Chama-se isto voar! Toda essa altura

Dava-a bem por uma hora de ventura...

Antes minha alma não voasse... e visse!

Coimbra, Novembro, 1862.

II

A UM CRUCIFIXO

(_Primeira elaboração do Soneto de p. 20 dos_ Sonetos Completos)

Dieu n'est pas! Dieu n'est plus

Ha mil annos, oh Christo, ergueste os magros braços,

E clamaste da cruz: «Ha Deus!» e olhaste, oh crente,

O horizonte futuro, e viste em tua mente

O alvor _do céo_ banhar _de luz_ esses espaços!

Porque morreu sem ecco o ecco de teus passos?

E de tua palavra (oh Verbo!) o som fremente?

Morreste! ó dorme em paz: não volvas, que descrente

Arrojáras de novo á campa os membros lassos!...

_Ha mil annos! ha mil! Que é d'ella a tua esp'rança?

Ainda, como então, Amor--traduz--Vingança,

E é o int'resse glacial das almas o sudario_!

_Ainda_, como então, víras o mundo exangue?

E ouvíras perguntar: «De que serviu o sangue

Com que regaste, oh Christo, as urzes do Calvario?!»

Coimbra, Novembro, 1862.

* * * * *

VARIANTE DO 2.^o TERCETO

Agora, como então, na mesma terra erma,

A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,

Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario.

III

DECOMPOSIÇÃO

«Eu não sou dos que a patria só adoram»

Como adora o regato a propria serra:

Deus n'uma gleba apenas não se encerra;

Se visita esses mundos, que demoram

De céo a céo, tambem cafres o imploram.

Mas deixae que uma lagrima sincera

Possam os olhos dar, olhando-a, á terra

De onde a primeira vez aos céos se foram.

Sim, vêr-te, Portugal! eu chóro ao ver-te!...

Como ao Leão gigante do Occidente

Lhe cáe a garra, e em nada se converte!...

Não é isto o que eu chóro: o que me dóe,

É como aquella juba omnipotente,

Em pennas de pavão se decompõe!...

Coimbra, Janeiro, 1863.

IV

NIHIL

Homem! Homem! mendigo do Infinito!

Abres a bocca e estendes os teus braços

A vêr se os astros cáem dos espaços

A encher o vacuo immenso do finito!

Porque sóbes á rocha de granito?

Porque é que dás no ár tantos abraços?

E cuidas amarrar com ferreos laços

Um reflexo da sombra de um esp'rito?

Vê que o céo, por escarneo, a luz nos lança!

Que, á tua voz, a voz da immensidão

Responde com immensa gargalhada!

A idéa fechou a porta á esp'rança,

Quando lhe foi pedir gazalho e pão...

Deixou-a cara a cara com o Nada!!...

Maio, 1863.

V

QUINZE ANNOS

(_Primeira elaboração do Soneto de p. 30 dos_ Sonetos Completos)

Eu amo a vasta sombra das montanhas

Que estendem sobre os largos continentes

Os seus braços de rocha negra, ingentes,

Bem como braços colossaes de aranhas.

D'ali o nosso olhar vê tão extranhas

Coisas, por esse céo! e tão ardentes

Visões _amostra_ o mar de ondas trementes

E as estrellas, d'ali, vê-as tamanhas.

Amo a grandeza _tenebrosa e_ vasta:

A grande idéa como _um grande fruito_

De _um_'arvore colossal que _isto_ domina;

Mas tu, criança, sê tu boa... e basta,

Sabe amar e sorrir... _mulher, é muito_...

Mas a ti só te quero pequenina...

Coimbra, 18 de abril de 1863.

VI

SARCASMOS

Está deserta a estrada do Infinito,

É apenas o cêo do nada espelho,

A eternidade é fossil: Deus é velho,

E o homem olha o céo de fito em fito!

A cruz de Christo está feita um palito,

Embrulham-se caminhos no Evangelho;

Cada qual dá a Deus o seu conselho:

Nem já é Verbo o verbo... é só um _Dito_!

Nada d'isto me dá a mim cansado;

Mas morrer Satanaz tambem de frio...

Mas não haver já mal que se combata...

Não poder já ao demo um condemnado

Render a alma immortal... por desfastio...

É isto o que me dóe, o que me mata!...

Maio, 1863.

