DAVID CORAZZI--EDITOR
EMPREZA HORAS ROMANTICAS
Rua da Atalaya, 40 a 52
1880
Quem deixará, até onde cheguem as suas forças, de concorrer para
illustrar o nome do Poeta extraordinario que emprehendeu e levou a
cabo o levantar o monumento da nossa gloria nacional?
Visconde de Juromenha. _Obras de Camões._ Vol. I, pag. 7.
O perscrutar os mais fundos recessos do espirito de um poeta como
Camões, não é indigno da critica, nem um estudo vasio de interesse.
J. G. Monteiro. _Carta ácerca da ilha dos amores_, pag. 11.
A maior parte das observações, que vão ler-se, foram feitas longe da
patria, quando o poema de Camões era o unico amigo intimo com quem
desabafavamos saudades e soffrimentos. Concluimos depois este humilde
estudo em uma aldeia de Portugal, onde faltavam os bons livros e mestres,
cuja consulta seria indispensavel para que elle fosse menos que imperfeito.
Sirva isto de desculpa á rudeza d'estas linhas, que só pretendem ser
homenagem de agradecimento áquelle que tão bem soube fallar ao coração do
marinheiro.
Abril de 1880.
I
O nosso Epico, o immortal auctor dos _Lusiadas_, o escriptor que fez com
que o estrangeiro não esquecesse de todo o nome portuguez,--tudo isto se
diz que foi Luiz de Camões. A fibra patriotica julga-se quite da divida de
gratidão ao grande Poeta com ter-lhe erigido um monumento de gosto
duvidoso, em sitio acanhado da capital, e com pronunciar o seu nome quando
lhe dizem os desalentados que Portugal é uma terra morta. Mas, por se
orgulharem tanto de ser filhos do mesmo torrão em que nasceu Camões, nem
por isso esses, que tantas vezes lhe citam o nome, sentem tentação de tomar
conhecimento, sequer passageiro, do que elles dizem ser um padrão das
nossas glorias; e, não fallando nos que propriamente se dedicam aos estudos
litterarios, porque a esses incumbe o dever de conhecerem as obras do nosso
Poeta, raro se encontrará nas classes illustradas um portuguez que dos
_Lusiadas_ tenha lido mais que as poucas oitavas _selectas_, que se
encontram nos compendios de instrucção.
Assim, ao passo que o inglez, o allemão ou o francez menos dado ás lides
litterarias, mas que se preze de ter uma educação regular, conhece, possue,
lê e cita amiudadas vezes Shakespeare, Milton e Byron, ou Schiller e
Goethe, ou Molière e Lafontaine, nós, despresando as joias de metal sem
liga pelos enfeites de ouropel, fallamos de Camões quasi como os cegos
poderão fallar da luz. E o mal é tanto maior quanto uma audaciosa escola
contemporanea tenta arrogar-se o exclusivo de fallar verdade, de
_photographar_ a natureza, como dizem os seus corypheus, dando a entender
que o que antes d'elles se escreveu era tudo falso, que ninguem tinha
habilidade para copiar a natureza, e que só elles sabem chamar as cousas
pelo seu nome!
Não nos permittem as nossas poucas forças entrar na liça contra essa
escola, que hoje parece ter assambarcado o gosto e os louvores do publico;
só quizeramos pedir respeitosamente aos thuriferarios do novo idolo, que
consintam a algum _retrogrado_ da arte o conservar no mais intimo do seu
espirito a crença de que, em tempos que já lá vão, houve quem escrevesse
com realidade, quem pintasse a natureza tal como ella é; consintam-lhe que,
lendo o pobre Camões, encontre n'elle descripções verdadeiramente reaes ou
_realistas_, porque são apenas verdadeiras.
Para se ser poeta, verdadeiramente poeta, para se fallar poeticamente da
natureza ou das artes, não basta ter a inspiração do rythmo, saber alinhar
palavras ora altisonantes ora docemente musicaes; é necessario conhecer a
natureza, conhecer as artes e as sciencias de que se quer fallar, é
necessario sentil-as, consubstanciar-se com ellas. Para fallar de
astronomia, ainda mesmo poeticamente, é necessario conhecer os astros; para
fallar do mar é necessario ter percorrido os oceanos, ter presenciado as
tempestades, ter soffrido com o marinheiro, porque
quem não sabe a arte, não na estima
(Lus. V, 97.)
Quem não tiver conhecido exactamente e sentido as cousas que quer
descrever, só póde copiar uma natureza subjectiva, filha da imaginação,
pura invenção do seu cerebro. É por isso que vemos hoje um Pharaó montado
em corcel andaluz, mastodontes em correrias desenfreadas pelas florestas
virgens da Europa contemporanea, condores pousados graciosamente nos
calices das rosas, e... _il resto no lo dico_.
Mas Camões viu os continentes e as ilhas, os oceanos e as montanhas, e por
isso é o grande pintor da natureza; Camões foi soldado, e por isso é o
veridico narrador das batalhas; Camões serviu cargos do estado, e por isso
dos seus versos se póde tirar um tratado completo de politica; Camões,
finalmente, navegou muito, e por isso é, como diz Alexandre de Humboldt, um
grande pintor maritimo.
Espiritos elevados e intelligencias altamente illustradas tem já
considerado o nosso Poeta debaixo de alguns d'estes pontos de vista.
Parece-nos, comtudo, que ainda se não explorou sufficientemente um dos
veios mais ricos d'essa riquissima mina. Tentaremos nós, em rapido esboço,
mostrar como na sua palheta de multiplices côres tinha Camões algumas das
mais brilhantes e apropriadas para descrever o mar e pintar os homens que
n'elle vivem. Procuraremos mostrar como Camões foi um marinheiro, mas um
marinheiro de alma e coração divinamente inspirados; procuraremos
demonstrar como lhe assenta bem o epitheto de _Naval Poet_, que lhe deu um
escriptor inglez, e teremos assim justificado o titulo que demos a este
despretencioso trabalho.