F I M.

Produced by Rui Baptista. This book was transcribed from

the online scans produced by the Portuguese _Biblioteca

Nacional Digital_ (http://purl.pt/1/1/).

OS

LVSIADAS

de Luis de Ca-

moẽs.

COM PRIVILEGIO

REAL.

Impreſſos em Lisboa, com licença da

ſancta Inquiſição, & do Ordinario:

em caſa de Antonio

Gõçaluez Impreſſor.

1572.

Eu el Rey faço ſaber aos que eſte Aluara virem

que eu ey por bem & me praz dar licença

a Luis de Camoẽs pera que poſſa fazer imprimir

neſta cidade de Lisboa, hũa obra em

Octaua rima chamada Os Luſiadas, que contem

dez cantos perfeitos, na qual por ordem

poetica em verſos ſe declarão os principaes feitos

dos Portugueſes nas partes da India depois que ſe deſcobrio a

nauegação pera ellas por mãdado del Rey dom Manoel meu viſauo

que ſancta gloria aja, & iſto com priuilegio pera que em tempo

de dez anos que ſe começarão do dia que ſe a dita obra acabar

de empremir em diãte, ſe não poſſa imprimir nẽ vender em meus

reinos & ſenhorios nem trazer a elles de fora, nem leuar aas ditas

partes da India pera ſe vender ſem licẽça do dito Luis de Camoẽs

ou da peſſoa que pera iſſo ſeu poder tiuer, ſob pena de quẽ o contrario

fizer pagar cinquoenta cruzados & perder os volmes que

imprimir, ou vender, a metade pera o dito Luis de Camoẽs, & a

outra metade pera quem os acuſar. E antes de ſe a dita obra vender

lhe ſera poſto o preço na meſa do deſpacho dos meus Deſembargadores

do paço, o qual ſe declarará & porá impreſſo na primeira

folha da dita obra pera ſer a todos notorio, & antes de ſe imprimir

ſera viſta & examinada na meſa do conſelho geral do ſanto

officio da Inquiſição pera cõ ſua licença ſe auer de imprimir, &

ſe o dito Luis de Camões tiuer acrecentados mais algũs Cantos,

tambem ſe imprimirão auendo pera iſſo licença do ſancto officio,

como acima he dito. E eſte meu Aluara ſe imprimirà outroſi no

principio da dita obra, o qual ey por bem que valha & tenha força

& vigor, como ſe foſſe carta feita em meu nome por mim aſſinada

& paſſada por minha Chancellaria ſem embargo da Ordenação

do ſegundo liuro, tit. xx. que diz que as couſas cujo effeito

ouuer de durar mais que hum ano paſſem per cartas, & paſſando

por aluaras não valhão. Gaſpar de Seixas o fiz em Lisboa, a .xxiiij:

de Setembro, de M.D.LXXI. Iorge da Coſta o fiz eſcreuer.

❧ OS LVSIADAS

DE LVIS DE

CAMÕES.

Canto primeiro.

As armas, & os ba-

rões aſsinalados,

Que da Occidental praya Luſi-

tana,

Por mares nunca de antes na-

uegados,

Paſſaram, ainda alem da Taprobana,

Em perigos, & guerras esforçados,

Mais do que prometia a força humana.

E entre gente remota edificarão

Nouo Reino, que tanto ſublimarão.

E tambem as memorias glorioſas

Daquelles Reis, que forão dilatando

A Fee, o Imperio, & as terras vicioſas

De Affrica, & de Aſia, andarão deuaſtando,

E aquelles que por obras valeroſas

Se vão da ley da Morte libertando.

Cantando eſpalharey por toda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho & arte.

Ceſſem do ſabio Grego, & do Troyano,

As nauegações grandes que fizerão:

Calleſe de Alexandro, & de Trajano,

A fama das victorias que tiuerão,

Que eu canto o peyto illuſtre Luſitano,

A quem Neptuno, & Marte obedeçerão:

Ceſſe tudo o que a Muſa antigua canta,

Que outro valor mais alto ſe aleuanta.

E vos Tagides minhas, pois criado

Tendes em my hum nouo engenho ardente.

Se ſempre em verſo humilde, celebrado

Foy de my voſſo rio alegremente,

Daime agora hum ſom alto, & ſublimado,

Hum estillo grandiloco, & corrente,

Porque de voſſas agoas Phebo ordene,

Que não tenhão enueja aas de Hypocrene.

Daime hũa furia grande & ſonoroſa,

E não de agreſte a vena, ou frauta ruda:

Mas de tuba canora & belicoſa,

Que o peito acende, & a cor ao geſto muda:

Daime igoal canto aos feitos da famoſa

Gente voſſa, que a Marte tanto ajuda:

Que ſe eſpalhe & ſe conte no vniuerſo,

Se tam ſublime preço cabe em verſo.

E vos ò bem naſcida ſegurança

Da Luſitana antigua liberdade,

E não menos certiſsima eſperança,

De aumento da pequena Chriſtandade:

Vos o nouo temor da Maura lança,

Marauilha fatal da noſſa idade:

Dada ao mundo por Deos q̃ todo o mande,

Pera do mundo a Deos dar parte grande.

Vos tenrro, & nouo ramo florecente,

De hũa aruore de Christo mais amada

Que nenhũa naſcida no Occidente,

Ceſarea, ou Christianiſsima chamada:

Vedeo no voſſo eſcudo, que preſente

Vos amostra a victoria ja paſſada.

Na qual vos deu por armas, & deixou

As que elle pera ſi na Cruz tomou.

Vos poderoſo Rei, cujo alto Imperio,

O Sol logo em naſcendo ve primeiro:

Veo tambem no meio do Hemiſpherio,

E quando dece o deixa derradeiro.

Vos que eſperamos jugo & vituperio,

Do torpe Ismaelita caualleiro:

Do Turco Oriental, & do Gentio,

Que inda bebe o licor do ſancto Rio.

Inclinay por hum pouco a magestade,

Que neſſe tenrro gesto vos contemplo,

Que ja ſe mostra, qual na inteira idade,

Quando ſobindo yreis ao eterno templo,

Os olhos a real benignidade

Ponde no chão: vereis hum nouo exemplo,

De amor, dos patrios feitos valeroſos,

Em verſos deuulgado numeroſos.

Vereis amor da patria, não mouido

De premio vil: mas alto, & quaſi eterno

Que nam he premio vil, ſer conhecido

Por hum pregão do ninho meu paterno.

Ouui vereis o nome engrandecido

Daquelles de quem ſois ſenhor ſuperno.

E julgareis qual he mais excelente,

Se ſer do mundo Rei, ſe de tal gente:

Ouui, que não vereis com vãs façanhas

Fantaſticas, fingidas, mentiroſas,

Louuar os voſſos, como nas eſtranhas

Muſas, de engrandecerſe deſejoſas,

As verdadeiras voſſas ſam tamanhas,

Que excedem as ſonhadas fabuloſas:

Que excedem Rodamonte, & o vão Rugeiro,

E Orlando, inda quefora verdadeiro.

Por eſtes vos darey hum Nuno fero,

Que fez ao Rei, & ao Reino tal ſeruiço,

Hum Egas, & hũ dom Fuas, q̃ de Homero

A Citara parelles ſo cobiço:

Pois polos doze pares daruos quero,

Os doze de Inglaterra, & o ſeu Magriço.

Douuos tambem aquelle illustre Gama,

Que para ſi de Eneas toma a fama.

Pois ſe a troco de Carlos Rei de França,

Ou de Ceſar, quereis iqual memoria:

Vede o primeiro Afonſo, cuja lança

Eſcura faz qualquer eſtranha gloria:

E aquelle que a ſeu Reino a ſegurança

Deixou, com a grande & proſpera victoria.

Outro Ioane, inuicto caualleiro,

O quarto, & quinto Afonſos, & o terceiro.

Nem deixarão meus verſos eſquecidos,

Aquelles que nos Reinos la da Aurora,

Se fizerão por armas tam ſubidos,

Voſſa bandeira ſempre vencedora.

Hum Pacheco fortiſsimo, & os temidos

Almeidas, por quem ſempre o Tejo chora.

Albuquerque terribil, Caſtro forte,

E outros em quem poder não teue a morte.

E em quanto eu eſtes canto, & a vos nam poſſo

Sublime Rei, que nam me atreuo a tanto,

Tomay as redeas vos do Reino voſſo,

Dareis materia a nunca ouuido canto:

Comecem a ſentir o peſo groſſo,

(Que polo mundo todo faça eſpanto,)

De exercitos, & feitos ſingulares,

De affricas as terras, & do Oriente os mares.

Em vos os olhos tem o Mouro frio,

Em quem vè ſeu exicio afigurado,

So com vos ver o barbaro Gentio,

Moſtra o peſcoço ao jugo ja inclinado:

Thetis todo o ceruleo ſenhorio,

Tem pera vos por dote aparelhado:

Que affeiçoada ao geſto bello, & tenro,

Deſeja de compraruos pera genro.

Em vos ſe vem da Olimpica morada,

Dos ous auôs, as almas ca famoſas,

Hũa na paz Angelica dourada,

Outra polas batalhas ſanguinoſas:

Em vos eſperão, verſe renouada,

Sua memoria, & obras valeroſas.

E la vos tem lugar no fim da idade,

No templo da ſuprema eternidade.

Mas em quanto eſte tempo paſſa lento,

De regerdes os pouos, que o deſejão:

Day vos fauor ao nouo atreuimento,

Pera que estes meus verſos voſſos ſejão:

E vereis ir cortando o ſalſo argento:

Os voſſos Argonautas, por que vejão,

Que ſam vistos de vos no mar yrado,

E costumaiuos ja a ſer inuocado.

Ia no largo Occeano nauegauão,

As inquietas ondas apartando,

Os ventos brandamente reſpirauão,

Das naos as vellas concauas inchando:

Da branca eſcuma, os mares ſe moſtrauão

Cubertos, onde as proas vão cortando.

As maritimas agoas conſagradas,

Que do gado de Proteo ſam cortadas.

Quando os Deuſes no Olimpo luminoſo,

Onde o gouerno esta, da humana gente,

Se ajuntão em conſilio glorioſo,

Sobre as couſas futuras do Oriente:

Piſando o criſtalino Ceo fermoſo,

Vem pela via Lactea, juntamente

Conuocados da parte do Tonante,

Pelo Neto gentil do velho Atlante.

Deixão dos ſete Ceos o regimento,

Que do poder mais alto lhe foi dado,

Alto poder, que ſo co penſamento

Governa o Ceo, a Terra, & o Mar yrado:

Ali ſe acharão juntos num momento,

Os que habitão o Arcturo congelado.

E os que o Auſtro tem, & as partes onde

A Aurora naſce, & o claro Sol ſe eſconde.

Eſtava o Padre ali ſublime & dino,

Que vibra os feros rayos de Vulcano,

Num aſſento de estrellas criſtalino,

Com geſto alto, ſevero, & ſoberano,

Do roſto reſpiraua hum ar diuino,

Que diuino tornàra hum corpo humano:

Com hũa coroa, & ceptro rutilante,

De outra pedra mais clara que diamante.

Em luzentes aſſentos, marchetados

De ouro, & de perlas, mais abaixo estavão

Os outros Deuſes todos aſſentados,

Como a Razão, & a Ordem concertauão.

Precedem os antiguos mais honrrados,

Mais abaixo os menores ſe aſſentauão:

Quando Iupiter alto, aſſy dizendo,

Cum tom de voz começa, graue & horrendo.

Eternos moradores do luzente

Eſtelifero polo & claro aſſento,

Se do grande valor da forte gente,

De Luſo, não perdeis o penſamento,

Deueis de ter ſabido claramente

Como he dos fados grandes certo intento

Que por ella ſeſqueção os humanos,

De Aſsirios, Perſas, Gregos & Romanos.

Ia lhe foy (bem o vistes) concedido

Cum poder tam ſingelo & tam pequeno

Tomar ao Mouro forte & guarnecido,

Toda a terra que rega o Tejo ameno:

Pois contra o Caſtelhano tam temido

Sempre alcançou fauor do Ceo ſereno.

Aſsi que ſempre em fim com fama & gloria,

Teue os tropheos pendentes da victoria.

Deixo Deoſes atras a fama antigua,

Que co a gente de Romulo alcançarão,

Quando com Viriato, na inimiga

Guerra Romana tanto ſe affamarão.

Tambem deixo a memoria, que os obriga

A grande nome, quando aleuantarão

Hum, por ſeu capitão, que peregrino

Fingio na Cerua eſpirito diuino.

Agora vedes bem, que cometendo,

O diuidoſo mar, num lenho leue,

Por vias nunca vſadas, não temendo

De Affrico & Noto a força a mais ſatreue:

Que auendo tanto ja que as partes vendo,

Onde o dia he comprido, & onde breue.

Inclinão ſeu propoſito, & perfia

A ver os berços, onde naſce o dia

Prometido lhe eſtà do fado eterno,

Cuja alta ley nam pode ſer quebrada,

Que tenhão longos tempos o gouerno

Do mar, que vé do Sol a roxa entrada.

Nas agoas tem paſſado o duro Inuerno,

A gente vem perdida & trabalhada.

Ia parece bem feito, que lhe ſeja

Mostrada a noua terra que deſeja.

E porque, como viſtes, tem paſſados

Na viagem, tam aſperos perigos,

Tantos Climas & Ceos experimentados,

Tanto furor de ventos inimigos

Que ſejam, de termino, agaſalhados

Neſta coſta affricana como amigos.

E tendo guarnecida a laſſa frota,

Tornarão a ſeguir ſua longa rata.

Eſtas palauras Iupiter dezia,

Quando os Deoſes por ordem reſpondendo,

Na ſentença hum do outro difiria,

Razões diuerſas dando & recebendo.

O padre Baco, ali nam conſentia

No que Iupiter diſſe, conhecendo

Que eſquecerão ſeus feitos no Oriente,

Se la paſſar a Luſitana gente.

Ouuido tinha aos Fados que viria

Hũa gente fortiſsimo de Heſpanha,

Pelo mar alto, a qual ſojeitaria

Da India, tudo quanto Doris banha:

E com nouas victorias venceria,

A fama antiga, ou ſua, ou foſſe eſtranha.

Altamente lhe doe perder a gloria,

De que Niſa celebra inda a memoria.

Ve que ja teue o Indo ſojugado,

E nunca lhe tirou Fortuna, ou caſo,

Por vencedor da India ſer cantado,

De quantos bebem a agoa de Parnaſo.

Teme agora que ſeja ſepultado,

Seu tam celebre nome, em negro vaſo,

Dagoa do eſquecimento, ſe la chegão

Os fortes Portugueſes, que nauegão,

Suſtentaua contra elle Venus bella,

Affeiçoada aa gente Luſitana,

Por quantas qualidades via nella,

Da antiga tam amada ſua Romana,

Nos fortes corações, na grande estrella,

Que mostrarão na terra Tingitana:

E na lingoa, na qual, quando imagina,

Com pouca corrupção cre que he a Latina.

Eſtas cauſas mouião Cyterea,

E mais, porque das Parcas claro entende

Que ha de ſer celebrada a clara Dea,

Onde a gente beligera ſe eſtende.

Aſsi que hum pela infamia que arrecea,

E o outro polas honras que pretende,

Debatem, & na perfia permanecem,

A qualquer ſeus amigos fauorecem:

Qual Auſtro fero, ou Boreas na eſpeſſura,

De ſilueſtre aruoredo abastecida,

Rompendo os ramos vão da mata eſcura,

Com impito & braueza deſmedida.

Brama toda montanha, o ſom murmura,

Rompenſe as folhas, ferue a ſerra erguida.

Tal andaua o tumulto leuantado,

Entre os Deoſes no Olimpo conſagrado.

Mas Marte que da Deoſa ſuſtentaua,

Entre todos as partes em porfia,

Ou por que o amor antiguo o obrigaua,

Ou porque a gente forte o merecia,

De entre os Deoſes em pee ſe leuantaua,

Merencorio no gesto parecia:

O forte eſcudo ao collo pendurado,

Deitando para tràs medonho e irado.

A viſeira do elmo de Diamante,

Aleuantando hum pouco, muy ſeguro,

Por dar ſeu parecer ſe pos diante

De Iupiter, armado, forte & duro:

E dando hũa pancada penetrante,

Co conto do baſtão, no ſolio puro:

O ceo tremeo, & Apolo de toruado,

Hum pouco a luz perdeo, como infiado.

E diſſe aſsi, ò padre a cujo imperio,

Tudo aquillo obedece, que criaſte,

Se eſta gente que buſca outro Emiſpherio,

Cuja valia, & obras tanto amaſte:

Não queres que padeção vituperio,

Como ha ja tanto tempo que ordenaste

Não ouças mais, pois es juyz direito,

Razões de quem parece que he ſoſpeito.

Que ſe aqui a razão ſe não mostraſſe

Vencida do temor demaſiado,

Bem fora que aqui Baco os ſoſtentaſſe,

Pois que de Luſo vem, ſeu tam priuado:

Mas eſta tenção ſua, agora paſſe,

Porque em fim vem de eſtamago danado.

Que nunca tirarà alhea enueja,

O bem que outrem mereçe, & o ceo deſeja.

E tu padre de grande fortaleza,

Da determinaçam que tẽs tomada,

Nam tornes por detras pois he fraqueza

Deſistir ſe da couſa começada.

Mercurio pois excede em ligeireza

Ao vento leue, & aa ſeta bem talhada,

Lhe va mostrar a terra, onde ſe informe

Da India, & onde a gente ſe reforme.

Como iſto diſſe o Padre poderoſo,

A cabeça inclinando, conſentio

No que diſſe Mauorte valeroſo,

E Nectar ſobre todos eſparzio:

Pelo caminho Lacteo glorioſo,

Logo cada hum dos Deoſes ſe partio.

Fazendo ſeus reaes acatamentos,

Pera os determinados apouſentos.

Em quanto iſto ſe paſſa, na fermoſa

Caſa eterea do Olimpo omnipotente

Cortaua o mar a gente belicoſa:

Ia la da banda do Auſtro, & do Oriente,

Entre a coſta Ethiopica, & a famoſa

Ilha de ſam Lourenço, & o Sol ardente

Queimaua entam os Deoſes, que Tifeô

Co temor grande em pexes conuerteô.

Tam brandamente os ventos os leuauão,

Como quem o ceo tinha por amigo:

Sereno o ar, & os tempos ſe mostrauão

Sem nuuẽs, ſem receio de perigo:

O promontorio praſſo ja paſſauão

Na coſta de Ethiopia, nome antiguo.

Quando o mar deſcobrindo lhe moſtraua,

Nouas ilhas que em torno cerca, & laua.

Vaſco da gama, o forte Capitão,

Que a tamanhas empreſas ſe offerece,

De ſoberbo, & de altiuo coração,

A quem fortuna ſempre fauorece

Pera ſe aqui deter, não ve razão,

Que inhabitada a terra lhe parece:

Por diante paſſar determinaua:

Mas nam lhe ſoccedeo como cuydaua.

Eis aparecem logo em companhia,

Hũs pequenos bateis, que vem daquella

Que mais chegada à terra parecia,

Cortando o longo mar com larga vella:

A gente ſe aluoroça, & de alegria

Não ſabe mais que olhar a cauſa della.

Que gente ſera eſta, em ſi dezião,

Que costumes, que ley, que Rei terião?

As embarcações erão, na maneira

Muy veloces, eſtreitas, & compridas,

As vellas com que vem erão de eſteira,

Dũas folhas de Palma bem tecidas:

A gente da cor era verdadeira,

Que Phaeton, nas terras acendidas

Ao mundo deu, de ouſado, & não prudente,

O Pado o ſabe, & Lampetuſa o ſente.

De panos de algodão vinhão veſtidos,

De varias cores, brancos, & liſtrados,

Hũs trazem derredor de ſi cingidos,

Outros em modo ayroſo ſobraçados,

Das cintas pera cima vem deſpidos:

Por armas tem adagas, & tarçados.

Com toucas na cabeça, & nauegando,

Anafis ſonoroſos vão tocando.

Cos panos, & cos braços açenauão,

Aas gentes Luſitanas, que eſperaſſem:

Mas ja as proas ligeiras, ſe inclinauão,

Pera que junto aas Ilhas amainaſſem.

A gente, & marinheiros trabalhauão,

Como ſe aqui os trabalhos ſacabaſſem:

Tomão vellas, amainaſe a verga alta,

Da ancora o mar ferido, encima ſalta.

Não erão ancorados, quando a gente

Eſtranha, polas cordas ja ſubia,

No geſto ledos vem, & humanamente,

O Capitão ſublime os recebia.

As meſas manda por em continente,

Do licor que Lieo prantado auia:

Enchem vaſos de vidro, & do que deitão,

Os de Phaeton queimados nada engeitão.

Comendo alegremente perguntauão,

Pela Arabica lingoa, donde vinhão,

Quem erão, de que terra, que buſcauão,

Ou que partes do mar corrido tinhão?

Os fortes Luſitanos lhe tornauão,

As diſcretas repostas que conuinhão.

Os Portugueſes ſomos do Occidente,

Himos buſcando as terras do Oriente.

Do mar temos corrido, & nauegado

Toda a parte do Antartico, & Caliſto,

Toda a coſta Affricana rodeado,

Diuerſos Ceos, & Terras temos viſto:

Dum Rei potente ſomos, tam amado,

Tam querido de todos, & bem quisto:

Que nam no largo Mar, com leda fronte:

Mas no lago entraremos de Acheronte.

E por mandado ſeu, buſcando andamos

A terra Oriental, que o Indo rega,

Por elle o Mar remoto nauegamos,

Que ſo dos feos Focas ſe nauega:

Mas ja razão parece que ſaibamos,

Se entre vos a verdade não ſe nega.

Quem ſois, que terra he eſta que abitais?

Ou ſe tendes da India algũs ſinais?

Somos, hum dos das Ilhas lhe tornou,

Eſtrangeiros na terra, Lei, & nação

Que os proprios, ſam aquelles que criou

A Natura ſem Lei, & ſem Razão:

Nos temos a Lei certa que inſinou,

O claro deſcendente de Abrahão:

Que agora tem do Mundo o ſenhorio,

A mãy Hebrea teue, & o pai Gentio.

Esta Ilha pequena que habitamos,

He em toda eſta terra certa eſcala,

De todos os que as Ondas nauegamos,

De Quiloa, de Mombaça, & de Sofala:

E por ſer neceſſaria, procuramos,

Como proprios da terra, de habitala.

E porque tudo em fim vos notifique,

Chamaſe a pequena Ilha Moçambique.

E ja que de tam longe nauegais,

Buſcando o Indo Idaſpe, & terra ardente,

Piloto aqui tereis, por quem ſejais

Guiados pelas ondas ſabiamente.

Tambem ſera bemfeito que tenhais,

Da terra algum refreſco, & que o Regente

Que esta terra gouerna, que vos veja,

E do mais neceſſario vos proueja.

Iſto dizendo, o Mouro ſe tornou

A ſeus bateis com toda a companhia,

Do Capitão & gente ſe apartou,

Com mostras de deuida corteſia:

Niſto Febo nas agoas encerrou,

Co carro de Christal, o claro dia:

Dando cargo aa Irmaã, que alumiaſſe,

O largo Mundo, em quanto repouſaſſe.

A noyte ſe paſſou na laſſa frota,

Com eſtranha alegria, & não cuydada,

Por acharem da terra tão remota,

Noua de tanto tempo deſejada:

Qualquer então conſigo cuyda, & nota

Na gente, & na maneira deſuſada.

E como os que na errada Seita crérão,

Tanto por todo o mundo ſe eſtendérão.

Da Lũa os claros rayos rutilauão,

Polas argenteas ondas Neptuninas,

As Estrellas os Ceos acompanhauão.

Qual campo reueſtido de boninas,

Os furioſos ventos repouſauão,

Polas couas eſcuras peregrinas.

Porem da armada a gente vigiaua,

Como por longo tempo coſtumaua.

Mas aſſy como a Aurora marchetada,

Os fermoſos cabellos eſpalhou,

No Ceo ſereno, abrindo a roxa entrada,

Ao claro Hiperionio que acordou,

Começa a embandeirarſe toda a armada,

E de todos alegres ſe adornou:

Por receber com festas, & alegria,

O Regedor das Ilhas que partia.

Partia alegremente nauegando,

A ver as naos ligeiras Luſitanas,

Com refreſco da terra, em ſi cuidando,

Que ſam aquellas gentes inhumanas:

Que os apouſentos Caſpios habitando,

A conquiſtar as terras Aſianas

Vierão: & por ordem do deſtino,

O Imperio tomarão a Coſtantino.

Recebe o Capitão alegremente,

O Mouro, & toda ſua companhia,

Dalhe de ricas peças hum preſente,

Que ſo pera eſte effeito ja trazia:

Dalhe conſerua doçe, & dalhe o ardente

Não vſado licor que dâ alegria.

Tudo o Mouro contente bem recebe,

E muito mais contente come, & bebe.

Eſtà a gente maritima de Luſo,

Subida pela exarcia, de admirada,

Notando o estrangeiro modo, & vſo,

E a lingoagem tam barbara & enleada.

Tambem o Mouro astuto eſtà confuſo,

Olhando a cor, o trajo, & a forte armada.

E perguntando tudo lhe dezia,

Se porventura vinhão de Turquia.

E mais lhe diz tambem, que ver deſeja

Os liuros de ſua ley, preceito, ou fé,

Pera ver ſe conforme à ſua ſeja,

Ou ſe ſam dos de Christo, como crè:

E porque tudo note, & tudo veja,

Ao Capitão pedia, que lhe dé,

Mostra das fortes armas de que vſauão,

Quando cos inimigos pelejauão.

Responde o valeroſo Capitão,

Por hum que a lingoa eſcura bem ſabia:

Darte ey Senhor illuſtre relação

De my, da ley, das armas que trazia:

Nem ſou da terra, nem da geraçam,

Das gentes enojoſas de Turquia:

Mas ſou da forte Europa belicoſa,

Buſco as terras da India tam famoſa?

A ley tenho daquelle, a cujo imperio

Obedece o viſibil, & inuiſibil,

Aquelle que criou todo o Emispherio,

Tudo o que ſente, & todo o inſenſibil

Que padeceo deshonra, & vituperio,

Sofrendo morte injuſta, & inſufribil:

E que do ceo aa terra em fim deceo,

Por ſubir os mortais da terra ao ceo.

Deste Deos homem, alto, & infinito,

Os Liuros que tu pedes, nam trazia,

Que bem poſſo eſcuſar trazer eſcripto

Em papel, o que na alma andar deuia.

Se as armas queres ver, como tẽs dito,

Comprido eſſe deſejo te ſeria:

Como amigo as veras, porque eu me obrigo,

Que nunca as queiras ver como inimigo.

Iſto dizendo, manda os diligentes

Miniſtros, amoſtrar as armaduras,

Vem arneſes, & peitos reluzentes,

Malhas finas, & laminas ſeguras,

Eſcudos de pinturas differentes,

Pilouros, eſpingardas de aço puras,

Arcos, & ſagittiferas aljauas,

Partaſanas agudas, chuças brauas.

As bombas vem de fogo, & juntamente

As panellas ſulfureas, tam danoſas,

Porem aos de Vulcano nam conſente

Que dem fogo aas bombardas temeroſas:

Porque o generoſo animo, & valente,

Entre gentes tam poucas, & medroſas,

Não mostra quanto pode, & com razão,

Que he fraqueza entre ouelhas ſer lião.

Porem diſto que o Mouro aqui notou,

E de tudo o que vio, com olho atento,

Hum odio certo na alma lhe ficou,

Hũa vontade mà de penſamento.

Nas moſlras, & no gesto o não moſtrou:

Mas com riſonho, & ledo fingimento,

Tratalos brandamente determina,

Ate que moſtrar poſſa o que imagina.

Pilotos lhe pedia o Capitão,

Por quem podeſſe aa India ſer leuado,

Dizlhe, que o largo premio leuarão,

Do trabalho que niſſo for tomado.

Prometelhos o Mouro, com tenção

De peito venenoſo, & tão danado:

Que a morte ſe podeſſe neste dia,

Em lugar de Pilotos lhe daria.

Tamanho o odio foy, & a mà vontade,

Que aos eſtrangeiros ſupito tomou,

Sabendo ſer ſequaces da verdade,

Que o filho de Dauid nos enſinou,

Os ſegredos daquella Eternidade

A quem juyzo algum não alcançou.

Que nunca falte hum perfido inimigo,

A aqueles de quem foſte tanto amigo?

Partioſe nisto em fim co a companhia,

Das naos o falſo Mouro despedido,

Com enganoſa & grande corteſia,

Com geſto ledo a todos, & fingido:

cortárão os bateis a curta via

Das agoas de Neptuno, & recebido

Na terra do obſequente ajuntamento,

Se foy o Mouro ao cognito apouſento:

Do claro aſſento Etereo, o grão Tebano,

Que da paternal coxa foy naſcido

Olhando o ajuntamento Luſitano,

Ao Mouro ſer moleſto, & auorrecido:

No penſamento cuyda hum falſo engano

Com que ſeja de todo deſtruydo.

E em quanto iſto ſo na alma imaginaua

Configo eſtas palauras praticaua.

Eſtà do fado ja determinado,

Que tamanhas victorias tam famoſas,

Ajão os Portugueſes alcançado,

Das Indianas gentes belicoſas.

E eu ſo filho do Padre ſublimado,

Com tantas qualidades generoſas:

Ey de ſofrer que o Fado fauoreça

Outrem, por quem meu nome ſe eſcureça?

Ia quiſeram os Deoſes que tiueſſe,

O filho de Filipo neſta parte,

Tanto poder, que tudo ſometeſſe

Debaixo do ſeu jugo, o fero Marte:

Mas aſſe de ſoffrer que o Fado deſſe,

A tam poucos tamanho esforço, & arte

Queu co gram Macedonio, & Romano,

Demos lugar ao nome Luſitan?

Não ſera aſſy, porque antes que chegado

Seja eſte Capitão, astutamente

Lhe ſera tanto engano fabricado,

Que nunca veja as partes do Oriente:

Eu decerey aa terra, & o indignado

Peito, reuoluerey da Maura gente,

Porque ſempre por via yra dereita,

Quem do oportuno tempo ſe aproueita.

