, e continham em seu seio as ilhas de Cypango ou Japão, e banhavam
a costa da China, que Marco Paulo visitara, e estudara, seguindo por
terra pela Armenia e Persia; declarava-lhe ainda Toscanelli que o
Indostão não era tão opulento e rico como o Cathay e Cypango, e o
Indostão é que deviam os portuguezes encontrar, logo que dobrassem o
Cabo ultimo da Africa, e seguissem rumo do Oriente.
Dizem sem o menor fundamento alguns escriptores que Colombo se
offerecera tambem á Veneza e á Inglaterra: nada consta dos arquivos de
Veneza que o comprove, e, de certo, alli se encontraria qualquer indicio
ou documento, porque guardavam-se preciosamente quantos esclarecimentos
obtinha a republica sobre factos ainda de muito menor importancia. No
tocante á Inglaterra, escriptores referem que Colombo mandara para lá
seu irmão Bartholomeu propôr-lhe o projecto.
Bartholomeu estava então empregado no serviço de Portugal e acompanhara
a Bartholomeu Dias na viagem e descobrimento do Cabo da Boa-Esperança:
do serviço portuguez sahira para o de Hespanha, quando chamado pelo
irmão, no anno de 1493. Nem um documento apparece que mostre sequer
apparencia de presumpção a semelhante asserto. Não derivaria esta
opinião do dito dirigido por Colombo aos reis de Hespanha, quando pela
primeira vez lhe indeferiram a pretensão, de que procuraria auxilio
de Inglaterra ou França? Mas que se não verificou, porque conseguira
afinal que se aceitassem seus serviços?
Como quer que seja, o que está provado é que, dissuadido Colombo de
servir á Genova, partira para a Andaluzia, no dizer de uma testemunha
que depuzera em processo, a procurar em Huelva um parente mareante que
alli se retirara e com elle entender-se á respeito de seus projectos;
que, passando pelo convento franciscano da Rabida, situado quasi á
margem do rio Tinto, pedira e alcançara agazalho dos monges; que,
conversando com o prior, Juan Perez, captou-lhe as boas graças pela
sciencia que patenteara, versado como tambem era Juan Perez em estudos
cosmographicos.
Resultou da residencia de Colombo no convento da Rabida, que se lhe
affeiçoou Perez, e este, que entretinha boas relações com o confessor da
rainha Isabel de Castella, D. Fernando Talavera, animara Colombo a
partir com cartas suas de recommendação, em que affirmava que seria
gloria para Hespanha coadjuval-o na empreza do descobrimento das
Indias, para que Portugal não monopolisasse a navegação e os louros de
proveitosas conquistas ultramarinas.
Partiu Colombo do convento da Rabida para Cordova, onde se achava então
a rainha, D. Isabel de Castella, occupada em aprestar meios de guerrear
os Arabes e Mouros de Granada.
Para bem se comprehender a somma enorme de trabalhos e paciencia que
Colombo empregou, mister é examinar a situação de Hespanha naquelle
momento.
Isabel herdara a Corôa de Castella, que comprehendia em Hespanha as Duas
Castellas, Leão, Galliza, Asturias, a Extremadura, as provincias
Vascongadas, e a parte occidental da Andaluzia, que se divide de
Portugal pelo rio Guadiana, e a oriental que segue para Murcia e
Valencia. Fernando herdara o Aragão, Catalunha e Napoles, e á força de
armas apoderara-se, depois, da Navarra. Tantos principados, portanto, em
que se dispersara outr'ora a Hespanha christã, formavam agora unidos
tres reinos christãos sómente: Portugal, o Aragão e Castella. Ao lado e
no meio delles conservava-se independente, todavia, o reino Arabe de
Granada, que possuia a melhor parte da Andaluzia com excellentes cidades
e portos maritimos sobre o Mediterraneo, pelos quaes se communicava com
os Mouros da Africa septentrional.
Tinham-se casado Fernando e Isabel, bem que continuassem a governar cada
um separadamente seus reinos e dominios. Fernando era guerreiro,
astucioso e desleal, repleto sobretudo de ambições; Isabel possuia um
excellente coração, qualidades viris, talentos selectos: posto que todos
os actos do governo contivessem os nomes dos dous monarcas e elles
combinassem quasi sempre em vistas politicas, a administração gyrava
independente tanto em Castella como no Aragão.
Zelo religioso e fanatismo exaltado animavam a ambos os soberanos.
Anciavam estabelecer a unidade da fé e da Egreja catholica em todos os
seus dominios: não admittiam divergencias religiosas, e quantos não
fossem orthodoxos deviam ou receber o baptismo ou ser expellidos do
sólo.