XVII

AMOR DE FILHA

AMOR DE FILHA

(NO ALBUM DE UMA SENHORA)

...........o sangue é vida,

e as Mães a fonte d'ella...

João de Deus

Ainda a trabalhar, dedos formosos!

Nem tanto affinco: Deus tambem não quer

Que se cumpra o preceito tanto á letra;

Preceito é trabalhar, não que se estraguem

Esses formosos dedos de mulher.

Já o sol se escondeu atraz da serra,

E o bordado não céssas de bordar;

Quando abri de manhã esta janella,

Já lá estavas no posto, de olhos roxos,

Como se foram roxos de chorar!

Forte trabalho! não me enganas, bella!

Bem sei eu quem te dá tamanho ardor...

Pois nem um olhar a quem passou na rua,

Dizendo:--É bella! e olhando-te? nem isso?...

Ai tanto trabalhar! só por amor...

Que importa o que passou? no peito um nome

Te domina, e na mente uma imagem só...

Feliz cabeça, que hade ornar em breve

O bordado gentil em que trabalhas

Com esse affinco, que causou meu dó.

Feliz! sim; que lhe guarda aquelle peito

Largo e rico thesouro de affeição;

Pois magoar estes olhos, e estes dedos

Formosos estragar--homem ditoso--

Só faz o amor que vem do coração!...

Tu, que talvez repouzes no ocio brando,

(Se não corres talvez de flôr em flôr)

Vê tu que sacrificios immerecidos!...

Mas um menino cego é quem nos vence,

Que a isto e a mais obriga o louco amor!

........................................

Mas, não! Quem lá no fundo, meio occulto

Entrevejo na sombra, como quem

Teme do dia a luz--luz orgulhosa,

Luz que ao feliz afaga, ao triste afflige--

Quem triste e só, se occulta mais além?

Quem, se o dia findou, recebe o beijo

E outro recebe logo que é manhã?

Quem--emquanto a alampada nocturna

Alumia a vigilia--sente em sonhos

Uma lagrima de amor molhar-lhe as cans?

Perdão, mulher! e mais que mulher, filha,

Perdão! louco julguei e impio tambem,

Que tinhas outro amor: como se possa

Ter uma filha amor ou pensamento

Que todo não pertença a sua mãe!

Feliz, quem--pobre--tem um tal arrimo;

Quem--cega--pode vêr uma tal luz:

Quem--cega e pobre e triste e desprezada--

Tem uma mão de filha que piedosa

Té aos degráos do tumulo a conduz!...

........................................

É nobre o teu trabalho, mulher bella--

Bella d'aquella luz que vem dos céos,

A quem nas áras da fiel piedade

Sacrifica illusões da mocidade

E segue o seu caminho crente em Deus!

Nem mais um riso, amigos! Respeitemos

O que ella faz ali com tanto ardor;

Não são enfeites vãos, do prazer socios,

É o pão de uma mãe que ali grangêa,

Trabalha por amor... mas outro amor.

Trabalha e enchuga o pranto á velha enferma:

Trabalha noite e dia; é Deus que o quer:

Que importa á filha, quando a mãe lhe soffre,

Que o sol nasça ou decline, ou que se estraguem

Os seus formosos dedos de mulher?

Coimbra, 1862.

XVIII

GARGALHADAS

GARGALHADAS

(NO ALBUM DO SEU CONDISCIPULO DR. JOSÉ BERNARDINO)

_Risum teneatis_!

Bem é fallar de tristezas

Por estes tempos de risos,

Em que passa a Gargalhada

Na face dos paraisos,

E, como o vento do pólo

Forte--mas triste, mas frio--

Que leva as folhas co'as flores,

Como as enchentes do rio.

É o nivel da egualdade

Desde a rocha até á flor,

Desde o amor da virtude

'Té á virtude do amor.

