Durante o anno de 1867 e parte de 68 viajei em França e Hesp

Produced by Rita Farinha and the Online Distributed

Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was

produced from images generously made available by National

Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

_ANTHERO DE QUENTAL_

RAIOS DE EXTINCTA LUZ

POESIAS INEDITAS

(1859-1863)

COM OUTRAS PELA PRIMEIRA VEZ COLLIGIDAS

PUBLICADAS E PRECEDIDAS DE UM ESCORSO BIOGRAPHICO

POR

THEOPHILO BRAGA

LISBOA

*M. GOMES, Livreiro-Editor*

70, _Rua Garrett_, 72

1892

RAIOS DE EXTINCTA LUZ

_TIRAGEM ESPECIAL_

_D'esta edição tirarem-se_:

4 Exemplares em papel das manufacturas imperiaes do Japão, numerados de

1 a 4.

16 Exemplares em papel Whatman, numerados de 5 a 20.

ANTHERO DE QUENTAL

RAIOS DE EXTINCTA LUZ

POESIAS INEDITAS

(1859-1863)

com outras pela primeira vez colligidas

PUBLICADAS E PRECEDIDAS DE UM ESCORSO BIOGRAPHICO

POR

THEOPHILO BRAGA

LISBOA

*M. GOMES, Livreiro-Editor*

70, _Rua Garrett, 72_

1892

A

Wilhelm Storck, Oliveira Martins

Eça de Queiroz, Alberto Sampaio, Jayme Batalha Reis

Luiz de Magalhães, Joaquim de Araujo

João de Deus

D. Carolina Michaelis de Vasconcellos

Santos Valente, Alberto Telles

Antonio de Azevedo Castello Branco, José Ben Saude

F. Machado de Faria e Maia

José Falcão, Manuel de Arriaga

Anselmo de Andrade, Manuel Duarte de Almeida

etc., etc.

_a todos os que amaram e admiraram Anthero_

_C._

EXPLICAÇÃO PRÉVIA

A publicação d'este livro é um phenomeno litterario de alta importancia.

Compõe-se de uma collecção de _Poesias ineditas_ de Anthero de Quental,

na primeira phase artistica, de 1859 a 1863, quando o seu ideal era

ainda religioso, romantico e espiritualista. Phase ignorada do publico,

acha-se descripta pelo poeta na sua Autobiographia, quando allude á

«educação catholica e tradicional de um espirito naturalmente religioso,

nascido para crêr placidamente e obedecer sem esforço a uma regra

conhecida.»

Ao dar á publicidade o livro revolucionario as _Odes modernas_, em 1865,

accentuada poesia de combate, Anthero rasgou todas as composições

anteriores, para que não ficassem vestigios d'esse periodo

contemplativo. Dera então o maximo relêvo á «revolução moral e

intellectual», como o facto mais importante da sua vida, segundo

confessa na Autobiographia. Truncando as suas origens artisticas,

apagava uma pagina psychologica, tão cheia de verdade e naturalidade,

que a critica nunca poderia reconstruir.

Por uma casualidade feliz um companheiro de Anthero de Quental, que por

esse tempo frequentava a faculdade de medicina, copiára todas as poesias

romanticas: chamava-se Eduardo Xavier de Oliveira Barros Leite,

fallecido prematuramente em 1872. Por um enlace de familia, obtive por

occasião da sua morte o caderno das poesias que copiára, e que o proprio

auctor, que lhe sobreviveu vinte annos, mal suspeitava terem sido

conservadas. Guardei-as pois, como um valioso documento, onde estavam os

primeiros germens do talento poetico de Anthero de Quental;

publicando-as depois da sua morte desgraçada, restituimos-lhe á vida

subjectiva uma pagina luminosa e sympathica que faltava á sua obra e á

litteratura portugueza.

O titulo do livro, _Raios de extincta Luz_, tem a significação do seu

apparecimento posthumo, e o valor de exprimir um presentimento do poeta,

ao começar com este hemistychio a invocação escripta em 1860 para uma

colleccionação projectada.