Accórdes neste pensamento, deportaram para fóra de Castella e Aragão a
todos os judeus em numero de mais de trezentos mil, os quaes até então
alli viviam á sombra de tolerancia governamental, exerciam officios
proveitosos, praticavam a medicina e cirurgia, mostravam-se distinctos
em varios ramos das sciencias, e das industrias. Perdera muito a
Hespanha com esta barbara e atroz expulsão de uma raça de homens, que
muito concorriam para sua felicidade e engrandecimento. Logo, após, no
desejo sempre de extirpar toda a heresia implantaram em Hespanha a
instituição do Santo Officio da Inquisição, reformada sobre a que o Papa
Innocencio III fundara para exterminar os Albigenses, que se tinham
separado da obediencia devida á Roma. Deram a esse hediondo tribunal
faculdades civis de processar, prender, empregar torturas, condemnar,
queimar em fogueiras todos quantos não obedecessem escrupulosamente aos
mandamentos ecclesiasticos, e não prestassem inteira crença a seus
dogmas; ou faltassem aos deveres mesmo exteriores que a Egreja
impunha e recommendava. Pretenderam, incitados por seus prejuizos
religiosos, que D. João II de Portugal lhes imitasse o exemplo. Este
grande rei, porém, não admittiu a inquisição, e no tocante aos judeus,
até acolheu em Portugal benignamente os que Hespanha expellira, e que
imploraram sua protecção. Durante seu governo ella lhes foi
constantemente dispensada.
Executadas estas medidas, cuidaram os dous reis hespanhóes de repellir
tambem do solo a raça Arabe e Moura que ainda lá viviam, e pois
apromptavam-se em Cordova para uma guerra de exterminio contra Granada,
no intuito de se apoderarem do unico estado Mahometano que ainda durava,
e de empurrarem para a Africa os proselytos do Korão.
Achavam-se, pois, em Cordova, organizando os exercitos que deviam
guerrear os Mouros de Granada, quando ahi chegou Colombo.
O confessor da rainha, D. Fernando Talavera, tomou a Colombo por um
visionario, e quiçá por um aventureiro, e não fez caso das
recommendações do prior João Perez. Pobre e desconhecido, cuidou,
então, Colombo de esperar do tempo melhor exito á suas pretensões, e
para viver dedicou-se a desenhar e traçar mappas geographicos que pela
curiosidade eram já então muito procurados. Conseguiu, após bastantes
mezes, introduzir-se nas sociedades do nuncio do Papa, e do
intendente-mór das finanças de Castella, aos quaes agradou com sua
instrucção scientifica e seu enthusiasmo religioso.
Decorridos alguns mezes, conseguiram os dous personagens apresental-o ao
arcebispo de Toledo, e este á Isabel e á Fernando. A rainha ao ouvil-o
impressionou-se favoravelmente, Fernando, porém, oppoz logo duvidas.
Deliberaram sujeitar, todavia, seus projectos a uma junta ou concilio de
geographos doutos e de professores da universidade de Salamanca, afim de
prestarem consulta. Ordenaram que D. Fernando de Talavera installasse um
concilio em Salamanca, á elle Colombo expuzesse seus planos, e o
concilio formulasse opinião á respeito.
Passaram-se ainda alguns mezes antes que em Salamanca se reunisse o
concilio, composto de bispos, principaes titulares da Egreja, frades
eruditos e lentes da universidade. Foi o local escolhido para funccionar
o concilio o convento de Santo Estevam. Isabel fixou desde logo á
Colombo uma pequena pensão pecuniaria no proposito de auxilial-o.
Nada ha de mais curioso que as actas das sessões do concilio de
Salamanca. Então, e em Hespanha particularmente, a religião estava
ligada á sciencia. Á sombra daquella é que esta caminhava. A religião
dominava pelas consciencias, pelo fanatismo e pelas superstições e
prejuizos da epoca. Os bispos e sacerdotes, ao mesmo tempo que
representantes da Egreja, eram guerreiros, empunhavam armas, cobriam-se
de capacetes para as guerras contra os Mouros, acompanhavam os reis, e
tomavam parte nos combates. Nos ecclesiasticos estava além disso
concentrada toda a instrucção, toda a sciencia: dahi a importancia que
adquiriram e que lhes abria as portas de todos os altos empregos da
politica, da administração, do ensino nas universidades, e da direcção
dos estudos. Não encontravam rivaes para os cargos publicos sinão em
poucos fidalgos da denominada grandeza hespanhola. Na administração
publica predominava quasi exclusivamente o clero pelo numero e pelo
saber, e era ouvido em todos os assumptos, e até nos de guerra.
Installou-se a veneravel assembléa. Foi introduzido Colombo e começou á
expôr suas idéas e á fundamentar seus projectos. Muitos adormeceram, não
as comprehendendo; outros o consideravam com prevenção, pensando que era
elle um visionario, um allucinado, um impostor aventureiro. Os mais
eruditos tomaram-no até por herege em doutrinas religiosas. Não lhe
faltaram immediatamente contestações e contrariedades, e ellas eram
extrahidas quasi sempre dos livros sagrados, das noções canonicas, dos
axiomas theologicos, das crenças inherentes ao culto e á consciencia!