Como os remoinhos de pó

Que a gente vê, a tremer,

Sob-la tarde, nas estradas,

Como demonios correr;

Como a espuma batida

Que a rocha escarra no mar

E a onda depois atira,

Com escarneo, por esse ár;

Como os grôus em debandada

Ao partir-se-lhe a cadeia:

E o torvelinho que atira

No deserto os grãos de areia;

Como tudo, emfim, que geme

No abraço dos turbilhões

E, de olhos postos no inferno,

Lança ao céo as maldições:

Folhas mortas e flores vivas,

Pó da terra e diamantes,

Aguas correntes e charcos,

Os de perto e os mais distantes;

Vozes profundas da terra,

Vozes do peito gementes,

De envolto as feras bravias

Com as aves innocentes;

Como as palhas assopradas

Depois das malhas, na eira,

Ou gottas de agua rolando

De alta náo na larga esteira--

Tudo partido, enlaçado,

Em desesp'rados abraços,

Ruindo pelas quebradas,

Rolando pelos espaços,

Nos _paraisos perdidos_

E--agora--feitos desertos,

Como legião de demonios

Rugindo infernaes concertos;

Tudo vae, se rasga e parte,

Como em cidade assaltada,

Sob esses tufões gelados

Da tormenta--Gargalhada!

Das tormentas! Que sem conto

São esses ventos de morte;

E d'um ao outro horizonte;

E d'um modo e d'outra sorte.

Os suões do céo humano

E os simúns do seu deserto;

O que a gente vê ao longe,

O que a gente sente ao perto;

A gargalhada do sabio,

Que se chama... indagação;

A gargalhada do sceptico,

Que tem nome... negação:

A gargalhada do santo,

Que tem nome--fé e crença;

A gargalhada do impio,

Que se chama... indifferença:

A gargalhada da historia

Que se chama... Revolução:

E a gargalhada de Deus,

Que tem nome... Escuridão;

Eil-as 'hi vêm, as tormentas,

De todos os horizontes,

Subindo de todos vales,

Descendo de todos montes.

Eil-as 'hi vêm: já espectros,

Já como lavas ruindo:

Já nuvem, já mar, já fogo,

Mas sempre, sempre cahindo,

Desde a França... e são revoltas;

Da Allemanha... e são idéas;

Desde a America... e são fardos;

E da Russia... e são cadeias;

De Inglaterra... e são carvões

De fumo enchendo os pórtos;

Do Oriente... e são os sonhos;

E da Italia... Christos mortos;

Da Hespanha... e são traições,

Á noite, por traz dos brejos,

--Mão na faca e mão nas costas--

E _dê cá_... e são bocejos.

É d'estes lados que sopram...

E são os ventos assim...

Levando os cedros do monte

Como os lyrios do jardim...

* * * * *

E, comtudo, no meio da _alegria_

Terrivel, que enche o espaço como o ecco

Das grandes trovoadas--e debaixo

De tantos ventos e de tantos climas,

A Alma--a flor do Paraiso antigo--

Lyrio bello do valle--peito humano,

A Sulamite da Sião celeste--

A Psyche triste e palida, que vaga

Nas praias do infinito--a Alma, oh homens,

Em meio do folgar que vae no mundo,

Cada vez chora mais e mais soluça,

E mais saudosa--a eterna expatriada!--

........................................

........................................

É que o rir do leão sempre é rugido--

E isto, que sae da bocca tenebrosa

Do mundo--e o mundo escuro diz Progresso,

E Força, e Vida, e Lei--isto é soluço

Que sae do peito condemnado,--e quando

Vae a sahir, para illudir o misero,

Diz á bocca: «Olha tu como nós rimos»...

Mas não é mais que o arranco da agonia!

Nem pode ser.--Aquelle riso enorme

Quando sae é co'o ruido das tormentas

E, como as grandes aguas, vae rolando,

E esmaga... e não consola!

É como a orgia

Que cuidando folgar... se está matando!

E como esses que dizem dos rochedos

Que _brincam_ com as ondas... quando as partem!

Não é o riso bello da Harmonia,

É apenas gargalhada de Possessos!

Ha dentro d'este mundo algum demonio,

Que o obriga a torcer assim a bocca

Lá quando mais se agita e mais lhe dóe!

Senão, olhae e vêde essa alegria

--Quer seja Idéa ou Força ou Arte, ou seja

A Industria ou o Prazer--de qualquer lado

Que rebente dos labios--vêde como

Faz frio a quem a vê! como entristece

Vêr o gigante louco dar-se beijos

Como em mulher formosa... e ao longe, ao longe

Todo o campo alastrado de flôr's mortas!

........................................

........................................

Mas basta! A luz doirada

Um dia hade surgir!

E a venda, d'esses olhos,

Por fim tambem cahir!