Iſto dizendo yrado, & quaſi inſano,

Sobre a terra Affricana deſcendeo,

Onde vestindo a forma & geſto humano,

Pera o Praſſo ſabido ſe moueo.

E por milhor tecer o aſtuto engano,

No geſto natural ſe conuerteo,

Dum Mouro, em Moçambique conhecido,

Velho, ſabio, & co Xeque muy valido.

E entrando aſſy a falarlhe, a tempo & horas,

A ſua falſidade acomodadas,

Lhe diz como erão gentes roubadoras,

Eſtas que ora de nouo ſam chegadas:

Que das nações na coſta moradoras,

Correndo a fama veio, que roubadas,

Forão por estes homẽs que paſſauão,

Que com pactos de paz ſempre ancorauão.

E ſabe mais, lhe diz, como entendido

Tenho destes Christãos ſanguinolentos,

Que quaſi todo o mar tem destruido,

Com roubos, com incendios violentos:

E trazem ja de longe engano vrdido,

Contra nos, & que todos ſeus intentos

Sam pera nos matarem, & roubarem,

E molheres & filhos captiuarem.

E tambem ſey que tem determinado,

De vir por agoa a terra muito cedo,

O Capitão dos ſeus acomponhado,

Que da tençam danada naſce o medo:

Tu deues de yr tambem cos teus armado

Eſperallo em cilada, occulto & quedo:

Por que ſaindo a gente deſcuydada,

Cairão facilmente na cilada.

E ſe inda não ficarem deste geito,

Destruydos, ou mortos totalmente,

Eu tenho imaginada no conceito,

Outra manha & ardil que te contente:

Mandalhe dar Piloto, que de geito

Seja aſtuto no engano, & tam prudente,

Que os leue aonde ſejão deſtruydos,

Desbaratados mortos, ou perdidos.

Tanto que eſtas palauras acabou,

O Mauro nos tais caſos, ſabio & velho

Os braços pelo collo lhe lançou,

Agradecendo muito o tal conſelho:

E logo neſſe inſtante concertou,

Pera a guerra o beligero aparelho:

Pera que ao Portugues ſe lhe tornaſſe,

Em roxo ſangue a agoa que buſcaſſe.

E buſca mais pera o cuydado engano,

Mouro que por Piloto aa nao lhe mande,

Sagaz, aſtuto, & ſabio em todo o dano

De quem fiar ſe poſſa hum feito grande,

Dizlhe que acompanhando o Luſitano,

Por tais coſtas, & mares co elle ande:

Que ſe daqui eſcapar, que la diante

Va cair onde nunca ſe aleuante.

Ia o rayo Apolina viſitaua,

Os Montes Nabatheos acendido,

Quando Gama cos ſeus determinaua,

De vir por agoa a terra apercebido:

A gente nos bateis ſe concertaua,

Como ſe foſſe o engano ja ſabido:

Mas pode ſoſpeitarſe facilmente,

Que o coração preſago nunca mente.

E mais tambem mandado tinha a terra,

De antes pelo Piloto neceſſario:

E foilhe reſpondido em ſom de guerra,

Caſo do que cuydaua muy contrario:

Por iſto, & porque ſabe quanto erra,

Quem ſe cre de ſeu perfido aduerſario,

Apercebido vay como podia,

Em tres bateis ſomente que trazia:

Mas os Mouros que andauão pela praya,

Por lhe defender a agoa deſejada,

Hum de eſcudo embarcado, & de azagaya,

Outro de arco encuruado, & ſeta eruada:

Eſperão que a guerreira gente ſaya,

Outros muytos ja poſtos em cillada.

E porque o caſo leue ſe lhe faça,

Poem hũs poucos diante por negaça.

Andão pela ribeira alua arenoſa,

Os belicoſos Mouros acenando,

Com a adarga, & co a aſtea perigoſa,

Os fortes Portugueſes incitando:

Nam ſoſfre muito a gente generoſa,

Andarlhe os cães os dentes amoſtrando.

Qualquer em terra ſalta, tam ligeiro,

Que nenhum dizer pode que he primeiro.

Qual no corro ſanguino, o ledo amante,

Vendo a fermoſa dama deſejada,

O Touro buſca, & pondo ſe diante,

Salta, corre, ſibila, acena, & brada:

Mas o animal atroçe neſſe instante,

Com a fronte cornigera inclinada,

Bramando duro corre, & os olhos cerra,

Derriba, fere, & mata & poem por terra.

Eis nos bateis o fogo ſe leuanta,

Na furioſa & dura artilheria,

A plumbea pela mata, o brado eſpanta:

Ferido o ar retumba, & aſſouia:

O coraçam dos Mouros ſe quebranta,

O temor grande o ſangue lhe resfria.

Ia foge o eſcondido de medroſo,

E morre o deſcuberto auenturoſo.

Não ſe contenta a gente Portugueſa:

Mas ſeguindo a victoria eſtrue, & mata

A pouoação ſem muro, & ſem defeſa,

Esbombardea, acende, & desbarata.

Da caualgada ao Mouro ja lhe peſa,

Que bem cuidou comprala mais barata:

Ia blasfema da guerra, & maldizia,

O velho inerte, & a mãy que o filho cria.

Fugindo, a ſeta o Mouro vay tirando,

Sem força, de couarde, & de apreſſado,

A pedra, o pao, & o canto arremeſſando,

Dalhe armas o furor deſatinado:

Ia a Ilha, & todo o mais, deſemparando,

Aa terra firme foge amedrontado.

Paſſa, & corta do mar o eſtreito braço,

Que a Ilha em torno cerca, em pouco eſpaço.

Hũs vão nas almádías carregadas,

Hum corta o mar a nado diligente,

Quem ſe affoga nas ondas encuruadas,

Quem bebe o mar, & o deita juntamente:

Arrombão as meudas bombardadas

Os Pangaios ſotis da bruta gente.

Desta arte o Portugues em fim caſtiga,

A vil malicia, perfida, inimiga.

Tornão victorioſos pera a armada,

Co deſpojo da guerra, & rica preſa,

E vão a ſeu prazer fazer agoada,

Sem achar reſiſtencia, nem defeſa

Ficaua a Maura gente magoada,

No odio antigo, mais que nunca aceſa.

E vendo ſem vingança tanto dano,

Somente estriba no ſegundo engano.

Pazes cometer manda arrependido,

O Regedor daquella inica terra,

Sem ſer dos Luſitanos entendido,

Que em figura de paz lhe manda guerra:

Porque o Piloto falſo prometido,

Que toda a mà tenção no peito encerra.

Pera os guiar aa morte lhe mandaua,

Como em ſinal das pazes que trataua.

O Capitão, que ja lhe entam conuinha,

Tornar a ſeu caminho acoſtumado,

Que tempo concertado, & ventos tinha,

Pera yr buſcar o Indo deſejado.

Recebendo o Piloto que lhe vinha,

Foy delle alegremente agaſalhado:

E reſpondendo ao menſageiro, a tento

Aas vellas manda dar ao largo vento.

Desta arte deſpedida a forte armada,

As ondas de Anfitrite diuidia,

Das filhas de Nerêo acompanhada,

Fiel, alegre, & doçe companhia.

O Capitão, que não cahia em nada,

Do enganoſo ardil que o Mouro vrdia:

Delle muy largamente ſe informaua,

Da India toda, & coſtas que paſſaua:

Mas o Mouro inſtruido nos enganos,

Que o maléuolo Baco lhe enſinára

De morte, ou captiueiro nouos danos,

Antes que aa India chegue lhe prepara,

Dando razão dos portos Indianos,

Tambem tudo o que pede lhe declara.

Que auendo por verdade o que dizia,

De nada a forte gente ſe temia.

E diz lhe mais co falſo penſamento,

Com que Synon os Phrigios enganou,

Que perto eſtà hũa Ilha, cujo aſſento,

Pouo antigo Chriſtão ſempre abitou:

O Capitão que a tudo eſtaua a tento,

Tanto co estas nouas ſe alegrou,

Que com dadiuas grandes lhe rogaua,

Que o leue aa terra onde eſta gente eſtaua.

Ho mesmo o falſo Mouro determina,

Que o ſeguro Chriſtão lhe manda & pede,

Que a Ilha he poſſuida da malina

Gente, que ſegue o torpe Mahamede:

Aqui o engano & morte lhe imagina,

Porque em poder & forças muito excede

Aa Moçambique, eſta Ilha que ſe chama

Quîloa, muy conhecida pola fama.

Pera là ſe inclinaua a leda frota:

Mas a Deoſa em Cythere celebrada,

Vendo como deixaua a certa rota,

Por yr buſcar a morte não cuidada,

Não conſente que em terra tão remota

Se perca a gente della tanto amada.

E com ventos contrairos a deſuia,

Donde o Piloto falſo a leua, & guia.

Mas o maluado Mouro nam podendo,

Tal determinação leuar auante,

Outra maldade inica cometendo,

Ainda em ſeu propoſito constante,

Lhe diz, que pois as agoas diſcorrendo,

Os leuàrão por força por diante,

Que outra Ilha tem perto, cuja gente,

Erão Chriſtãos com Mouros juntamente.

Tambem nestas palauras lhe mentia,

Como por regimento em fim leuaua,

Que aqui gente de Chriſto não auia:

Mas a que a Mahamede celeebraua.

O Capitão que em tudo o mouro cria,

Virando as vellas, a Ilha demandaua:

Mas nam querendo a Deoſa guardadora,

Nam entra pela barra, & ſurge fora.

Eſtaua a Ilha aa terra tam chegada,

Que hum eſtreito pequeno a diuidia,

Hũa cidade nella ſituada,

Que na fronte do mar aparecia,

De nobres edificios fabricada,

Como por fora, ao longe deſcobria,

Regida por hum Rei de antigua idade,

Mombaça he o nome da Ilha, & da Cidade.

E ſendo a ella o Capitão chegado,

Eſtranhamente ledo, porque eſpera

De poder ver o pouo baptizado,

Como o falſo Piloto lhe diſſera:

Eis vem bateis da terra com recado

Do Rei, que ja ſabia a gente que era,

Que Baco muito de antes o auiſara,

Na forma doutro Mouro que tomàra.

O recado que trazem he de amigos:

Mas debaxo o veneno vem cuberto,

Que os penſamentos erão de inimigos,

Segundo foy o engano deſcuberto.

O grandes & grauiſsimo perigos,

O caminho de vida nunca certo:

Que aonde a gente poem ſua eſperança,

Tenha a vida tam pouca ſegurança.

No mar tanta tormenta, & tanto dano,

Tantas vezes a morte apercebida,

Na terra, tanta guerra, tanto engano,

Tanta neceſsidade auorrecida:

Onde pode acolherſe hum fraco humano,

Onde terà ſegura a curta vida?

Que não ſe arme, & ſe indigne o Ceo ſereno.

Contra hum bicho da terra tam pequeno.

Fim.

❧ Canto Segundo.

Ia neſte tempo o

lucido Planeta,

Que as horas vay do dia diſtin-

guindo,

Chegaua aa deſejada, & lenta Meta,

A luz Celeſte aas gentes encobrindo:

E da caſa maritima ſecreta,

Lhe eſtaua o Deos Nocturno a porta abrĩdo:

Quando as infidas gentes ſe chegárão

Aas naos, que pouco auia que ancorarão

Dantre elles hum que traz encomendado,

O mortifero engano, aſsi dezia.

Capitão valeroſo, que cortado

Tens de Neptuno o reyno, & ſalſa via,

O Rei que manda eſta Ilha, aluoraçado

Da vinda tua tem tanta alegria,

Que nam deſeja mais que agaſalharte,

Verte, & do neceſſario reformarte.

E porque eſtà em eſtremo deſejoſo

De te ver, como couſa nomeada,

Te roga que de nada receoſo,

Entres a barra, tu com toda armada:

E porque do caminho trabalhoſo,

Traras a gente debil, & canſada,

Diz que na terra podes reformala,

Que a natureza obriga a deſejada,

E ſe buſcando vas mercadoria,

Que produze o aurifero Leuante,

Canella, Crauo, ardente eſpeciaria,

Ou Droga ſalutifera, & preſtante:

Ou ſe queres luzente pedraria,

O Rubí fino, o rigido Diamante:

Daqui leuaras tudo tam ſobejo.

Com que faças o fim a teu deſejo:

Ao menſageiro o Capitão reſponde,

As palauras do Rei agradecendo,

E diz que porque o Sol no mar ſe eſconde,

Não entra pera dentro obedecendo,

Porem que como a luz mostrar por onde

Va ſem perigo, a frota não temendo,

Comprirà ſem receio ſeu mandado,

Que a mais por tal ſenhor eſtà obrigado.

Perguntalhe deſpois, ſe estão na terra

Chriſtãos, como o Piloto lhe dezia,

O menſageiro aſtuto que não erra,

Lhe diz, que a mais da gẽte em Chriſto cria:

Deſta ſorte do peito lhe desterra

Toda a ſoſpeita, & cauta fantaſia:

Por onde o Capitão ſeguramente,

Se fia da infiel, & falſa gente.

E de algũs que trazia condenados,

Por culpas, & por feitos vergonhoſos

Porque podeſſem ſer auenturados,

Em caſos deſta ſorte duuidoſos.

Manda dous mais ſagazes, enſaiados,

Porque notem dos Mouros enganoſos,

A Cidade, & poder, & porque vejão,

Os que Chriſtãos, que ſo tanto ver deſejão.

E por eſtes ao Rei preſentes manda,

Porque a boa vontade que moſtraua,

Tenha firme, ſegura, limpa, & branda,

A qual bem ao contrario em tudo eſtaua.

Ia a companhia perfida, enefanda

Das naos ſe deſpedia, & o mar cortaua,

Foram com geſtos ledos, & fingidos,

Os dous da frota em terra recebidos.

E deſpois que ao Rei apreſentàrão,

Co recado os preſentes que trazião,

A Cidade correrão, & notarão

Muito menos daquillo que querião,

Que os Mouros cauteloſos ſe guardarão

De lhe moſtrarem tudo o que pedião.

Que onde reina a malicia, eſtà o receio

Que a faz imaginar no peito alheio.

Mas aquelle que ſempre a mocidode

Tem no roſto perpetua, & foy naſcido

De duas mãis: que vrdia a falſidade,

Por ver o nauegante deſtruydo:

Eſtaua nũa caſa da Cidade,

Com roſto humano, & habito fingido

Moſtrandoſe Chriſtão, & fabricaua

Hum altar ſumptuoſo que adoraua.

Ali tinha em retrato affigurada

Do alto & Sancto ſpirito a pintura,

A candida Pombinha debuxada,

Sobre a vnica Fenix virgem pura,

A companhia ſancta eſtà pintada,

Dos doze tam toruados na figura,

Como os que, ſo das lingoas que cayrão,

De fogo, varias lingoas referirão.

Aqui os dous companheiros conduzidos,

Onde com este engano Baco estaua

Poem em terra os giolhos, & os ſentidos

Naquelle Deos, que o mundo gouernaua

Os cheiros excellentes produzidos,

Na Panchaia odorifera queimaua

O Thioneû, & aſsi por derradeiro

O falſo Deos adora o verdadeiro.

Aqui forão denoite agaſalhados,

Com todo o bom, & honeſto tratamento

Os dous Chriſtãos, nam vendo que enganado

Os tinha o falſo, & ſancto fingimento:

Mas aſsi como os rayos eſpalhados

Do Sol forão no mundo, & num momento

Apareceo no rubido Orizonte,

Na moça de Titão a roxa ſronte.

Tornão da terra os Mouros co recado

Do Rei, pera que entraſſem, & conſigo

Os dous que o Capitão tinha mandado,

A quem ſe o Rei moſtrou ſincêro amigo:

E ſendo o Portugues certificado,

De não auer receio de perigo.

E que gente de Chriſto em terra auia,

Dentro no ſalſorio entrar queria

Dizem lhe os que mandou, que em terra vîrão,

Sacras aras, & ſacerdote ſancto,

Que ali ſe agaſalhàrão, & dormirão,

Em quanto a luz cubrio o eſcuro manto:

E que no Rei, & gentes não ſentirão

Senão contentamento, & gosto tanto:

Que não podia certo auer ſoſpeita,

Nũa mostra tão clara, & tão perfeita.

Co iſto o nobre Gama recebia

Alegremente os Mouros que ſubião,

Que leuemente hum animo ſe fia,

De mostras que tão certas parecião:

A nao da gente perfida ſe enchia,

Deixando a bordo os barcos que trazião:

Alegres vinhão todos, porque crem

Que a preſa deſejada certa tem.

Na terra cautamente aparelhauão,

Armas, & monições, que como viſſem

Que no Rio os nauios ancorauão,

Nelles ouſadamente ſe ſubiſſem:

E neſta treição determinauão,

Que os de Luſo de todo deſtruiſſem:

E que incautos pagaſſem deste geito

O mal que em Moçambique tinhão feito.

As ancoras tenaces vão leuando,

Com a nautica grita coſtumada,

Da proa as vellas ſos ao vento dando,

Inclinão pera a barra abaliſada:

Mas a linda Ericina, que guardando

Andaua ſempre a gente aſsinalada:

Vendo a cilada grande, & tam ſecreta,

Voa do Ceo ao Mar como hũa ſeta.

Conuoca as aluas filhas de Nerêo,

Com toda a mais cerulea companhia,

Que porque no ſalgado Mar naſceo,

Das agoas o poder lhe obedecia.

E propondo lhe a cauſa a que deceo,

Com todos juntamente ſe partia:

Pera eſtoruar que a armada não chegaſſe

Aonde pera ſempre ſe acabaſſe.

Ia na agoa erguendo vão com grande preſſa,

Com as argenteas caudas branca eſcuma,

Cloto co peito corta, & atraueſſa

Com mais furor o Mar do que coſtuma.

Salta Niſe, Nerine ſe arremeſſa,

Por cima da agoa creſpa, em força ſuma:

Abrem caminho as ondas encuruadas,

De temor das Nereidas apreſſadas.

Nos hombros de hum Tritão com geſto aceſo,

Vay a linda Dione furioſa,

Não ſente quem a leua o doçe peſo,

De ſoberbo, com carga tam fermoſa:

Ia chegão perto donde o vento teſo,

Enche as vellas da frota belicoſa.

Repartenſe, & rodeão neſſe inſtante

As naos ligeiras que hião por diante.

Poem ſe a Deoſa com outras em dereito

Da proa capitaina, & ali fechando,

O caminho da barra estão de geito,

Que em vão aſſopra o vento, a vella inchãdo:

Poem no madeiro duro o brando peito,

Pera detras a forte nao forçando.

Outras em derredor leuandoa eſtauão,

E da barra inimiga a deſuiauão.

Quaes pera a coua as pròuidas formigas,

Leuando o peſogrande acomodado,

As forças exercitão, de inimigas,

Do inimigo Inuerno congelado:

Ali ſam ſeus trabalhos, & fadigas,

Ali mostrão vigor nunca eſperado.

Tais andauão as Nimphas eſtoruando

Aa gente Portugueſa o fim nefando.

Torna pera detras a Nao forçada,

A peſar dos que leua, que gritando,

Mareão vellas, ferue a gente yrada,

O leme a hum bordo, & a outro atraueſſando

O Meſtre aſtuto em vão da popa brada,

Vendo como diante ameaçando

Os estaua hum maritimo penedo,

Que de quebrarlhe a Nao lhe mete medo:

A celeuma medonha ſe aleuanta,

No rudo Marinheiro que trabalha,

O grande eſtrondo, a Maura gente eſpanta,

Como ſe viſſem horrida batalha:

Nam ſabem a razão de furia tanta,

Nam ſabem neſta preſſa quem lhe valha,

Cuydão que ſeus enganos ſam ſabidos,

E que ande ſer por iſſo aqui punidos.

Eilos ſubitamente ſe lançauão,

A ſeus bateis veloces que trazião,

Outros encima o mar aleuantauão,

Saltando nagoa a nado ſe acolhião:

De hum bordo & doutro ſubito ſaltauão,

Que o medo os compelia do que vião.

Que antes querem ao mar auenturarſe,

Que nas mãos inimigas entregarſe.

Aſsi como em ſeluatica alagoa,

As rãs no tempo antigo Lycia gente,

Se ſentem por ventura vir peſſoa,

Estando fora da agoa incautamente,

Daqui, & dali ſaltando, o charco ſoa,

Por fogir do perigo que ſe ſente,

E acolhendo ſe ao couto que conhecem,

Sos as cabeças na agoa lhe aparecem.

Aſsi fogem os Mouros, & o Piloto,

Que ao perigo grande as naos guiâra,

Crendo que ſeu engano eſtaua noto,

Tambem foge ſaltando na agoa amara:

Mas por nam darem no penedo immoto,

Onde percão a vida doçe, & cara:

A ancora ſolta logo a capitaina,

Qualquer das outras junto della amaina.

Vendo o Gama, atentado a eſtranheza

Dos Mouros não cuidada, & juntamente,

O Piloto fugir lhe com preſteza,

Entende o que ordenaua a bruta gente,

E vendo ſem contraste, & ſem braueza

Dos ventos, ou das, agoas ſem corrente,

Que a Nao paſſar auante não podia,

Auendo o por milagre aſsi dezia.

O caſo grande, eſtranho, & não cuydado,

O milagre clariſsimo, & euidente,

O deſcuberto engano inopinado,

O perfida inimiga, & ſalſa gente,

Quem poderà do mal aparelhado

Liurarſe ſem perigo ſabiamente.

Se la de cima a guarda ſoberana,

Não acudir aa fraca força humana?

Bem nos moſtra a diuina prouidencia,

Destes portos, a pouca ſegurança,

Bem claro temos viſto na aparencia,

Que era enganada a noſſa confiança

Mas pois ſaber humano, nem prudencia

Enganos tam fingidos nam alcança:

O tu guarda diuina, tem cuidado

De quem ſem ti nam pode ſer guardado.

E ſe te moue tanto a piedade,

Deſta miſera gente peregrina,

Que ſo por tua altiſsima bondade,

Da gente a ſaluas, perfida & malina,

Nalgum porto ſeguro de verdade:

Conduzirmos ja agora determina,

Ou nos amostra a terra que buſcamos,

Pois ſo por teu ſeruiço nauegamos.

Ouuiolhe eſtas palauras piadoſas,

A fermoſa Dione, & comouida,

Dantre as Nimphas ſe vay, que ſaudoſas

Ficarão deſta ſubita partida:

Ia penetra as Eſtrellas luminoſas,

Ia na terceyra Eſphera recebida

Auante paſſa, & la no ſexto Ceo

Pera onde eſtaua o Padre ſe moueo.

E como hia afrontada do caminho

Tão fermoſa no geſto ſe moſtraua,

Queas Eſtrellas, & o Ceo, & o Ar vizinho,

E tudo quanto a via namoraua

Dos olhos, onde faz ſeu filho o ninho

Hũs eſpiritos viuos inspiraua,

Com que os Polos gelados acendia,

E tornaua do Fogo a eſphera fria.

E por mais namorar o ſoberano

Padre, de quem foy ſempre amada, & cara

Se lhapreſenta aſsi como ao Troyano,

Na ſelua Idea ja ſe apreſentàra:

Se a vira o caçador, que o vulto humano

Perdeo, vendo Diana na agoa clara:

Nunca os famintos galgos o matàrão,

Que primeiro deſejos o acabárão.

Os creſpos fios douro ſe eſparzião

Pelo colo, que a neue eſcurecia,

Andando as lacteas tetas lhe tremião,

Com quem Amor brincaua, & não ſe via.

Da alua petrina flamas lhe ſaião,

Onde o minino as almas acendia.

Polas liſas colũnas lhe trepauão,

Deſejos, que como Era ſe enrolauão.

Cum delgado cendal as partes cobre,

De quem vergonha he natural reparo,

Porem nem tudo eſconde, nem deſcobre

O veo dos roxos lirios pouco auaro:

Mas pera que o deſejo acenda, & dobre,

Lhe poem diante aquelle objecto raro.

Ia ſe ſentem no Ceo, por toda a parte,

Ciumes em Vulcano, Amor em Marte:

E mostrando no angelico ſembrante,

Co riſo hũa tristeza miſturada,

Como dama que foi do incauto amante,

Em brincos amoroſos mal tratada,

Que ſe aqueixa, & ſe ri, num meſmo inſtãte,

E ſe torna entre alegre maogada.

Deſta arte a Deoſa, a quem nenhũa iguala,

Mais mimoſa que triſte ao Padre fala.

Sempre eu cuidey, ô Padre poderoſo,

Que pera as couſas, que eu do peito amaſſe

Te achaſſe brando, affabil, & amoroſo,

Poſto que a algum contrairo lhe peſaſſe:

Mas pois que contra my te vejo yroſo,

Sem que to mereceſſe, nem te erraſſe.

Façaſe como Baco determina,

Aſſentarey em fim que fuy mofina.

Eſte pouo que he meu, por quem derramo,

As lagrimas que em vão caidos vejo,

Que aſſaz de mal lhe quero, pois que o amo,

Sendo tu tanto contra meu deſejo:

Por elle a ti rogando choro, & bramo,

E contra minha dita em fim pelejo.

Ora pois porque o amo he mal tratado,

Quero lhe querer mal, ſera guardado.

Mas moura em fim nas mãos das brutas gentes,

Que pois eu fuy: & niſto de mimoſa

O rosto banha, em lagrimas ardentes,

Como co orualho fica a freſca roſa.

Calada hum pouco, como ſe entre os dentes

Lhe impedira a falla piedoſa.

Torna a ſeguila, & indo por diante,

Llhe atalha o poderoſo, & grão Tonante.

E deſtas brandas moſtras comouido,

Que mouerão de hum Tigre o ptito duro,

Co vulto alegre, qual do Ceo ſubido,

Torna ſereno & claro o ar eſcuro.

As lagrimas lhe alimpa, & acendido

Na façe a beija, & abraça o colo puro.

De modo que dali, ſe ſo ſe achara,

Outro nouo Cupido ſe gerara.

E co ſeu apertando o roſto amado,

Que os ſaluços, & lagrimas aumenta,

Como minino da ama castigado,

Que quem no aſſago o choro lhe acrecenta,

Por lhe por em ſoſſego o peito yrado,

Muitos caſos futuros lhe apreſenta.

Dos fados as entranhas reuoluendo,

Deſta maneira em fim lhe eſtà dizendo.

Fermoſa filha minha não temais

Perigo algum, nos voſſos Luſitanos,

Nem que ninguem comigo poſſa mais,

Que eſſes choroſos olhos ſoberanos:

Que eu vos prometo filha que vejais

Eſquecerenſe Gregos & Romanos.

Pelos illuſtres feitos que esta gente,

Ha de fazer nas partes do Oriente.

Que ſe o facundo Vliſſes eſcapou,

De ſer na Ogigia Ilha, eterno eſcrauo:

E ſe Antenor os ſeios penetrou,

Iliricos, & a fonte de Timauo.

E ſe o piadoſo Eneas nauegou,

De Scila, & de Caribdis o Mar brauo.

Os voſſos môres couſas atentando,

Nouos mundos ao mundo yrão moſtrando.

Fortalezas, Cidades, & altos muros,

Por elles vereis filha edificados:

Os Turcos belaciſsimos & duros,

Delles ſempre vereis desbaratados.

Os Reis da India liures, & ſeguros,

Vereis ao Rei potente ſojugados.

E por elles de tudo em fim ſenhores,

Serão dadas na terra leis milhores.

Vereis eſte, que agora preſuroſo,

Por tantos medos o Indo vay buſcando,

Tremer delle Neptuno de medroſo,

Sem vento ſuas agoas encreſpando.

O caſo nunca viſto, & milagroſo

Que trema, & ferua o Mar em calma eſtãdo?

O gente forte, & de altos penſamentos,

Que tambem della hão medo os Elementos.

Vereis a terra que a agoa lhe tolhia,

Que inda ha de ſer hum porto muy decente,

Em que vão deſcanſar da longa via,

As naos que nauegarem do Occidente.

Toda eſta coſta em fim, que agora vrdia,

O mortifero engano, obediente,

Lhe pagarà tributos, conhecendo,

Não poder reſistir ao Luſo horrendo:

E vereis o Mar roxo tam famoſo,

Tornar ſelhe amarello de infiado:

Vereis de Ormuz o Reino poderoſo,

Duas vezes tomado, & ſojugado.

Ali vereis o Mouro furioſo,

De ſuas meſmas ſetas traſpaſſado.

Que quem vay contra os voſſos, claro veja,

Que ſe reſiſte, contra ſi peleja.

Vereis a inexpugnabil Dio fortes,

Que dous cercos terà, dos voſſos ſendo:

Ali ſe mostrarà ſeu preço, & ſorte,

Feitos de armas grandiſsimos fazendo.

Enuejoſo vereis o grão Mauorte,

Do peito Luſitano, fero & horrendo.

Do Mouro ali verão que a voz extrema,

Do falſo Mahamede ao Ceo blasfema.

Goa vereis aos Mouros ſer tomada,

A qual virá deſpois a ſer ſenhora,

De todo o Oriente, & ſublimada

Cos triumphos da gente vencedora.

Ali ſoberba altiua, & exalçada,

Ao Gentio que os Idolos adora.

Duro ſreo porà, & a toda a terra,

Que cuidar de fazer aos voſſos guerra.

Vereis a fortaleza ſuſtentarſe,

De Cananor, com pouca força & gente:

E vereis Calecu desbaratarſe,

Cidade populoſa, & tam potente.

E vereis em Cochim aſsinalarſe,

Tanto hum peito ſoberbo, & inſolente,

Que Cîtara ja mais cantou victoria,

Que aſsi mereça eterno nome, & gloria.

Nunca com Marte, inſtructo & furioſo,

Se vio feruer Leucate, quando Auguſto

Nas ciuîs Actias guerras animoſo,

O Capitão venceo Romano injuſto,

Que dos pouos de Aurora, & do famoſo

Nilo, & do Bactra Scitico, & robusto,

A victoria trazia, & preſa rica,

Preſo da Egipcia linda & não pudica.

Como vereis o mar feruendo aceſo,

Cos incendios dos voſſos pelejando,

Leuando o Idololatra, & o Mouro preſo,

De nações differentes triumphando.

E ſogeita a rica Aurea Cherſoneſo,

Ate o longico China nauegando.

