Era o senhor Antoninho, que ali apparecera casualmente, anda

COMEDIA DO CAMPO

TEIXEIRA DE QUEIROZ

(BENTO MORENO)

COMEDIA DO CAMPO

(SCENAS DO MINHO)

La plupart des drames sont dans

les idées que nous nous formons

des choses. Les événements qui

nous paraissent dramatiques ne

sont que les sujets que notre

âme convertit en tragédie ou en

comédie, au gré de notre caractère.

H. DE BALZAC.—_Modeste Mignon._

VOLUME III

Antonio Fogueira.—Morte negra.—Enterro de um cão.—O

embarcadiço.—O rei absoluto.

[Illustration]

LISBOA

DAVID CORAZZI—EDITOR

EMPREZA HORAS ROMANTICAS

Premiada com medalha de ouro na exposição do Rio de Janeiro

40—Rua da Atalaya—52

1882

ANTONIO FOGUEIRA

I

N’uma excellente manhã de um maio risonho e feliz, duas creanças, que

já eram orphãs de mãe, perderam igualmente seu pae! Além da orphandade,

teriam tambem a negra fome e a sombria miseria indigente, se não fôra o

bom cura, o padre Clemente Carvalhosa, que as foi buscar a casa, levando

uma de cada lado, pela mão, para a _residencia_! O Thomé Barbante, um

tio d’essas creanças, tambem compadecido, ou, talvez, humilhado pelo

caridoso procedimento do ecclesiastico, foi-lhe pedir que lhe désse uma

para sua casa. O Carvalhosa cedeu-lhe a Quina, ficando com o Tone, que

elle, n’um momento egoista, pensou vagamente em ir mettendo pela igreja,

para de futuro ter quem lhe ajudasse á missa. Porém o Bernardo Repolho,

lavrador remediado, que morava n’outra aldeia, a distancia de leguas, não

lhe consentiu realisar esta ambição: sabendo da orphandade dos filhos

de seu irmão André, que tanto eram seus sobrinhos como do Barbante,

condoeu-se e, consultando a sua auctoritaria Engracia, resolveram

_adoptarem_ Tone, visto Deus não os ter favorecido com _um rapaz_, que

tanto haviam desejado!... Para a mulher de Bernardo, era uma consolação

forçada!... Por espaço de annos presenteára generosamente todos os santos

acreditados nas visinhanças, chegando a ir em romaria beber das diversas

aguas milagrosas, tão apregoadas e tão efficazes, que nascem debaixo dos

penedos, onde esses bemaventurados tinham apparecido!... Frequentára,

tambem, com assiduidade, os banhos de mar, indo durante muitos annos, a

Vianna, pelo tempo da Agonia, sempre dominada por um tamanho desespero de

maternidade, que de uma vez chegou a tomar _trinta banhos_ nos tres dias

da festa!... Porém, as esperanças de ter um filho íam desapparecendo, a

esterilidade de Engracia affirmava-se de cada vez mais com a idade! Viveu

muito tempo n’uma constante aspiração, impaciente e nervosa, chegando aos

quarenta e cinco annos—ao momento dos desenganos! —sem descendencia...

A sua intransigencia, o seu mau humor, contra os filhos dos outros, ía

caíndo n’uma melancolia latente, quasi n’um ediotismo, quando seu marido

lhe propoz o trazerem para casa o orphão de seu irmão André, que acabava

de morrer pobre... Engracia abraçou, inesperadamente, com alegria,

esta idéa e adoptou com benevolencia a creança desamparada! Pediu

instantemente a seu marido, que fosse, mesmo n’aquelle dia, buscar o

pequeno... Para a satisfazer, o Repolho não teve remedio senão pedir ao

padre Beiral, a bôa egua lanzuda. O ecclesiastico cedeu-lh’a facilmente,

perguntando com a sua curiosidade de homem idoso:

—Então é o filho d’esse teu irmão que morava lá para os lados de

Monção?...

—Sim, senhor, esse mesmo—respondeu o Repolho. Era muito pobre, não deixou

nada...

—Pois fazes bem, fazes bem—applaudiu o sacerdote. É uma obra de

caridade... Deixal-os ao desamparo, é creal-os para ladrões. Vae homem,

vae, leva a egua da côrte...

E, no dia seguinte de manhã, Bernardo partiu, chegando ao anoitecer

a casa do Thomé Barbante, dizendo-lhe peremptoriamente, qual a sua

resolução e mais a de Engracia. Foi muito gabado este procedimento. Todas

as pessoas diziam, inclusivamente o Carvalhosa, que o pequeno viria a

ser bem feliz; porque, estes tios que o adoptavam, eram ricos e não

tinham herdeiros necessarios. Porém, quem não entendia as cousas do mesmo

modo enthusiasta, era o proprio Tone. Quando lh’o fizeram comprehender,

principiou a berrar desalmadamente, dizendo que não, que não... que não

queria ir. E, no momento em que o punham ao collo do Bernardo, que já

estava montado, prompto para a partida, principiou a estrebuxar, a morder

nos punhos de seu tio que o segurava amoravelmente, a chamar alto por seu

pae enterrado e porfiando por se atirar abaixo do albardão. A final, como

lhe prometteram que voltaria de tarde, para brincar com sua irmã Quina,

que tambem ficava a chorar em altos gritos pelo Tone, deixou-se levar.

Porém, só quiz ir ao collo do tio Barbante que elle conhecia, e não ao

_d’aquelle home_, que nunca tinha visto. Foi por esse motivo que o padre

Carvalhosa teve de emprestar a _malhada_ para o Barbante ir montado, e lá

partiram ambos, pelos caminhos ensombrados da freguezia, o Thomé com o

pequeno adiante de si, escachado no albardão.

D’este modo, assim illudido, é que o Tone foi e ficou. O Barbante, para

não ser presentido pelo sobrinho, retirou-se ao amanhecer, quando elle

ainda dormia innocentemente. Desde essa hora, as duas creanças irmãs, que

sempre tinham brincado juntas, na mais simpathica convivencia, ficaram

vivendo a distancia de leguas, separadas por altas montanhas, que no

inverno se costumam cobrir de grossas camadas de geada!

* * * * *

A nova paisagem, com a qual o pequeno Tone se tinha de familiarisar,

era de uma sombriedade austera, penetrada de melancolia. É verdade

que em baixo, no coração do povoado, havia campos onde os ribeiros

sussurravam, indo regar os prados, de um verde claro, e os milharaes

alegres. Porém em volta, era uma cinta escura de altas montanhas, com

plantações de pinheiros que tem uma côr energica, mas triste, e com

arrogantes penedias, que ameaçavam desmoronar-se. Lá no alto, onde os

penedos se accumulavam toscamente, uns postos sobre os outros, viam-se

frequentemente, occupados no seu rude trabalho, sob a inclemencia dos

soes e das chuvas, os quebradores de pedra! Estes homens de um aspecto

rude e carregado, com a pelle pergaminhada pelos rigores de todos os

tempos, perfuravam pacientemente com as suas brocas, os penedos, que

depois quebravam a tiro, cujo som ululante e cavernoso echoava pelas

quebradas da montanha!