Para completar este monumento, fizemos pesquizas por albuns

particulares, onde ainda encontrámos primorosos ineditos. Ao dr. José

Bernardino agradecemos a contribuição valiosa com que enriqueceu este

livro; e a Joaquim de Araujo os excerptos ineditos da traducção do

_Fausto_ e outras composições dispersas, que Anthero reservava para

incluir em uma futura edição das _Odes modernas_ e das _Primaveras

romanticas_. Manda o dever moral que se reconheça a cooperação do activo

e intelligente livreiro-editor Manuel Gomes, que ligou a sua iniciativa

á publicação das poesias ignoradas do excelso poeta. Incorporando-as

n'este volume, aqui ficam reunidas a primeira e a ultima maneira

artistica de Anthero de Quental, podendo agora ser julgada de um modo

definitivo a sua obra poetica completa.

ANTHERO DE QUENTAL

ESCORSO BIOGRAPHICO

Bem conhecida é esta alta individualidade, que se manifestou entre a

moderna geração com um extraordinario temperamento de luctador, e que de

repente caíu em uma apathia invencivel, em um desalento moral

progressivo, em uma decadencia physica precoce, e por ultimo no

desespero, que em 11 de setembro de 1891 determinou o suicidio. Quando

em tão breve espaço vemos essas bellas organisações litterarias, como

Camillo Castello Branco, Julio Cesar Machado e Anthero de Quental

truncarem a sua carreira pelo suicidio, não pode deixar de explicar-se

essa fatalidade pela nevrose que n'elles era o estimulo do seu talento e

o motor das suas desgraças. E essa mesma nevrose, que se manifestava

brilhantemente pela invenção imaginosa, pela graça delicada ou pela

inspiração poetica, nunca lhes deixára adquirir uma disciplina mental

que os levasse á analyse de si mesmos, nem uma subordinação moral que os

fortificasse contra o seu espontaneo pessimismo. A critica da acção

litteraria de Anthero de Quental está implicita n'esta caracteristica do

seu organismo.

Anthero de Quental nasceu na Ilha de S. Miguel em 1842, em uma familia

de morgados; n'aquella pequena ilha a falta de cruzamentos nas familias

aristocraticas tem determinado uma terrivel degenerescencia, que se

manifesta pela idiotia e pela loucura. Na familia de Anthero de Quental

existem casos d'esta terrivel _tare hereditaire_. A frequencia na

Universidade de Coimbra, desorientadora para as mais fortes

organisações, não deixou de actuar profundamente no espirito de Anthero

de Quental, lançando-o em uma dissolvente anarchia mental pelos habitos

das arruaças escolares e pelas leituras radicalistas que o levavam a uma

grande sobreexcitação. Foi n'esta crise da adolescencia que em Anthero

de Quental desabrochou o talento poetico e a paixão revolucionaria, que

deu origem a uma liga de espiritos emancipados de todo o

supernaturalismo e de toda a auctoridade temporal, que se denominou a

_Sociedade do Raio_. Este titulo provinha das imprecações que lançavam

ao espaço em occasião de trovoadas, provocando o raio para que os

fulminasse, como expressão de uma vontade individual no universo. As

perseguições contra a Polonia e as luctas pela libertação e unificação

da Italia, tambem acordaram o interesse de Anthero para as questões

politicas. As suas leituras favoritas eram os livros de Proudhon, de

Feuerbach, de Quinet e Michelet, e isso rapidamente, vivendo em uma

atmosphera de discussão permanente, de uma dialectica de sophismas,

aggravada por uma irregularidade de vida, que veiu mais tarde a

determinar a doença que o embaraçou na sua actividade. Anthero de

Quental vivia entre um grupo de estudantes que o divinisára,

considerando-o como um apostolo, um iniciador da humanidade. E elle

proprio chegou a acreditar n'aquella missão, e passados annos, em uma

carta autobiographica, definia-se como o porta-estandarte das idéas

modernas em Portugal.