E as Ilhas mais remotas do Oriente,

Serlhe a todo o Occeano obediente.

De modo filha minha, que de geito,

Amoſtrarão esforço mais que humano,

Que nunca ſe vera tam forte peito,

Do Gangetico mar ao Gaditano,

Nem das Boreais ondas, ao Eſtreito,

Que moſtrou o agrauado Luſitano:

Poſto que em todo o mundo, de affrontados

Reſucitaſſem todos os paſſados.

Como isto diſſe, manda o conſagrado

Filho de Maia aa terra, porque tenha,

Hum pacifico porto, & ſoſſegado,

Pera onde ſem receyo a frota venha:

E pera que em Mombaça, auenturado

O forte Capitão ſe não detenha,

Lhe mãda mais, que em ſonhos lhe moſtraſſe

A terra, onde quieto repouſaſſe.

Ia pelo ar o Cylenêo voaua,

Com as aſas nos pês aa terra deçe,

Sua vara fatal na mão leuaua,

Com que os olhos canſados adormece:

Com eſta, as triſtes almas reuocaua,

Do Inferno, & o vento lhe obedeçe.

Na cabeça o galêro coſtumado,

E deſta arte a Melinde foy chegado.

Conſigo a Fama leua, porque diga,

Do Luſitano, o preço grande, & raro,

Que o nome illuſtre a hũ certo amor obriga,

E faz a quem o tem, amado & caro.

Deſta arte vay fazendo a gente amiga,

Co rumor famoſiſsimo, & perclaro.

Ia Melinde em deſejos arde todo,

De ver da gente forte o gesto, & modo.

Dali pera Mombaça logo parte,

Aonde as naos eſtauão temeroſas,

Pera que aa gente mando que ſe aparte

Da barra imiga, & terras ſoſpeitoſas:

Porque muy pouco val esforço, & arte,

Contra infernais vontades enganoſas:

Pouco val coração, aſtucia , & ſiſo,

Se la dos Ceos nam vem celeſte auiſo.

Meyo caminho a noite tinha andado,

E as Eſtrellas no Ceo co a luz alheia,

Tinhão o largo Mundo alumiado,

E ſo co ſono a gente ſe recreia.

O Capitão illuſtre, ja canſado,

De vigiar a noite, que arreceia,

Breue repouſo antam aos olhos daua,

A outra gente a quartos vigiaua.

Quando Mercurio em ſonhos lhe apareçe,

Dizendo, fuge, fuge Luſitano,

Da cilada que o Rei malicado teçe,

Por te trazer ao fim, & extremo dano,

Fuge, que o Vento, & o Ceo te fauoreçe,

Sereno o tempo tẽs, & o Occeano,

E outro Rei mais amigo, noutra parte,

Onde podes ſeguro agaſalharte.

Não tens aqui ſe não aparelhado,

O hoſpicio que o cru Diomedes daua,

Fazendo ſer manjar acostumado,

De cauallos a gente que hoſpedaua:

As aras do Buſiris infamado,

Onde os hoſpedes tristes imolaua

Teràs certas aqui ſe muito eſperas,

Fuge das gentes perfidas & feras.

Vaite ao longo da coſta diſcorrendo,

E outra terra acharàs de mais verdade

La quaſi junto donde o Sol ardendo,

Iguala o dia, & noite em quantidade:

Ali tua frota alegre recebendo

Hum Rei, com muitas obras de amizade,

Gaſalhado ſeguro te daria,

E pera a India certa & ſabia guia.

Isto Mercurio diſſe, & o ſono leua

Ao Capitão, que com muy grande eſpanto

Acorda, & ve ferida a eſcura treua,

De hũa ſubita luz, & rayo ſancto:

E vendo claro quanto lhe releua,

Não ſe deter na terra iniqua tanto.

Com nouo ſprito ao Mestre ſeu mandaua,

Que as vellas deſſe ao vento que aſſopraua.

Day vellas, diſſe, day ao largo vento,

Que o Ceo nos fauoreçe, & Deos o manda,

Que hum menſageiro vi do claro aſſento

Que ſo em fauor de noſſos paſſos ando:

Aleuantaſe niſto o mouimento,

Dos marinheiros, de hũa & de outra banda,

Leuão gritando as ancoras acima,

Moſtrando a ruda força, que ſe estima.

Neſte tempo, que as ancoras leuauão,

Na ſombra eſcura os Mouros eſcondidos,

Manſamente as amarras lhe cortauão,

Por ſerem, dando aa coſta, deſtruydos:

Mas com viſta de Linces vigiauão,

Os Portuegueſes ſempre apercebidos.

Elles como acordados os ſentirão,

Voando, & não remando lhe fogirão.

Mas ja as agudas proas apartando,

Hião as vias humidas de argento,

Aſſopralhe galerno o vento, & brando,

Com ſuaue & ſeguro mouimento,

Nos perigos paſſados vão falando,

Que mal ſe perderão do penſamento,

Os caſos grandes, donde em tanto aperto

A vida em ſaluo eſcapa por acerto.

Tinha hũa volta dado o Sol ardente,

E noutra começaua, quando virão

Ao longe dous nauios, brandamente

Cos ventos nauegando, que reſpirão,

Porque auião de ſer da Maura gente,

Pera elles arribando, as vellas virão.

Hum de temor do mal que arreceaua,

Por ſe ſaluar a gente aa costa daua.

Não he o outro que fica tão manhoſo:

Mas nas mãos vay cair do Luſitano,

Sem o rigor de Marte furioſo,

E ſem a furia horrenda de Vulcano,

Que como foſſe debil & medroſo,

Da pouca gente o fraco peito humano:

Não teue reſiſtencia, & ſe a tiuêra,

Mais dãno reſiſtindo recebêra.

E como o Gama muito deſejaſſe,

Piloto pera a India que buſcaua,

Cuidou que entre eſtes Mouros o tomaſſe:

Mas não lhe ſoccedeo como cuidaua,

Que nenhum delles ha que lhe inſinaſſe

A que parte dos Ceos a India eſtaua.

Porem dezem lhe todos, que tem perto,

Melinde onde achàrão Piloto certo.

Louuão do Rei os Mouros a bondade,

Condiçam liberal, ſincero peito,

Mognificencia grande, & humanidade,

Com partes de grandiſsimo reſpeito.

O Capitão o aſſella por verdade,

Porque ja lho diſſera deſte geito,

O Cydenêo em ſonhos, & partia,

Pera onde o ſonho, & o Mouro lhe dizia.

Era no tempo alegre quando entraua,

No roubador de Europa a luz Febea,

Quando hum, & o outro corno lhe aquentaua

E Flora derramaua o de Amalthea:

A memoria do dia renouaua,

O preſuroſo Sol, que o Ceo rodea.

Em que aquelle, a quem tudo eſtà ſogeito,

O ſello pos a quanto tinha feito.

Quando chegaua a frota aaquella parte,

Onde o Reino Melinde ja ſe via,

De toldos adornada, & leda de arte

Que bem moſtra eſtimar o Sancto dia:

Treme a Bandeira, voa o Eſtandarte,

A cor porpurea ao longe aparecia.

Soão os atambores & pandeiros,

E aſsi entrauão ledos & guerreiros.

Enche ſe toda a praya Molindana,

Da gente que vem ver a leda armada,

Gente mais verdadeira, & mais humana

Que toda a doutra terra atras deixada.

Surge diante a frota Luſitana,

Pega no findo a ancora peſada.

Mandão fora hum dos Mouros q̃ tomàrão,

Por quem ſua vinda ao Rei manifeſtàrão.

O Rei que ja ſabia da nobreza

que tanto os Portugueſes engrandece,

Tomarem o ſeu porto tanto preza,

Quanto a gente fortiſsima merece:

E com verdadeiro animo, & pureza,

Que os peitos generoſos ennobrece.

Lhe manda rogar muyto que ſaiſſem,

Pera que de ſeus Reinos ſe ſeruiſſem:

Sam offerecimentos verdadeiros,

E palauras ſinceras, não dobradas,

As que o Rei manda aos nobres caualleiros,

Que tanto mar & terras tem paſſadas:

Mandalhe mais lanigeros carneiros,

E galinhas domeſticas çeuadas,

Com as fructas que antam na terra auia,

E a vontade aa dadiua excedia.

Recebe o Capitão alegremente

O menſageiro ledo, & ſeu recado,

E logo manda ao Rei outro preſente,

Que de longe trazia aparelhado:

Eſcarlata purpurea, cor ardente,

O ramoſo coral fino, & prezado.

Que debaxo das agoas mole creçe,

E como he fora dellas ſe endureçe.

Manda mais hum na pratica elegante,

Que co Rei nobre as pazes concertaſſe,

E que de não ſair naquelle inſtante,

De ſuas naos em terra o deſculpaſſe.

Partido aſsi o embaixador preſtante,

Como na terra ao Rei ſe apreſentaſſe:

Com eſtillo que Palas lhe enſinaua,

Estas palauras tais fallando oraua.

Sublime Rei, a quem do Olimpo puro,

Foy da ſuma Iustiça concedido,

Refrear o ſoberbo pouo duro,

Não menos delle amado, que temido,

Como porto muy forte, & muy ſeguro,

De todo o Oriente conhecido:

Te vimos a buſcar, pera que achemos

Em ti o remedio certo que queremos.

Não ſomos roubadores, que paſſando

Pelas fracas cidades deſcuidadas,

A ferro, & a fogo, as gentes vão matando

Por roubarlhe as fazendas cubiçadas:

Mas da ſoberba Europa nauegando,

Himos buſcando as terras apartadas

Da India grande, & rica, por mandado

De hum Rei que temos, alto, & ſublimado.

Que geração tam dura ahi de gente?

Que barbaro costume, & vſança fea,

Que não vedem os pertos, tam ſomente:

Mas inda o hospicio da deſerta area?

Que ma tençam? que peito em nos ſe ſente?

Que de tam pouca gente ſe arrecea.

Que com laços armados tam fingidos,

Nos ordenaſſem vernos deſtruydos?

Mas tu, em quem muy certo confiamos

Acharſe mais verdade, o Rei benigno,

E aquella certa ajuda em ti eſperamos,

Que teue o perdido Itaco em Alcino:

A teu porto ſeguros nauegamos,

Conduzidos do interprete diuino.

Que pois a ti nos manda, eſtà muy claro,

Que es de peito ſincêro, humano, & raro.

E não cuydes, ô Rei, que não ſaiſſe.

O noſſo Capitão eſclarecido

A verte, ou a ſeruirte, porque viſſe

Ou ſoſpeitaſſe em ti peito fingido:

Mas ſaberas que o fez porque compriſſe,

O regimento em tudo obedecido,

De ſeu Rei, que lhe manda que nam ſaia,

Deixando a frota, em nenhũ porto, ou praia.

E porque he de vaſſalos, o exercicio,

Que os membros tem regidos da cabeça

Não quereras, pois tẽs de Rei o officio,

Que ninguem a ſèu Rei deſobedeça:

Mas as merçes, & o grande beneficio,

Que ora acha em ti, promete que conheça

Em tudo aquillo que elle & os ſeus poderem,

Em quanto os rios pera o mar correrem.

Aſsi dizia, & todos juntamente,

Hũs com outros em pratica fallando,

Louuauão muito o eſtamago da gente,

Que tantos Ceos & mares vai paſſando,

E o Rei illuſtre, o peito obediente,

Dos Portugueſes, na alma imaginando.

Tinha por valor grande, & muy ſubido,

O do Rei que he tam longe obedecido.

E com riſonha viſta, & ledo aſpeito,

Responde ao Embaixador, que tanto estima

Toda a ſoſpeita mà tiray do peito,

Nenhum frio temor em vos ſe imprima:

Que voſſo preço, & obras ſam de geito,

Pera vos ter o mundo em muyta eſtima.

E quem vos fez mollesto tratamento,

Não pode ter ſobido penſamento.

De não ſair em terra toda a gente,

Por obſeruar a vſado preminencia,

Ainda que me peſe eſtranhamente,

Em muito tenho a muita obediencia:

Mas ſe lho o regimento não conſente,

Nem eu conſentirey que a excelencia,

De peitos tão leais em ſi desfaça,

So perque a meu deſejo ſatisfaça.

Porem como a luz crastina chegada,

Ao mundo for, em minhas almàdîas,

Eu irey viſitar a forte armada,

Que ver tanto deſejo, ha tantos dias.

E ſe vier do mar desbaratada,

Do furioſo vento, & longas vias:

Aqui tera, de limpos penſamentos

Piloto, munições, & mantimentos.

Isto diſſe, & nas agoas ſe eſcondia,

O filho de Latona, & o menſageiro

Co a embaixada alegre ſe partia

Pera a frota, no ſeu batel ligeiro:

Enchem ſe os peitos todos de alegria,

Por terem o remedio verdadeiro,

Pera acharem a terra que buſcauão,

E aſsi ledos a noite feſtejauão.

Não faltão ali os rayos de arteficio,

Os tremulos Cometas imitando,

Fazem os Bombardeiros ſeu officio:

O ceo, a terra, & as ondas atroando.

Moſtraſe dos Cyclopas o exercicio,

Nas bombas que de fogo estão queimando,

Outros com vozes, com que o Ceo ferião.

Inſtrumentos altiſſonos tangião.

Respondem lhe da terra juntamente,

Co rayo volteando, com zonido,

Anda em giros no ar a roda ardente,

Estoura o po ſulfureo eſcondido:

A grita ſe aleuanta ao Ceo, da gente,

O Mar ſe via em fogos acendido:

E não menos a terra, & aſsi feſteja

Hum ao outro a maneira de peleja.

Mas ja o Ceo inquieto reuoluendo,

As gentes incitaua a ſeu trabalho,

E ja a mãy de Menon a luz trazendo,

Ao ſono longo punha certo atalho:

Hião ſe as ſombras lentas desfazendo,

Sobre as flores da terra, em frio orualho,

Quando o Rei Milindano ſe embarcaua

A ver a frota que no mar estaua.

Vião ſe em derredor feruer as prayas

Da gente, que a ver ſo concorre leda,

Luzem da fina purpura as cabaias,

Lustrão os panos da tecida ſeda:

Em lugar de guerreiras a zagaias

E do arco, que os cornos arremeda

Da Lũa, trazem ramos de Palmeira,

Dos que vencem coroa verdadeira.

Hum batel grande & largo, que toldado

Venha de ſedas de diuerſas cores,

Traz o Rei de Melinde, acompanhado

De nobres de ſeu Reino, & de ſenhores:

Vem de ricos veſtidos adornado,

Segundo ſeus costumes, & primores.

Na cabeça hũa fota guarnecida,

De ouro, & de ſeda, & de algodão tecida.

Cabaya de Damaſco rico, & dino,

Da Tiria cor, entre elles eſtimada,

Hum colar ao peſcoço de ouro fino,

Onde a materia da obra he ſuperada,

Cum reſplandor reluze Adamantino,

Na cinta, a rica adaga bem laurada.

Nas alparcas dos pês, em fim de tudo,

Cobrem, ouro & aljofar ao veludo.

Com hum redondo emparo alto de ſeda,

Nũa alta & dourada astea enxerido,

Hum miniſtro aa ſolar quentura veda,

Que não offenda & queime o Rei ſubido:

Muſica traz na proa, eſtranha & leda,

De aſpero ſom, horriſsimo ao ouuido:

De trombetas arcadas em redondo,

Que ſem concerto fazem rudo estrondo.

Não menos guarnecido o Luſitano,

Nos ſeus bateis da frota ſe partia,

A receber no mar o Melindano,

Com luſtroſa & honrada companhia:

Vestido o Gama vem ao modo Hispano:

Mas Franceſa era a roupa que veſtia,

De cetim da Adriatica Veneza,

Carmeſi, cor que a gente tanto preza.

De botões douro as mangas vem tomadas,

Onde o Sol reluzindo a viſta cega:

As calças ſoldadeſcas recamadas,

Do metal que Fortuna a tantos nega,

E com pontas do meſmo delicadas,

Os golpes do gibão ajunta, & achega:

Ao Italico modo a aurea eſpada,

Pruma na gorra, hum pouco diclinada.

Nos de ſua companhia ſe moſtraua,

Da tinta que dà o Mûrice excelente,

A varia cor, que os olhos alegraua,

E a maneira do trajo diferente:

Tal o fermoſo eſmalte ſe notaua,

Dos veſtidos olhados juntamente:

Qual aparece o arco rutilante,

Da bella Nimpha filha de Thaumante.

Sonoroſas trombetas incitauão,

Os animos alegres reſoando,

Dos Mouros os bateis o Mar co lhauão,

Os toldos pelas agoas arrojando:

As bombardas horriſſonas bramando,

Com as nuuẽs de fumo o Sol tomando,

Ameudam ſe os brados acendidos,

Tapão com as mãos os Mouros os ouuidos.

Ia no batel entrou do Capitão

O Rei, que nos ſeus braços o leuaua,

Elle coa corteſia, que a razão

(Por ſer Rei) requeria, lhe fallaua.

Cũas moſtras de eſpanto, & admiração,

O Mouro o geſto, & o modo lhe notoua,

Como quem em muy grande estima tinha,

Gente que de tam longe à India vinha.

E com grandes palauras lhe offereçe,

Tudo o que de ſeus Reinos lhe compriſſe,

E que ſe mantimento lhe falleçe,

Como ſe proprio foſſe lho pediſſe:

Diz lhe mais, que por fama bem conheçe

A gente Luſitana, ſem que a viſſe.

Que ja ouuio dizer, que noutra terra

Com gente de ſua ley tiueſſe guerra.

E como por toda Affrica ſe ſoa,

Lhe diz, os grandes feitos que fizerão,

Quando nella ganharão a coroa

Do Reino, onde as Hesperidas viuerão:

E com muitas palauras apregoa,

O menos que os de Luſo merecerão:

E o mais que pela fama o Rei ſabia:

Mas deſta ſorte o Gama reſpondia.

O tu que ſo tiueste piedade,

Rei benigno, da gente Luſitana,

Que com tanta miſeria, & aduerſidade,

Doe mares experimenta a furia inſana.

Aquella alta, & diuina eternidade,

Que o Ceo reuolue, & rege a gente humana:

Pois que de ti tais obras reçebemos,

Te pague o que nos outros não pedemos.

Tu ſo de todos quantos queima Apolo,

Nos recebes em paz do Mar profundo

Em ti, dos ventos horridos de Eolo,

Refugio achamos bom, fido, & jocundo.

Em quanto apacentar o largo Polo,

As Eſtrellas, & o Sol der lume ao Mundo,

Onde quer que eu viuer, com fama & gloria,

Viuirão teus louuores em memoria.

Isto dizendo, os barcos vão remando,

Pera a frota, que o Mouro ver deſeja,,

Vão as naos, hũa & hũa rodeando,

Porque de todas tudo note, & veja:

Mas pera o Ceo Vulcano fuzilando,

A frota co as bombardas o feſteja,

E as trombetas canoras lhe tangião,

Cos anafis os Mouros reſpondião.

Mas deſpois de ſer tudo ja notado,

Do generoſo Mouro, que paſmaua,

Ouuindo o inſtrumento inuſitado,

Que tamanho terror em ſi moſtraua,

Mandaua estar quieto, & ancorado,

Nagoa o batel ligeiro que as leuaua,

Por fallar de vagar co forte Gama,

Nas couſas de que tem noticla, & fama.

Em praticas o Mouro diferentes,

Se deleitaua, perguntando agora,

Pelas guerras famoſas & excelentes,

Co pouo áuidas, que a Mafoma adora:

Agora lhe pergunta pelas gentes

De toda a Hispheria vltima, onde mora:

Agora pelos pouos ſeus vezinhos,

Agora pelos humidos caminhos.

Mas antes valeroſo Capitão,

Nos conta, lhe dezia, diligente,

Da terra tua o clima, & região

Do Mundo onde morais diſtintamente,

E aſsi de voſſa antiga geração,

E o principio do Reino tam potente:

Cos ſucceſſos das guerras do começo,

Que ſem ſabellas, ſey que ſam de preço.

E aſsi tambem nos conta dos rodeios

Longos, em que te traz o Mar yrado,

Vendo os coſtumes barbaros alheios,

Que a noſſa Affrica ruda tem criado

Conta: que agora vem cos aureos freios,

Os cauallos que o carro marchetado,

Do nouo Sol, da fria Aurora trazem,

O Vento dorme, o Mar & as ondas jazem.

E não menos co tempo ſe pareçe,

O deſejo de ouuirte o que contares,

Que quem ha, que por fama não conheçe

As obras Portugueſas ſingulares:

Não tanto deſuiado reſplandeçe,

De nos o claro Sol, pera julgares.

Que os Melindanos tem tam rudo peito,

Que não eſtimem muito hum grande feito.

Cometerão ſoberbos os Gigantes,

Com guerra vão, o olimpo claro, & puro,

Tentou Peritho, & Theſeu, de ignorantes,

O Reino de Plutão horrendo & eſcuro,

Se ouue feitos no mundo tam poſſantes,

Não menos he trabalho illuſtre, & duro,

Quanto foi cometer Inferno, & Ceo,

Que outrem cometa a furia de Nereo.

Queimou o ſagrado templo de Diana,

Do ſutil Teſifonio fabricado,

Horoſtrato, por ſer da gente humana

Conhecido no mundo, & nomeado:

Se tambem com tais obras nos engana,

O deſejo de hum nome auentajado.

Mais razão ha que queira eterna gloria

Quem faz obras tam dignas de memoria.

Fim.

❧ Canto Terceiro.

Agora tu Caliope

me enſina,

O que contou ao Rei, o illustre

Gama:

Inſpira immortal canto, & voz diuina,

Neſte peito mortal, que tanto te ama.

Aſsi o claro inuentor da Medicina,

De quem Orpheo pariſte, o linda Dama:

Nunca por Daphne, Clicie, ou Leucothôe

Te negue o Amor diuido, como ſoe.

Poem tu Nimfa em effeito meu deſejo,

Como mereçe a gente Luſitana,

Que veja & ſaiba o mundo que do Tejo

O licor de Aganipe corre & mana,

Deixa as flores de Pindo, que ja vejo

Banharme Apolo na agoa ſoberana.

Senão direy, que tẽs algum receio,

Que ſe eſcureça o teu querido Orpheio.

Promptos eſtauão todos eſcuitando,

O que o ſublime Gama contaria

Quando, deſpois de hum pouco eſtar cuidãdo,

Aleuantando o roſto, aſsi dizia:

Mandas me, o Rei, que conte declarando,

De minha gente a grão geanaloſia:

Não me manda contar eſtranha hiſtoria:

Mas mandas me louuar dos meus a gloria.

Que outrem poſſa louuar esforço alheio,

Couſa he que ſe coſtuma, & ſe deſeja:

Mas louuar os meus proprios, arreceio,

Que louuor tão ſospeito mal me esteja,

E pera dizer tudo, temo & creio,

Que qualquer longo tempo curto ſeja:

Mas pois o mandas, tudo ſe te deue,

Irey contra o que deuo, & ſerey breue.

Alem diſſo, o que a tudo em fim me obriga,

He não poder mentir no que diſſer,

Porque de feitos tais, por mais que diga,

Mais me ha de ficar inda por dizer:

Mas perque nisto a ordem leue & ſiga,

Segundo o que deſejas de ſaber.

Primeiro tratarey da larga terra,

Deſpois direy da ſanguinoſa guerra.

Entre a Zona que o Cancro ſenhorea,

Meta Septentrional do Sol luzente,

E aquella, que por fria ſe arrecea

Tanto, como a do meyo por ardente,

Iaz a ſoberba Europa, a quem rodea,

Pela parte do Arcturo, & do Occidente:

Com ſuas ſalſas ondas o Occeano,

E pela Auſtral, o Mar Mediterrano.

Da parte donde o dia vem naſcendo,

Com Aſia ſe auizinha: mas o Rio

Que dos montes Rifeios vay correndo,

Na alagoa Meotis, curuo & frio

As diuide: & o Mar, que fero & horrendo

Vio dos Gregos o yrado ſenhorio:

Onde agora de Troia triumfante,

Não vê mais que a memoria o nauegante.

La onde mais debaxo està do Polo,

Os montes Hyperboreos aparecem,

E aquelles onde ſempre ſopra Eolo,

E co nome do ſopros, ſe ennobrecem,

Aqui tam pouca força tem de Apolo,

Os rayos que no mundo reſplandecem.

Que a neue eſtà contino pelos montes,

Gelado o mar, geladas ſempre as fontes.

Aqui dos Cytas, grande quantidade

Viuem, que antigamente grande guerra

Tiuerão, ſobre a humana antiguidade,

Cos que tinhão antão a Egipcia terra:

Mas quem tão fera estaua da verdade,

(Ia que o juyzo humano tanto erra:)

Pera que do mais certo ſe informàra,

Ao campo Damaſceno o perguntàra.

Agora neſtas partes ſe nomea,

A Lapia fria, a inculta Noruega,

Eſcandinauia Ilha, que ſe arrea,

Das victorias que Italia não lhe nega

Aqui, em quanto as agoas não refrea,

O congelado Inuerno, ſe nauega.

Hum braço do Sarmatico Occeoano,

Pelo Bruſio, Suecio, & frio Dano.

Entre eſte Mar, & o Tanais viue eſtranha

Gente, Ruthenos, Moſcos, & Liuonios,

Sarmatas outro tempo, & na montanha

Hircinia, os Marcomanos ſam Polonios

Sugeitos ao Imperio de Alemanha,

Sam Saxones, Boemios, & Panonios,

E outras varias nações, que o Reno frio

Laua, & o Danubio, Amaſis, & Albis Rio.

Entre o remoto Iſtro, & o claro eſtreito,

Aonde Hele deixou, co nome, a vida,

Estão os Traces de robuſto peito,

Do fero Marte, patria tam querida,

Onde co Hemo, o Rodope ſugeito

Ao Otomano està, que ſometida,

Bizancio tem a ſeu ſeruiço indino,

Boa injuria do grande Coſtantino.

Logo de Macedonia eſtão as gentes,

A quem laua do Axio a agoa fria:

E vos tamhem, o terras excelentes,

Nos coſtumes, engenhos, & ouſadia,

Que criaſtes os peitos eloquentes,

E os juizos de alta fantaſia:

Com quem tu clara Grecia o Ceo penetras,

E não menos por armas, que por letras.

Logo os Dalmatas viuem, & no ſeio,

Onde Antenor ja muros leuantou,

A ſoberba Veneza eſtâ no meio

Das agoas, que tam baxa começou

Da terra, hum braço vem ao mar, que cheio

De esforço, nações varias ſogeitou,

Braço forte, de gente ſublimada,

Não menos nos engenhos que na eſpada.

Em torno o cerca o Reino Neptunino,

Cos muros naturais, por outra parte,

Pela meyo o diuide o Apinino,

Que tam illuſtre fez o patrio Marte:

Mas deſpois que o porteiro tem diuino,

Perdendo o esforço veio, & bellica arte:

Pobre eſtà ja de antiga poteſtade,

Tanto Deos ſe contenta de humildade.

Galia ali ſe verà, que nomeada,

Cos Ceſareos Triumfos foy no mundo,

Que do Sequana, & Rôdano he regada,

E do Garuna frio, & Reno fundo:

Logo os montes da Nimpha ſepultada

Pyrene ſe aleuantão, que ſegundo

Antiguidades contão, quando arderão,

Rios de ouro, & de prata antão corrèrão.

Eis aqui ſe deſcobre a nobre Eſpanha,

Como cabeça ali de Europa toda,

Em cujo ſenhorio & gloria eſtranha,

Muitas voltas tem dado a fatal roda:

Mas nunca poderà, com força, ou manha,

A fortuna inquieta porlhe noda:

Que lha não tire o esforço & ouſadia,

Dos belicoſos peitos, que em ſi cria.

Com Tingitania enteſta, & ali parece

Que quer fechar o mar Mediterrano,

Onde o ſabido estreito ſe ennobrece,

Co extremo trabalho do Thebano:

Com nações differentes ſe engrandece,

Cercadas com as ondas do Occeano.

Todas de tal nobreza, & tal valor,

Que qualquer dellas cuida que he milhor.

Tem o Tarragones, que ſe fez claro,

Sujeitando Partênope inquieta,

O Nauarro, as Aſturias, que reparo

Ia forão, contra a gente Mohometa,

Tem o Galego cauto, & o grande & raro

Caſtelhano, a quem fez o ſeu Planeta,

Restituidor de Eſpanha, & ſenhor della,

Bethis, Lião, Granada, com Castella.

Eis aqui quaſi cume da cabeça,

De Europa toda, o Reino Luſitano,

Onde a Terra ſe acaba, & o Mar começa,

E onde Febo repouſa no Occeano:

Eſte quis o Ceo juſto, que ſloreça

Nas armas, contra o torpe Mauritano,

Deitando o de ſi fora, & la na ardente

Affrica eſtar quieto o nam conſente.

Eſta he a ditoſa patria minha amada,

Aa qual ſe o Ceo me da, que eu ſem perigo

Torne, com eſta empreſa ja acabada,

Acabeſe eſta luz ali comigo.

Eſta foy Luſitania diriuada,

De Luſo, ou Lyſa: que de Bacho antigo,

Filhos forão pareçe, ou companheiros,

E nella antam os Incolas primeiros.

Desta o Paſtor naſceo, que no ſeu nome

Se ve, que de homem forte os feitos teue,

Cuja fama, ninguem virà que dome,

Pois a grande de Roma não ſe atreue:

Eſta, o velho que os filhos proprios come,

Por decreto do, Ceo ligeiro, & leue,

Veo a fazer no mundo tanta parte,

Criando a Reino illuſtre, & foi deſta arte.

Hum Rei, por nome Affonſo, foy na Eſpanha,

Que fez aos Sarracenos tanta guerra,

Que por armas ſanguinas, força & manha

A muitos fez perder a vida, & a terra:

Voando deſte Rei a fama eſtranha,

Do Herculano Calpe aa Caſpia ſerra,

Muitos, pera na guerra eſclarecerſe,

Vinhão a elle, & aa morte offerecerſe.

E com hum amor intrinſeco acendidos

Da Fè, mais que das honras populares,

Erão de varias terras conduzidos,

Deixando a patria amada, & proprios lares

Deſpois que em feitos altos & ſubidos.