Na aldeia onde Tone nascera, o aspecto dos campos, a vegetação, era mais

familiar e intima. Os terrenos mais suavemente accidentados, deixavam

aos seus olhos vivos, mais largo espaço para ambicionar. Havia um rio

largo, que no inverno engrossava arrogantemente com as chuvas copiosas.

Dos silvados impenetraveis, povoados de sombras que lhe mettiam medo,

costumavam saír inesperadamente, quando elle se aproximava, os melros,

voando para longe, com assobios agudos e espantados. A sua memoria tenaz

de creança devia possuir por muito tempo, nitidamente, o vivo quadro da

sua linda igreja caiada e alegre, com uma torre alta, e os tres sinos

que tocavam ao domingo! Era a igreja onde elle ia á missa com sua mãe e

onde os primeiros deslumbramentos produzidos pelos opulentos dourados

dos altares e pelas attitudes senhoris das imagens das santas, se lhe

ergueram na imaginação! Era de um pittoresco mimoso o quadro d’essa

igreja, collocada na encosta, com a sua brancura que se destacava

do souto de velhos castanheiros e carvalhos que a cercavam! Áquella

imaginação infantil de Tone, deviam fazer falta estas cousas amadas pelos

seus olhos vivos e ingenuos! N’estes caminhos pedragosos de agora, não

se podia correr doidamente como n’aquelles outros, pelos quaes andara

atrás de sua irmã Quina, para a agarrar. Por isso, nos primeiros tempos,

fartava-se de chorar, tinha perrices freneticas e chamava em altos

gritos por seu pae, por sua tia Clara, por sua irmã e não queria comer.

Mas a mulher do Bernardo Repolho affeiçoou-se-lhe imprevistamente e

acarinhava-o, procurando consolal-o, promettendo-lhe dôces e santinhos,

que lhe havia de trazer das romarias. E n’um dia, para mostrar a

effectividade das suas promessas, fez-lhe uma dadiva surprehendente, a

qual foi recebida pelo Tone com tal alvoroço, que por si só parecia capaz

de lhe obscurecer todas as lembranças risonhas do seu passado mediocre!

Engracia comprou-lhe um pequeno cabrito, de pello lusidio e negro, um

pequenino cabrito que fazia _mé_, _mé_, com uma voz tremida e saudosa, na

qual talvez quizesse exprimir a saudade de seus companheiros, que deixára

na liberdade incondicional das montanhas!

Todos os rapazes da visinhança, que já se davam muito com o Tone, lhe

invejaram, desejando-a, a posse d’este animal, e não occultavam que, nos

seus peitos infantis, se guardavam estragados sentimentos de cubiça!

Acercavam-se do possuidor, dizendo-lhe em tom melifluo e condescendente,

palavras agradaveis, de muita e sincera amisade, por meio das quaes

desejavam captar-lhe a benevolencia. Porém, como elle resistia,

afastando-se, altivo e orgulhoso, com o cabrito pelo baraço, que lhe

atara ao pescoço, um dos amigos propoz-lhe de um modo astuto:

—Olha, se _mo_ deixas levar a comer ali adiante, dou-te esta carapuça

nova...

O Tone olhou com modo avido para a carapuça offerecida, que era vermelha

e, depois de calcular mentalmente as vantagens, condescendeu:

—Pois sim, dá cá a carapuça!

Foram os dois e muitos outros, com o cabrito em grande distincção,

festejando-o com alaridos, como um triumphador romano. Quando chegaram

junto de uma poça, onde encontraram um pasto verde, que julgaram

appetitoso, pararam, porque entendiam que o cabrito deveria comer.

Para conseguirem isto, usaram de subterfugios infantis, escolhendo-lhe

meticulosamente a melhor herva, que profiavam metter-lhe na bôca...

Quando o animal, com os seus dentes finos, mastigava, levantava-se da

parte das creanças uma expressiva satisfação, olhando para o animal

n’um silencio attencioso e meditativo; todos deante d’elle, agachados,

contemplando-o com veneração!...

Estes e outros factos similhantes, fizeram com que o Tone fosse

esquecendo gradualmente o seu estreito passado. Como tinha os mimos

de Engracia e as lisonjas cavilosas dos seus companhiros, principiou

a desenvolver-se-lhe uma vontade forte, desejos impertinentes, certa

irascibilidade e orgulho. D’entre os rapazes com quem brincava, só

distinguia o Zé do sachristão; porque este lhe consentia o tocar o sino

pequeno, _a bambom_, nas occasiões de enterro! E como o Zé na escola já

_escrevia debuxado_ e o Tone, apesar de ter oito annos ainda nem sabia as

_lettras_, disse-lhe o do sachristão:

—Ó _coisa_, quando é que tu vaes com a gente p’ro studo?

O Tone respondeu-lhe com um desdem despresador:

—Eu não vou... _Isso_ de studo não presta...

—Presta meu asno... Vae, e tu verás que presta. Começas logo na carreira

do _A_.

—O que é a carreira do _A_?!—indagou o da Engracia, com modo suspeitoso...

—É a carta. Ai! tu não sabes! Olha, pede á tua mãe que te merque a carta,

que é muito linda. Tem um gallo... é muito linda. Depois vae ao studo,

que andam lá muitos rapazes. Quando não está o senhor mestre, a gente

brinca ás escondidas, joga o talo na eira... Vae meu asno que é bonito.

Influido d’este modo pediu, n’esse mesmo dia, á mãe, que o levasse á

escola. Engracia, para o não ouvir chorar, lavou-lhe logo a cara e

conduziu-o a casa do mestre que era o senhor Antoninho Beiral... O

senhor Antoninho Beiral, um rapaz forte, espadaúdo, alentado, era tambem

o melhor caçador de perdizes da redondeza! Andára em Braga a estudar

para padre, com o fim de succeder na _encommendação_ a seu tio; mas não

conseguira presbiterar-se, por ter _desfeitiado_ um velho conego na

pessoa de uma creada massiça e de rosto oval... Depois d’isto, cortada

a carreira, retirou-se definitivamente para a sua aldeia, deixando

crescer grandes barbas, andando pelos montes e por entre os milhos ás

perdizes e _ás moças_... De vez em quando, para se desaborrecer, dava

aula de instrucção primaria, pois era o professor official!... Os seus

discipulos temiam-n’o; porque elle era severo e zurzia-os, com uma

vargasta pelas orelhas ou com duzias de palmatoadas bem puchadas, quando

os suppunha delinquentes! Se emquanto o _senhor professor_ andava ás

perdizes, elles se divertiam na eira, a jogar o talo ou ás escondidas,

logo que persentiam ao longe o ladrar do podengo, arregimentavam-se

pressurosamente para irem ao encontro do senhor Antoninho pedir-lhe a

benção, do que elle os _dispensava_, passando de espingarda ao hombro,

com um modo carregado e negativo.