N'este periodo da vida de Anthero era elle dominado por um condiscipulo

natural de Penafiel, chamado Germano Vieira de Meyrelles, a quem dedicou

a primeira edição das _Odes modernas_. Este Germano Meyrelles era um

typo rachytico e aleijado, dotado de um sarcasmo maligno, resultado da

sua imperfeição physica; exerceu no espirito de Anthero uma acção

corrosiva, privando-o de todos os enthusiasmos, e levando-o quasi á

apathia mental. Quando Germano Meyrelles morreu miseravelmente, deixando

duas crianças filhas naturaes, Anthero tomou conta d'ellas e educou-as

em sua companhia, deixando-lhes o remanescente da sua herança.

O talento de Anthero revelou-se pela poesia no jornal _O Academico_; em

1861, levado pela admiração do lyrismo de João de Deus, cultivou a fórma

do Soneto, que estava longe ainda da belleza que attingiu na sua ultima

phase pessimista.

As idéas politicas revolucionarias e negativistas de que se deixára

possuir determinaram a primeira alteração nas suas concepções poeticas.

Em 1865 publicou em Coimbra a collecção de poesias d'esta phase

revolucionaria com o titulo de _Odes modernas_; mas os productos da sua

actividade poetica, transição para as _Odes modernas_ e _Sonetos_, são

totalmente desconhecidos, porque Anthero de Quental rasgou todas as

composições que não se harmonisavam com o seu novo ideal revolucionario.

Um dos adoradores de Anthero de Quental, que o acompanhava nas tropelias

nocturnas, e que tambem morreu doido em 1872, Eduardo Xavier, colligira

em volume essas poesias da phase romantica; é essa collecção que

possuiamos que hoje publicamos, da existencia da qual o proprio Anthero

nem suspeitava.

A crise moral de Anthero começou propriamente em 1865, quando se achou

sósinho em Coimbra; o curso juridico a que elle pertencia acabára a

formatura em 1863; Anthero teve de repetir um anno, e ao terminar a

formatura em 1864, achou-se sem estimulos que o obrigassem a saír de

Coimbra. Vivia então solitario, meditabundo, desenfadando-se em

digressões nocturnas. Foi n'esse anno de 1865, que irrompeu a celebre

_Questão de Coimbra_; eu é que o estimulei a saír á estacada, dando

réplica ás insidias de Castilho.

Anthero publicou n'esse anno a carta _Bom senso e bom gosto_, que o

revelara ao paiz um polemista ardente, um estylista vigoroso, um

espirito possuido de uma alta inspiração. Anthero de Quental contrahira

perante o paiz e a geração moderna o compromisso de pôr em obra essas

generosas aspirações. De dia a dia tornava-se mais reparavel o seu

silencio, mais censuravel a falta de actividade litteraria. Anthero

soffria um profundo mal estar, que o não deixava entregar-se ao remanso

do estudo; saíu de Coimbra para ir viver em Penafiel com o seu amigo

Germano; depois foi para Guimarães para ao pé de Alberto Sampaio; foi

para o Algarve para o seu amigo Negrão; foi á America, a Pariz, aos

Açores, e por ultimo fixara-se mais algum tempo em Villa do Conde. Não

estava bem em parte alguma.

Os trabalhos litterarios não o seduziam; em Lisboa achou-se com José

Fontana, que se aproveitou do seu perstigio moral para a organisação do

partido socialista, e junto com outros rapazes, Eça de Queiroz, Jayme

Batalha Reis, inaugurou em 1871 as _Conferencias democraticas_ do

Casino, mandadas encerrar pelo ministro marquez d'Avila.

N'estes dous actos Anthero foi impellido, caindo outra vez na apathia de

onde nunca mais saiu, promettendo apezar de tudo vir a publicar um

_Programma para os trabalhos da Geração moderna_. Por occasião da

encyclica de Pio IX proclamando o Syllabus, e por occasião da revolução

de Hespanha em 1868, Anthero de Quental publicou dous opusculos, mais

para mostrar as suas aptidões de folliculario do que a vista clara e o

seguro juizo dos acontecimentos. A sua doença moral tornava-se uma lesão

physica, accentuando-se a sua doença nervosa em 1874.