Se moſtrarão nas armas ſingulares.

Quis o famoſo Affonſo, que obras tais,

Leuaſſem premio digno, & dões agoais.

Deſtes Anrique dizem que ſegundo,

Filho de hum Rei de Vngria exprimentado,

Portugal ouue em ſorte, que no Mundo

Entam não era illuſtre, nem prezado:

E pera mais ſinal damor profundo,

Quis o Rei Caſtelhano, que caſado,

Com Tereſa ſua filha o Conde foſſe,

E com ella das terras tomou poſſe.

Eſte deſpois que contra os deſcendentes,

Da eſcraua Agar, victorias grandes teue,

Ganhando muitas terras adjacentes,

Fazendo o que a ſeu forte peito deue.

Em premio destes feitos excellentes,

Deulhe o ſupremo Deos, em tempo breue,

Hum filho, que illuſtraſſe o nome vfano

Do belicoſo Reino Luſitano.

Ia tinha vindo Anrique da conquista,

Da cidade Hyeroſolima ſagrada,

E do Iordão a area tinha vista,

Que vio de Deos a carne em ſi lauada,

Que não tendo Gotfredo a quem reſiſta,

Depois de ter Iudea ſojugada.

Muitos que nestas guerras o ajudárão,

Pera ſeus ſenhorios ſe tornàrão.

Quando chegado ao fim de ſua idade,

O forte & famoſo Vngaro estremado,

Forçado da fatal neceſsidade,

O ſpirito deu, a quem lho tinha dado:

Ficaua o filho em tenra mocidade,

Em quem o pay deixaua ſeu traſlado:

Que do Mundo os mais fortes igualaua,

Que de tal pay tal filho ſe eſperaua.

Mas o velho rumor, não ſey ſe errado,

Que em tanta antiguidade não ha certeza,

Conta que a mãy tomando todo o eſtado

Do ſegundo Hymeneo, não ſe despreza:

O filho orfão deixaua deſerdado,

Dizendo que nas terras, a grandeza

Do ſenhorio todo, ſo ſua era,

Porque pera caſar ſeu pay lhas dera.

Mas o Principe Affonſo, que deſta arte

Se chamaua, do Auô tomando o nome,

Vendoſe em ſuas terras não ter parte,

Que a mãy com ſeu marido as mãda & come,

Feruendo lhe no peito o duro Marte,

Imagina conſigo como as tome.

Reuoluidas as cauſas no conceito,

Ao propoſito firme ſegue o effeito.

De Guimarães o campo ſe tingia,

Co ſangue proprio da intestina guerra,

Onde a mãy que tam pouco o perecia,

A ſeu filho negaua o amor, & a terra,

Co elle posta em campo ja ſe via,

E não ve a ſoberba, o muito que erra.

Contra Deos, contra o maternal amor:

Mas nella o ſenſual era maior.

O Progne crua, o magica Medea,

Se em voſſos proprios filhos vos vingais

Da maldade dos pais, da culpa alheia,

Olhay que inda Tereſa peca mais:

Incontinencia ma, cubiça fea,

São as cauſas deste erro principais.

Scilla por hũa mata o velho pay,

Eſta por ambas, contra o filho vay.

Mas ja o Principe claro, o vencimento,

Do padrasto & da inica mãy leuaua,

Ia lhe obedece a terra num momento,

Que primeiro contra elle pelejaua.

Porem vencido de Ira o entendimento,

A mãy em ferros aſperos ataua:

Mas de Deos foi vingada em tempo breue,

Tanta veneração aos pais ſe deue.

Eis ſe ajunta o ſoberbo Castelhano,

Pera vingar a injuria de Tereja,

Contra o tam raro em gente Luſitano,

A quem nenhum trabalho agraua, ou peſa:

Em batalha cruel, o peito humano,

Ajudado da Angelica defeſa.

Não ſo contra tal furia ſe ſuſtenta:

Mas o inimigo aſperrimo affugenta.

Não paſſa muito tempo, quando o forte

Principe, em Guimarães eſta cercado,

De infinito poder, que deſta ſorte,

Foy refazerſe o immigo magoado:

Mas com ſe offerecer aa dura morte,

O fiel Egas amo, foy liurado.

Que de outra arte podêra ſer perdido,

Segundo estaua mal aperçebido.

Mas o leal vaſſallo conhecendo,

Que ſeu ſenhor não tinha reſiſtencia,

Se vay ao Caſtelhano, prometendo,

Que elle faria darlhe obediencia.

Leuanta o inimigo o cerco horrendo,

Fiado na promeſſa, & conſciencia

De Egas moniz mas não conſente o peito

Do moço illuſlre, a outrem ſer ſogeito.

Chegado tinha o prazo prometido,

Em que o Rei Castelhano ja agoardaua,

Que o Principe a ſeu mando ſometido,

Lhe deſſe a obediencia que eſperaua.

Vendo Egas, que ficaua fementido,

O que delle Caſtella não cuydaua,

Determina de dar a doçe vida,

A troco da palaura mal comprida.

E com ſeus filhos & molher ſe parte,

A aleuantar co elles a fiança,

Deſcalços, & deſpidos, de tal arte,

Que mais moue a piedade que a vingança.

Se pretendes Rei alto de vingarte,

De minha temeraria confiança,

Dizia, eis aqui venho offerecido,

A te pagar co a vida o prometido.

Ves aqui trago as vidas inocentes,

Dos filhos ſem peccado, & da conſorte,

Se a peitos generoſos, & excellentes,

Dos fracos ſatisfaz a fera morte.

Ves aqui as mãos, & a lingoa delinquentes,

Nellas ſos exprimenta, toda ſorte

De tormentos, de mortes, pelo eſtillo

De Scinis, & do touro de Perillo.

Qual diante do algoz o condenado,

Que ja na vido a morte tem bebido,

Poem no çepo a garganta: & ja entregado,

Eſpera pelo golpe tam temido:

Tal diante do Principe indinado,

Egas eſtaua a tudo offerecido:

Mas o Rei vendo a eſtranha lealdade,

Mais pode em fim que a Ira a Piedade.

O grão fidelidade Portugueſa,

De vaſſallo, que a tanto ſe obrigaua,

Que mais o Perſa fez naquella empreſa,

Onde roſto & narizes ſe cortaua,

Do que ao grande Dario tanto peſa,

Que mil vezes dizendo ſuspiraua.

Que mais o ſeu Zopiro ſão prezâra,

Que vinte Babilonias que tomàra

Mas ja o Principe Affonſo aparelhaua,

O Luſitano exercito ditoſo,

Contra o Mouro que as terras habitaua,

Dalem do claro Tejo deleitoſo:

Ia no campo de Ourique ſe aſſentaua,

O arraial ſoberbo, & belicoſo:

Defronte do inimigo Sarraceno,

Poſto que em força, & gente tam pequeno.

Em nenhũa outra couſa confiado,

Senão no ſummo Deos, que o Ceo regia,

Que tam pouco era o pouo bautizado,

Que pera hum ſo cem Mouros aueria.

Iulga qualquer juyzo ſoſſegado,

Por mais temeridade que ouſadia,

Cometer hum tamanho ajuntamento,

Que pera hum caualleiro ouueſſe cento.

Cinco Reis Mouros ſam os inimigos,

Dos quaes o principal Ismar ſe chama,

Todos exprimentados nos perigos

Da guerra, onde ſe alcança a illuſtre fama:

Seguem guerreiras Damas ſeus amigos,

Imitando a fermoſa & forte Dama,

De quem tanto os Troyanos ſe ajudârão,

E as que o Termodonte ja goſtârão.

A matutina luz ſerena, & fria,

As Estrellas do Pollo ja apartaua,

Quando na Cruz o Filho de Maria,

Amoſtrando ſe a Affonſo o animaua:

Elle adorando quem lhe aparecia,

Na Fê todo inflamado aſsi gritaua.

Aos infieis Senhor, aos infieis,

E não a my que creio o que podeis.

Com tal milagre, os animos da gente

Portugueſa, inflamados leuantauão,

Por ſeu Rei natural, eſte excelente

Principe, que do peito tanto amauão:

E diante do exercito potente,

Dos imigos, gritando o ceo tocauão:

Dizendo em alta voz, real, real,

Por Affonſo alto Rei de Portugal.

Qoal cos gritos & vozes incitado,

Pola montanha o rabido Moloſo,

Contra o Touro remete, que fiado

Na força eſtà do corno temeroſo:

Ora pega na orelha, ora no lado,

Latindo mais ligeiro que forçoſo,

Ate que em fim rompendolhe a garganta,

Do brauo a força horrenda ſe quebranta.

Tal do Rei nouo, o eſtamago acendido,

Por Deos & polo pouo juntamente,

O barbaro comete apercebido,

Co animoſo exercito rompente:

Leuantão nisto os perros o alarido

Dos gritos, tocam a arma, ſerue a gente,

As lanças & arcos tomão, tubas ſoão,

Inſtromentos de guerra tudo atroão.

Bem como quando a flama que ateada,

Foi nos aridos campos (aſoprando

O ſibilante Boreas) animada

Co vento, o ſeco mato vay queimando:

A paſtoral companha, que deitada,

Co doçe ſono estaua, deſpertando,

Ao eſtridor do fogo que ſe atea,

Recolhe o fato, & ſoge pera a aldea.

Deſta arte o Mouro atonito & toruado,

Toma ſem tento as armas muy depreſſa,

Não foge: mas eſpera confiado,

E o ginete belligero arremeſſa:

O Portugues o encontra denodado,

Pelos peitos as lanças lhe atraueſſa.

Hũs caem meios mortos, & outros vão

A ajuda conuocando do Alcorão.

Ali ſe vem encontros temeroſos,

Pera ſe desfazer hũa alta ſerra,

E os animais correndo furioſos,

Que Neptuno amoſtrou ferindo a terra:

Golpes ſe dão medonhos, & forçoſos,

Por toda a parte andaua aceſa a guerra:

Mas o de Luſo, arnes, couraça & malha,

Rompe, corta, desfaz, a bola & talha.

Cabeças pelo campo vão ſaltando,

Braços, pernas, ſem dono & ſem ſentido,

E doutros as entranhas palpitando,

Palida a cor, o geſto amortecido:

Ia perde o campo o exercito nefando,

Correm rios do ſangue deſparzido

Com que tambem do campo a cor ſe perde

Tornado Carmeſi de branco & verde.

Ia fica vencedor o Luſitano

Recolhendo os trofeos & preſa rica,

Desbaratado & roto o Mauro Hispano,

Tres dias o gram Rei no campo fica:

Aqui pinta no branco eſcudo vfano,

Que agora esta victoria certifica:

Cinco escudos azues eſclarecidos,

Em ſinal destes cinco Reis vencidos.

E neſtes cinco eſcudos pinta os trinta

Dinheiros, porque Deos fora vendido,

Eſcreuendo a memoria em varia tinta,

Daquelle de quem foy fauorecido,

Em cada hum dos cinco, cinco pinta,

Porque aſsi fica o numero comprido:

Contando duas vezes o do meio,

Dos cinco azues que em Cruz pintando veio.

Paſſado ja algum tempo, que paſſada

Era esta grão victoria, o Rei ſubido

A tomar vay Leiria, que tomada

Fora muy pouco auia, do vencido:

Com eſta a forte Arronches ſojugada

Foy juntamente: & o ſempre ennobrecido

Scabelicaſtro, cujo campo ameno,

Tu claro Tejo regas tam ſereno.

A eſtas nobres villas ſometidas,

Ajunta tambem Mafra, em pouco eſpaço,

E nas ſerras da Lua conhecidas,

Sojuga a ſria Sintra, o duro braço,

Sintra onde as Naiades eſcondidas

Nas fontes, vão fugindo ao doçe laço:

Onde Amor as enreda brandameme,

Nas agoas acendendo fogo ardente.

E tu nobre Lisboa, que no Mundo,

Facilmente das outras es princeſa,

Que edificada foſte do facundo,

Por cujo engano foy Dardania aceſa:

Tu a quem obedece o Mar profundo,

Obedeceste aa força Portugueſa.

Ajudada tambem da forte armada,

Que das Boreais partes foy mandada.

La do Germanico Albis, & do Reno,

E da fria Bretanha conduzidos,

A destruir o pouo Sarraceno,

Muitos com tenção ſancta erão partidos,

Entrando a bocaja, do Tejo ameno,

Co arrayal do grande Affonſo vnidos.

Cuja alta fama antão ſubia aos ceos,

Foy posto cerco aos muros Vliſſeos.

Cinco vezes a Lũa ſe eſcondêra,

E outras tantas moſtrâra cheio o rosto,

Quando a Cidade entrada ſe rendêra,

Ao duro cerco, que lhe eſtaua poſto.

Foy a batalha tam ſanguina & fera,

Quanto obrigaua o firme proſupoſto:

De vencedores aſperos, & ouſados,

E de vencidos, ja deſesperados.

Deſta arte em fim tomada ſe rendeo,

Aquella que nos tempos ja paſſados

Aa grande força nunca obedeceo,

Dos frios pouos Sciticos ouſados:

Cujo poder a tanto ſe estendeo,

Que o Ibero o vio, & o Tejo amedrontados.

E em fim co Betis tanto algum podêrão,

Que aa terra do Vandalia nome dèrão.

Que cidade tam forte, por ventura

Auera que reſiſta, ſe Lisboa

Não pede reſistir aa força dura

Da gente, cuja fama tanto voa.

Ia lhe obedece toda a Eſtremadura,

Obidos, Alanquer, por onde ſoa

O tom das freſcas agoas, entre as pedras,

Que murmurando laua, & Torres vedras.

E vos tambem, o terras transtaganas,

Affamadas co dom da flaua Ceres,

Obedeceis aas forças mais que humanas,

Entregando lhe os muros, & os poderes.

E tu laurador Mouro, que te enganas,

Se ſustentar a fertil terra queres.

Que Eluas, & Moura, & Serpa conhecidas,

E Alcaçare do ſal, eſtão rendidas.

Eis a nobre Cidade, certo aſſento,

Do rebelde Sertorio antigamente,

Onde ora as agoas nitidas de argento,

Vem ſuſtentar de longo a terra, & a gente,

Pelos arcos reaes, que cento & cento

Nos ares ſe aleuantão nobremente.

Obedeceo, por meio & ouſadia

De Giraldo, que medos não temia.

Ia na cidade Beja vay tomar,

Vingança de Trancoſo deſtruida,

Affonſo que não ſabe ſoſegar,

Por eſtender co a fama a curta vida:

Não ſe lhe pede muito ſustentar

A Cidade: mas ſendo ja rendida,

Em toda a couſa viua, a gente yrada,

Prouando os fios vay da dura eſpada.

Com eſtas ſojugada foy Palmella,

E a piſcoſa Cizimbra, & juntamente,

Sendo ajudado mais de ſua eſtrella,

Desbarata hum exercito potente:

Sentio o a Villa, & vio o a ſerra della,

Que a ſocorrella vinha deligente.

Pela fralda da ſerra deſcuydodo,

Do temeroſo encontro inopinado.

O Rei de Badajoz era alto Mouro,

Com quatro mil cauallos furioſos,

Innumeros piões, darmas & de curo

Guarnecidos, guerreiros & luſtroſos:

Mas qual no mes de Maio o brauo Touro

Cos ciumes da vaca, arreceoſos,

Sentindo gente o bruto, & cego amante

Saltea o deſcuidado caminhante.

Deſta arte Affonſo ſubito moſtrado,

Na gente da, que paſſa bem ſegura,

Fere, mata, derriba denodado,

Foge o Rei Mouro, & ſo da vida cura,

Dum Panico terror todo aſombrado,

So de ſeguillo o exercito procura.

Sendo eſtes que fizerão tanto aballo,

Nomais que ſo ſeſenta de cauallo.

Logo ſegue a victoria ſem tardança,

O grão Rei incanſabil, ajuntando

Gentes de todo o Reino, cuja vſança

Era andar ſempre terras conquiſtando,

Cercar vay Badajoz, & logo alcança

O fim de ſeu deſejo, pelejando

Com tanto esforço & arte, & valentia,

Que a fez fazer aas outras companhia.

Mas o alto Deos, que pera longe guarda,

O caſtigo daquelle que o mereçe,

Ou pera que ſe emmende aas vezes tarda,

Ou por ſegredos que homem não conheçe,

Se ate qui ſempre o forte Rei reſguarda,

Dos perigos a que elle ſe offereçe.

Agora lhe não deixa ter defeſa,

Da maldição da mãy que estaua preſa.

Que eſtando na cidade que cercâra,

Cercado nella foy dos Lioneſes,

Porque a conquiſta della lhe tomâra,

De Lião ſendo, & não dos Portugueſes.

A pertinacia aqui lhe custa cara,

Aſsi como acontece muytas vezes,

Que em ferros quebra as pernas, indo aceſo

Aa batalha onde foy vencido & preſo.

O famoſo Pompeyo não te pene,

De teus feitos illuſtres a ruyna,

Nem ver que a juſta Nemeſis ordene,

Ter teu ſogro de ti victoria dina,

Poſto que o frio Faſis, ou Syene

Que pera nenhum cabo a ſombra inclina:

O Bootes gellado, & a linha ardente,

Temeſſem o teu nome geralmente.

Poſto que a rica Arabia, & que os feroces

Eniocos, & Colcos, cuja fama

O Veo dourado eſtende: & os Capadoçes,

E Iudea, que hum Deos adora & ama,

E que o molles Sofenos, & os Atroces,

Silicios, com a Armenia, que derrama,

As agoas dos dous Rios, cuja fonte

Estâ noutro mais alto & ſancto Monte.

E poſto em fim que deſdo mar de Atlante,

Ate o Scitico Tauro, monte erguido

Ia vencedor te viſſem, não te eſpante

Se o campo Emathio ſo te vio vencido,

Porque Affonſo veras ſoberbo & ouante,

Tudo render, & ſer deſpois rendido.

Aſsi o quis o conſelho alto celeſte,

Que vença o ſogro a ti, & o genro a este.

Tornado o Rei ſublime finalmente,

Do diuino juyzo caſtigado,

Deſpois que em Santarem ſoberbamente,

Em vão dos Sarracenos foy cercado.

E deſpois que do martyre Vicente,

O ſanctiſsimo corpo venerado.

Do ſacro promontorio conhecido,

Aa cidade Vliſſea foy trazido.

Porque leuaſſe auante ſeu deſejo,

Ao forte filho manda o laſſo velho,

Que aas terras ſe paſſaſſe dalentejo,

Com gente, & co beligero aparelho:

Sancho, desforço & danimo ſobejo,

Auante paſſa, & faz correr vermelho,

O rio que Seuilha vay regando,

Co ſangue mauro, barbaro & nefando.

E com eſta victoria cobiçoſo,

Ia não deſcanſa o moço ate que veja,

Outro eſtrago como este, temeroſo

No barbaro que tem cercado Beja.

Não tarda muito o Principe ditoſo,

Sem ver o fim daquillo que deſeja.

Aſsi eſtragado o Mouro, na vingança

De tantas perdas poem ſua eſperança.

Ia ſe ajuntão do monte, a quem Meduſa

O corpo fez perder, que teue o Ceo:

Ia vem do promontorio de Ampeluſa,

E do Tinge que aſſento foy de Anteo.

O morador de Abila não ſe eſcuſa,

Que tambem com ſuas armas ſe moueo:

Ao ſom da Mauritana & ronca tuba,

Todo o Reino que foy do nobre Iuba.

Entraua com toda esta companhia,

O Miralmomini em Portugal

Treze Reis mouros leua de valia,

Entre os quaes tem o ceptro Imperial:

E aſsi fazendo quanto mal podia,

O que em partes podia fazer mal.

Dom Sancho vay cercar em Santarem,

Porem não lhe ſocede muito bem.

Dalhe combates aſperos,fazendo

Ardis de guerra mil, o Mouro yroſo,

Não lhe aproueita ja trabuco horrendo,

Mina ſecreta, Ariete forçoſo:

Porque o filho de Affonſo, não perdendo

Nada do esforço, & acordo generoſo,

Tudo prouê com animo & prudencia,

Que em toda a parte ha esforço & reſiſtencia

Mas o velho a quem tinhão ja obrigado

Os trabalhoſos annos, ao ſoſego,

Eſtando na Cidade, cujo prado

Enuerdecem as agoas do Mondego:

Sabendo como o filho està cercado,

Em Santarem, do Mauro pouo cego,

Se parte diligente da Cidade,

Que não perde a preſteza co a idade.

E co a famoſa gente â guerra vſada,

vay ſocorrer o filho, & aſsi ajuntados,

A Portugueſa furia coſtumada,

Em breue os Mouros tem desbaratados:

A campina que toda eſtà qualhada

De marlotas, capuzes variados,

De cauallos, jaezes, preſa rica,

De ſeus ſenhores mortos chea fica.

Logo todo o reſtante ſe partio

De Luſitania, poſtos em fugida,

O Miralmomini ſo não fogio,

Por que antes de fogir lhe foge a vida,

A quem lhe eſta victoria permitio,

Dão louuores & graças ſem medida:

Que em caſos tão eſtranhos claramente,

Mais peleja o fauor de Deos que a gente.

De tamanhas victorias triumfaua,

O velho Affonſo, Principe ſubido,

Quando quem tudo em fim vencendo andaua,

Da larga, & muita idade foi vencido,

A palida doença lhe tocaua,

Com fria mão o corpo enfraquecido:

E pagàrão ſeus annos deste geito,

Aa triſte Libitina ſeu dereito

Os altos promontorios o chorarão,

E do rios as agoas ſaudoſas,

Os ſemeados campos alagarão,.

Com lagrimas correndo piadoſas:

Mas tanto pelo mundo ſe alargarão

Com fama ſuas obras valeroſas,

Que ſempre no ſeu Reino chamarão,

Affonſo, Affonſo os eccos, mas em vão.

Sancho forte mancebo, que ficàra

Imitando ſeu pay na valentia,

E que em ſua vida ja ſe exprimentâra,

Quando o Betis de ſangue ſe tingia,

E o barbaro poder desbaratâra,

Do Iſmaelita Rei de Andaluzia.

E mais quando os que Beja em vão cercârão.

Os golpes de ſeu braço em ſi prouârão.

Deſpois que foy por Rei aleuantado,

Auendo poucos annos que reinaua,

A cidade de Silues tem cercado,

Cujos campos o barbaro lauraua:

Foy das valentes gentes ajudado,

Da Germanica armada, que paſſaua.

De armas fortes & gente apercebida,

A recobrar Iudea ja perdida.

Paſſauão a ajudar na ſancta empreſa,

O roxo Federico, que moueo

O pederoſo exercito, em defeſa

Da cidade onde Christo padeceo,

Quando Guido co a gente em ſede aceſa,

Ao grande Saladino ſe rendeo:

No lugar onde aos Mouros ſobejauão,

As agoas que os de guido deſejauão.

Mas a fermoſa armada, que viera

Por contraste de vento, aaquella parte

Sancho quis ajudar na guerra fera,

Ia que em ſeruiço vay, do ſancto Marte

Aſsi como a ſeu pay acontecèra,

Quando tomou Lisboa, da meſma arte,

Do Germano ajudado Silues toma,

E o brauo morador deſtrue & doma.

E ſe tantos tropheos do Mahometa,

Aleuantando vay tambem do forte

Liones, não conſente eſtar quieta

A terra vſada aos caſos de Mauorte:

Ate que na ceruiz ſeu jugo meta

Da ſoberba Tui, que a mesma ſorte,

Veo ter a muitas villas ſuas vizinhas,

Que por armas tu Sancho humildes tinhas.

Mas entre tantas palmas ſalteado

Da temeroſa morte, fica erdeiro,

Hum filho ſeu de todos estimado,

Que foy ſegundo Affonſo, & Rei terceiro

No tempo deſte, aos Mauros foi tomado

Alcaçere do ſal por derradeiro:

Por que dantes os Mouros o tomarão,

Mas agora eſtruidos o pagarão.

Morto despois Affonſo lhe ſucede

Sancho ſegundo, manſo & deſcuidado,

Que tanto em ſeus deſcuidos ſe deſmede,

Que de outrem quẽ mandaua era mandado,

De gouernar o Reino que outro pede,

Por cauſa dos priuados foi priuado,

Porque como por elles ſe regia,

Em todos os ſeus vicios conſentia.

Não era Sancho não tam deſoneſto,

Como Nero, que hum moço recebia

Por molher, & deſpois horrendo incesto,

Com a mãy Agripina cometia:

Nem tam cruel aas gentes & moleſto,

Que a cidade queimaſſe onde viuia,

Nem tam mao como foi Hedio gabàlo,

Nem como o mole Rei Sardanapâlo.

Nem era o pouo ſeu tiranizado,

Como Sicilia foy de ſeus tiranos,

Nem tinha como Phalaris achado,

Genero de tormentos inhumanos:

Mas o Reino de altiuo, & coſtumado

A ſenhores em tudo ſoberanos.

A Rei não obedece, nem conſente,

Que não for mais que todos excellente.

Por eſta cauſa o Reino gouernou,

O Conde Bolonhes, deſpois alçado

Por Rei, quando da vida ſe apartou,

Seu yrmão Sancho, ſempre ao ocio dado

Eſte que Affonſo o brauo ſe chamou,

Despois de ter o Reino ſegurado:

Em dilatalo cuida, que em terreno

Não cabe o altiuo peito tam pequeno.

Da terra dos Algarues, que lhe fora

Em caſamento dada, grande parte,

Recupêra co braço, & deita fora

O Mouro mal querido ja de Marte:

Este de todofez liure & ſenhora

Luſitania,com força & bellica arte:

E acabou de oprimir a nação forte,

Na terra que aos de Luſo coube em ſorte.

Eis deſpois vem Dinis, que bem pareçe,

Do brauo Affonſo eſtirpe nobre & dina,

Com quem a fama grande ſe eſcureçe,

Da liberalidade Alexandrina.

Co este o Reino proſpero floreçe,

(Alcançada ja a paz aurea diuina)

Em constituições, leis & costumes,

Na terra ja tranquila claros lumes.

Fez primeiro em Coimbra exercitarſe,

O valeroſo officio de Minerua,

E de Helicona as Muſas fez paſſarſe,

A piſar de Mondego a fertil erua:

Quanto pode de Athenas deſejarſe,

Tudo o ſoberbo Apolo aqui reſerua.

Aqui as capellas da tecidas de ouro,

Do Bacaro, & do ſempre verde louro.

Nobres villas de nouo edificou,

Fortalezas, caſtellos muy ſeguros,

E quaſi o Reino todo reformou,

Com edificios grandes, & altos muros:

Mas deſpois que a dura Atropos cortou,

O fio de ſeus dias ja maduros:

Ficoulhe o filho pouco obediente,

Quarto Affonſo: mas forte & excelẽte:

Eſte ſempre as ſoberbas Caſtelhanas,

Co peito deſprezou firme & ſereno,

Porque não he das ſorças Luſitanas,

Temer poder maior, por mais pequeno

Mas porem quando as gentes Mauritanas,

A poſſuir o Eſperico terreno.,

Entrarão pelas terras de Caſtella,

Foy o ſoberbo Affonſo a ſocorrella.

Nunca com Semirâmis, gente tanta

Veio ôs campos Ydaſpicos enchendo,

Nem Atila, que Italia toda eſpanta,

Chamandoſe de Deos açoute horrendo.

Gottica gente trouxe tanta, quanta

Do Sarraceno barbaro eſtupendo,

Co poder exceſsiuo de Granada,

Foy nos campos Tarteſios ajuntada.

E vendo o Rei ſublime Caſtelhano,

A forca inexpugnabil, grande & forte,

Temendo mais o fim do pouo Hispano,

Ia perdido hũa vez, que a propria morte

Pedindo ajuda ao forte Luſitano,

Lhe mandaua a cariſsima conſorte,

Molher de quem a manda, & filha amada

Daquelle a cujo Reino foi mandada.

Entraua a fermoſiſsima Maria,

Polos paternais paços ſublimados,

Lindo o geſto: mas fora de alegria,

E ſeus olhos em lagrimas banhados,

Os cabellos Angelicos trazia,

Pelos eburneos hombros eſpalhados:

Diante do Pay ledo, que a agaſalha,

Estas palauras tais chorando eſpalha.

Quantos pouos a terra produzio

De Africa toda gente fera & estranha,

O grão Rei de Marrocos conduzio

Pera vir poſſuir a nobre Eſpanha:

Poder tamanho junto não ſe vio,

Despois que o ſalſo Mar a terra banha.

Trazem ferocidade, & furor tanto,

Que a viuos medo, & a mortos faz eſpanto.

Aquelle que me deſte por marido,

Por defender ſua terra amedrontada,

Co pequeno poder, offerecido

Ao duro golpe eſtà, da Maura eſpada,

E ſe não for contigo ſocorrido,

Verme as delle & do Reino ſer priuada,

Viuua & triſte, & posta em vida eſcura,

Sem marido, ſem Reino, & ſem ventura.

Por tanto, ô Rei, de quem com puro medo,

O corrente Muluca ſe congella,

Rompe toda a tardança, acude cedo,

Aa miſeranda gente de Caſtella.

Se eſſe gesto que moſtras claro & ledo,

De pay o verdadeiro amor aſſella:

Acude & corre pay, que ſe não corres,

Pode ſer que não aches quem ſocorres.

Não de outra ſorte a timida Maria

Falando eſtá, que a triſte Venus, quando

A Iupiter ſeu pay fauor pedia,

Pera Eneas ſeu filho, nauegando,

Que a tanta piedade o comouia,

Que caido das mãos o rayo infando.

Tudo o clemente Padre lhe concede,

Peſandolhe do pouco que lhe pede.

Mas ja cos eſquadrões da gente armada,

Os Eborenſes campos vão qualhados,

Luſtra co Sol o arnes, a lança, a eſpada,

Vão rinchando os cauallos jaezados:

A canora trombeta embandeirada

Os corações aa paz acoſtumados:

Vay às fulgentes armas incitando

Polas concauidades retumbando.

Entre todos no meio ſe ſublima,

Das inſignias Reais acompanhado,

O vaſeroſo Affonſo, que por cima

De todos, leua o collo aleuantado,

E ſomente co geſto esforça & anima,

A qualquer coração amedrontado.

Aſsi entra nas terras de Castella,

Com a filha gentil Rainha della.