No dia em que Engracia lhe levou o Tone, a mulher do Repolho teve de

esperar que o senhor mestre viesse; porque andava no monte... Logo que

chegou, viu Engracia, humilde, com o rapasito ao lado e perguntou-lhe com

indifferença:

—Queria alguma cousa?...

—Se me fazia a esmolinha de me deixar entrar este pequeno cá para o

studo—respondeu.

—Que idade tem?

—Oito annos.

—Traz a carta?

—É isto que comprei lá em baixo na tenda, senhor?

E mostrou-lhe, com o braço estendido, um pequeno folheto de capa de papel

pintado. O senhor Antoninho, lançando-lhe um olhar infimo e despresador,

concluiu:

—É isso mesmo, sim senhora. Deixe ficar. Olha rapaz, vae p’rá acolá.

E apontou-lhe a estremidade de um banco, onde o Tone, amedrontado e

encolhido se foi sentar... Em seguida, o senhor mestre entregou a um

discipulo a espingarda, para lh’a ir pôr na varanda, emquanto elle se

foi sentar, de modo brusco e pesado, na cadeira professoral, onde se

conservou silencioso, durante alguns minutos com a testa apanhada na

mão esquerda!... Por fim, tirando de uma gaveta e collocando em cima da

mesa, n’uma evidencia terrificante, a palmatoria disciplinar, indicou aos

descipulos que n’esse dia, não passariam _sem molho_, como elle costumava

dizer.

* * * * *

Mas o Tone da Rosaria não gostou d’aquelle _studo_: o mestre era brusco,

tinha uma voz grossa, que repellia, uma cara rude, com muita barba. Na

mesma tarde em que entrou para a escola, viu, com um semblante cheio

de susto, que, o seu amigo, o Zé do sachristão, a unica veneração que

o Tone tinha n’este mundo, foi severamente castigado com dois murros,

levantando-se do chão a deitar sangue pelo nariz, só por lhe ter caido um

borrão na escripta! O Zé chorou soluçando reprimidamente, desculpando-se,

e ficou muito tempo no seu logar, a olhar para o _manual_, com os seus

olhos vermelhos do chôro, fingindo uma penetração que não tinha. Por um

movimento espontaneo e sympathico, o Tone foi ter com o seu amigo, para o

consolar! Porém, o mestre, disse-lhe com uma voz estrondosa, que se fosse

sentar... Elle obedeceu, encolhido de medo, como um cão escorraçado, e

principiou tambem a chorar, soluçando...

Quando chegou a casa disse:

—Ora eu não quero mais aquelle _studo_...

—Porque?—indagou sua mãe.

—O mestre bate nos rapazes. O Zé da igreja verteu sangue pelo nariz e

chorou muito...

—Mas tu has de saber a lição e o senhor mestre ha de ser muito teu

amigo...

—Não quero ir mais... Elle bate-me e faz-me deitar sangue pelo nariz...

E não voltou mais. Quiz antes os seus devertimentos:—ir para o campo

com os filhos dos lavradores que andavam com o gado e não estavam para

aprender a ler, jogar o _talo_ com elles, abrir covas á mão para enterrar

pedras que fingissem de mortos, comprar _aos outros_ gaitas, com o pão

que levava de casa... O Tone andava quasi sempre acompanhado do seu

cabrito, que elle mandava com ama voz exigente e imperiosa... Os seus

amigos, para o desgostarem, desmereciam-lhe o animal. Porém, n’um dia,

em que esse cabrito appareceu puxando um carro novo, todos os invejosos

se submetteram. O Zé do sachristão que lh’o viu e lhe cubiçou, carro e

cabrito, disse-lhe:

—Das-m’o, Tone?

—Não—respondeu energicamente.

—Pois tambem, quando quizeres tocar o sino pequeno, a repique nos dias de

festa e a _bambom_ nos enterros, não te hei de deixar...

—É o mesmo—respondeu com isenção.

O Zé propoz-lhe:

—Se me désses o carro e o cabrito, deixava-te tocar o sino e dava-te uma

cousa muito linda que eu tenho...

—O que é?—indagou com os olhos muito abertos.

—É um ninho com cinco melrinhos...

—Isso não presta—desdenhou o Tone, cheio de soberba.

—Ai, não presta, tomaral-o tu! Os melrinhos já têem pennas, estão quasi a

voar...

—E onde é o ninho?—indagou o dono do cabrito e do carro.

—Arreguilal-o—respondeu arregaçando a palpebra inferior do olho esquerdo.

Querias saber; mas não chuchas. É n’um sitio...

—Vamos lá ver?

—E das-me o carro?

—Dou; mas tu has de me deixar tocar o sino no dia da festa, e das-me o

ninho.

—Pois sim, então dá p’ra cá o carro. Amanhã não ha studo e então vamos

tirar os melrinhos, que já são grandes!

—Eu quero hoje o ninho...—exigiu o Tone.

—Hoje vou p’ro studo, não posso!—desculpou-se o Zé, visivelmente infeliz.

—Não vás hoje ao mestre. Isso de studo não presta!—aconselhou o Tone

desdenhoso.

—Ai, elle é o _não vás hoje_. E o meu pae? Não, que o meu pae, depois,

bate-me.

—Elle não sabe. Gazeia hoje Zé...

E o do sachristão, para obter o carro, resolveu-se a gazear. Com elles

ambos foram outros rapazes que tambem andavam na escola e outros que não

andavam. Desejavam ver o ninho, que estava n’um carvalho, perto de uma

poça, segundo affirmava o Zé.

* * * * *

Encaminharam-se por entre uns silvados. Como era no tempo das amoras,

pararam muitas vezes para as colherem. Houve algumas bulhas, porque

todos desejavam apanhar as que estavam mais maduras. Antes de chegarem

ao sitio do ninho, passaram por umas cerejas que tiveram tentações

de comer... Porém, como eram do padre Beiral, reconsideraram, com a

lembrança de que o mestre, que era sobrinho do ecclesiastico, sabendo-o,

os zurziria com a chibata de marmeleiro, que tinha encostada á parede, na

aula. Quando chegaram ao pé do carvalho annunciado, disse o do sachristão:

—Olha, Tone, o ninho é ali.

—Deixas-me subir p’r’o tirar?