Colombo fundava sua theoria na redondeza do globo, que tinha a fórma
espherica, e que, dividido em terras e aguas de mares e rios, e
circumdado pela atmosphera celeste, sustentava e cumpria a lei physica
da gravitação attrahindo ao centro o menor peso. Esta theoria, que já
haviam apregoado philosophos Gregos e Romanos, e afamados geographos e
astronomos Arabes, não era em toda a Europa adoptada porque a edade
média influenciava-se com as interpretações e lettra da Biblia, e com as
doutrinas apregoadas pelos padres doutos da egreja catholica.
Não era nem orthodoxa e nem possivel essa theoria--clamavam os sabios do
concilio de Salamanca.--A Biblia, que é o primeiro dos livros sagrados,
a contradizia. Não se lia nos psalmos que os céos estendiam-se por sobre
a terra como uma pelle ou tenda? Não affirmava S. Paulo que formavam um
tabernaculo? Não estavam accordes neste ponto todos os commentadores e
theologos como S. Basilio, S. Jeronymo, Santo Athanasio, Santo Ambrosio,
S. Gregorio e Santo Agostinho? Não podia a terra ser sinão rasa, coberta
pela atmosphera ou céos. Admittida a theoria de que era redonda,
dahi resultava logo a da existencia de antipodas que lhes parecia
extravagante. A theoria de Colombo não passava de erros, em que viveram
alguns intitulados philosophos da antiguidade Grega e Romana, erros
demonstrados pela religião christã, que representava toda a verdadeira
sciencia.
Citavam em seu apoio os seguintes trexos das obras de Santo Agostinho:
«--A doutrina de antipodas--dizia o lumiar da Egreja--é incompativel com
os fundamentos historicos da nossa fé. Dizer que ha terras habitadas da
outra parte do globo, equivale a dizer que ha nações que não descendem
de Adão, pois é impossivel que passassem o oceano intermediario.
Equivale a negar a Biblia, que declara expressamente que todos os homens
derivam de um só pai.»
Referiam ainda a passagem extrahida dos escriptos do grande theologo
Lactancio, que assim se exprimia:
«--Ha absurdo maior que acreditar que existem antipodas tendo os pés em
opposição aos nossos? Pessoas que andam com os tacões para o ar e a
cabeça para baixo? Que haja logares no mundo, em que tudo é ás avessas,
as arvores estendem para baixo seus ramos, e chove e neva de baixo para
cima? A ideia da redondeza da terra deu nascimento á fabula dos
antipodas, com os pés para o ar. Cahidos os philosophos pagãos nessa
crença extravagante, de absurdos passam a absurdos, e para defender uns,
inventam outros.»
Nada ha que estranhar nessas ideias. As sciencias dos antigos Gregos e
Romanos haviam sido esquecidas com o desmoronamento do imperio de Roma,
com a invasão e victorias dos barbaros do seculo IV em diante, que
avassallaram toda a Europa Occidental e cobriram o mundo de trevas. O
Christianismo foi semeando nova luz sobre esse cahos formado pelos
Godos, Francos, Slavos, Germanicos, Hunos e Lombardos. Mas o
Christianismo ia esclarecendo o mundo sob a influencia de superstições,
prejuizos e fanatismos. A sciencia desenvolvia-se quasi exclusivamente
na egreja e nos claustros e impressionava-se, portanto, de espirito
devoto e fanatico. Nessa atmosphera é que progrediu, e dahi a ignorancia
de muitas verdades que a antiguidade pagã propagara pelos Aristoteles,
Platões, Plinios e mais escriptores, que os Gregos do imperio de
Constantinopla, christãos separados, conservavam, e que eram egualmente
adoptadas pelos Arabes que em seu tempo foram os mais instruidos dos povos.
Com os descobrimentos, com os estudos cosmographicos, com os progressos
da astronomia e da nautica, que Portugal conseguira, que o principe D.
Henrique de Vizeu favoneara, era corrente entre os eruditos Portuguezes
a theoria da redondeza da terra. Alguns Allemães e Italianos que tinham
travado relações com os pilotos portuguezes, ou que se applicaram a
estudos serios nos seus gabinetes, admittiam-na tambem, e alguns globos
que já se fabricavam, bem que informes e errados, apresentavam a terra
sob a fórma espherica. Hespanha porém nunca se aventurara á
descobrimentos de terras, nunca se entregara á estudos geographicos;
combatera sempre e constantemente em terra, mostrando-se heroica nação,
na gloriosa luta contra os Arabes e Mouros que se haviam assenhoreado do
seu solo, e o dominaram sete á oito seculos, até que foram de todo
repulsados da peninsula Iberica. A marinha que até então Hespanha
contava era essencialmente costeira.
Fernando de Aragão conseguira formar, todavia, na Catalunha, pequenas
esquadras com que vigiava suas costas contra Mouros, continha o estado
subjugado de Napoles, e encommodava os Bereberes das costas visinhas da
Africa.
Não é, pois, para espantar-nos a relutancia dos sabios hespanhóes contra
a doutrina da redondeza da terra.
Não se contentaram os membros do concilio de Salamanca, apoiados nas
doutrinas da Egreja Catholica e nos livros dos Prophetas e dos santos
padres do Christianismo, rebatendo a possibilidade de ser a terra redonda.