E a Gargalhada immensa

Fechar a horrivel bocca!

E ser canto suave

Essa atroada rouca!

Então!..................

........................

........................

........................

Alma, que sonhas?

Que louco desvairar!...

_Então!!_... Mas--Hoje--esta hora...

É toda p'ra chorar!

Coimbra, Novembro, 1863.

XIX

Á ITALIA

Á ITALIA

POESIA RECITADA NO THEATRO ACADEMICO POR A. FIALHO DE MACHADO

_na noite de 22 de outubro de 1862_

Italia e Portugal! que duas patrias!

Ambas tam bellas, tam amadas ambas!

Uma, a patria do berço; outra a das almas:

Uma, a das artes; outra a dos combates!

Oh! deixae que hoje, aqui, sobre o meu peito,

As estreite, a final.--Ha quanto tempo

Eu quizera juntar-vos, pelas frontes,

Beijar-vos, bem unidas, soluçando,

Como quem, tendo pae, mãe encontrasse.

Portugal! nobre filho de guerreiros!

Viste, primeiro, o sol da liberdade,

Mais feliz, não maior e nem mais digno

Que tua irmã, a Italia.--Ella, entretanto,

Chorava, olhando o céo, negro de nuvens!

Cobriram-n'a de affrontas! sobre os hombros

A toga negra, já como sudario:

O seu corpo partido em dez retalhos:

O extrangeiro assentado nos seus lares...

E não se via sol no céo da Italia!

Dizei-me vós, se pode o grande rio

Existir, sem que as fontes o basteçam?

Se pode quem nasceu fadado ás glorias,

Esquecido morrer? Se os fortes netos

De Mario e de Catão, ir assentar-se

Sosinhos sobre o tumulo dos fortes

--Olhos no chão e pulsos algemados?

Se é possivel que exista um povo--um povo!--

Sem ser livre, e sem sol o céo da Italia?!

O céo da Italia!... esse céo

Tem, por sol, a liberdade!

Riqueza... de claridade...

Mas se foi Deus quem lh'a deu?!

O que Deus dá é sagrado!...

'Stava o povo escravisado

E par'cia, de esquecido,

Prostrar-se tam compungido

Ante os pés de seu Senhor?!

Pois bem! a esse povo escravo

Bastou-lhe o brado d'um bravo

Para se erguer,--eil-o em pé!

E aos tyrannos, aos senhores,

Aos fortes, cheios de fé,

Bastou-lhes ouvir os clamores

D'essa turba esfomeada

Para deixarem a espada...

Raia a nova claridade,

A aurora da liberdade,

D'um proscripto no palor!

O povo toma as espadas,

Meias gastas e olvidadas,

Sobre as campas dos avós:

E, ainda vestido de dó,

Com esforço sobrehumano,

Ergue os hombros... e o tyranno

Treme... nuta... eil-o no pó!...

Quem derruba, sobranceiro,

Altos colossos por terra?

Quem é que faz d'uma guerra

A festa do mundo inteiro?

Um homem?

Não!

A Justiça!...

Deus!--o unico juiz

Dos povos na grande liça!

Só Deus!--

Elle dá ao triste

Allivios... não odios vís!

A essa Italia que hoje existe

Segredou-lhe, em quanto oppressa,

Como sagrada promessa,

Em vez de iras da vingança,

Estas palavras d'esperança:

«Tudo tem allivio á magoa:

A flôr murcha, a gotta d'agua;

Cruz, o moribundo exangue;

Um filho, a fera mais seva;

Amor, o martyr; a treva,

Um raio de claridade...

E o povo, que é vida e sangue,

Não hade ter liberdade?!»

XX

A GENNARO PERRELLI

A GENNARO PERRELLI

AO ARTISTA E AO PATRIOTA ITALIANO

A arte é como a luz: brilha do alto,

Mas quer livre brilhar: do Deus do bello

Ella é religião: seu templo immenso

Quer sacerdotes mas rejeita o bonzo.

E o artista é como astro gravitando

Em céo e espaço livre: acaso o servo

Pode entoar um canto de ventura?

Só a mão, que não aperta

Grilhão de escravo, disperta

Na arte tal magestade,

Tal sentir e tal verdade--

Vêde essa fronte inspirada

Do artista, allumiada

Ao clarão da liberdade!