—Não senhor, que tu és muito pequeno—respondeu com orgulho, alongando os

beiços. Podes cair e depois a tua mãe vem _com aquellas_...

—Deixa-me ir Zé, que eu não caio—insistiu o Tone, com voz de pedinte.

O do sachristão, para conciliar todos os desejos propoz:

—É melhor tu ires para cima dos penedos. Eu subo e dou-te o ninho para a

mão. Queres?

—Pois então vá lá—rematou o da Engracia, concordando. Mas não dás a

estes, não?

—Não, dou a ti...

Os companheiros, offendidos com esta exclusão, disseram orgulhosamente:

—Olhem, o diabo do asno! Tem medo que lhe comam a porcaria do ninho!...

O Zé do sachristão principiou a subir. Primeiro abraçou-se ao carvalho,

depois encolheu as pernas, em seguida fincou o lado interno dos

joelhos para se segurar, e por fim, o lado interno dos pés para se

impellir... Quando se ia chegando ao cimo do carvalho, elevando-se

assim, prudentemente, agarrou-se a um forte galho, segurando-se com

presistencia. E disse para os que, debaixo, o seguiam attentamente com os

olhos:

—Cá estão, os cinco melrinhos. Já tem penna.

—Dá-os para cá—disse o Tone de cima de penedo, relanceando um olhar

despresador para os outros rapazes, que se conservaram afastados, n’uma

reserva sensata e orgulhosa...

—Chega-te mais para cá—observou-lhe o Zé.

—Não posso mais—respondeu desconsolado, inclinando-se do penedo para o

carvalho.

—Então levo-os eu para baixo. Se caem no chão morrem e depois tu não me

dás o carro.

E principiou a descer, tendo previamente mettido no seio, os cinco

melros pequenos. Como precaução, para os não esmagar, descia afastando o

corpo do velho tronco do carvalho, agarrando-se tenazmente com as mãos e

fincando os pés na casca nodosa. Quando chegou a baixo, disse mostrando

os cinco passaros, que ia tirando um a um, de dentro da camisa:

—Toma. Agora dá cá o carro.

—Dá tu primeiro os melros—observou-lhe o Tone.

—Isso arreguilal-o!... Então, mão por mão, como os rapazes.

Todos os companheiros cercaram o possuidor dos melros, olhando-o com

olhos seccos e avidos!...

Um pediu-lhe com um tom melodioso e humilde:

—Dás-me este melrinho, Tone?

—Não!—respondeu avaramente o da Engracia.

—Tambem eu te não dou uma cousa...

—O que é?

—Quatro botões amarellos de duzia, muito lindos...

E mostrou-lhe na palma da mão, para lhe causar inveja, quatro botões

com armas reaes, que tinham sido furtados de uma antiga farda meliciana

do avô. O filho da Engracia gostou muito dos botões amarellos de armas

reaes, que valiam cada um, doze fôrmas! Por isso trocaram. O Tone deu-lhe

um melro por todos, por isso ficou sómente com quatro, que metteu sensata

e reservadamente dentro da carapuça, para os não opprimir e para lho’s

não cubiçarem com os olhos. Os outros rapazes, com o fim de captarem a

confiança do Tone, davam-lhe generosos conselhos:

—Sabes o que deves fazer? Dá aos melrinhos sopas de vinho—dizia um.

Outro offerecia:

—Ó aquelle, tu queres pão para elles, que eu dout’o? Olha que hão de ter

fome...

E n’esta idéa caritativa, afastavam-lhes com os dedos sujos as

mandibulas, introduzindo-lhes na bôca pão esfarellado, que os melros

regeitavam.

Um dos rapazes teve esta idéa:

—Sabes o que os passarinhos querem? É beber.

Passava ali um regato que em baixo ía fertilisar um campo de herva. Na

superficie da corrente, iam folhas verdes e guiços. As tenras plantas que

tinham nascido no logar onde corria a agua, curvavam-se obedientemente,

à sua passagem. Porém, nos momentos em que a força da corrente era menor,

erguiam-se com orgulho, retomando a sua posição habitual. Os rapazes,

quizeram dar de beber aos melros n’este regato. Para isso mettiam-lhe o

bico na agua, empregando um esforço meticuloso e cuidado. Porém elles,

assim, não bebiam bem, e o Zé do sachristão, que tinha onze annos, disse

com voz emphatica:

—É que os melrinhos não sabem como se bebe, meus asnos? Ensinae primeiro

aos animaes como se bebe!...

Este alvitre foi adoptado e, para conseguirem o fim desejado,

lembraram-se de imitar, o modo como presumiam que os melros velhos dariam

de beber aos seus filhos. Tomavam a bôca cheia de agua e introduziam o

bico de cada passarito entre os beiços. Porém, como d’este modo ainda

não bebiam, abriam-lhe de novo as mandibulas á força, e com uma palha

molhada na corrente, deixavam lhes cair gotas na garganta. Mas este

processo era demorado, a paciencia infantil esgotou-se e o Tone, para

andar mais rapidamente, metteu debaixo de agua a cabeça de um dos melros,

ao qual se encarregara de dar de beber e afogou-o, principiando depois a

choramingar. O Zé possuidor do carro, disse com desconfiança:

—Sim, matta-os e vem cá para eu te dar o carro que has de vel-o por um

canudo!...

Na realidade, o filho da Engracia achava-se descontente com a troca e

principiava a pedir outra vez o seu carro e o seu cabrito. O Zé respondeu

lhe:

—Isso é que não! Quem dá e torna a tirar ao inferno vae pagar!

E ao pronunciar estas palavras cabalisticas, fez no ar uma cruz de

maldição, com a mão em gume, afastando-se com o cabrito e com o carro.

O sol ainda ía alto e os rapazes, para gazearem correctamente, deviam

chegar a casa ás horas a que poderia ter terminado a escola. Para se

entreterem mais algum tempo, lembraram-se de jogar o botão. A sorte

marcou o _rei_ e o _fossa_—o primeiro e ultimo a _atirar á buraca_;

porque foi _este_ o jogo preferido. Era n’uma encruzilhada de dois

caminhos, onde havia um cruzeiro. O Zé do sachristão e os outros

_maiores_, tiravam das saccas que traziam ao pescoço, por dentro da

camisa, as _fôrmas_... O Tone conservava-se triste, a certa distancia;

pois que, antes de principiarem _á buraca_, já lhe tinham ganho os botões

amarellos, _á parede_. Com o fim de obter mais fôrmas para poder jogar,

teve que vender ao Teixugo os melros _por duas duzias_. Porém, no momento

em que estavam verdadeiramente presos n’este entretenimento ambicioso,

ouviram uma voz tremenda que lhes bradou de cima do muro sobranceiro, com

uma ironia terrificante:

—Sim senhores, lindos meninos! Então uma gazeadella, ein?!

