Se dos costumes dos homens do mar passamos aos trabalhos manuaes, que
constituem a parte pratica da sua arte, vamos encontrar nos Lusiadas
descripções e allusões a quasi todas as fainas e manobras tão variadas, que
são necessarias para fazer servir essa complicada machina que se chama
_navio_.
É imponente o espectaculo que offerece a tolda de um navio em faina geral
de fazer-se de véla. Por mais numerosa que seja a guarnição, todos tem o
seu posto detalhado e todos tem que fazer. Descreve Camões essa faina da
maneira seguinte:
Já nas naus os bons trabalhadores
Volvem o cabrestante, e repartidos
Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,
Outros quebram co'o peito a dura barra,
Outros pendem da verga e já desatam
A véla.
(Lus. IX, 10, 11.)
Está o ferro a _pique_, redobram os esforços dos marinheiros para o
suspender;
As ancoras tenaces vão levando,
(Lus. II, 18.)
e ao mesmo tempo
Da proa as vélas _sós_ ao vento dado,
(Lus., ibidem.)
obrigam o navio a _fazer cabeça_, e eil-o que vae em demanda da barra.
Nos versos que acabamos de citar estão compendiadas todas as manobras
necessarias para um navio se fazer de véla. Não o faria melhor o Bonnefoux
ou o Bréart!
Na descripção da tempestade do canto VI, encontram-se todas as manobras de
que se lança mão debaixo de tempo. O mestre, que presente o golpe de vento,
_apita á gente_ e manda _carregar e ferrar joanetes_,
Os traquetes das gaveas tomar manda,
(Lus. VI, 70)
Mal estão carregados os joanetes, já o vento está a contas com o navio.
_Carrega a véla grande!_
«Amaina a grande véla!»
(Lus. VI, 71.)
Não se carregou a maior a tempo, por isso ella se rasgou, e o navio, dando
a borda de sotavento, metteu dentro uns poucos de _mares_;
No romper da véla a nau pendente
Toma grão somma d'agua pelo bordo.
(Lus. VI, 72.)
É preciso allivial-o, quanto seja possivel, dos pesos, e esgotar a agua.
Por isso o mestre ordena:
«Alija tudo ao mar,
Vão outros dar á bomba, não cessando!»
(Lus., ibidem.)
e não se esquece de reforçar a _gente do governo_, pondo ao leme
Tres marinheiros duros e forçosos,
(Lus. VI, 73.)
passando-lhe ainda para mais segurança
Talhas d'uma e d'outra parte.
(Lus., ibidem.)
Chega o navio a um porto pouco conhecido. Ao _investir_ a barra depara-se
com uma pedra á flor d'agua. É necessario _safar_ d'ella e quanto antes.
Aqui é inevitavel alguma confusão; não se sabe para que lado será melhor
_guinar_, e por isso os marinheiros
Maream vélas, ferve a gente irada
O leme a um bordo e a outro atravessando;
O mestre da poppa brada.
(Lus. II, 24.)
Com similhante contratempo é melhor não commetter a barra e _fundear em
franquia_; por isso o commandante
Não entra pela barra, e surge fóra.
(Lus. I, 102.)