Iuntos os dous Affonſos finalmente,

Nos campos de Tarifa, eſtão defronte

Da grande multidão da cega gente,

Pera quem ſam pequenos campo & monte.

Não ha peito tão alto & tam potente,

Que de deſconfiança não ſe afronte,

Em quanto não conheça, & claro veja,

Que co braço dos ſeus Chriſto peleja.

Eſtão do Agar os netos caſi rindo,

Do poder dos Chrisſtãos fraco & pequeno,

As terras como ſuas repartindo,

Ante mão, entre o exercito Agareno:

Que com titulo falſo poſſuindo

Eſtà o famoſo nome Sarraceno.

Aſsi tambem com falſa conta & nua,

Aa nobre terra alhea chamão ſua.

Qual o membrudo & barbaro Gigante,

Do Rei Saul, com cauſa tam temido,

Vendo o Paſtor inorme eſtar diante,

So de pedras & esforço apercebido,

Com palauras ſoberbas o arrogante,

Despreza o fraco moço mal veſtido:

Que rodeando a funda o deſengana,

Quanto mais pode a Fê que a força humana.

Desta arte o Mouro perfido deſpreza,

O poder dos Christãos, & não entende,

Que eſtà ajudado da alta fortaleza,

A quem o Inferno horrifico ſe rende.

Co ella o Castelhano, & com deſtreza,

De Marrocos o Rei comete & offende.

O Portugues que tudo eſtima em nada,

Se faz temer ao Reino de Granada.

Eis as lanças & eſpadas retenião,

Por cima dos arneſes, brauo eſtrago,

Chamão (ſegundo as leis que ali ſeguião,)

Hũs Mafamede, & os outros Sanctiago,

Os feridos com grita o Ceo ferião,

Fazendo de ſeu ſangue bruto lago,

Onde outros meios mortos ſe afogauão,

Quando do ferro as vidas eſcapauão.

Com esforço tamanho eſtrue & mata,

O Luſo ao Granadil, que em pouco eſpaço,

Totalmente o poder lhe desbarata,

Sem lhe valer defeſa, ou peito de aço:

De alcançar tal victoria tam barata,

Inda não bem contente o forte braço,

Vay ajudar ao brauo Caſtelhano,

Que pelejando eſtà co Mauritano.

Ia ſe hia o Sol ardente recolhendo,

Pera a caſa de Thetis, & inclinado,

Pera o Ponente o veſpero trazendo,

Estaua o claro dia memorado,

Quando o poder do Mauro grande & horẽdo

Foi pelos fortes Reis desbaratado,

Com tanta mortindade, que a memoria,

Nunca no mundo vio tam gram victoria.

Não matou a quarta parte o forte Mario,

Dos que morrerão neſte vencimento,

Quando as agoas co ſangue do aduerſario,

Fez beber ao exercito ſedento,

Nem o Peno aſperiſsimo contrario,

Do Romano poder de naſcimento:

Quando tantos matou da illustre Roma,

Que alqueires tres de aneis dos mortos toma.

E ſe tu tantas almas ſo podeſte,

Mandor ao Reino eſcuro de Cocito,

Quando a ſancta Cidade desfizeſte

Do pouo pertinaz no antigo rito:

Permiſſam & vingança foy celeſte,

E não força de braço, o nobre Tito,

Que aſsi dos Vates foy profetizado,

E despois por I E S V certificado.

Paſſada eſta tão prospera victoria,

Tornado Affonſo aa Luſitana terra,

A ſe lograr da paz com tanta gloria,

Quanta ſoube ganhar na dura guerra,

O caſo triste & dino da memoria,

Que do ſepulchro os homẽs deſenterra,

Aconteceo da miſera, & mezquinha

Que deſpois de ſer morta foy Rainha.

Tu ſo, tu puro Amor com força crua,

Que os corações humanos tanto obriga,

Deſte cauſa aa moleſta morte ſua,

Como ſe fora perfida inimiga:

Se dizem fero Amor que a ſede tua,

Nem com lagrimas triſtes ſe mitiga:

E porque queres aſpero & tirano

Tuas aras banhar em ſangue humano.

Eſtauas linda Ines poſta em ſoſego

De teus annos, colhendo doçe fructo,

Naquelle engano da alma, ledo & cego,

Que a fortuna não deixa durar muito,

Nos ſaudoſos campos do Mondego,

De teus fermoſos olhos nunca enxuto,

Aos montes inſinando, & âs eruinhas

O nome que no peito eſcripto tinhas.

Do teu Principe ali te reſpondião,

As lembranças que na alma lhe morauão,

Que ſempre ante ſeus olhos te trazião,

Quando dos teus fermoſos ſe apartauão

De noite em doçes ſonhos, que mentião,

De dia em penſamentos que voauão.

E quanto em fim cuidaua, & quanto via,

Eram tudo memorias de alegria.

De outras bellas ſenhoras, & Princeſas,

Os deſejados tâlamos engeita,

Que tudo em fim, tu puro amor desprezas,

Quando hum gesto ſuaue te ſogeita:

Vendo estas namoradas eſtranhezas,

O velho pay ſeſudo, que reſpeita

O murmurar do pouo, & a fantaſia

Do filho, que caſarſe não queria.

Tirar Ines ao mundo determina,

Por lhe tirar o filho que tem preſo,

Crendo co ſangue ſô da morte indina,

Matar do firme amor o fogo aceſo:

Que furor conſentio, que a eſpada fina,

Que pode ſustentar o grande peſo

Do furor Mauro, foſſe aleuantada,

Contra hũa fraca dama delicada?

Trazião a os horrificos algozes,

Ante o Rei, ja mouido a piedade:

Mas o pouo com falſas, & ferozes

Razões, aa morte crua o perſuade:

Ella com tristes & piedoſas vozes,

Saidas ſô da magoa, & ſaudade

Do ſeu Principe, & filhos que deixaua,

Que mais que a propria morte a magoaua.

Pera o Ceo criſtalino aleuantando,

Com lagrimas os olhos piedoſos,

Os olhos, porque as mãos lhe eſtaua atando,

Hum dos duros miniſtros riguroſos.

E deſpois nos mininos atentando,

Que tam queridos tinha, & tam mimoſos,

Cuja orfindade como mãy temia,

Pera o auô cruel aſsi dizia.

Se ja nas brutas feras, cuja mente

Natura fez cruel de naſcimento,

E nas aues agreſtes, que ſomente

Nas rapinas aerias tem o intento,

Com pequenas crianças vio a gente,

Terem tam piadoſo ſentimento,

Como co a mãy de Nino ja moſtrârão,

E cos yrmãos que Roma edificàrão.

O tu que tẽs de humano o geſto & o peito

(Se de humano he, matar hũa donzella

Fraca & ſem força, ſo por ter ſubjeito

O coração, a quem ſoube vencella)

A eſtas criançinhas tem reſpeito,

Pois o não tẽs aa morte eſcura della,

Mouate a piedade ſua & minha,

Pois te não moue a culpa que não tinha.

E ſe vencendo a Maura reſiſtencia,

A morte ſabes dar com fogo & ferro,

Sabe tambem dar vida com clemencia,

A quem pera perdela não fez erro:

Mas ſe to aſsi merece eſta inocencia,

Poem me em perpetuo & miſero deſterro,

Na Scitia fria, ou la na Lybia ardente,

Onde em lagrimas viua eternamente.

Poem me onde ſe vſe toda a feridade,

Entre Liões, & Tigres, & verey

Se nelles achar poſſo a piedade

Que entre peitos humanos não achey:

Ali co amor intrinſeco & vontade,

Naquelle por quem mouro, criarey

Eſtas reliquias ſuas que aqui viſte,

Que refrigerio ſejão da mãy triste.

Queria perdoarlhe o Rei benigno,

Mouido das palauras que o magoão:

Mas o pertinaz pouo, & ſeu deſtino

(Que deſta ſorte o quis) lhe não perdoão,

Arrancão das eſpadas de aço fino,

Os que por bom tal feito ali apregoão,

Contra hũa dama, ô peitos carniceiros

Feros vos amoſtrais, & caualleiros?

Qual contra a linda moça Policena,

Conſolação extrema da mãy velha,

Porque a ſombra de Achiles a condena,

Co ferro o duro Pirro ſe aparelha:

Mas ella os olhos com que o ar ſerena,

(Bem como paciente, & manſa ouelha)

Na miſera mãy postos, que endoudeçe

Ao duro ſacrificio ſe offereçe.

Tais contra Inès os brutos matadores,

No colo de alabaſtro, que ſoſtinha

As obras com que amor matou de amores

Aquelle que despois a fez Rainha:

As eſpadas banhando, & as brancas ſlores,

Que ella dos olhos ſeus regadas tinha,

Se encarniçauão, feruidos & yroſos,

No foturo castigo não cuidoſos.

Bem podêras, ô Sol, da viſta deſtes

Teus rayos apartar aquelle dia,

Como da ſeua meſa de Tyeſtes,

Quando os filhos por mão de Atreu comia.

Vos, ô concauos vales que podeſtes,

A voz extrema ouuir da boca fria,

O nome do ſeu Pedro que lhe ouuistes,

Por muito grande eſpaço repetistes.

Aſsi como a bonina que cortada,

Antes do tempo foy, candida & bella,

Sendo das mãos laciuas mal tratada,

Da minina que a trouxe na capella:

O cheiro traz perdido, & a cor murchada:

Tal eſtà morta a palida donzella,

Secas do roſto as roſas, & perdida

A branca & viua cor, co a doçe vida.

As filhas do Mondego, a morte eſcura

Longo tempo chorando memorarão,

E por memoria eterna em fonte pura

As lagrimas choradas transformarão:

O nome lhe poderão, que inda dura,

Dos amores de Ines que ali paſſarão.

Vede que freſca fonte rega as flores,

Que lagrimas ſam a agoa, & o nome amores

Não correo muito tempo que a vingança

Não viſſe Pedro das mortais feridas,

Que em tomando do Reino a gouernança,

A tomou dos fugidos humicidas:

Do outro Pedro cruiſsimo os alcança,

Que ambos immigos das humanas vidas,

O concerto fizerão duro & injuſto,

Que com Lepido, & Antonio fez Auguſto.

Este castigador foy reguroſo,

De latrocinios, mortes & adulterios,

Fazer nos maos cruezas, fero & yroſo,

Erão os ſeus mais certos refrigerios:

As cidades guardando juſtiçoſo,

De todos os ſoberbos vituperios,

Mais ladrões caſtigando aa morte deu,

Que o vagabundo Alcides, ou Theſeu.

Do juſto & duro Pedro naſce o brando

(Vede da natureza o deſconcerto)

Remiſſo, & ſem cuidado algum Fernando,

Que todo o Reino pos em muito aperto,

Que vindo o Caſtelhano deuastando

As terras ſem defeſa, eſteue perto

De deſtruirſe o Reino totalmente,

Que hum fraco Rei faz fraca a forte gente.

Ou foy caſtigo claro do peccado,

De tirar Lianor a ſeu marido,

E caſar ſe co ella de enleuado,

Num falſo parecer mal entendido:

Ou foy que o coração ſogeito, & dado

Ao vicio vil, de quem ſe vio rendido,

Molle ſe fez, & fraco, & bem parece

Que hum baxo amor os fortes enfraquece.

Do peccado tiuerão ſempre a pena

Muitos, que Deos o quis, & permitio:

Os que forão roubar a bella Elena,

E com Apio tambem Tarquino o vio:

Pois por quem Dauid Sancto ſe condena?

Ou quem o Tribo illuftre deſtruio

De Benjamim? bem claro nolo inſina,

Por Sarra Faraô, Sychem por Dina.

E pois ſe os peitos fortes enfraqueçe,

Hum inconceſſo amor deſatinado,

Bem no filho de Almena ſe pareçe,

Quando em Omfale andaua transformado,

De Marco Antonio a fama ſe eſcureçe,

Com ſer tanto a Cleopatra affeiçoado:

Tu tambem Peno proſpero o ſentiſte,

Deſpois que hũa moça vil na Apulia viste.

Mas quem pode liurarſe por ventura,

Dos laços que amor arma brandamente

Entre as roſas & a neue humana pura,

O ouro, & o alabaſtro transparente

Quem de hũa peregrina fermoſura

De hum vulto de Meduſa propriamente

Que o coração conuerte que tem preſo,

Em pedra não: mas em deſejo aceſo.

Quem vio hum olhar ſeguro, hum geſto brando,

Hũa ſuaue & Angelica excelencia,

Que em ſi eſtâ ſempre as almas trãformãdo

Que tiueſſe contra ella reſiſtencia:

Deſculpado por certo estâ Fernando,

Pera quem tem de amor experencia:

Mas antes tendo liure a fantaſia,

Por muyto mais culpado o julgaria.

Fim.

❧ Canto Quarto.

Deſpois de procello

ſa tempestade,

Nocturna ſombra, & ſibilante

vento,

Traz a manhaã ſerena claridade,

Eſperança de porto, & ſaluamento:

Aparta o Sol a negra eſcuridade,

Remouendo o temor ao penſamento:

Aſsi no Reino forte aconteceo,

Deſpois que o Rei Fernando ſalleçeo.

Porque ſe muito os noſſos deſejarão,

Quem os danos & offenſas va vingando,

Naquelles que tãbem ſe aproueitârão,

Do deſcuido remiſſo de Fernando,

Deſpois de pouco tempo o alcançârão,

Ioanne ſempre illuſtre aleuantando

Por Rei, como de Pedro vnico erdeiro

(Ainda que bastardo) verdadeiro.

Ser iſto ordenação dos ceos diuina,

Por ſinais muito claros ſe moſtrou

Quando em Euora a voz de hũa minina,

Ante tempo falando o nomeou:

E como couſa em fim que o Ceo destina,

No berço o corpo, & a voz aleuantou,

Portugal, Portugal, alçando a mão

Diſſe, polo Rei nouo Dom Ioão.

Alteradas então do Reino as gentes,

Co odio que occupado os peitos tinha,

Abſolutas cruezas, & euidentes

Faz do pouo o furor por onde vinha,

Matando vão amigos & parentes,

Do adultero Conde, & da Rainha,

Com quem ſua incontinencia deſoneſta

Mais (despois de viuua) manifeſta.

Mas elle em fim com cauſa deſonrado,

Diante della a ferro frio morre,

De outros muitos na morte acompanhado

Que tudo o fogo erguido queima & corre:

Quem como Astianas precipitado

(Sem lhe valerem ordẽs) de alta torre

A quem ordẽs, nem aras, nem reſpeito,

Quem nu por ruas & em pedaços feito.

Podẽſe por em longo eſquecimento,

As cruezas mortais que Roma vio

Feitas do feroz Mario, & do cruento

Syla, quando o contrario lhe fogio:

Por iſſo Lianor, que o ſentimento

Do morto Conde ao mundo deſcobrio,

Faz contra Luſitania vir Caſtella,

Dizendo ſer ſua filha herdeira della.

Beatriz era a filha, que caſada

Co Caſtelhano eſtà, que o Reino pede,

Por filha de Fernando reputada,

Se a corrompida fama lho concede.

Com esta voz Caſtella aleuantada,

Dizendo que eſta filha ao pay ſucede:

Suas forças ajunta pera as guerras

De varias regiões & varias terras.

Vem de toda a prouincia que de hum Brigo,

(Se foy) ja teue o nome diriuado

Das terras que Fernando, & que Rodrigo

Ganharão do tirano & Mauro eſtado:

Não eſtimão das armas o perigo,

Os que cortando vão co duro arado

Os campos Lioneſes, cuja gente,

Cos Mouros foi nas armas excellente.

Os Vandalos, na antiga valentia

Ainda confiados,ſe ajuntauão

Da cabeça de toda Andaluzia,

Que do Goadalquibir as agoas lauão,

A nobre Ilha tambem ſe apercebia,

Que antigamente os Tirios habitauão:

Trazendo por inſignias verdadeiras

As Herculeas colunas nas bandeiras.

Tambem vem la do Reino de Toledo,

Cidade nobre & antiga, a quem cercando

O Tejo em torno vay ſuaue & ledo,

Que das ſerras de Conca vem manando:

A vos outros tambem não tolhe o medo,

O ſordidos Galegos, duro bando,

Que pera reſistirdes, vos armastes,

Aaquelles, cujos golpes ja prouastes.

Tambem mouem da guerra as negrasfurias,

A gente Bizcainha, que careçe

De polidas razões, & que as injurias

Muito mal dos estranhos compadeçe:

A terra de Guipuſcua, & das Aſturias

Que com minas de ferro ſe ennobreçe,

Armou delle, os ſoberbos matadores,

Pera ajudar na guerra a ſeus ſenhores.

Ioane, a quem do peito o eforço creçe,

Como a Sariſam Hebreo da guedelha,

Poſto que tudo pouco lhe pareçe

Cos poucos de ſeu Reino ſe aparelha,

E não porque conſelho lhe faleçe,

Cos principaes ſenhores ſe aconſelha:

Mas ſo por ver das gentes as ſentenças,

Que ſempre ouue entre muitos diferenças.

Não falta com razões quem deſconcerte,

Da opinião de todos, na vontade,

Em quem o esforço antigo ſe conuerte,

Em deſuſada & ma deſlealdade,

Podendo o temor mais, gelado, inerte

Que a propria & natural fidelidade,

Negão o Rei & a patria, & ſe conuem

Negarão (como Pedro) o Deos que tem.

Mas nunca foy que eſte erro ſe ſentiſſe,

No forte dom Nuno aluerez: mas antes

Poſto que em ſeus Irmãos tão claro o viſſe,

Reprouando as vontades incoſtantes:

A aquellas duuidoſas gentes diſſe,

Com palauras mais duras que elegantes,

A mão na eſpada irado, & não facundo,

Ameaçando a terra, o mar, & o mundo.

Como da gente illuſtre Portugueſa,

Ha de auer quem refuſe o patrio Marte?

Como, deſta prouincia que princeſa

Foy das gentes na guerra em toda parte,

Ha de ſair quem negue ter defeſa,

Quem negue a Fe, o amor, o esforço & arte

De Portugues, & por nenhum reſpeito

O proprio Reino queira ver ſogeito?

Como, não ſois vos inda os deſcendentes

Daquelles, que debaixo da bandeira,

Do grande Enriquez, feros & valentes

Venceſtes eſta gente tam guerreira?

Quando tantas bandeiras, tantas gentes

Poſeram em fugida, de maneira,

Que ſete illuſtres Condes lhe trouxerão

Preſos, afora a preſa que tiuerão?

Com quem forão contino ſopeados

Estes, de quem o eſtais agora vos,

Por Dinis & ſeu filho, ſublimados

Se não cos voſſos fortes pais & auôs?

Pois ſe com ſeus deſcuidos, ou peccados,

Fernando em tal fraqueza aſsi vos pos,

Torne vos voſſas forças o Rei nouo,

Se he certo que co Rei ſe muda o pouo.

Rei tendes tal, que ſe o valor tiuerdes

Igual ao Rei que agora aleuantaſtes,

Desbaratareis tudo o que quiſerdes,

Quanto mais a quem ja desbarataſtes:

E ſe com iſto em fim vos não mouerdes,

Do penetrante medo que tomastes,

Atay as mãos a voſſo vão receio,

Que eu ſo reſiſtirey ao jugo alheio.

Eu ſo com meus vaſſalos, & com eſta,

(E dizendo isto arranca mea eſpada)

Defenderey da força dura, & infeſta

A terra nunca de outrem ſojugada,

Em virtude do Rei, da patria meſta,

Da lealdade ja por vos negada,

Vencerey (não ſo eſtes aduerſarios:)

Mas quantos a meu Rei forem contrarios.

Bem como entre os mançebos recolhidos,

Em Camiſio, reliquias ſos de Canas,

Ia pera ſe entregar quaſi mouidos

A fortuna das forças Affricanas:

Cornelio moço os faz, que compelidos

Da ſua eſpada jurem, que as Romanas

Armas, nam deixarão em quanto a vida

Os nam deixar, ou nellas for perdida.

Deſtarte a gente força, & e força Nuno,

Que com lhe ouuir as vltimas razões

Remouem o temor frio importuno,

Que gelados lhe tinha os corações:

Nos animais caualgão de Neptuno,

Brandindo, & volteando arremeſſoẽs,

Vão correndo & gritando a boca aberta,

Viua o famoſo Rei que nos liberta.

Das gentes populares, hũs aprouão

A guerra com que a patria ſe ſoſtinha,

Hũs as armas alimpão & renouão,

Que a ferrugem da paz gaſtadas tinha:

Capaçetes eſtofam, peitos prouão,

Armaſe cada hum como conuinha.

Outros fazem vestidos de mil cores,

Com letras & tenções de ſeus amores.

Com toda esta lustroſa companhia,

Ioanne forte ſae da freſca Abrantes,

Abrantes, que tambem da fonte fria

Do Tejo logra as agoas abundantes:

Os primeiros armigeros regia,

Quem pera reger era os muy poſſantes,

Orientais exercitos, ſem conto,

Com que paſſaua Xerxes o Helesponto.

Dom Nuno Alueres digo, verdadeiro

Açoute de ſoberbos Caſtelhanos,

Como ja o fero Huno o foy primeiro

Pera Eranceſes, pera Italianos,

Outro tambem famoſo caualleiro,

Que a ala dereita tem dos Luſitanos,

Apto pera mandalos, & regelos,

Meu Rodriguez ſe diz de Vaſconcelos.

E da outra ala que a eſta correſponde,

Antão vazquez de Almada he Capitão,

Que deſpois foy de Abranches nobre Conde,

Das gentes vay regendo a ſestra mão,

Logo não retagoarda não ſe eſconde,

Das quinas & caſtellos o pendão,

Com Ioanne Rey forte em toda parte,

Que eſcurecendo o preço vay de Marte.

Eſtauão pelos muros temeroſas,

E de hum alegre medo quaſi frias,

Rezando as mais, irmãs, damas, & eſpoſas

Prometendo jejũs, & romarias:

Ia chegão as eſquadras bellicoſas,

Defronte das imigas companhias,

Que com grita grandiſsima os recebem,

E todas grande duuida concebem.

Respondem as trombetas menſageiras,

Pifaros ſibilantes, & atambores,

Alferezes volteão as bandeiras,

Que variadas ſam de muitas cores:

Era no ſeco tempo, que nas eiras

Ceres o fructo deixa aos lauradores,

Entra em Aſtrea o Sol, no mes de Agoſto,

Baco das vuas tira o doçe moſto.

Deu ſinal a trombeta Castelhana,

Horrendo, fero, ingente, & temeroſo,

Ouuio o o monte Artabro, & Guadiana,

A tras tornou as ondas de medroſo:

Ouuio o Douro, & a terra Tranſtagana,

Correo ao mar o Tejo duuidoſo:

E as mãis que o ſom terribil eſcuitârão,

Aos peitos os filhinhos apertârão.

Quantos roſtos ali ſe vem ſem cor,

Que ao coração acode o ſangue amigo,

Que nos perigos grandes, o temor,

He mayor muitas vezes que o perigo,

E ſe o não he, pareçeo, que o furor

De offender, ou vencer o duro immigo,

Faz não ſentir, que he perda grande & rara

Dos membros corporais da vida cara.

Começaſe a trauar a incerta guerra,

De ambas partes ſe moue a primeira ala,

Hũs leua a defenſam da propria terra,

Outros as eſperanças de ganhala:

Logo o grande Pereira em quem ſe encerra

Todo o valor, primeiro ſe aſsinala

Derriba, & encontra, & a terra ẽ fim ſemea

Dos que a tanto deſejão, ſendo alhea.

Ia pelo eſpeſſo ar, os eſtridentes

Farpões, ſetas, & varios tiros voão,

Debaxo dos pês duros dos ardentes

Cauallos, treme a terra, os vales ſoão:

Eſpedação ſe as lanças, & as frequentes

Quedas, co as duras armas tudo atroão.

Recreçem os immigos ſobre a pouca

Gente, do fero Nuno que os apouca.

Eis ali ſeus yrmãos contra elle vão,

(Caſo feo & cruel:) mas não ſe eſpanta,

Que menos he querer matar o yrmão,

Quem contra o Rei & a patria ſe aleuanta:

Destes arrenegados muitos ſam,

No primeiro eſquadrão, que ſe adianta,

Contra yrmãos & parentes (caſo eſtranho)

Quaes nas guerras Ciuis de Iuleo Magno.

O tu Sertorio, o nobre Cariolano

Catilina, & vos outros dos antigos,

Que contra voſſas patrias, com profano

Coração, vos fizestes inimigos:

Se lâ no reino eſcuro de Sumano

Receberdes grauiſsimos castigos

Dizeilhe que tambem dos Portugueſes

Algũs tredores ouue algũas vezes.

Rompem ſe aqui dos noſſos os primeiros,

Tantos dos inimigos a elles vão:

Eſta ali Nuno, qual pellos outeiros

De Ceita estâ o fortiſsimo lião

Que cercado ſe ve dos caualleiros

Que os campos vão correr de Tutuão,

Perſeguem no com as lanças, & elle iroſo

Toruado hũ pouco eſtâ, mas não medroſo.

Com torua vista os vê, mas a natura

Ferina, & a yra não lhe compadecem

Que as coſtas dê, mas antes na eſpeſſura

Das lanças ſe arremeſſa, que recrecem:

Tal eſtà o caualeiro que a verdura

Tinge co ſangue alheyo, ali perecem

Algũs dos ſeus, que o animo valente

Perde a virtude contra tanta gente.

Sentio Ioane a afronta que paſſaua

Nuno, que como ſabio capitão,

Tudo corria, & via, & a todos daua

Com preſença & palauras coração:

Qual parida Lioa fera & braua

Que os filhos que no ninho ſôs eſtão

Sentio, que em quanto pasto lhe buſcara,

O paſtor de Maſsilia lhos furtara.

Corre raiuoſa, & freme, & com bramidos

Os montes ſete Irmãos atroa & abala,

Tal Ioane com outros eſcolhidos

Dos ſeus, correndo acode aa primeira ala:

O fortes companheiros, o ſubidos

Caualeyros, a quem nenhum ſe ygoala,

Defendey voſſas terras que a eſperança

Da liberdade, eſtâ na voſſa lança.

Vedes me aqui, Rey voſſo, & companheiro

Que entre as lanças & ſêtas, & os arneſes

Dos inimigos corro, & vou primeiro

Pelejay verdadeiros Portugueſes.

Iſto diſſe o magnanimo guerreyro

E ſopeſando a lança quatro vezes,

Com força tira & deſte vnico tiro

Muytos lançarão o vltimo ſoſpiro,

Porque eis os ſeus aceſos nouamente

Dhũa nobre vergonha & honroſo fogo

Sobre qual mais com animo valente,

Perigos vencerâ, do Marcio jogo

Porfião: tingeo ferro o fogo ardente

Rompem malhas primeiro, & peitos logo

Aſsi recebem junto & dão feridas

Como a quem ja não doe perder as vidas.

A muitos mandão ver o Eſtigio lago

Em cujo corpo a morte, & o ferro entraua

O Meſtre morre ali de Sanctiago

Que fortiſsimamente pelejaua

Morre tambem, fazendo grande eſtrago

Outro Meſtre cruel de Calatraua

Os Pereiras tambem arrenegados

Morrem, arrenegando o Ceo & os fados.

Muitos tambem do vulgo vil ſem nome

Vão, & tambem dos nobres ao profundo

Onde o Trifauce Cão perpetua fome

Tem, das almas que paſſão deſte mundo

E porque mais aqui ſe amanſe & dome

A ſoberba do imigo furibundo,

A ſublime bandeira Caſtelhana

Foy derribada os pês da Luſitana.

Aqui a fera batalha ſe encruece

Com mortes, gritos, ſangue & cutiladas

A multidão da gente que perece

Tem as flores da propria cor mudadas:

Ia as coſtas dão & as vidas: ja falece

O furor, & ſobejão as lançadas,

Ia de Caſtella o Rey desbaratado

Se vee, & de ſeu propoſito mudado.

O campo vay deixando ao vencedor

Contente de lhe não deixar a vida

Seguẽ no os que ficarão, & o temor

Lhe da não pês, mas aſas aa fugida:

Encobrem no profundo peito a dor

Da morte, da fazenda deſpendida,

Da magoa, da deſonra, & triste nojo

De ver outrem triumphar de ſeu deſpojo.

Algũs vão maldizendo & blasfemando

Do primeyro que guerra fez no mundo

Outros a ſede dura vão culpando

Do peito cobiçoſo & ſitibundo:

Que por tomar o alheo, o miſerando

Pouo auentura aas penas do profundo

Deixando tantas mãis, tantas eſpoſas

Sem filhos, ſem maridos deſditoſas.

O vencedor Ioanne eſteue os dias

Coſtumados no campo, em grande gloria

Com offertas deſpois, & romarias

As graças deu a quem lhe deu victoria:

Mas Nuno que não quer por outras vias,

Entre as gentes deixar de ſi memoria

Se não por armas ſempre ſoberanas

Pera as terras ſe paſſa Trãſtaganas.

Ajudao ſeu destino de maneira

Que fez igoal o effeito ao penſamento,

Porque a terra dos Vandalos fronteira

Lhe concede o deſpojo & o vencimento

Ia de Siuilha a Betica bandeira

E de varios ſenhores nũ momento

Se lhe derriba aos pês ſem ter defeſa

Obrigados da força Portugueſa.

Deſtas & outras victorias longamente

Erão os Caſtelhanos opprimidos

Quando a paz deſejada ja da gente

Derão os vencedores aos vencidos:

Deſpois que quis o Padre omnipotente

Dar os Reis inimigos por maridos

Aas duas lllustriſsimas Ingleſas

Gentis, fermoſas, inclitas princeſas.

Não ſofre o peito forte vſado aa guerra

Não ter imigo ja a quem faça dano,

E aſsi não tendo a quem vencer na terra

Vay cometer as ondas do Occeano:

Eſte he o primeiro Rey que ſe deſterra

Da patria, por fazer que o Afrinano,

Conheça pollas armas, quanto excede

A ley de Christo aa ley de Mafamede.

Eis mil nadantes aues pello argento

Da furioſa Tetis inquieta,

Abrindo as pandas aſas vão ao vento

Pera onde Alcides pos a extrema meta:

O monte Abila, & o nobre fundamento

De Ceita toma, & o torpe Mahometa

Deita fora, & ſegura toda Eſpanha

Da Iuliana, mã, & desleal manha.