XXI

GUITARRILHA DE SATAN

Estes versos appareceram pela primeira vez publicados com o

pseudonymo de _Carlos Fradique Mendes_.

GUITARRILHA DE SATAN

Estranha apparição

Que em minhas noites vejo,

Ó filha do desejo!

Ó filha da soidão!

Não sei qual é o teu nome,

E d'onde vens ignoro:

Sei só que tremo e choro

Como de frio e fome!

Que por fundir comtigo

Suspiros, ais, rugidos,

Déra ideaes queridos,

Deuses e fé que sigo.

Sim! dera as prophecias

E os cultos salvadores,

E os Golgothas e as dôres

E as Biblias dos Messias!

Por ti minh'alma clama,

Corre a meus braços breve,

Sejas de fogo ou neve,

Sejas cristal ou lama!

Se és Beatriz, sou Dante;

Sou santo, se és divina;

Se és Laïs ou Messalina,

Sou Nero, ó minha amante!

1869.

XXII

SERENATA

D'esta poesia escreveu o auctor ao sr. dr. Wilhelm Storck, em carta

por este communicada a J. de Araujo: «A... _Serenata_ nunca foi

impressa que eu saiba, embora não seja de modo algum inédita, pois

tendo sido composta ha 4 annos, na Ilha de S. Miguel, a pedido de

um grupo de rapazes, que ali formaram uma sociedade cantante, é lá

muito conhecida e cantada por esses e outros nos seus passeios

musicaes em bellas noites de verão.»

Storck traduziu esta poesia. Ácerca da traducção escrevia-lhe D.

Carolina Michaëlis, em maio de 1891: «A. de Q. recebeu a sua

traducção da _Serenata_, a qual lhe agrada extraordinariamente.

Antepõe-na ao original d'elle, e diz que lhe sôa como uma canção

allemã.»

SERENATA

Cahiu do céo uma estrella,

Ai, que eu bem a vi tombar!

Era a noite pura e bella,

Murmurava ao longe o mar...

Era tudo extase e calma,

Perfume, encanto, fulgor...

Só no fundo da minha alma

Que desconforto e que dôr!

Dorme e sonha, minha bella,

Emballada ao som do mar...

Cahiu do céo uma estrella,

Triste do que a viu tombar!

Era uma estrella cahida,

Uma entre tantas, não mais!

Era uma illusão perdida,

Era um ai entre mil ais!

E has de viver torturado,

Louco, incerto coração,

Só por um astro apagado,

Por uma morta illusão?

Dorme e sonha, minha bella...

Como chora ao longe o mar!

Cahiu do céo uma estrella,

Ai de mim que a vi tombar!

1873.

XXIII

O POSSESSO

O POSSESSO

(_Commentario ás_ Litanies de Satan)

I

Não creio em ti, Deus-Padre omnipotente,

Creador d'esse espaço constellado,

Que do Cahos e o Nada conglobado

Arrancaste o Universo refervente;

Não creio em ti, Deus-Filho, em cuja mente

Foi o Bem inefavel feito e nado;

E não creio no Espirito gerado

Do eterno Amor, como uma chamma ardente;

Saibam-n'o a terra e os céos: do Crédo antigo,

Cheio de Graça e Fé, refugio e abrigo,

Benção da noite e prece da manhã,

Só creio no Peccado ineluctavel,

Na Maldição primeira inexpiavel,

E no eterno reinado de Satan!

II

Quando o Tedio, com plumbeo capacete,

Esmaga a fronte ao homem desolado,

E o Fausto pensador vê a seu lado

A Negação sentada ao seu bufete,

Seu labio é vil tres vezes, se repete

Preces vãs e esconjuros, humilhado:

O nome de Homem, tragico e sagrado,

Só a quem desafia a Deus compete!

É grata a maldição á alma robusta

Do que nenhum pavor divino assusta,

E no Vasio ergueu seu templo e altar...

Mais fecundo que o Céo, creou o Inferno

A blasfemia.--Honra, pois, e preito eterno

A Satan, que nos deu o blasfemar!

1873.

XXIV

EPIGRAMMA TRANSCENDENTAL

EPIGRAMMA TRANSCENDENTAL

Quem vos fez, céo profundo e luminoso,

Terra fecunda, poderoso oceano,

E a ti deu vida, coração humano,

Que és todo um céo e um mar mysterioso,

Bem sabia que o céo, o mar, a terra,

Tinham de ser só carcere e gehena;

Que havia a vida ser só lucto e pena,

E campo, o coração, de eterna guerra.

