IV

Se dos costumes dos homens do mar passamos aos trabalhos manuaes, que

constituem a parte pratica da sua arte, vamos encontrar nos Lusiadas

descripções e allusões a quasi todas as fainas e manobras tão variadas, que

são necessarias para fazer servir essa complicada machina que se chama

_navio_.

É imponente o espectaculo que offerece a tolda de um navio em faina geral

de fazer-se de véla. Por mais numerosa que seja a guarnição, todos tem o

seu posto detalhado e todos tem que fazer. Descreve Camões essa faina da

maneira seguinte:

Já nas naus os bons trabalhadores

Volvem o cabrestante, e repartidos

Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,

Outros quebram co'o peito a dura barra,

Outros pendem da verga e já desatam

A véla.

(Lus. IX, 10, 11.)

Está o ferro a _pique_, redobram os esforços dos marinheiros para o

suspender;

As ancoras tenaces vão levando,

(Lus. II, 18.)

e ao mesmo tempo

Da proa as vélas _sós_ ao vento dado,

(Lus., ibidem.)

obrigam o navio a _fazer cabeça_, e eil-o que vae em demanda da barra.

Nos versos que acabamos de citar estão compendiadas todas as manobras

necessarias para um navio se fazer de véla. Não o faria melhor o Bonnefoux

ou o Bréart!

Na descripção da tempestade do canto VI, encontram-se todas as manobras de

que se lança mão debaixo de tempo. O mestre, que presente o golpe de vento,

_apita á gente_ e manda _carregar e ferrar joanetes_,

Os traquetes das gaveas tomar manda,

(Lus. VI, 70)

Mal estão carregados os joanetes, já o vento está a contas com o navio.

_Carrega a véla grande!_

«Amaina a grande véla!»

(Lus. VI, 71.)

Não se carregou a maior a tempo, por isso ella se rasgou, e o navio, dando

a borda de sotavento, metteu dentro uns poucos de _mares_;

No romper da véla a nau pendente

Toma grão somma d'agua pelo bordo.

(Lus. VI, 72.)

É preciso allivial-o, quanto seja possivel, dos pesos, e esgotar a agua.

Por isso o mestre ordena:

«Alija tudo ao mar,

Vão outros dar á bomba, não cessando!»

(Lus., ibidem.)

e não se esquece de reforçar a _gente do governo_, pondo ao leme

Tres marinheiros duros e forçosos,

(Lus. VI, 73.)

passando-lhe ainda para mais segurança

Talhas d'uma e d'outra parte.

(Lus., ibidem.)

Chega o navio a um porto pouco conhecido. Ao _investir_ a barra depara-se

com uma pedra á flor d'agua. É necessario _safar_ d'ella e quanto antes.

Aqui é inevitavel alguma confusão; não se sabe para que lado será melhor

_guinar_, e por isso os marinheiros

Maream vélas, ferve a gente irada

O leme a um bordo e a outro atravessando;

O mestre da poppa brada.

(Lus. II, 24.)

Com similhante contratempo é melhor não commetter a barra e _fundear em

franquia_; por isso o commandante

Não entra pela barra, e surge fóra.

(Lus. I, 102.)

Luiz de Camões marinheiro · 第 11 / 17 题