Não conſentio a morte tantos annos

Que de Heroe tão ditoſo ſe lograſſe

Portugal, mas os coros ſoberanos

Do ceo ſupremo, quis que pouoaſſe:

Mas pera defenſam dos Luſitanos

Deixou quem o leuou, quem gouernaſſe,

E aumentaſſe a terra mais que dantes

Inclita gêração, altos Infantes.

Não foy do Rey Duarte tão ditoſo

O tempo que ficou na ſumma alteza,

Que aſsi vay alternando o tempo iroſo

O bem co mal, o goſto co a tristeza:

Quem vio ſempre hum eſtado deleitoſo?

Ou quem vio em fortuna auer firmeza?

Pois inda neſte Reino, & neſte Rey

Não vſou ella tanto deſta ley.

Vio ſer captiuo o ſancto irmão Fernando

Que a tão altas empreſas aſpiraua

Que por ſaluar o pouo miſerando

Cercado, ao Sarraceno ſentregaua:

Sô por amor da patria eſtâ paſſando

A vida de ſenhora feyta eſcraua,

Por não ſe dar por elle ha forte Ceita

Mais o pubrico bem que o ſeu reſpeita.

Cadro porque o inimigo não venceſſe,

Deixou antes vencer da morte a vida,

Regulo porque a patria não perdeſſe,

Quis mais a liberdade ver perdida:

Eſte porque ſe Eſpanha não temeſſe

A captiueiro eterno ſe conuida:

Codro, nem Curcio, ouuido por eſpanto

Nemos Decios leais fizerão tanto.

Mas Affonſo do Reino vnico herdeiro,

Nome em armas ditoſo, em noſſa Heſperia,

Que a ſoberba do barbaro fronteiro,

Tornou em baxa & humilima miſeria,

Fora por certo inuicto caualleiro,

Se não quiſera yr ver a terra Iberia:

Mas Affrica dira ſer impoſsibil,

Poder ninguem vencer o Rei terribil.

Eſte pode colher as maçãs de ouro,

Que ſamente o Terintio colher pode,

Do jugo que lhe pos o brauo Mouro,

A ceruiz inda agora nam ſacode:

Na fronte a palma leua, & o verde louro,

Das victorias do barbaro, que acode

A defender Alcaçer forte villa,

Tangere populoſo, & a dura Arzilla.

Porem ellas em fim por força entradas,

Os muros abaxarão de Diamante,

Aas Portugueſas forças coſtumadas,

A derribarem quanto achão diante,

Marauilhas em armas eſtremadas,

E de eſcriptura dinas elegante,

Fizerão caualleiros nesta empreſa

Mais, affinando a fama Portugueſa.

Porem deſpois tocado de ambição,

E gloria de mandar amara & bella,

Vay cometer Fernando de Aragão,

Sobre o potente Reino de Caſtella,

Ajuntaſe a inimiga multidão,

Das ſoberbas & varias gentes della,

Deſde Caliz ao alto Perineo,

Que tudo ao Rei Fernando obedeceo.

Não quis ficar nos Reinos occioſo,

O mancebo Ioanne, & logo ordena

De ir ajudar o pay ambicioſo,

Que então lhe foy ajuda não pequena,

Saioſe em fim do trançe perigoſo,

Com fronte não toruada, mas ſerena

Desbaratado o pay ſanguinolento:

Mas ficou duuidoſo o vencimento.

Porque o filho ſublime & ſoberano,

Gentil, forte, animoſo caualleiro,

Nos contrarios fazendo imenſo dano,

Todo hum dia ficou no campo inteiro:

Desta arte foy vencido Octauiano,

E Antonio vencedor ſeu companheiro,

Quando daquelles que Ceſar matârão

Nos Philipicos campos ſe vingârão.

Porem deſpois que a eſcura noite eterna,

Affonſo apouſentou no Ceo ſereno,

O Principe que o Reino então gouerna,

Foy Ioanne ſegundo, & Rei terzeno:

Eſte por auer fama ſempiterna,

Mais do que tentar pode homem terreno

Tentou, que foy buſcar da roxa Aurora

Os terminos, que eu vou buſcando agora.

Manda ſeus menſageiros que paſſarão

Eſpanha, França, Italia celebrada,

E la no illuſtre porto ſe embarcârão,

Onde ja foy Partenope enterrada,

Napoles onde os fados ſe moſtrârão,

Fazendoa a varias gentes ſubjugada,

Pola illuſtrar no fim de tantos annos,

Co ſenhorio de inclitos Hispanos.

Polo mar alto Siculo nauegão,

Vão ſe aas praias de Rodes arenoſas,

E dali aas ribeiras altas chegão,

Que com morte de Magno ſam famoſas:

Vão a Menfis, & aas terras que ſe regão,

Das enchentes Niloticas vndoſas,

Sobem aa Ethiopia, ſobre Egipto,

Que de Christo la guarda o ſancto rito.

Paſſam tambem as ondas Eritreas,

Que o pouo de Iſrael ſem Nao paſſou,

Ficão lhe a tras as ſerras Nabateas,

Que o filho de Ismael co nome ornou:

As coſtas odoriferas Sabeas,

Que a mãy do bello Adonis tanto honrou,

Cercão, com toda a Arabia deſcuberta

Feliz, deixando a Petrea, & a Deſerta.

Entrão no estreito Perſico, onde dura

Da confuſa Babel, inda a memoria,

Ali co Tigre o Eufrates ſe meſtura,

Que as fontes onde naſcem tem por gloria:

Dali vão em demanda da agoa pura,

Que cauſa inda ſera de larga hiſtoria

Do Indo, pellas ondas do Occeano,

Onde nam ſe atreueo paſſar Trajano.

Virão gentes incognitas, & eſtranhas

Da India, da Carmania, & Gedroſia,

Vendo varios costumes, varias manhas

Que cada Região produze & cria:

Mas de vias tão aſperas, tamanhas

Tornarſe facilmente não podia,

La morrerão em fim, & la ficârão.

Que aa deſejada patria não tornârão.

Pareſce que guardaua o claro Ceo

A Monoel, & ſeus merecimentos,

Eſta empreſa tão ardua, que o moueo

A ſubidos & illuſtres mouimentos:

(Manoel, que a Ioane ſocedeo

No reino, & nos altiuos penſamentos)

Logo como tomou do reino cargo

Tomou mais a conquiſta do mar largo.

O qual, como de nobre penſamento

Daquella obrigação, que lhe ficâra

De ſeus antepaſſados, (cujo intento,

Foy ſempre acrecentar a terra chara)

Não deixaſſe de ſer hum ſo momento

Conquiſtado: No tempo que a luz clara

Foge, & as eſtrellas nitidas que ſaem

A repouſo conuidão, quando caem.

Eſtando ja deitado no aureo leito

Onde ymaginações mais certas ſam,

Reuoluendo contino no conceito

De ſeu officio, & ſangue a obrigação,

Os olhos lhe occupou o ſonno acceito

Sem lhe deſoccupar o coração,

Porque tanto que laſſo ſe adormece

Morfeo en varias formas lhe aparece.

Aqui ſe lhe apreſenta que ſubia

Tão alto que tocaua aa prima Eſphera,

Donde diante varios mundos via

Nações de muita gente eſtranha, & fera:

E laa bem junto donde nace o dia

Deſpois que os olhos longos estendera,

Vio de antiguos longinquos & altos montes

Nacerem duas claras & altas fontes.

Aues agrestes, feras & alimarias

Pello monte ſeluatico habitauão,

Mil aruores ſylueſtres & eruas varias

O paſſo & o trato aas gentes atalhauão:

Eſtas duras montanhas aduerſarias

De mais conuerſação, por ſi moſtrauão

Que deſque Adão peccou aos noſſos annos

Não as romperão nunca pês humanos.

Das agoas ſe lhe antolha que ſaião

Por elle os largos paſſos inclinando,

Dous homẽs, que muy velhos parecião

De aſpeito, inda que agreſte, venerando:

Das pontas dos cabellos lhe ſaião

Gotas, que o corpo todo vão banhando,

A cor da pelle baça & denegrida

A barba hirſuta, intonſa, mas comprida.

Dambos de dous a fronte coroada

Ramos não conhecidos & eruas tinha,

Hum delles a preſença traz canſada

Como quem de mais longe ali caminha,

E aſsi a agoa com impito alterada

Parecia que doutra parte vinha,

Bem como Alfeo de Arcadia em Syracuſa

Vay buſcar os abraços de Aretuſa.

Eſte que era o mais graue na peſſoa

Destarte pera o Rey de longe brada,

O tu a cujos reinos & coroa

Grande parte do mundo eſta guardada,

Nos outros, cuja fama tanto voa

Cuja ceruiz bem nunca foy domada,

Te auiſamos que he tempo que ja mandes

A receber de nos tributos grandes.

Eu ſou o illuſtre Ganges, que na terra

Celeſte, tenho o berço verdadeiro,

Estoutro he o Indo Rey, que nesta ſerra

Que vês, ſeu nacimento tem primeiro:

Cuſtartemos com tudo dura guerra,

Mas inſiſtindo tu por derradeiro,

Com não viſtas victorias, ſem receyo

A quantas gentes vês poras o freyo:

Não diſſe mais o rio Illuſtre & ſancto,

Mas ambos deſparecem num momento,

Acorda Emanuel cum nouo eſpanto

E grande alteração de penſamento:

Eſtendeo niſto Febo o claro manto

Pello eſcuro Emiſperio ſomnolento:

Veyo a menham no ceo pintando as côres

De pudibunda roſa & roxas flores.

Chama o Rei os ſenhores a conſelho

E propoẽ lhe as figuras da viſam,

As palauras lhe diz do ſancto velho,

Que a todos forão grande admiração:

Determinão o nautico aparelho

Pera que com ſublime coração

Vaa a gente que mandar cortando os mares

A buſcar nouos climas, nouos ares.

Eu que bem mal cuidaua que em effeito

Se poſeſſe o que o peito me pedia,

Que ſempre grandes couſas deste geito

Preſago o coração me prometia:

Não ſey porque razão, porque reſpeito,

Ou porque bom ſinal que em mi ſe via,

Me poẽ o inclyto Rei nas mãos a chaue

Deſte cometimento grande, & graue.

E com rogo & palauras amoroſas

Que he hũ mando nos Reis que a mais obriga,

Me diſſe: As couſas arduas & lustroſas

Se alcanção com trabalho & com fadiga:

Faz as peſſoas altas & famoſas

A vida que ſe perde & que periga,

Que quando ao medo infame não ſe rende

Então, ſe menos dura, mais ſe eſtende.

Eu vos tenho entre todos eſcolhido

Para hũa empreſa qual a vos ſe deue,

Trabalho illuſtre, duro & eſclareſcido,

O que eu ſey que por mi vos ſera leue:

Não ſofri mais, mas logo: O Rey ſubido,

Auenturarme a ferro, a fogo, a neue,

He tão pouco por vos que mais me pena

Ser eſta vida couſa tão pequena.

Imaginay tamanhas auenturas

Quaes Euriſteo a Alcides inuentaua,

O lião Cleonêo, Arpias duras

O porco de Erimanto, a Ydra braua:

Decer em fim aas ſombras vans & eſcuras

Onde os campos de Dite a Eſtige laua,

Porque a mayor perigo, a môr affronta

Por vos, o Rey, o eſprito & carne he prõpta.

Com merces ſumptuoſas me agardece

E com razoẽs me louua eſta vontade,

Que a virtude louuada viue & crece,

E o louuor altos caſos perſuade:

A acompanharme logo ſe offerece

Obrigado damor & damizade,

Não menos cobiçoſo de honra & fama,

O charo meu Irmão Paulo da Gama.

Mais ſe me ajunta Nicolao Coello

De trabalhos muy grande ſoffredor,

Ambos ſam de valia & de conſelho

Dexperiencia em armas & furor:

Ia de manceba gente me aparelho

Em que crece o deſejo do valer,

Todos de grande esforço, & aſsi parece

Quem a tamanhas couſas ſe offerece.

Forão de Emanoel remunerados,

Porque com mais amor ſe apercebeſſem,

E com palauras altas animados

Pera quantos trabalhos ſoccedeſſem:

Aſsi forão o Mynias ajuntados

Pera que o veo dourado combateſſem,

Na Fatidiça nao, que ouſou primeira

Tentar o mar Euxinio, auentureira.

E ja no porto da inclita Vliſſea

Cum aluoroço nobre, & cum deſejo,

(Onde o licor meſtura & branca area

Co ſalgado Neptuno o doce Tejo:)

As naos preſtes eſtão, & não refrea

Temor nenhum o iuuenil deſpejo,

Porque a gente maritima & a de Marte

Eſtão pera ſeguirme a toda parte.

Pellas prayas vestidos os ſoldados

De varias cores vem, & varias artes,

E não menos de esforço aparelhados

Pera buſcar do mundo nouas partes:

Nas fortes naos os ventos ſoſſegados

Ondeão os aerios estandartes,

Ellas prometem vendo os mares largos

De ſer no Olimpo eſtrellas como a de Argos.

Deſpois de aparelhados deſta ſorte

De quanto tal viagem pede & manda,

Aparelhamos a alma pera a morte

Que ſempre aos nautas ante os olhos anda:

Pera o ſumo poder que a Etherea corte

Soſtenta ſo coa vista veneranda,

Imploramos fauor que nos guiaſſe

E que noſſos começos aſpiraſſe.

Partimonos aſsi do ſancto templo

Que nas Prais do mar eſtâ aſſentado,

Que o nome tem da terra, pera exemplo,

Donde Deos foy em carne ao mundo dado:

Certifico te, o Rey, que ſe contemplo

Como fuy deſtas prayas apartado,

Cheyo dentro de duuida & receyo

Que apenas nos meus olhos ponho o freyo.

A gente da cidade aquelle dia

(Hũs por amigos, outros por parentes,

Outros por ver ſomente) concorria

Saudoſos na viſta & deſcontentes:

E nos coa virtuoſa companhia

De mil religioſos diligentes,

Em prociſſam ſolene a Deos orando

Pera os bateis viemos caminhando.

Em tão longo caminho & duuidoſo

Por perdidos as gentes nos julgauão,

As molheres cum choro piadoſo,

Os homẽs com ſuſpiros que arrancauão:

Mãis, Eſpoſas, Irmãs, que o temeroſo

Amor mais deſconfia, acrecentauão

A deſeſperação, & frio medo

De ja nos não tornar a ver tão cedo.

Qual vay dizendo: O filho a quem eu tinha

So pera refrigerio, & doce emparo

Desta canſada ja velhice minha,

Que em choro acabarâ, penoſo & amaro:

Porque me deixas, miſera & mezquinha?

Porque de mi te vas, o filho charo

A fazer o funereo enterramento

Onde ſejas de pexes mantimento?

Qual em cabello: O doce & amado eſpoſo

Sem quem não quis amor que viuer poſſa,

Porque is auenturar ao mar iroſo

Eſſa vida que he minha, & não he voſſa?

Como por hum caminho duuidoſo

Vos eſquece a afeição tão doce noſſa?

Noſſo amor, noſſo vão contentamento

Quereis que com as vellas leue o vento.

Neſtas & outras palauras que dizião

De amor, & de piadoſa humanidade,

Os velhos & os mininos os ſeguião

Em quem menos esforço poẽ a ydade:

Os montes de mais perto reſpondião

Quaſi mouidos de alta piedade,

A branca area as lagrimas banhauão

Que em multidão co ellas ſe ygoalauão.

Nos outros ſem a vista aleuantarmos

Nem a Mãy, nem a Eſpoſa, neſte eſtado,

Por nos não magoarmos, ou mudarmos

Do prepoſito firme começado:

Determiney de aſsi nos embarcarmos

Sem o deſpedimento custumado,

Que poſto que he de amor vſança boa

Aquem ſe aparta, on fica, mais magoa.

Mas hum velho daſpeito venerando,

Que ficaua nas prayas, entre a gente,

Poſtos em nos os olhos, meneando

Tres vezes a cabeça, deſcontente,

A voz peſada hum pouco aleuantando,

Que nos no mar ouuimos claramente,

Cum ſaber ſo dexperiencias feyto

Tais palauras tirou do experto peito.

O gloria de mandar, o vaã cubiça

Deſta vaidade, a quem chamamos Fama,

O fraudolento goſto, que ſe atiça

Cũa aura popular, que honra ſe chama:

Que caſtigo tamanho & que juſtiça

fazes no peito vão que muito te ama,

Que mortes, que perigos, que tormentas

Que crueldades nelles eſprimentas.

Dura inquietação dalma & da vida

Fonte de deſemparos & adulterios,

Sagaz conſumidora conhecida

De fazendas, de reinos, & de imperios:

Chamante illuſtre, chamante ſubida,

Sendo dina de infames vituperios,

Chamante Fama, & Gloria ſoberana,

Nomes com quem ſe o pouo neſcio engana.

A que nouos deſaſtres determinas

De leuar estes reynos & eſta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas

Debaixo dalgum nome preminente?

Que promeſſas de reynos, & de minas

Douro, que lhe faras tão facilmente?

Que famas lhe prometeras, que hiſtorias?

Que triumphos, que palmas, que victorias?

Mas ô tu geração daquelle inſano

Cujo peccado & deſobediencia,

Não ſomente do reino ſoberano

Te pos neſte deſterro & triſte auuſencia:

Mas inda doutro estado mais que humano

Da quieta & da ſimpres innocencia,

Idade douro, tanto te priuou

Que na de ferro & darmas te deitou.

Ia que nesta goſtoſa vaidade

Tanto enleuas a leue fantaſia,

Ia que aa bruta crueza & feridade

Poſeste nome esforço & valentia,

Ia que prezas em tanta quantidade

O deſprezo da vida, que deuia

De ſer ſempre eſtimada, pois que ja

Temeo tanto perdella quem a dâ.

Não tens junto com tigo o Iſmaelita

Com quem ſempre teras guerras ſobejas?

Não ſegue elle do Arabio a ley maldita,

Se tu polla de Chriſto ſo pellejas?

Não tem cidades mil, terra infinita,

Se terras & riqueza mais deſejas?

Não he elle por armas esforçado

Se queres por victorias ſer louuado?

Deixas criar aas portas o inimigo

Por yres buſcar outro de tão longe,

Por quem ſe deſpouoe o reino antigo

Se enfraqueça & ſe vaa deitando a longe:

Buſcas o incerto & incognito perigo

Porque a fama te exalte & te liſonge,

Chamando te ſenhor com larga copia

Da India, Perſia, Arabia, & de Ethiopia.

O maldito o primeiro que no mundo

Nas ondas vella pôs en ſeco lenho,

Dino da eterna pena do profundo

Se he juſta a juſta ley que ſigo & tenho:

Nunca juyzo algum alto & profundo,

Nem cythara ſonora, ou viuo engenho,

Te dê por iſſo fama, nem memoria,

Mas comtigo ſe acabe o nome & gloria.

Trouxe o filho de Iapeto do Ceo

O fogo que ajuntou ao peito humano,

Fogo que o mundo em armas accendeo

Em mortes, em deſonras (grande engano)

Quanto milhor nos fora Prometeo,

E quanto pera o mundo menos dano,

Que a tua eſtatua Illuſtre não tiuera

Fogo de altos deſejos, que a mouera.

Não cometera o moço miſerando

O carro alto do pay, nem o âr vazio

O grande Achitector co filho, dando

Hum, nome ao mar, & o outro, fama ao rio:

Nenhum cometimento alto & nefando

Por fogo, ferro, agoa, calma & frio,

Deixa intentado a humana geração:

Miſera ſorte, eſtranha Condição!

F I M.

❧ Canto Quinto.

Eſtas ſentenças tais

o velho honrado

Vociferando eſtaua, quando a-

brimos

As aſas ao ſereno & ſoſſegado

Vento, & do porto amado nos partimos:

E como he ja no mar cuſtume vſado

A vella desfraldando o ceo ferimos,

Dizendo Boa viagem, logo o vento

Nos troncos fez o vſado mouimento.

Entruaa neste tempo o eterno lume,

No animal Nemeyo truculento,

E o mundo que com tempo ſe conſume

Na ſeiſta idade andaua enfermo & lento:

Nella ve, como tinha por coſtume

Curſos do Sol quatorze vezes cento,

Com mais nouenta & ſete, em que corria

quando no mar a armada ſe estendia.

Ia a vista pouco & pouco ſe desterra

Daquelles patrios montes que ficauão,

Ficaua o charo Tejo, & a freſca ſerra

De Sintra, & nella os olhos ſe alongauão:

Ficauanos tambem na amada terra

O coração, que as magoas lâ diyxauão,

E ja deſpois que toda ſe eſcondeo

Não vimos mais em fim que mar & ceo.

Aſsi fomos abrindo aquelles mares

Que geração algũa não abrio,

As nouas Ilhas vendo, & os nouos ares,

Que o generoſo Enrique deſcobrio:

De Mauritania os montes & lugares

Terra que Anteo num tempo poſſuyo,

Deyxando aa mão ezquerda, que aa dereita

Não ha certeza doutra, mas ſoſpeita.

Paſſamos a grande Ilha da madeira

Que do muito aruoredo aſsi ſe chama,

Das que nos pouoamos, a primeira,

Mais celebre por nome, que por fama:

Mas nem por ſer do mundo a derradeira

Se lhe auentajão quantas Venus ama,

Antes ſendo esta ſua ſe eſquecera

De Cypro, Guido, Pafos, & Cythêra.

Deixamos de Maſsilia a eſteril costa

Onde ſeu gado os Azenegues pastão,

Gente que as freſcas agoas nunca goſta

Nem as eruas do campo bem lhe abaſtão:

A terra a nenhum fruto em fim deſpoſta,

Onde as aues no ventre o ferro gastão,

Padecendo de tudo extrema inopia

Que aparta a Barbarîa de Etiopia.

Paſſamos o lemite aonde chega

O Sol, que pera o Norte os carros guia,

Onde jazem os pouos, a quem nega

O filho de Climêne a cor do dia:

Aqui gentes eſtranhas laua & rega

Do negro Sanagâ a corrente fria,

Onde o Cabo Arſinario o nome perde

Chamando ſe dos noſſos Cabo verde.

Paſſadas tendo ja as Canareas ilhas

Que tiuerão por nome Fortunadas,

Entramos nauegando pollas filhas

Do velho Heſperio, Heſperidas chamadas

Terras por onde nouas marauilhas

Andarão vendo jaa noſſas armadas,

Ali tomamos porto com bom vento

Por tomarmos da terra mantimento.

A aquella ilha aportamos, que tomou

O nome do guerreiro Sanctiago,

Sancto que os Eſpanhoes tanto ajudou

A fazerem nos Mouros brauo eſtrago:

Daqui tanto que Boreas nos ventou

Tornamos a cortar o immenſo lago,

Do ſalgado Occeano, & aſsi deixamos

A terra onde o refreſco doce achamos.

Por aqui rodeando a larga parte

De Africa, que ficaua ao Oriente,

A prouincia lalofo, que reparte

Por diuerſas naçoẽs a negra gente:

A muy grande Mandinga, por cuja arte,

Logramos o metal rico & luzente,

Que do curuo Gambea as agoas bebe

As quaes o largo Atlantico recebe.

As Dorcadas paſſamos, pouoadas

Das Irmaãs, que outrotempo ali viuião,

Que de vista total ſendo priuadas

Todas tres dhum ſo olho ſe ſeruião:

Tu ſo, tu cujas tranças encreſpadas

Neptuno la nas agoas acendião,

Torna la ja de todas a mais fea

De biuoras encheſte a ardente area.

Sempre em fim pera o Auſtro a aguda proa

No grandiſsimo golfão nos metemos,

Deixando a ſerra aſperrima Lyoa

Co Cabo a quem das Palmas nome demos:

O grande rio, onde batendo ſoa

O mar nas prayas notas, que ali temos,

Ficou, co a Ilha illuſtre que tomou

O nome dhum que o lado a Deos tocou.

Ali o muy grande reyno eſtâ de Congo

Por nos ja conuertido â fee de Christo,

Por onde o Zaire paſſa claro & longo

Rio pellos antigos nuca viſto:

Por eſte largo mar em fim me alongo

Do conhecido pollo de Caliſto,

Tendo o termino ardente ja paſſado

Onde o meyo do mundo he limitado.

Ia deſcuberto tinhamos diante

La no nouo Hemiſperio noua estrela

Não viſta deoutra gente, que ignorante

Algũs tempos eſteue incerta della:

Vemos a parte menos rutilante

E por falta destrellas menos bella,

Do Polo fixo, onde inda ſe não ſabe

Que outra terra comece, ou mar acabe:

Aſsi paſſando aquellas regioẽs

Por onde duas vezes paſſa Apolo,

Dous inuernos fazendo & dous veroẽs

Em quanto corre dhum ao outro Polo:

Por calmas, por tormentas & opreſſoẽs

Queſempre faz no mar o yrado Eolo,

Vimos as Vrſas a peſar de Iuno

Banharemſe nas agoas de Neptuno.

Contarte longamente as perigoſas

Couſas do mar, que os homẽs não entendem,

Subitas trouoadas temeroſas,

Relampados que o ar em fogo acendem:

Negros chuueiros, noites tenebroſas,

Bramidos de trouoẽs que o mundo fendem,

Não menos he trabalho, que grande erro

Ainda que tiuiſſe a voz de ferro.

Os caſos vi que os rudos marinheiros

Que tem por meſtra a longa experiencia,

Contão por certos ſempre & verdadeiros

Iulgando as couſas ſo polla aparencia.

E que os que tem juizos mais inteiros

Que ſo por puro engenho & por ciencia,

Vem do mundo, os ſegredos eſcondidos

Iulgão por falſos, ou mal entendidos.

Vi claramente viſto o lume viuo

Que a maritima gente tem por ſanto,

Em tempo de tormenta & vento eſquiuo

De tempeſtade eſcura & triste pranto:

Não menos foy a todos ecceſsiuo

Milagre, & couſa certo de alto eſpanto,

Ver as nuuẽs do mar com largo cano

Soruer as altas agoas do Occeano.

Eu o vi certamente (& não preſumo

Que a viſta me enganaua) leuantar ſe,

No ar hum vaporzinho & ſutil fumo

E do vento trazido, rodearſe:

De aqui leuado hum cano ao Polo ſumo

Se via, tão delgado que enxergarſe

Dos olhos facilmente não podia,

Da materia das nuuẽs parecia.

Hiaſe pouco & pouco acrecentando

E mais que hum largo maſto ſe engroſſaua,

Aqui ſe eſtreita, aqui ſe alargaquando

Os golpes grandes de agoa em ſi chupaua:

Eſtauaſe co as ondas ondeando,

Encima delle hũa nuuem ſe eſpeſſaua,

Fazendoſe mayor mais carregada

Co cargo grande dagoa em ſi tomada.

Qual roxa Sangueſuga ſe veria

Nos beiços da alimaria (que imprudente,

Bebendo a recolheo na fonte fria)

Fartar co ſangue alheyo a ſede ardente:

Chupando mais & mais ſe engroſſa & cria

Ali ſe enche & ſe alarga grandemente,

Tal a grande coluna, enchendo aumenta

A ſi, & a nuuem negra que ſuſtenta.

Mas deſpois que de todo ſe fartou

O pê que tem no mar a ſi recolhe,

E pello ceo chouendo em fim voou

Porque coa agoa a jacente agoa molhe:

Aas ondas torna as ondas que tomou:

Mas o ſabor do ſal lhe tira, & tolhe,

Vejão agora os ſabios na eſcriptura

Que ſegredos ſam estes de Natura.

Se os antigos Philoſophos, que andarão

Tantas terras, por ver ſegredos dellas,

As marauilhas que eu paſſei, paſſarão

A tão diuerſos ventos dando as vellas:

Que grandes eſcripturas que deixarão

Que influição de ſinos & de eſtrellas,

Que eſtranhezas, que grandes qualidades,

E tudo ſem mentir, puras verdades.

Mas ja o Planeta qne no ceo primeiro

Habita, cinco vezes apreſſada,

Agora meyo rosto, agora inteiro

Mostrara, em quãto o mar cortaua a armada:

Quando da Eterea gauea hum marinheiro

Prompto coa viſta, terra, terra, brada,

Salta no bordo aluoroçada a gente

Cos olhos no Orizonte do Oriente.

A maneira de nuuẽs ſe começão

A deſcubrir os montes que enxergamos,

As ancoras peſadas ſe adereção,

As vellas ja chegados amainamos:

E pera que mais certas ſe conheção

As partes tão remotas onde eſtamos,

Pello nouo inſtrumento do Astrolabio

Inuenção de ſutil juizo & ſabio.

Deſembarcamos logo na eſpaçoſa

Parte, por onde a gente ſe eſpalhou,

De ver couſas eſtranhas deſejoſa

Da terra que outro pouo não piſou:

Porem eu cos pilotos na arenoſa

Praya, por vermos em que parte eſtou,

Me detenho, em tomar do ſol a altura

E compaſſar a vniuerſal pintura.

Achamos ter de todo ja paſſado

Do Semicapro pexe a grande meta,

Eſtando entre elle & o circulo gelado

Auſtral, parte do mundo mais ſecreta:

Eis de meus companheiros rcdeado

Vejo hum eſtranho vir de pelle preta,

Que tomarão per força, em quanto apanha

De mel os doces fauos na montanha.

Toruado vem na viſta, como aquelle

Que não ſe vira nunca em tal eſtremo,

Nem elle entende a nos, nem nos a elle,

Seluagem mais que o bruto Polifemo:

Começolhe a mostrar da rica pelle

De Colcos o gentil metal ſupremo,

A prata fina, a quente eſpeciaria:

A nada disto o bruto ſe mouia.

Mando moſtrarlhe peças mais ſomenos

Contas de Chriſtalmo tranſparente,

Alguns ſoantes caſcaueis pequenos,

Hum barrete vermelho, cor contente:

Vi logo por ſinais & por acenos

Que com iſto ſe alegra grandemente,

Mando o ſoltar com tudo, & aſsi caminha

Pera a pouoação, que perto tinha.