Por isso o estranho artifice sombrio,

Que, concebendo o plano da obra ingente,

Ironico talvez, talvez demente,

Logo se arrependeu e o confundiu;

Não deu seu nome, como o archonte epónymo,

Á obra de sua mente e sua mão:

O Creador furtou-se á Creação...

E sendo um máo auctor ficou--anonymo.

1879.

XXV

NA SEPULTURA DE ZARA

Estes bellos versos não eram destinados á imprensa, e appareceram

publicados em uma revista de Lisboa, sem consentimento do auctor ou

da familia da menina cuja morte pranteiam. Anthero recusara-se a

imprimil-os, como se vê da seguinte carta que appareceu entre os

papeis de Eduardo Coimbra e que a mãe do mallogrado moço, a sr.^a

D. Anna Coimbra offereceu com varios outros documentos ao mais

querido amigo de seu filho:

«_Villa do Conde, sabbado.

Meu joven poeta

São reservados, e pertencem ao nosso Joaquim os versos a que

allude. É claro que sem licença d'elle não devem imprimir-se.

Deixe-os no tumulo da desditosa criança, que lá fallam melhor aos

que a estremeceram. Se porém combinarem trasladal-os para qualquer

publicação, addiccione o meu amigo ao nome da pobre Zara o do

desolado irmão. Para elle foram feitos, a elle serão dedicados.

E nada mais por hoje, meu amado poeta

Seu do C._

Anthero de Q.»

ZARA

A JOAQUIM DE ARAUJO

Feliz de quem passou por entre a magoa

E as paixões da existencia tumultuosa,

Inconsciente, como passa a rosa,

E leve, como a sombra sobre a agua.

Era-te a vida um sonho. Indefinido

E tenue, mas suave e transparente...

Acordaste, sorriste... e vagamente

Continuates o sonho interrompido.

1881.

TRADUCÇÃO ALLEMÃ

DE WILHELM STORCK

Glückselig wer vorüberging am Weh

Des Lebens und der Leidenschaft Getose

Unwissend, wie vorübergeht die Rose,

Und flüchtig, wie der Schatten ob der See.

Dein Leben war ein Traum, begriffen kaum

Und leicht und Lieblichkeit D'u trankest;

Du wachtest auf und lacheltest und sankest

Züruck in Deinen unterbroch'nen Traum.

Münster, abril, 91.

XXVI

GLOSA CAMONIANA

Dous ou tres dias antes da morte de Eduardo Coimbra (8, outubro,

84) escreveu Anthero esta bella quadra junto do leito, em que o

moço poeta, quasi agonisante, lhe pedia «um improviso» para a

carteira-album que pouco antes mandara comprar. Essa carteira

offereceu-a a mãe do poeta em recordação dolorosa, ao fiel amigo,

que rubricára n'ella o seu nome, junto do de Anthero, e que dias

depois lhe entregava a chave do caixão do pobre Eduardo.

GLOSA CAMONIANA

(NA CARTEIRA DE EDUARDO COIMBRA)

Pés em chagas, seguimos pela via

Dolorosa, em demanda da Verdade;

Mas achal-a entre os homens ninguem hade...

_Triste o que espera_! _triste o que confia_!

1884.

XXVII

AS FADAS

Estes versos foram escriptos em Lisboa, para a collecção--_Thesouro

poetico da infancia_, que o proprio auctor coordenou. Foram lidos

no dia immediato a João de Deus, «que delles se mostrou

satisfeito», como Anthero escrevia a um amigo. «Para mim, poeta de

genero apocalyptico, foi um verdadeiro _tour de force_.»

AS FADAS

As fadas... eu creio n'ellas!

Umas são moças e bellas,

Outras, velhas de pasmar...

Umas vivem nos rochedos,

Outras, pelos arvoredos,

Outras, á beira do mar...

Algumas em fonte fria

Escondem-se, emquanto é dia,

Sáem só ao escurecer...

Outras, debaixo da terra,

Nas grutas verdes da serra,

É que se vão esconder...

O vestir... são taes riquezas,

Que rainhas, nem princezas

Nenhuma assim se vestiu!