Era o senhor Antoninho, que ali apparecera casualmente, andando á caça!

Quando o mestre suppunha que _aquelles_ discipulos o estavam esperando na

eira como de costume, vae-os encontrar ali a jogar o botão!... Os rapazes

ao verem-n’o, olharam-se repassados de um terror estupidificante,

ficando n’uma coacção espasmodica! Os musculos faciaes permaneceram

n’uma regidez tetanica, e os olhos, muito abertos, fixaram-se, com uma

insensibilidade apparente, no _senhor professor_! Porém, quando este

se dispunha a descer o muro para os punir a murro, elles seguiram o

instincto salvador!... Fugiram, deixando o carro, o cabrito, os melros,

as fôrmas e... tudo! O sobrinho do padre Beiral ainda lhes gritou de

longe, iracundo:

—Andae meus grandes marotos, que ámanhã vos ensinarei. Assim é que se vae

á escola?! Ella vos saberá ao alho, a gazeadella! A pelle das vossas mãos

é que o ha de pagar!

Depois de mais os não ver, pegou nos melros, estorcegou-lhes o pescoço,

metteu-os no bolso, e disse para si, com mais reflexão:

—Sempre servem para um arroz!...

E foi indolentemente, pelo caminho adiante, assobiando, com a espingarda

ao hombro.

II

Alguns annos depois, o Antonio da Engracia era tido como o rapaz

mais turbulento d’aquelles sitios:—attribuiam-lhe, a elle e aos seus

companheiros, todos os casos bulhentos que por ali se davam. De todos

os seus amigos da infancia, faltava um, o Zé do sachristão, que tinha

ido para o Brazil, e já escrevera muitas cartas. Na ultima fallava

palavrosamente, com muitas repetições emphaticas, de largos projectos

de fortuna! Affirmava estar muito contente, e promettia, se Deus o

ajudasse, vir d’ahi a annos, fazer o orgulho de seu pae. Um longo periodo

d’essa carta desvirgulada, era destinado especialmente a recommendar

muito o pequeno cão, que deixara na aldeia no dia da partida... Tinha-o

em grande estimação, lembrava-se todos os dias do _Rabicho_, desejava

encontral-o quando voltasse... Esse animal, magro, aleijado, rijo e

bom, representava, para aquelle rapaz, um affecto incondicional, uma

dedicação cheia de provas... Obtivera-as na paciencia com que lhe

soffrera as travessuras infantis. Se lhe batia, em vez de fugir ou de

ladrar, rojava-se-lhe aos pés, com o ventre para o ar, os olhos humidos

e resignados, ganindo humildemente, n’uma obediencia absoluta... Na

manhã de julho, na qual José partira, quando elle, com os olhos rasos

de lagrimas, se despedia das mulheres da visinhança, que lhe atacavam

os bolsos de fructa; quando, pela ultima vez para muitos annos, olhava

para aquellas paredes negras e musgosas da sua aldeia, para os penedos

que estavam no alto do monte, para os pinhaes sombrios... espalhando

sobre essas cousas inanimadas uma vista de saudade; quando se despedia

dos seus amigos que ficavam... o seu cão, aquelle mesmo que recommendava

em todas as cartas, acompanhara-o, indo na frente, a vinte passos, com

uma perna no ar, correndo alegremente, bebendo nos regatos do caminho,

voltando atrás para festejar seu dono, com movimentos expressivos de

cauda, e saltava-lhe ao peito! Fôra com o sachristão e seu filho até meia

legua fóra da freguezia; porém, o _velho_, julgando inconveniente esta

companhia, escorraçou-o para casa, fazendo-lhe gestos de uma fingida

colera theatral, atirando-lhe pedras, e dizia: «_Passa fóra, Rabicho_».

O cão, com a sua perspicacia quasi humana, conhecendo que era importuno,

incommodo, que não devia proseguir, subiu a um muro, e ali permaneceu de

pescoço firme, com o focinho para diante, as orelhas tesas, os olhos

fixos, n’uma attitude observadora, até que elles desappareceram!...

Este rapaz de quatorze annos deixava a sua aldeia e as suas queridas

affeições. Ia muito longe, procurar uma fortuna incerta!... Poderia, no

contacto do mundo indifferente, perder muitas das intimas recordações

da sua terra. Porém, o que elle nunca esqueceria, era o dia em que

partiu, as mulheres que lhe davam a fructa chorando, os rapazes que

ficavam sentados nas pedras do caminho e a firmeza esperta do seu cão

em cima d’aquelle muro! Em todos os quadros da sua vida infantil, que

muitas vezes reproduziria de memoria, para contentar a saudade natural,

appareceria decerto aquelle cão, em cima d’aquelle muro, n’uma posição

intelligente e nervosa, com sol a illuminal-o fortemente de um lado!...

N’esta ultima carta, ainda se lembrava nitidamente de toda a visinhança,

designando cada um com o seu nome por extenso e acrescentando-lhe _o

alcunho_. _Á senhora_ Engracia do Repolho, por exemplo, aconselhava a

que mandasse o seu Antonio para _aquella_, affirmando-lhe de um modo

cathegorico «que ali é que se ganhava dinheiro e _se fazia a gente

homem_».

O sachristão, tendo soletrado meditadamente, por tres vezes, toda

essa extensa carta, saíu de casa para a levar ao padre Beiral, o mais

circumspecto dos ecclesiasticos visinhos!... Era um homem pacato, com

algumas impaciencias veniaes, com muitas impertinencias de achaques,

lembrando-se, sempre que lhe perguntavam pela saude, que vinha a morrer

da bexiga, pelo que batia com dois dedos no baixo ventre exclamando:

—Ah! vem a ser d’aqui... D’aqui é que hei de ir para os anjinhos como o

João Thomaz!...

O João Thomaz era um seu antigo condiscipulo, que morrera parochiando na

freguezia limitrophe!...

Na sua comprida varanda telhada e soalheira, é que o Beiral reproduzia

as suas queixas, cumprindo, já se entende, regularmente com as suas

resas!... Interrompia-se sómente para deitar _um milhinho_ ás gallinhas,

que esgravatavam no quinteiro e que logo ao verem-n’o passear de lado

para lado, faziam cácárácá... Mas, todos os seus peccados, vinham de que

os porcos, impacientes e gulosos, afugentavam as aves com grunhidos, com

impulsos de focinho, o que, para elle, era mesmo uma damnação... Por isso

o ecclesiastico, com pequenos gestos de frenesi, quando isto succedia,

voltava á cesta do milho, tomava novamente a mão cheia, e espalhava-o

habilidosamente no quinteiro, com um largo gesto de orador que abrange

um auditorio. As gallinhas, já conhecedoras d’esta artimanha, logo

que sentiam o crepitar do grão sobre as pedras do quinteiro, corriam

precipitadamente de todos os lados, com as azas abertas, os pescoços

alongados, as mandibulas promptas, e principiavam a comer soffregamente,

antes que chegassem de novo os porcos.