Mas logo ao outro dia ſeus parceiros

Todos nús, & da cor da eſcura treua,

Decendo pellos aſperos outeiros

As peças vem buſcar que eſtoutro leua:

Domeſticos ja tanto & companheiros

Se nos moſtrão, que fazem que ſe atreua,

Fernão Velloſo a yr ver da terra o trato

E partirſe co elles pello mato.

He Velloſo no braço confiado

E de arrogante cre que vay ſeguro,

Mas, ſendo hum grande eſpaço ja paſſado,

Em que algum bom ſinal ſaber procuro:

Eſtando, a viſta alçada, co cuidado

No auentureyro, eis pello monte duro

Aparece, & ſegundo ao mar caminha

Mais apreſſado do que fora vinha.

O batel de Coelho foy depreſſa

Pollo tomar, mas antes que chegaſſe,

Hum Etiope ouſado ſe arremeſſa

A elle porque não ſe lhe eſcapaſſe:

Outro & outro lhe ſaem veſſe em preſſa

Velloſo, ſem que alguem lhe ali ajudaſſe,

Acudo eu logo, & em quanto o remo aperto

Se mostra hum bando negro deſcuberto.

Da eſpeſſa nuuem ſêtas & pedradas

Chouem ſobre nos outros ſem medida,

E não forão ao vento em vão deitadas

Que esta perna trouxe eu dali ferida:

Mas nos como peſſoas magoadas

A repoſta lhe demos tão tecida,

Que em mais que nos barretes ſe ſoſpeita

Que a cor vermelha leuão deſta feita.

E ſendo ja Velloſo em ſaluamento

Logo nos recolhemos pera a armada,

Vendo a malicia fea & rudo intento

Da gente beſtial, bruta & maluada:

De quem nenhum milhor conhecimento

Podemos ter da India deſejada,

Que eſtarmos inda muyto longe della

E aſsi torney a dar ao vento a vella.

Diſſe então a Velloſo hum companheiro

(Começando ſe todos a ſorrir)

Oula Vedolo amigo, aquelle outeiro

He milhor de decer que de ſubir:

Si he, reſponde o ouſado auentureiro

Mas quando eu pera ca vi tantos vir,

Daquelles caẽs, de preſſa hum pouco vim

Por me lembrar que estaueis ca ſem mim.

Contou então que tanto que paſſarão

Aquelle monte, os negros de quem fallo,

Auante mais paſſar o não deixarão,

Querendo, ſe não torna, ali matallo:

E tornando ſe, logo ſe emboſcarão

Porque ſaindo nos pera tomallo,

Nos podeſſem mandar ao reino eſcuro

Por nos roubar em mais a ſeu ſeguro.

Porem ja cinco Soes erão paſſados

Que dali nos partiramos, cortando

Os mares nunca doutrem nauegados,

Proſperamente os ventos aſſoprando:

Quando hũa noite estando deſcuidados

Na cortadora proa vigiando,

Hũa nuuem que os ares eſcurece

Sobre noſſas cabeças aparece.

Tão temeroſa vinha & carregada,

Que pos nos coraçoẽs hum grande medo,

Bramindo o negro mar, de longe brada

Como ſe deſſe em vão nalgum rochedo:

O poteſtade, diſſe, ſublimada

Que ameaço diuino, ou que ſegredo,

Eſte clima, & eſte mar nos apreſenta,

Que môr couſa parece que tormenta?

Não acabaua, quando hũa figura

Se nos mostra no ar, robuſta & valida,

De disforme & grandiſsima eſtatura,

O roſto carregado, a barba eſqualida:

Os olhos encouados, & a poſtura

Medonha & maa, & a cor terrena & palida,

Cheos de terra & creſpos os cabellos,

A boca negra, os dentes amarellos.

Tão grande era de membros, que bem poſſo

Certificarte, que este era o ſegundo

De Rodes estranhiſsimo Coloſſo,

Que hum dos ſete milagres foy do mundo:

Cum tom de voz nos falla horrendo & groſſo

Que pareceo ſair do mar profundo,

Arrepião ſe as carnes & o cabello

A mi, & a todos, ſoo de ouuillo & vello.

E diſſe: O gente ouſada mais que quantas

No mundo cometerão grandes couſas,

Tu que por guerras cruas, taes & tantas

E por trabalhos vãos munca repouſas:

Pois os vedados terminos quebrantas

E nauegar meus longos mares ouſas,

Que eu tãto tempo ha ja que guardo, & tenho

Nunca arados deſtranho, ou proprio lenho.

Pois vens ver os ſegredos eſcondidos

Da natureza, & do humido elemento,

A nenhum grande humano concedidos

De nobre, ou de immortal merecimento:

Ouue os danos de mi, que apercebidos

Eſtão, a teu ſobejo atreuimento,

Por todo o largo mar & polla terra

Que inda has de ſojugar com dura guerra.

Sabe que quantas naos eſta viagem

Que tu fazes, fizerem de atreuidas

Inimiga terão esta paragem

Com ventos & tormentas deſmedidas:

E da primeira armada que paſſagem

Fizer por eſtas ondas inſuffridas,

Eu farey dimprouiſo tal caſtigo

Que ſeja môr o dano que o perigo.

Aqui eſpero tomar ſe não me engano

De quem me deſcobrio ſuma vingança,

E não ſe acabarâ ſo nisto o dano

De voſſa pertinace confiança:

Antes em voſſas naos vereys cada anno

Se he verdade o que meu juyzo alcança,

Naufragios, perdiçoẽs de toda ſorte,

Que o menor mal de todos ſeja a morte.

E do primeiro Illuſtre, que a ventura

Com fama alta fizer tocar os Ceos,

Serey eterna & noua ſepoltura

Por juizos incognitos de Deos:

Aqui porà da Turca armada dura

Os ſoberbos & proſperos tropheos,

Comigo de ſeus danos o ameaça

A destruida Quiloa com Mombaça.

Outro tambem virâ de honrada fama

Liberal, caualeiro, enamorado,

E conſigo trarâ a fermoſa dama

Que Amor por gram merce lhe terâ dado:

Triſte ventura, & negro fado os chama

Neste terreno meu, que duro & yrado,

Os deixarâ dhum crú naufragio viuos

Pera verem trabalhos ecceſtiuos.

Verão morrer com fome os filhos charos

Em tanto amor gêrados & nacidos,

Verão os Cafres aſperos & auaros

Tirar aa linda dama ſeus veſtidos:

Os cristalinos membros & perclaros

Aa calma, ao frio, no ar verão deſpidos,

Deſpois de ter piſada longamente

Cos delicados pês a area ardente.

E verão mais osolhos que eſcaparem

De tanto mal, de tanta deſuentura,

Os dous amantes miſeros ficarem

Na ſeruida & implacabil eſpeſſura:

Ali deſpois que as pedras abrandarem

Com lagrimas de dôr, de magoa pura,

Abraçados as almas ſoltaram

Da fermoſa & miſerrima priſam.

Mais hia por diante o monstro horrendo

Dizendo noſſos fados, quando alçado

Lhe diſſe eu: Quem es tu? que eſſe estupendo

Corpo, certo me tem marauilhado

A boca & os olhos negros retorcendo,

E dando hum eſpantoſo & grande brado,

Me reſpondeo, com voz peſada & amara

Como quem da pregunta lhe peſara.

Eu ſou aquelle occulto & grande Cabo

A quem chamais vos outros Tormentorio,

Que nunca a Ptolomeu, Pomponio, Eſtrabo,

Plinio, & quantos paſſarão fuy notorio:

Aqui toda a Africana coſta acabo

Neſte meu nunca viſto Promontorio,

Que pera o Polo Antariuo ſe eſtende

A quem voſſa ouſadia tanto offende.

Fuy dos filhos aſperrimos da terra

Qual Encelado, Egeo, & o Centimano,

Chameime Adamaſtor,& fuy na guerra

Contra o que vibra os rayos de Vulcano:

Não que poſeſſe ſerra ſobre ſerra

Mas conquiſtando as ondas do Occeano,

Fuy capitão domar, par onde andaua

A armada de Neptuno, que eu buſcaua.

Amores da alta eſpoſa de Peleo

Me fizerão tomar tamanha empreſa,

Todas as Deoſas deſprezey do ceo

So par amar das agoas a Princeſa:

Hum dia a vi coas filhas de Nereo

Sayr nua na praya, & logo preſa,

A vontade ſinti, de tal maneira

Que inda não ſinto couſa que mais queira.

Como foſſe impoſsibil alcançalla

Polla grandeza fea de meu geſto,

Determiney por armas de tomalla

E a Doris eſte caſo manifeſto:

De medo a Deoſa então por mi lhe falla:

Mas ella cum fermoſo riſo honesto,

Reſpondeo: Qual ſera o amor baſtante

De Nimpha que ſuſtente o dhum Gigante.

Com tudo por liurarmos o Occeano

De tanta guerra, eu buſcarey maneira,

Com que com minha honra eſcuſe o dano.

Tal reſpoſta me torna a menſageira:

Eu que cair não pude neste engano,

(Que he grande dos amantes a cigueira)

Encherãome com grandes abondanças

O peito de deſejos & eſperanças.

Ia neſcio, ja da guerra deſiſtindo

Hũa noite de Doris prometida,

Me aparece de longe o geſto lindo

Da branca Thetis vnica deſpida:

Como doudo corri de longe, abrindo

Os braços, pera aquella que era vida

Deſte corpo, & começo os olhos bellos

A lhe beijar, as faces & os cabellos.

O que não ſey de nojo como o conte

Que crendo ter nos braços quem amaua,

Abraçado me achey cum duro monte

De aſpero mato, & de eſpeſſura braua:

Eſtando cum penedo fronte a fronte

Queu pollo roſto angelico apartaua,

Não fiquey homem não, mas mudo & quedo

E junto dhum penedo outro panedo

O Nimpha a mais fermoſa do Oceano

Ia que minha preſença não te agrada,

Que te cuſtaua terme neſte engano,

Ou foſſe monte, nuuem, ſonho, ou nada:

Daqui me parto irado, & quaſi inſano

Da magoa & da deſonra ali paſſada,

A buſcar outro mundo, onde não viſſe

Quem de meu pranto, & de meu mal ſe riſſe.

Erão ja neſte tempo meus Irmãos

Vencidos & em miſeria estrema poſtos,

E por mais ſegurarſe os Deoſes vãos

Algũs a varios montes ſottopostos:

E como contra o Ceo não valem mãos,

Eu que chorando andaua meus deſgoſtos,

Comecey a ſentir do fado imigo

Por meus atreuimentos o caſtigo.

Conuerteſeme a carne em terra dura,

Em penedos os oſſos ſe fizerão,

Eſtes membros que ves & esta figura

Por eſtas longas agoas ſe estenderão:

Em fim minha grandiſsima eſtatura

Neſte remoto cabo conuerterão

Os Deoſes, & por mais dobradas magoas

Me anda Thetis cercando deſtas agoas.

Aſsi contaua & cum medonho choro

Subito dante os olhos ſe apartou,

Desfez ſe a nuuem negra, & cum ſonoro

Bramido, muito longe o mar ſoou:

Eu, leuantando as mãos ao ſancto coro

Dos Anjos, que tão longe nos guiou,

A Deos pedi que remoueſſe os duros

Caſos, que Adamaſtor contou futuros.

Ia Phlegon, & Pyrois vinhão tirando

Cos outros dous o carro radiante,

Quando a terra alta ſe nos foy mostrando

Em que foy conuertido o grão gigante:

Ao longo desta costa, começando

Ia de cortar as ondas do Leuante,

Por ella abaixo hum pouco nauegamos

Onde ſegunda vez terra tomamos.

A gente que eſta terra poſſuya

Poſto que todos Etiopes erão,

Mais humana no trato parecia

Que os outros, que tão mal nos receberão:

Com bailos & com feſtas de alegria

Pella praya arenoſa a nos vierão,

As molheres conſigo & o manſo gado

Que apacentauão, gordo & bem criado.

As molheres queimadas vem encima

Dos vagaroſos bois, ali ſentadas

Animais que elles tem em mais eſtima

Que todo o outro gado das manadas:

Cantigas paſtoris, ou proſa, ou rima,

Na ſua lingua cantão concertadas,

Co doce ſom das rusticas auenas

Imitando de Titiro as Camenas.

Eſtes como na viſta prazenteiros

Foſſem, humanamente nos tratarão,

Trazendonos galinhas & carneiros

A troco doutras peças que leuarão:

Mas como nunca em fim meus companheiros

Palaura ſua algũa lhe alcançarão

Que deſſe algun ſinal do que buſcamos:

As vellas dando, as ancoras leuamos.

Ia aqui tinhamos dado hum gram rodeyo

Aa coſta negra de Africa, & tornaua

A proa a demandar o ardente meyo

Do Ceo, & o polo Antartico ficaua:

Aquelle ilheo deixamos, onde veyo

Outra armada primeira, que buſcaua

O tormentorio Cabo, & deſcuberto,

Naquelle ilheo fez ſeu limite certo.

Daqui fomos cortando muitos dias

Entre tormentas tristes & bonanças,

No largo mar fazendo nouas vias

So conduzidos de arduas eſperanças:

Co mar hum tempo andamos em porfias

Que como tudo nelle ſam mudanças,

Corrente nelle achamos tão poſſante

Que paſſar não deixaua por diante.

Era mayor a força em demaſia

Segundo pera tras nos obrigaua,

Do mar, que cantro nos ali corria

Que por nos a do vento que aſſopraua:

Injuriado Noto da porfia

Em que co mar (parece) tanto eſtaua

Os aſſopros esforça iradamente

Com que nos fez vencer a grão corrente.

Trazia o Sol o dia celebrado

Em que tres Reis das partes do Oriente,

Forão buſcar hum Rey de pouco nado

No qual Rey outros tres ha juntamente:

Neſte dia outro porto foy tomado

Por nos, da meſma ja contada gente,

Num largo rio, ao qual o nome demos

Do dia em que por elle nos metemos.

Deſta gente refreſco algum tomamos,

E do rio freſca agoa, mas com tudo

Nenhum ſinal aqui da India achamos

No pouo com nos outros caſi mudo:

Ora vê Rey quamanha terra andamos

Sem ſair nunca deſte pouo rudo,

Sem vermos nunca noua, nem ſinal,

Da deſejada parte Oriental.

Ora imagina agora quam coitados

Andariamos todos, quam pardidos,

De fomes, de tormentas quebrantados

Por climas & por mares não ſabidos:

E do eſperar comprido tão canſados

Quanto a deſeſperar ja compellidos,

Por ceos não naturais, de qualidade

Inimiga de noſſa humanidade.

Corrupto ja & danado o mantimento

Danoſo & mão ao fraco corpo humano,

E alem diſſo nenhum contentamento

Que ſequer da eſperança foſſe engano:

Cres tu que ſe eſte noſſo ajuntamento

De ſoldados, não fora Luſitano,

Que durara elle tanto obediente

Por ventura a ſeu Rey & a ſeu regente?

Cres tu que ja não forão leuantados

Contra ſeu capitão ſe os reſiſtira,

Fazendo ſe Piratas, obrigados

De deſeſperação, de fome, de ira?

Grandemente, porcerto eſtão prouados

Pois que nenhum trabalho grande os tira

Daquella Portugueſa alta eccellencia

De lealdade firme, & obediencia.

Deixando o porto em fim do doce rio

E tornando a cortar a agoa ſalgada,

Fizemos deſta costa algum deſuio

Deitando pera o pego toda a armada:

Porque ventando Noto manſo & frio

Nã nos apanhaſſe a agoa da enſeada,

Que a coſta faz ali daquella banda

Donde a rica Sofala o ouro manda.

Eſta paſſada, logo o leue leme

Encomendado ao ſacro Nicolao,

Pera onde o mar na coſta brada & geme

A proa inclina dhũa & doutra nao.

Quando indo o coração que eſpera & teme

E que tanto fiou dhum fraco pao,

Do que eſparaua ja deſeſperado

Foy dhũa nouidade aluoroçado.

E foy, que eſtando ja da costa perto

Onde as prayas & valles bem ſe vião,

Num rio, que ali ſae ao mar aberto

Bateis aa vela entrauão & ſayão:

Alegria muy grande foy porcerto

Acharmos ja peſſoas que ſabião

Neuegar, porque entrellas eſperamos

De achar nouas algũas, como achamos.

Ethiopes ſam todos, mas parece

Que com gente milhor comunicauão,

Palaura algũa Arabia ſe conhece

Entre a lingoagem ſua que falauão.

E com pano delgado que ſe tece

De algodão, as cabeças apertauãa,

Com otro que de tinta azul ſe tinge

Cadahum as vergonhoſas partes cinge.

Pella Arabica lingoa que mal falão,

E que Fernão martinz muy bem entende

Dizem, que por nos, que em grãdeza ygoalão

As noſſas, o ſeu mar ſe corta & fende.

Mas que la donde ſae o Sol, ſe abalão

Pera onde a coſta ao Sul ſe alarga, & eſtende

E do Sul pera o Sol, terra onde auia

Gente aſsi como nos da cor do dia.

Muy grandemente aqui nos alegramos

Coa gente, & com as nouas muito mais.

Pellos ſinais que neſte rio achamos

O nome lhe ficou dos bons ſinais:

Hum padrão neſta terra aleuantamos

Que pera aſinalar lugares tais

Trazia alguns, o nome tem do bello

Guiador de Tobias a Gabello.

Aqui de limos, caſcas & doſtrinhos,

Nojoſa criação das agoas fundas,

Alimpamos as naos, que dos caminos

Longos do mar, vem ſordidas & immundas:

Dos oſpedes que tinhamos vizinhos

Com moſtras apraziueis & jocundas,

Ouuemos ſempre o vſado mantimento

Limpas de todo o falſo penſamento.

Mas não foy, da eſperança grande & immenſa

Que neſta terra ouuemos, limpa & pura

A alegria: mas logo a recompenſa

A Ramnuſia com noua deſuentura:

Aſsi no ceo ſereno ſe diſpenſa,

Coesta condição peſada & dura

Nacemos, o peſar terâ firmeza,

Mas o bem logo muda a natureza.

E foy que de doença crua & feya

A mais que eu nunca vi, deſempararão

Muitos a vida, & em terra eſtranha & alheia

Os oſſos pera ſempre ſepultarão:

Quem auerâ que ſem o ver o creya

Que tão disformemente ali lhe incharão,

As gingiuas na boca, que crecia

A carne, & juntamente apodrecia.

Apodrecia cum fetido & bruto

Cheiro, que o âr vizinho inficionaua,

Não tinhamos ali medico aſtuto,

Sururgião ſutil menos ſe achaua:

Mas qualquer neste officio pouco inſtructo

Pella carne ja podre aſsi cortaua,

Como ſe fora morta, & bem conuinha

Pois que morto ficaua quem a tinha.

Em fim que neſta incognita eſpeſſura

Deixamos pera ſempre os companheiros,

Que em tal caminho & em tanta deſuentura

Forão ſempre com noſco auentureiros:

Quam facil he ao corpo a ſepultura

Quaeſquer ondas do mar, quaeſquer outeiros,

Estranhos, aſsimeſmo como aos noſſos,

Receberão de todo o illuſtre os oſſos.

Aſsi que deſte porto nos partimos

Com mayor eſperança & mòr triſteza,

E pella coſta abaixo o mar abrimos

Buſcando algum ſinal de mais firmeza:

Na dura Moçambique em fim ſurgimos,

De cuja falſidade & mâ vileza

Ia ſeras ſabedor, & dos enganos

Dos pouos de Mombaça pouco humanos.

Ate que aqui no teu ſeguro porto,

Cuja brandura & doce tratamento,

Darâ ſaude a hum viuo, & vida a hũ morto,

Nos trouxe a piedade do alto aſſento:

Aqui repouſou, aqui doce conforto,

Noua aquietação do penſamento

Nos deste, & vês aqui ſe atente ouuiſte,

Te contey tudo quanto me pediste.

Iulgas agora Rey ſe ouue no mundo

Gentes que tais caminhos cometeſſem?

Crês tu que tanto Eneas & o facundo

Vliſſes, pello mundo ſe eſtendeſſem?

Ouſou algum a ver do mar profundo

Por mais verſos que delle ſe eſcreueſſem,

Do que eu vi, a poder desforço & de arte,

E do que inda ei de ver, a oitaua parte?

Eſſe que bebeo tanto da agoa Aonia

Sobre quem tem contenda peregrina,

Entre ſi, Rodes, Smirna, & Colofonia,

Atenas, Yos, Argo, & Salamina:

E ſoutro que eſclarece toda Auſonia,

A cuja voz altiſona & diuina

Ouuindo, o patrio Mincio ſe adormece,

Mas o Tibre co ſom ſe enſoberuece.

Cantem, louuem, & eſereuão ſempre eſtremos

Deſſes ſeus Semideoſes, & encareção,

Fingindo Magas Circes, Polifemos,

Syrenas que co canto os adormeção:

Dem lhe mais nauegar â vella & remos

Os Cicones, & a terra onde ſe eſquecem

Os companheiros em goſtando o Loto,

Dem lhe perder nas agoas o Piloto.

Ventos ſoltos lhe finjão & imaginem

Dos odres, & Calipſos namoradas,

Harpias, que o manjar lhe contaminem

Decer aas ſombras nuas ja paſſadas:

Que por muito & por muito que ſe afinem

Nestas Fabulas vaãs tambem ſonhadas,

A verdade que eu conto nua & pura

Vence toda grandiloca eſcriptura.

Da boca do facundo capitão

Pendendo eſtauão todos embibidos,

Quando deu fim aa longa narração

Dos altos feitos grandes & ſubidos:

Louua o Rey o ſublime coração

Dos Reis em tantas guerras conhecidos,

Da gente louua a antiga fortaleza,

A lealdade danimo & nobreza.

Vay recontando o pouo que ſe admira

O caſo cada qual que mais notou,

Nenhum delles da gente os olhos tira

Que tão longos caminhos rodeou:

Mas ja o mancebo Delio as redeas vira

Que o irmão de Lampecia mal guiou,

Por vir a deſcanſar nos Thetios braços

E el Rey ſe vay do mar aos nobres paços.

Quam doce he o louuor & a juſta gloria

Dos proprios feitos, quando ſam ſoados,

Qualquer nobre trabalha que em memoria

Vença, ou ygoale os grandes ja paſſados:

As enuejas da illustre & alhea hiſtoria

Fazem mil vezes feitos ſublimados,

Quem valeroſas obras exercita

Louuor alheo muito o eſperta & incita.

Não tinha em tanto os feitos glorioſos

De Achiles, Alexandro na pelleja,

Quanto de quem o canta, os numeroſos

Verſos, iſſo ſo louua, iſſo deſeja:

Os tropheos de Melciades famoſos

Temiſtocles deſpertão ſo de enueja,

E diz, que nada tanto o deleitaua

Como a vez que ſeus feitos celebraua.

Trabalha par moſtrar Vaſco da Gama

Que eſſas nauegaçoẽs que o mundo canta,

Não merecem tamanha gloria & fama:

Como a ſua, que o ceo & a terra eſpanta:

Si mas aquelle Heroe que eſtima & ama

Com doẽs, merces, fauores, & honra tanta

A lira Mantuana faz que ſoe

Eneas, & a Romana gloria voe.

Dâ a terra Luſitana Scipioẽs

Ceſares, Alexandros, & da Auguſtos,

Mas não lhe dâ com tudo aquelles doẽs

Cuja falta os faz duros & robustos

Octauio, entre as mayores opreſſoẽs

Compunha verſos doutos & venuſtos,

Não dirâ Fuluia certo que he mentira

Quando a deixaua Antonio por Glafira.

Vay Ceſar ſojugando toda França

E as armas não lhe empedem a ſciencia,

Mas nũa mão a pena, & noutra a lança

Igoalaua de Cicero a eloquencia:

O que de Scipião ſe ſabe & alcança

He nas comedias grande experiencia,

Lia Alexandro a Homero de maneira

Que ſempre ſe lhe ſabe aa cabeceira.

Em fim não ouue forte capitão

Que não foſſe tambem douto & ſciente,

Da Lacia, Grega, ou Barbara nação

Se não da Portugueſa tão ſomente:

Sem vergonha o não digo, que a rezão

Dalgum não ſer por verſos excelente,

He não ſe ver prezado o verſo & rima,

Porque quem não ſabe arte não na eſtima.

Por iſſo & não por falta de Natura

Não ha tambem Virgilios nem Homeros,

Nem auerâ ſe eſte coſtume dura

Pios Eneas, nem Achiles feros:

Mas o pior de tudo he que a ventura

Tão aſperos os fez, & tão Austeros,

Tão rudos, & de ingenho tão remiſſo

Que a muitos lhe dâ pouco, ou nada diſſo.

Aas Muſas agardeça o noſſo Gama

O muito amor da patria, que as obriga

A dar aos ſeus na lira nome & fama

De toda a illuſtre & bellica fadiga:

Que elle, nem quem na eſtirpa ſeu ſe chama,

Caliope não tem por tão amiga,

Nem as filhas do Tejo, que deixaſſem

As tellas douro fino, & que o cantaſſem.

Porque o amor fraterno & puro gosto

De dar a todo o Luſitano feito

Seu louuor, he ſomente o proſuposto

Das Tagides gentis, & ſeu reſpeito:

Porem não deixe em fim de ter deſpoſto

Ninguem a grandes obras ſempre o peito,

Que por eſta, ou por outra qualquer via

Não perdera ſeu preço & ſua valia.

F I M.

❧ Canto Seiſto.

Nam ſabia em que

modo festejaſſe

O Rey Pagão os fortes nauegan

tes,

Pera que as amizades alcançaſſe

Do Rey Chriſtão, das gentes tão poſſantes:

Peſalhe que tão longe o apouſentaſſe

Das Europeas terras abundantes,

A ventura, que namno fez vizinho

Donde Hercules ao mar abrio o caminho.

Com jogos, danças, & outras alegrias

A ſegundo a policia Melindana,

Com vſadas & ledas peſcarias

Com que a Lageia Antonio alegra & engana:

Eſte famoſo Rey todos os dias

Feſteja a companhia Luſitana,

Com banquetes, manjares deſuſados

Com frutas, aues, carnes, & peſcados.

Mas vendo o Capitão que ſe detinha

Ia mais do que deuia, & o freſco vento

O conuida que parta & tome aſinha,

Os Pilotos da terra & mantimento,

Não ſe quer mais deter, que ainda tinha

Muito pera cortar do ſalſo argento,

Ia do Pagão benigno ſe deſpede

Que a todos amizade longa pede.

Pedelhe mais, que aquelle porto ſeja

Sempre com ſuas Frotas viſitado,

Que nenhum outro bem mayor deſeja

Que dar a tais baroẽs ſeu reino & estado:

E que em quanto ſeu corpo o ſprito reja

Eſtarâ de contino aparelhado,

A pôr a vida & reino totalmente

Por tão bom Rey, por tão ſublime gente.

Outras palauras tais lhe reſpondia

O Capitão, & logo as vellas dando,

Pera as terras da Aurora ſe partia,

Que tanto tempo ha ja que vay buſcando:

No Piloto que leua não auia

Falſidade, mas antes vay moſtrando

A nauegação certa, & aſsi caminha

Ia mais ſeguro do que dantes vinha.

As ondas nauegauão do Oriente

Ia nos mares da India, & enxergauão

Os talamos do Sol, que nace ardente,

Ia quaſi ſeus deſejos ſe acabauão:

Mas o mao de Tioneo, que na alma ſente

As venturas, que então ſe aparelhauão

Aa gente Luſitana dellas dina,

Arde, morre, blasfema & deſatina.

Via eſtar todo o Ceo determinado

De fazer de Lisboa noua Roma,

Não no pode eſtoruar, que deſtinado

Eſtâ doutro poder que tudo doma,

Do Olimpo dece em fim deſeſperado,

Nouo remedio em terra buſca, & toma,

Entra no humido reino, & vaiſe aa corte

Daquelle, a quem o mar cayo em ſorte.

No mais interno fundo das profundas

Cauernas altas, onde o mar ſe eſconde,

La donde as ondas ſaem furibundas,

Quando aas iras do vento o mar reſponde,

Neptuno mora, & morão as jocundas

Nereidas, & outros Deoſes do mar, onde

As agoas campa deixão aas cidades,

Que habitão eſtas humidas deidades.

Deſcobre o fundo nunca deſcuberto

As areas ali de prata fina,

Torres altas ſe vem no campo aberto

Da tranſparente maſſa criſtalina,

Quanto ſe chegão mais os olhos perto,

Tanto menos a vista determina

Se he criſtal o que vê, ſe diamante,

Que aſsi ſe moſtra claro & radiante.

As portas douro fino, & marchetadas

Do rico aljofar que nas conchas nace,

De eſculptura fermoſa estão lauradas,

Na qual do irado Baco a viſta pace:

E vê primeiro em cores variadas

Do velho Chaos a tão confuſa face,

Vemſe os quatro elementos traſladados

Em diuerſos officios occupados.

Ali ſublime o Fogo eſtaua encima,

Que em nenhũa materia ſe ſuſtinha,

Daqui as couſas viuas ſempre anima,

Deſpois que Prometeo furtado o tinha:

Logo a pos elle leue ſe ſublima

O inuiſibil Ar, que mais aſinha

Tomou lugar, & nem por quente, ou frio,

Algum deixa no mundo eſtar vazio

Eſtaua a terra em montes reuestida

De verdes eruas & aruores floridas,

Dando pasto diuerſo & dando vida

Aas alimarias nella produzidas:

A clara forma ali estaua eſculpida

Das agoas entre a terra deſparzidas,

De peſcados criando varios modos,

Com ſeu humor mantendo os corpos todos.

Noutra parte eſculpida eſtaua a guerra

Que tiuerão os Deoſes cos Gigantes,

Esta Tiſeo debaixo da alta ſerra

De Etna, que as flamas lança crepitantes:

Eſculpido ſe vê ferindo a terra

Neptuno, quando as gentes ignorantes.

Delle o cauallo ouuerão, & a primeira

De Minerua pacifica Ouliueira.

Pouca tardança faz Lyeo irado

Ne viſta deſtas couſas, mas entrando

Nos paços de Neptuno, que auiſado

Da vinda ſua, o eſtaua ja aguardando:

Aas portas o recebe, acompanhado

Das Nimphas, que ſe eſtão marauilhando,

De ver que cometendo tal caminho,

Entre no reino dagoa o Rey do vinho.

