Venho já a declarar que me desgosta o titulo d'este meu romance; mas não
é esta a primeira vez que meus actos, invenções e palavras me desgostam,
embora extranhos applaudam uns e outras.
Tem uma certa graça, mixto de luz e escuridade, aquelle titulo: o que
não tem é verdade, verdade moral, acommodada á minha philosophia.
No romance que publiquei, intitulado AS TRES IRMÃS, rematei dizendo que
não ha bons nem maus destinos, como se dissesse que o homem é o
responsavel, o agente, o motor arbitrario de suas acções, das quaes lhe
advém o socego ou a inquietação, a dita ou a desdita, a publica estima
ou a desprezadora abominação.
Quem tal crê e disse, rejeita e desadora estrellas propicias ou
funestas, como cousa de agouros, de crendices, de poetas, e de vulgar
superstição.
O titulo, pois, tem muito com a fórma, e pouquissimo ou nada com a
substancia d'esta novella. Quem não quizer chamar-lhe ESTRELLAS
FUNESTAS, emende para os MAUS CAMINHOS DA DESGRAÇA, ou outro titulo
de seu sabor, que eu de tudo me contento, se o não denominarem INVENÇÕES
DO AUCTOR.
Historia mais verdadeira nunca eu a escrevi. Por verdadeira de mais,
estiveram os apontamentos d'ella a olvidarem-se-me na escuridade para
onde os afastaram deferencias, appellidos e pessoas, umas que se prezam
em si, outras, menos em si, e muito em seus antepassados.
Deliberei, depois de censurado por pessoa que, a meu instar, me cedera
as notas, a dar á estampa successos, que a bem merecem, por serem de
lição a infelizes, caidos em abysmos por suas proprias mãos abertos.
Para me expôr á somenos tacha de indiscreto, mudei nomes, sentindo não
poder mudar localidades, que então lá se ia abaixo, na rampa das
chamadas conveniencias, o timbre da verdade historica, a côr, a
essencia, o melhor das obras de arte.
Se, mesmo assim, muitos leitores, maiores de cincoenta annos, levantarem
o sendal com que lhes quiz encobrir algumas feições da verdade, e as
divulgarem a seus amigos, d'aqui me despeno da coima de linguareiro,
offensor de cinzas illustres, e assoprador d'ellas aos olhos de quem os
fecha para não ver os peccados de seus avós, contentando-se com ve'-los
retratados na lona, e ennobrecidos nos bens herdados.
Dou-me pressa em destruir prevenções. Varram de sua idéa a perspectiva
de que eu vá quebrar lages e carneiros por essas egrejas e capellas,
chamando a juizo de homens as ossadas que, de muito, se ficaram
esperando a volta do espirito para o supremo dia. Longe d'isso. Tenho
escassamente uma pobre penna de historiador; são leveiras de mais as
minhas mãos para sustentarem a balança dos julgamentos, cujo fiel, para
obedecer ao ouro fio, releva que penda em dedos, menos encodeados na
cenosidade dos vicios.
Aquietem, pois, seus escrupulos os fieis á religião dos tumulos. Hão de
ir comigo ao longo de um salão, em cujas paredes, sob profundos tectos
de castanho armorejados, pende uma galeria de retratos, uns carrancudos
como a philaucía, outros sorrindo ironicos, como em desprezo da nossa
contemplação. As arrogantes effigies, ao cabo de contas, ficarão rindo;
e nós bem póde ser que passemos chorando, porque somos de uma geração
que não póde, nem quer, fazer riso da desgraça.
Esta historia é innocente. Podem le'-la senhoras de imaginação
impressionavel, e os moços descontentes da vida incolor e monotona que a
sociedade lhes prescreve. O auctor, quando era capaz, não enganou alguem
escrevendo: ahi estão uns trinta volumes a defende'-lo da calumnia, se
alguem o argue de romancista corruptor. Agora, que está velho, dobrada
obrigação lhe corre de desvanecer preconceitos, que disparam em desordem
da vida, e sacrificam os thesouros da paz ao pobre do coração, que tão
mal os paga, por não ter cousa boa que dar por elles.
Crê o auctor que ha, no caminho da vida, muitas paragens alegres, se o
caminheiro as sabe ver com os olhos já cançados de perseguir as
fugitivas visões. Nem podia deixar de ser assim, a menos que a
verdade, filha do céo, não fosse um mal. E a verdade, para uns temporã,
e serôdea para outros, a final, a todos allumia, como o sol do Senhor,
que primeiro doura a colmada choça do montanhez, e depois desce os
flancos da serra, doura e lustra os zimborios dos palacios, e verte do
seu zenith um raio nas cavernas onde a formiga passeia por entre as
unhas do leão.
Aquellas paragens verdadeiras do caminho da vida são hospedagem commum;
todavia, os mais dilectos do anjo bom, que alli recebe os peregrinos,
são os mais infelizes, os mais quebrantados da jornada, os que subiram
até lá o desfiladeiro das illusões, e bem mereceram a graça do anjo,
rebaptisados na agua de suas lagrimas.
Sentado n'uma d'essas paragens é que eu conto esta historia ás pessoas
que a quizerem ouvir por complacencia com a minha velhice, e porque eu
lhe assevero que este e todos os meus romances, olham a prevenir o
leitor contra os infortunios procedentes da mentira do coração.