No momento em que entrou na varanda o sachristão, remoía, o padre Beiral,

as ultimas palavras da sua resa. O pae do _brazileiro_ disse-lhe do fundo

da escada de pedra, mostrando-lhe um papel azul, com um bom riso de

contentamento:

—Cá a temos, senhor!...

O ecclesiastico abriu-se tambem, n’um riso expontaneo e exclamou:

—Não t’o disse eu?! O rapaz não se esquecia... Lá por não teres na ultima

barca, não é que se não lembrasse.

—Vae muito bem, com a ajuda de Deus que tudo manda, vae muito bem!

—Está bom, homem. Entra cá para cima.

E n’uma voz mais baixa:

—Que diabos de porcos aquelles! São o vivo demonio. Ó Maria—chamava. Anda

cá rapariga!

Do lado do quintal respondeu uma voz sadia, n’um tom malcreado e agudo:

—Que é, senhor?

—Aquelles porcos que rompem o lençol... Deixa lá Manuel... Vem cá p’ra

cima que a rapariga arranjará isso. Com que então o teu Zé escreveu e dá

bôas noticias!... Muito bem, muito bem...

—Aqui lh’a trago...—certificava com rosto satisfeito, apresentando uma

carta de papel azul, pautado, muito fino, que lhe rangia entre os dedos.

Trazia-a cuidadosamente dobrada, tendo rasgado unicamente a parte collada

pela obreia vermelha e quadrangular. Mostrava com orgulho o talho da

letra commercial do sobrescripto, os carimbos de tinta atijolada, os dois

sellos azues, representando a dôce efigie do imperador, com a sua fina

barba-toda. Depois, para que o ecclesiastico visse o que o seu Zé dizia,

abriu melindrosamente a carta, e entregou-lha affirmando em seguida:

—Leia, senhor, leia que _está-the_ mesmo um _home_. Falla com uma

cabeça!...

E, ao pronunciar estas simples palavras, tinha lagrimas orgulhosas, por

ter um filho que _não merecia a Deus Nosso Senhor_.

O Beiral disse-lhe:

—Confesso-t’o agora Manuel. Nunca pensei que fosse para lá fazer boas

cousas. É bem certo o dictado: «Quem bom é, em toda a parte se salva.»

E, com a inflexão do homem que conhece muito o mundo, acrescentou com uma

reserva premeditada:

—Olha que as más companhias por esse universo fóra são muitas. Digo-t’o

eu, Manuel, que são muitas.

Depois, com os seus bons oculos de aço, que primeiro limpou ao forro da

batina, tomou a carta aberta, pol-a á distancia do comprimento do braço,

e, com signal approvativo de cabeça, disse com voz cantada:

—Apre! Bonita letra! Meu sobrinho sempre disse que para cousas de

escripta era um dos que tinha mais geito. Do que elle não gostava,

era que o teu filho andasse por esses montes aos ninhos. Lá com isso

damnava-se. Todos os caçadores são assim... Que lhes matem a criação nos

ninhos, não gostam nada!...

E ria de um modo secco e breve.

—Saiu-me um rapaz que não mereço ao Altissimo. Leia essa carta,

senhor!—considerou o pae do _brazileiro_, com uma pronuncia sensibilisada

e lacrimosa.

O clerigo continuou:

—Está bom, o rapaz sabe da cortezia. «Meu presadissimo pae.» Meu sobrinho

puxou-te bem por elle.

—Estou-lhe obrigadissimo. Isso ainda que ponha a cara onde elle põe os

pés...

—Não lhe pagas não, pódes dizer—concluiu convencido.

E continuou a lêr n’um tom pausado, cheio de cadencia, pronunciando com

inflexão approvativa de elogio...

—«Desejo ir, muito brevemente a _essa_, para dar alegria a meu pae.» Não

tem duvida, é bom filho. Ha quantos annos foi?

—Faz seis lá passante o S. João que vem.

E o ecclesiastico, como recordando-se, confirmou:

—É verdade. Agora me lembro. Quando me veiu dizer adeus, dei-lhe peras

das que tenho d’esse tempo.

O sachristão acrescentou melancolicamente.

—Parece que foi honte, senhor!...

—E queres vêr o que elle diz aqui abaixo?! «Diga á tia Engracia do

Repolho que mande o Tone para _esta_.»

—Logo lá hei de ir—affirmou com simplicidade o sachristão.

O Beiral interrompeu com energia:

—É malhar em ferro frio! Um grande brejeiro, é que elle é. Não sae ao

teu, que por andar com elle tambem cheguei a pensar que ficasse por ahi

um...

E remoeu longamente a lingua na bôca, para concluir com os beiços

alongados e as proeminencias malares vermelhas:

—... um _meliante_.

O sachristão atalhou com serenidade orgulhosa:

—Elle tinha um pae! Vossa Senhoria bem sabe, que não punha nada em lhe

atirar os braços a terra, em lhe pôr os ossos n’um feixe!...

O Beiral respondeu:

—Deste-lhe a criação. Elle não era dos mais quietos (e sorriu

bondosamente), valha a verdade que não era dos mais quietos; mas soubeste

ser pae. Nunca foi como esse brejeiro, esse grande tratante, que me

escangalhou uma videira o anno passado (enthusiasmava-se gradualmente), e

me roubou as uvas que eu tinha ali para uma necessidade, para uma doença!

Sabes? aquella videira lá do outro lado, ao pé da porta de baixo, e que

seccou depois!...

O sachristão respondeu intrigado, coçando a cabeça:

—Valha-nos a Santa Igreja!... Aquillo vae mal, senhor. O rapaz tem feito

muitas; mas ha de encontrar o seu _home_.

—O que?—diz o clerigo afogueado. O seu homem hei de ser eu! Uma farda ás

costas! Uma farda, entendes tu?! Não descanço emquanto lh’o não fizer.

Tenho muito amigo, _nesse_ Vianna! Olha que lh’a arranjo.

E ficou com um aspecto apopletico:—concentrava-se-lhe gradualmente o

sangue nas faces, os olhos tomavam uma vivacidade tigrina e a voz era

tremula e humida. Contra o _adoptivo_ de Engracia ainda disse muitas

cousas:—elle é que lhe tinha aleijado um carneiro, attribuia-lhe o

desmoronamento de uma parede que apparecera no chão em certa manhã de

inverno, e affirmava que não fôra a ventania mas sim o Antonio que lhe

destelhara um canastro, com o fim malefico de se lhe estragarem as

espigas com toda a chuva de uma tempestuosa e terrivel noite de inverno.