Porque as riquezas das fadas

São sabidas, celebradas

Por toda a gente que as viu...

Quando a noite é clara e amena

E a lua vae mais serena,

Qualquer as póde espreitar,

Fazendo roda, occupadas

Em dobar suas meadas

De ouro e de prata, ao luar.

O luar é os seus amores!

Sentadinhas entre as flóres

Horas se ficam sem fim,

Cantando suas cantigas,

Fiando suas estrigas,

Em roca de oiro e marfim.

Eu sei os nomes d'algumas:

Viviana ama as espumas

Das ondas nos areaes,

Vive junto ao mar, sósinha,

Mas costuma ser madrinha

Nos baptisados reaes.

Morgana é muito enganosa;

Ás vezes, moça e formosa,

E outras, velha, a rir, a rir...

Ora festiva, ora grave,

E vôa como uma ave,

Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?

De Titania, a pequenina,

Que dorme sobre um jasmim?

De cem outras, cuja gloria

Enche as paginas da historia

Dos reinos de el-rei Merlin?

Umas tem mando nos áres;

Outras, na terra, nos mares;

E todas trazem na mão

Aquella vara famosa,

A vara maravilhosa,

A varinha do condão.

O que ellas querem, n'um pronto,

Fez-se alli! parece um conto...

Mesmo de fadas... eu sei!

São condões que dão á gente,

Ou dinheiro reluzente

Ou joias, que nem um rei!

A mais pobre creancinha

Se quiz ser sua madrinha,

Uma fada... ai, que feliz!

São palacios, n'um momento...

Belleza, que é um portento...

Riqueza, que nem se diz...

Ou então, prendas, talento,

Sciencia, discernimento,

Graças, chiste, discrição...

Vê-se o pobre innocentinho

Feito um sabio, um adivinho,

Que aos mais sabios vae á mão!

Mas, com tudo isto, as fadas

São muito desconfiadas;

Quem as vê não hade rir.

Querem ellas que as respeitem,

E não gostam que as espreitem,

Nem se lhes hade mentir.

Quem as offende... Cautela!

A mais risonha, a mais bella,

Torna-se logo tão má,

Tão cruel, tão vingativa!

É inimiga aggressiva,

É serpente que alli está!

E têm vinganças terriveis!

Semeiam cousas horriveis,

Que nascem logo no chão...

Linguas de fogo que estalam!

Sapos com azas, que falam!

Um anão preto! um dragão!

Ou deitam sortes na gente...

O nariz faz-se serpente,

A dar pulos, a crescer...

É-se morcego ou veado...

E anda-se assim encantado,

Emquanto a fada quizer!

Por isso quem por estradas

Fôr, de noite, e vir as fadas

Nos altos mirando o céo,

Deve com geito falar-lhes

Muito cortez e tirar-lhes

Até ao chão o chapéo.

Porque a fortuna da gente

Está ás vezes sómente

N'uma palavra que diz;

Por uma palavra, engraça

Uma fada com quem passa,

E torna-o logo feliz.

Quantas vezes, já deitado,

Mas sem somno, inda acordado,

Me ponho a considerar

Que condão eu pediria,

Se uma fada, um bello dia,

Me quizesse a mim fadar...

O que seria? um thesouro?

Um reino? um vestido de ouro?

Ou um leito de marfim?

Ou um palacio encantado,

Com seu lago prateado

E com pavões no jardim?

Ou podia, se eu quizesse,

Pedir tambem que me désse

Um condão, para falar

A lingua dos passarinhos,

Que conversam nos seus ninhos...

Ou então, saber voar!

Oh, se esta noite, sonhando,

Alguma fada, engraçando

Commigo (podia ser!)

Me tocasse da varinha,

E fosse minha madrinha

Mesmo a dormir, sem a vêr...

E que ámanhã acordasse

E me achasse... eu sei? me achasse

Feito um principe, um emir!...

Até já, imaginando,

Se estão meus olhos fechando...

Deixa-me já, já dormir!

XXVIII

O SOL DO BELLO

O SOL DO BELLO

RECITADA NA NOITE DE 13 DE MAIO DE 1862, NO THEATRO ACADEMICO, POR A.

FIALHO MACHADO

Raios de extincta luz poesias ineditas (1859-1863) · 第 3 / 5 段