O Neptuno, lhe diſſe, não te eſpantes.

De Baco nos teus reinos receberes,

Porque tambem cos grandes & poſſantes

Mostra a Fortuna injuſta ſeus poderes:

Manda chamar os Deoſes do mar, antes

Que fale mais, ſe ouuirme o mais quiſeres,

Verão da deſuentura grandes modos,

Oução todos o mal que toca a todos.

Iulgando ja Neptuno que ſeria

Eſtranho caſo aquelle, logo manda

Tritão, que chame os Deoſes da agoa fria,

Que o mar habitão dhũa & doutro banda,

Tritão, que de ſer filho ſe gloria

Do Rey, & de Salacia veneranda,

Era mancebo grande, negro & feyo

Trombeta de ſeu pay, & ſeu Correyo.

Os cabellos da barba, & os que decem

Da cabeça nos ombros, todos erão,

Hũs limos prenhes dagoa, & bem parecem

Que nunca brando pentem conhecerão:

Nas pontas pendurados não falecem

Os negros Miſilhoẽs, que ali ſe gerão,

Na cabeça por gorra tinha poſta

Hũa muy grande caſca de Lagoſta.

O corpa nú, & os membros genitais

Por não ter ao nadar impedimento,

Mas porem de pequenos animais

Do mar, todos cubertos cento & cento:

Camaroẽs, & Cangrejos, & outros mais

Que recebem de Phebe crecimento,

Oſtras, & Camaroẽs do muſco çujos,

As coſtas coa caſca os Caramujos.

Na mão a grande Concha retorcida

Que trazia, com força ja tocaua,

A voz grande canora foy ouuida

Por todo o mar, que longe retumbaua:

Ia toda a companhia apercebida

Dos Deoſes, para os paços caminhaua

Do Deos, que fez os muros de Dardania,

Deſtroidos deſpois da Grega inſania.

Venha o padre Oceano acompanhado

Dos filhos & das filhas que gerara,

Vem Nereo, que com Doris foy caſado,

Que todo o mar de Nimphas pouoara:

O Propheta Proteo, deixando o gado

Maritimo pacer pella agoa amara,

Ali veyo tambem, mas ja ſabia

O que o padre Lyeo no mar queria.

Vinha por outra parte a linda eſpoſa

De Neptuno, de Celo & Veſta filha,

Graue & leda no gesto, & tão fermoſa

Que ſe amanſaua o mar de marauilha:

Veſtida hũa camiſa precioſa

Trazia de delgada beatilha,

Que o corpo cristalino dexa verſe,

Que tanto bem não he para eſconderſe.

Anfitrite fermoſa como as ſlores,

Neſte caſo não quis que faleceſſe,

O Delfim traz conſigo, que aos amores

Do Rey lhe aconſelhou que obedeceſſe:

Cos olhos que de tudo ſam ſenhores

Qualquer parecera que o Sol venceſſe,

Ambas vem pella mão, ygoal partido

Pois ambas ſam eſpoſas dhum marido.

Aquella que das furias de Atamante

Fugindo, veyo a ter diuino eſtado,

Conſigo traz o filho, belli Infante,

No numero dos Deoſes relatado.

Pella praya brincando vem diante

Com as lindas conchinhas, que o ſalgado

Mar ſempre cria, & aas vezes pella area

No colo o toma a bella Panopea.

E o Deos que foy num tempo corpo humano,

E por virtude da erua poderoſa

Foy conuertido em pexe, & deſte dano

Lhe reſultou deidade glorioſa,

Inda vinha chorando o feio engano,

Que Circes tinha vſado coa fermoſa

Scylla, que elle ama, desta ſendo amado

Que a mais obriga amor mal empregado.

Ia finalmente todos aſſentados

Na grande ſala nobre & diuinal,

As Deoſas em riquiſsimos eſtrados,

Os Deoſes em cadeiras de cristal:

Forão todos do Padre agaſalhados,

Que co Thebano tinha aſſento ygoal:

De fumos enche a caſa a rica maſſa

Que no mar nace, & Arabia em cheiro paſſa.

Eſtando ſoſſegado ja o tumulto

Dos Deoſes, & de ſeus recebimentos,

Começa a deſcubrir do peito occulto,

A cauſa o Tyoneo de ſeus tormentos:

Hum pouco carregando ſe no vulto,

Dando moſtra de grandes ſentimentos,

So por dar aos de Luſo triſte morte

Co ferro alheyo, fala deſta ſorte.

Princepe que de juro ſenhoreas

Dhum Polo, ao outro Polo o mar irado,

Tu que as gentes da terra toda enfreas,

Que não paſſem o termo limitado:

E tu padre Oceano, que rodeas

O mundo vniuerſal, & o tens cercado:

E com juſto decreto aſsi parmites,

Que dentro viuão ſo de ſeus limites.

E vos Deoſes do mar, que não ſoffreis

Injuria algũa em voſſo reino grande,

Que com castigo ygoal vos não vingueis,

De quemquer que por elle corra, & ande:

Que deſcuido foy este em que viueis?

Quem pode ſer que tanto vos abrande,

Os peitos, con razão endurecidos

Contra os humanos fracos & atreuidos?

Vistes que com grandiſsima ouſadia

Forão ja cometer o Ceo ſupremo,

Vistes aquella inſana fantaſia

De tentarem o mar com vella & remo:

Vistes, & ainda vemos cada dia,

Soberbas & inſolencias tais, que temo

Que do mar & do Ceo em poucos anos,

Venhão Deoſes a ſer, & nos humanos.

Vedes agora a fraca geracão

Que dhum vaſſallo meu o nome toma,

Com ſoberbo, & altiuo coração,

A vos, & a mi, & o mundo todo doma:

Vedes o voſſo mar cortando vão,

Mais do que fez a gente alta de Roma,

Vedes o voſſo reino deuaſſando

Os voſſos eſtatutos vão quebrando.

Eu vi que contra os Mynias, que primeiro

No voſſo reino este caminho abrirão,

Boreas injuriado, & o companheiro

Aquilo, & os outros todos reſiſtirão:

Pois ſe do ajuntamento auentureiro

Os ventos eſta injuria aſsi ſentirão,

Vos a quem mais compete eſta vingança,

Que eſperais, porque a pondes em tardança?

E não conſinto Deoſes que cuideis

Que por amor de vos do ceo deci,

Nem da magoa da injuria que ſofreis,

Mas da que ſeme faz tombem a mi:

Que aquellas grandes honras, queſabeis

Que no mundo ganhey, quando venci

As terras Indianas do Oriente,

Todas vejo abatidas desta gente.

Que o gran Senhor & fados que destinão,

Como lhe bem parece, o baxo mundo,

Famas mores que nunca determinão

De dar a eſtes baroẽs no mar profundo:

Aqui vereis o Deoſes como inſinão

O mal tambem a Deoſes. que a ſegundo

Se ve, ninguem ja tem menos valia

Que quem com mais razão valer deuia.

E por iſſo do Olimpo ja fugi,

Buſcando algum remedio a meus peſares,

Por ver o preço, que no Ceo perdi,

Se por dita acharey nos voſſos mares:

Mais quis dizer, & não paſſou daqui,

Porque as lagrimas ja correndo a pares

Lhe ſaltarão dos olhos, com que logo

Se acendem as Deidades dagoa em fogo.

A Ira com que ſubito alterado

O coração dos Deoſes foy num ponto,

Não ſoffreo mais conſelho bem cuidado,

Nem dilação, nem outro algum deſconto:

Ao grande Eolo mandão ja recado

Da parte de Neptuno, que ſem conto

Solte as furias dos ventos repugnantes,

Que não aja no mar mais nauegantes.

Bem quiſera primeiro ali Protheo

Dizer neste negocio o que ſentia,

E ſegundo o que a todos pareceo,

Era algũa profunda prophecia:

Porem tanto o tumulto ſe moueo

Subito na diuina companhia,

Que Thetis indinada lhe bradou,

Neptuno ſabe bem o que mandou.

Ia la o ſoberbo Hypotades ſoltaua

Do carcere fechado os furioſos

Ventos, que com palauras animaua,

Contra os varoẽs audaces & animoſos:

Subito o ceo ſereno ſe obumbraua,

Que os ventos mais que nunca impetuoſos

Começão nouas forças a yr tomando,

Torres, montes & caſas derribando.

Em quanto este conſelho ſe fazia

No fundo aquoſo, a leda laſſa Frota

Com vento ſoſſegado proſeguia

Pello tranquilo mar, a longa rota:

Era no tempo quando a luz do dia.

Do Eoo Emiſperio estâ remota,

Os do quarto da prima ſe deitauão

Pera o ſegundo os outros deſpertauão.

Vencidos vem do ſono, & mal deſpertos

Bocijando a miudo ſe encoſtauão,

Pellas antenas, todos mal cubertos,

Contra os agudos ares que aſſoprauão:

Os olhos contra ſeu querer abertos

Mas estregando os membros estirauão,

Remedios contra o ſonno buſcar querem,

Hiſtorias contão, caſos mil referem.

Com que milhor podemos, hum dizia,

Eſte tempo paſſar, que he tão peſado,

Se não com algum conto de alegria

Com que nos deixe o ſono carregado?

Reſponde Lionardo, que trazia

Penſamentos de firme namorado,

Que contos paderemos ter milhores

Pera paſſar o tempo, que de amores?

Não he, diſſe Veloſo, couſa juſta

Tratar branduras em tanta aſpereza,

Que o trabalho do mar, que tanto cuſta,

Não ſoffre amores, nem delicadeza:

Antes de guerra ſeruida & robuſta

A noſſa hiſtoria ſeja, pois dureza

Noſſa vida ha de ſer, ſegundo entendo

Que o trabalho por vir mo eſta dizendo.

Conſentem niſto todos, & encomendão

A Veloſo que conte iſto que aproua,

Contarei diſſe, ſem que me reprendão

De contar couſa fabuloſa, ou noua:

E porque os que me ouuirem daqui aprendão

A fazer feitos grandes de alta proua,

Dos nacidos direy na noſſa terra,

E eſtes ſejão os doze de Inglaterra.

No tempo que do reino a redea leue

Ioão filho de Pedro moderaua,

Deſpois que ſoſſegado & liure o teue

Do vizinho poder que o moleſtaua:

La na grande Inglaterra, que da neue

Boreal ſempre abunda, ſemeaua

A fera Erinis dura & mâ cizania

Que luſtre foſſea noſſa Luſitania.

Entre as damas gentis da corte Ingleſa,

E nobres corteſaõs, a caſo hum dia

Se leuantou diſcordia em ira aceſa,

Ou foy opinião, ou foy porfia:

Os Corteſaõs a quem tam pouco peſa

Soltar palauras graues de ouſadia

Dizem que prouarão, que honras & famas

Em tais damas não ha, pera ſer damas.

E que ſe ouuer alguem com lança & eſpada

Que queira ſustentar a parte ſua,

Que elles em campo raſo, ou estacada,

Lhe darão fea infamia, ou morte crua:

A femenil fraqueza pouco vſada

Ou nunca a oprobrios tais, vendo ſe nua

De forças naturais conuenientes,

Socorro pede a amigos & parentes.

Mas como foſſem grandes & poſſantes

No reino os inimigos, não ſe atreuem

Nem parentes, nem feruidos amantes

A ſuſtentar as damas, como deuem:

Com lagrimas fermoſas & bastantes

A fazer que em ſocorro os Deoſos leuem

De todo o Ceo, por roſtos de alabaſtro

Se vão todas ao duque de Alencastro.

Era eſte Ingres potente, & militara

Cos Portugueſes ja contra Castella,

Onde as forças magnanimas prouara

Dos companheiros, & benigna eſtrella?

Não menos neſta terra eſprimentara

Namorados affeitos, quando nella

A filha vio, que tanto o peito doma

Do forte Rey, que por molher a toma.

Eſte que ſocorrer lhe não queria,

Por não cauſar diſcordias inteſtinas

Lhe diz, quando o direito pretendia

Do reino la das terras Iberinas,

Nos Luſitanos vi tanta ouſadia,

Tanto primor, & partes tão diuinas,

Que elles ſos poderião, ſe não erro

Suſtentar voſſa parte a fogo & ferro.

E ſe agrauadas damas ſois ſeruidas,

Por vos lhe mandarei embaixadores,

Que por cartas diſcretas & polidas,

De voſſo agrauo os fação ſabedores:

Tambem por voſſa parte encarecidas

Com palauras dafagos & damores,

Lhe ſejão voſſas lagrimas, que eu creyo

Que ali terees ſocorro & forte eſteyo.

Destarte as aconſelha o Duque experto,

E logo lhe nomea doze fortes,

E porque cada dama hum tenha certo,

Lhe manda que ſobrelles lancem ſortes,

Que ellas ſo doze ſam: & deſcuberto

Qual a qual tem caida das conſortes,

Cadhũa eſcreue ao ſeu por varios modos,

E todas a ſeu Rey, & o Duque a todos.

Ia chega a Portugal o menſageiro,

Toda a corte aluoroça a nouidade,

Quiſera o Rey ſublime ſer primeiro,

Mas não lho ſoffre a Regia Mageſtade:

Qualquer dos corteſaõs auentureiro

Deſeja ſer, com feruida vontade,

E ſo fica por bemauenturado,

Quem ja vem pello Duque nomeado.

La na leal cidade, donde teue

Origem (como he fama) o nome eterno

De Portugal, armar madeiro leue

Manda o que tem o leme do gouerno:

Apercebem ſe os doze em tempo breue

Darmas, & roupas de vſo mais moderno,

De elmos, cimeras, letras, & primores

Caualos, & Concertos de mil cores.

Ia do ſeu Rey tomado tem licença

Pera partir do Douro celebrado,

Aqueles, que eſcolhidos por ſentença

Forão do Duque Ingles eſprimentado:

Não ha na companhia differença

De caualeiro, destro, ou esforçado:

Mas hum ſo, que Magriço ſe dizia

Deſtarte fala aa forte companhia,

Fortiſsimos conſocios, eu deſejo

A muito ja de andar terras estranhas,

Por ver mais agoas, que as do Douro & Tejo,

Varias gentes, & leis, & varias manhas:

Agora que aparelho certo vejo,

(Pois que do mundo as couſas ſam tamanhas)

Quero ſe me deixais, ir ſò por terra,

Porque eu ſerey conuoſco em Inglaterra.

E quando caſo for, que eu impedido

Por quem das couſas he vltima linha,

Não for com voſco ao prazo instituido,

Pouca falta vos faz a falta minha:

Todos por mi fareis o que he diuido:

Mas ſe a verdade o ſprito me adiuinha,

Rios, montes, fortuna, ou ſua enueja,

Não farão que eu com voſco la não ſeja.

Aſsi diz & abraçados os amigos,

E tomada licença, em fim ſe parte,

Paſſa Lião, Caſtella vendo antigos

Lugares, que ganhara o patrio Marte:

Neuarra, cos altiſsimos perigos

Do Perineo, que Eſpanha & Galia parte:

Vistas em fim de França as couſas grandes,

No grande emperio foy parar de Frandes.

Ali chegado, ou foſſe caſo, ou manha,

Sem paſſar ſe deteue muitos dias,

Mas dos onze a illuſtriſsima companha

Cortão do mar do Norte as ondas frias:

Chegados de Inglaterra aa coſta eſtranha,

Pera Londres ja fazem todos vias,

Do Duque ſam com feſta agaſalhados,

E das damas ſeruidos, & amimados.

Chegaſſe o prazo, & dia aſinalado,

De entrar em campo ja cos doze Ingleſes,

Que pello Rey ja tinhão ſegurado,

Armanſe delmos, greuas, & de arneſes:

Ia as damas tem por ſi fulgente & armado

O Mauorte feroz dos Portugueſes,

Vestem ſe ellas de cores & de ſedas

De ouro, & de joyas mil, ricas, & ledas.

Mas aquella, a quem fora em ſorte dado

Magriço, que não vinha, com triſteza

Se veſte, por não ter quem nomeado

Seja ſeu caualeiro, nesta empreſa:

Bem que os onze apregoão, que acabado

Sera o negocio aſsi na corte Ingleſa,

Que as damas vencedoras ſe conheção

Poſto que dous & tres dos ſeus falleção.

Ia num ſublime & pubrico theatro

Se aſſenta o Rey Ingles com toda a corte,

Eſtauão tres & tres, & quatro & quatro,

Bem como a cada qual coubera em ſorte:

Não ſam vistos do Sol do Tejo ao Batro,

De força, esforço, & danimo mais forte,

Outros doze ſayr como os Ingleſes

No campo, contra os onze Portugueſes.

Maſtigão os caualos escumando

Os aureos freos, com feroz ſembrante,

Estaua o Sol nas armas rutilando,

Como em criſtal, ou rigido diamante:

Mas enxergaſe num & noutro bando

Partido deſigoal & diſſonante

Dos onze contra os doze: quando a gente

Começa a aluoroçar ſe geralmente.

Verão todos o rosto aonde auia

A cauſa principal do rebuliço,

Eis entra hum caualeiro, que trazia

Armas, caualo, ao bellico ſeruiço.

Ao Rey & aas damas fala, & logo ſe hia

Pera os onze, que eſte era o gram Magriço,

Abraça os companheiros como amigos,

A quem não fata certo nos perigos.

A dama como ouuio, que este era aquelle,

Que vinha a defender ſeu nome, & fama,

Se alegra, & veſte ali do animal de Hele,

Que a gente bruta mais que vertude ama:

Ia dão ſinal, & o ſom da tuba impelle

Os belicoſos animos, que inflama,

Picão deſporas, largão redeas logo

Abaxão lanças, fere a terra fogo.

Dos caualos o estrepito parece

Que faz, que o chão debaixo todo treme,

O coração no peito, que estremece

De quem os olha, ſe aluoroça, & teme:

Qual do caualo voa, que não dece,

Qual co caualo em terra dando, geme,

Qual vermelhas as armas faz de brancas,

Qual cos penachos do elmo açouta as ancas.

Algum dali tomou perpetuo ſono,

E fez da vida ao fim breue interualo,

Correndo algum cauallo vay ſem dono,

E noutra parte o dono ſem caualo:

Cae a ſoberba Ingleſa de ſeu trono,

Que dous ou tres ja fora vão do valo,

Os que de eſpada vem fazer batalha,

Mais achão ja que arnes, eſcudo, & malha.

Gastar palauras em contar eſtremos

De golpes feros, cruas eſtocadas,

He deſſes gaſtadores, que ſabemos

Maos do tempo, com fabulas ſonhadas:

Baſta por fim do caſo, que entendemos

Que com finezas altas & affamadas,

Cos noſſos fica a palma da victoria,

E as damas vencedoras, & com gloria.

Recolhe o Duque os doze vencedores

Nos ſeus paços, com feſtas & alegria,

Cozinheiros occupa, & caçadores

Das damas a fermoſa companhia,

Que querem dar aos ſeus libertadores

Banquetes mil, cada hora, & cada dia,

Em quanto ſe detem em Inglaterra,

Ate tornar aa doce & chara terra.

Mas dizem que com tudo o gram Magriço

Deſejoſo de ver as couſas grandes,

La ſe deixou ficar, onde hum ſeruiço

Notauel aa condeſſa fez de Frandes:

E como quem não era ja nouiço

Em todo trance, onde tu Marte mandes,

Hum Frances mata em campo, que o deſtino

La teue de Torcato & de Coruino.

Outro tambem dos doze em Alemanha

Se lança, & teue hum fero deſafio

Cum Germano enganoſo, que com manha

Não diuida o quis pòr no eſtremo fio:

Contando aſsi Veloſo, ja a companha

Lhe pede, que não faça tal deſuio

Do caſo de Magriço, & vencimento

Nem deixe o de Alemanha em eſquecimento.

Mas neste paſſo aſsi promptos eſtando,

Eis o meſtre, que olhando os ares anda,

O apito toca, acordão deſpertando

Os marinheiros dhũa & doutra banda:

E porque o vento vinha refreſcando,

Os traquetes das gaueas tomar manda,

Alerta, diſſe, estay, que o vento crece

Daquella nuuem negra que aparece.

Não erão os traquetes bem tomados,

Quando dà a grande & ſubita procella,

Amaina, diſſe o meſtre a grandes brados

Amaina, diſſe, amaina a grande vella,

Não eſperão os ventos indinados

Que amainaſſem, mas juntos dando nella,

Em pedaços a fazem, cum ruido

Que o mundo pareceo ſer deſtruydo.

O ceo fere com gritos niſto a gente,

Cum ſubito temor, & deſacordo,

Que no romper da vela a Nao pendente

Toma gram ſuma dagoa pello bordo,

Alija, diſſe o meſtre, rijamente,

Alija tudo ao mar, não falte acordo,

Vão outros dar a bomba não ceſſando,

Aa bomba que nos imos alagando.

Correm logo os ſoldados animoſos

A dar aa bomba, & tanto que chegarão,

Os balanços, que os mares temeroſos

Derão aa Nao, num bordo os derribarão:

Tres marinheiros duros, & forçoſos,

A menear o leme não baſtarão,

Talhas lhe punhão dhũa & doutra parte

Se aproueitar dos homens força & arte.

Os ventos erão tais, que não poderão

Moſtrar mais força dimpeto cruel,

Se pera derribar então vierão

A fortiſsima torre de Babel:

Nos altiſsimos mares, que crecerão,

A pequena grandura dhum batel,

Moſtra a poſſante nao, que moue eſpanto

Vendo que ſe ſoſtem nas ondas tanto.

A nao grande, em que vay Paulo da Gama,

Quebrada leua o maſto pello meyo,

Quaſi toda alagada: a gente chama

Aquelle que a ſaluar o mundo veyo:

Não menos gritos vãos ao ar derrama

Toda a Nao de Coelho, com receyo,

Com quanto teue o meſtre tanto tento

Que primeiro amainou que deſſe o vento:

Agora ſobre as nuuens os ſubião

As ondas de Neptuno furibundo,

Agora a ver parece que decião

As intimas entranhas do profundo.

Noto, Auſtro, Boreas, Aquilo querião

Arruinar a machina do mundo,

A noite negra & feya ſe alumia,

Cos rayos, em que o Polo todo ardia.

As Alcioneas aues triste canto

Iunto da costa braua leuantarão,

Lembrando ſe de ſeu paſſado pranto,

Que as furioſas agoas lhe cauſarão:

Os Delfins namorados entre tanto

La nas couas maritimas entrarão,

Fugindo aa tempeſtade, & ventos duros

Que nem no fundo os deixa eſtar ſeguros

Nunca tam viuos rayos fabricou

Contra a fera ſoberba dos Gigantes,

O gram ferreiro ſordido, que obrou

Do enteado as armas radiantes:

Nem tanto o gram Tonante arremeſſou

Relampados ao mundo fulminantes,

No gram diluuio, donde ſos viuerão

Os dous que em gente as pedras conuerterão.

Quantos montes então, que derribarão

As ondas que batião denodadas,

Quantas aruores velhas arrancarão

Do vento brauo as furias indinadas:

As forçoſas raizes não cuidarão

Que nunca pera o ceo foſſem viradas,

Nem as fundas arêas que podeſſem

Tanto os mares que encima as reuolueſſem.

Vendo Vaſco da Gama que tam perto

Do fim de ſeu deſejo ſe perdia,

Vendo ora o mar ate o inferno aberto,

Ora com noua furia ao ceo ſubia,

Confuſo de temor, da vida incerto,

Onde nenhum remedio lhe valia,

Chama aquelle remedio ſancto & forte

Que o impoſsibil pode, desta ſorte.

Diuina guarda, angelica, celeſte,

Que os ceos, o mar & terra ſenhoreds,

Tu que a todo iſrael refugio deſte

Por metade das agoas Eritreas:

Tu que liuraſte Paulo & defendeſte

Das Syrtes arenoſas & ondas feas,

E guardaste cos filhos o ſegundo

Pouoador do alagado & vacuo mundo.

Se tenho nouos medos perigoſos

Doutra Scylla & Caribdis ja paſſados,

Outras Syrtes, & baxos arenoſos,

Outros Acroceraunios infamados,

No fim de tantos caſos trabalhoſos,

Por que ſomos de ti deſemparados,

Se eſte noſſo trabalho não te offende,

Mas antes teu ſeruiço ſo pretende?

O ditoſos aquelles que puderão

Entre as agudas lanças Affricanas

Morrer, em quanto fortes ſostiuerão

A ſancta Fe, nas terras Mauritanas:

De quem feitos illuſtres ſe ſouberão,

De quem ſicão memorias ſoberanas,

De quem ſe ganha a vida com perdella,

Doce fazendo a morte as honras della.

Aſsi dizendo os ventos que lutauão,

Como touros indomitos bramando,

Mais & mais a tormenta acrecentauão,

Pella miuda enxarcia aſſuuiando.

Relampados medonhos não ceſſauão,

Feros trouoẽs que vem repreſentando

Cair o ceo dos exos ſobre a terra,

Cenſigo os elementos terem guerra.

Mas ja a amoroſa ſtrela ſcintilaua

Diante do Sol claro, no Orizonte

Menſageira do dia, & viſitaua

A terra, & o largo mar, com leda fronte:

A deoſa que nos ceos a gouernaua,

De quem foge o enſiſero Orionte,

Tanto que o mar, & a chara armada vira,

Tocada junto foy de medo, & de ira.

Estas obras de Baco ſam por certo,

Diſſe, mas não ſerâ, que auante leue

Tão danada tenção, que deſcuberto

Me ſera ſempre o mal a que ſe atreue,

Iſto dizendo, dece ao mar aberto,

No caminho gaſtando eſpaço breue,

Em quanto manda as nimphas amoroſas

Grinaldas nas cabeças por de roſas.

Grinaldas manda por de varias cores

Sobre cabellos louros a porfia,

Quem não dirâ, que nacem roxas flores

Sobre ouro natural, que amor infia:

Abrandar determina por amores

Dos ventos a nojoſa companhia,

Moſtrandolhe as amadas Nimphas bellas,

Que mais fermoſas vinhão que as eſtrellas.

Aſsi foy, porque tanto que chegarão

A viſta dellas, logo lhe falecem

As forças com que dantes pellejarão,

E ja como rendidos lhe obedecem.

Os pês & mãos, parece, que lhe atarão

Os cabellos que os rayos eſcurecem,

A Boreas, que do peito mais queria,

Aſsi diſſe a belliſsima Oritia.

Não creas, fero Boreas, que te creyo

Que me tiueſte nunca amor constante,

Que brandura he de amor mais certo arreyo,

E não conuem furor a firme amante:

Se ja não poẽs a tanta inſania freyo,

Não eſperes de mi daqui em diante,

Que poſſa mais amarte, mas temerte,

Que amor contigo, em medo ſe conuerte.

Aſsi meſmo a fermoſa Galatea

Dizia ao fero Noto, que bem ſabe

Que dias ha que em vella ſe recrea,

E bem crê que com elle tudo acabe,

Não ſabe o brauo tanto bem ſe o crea,

Que o coração no peito lhe não cabe,

De contente de ver que a dama o manda,

Pouco cuida que faz ſe logo abranda.

Deſta maneira as outras amanſauão

Subitamente os outros amadores,

E logo aa linda Venus ſe entregauão,

Amanſadas as iras & os furores,

Ella lhe prometeo vendo que amauão.

Sempiterno fauor em ſeus amores,

Nas bellas mãos tomandelhe omenagem

De lhe ſerem leais eſta viagem.

Ia a menham clara daua nos outeiros,

Por onde o Ganges murmurando ſoa,

Quando da celſa gauea os marinheiros

Enxergarão terra alta pella proa,

Ia fora de tormenta, & dos primeiros

Mares, o temor vão do peito voa,

Diſſe alegre o Piloto Melindano,

Teria he de Calccu, ſe não me engano.

Eſta he por certo a terra que buſcais

Da verdadeira India, que aparece

E ſe do mundo mais não deſejais,

Voſſo trabalho longo aqui fenece:

Soſſrer aqui não pode o Gama mais,

De ledo em ver que a terra ſe conhece,

Os geolhos no chão, as mãos ao ceo

A merce grande a Deos agardeceo.

As graças a Deos daua, & razão tinha

Que não ſomente a terra lhe moſtraua,

Que com tanto temor buſcando vinha

Por quem tanto trabalho eſprimentaua,

Mas via ſe liurado tão aſinha

Da morte, que no mar lhe aparelhaua

O vento duro, feruido, & medonho,

Como quem deſpertou de horrendo ſonho.

Por meyo deſtes horridos parigos

Deſtes trabalhos graues & temores,

Alcanção os que ſam de fama amigos

As honras immortais, & graos mayores:

Não encoſtados ſempre nos antigos

Troncos nobres de ſeus anteceſſores,

Não nos leitos dourados, entre os finos

Animais de Moſcouia Zebellinos.

Não cos manjares nouos & exquiſitos,

Não cos paſſeos molles & oucioſos,

Não cos varios deleites & infinitos

Que afeminão os peitos generoſos:

Não cos nunca vencidos apetitos

Que a Fortuna tem ſempre tão mimoſos,

Que não ſoffre a nenhum que o paſſo mude

Pera algũa obra heroica de virtude.

Mas com buſcar co ſeu forçoſo braço

As honras, que elle chame proprias ſuas,

Vigiando, & veſtindo o forjado aço

Soffrendo tempeſtades & ondas cruas:

Vencendo os torpes frios no regaço

Do Sul, & regioẽs de abrigo nuas,

Engulindo o corrupto mantimento

Temperado com hum arduo ſofrimento.

E com forçar o rosto que ſe enfia,

A parecer ſeguro, ledo, inteiro,

Pera o pilouro ardente, que aſſouia

E leua a perna, ou braço ao companheiro:

Destarte o peito hum calo honroſo cria

Deſprezador das honras, & dinheiro,

Das honras, & dinheiro, que a venntura

Forjou, & não vertude juſta, & dura.

Deſtarte ſe eſclarece o entendimento,

Que experiencias fazem repouſado,

E fica vendo, como de alto aſſento,

O baxo tracto humano embaraçado,

Eſte onde tiuer força o regimento

Direito, & nam de affeitos occupado,

Subirà (como deue) a illuſtre mando,

Contra vontade ſua, & não rogando.

Os Lusíadas(#27236) · 第 1 / 6 题