E concluiu assim:

—Pódes dar graças a Deus que o teu saiu-te um rapaz chibante. Mas este de

cá!... Este grandissimo maroto que me aleijou o carneiro! Bem se vê que

falta um homem n’aquella casa! O Bernardo é um... um _cebola_. Já disse

á Engracia que mandasse aquelle (não sei como lhe chame, Deus me não

castigue!) para a terra!... Mas qual manda ou qual carapuça! É uma babosa

pelo garotaço, e quer deixar-lhe tudo. Emprega-o bem!

O sachristão, que era homem de rosto moderado, cheio de conveniencias,

depois de ter escutado respeitosamente as invectivas do sacerdote,

cortou-lhe assim a conversa:

—Pois sim senhor... Então vou lá ao senhor mestre mostrar-lhe a carta do

_meu_. _Tamem_ lhe manda muitas recommendações e eu quero que elle veja.

—Talvez o não encontres—disse o Beiral mudando de tom.—Aquillo, a estas

horas, anda lá para o monte á caça. Mas chega lá sempre, a ver se o vês,

que os professores gostam muito d’essas novidades e d’essas attenções.

E quando o pae do _brazileiro_ já ía no caminho, o padre tornou a

chamal-o de cima, debruçando-se na varanda, para lhe dizer:

—Mostra tambem a carta á Engracia do Repolho, não te esqueças, para vêr

se manda esse _licante_ por uma barra fóra!...

—Não tem duvida, senhor. Não me esqueço, logo lá vou.

E o ecclesiastico recolhendo-se, concluiu para si, com um bondoso gesto

de impaciencia:

—Mas que diabo ha de ir fazer ao Brazil, aquelle desgraçado, se nem

sequer aprendeu a escrever o seu nome!...

Por isso o Beiral ficou triste, remoendo intimamente as suas idéas

singelas e sem caracter. Sentindo o cacarejar espantadiço de uma

gallinha, que fugia precipitadamente diante do focinho impetuoso de um

cevado, tomou da cesta a mão direita cheia de milho e espalhou-o na

largura do quinteiro, dizendo: _ó diabo!_ Depois, com o seu olhar fixo,

de pouca penetração, seguiu os movimentos dos porcos e das aves, pensando

nas cousas insignificantes da sua vida baralhada!

O sachristão, no caminho para casa do senhor Antoninho, levava na mão

esquerda, a carta cuidadosamente dobrada. Todos a viam—era de fino papel

azul, que rangia entre os dedos, um papel bem conhecido. As pessoas

que o encontravam e que haviam recebido noticias dos filhos que tinham

no Brazil, contavam-lhas miudamente. Aquelles a quem faltava carta,

havia muitos annos, mostravam-se tristes, desconsolados, impertinentes

na conversa, quasi invejosos, querendo duvidar das felicidades que se

deprehendiam d’aquelle venturoso papel!

O Manuel, como não encontrou na aula o senhor professor, desceu a um

caminho para ir a casa da Engracia, com a intensão reservada de lhe ler

a carta, acrescentando-lhe os commentarios favoraveis do padre Beiral.

Porém a mulher do Repolho não estava para o aturar e disse-lhe, com modo

desabrido, que não queria receber conselhos e que «quem lhe encommendára

o sermão que lh’o pagasse». Não admirava este azedume a quem soubesse que

lhe tinha morrido, n’esse dia, um touro que valia oito moedas! A perda

irritara-a, o modo furtuito como acontecera _essa desgraça_ indispozera-a

para ouvir o sachristão, que, offendido pelas respostas aggressivas de

Engracia, respondeu, tambem melindrado:

—Ó santinha, eu tenho lá nada com as suas cousas, com os seus touros!...

—Pois tambem eu não me importo com as suas riquezas! O seu filho, se tem

muito, que se levante de noite da cama, para o comer!

E, com um estrepito insolente, bateu-lhe com a porta na cara.

O pae do _brazileiro_, que era um homem moderado e bem fallante,

offendeu-se com isto, perdeu a cabeça e, ao retirar-se, ainda disse,

voltado para a porta que se fechára, com uma voz alta e insolente:

—Ah! minha tronga! O que tu querias era um bom fueiro n’esse costado!

Fosses minha mulher, que te não havia de faltar!

Engracia, que percebeu este alanzoado, ainda veio fóra para lhe

responder, e disse:

—Olhe, dê lá _retolicas_ na sua casa! Alguem cá o chamou?! Ora o diabo do

camello!

O Manuel, na volta para casa do Beiral, repetiu o que se passára com a

mulher do Repolho, acrescentando:

—Se Vossa Senhoria lhe arranja uma farda para o meliante, ganha o céu!

Era uma bem pregada! Elle anda por ahi a fazel-as gordas; mas ha de

encontrar o _seu homem_!

O sacerdote, novamente indignado, certificou-lhe:

—Oh! se encontra! E hei de ser eu, já te disse! Isso, a farda, tem-n’a

elle tão certa como dois e dois serem quatro...

E depois de um silencio reflectivo, o Beiral concluiu:

—Que a Engracia não é má mulher; mas anda com a cabeça perdida com o

brejeiro! Lá essas arenegações d’ella, não faças tu caso. Olha que

perder, não faz bom cabello. A gente, quando lhe succede uma desgraça,

não sabe o que diz.

A proposito, o Beiral narrou pelo miudo o _caso do touro_; porque o

sabia. Tinha-lh’o contado a Feliciana, que presenceara tudo, que vira

caír o demo do bicho da ribanceira abaixo, espapando-se no caminho.

Andava o animal, com outro gado, no campo a pastar. Parecia que trazia

o mafarrico no corpo; porque todo o santo dia o viram n’uma constante

brincadeira, a escornar os outros, a dar corridas em vez de comer

socegado! Parecia mesmo doido, a fugir pelos campos com a cabeça

estendida para diante, o rabo levantado em fórma de pau de bandeira,

e a extremidade felpuda ondeando, como um pennacho! Depois, quando

chegava a uma beira alta, estacava de repente a olhar para o longe

muito tempo e, raspando no chão com um pé, continuava a comer muito de

vagar, como se nada tivesse sido com elle! Passado algum tempo vinham-lhe

novos caprichos, nova maluquice e corria para os bois a escornal-os, a

provocal-os á lucta, á corrida, ao salto... O pastor bem lhe fallava,

bem lhe berrava, mas era o mesmo que nada! Por fim determinou não fazer

caso d’elle e deixal-o lá, chegando mesmo em certos momentos a tomar

interesse, a sorrir-se inconscientemente, quando o touro atravessava

vistosamente, dando pulos, por entre as arvores. O pastor era um rapasito

de doze annos, com a cara manchada de nodoas de terra, o olho vivaz,

vestido com uma camisa de tomentos muito suja, e umas calças remendadas.

Estava a olhar risonho e irreflectidamente para o animal, quando elle

passou de uma vez com mais furia, com as pernas muito abertas, o dorso

arqueado, a cauda horisontal, a cabeça baixa, dando saltos cheios de

capricho... Ia na direcção da estrada, para o lado onde havia um muro

alto! Corria n’uma vertigem, com um impeto louco e, o rapazito, esperava

vel-o parar rapidamente, antes de chegar á extremidade! Porém não

succedeu assim! D’esta feita venceu mais que a largura do campo, saltou o

muro e caiu em baixo, no fundo caminho pedregoso, dando um forte berro,

ao mesmo tempo estridente e lamentoso, que foi echoar nas cavidades dos

montes proximos. Ficou instantaneamente morto e a Engracia teve de o

vender aos marchantes da villa proxima que, no dia seguinte, poderam dar

carne a pataco o arratel!

Ora, foi por causa d’esta perda de moedas, que Engracia estava azuada e

respondeu mal ao sachristão, que ía lá para lhe dar conselhos, sem lh’os

pedirem!...

O Beiral terminou conceituosamente:

—Isto de perder não faz bom cabello... Coitada! Tu bem sabes que não faz

bom cabello... Coitada!

III

Quando o Antonio chegou aos vinte annos feitos, já tinha esquecido

completamente a aldeia risonha onde nascera e o rosto bom de sua irmã

Quina que, por seu lado, se o encontrasse, tambem não seria capaz de

reconhecer o seu amigo de infancia, n’este homem barbado, com modos

bruscos de feirante, com gestos insolentes e desordeiros de troquilha!...

E tanto se habituou a ter vida vagabunda, que nos ultimos tempos, não

dormia em casa de seus paes adoptivos, metade dos dias de cada semana!...

Andava pelas tabernas, de feira em feira, n’uma vida accidentada e

bulhenta, sempre em companhia de outros _feirantes_, e da Marianna

Ripa, sua amasia!... Esta Marianna Ripa era uma mocetona alta, bem

proporcionada, com certa vivacidade vaidosa e impudica!—uma creatura

demoniaca, cheia de tentações malditas, infelismente appetecidas pelos

fracos da carne, pelos numerosos peccadores de todos os tempos!... Nos

seios altos e avolumados, nos quadris largos, a que ella dava geitos

lubricos, quando andava, para fazer assim ondular as saias de côres

vivas e excitantes... residiam as tentações infinitas das lendarias

Magdalenas, antes do santo dia do venturoso arrependimento!... As

feições rasgadas e energicas accentuavam-lhe o caracter dominador, que

melhor se lhe reconhecia no olhar cheio de impudencia e lubricidade!

A sua vida passava-se pelas feiras, entre troquilhas, com os quaes se

entendia nos ajustes de gados, bebendo como elles por copos de meia

canada, interessando-se nas suas vendas e trocas! O predominio que

Marianna exercia sobre o Fogueira, depois que era sua amasia, todos

os companheiros d’elle, o Rio-Tinto, o Fanfarra... o sabiam. Era ella

que muitas vezes o impedia de ir a casa, dando-lhe conselhos malditos,

indusindo-o a que abusasse da affeição que Engracia e Bernardo lhe

tinham, para lhes _pilhar tudo em vida_!...

—Porque—insinuava-lhe a moça—pode-te acontecer, como lá a um rapaz da

minha freguezia... Ateve-se ao que a madrinha lhe havia de deixar por

morte, não se segurou nas cousas a tempo e, vae a bebeda da velha,

roeu-lhe a corda e lá se foi tudo!... Em vez de lhe testar a elle os

campos, como tinha promettido, metteu-se com a coruja, um tratante de um

padreca, que lhe principiou a contar tantas lonas, que a coira vae deixar

tudo lá a uma confraria e o asno ficou a chuchar no dedo!

Estas idéas allucinavam o cerebro do adoptivo da Engracia, que depois

de escutar Marianna, ficava mais estonteado do que tivesse bebido, de

uma assenada, uma canada do rascante!... No entanto a verdade é que esta

vida mundana de feirante, na companhia da Marianna e dos seus amigos,

quadrava-lhe, era sympathica áquella organisação impetuosa!... Os seus

modos estouvados, os seus arremeços selvagens e doidos pelos quaes era

notado entre troquilhas, é que já lhe tinham garantido o alcunho de

«_Fogueira_». Alem d’isso, como era franco, generoso—um mãos rotas—os que

o cercavam, a Ripa principalmente, entendia que se o seu amante viesse a

obter qualquer cousa da herança da mãe, era certo que alguma parte lhe

caberia!... Por isso o aconselhava d’aquelle modo, e todos o lisongeavam

com blandicias intencionaes.

Foi por este tempo, e n’uma das occasiões em que o Antonio andava por

fóra, que succedeu _a desgraça_ de que morreu o Bernardo Repolho:

Era um dia chuvoso; via-se a cumiada dos montes coberta por densas nevoas

designativas de chuva prolongada! Soprava um vento forte, que produzia

na amplitude dos campos uma ondulação uniforme nos arvoredos. Como se

estava verdadeiramente no coração do inverno, no mez de fevereiro, os

campos e os montes sem flores e sem folhas, tinham um aspecto duro

de severidade! As chuvas, em grossas bategas, acompanhadas de fortes

saraivadas, batiam rijamente nos telhados com uma crepitação ruidosa e

aspera, que se continuava, durante horas! N’um d’estes dias de invernia

teimosa e tristonha é que o Bernardo Repolho teve necessidade de ir

buscar uma carrada de barro, do qual muito precisava para arranjar o seu

forno!... Por isso, na primeira aberta illusoria, mandou o Chico tirar os

bois da côrte, cangou-os, pol-os ao carro e partiram... A barreira era na

encosta de um monte alto e muito ingreme. Bernardo e o Chico, quando íam

pelo caminho, já descortinavam ao longe, essa excavação de um alaranjado

irritante, que sobresaía no terreno circumjacente, melhor do que a mancha

clara de uma eira. Como o barranco estava logo por cima da estrada de

carro e, para chegar lá, bastava subir um estreito carreiro em declive,

Bernardo disse ao rapasito que ficasse á sôga dos bois, que eram novos e

muito espantadiços, emquanto elle ía cavar o barro e acarretal-o. Porém,

quando chegou acima e viu no fundo da barreira uma tamanha accumulação de

agua da chuva que, para a atravessar, tinha de se arregaçar, sentiu uma

impressão desfavoravel, e inconsideradamente disse:

—Diabo! Que mar!...

Comedia do Campo volume III (Scenas do Minho) · 第 1 / 10 段