Na impossibilidade de toda a ordem de trabalho, mas carecendo de occupar

a imaginação no meio dos seus soffrimentos, Anthero de Quental ia dia a

dia burilando um ou outro soneto, em que dava expressão ao estado moral

em que se achava; os amigos foram colligindo estes sonetos, vindo ao fim

de algum tempo Oliveira Martins a formar um precioso volume de que elle

mesmo foi o editor carinhoso. Fez a esse livro uma introduccão vaga

sobre intenções buddhicas e intuições nirvânicas, mas não nos deu a nota

viva do poeta. Os _Sonetos_ de Anthero produziram uma forte impressão,

não só pela profundidade dos sentimentos como principalmente pela

perfeição esmeradissima da fórma; porque os versos das _Odes modernas_,

na expressão das paixões revolucionarias, eram pouco plasticos, e

revelavam mais o philosopho do que o artista.

Nos _Sonetos_ Anthero transfigurara-se. O Dr. Storck, que acabava de

traduzir em bellos versos para a lingua allemã a obra completa de

Camões, ao receber um exemplar dos _Sonetos_ de Anthero fez a alta

consagração de os traduzir para essa lingua eminentemente philosophica.

Para acompanhar a sua traducção pediu o Dr. Storck a Anthero algumas

notas biographicas; em carta de 14 de Maio de 1887 escreveu o poeta uma

especie de Autobiographia que vem junto dos _Sonetos_. É um documento

importante, não pelos dados biographicos, que são vagos e exagerados,

mas pelo alcance psychologico, porque pelas phrases com que Anthero se

glorifica dando-se como o estylísta dotado com o _dom da prosa

portugueza_ e o _porta-estandarte das ideias_ em Portugal, vê-se que

obedecia a uma certa vesania mental, que lhe motivava fundas decepções e

terriveis desalentos. N'esta phase de espirito, Anthero caiu debaixo da

influencia de Oliveira Martins, que não foi mais saudavel do que a de

Germano Meyrelles. Oliveira Martins tinha sido um dos seus

collaboradores na organisação democratica e socialista em Lisboa, quando

publicava a _Republica_ e o _Pensamento social_; mas um dia abandona o

seu ideal, e filia-se em um esgotado partido monarchico a que pretendeu

ir levar vida nova. Foi esta apostasia uma desillusão para Anthero;

soffreu-a calladamente, pedindo aos amigos que lhe não fallassem n'isso.

Vivia então em absoluto isolamento em Villa do Conde, onde era visitado

como um pontifice. Em Janeiro de 1890 deu-se o facto brutal do

_Ultimatum_ do governo inglez sobre a questão africana; da natural

reacção do sentimento nacional contra este acto de selvagismo

diplomatico, nasceu no Porto o movimento de agremiação da _Liga

patriotica do Norte_.

Para dar aos espiritos uma certa unificação moral, lembraram-se do nome

de Anthero de Quental; foram buscal-o a villa do Conde, e conseguiram

interessal-o pelo movimento nacional. Prezidiu a alguns comicios e a

sessões preparatorias da _Liga patriotica do Norte_; mas o poeta não

conhecia a mechanica das assembléas parlamentares, foi facilmente

envolvido por todos aquelles que procuravam desnaturar um movimento tão

saudavel, e por fim quando a _Liga patriotica_ se dissolveu com o mais

escandaloso fiasco, Anthero de Quental retirou-se á sua impotencia,

ferido com um desalento mortal. A data do seu testamento em 9 de

setembro de 1890 revela que elle já pensava em acabar com a existencia.

A dissolução dos caracteres dos seus contemporaneos de Coimbra mais o

desalentava; partira para a ilha de S. Miguel em Julho de 1891, e a

falta de interesse e o tedio de aquella solidão augmentada pela

mesquinhez da vida de Ponta Delgada, determinou a fatal resolução de 11

de setembro, em que se suicidou com dous tiros de rewolver na bocca. Foi

uma existencia verdadeiramente desgraçada; não se revelou com a pujança

que possuia. Herdeiro de uma terrivel nevrose, não teve a ventura de

deparar uma doutrina moral, uma philosophia que lhe fortificasse o

espirito; pelo contrario, as suas leituras de Schopenhauer, e a cultura

do ideal pessimista em que se enlevava artisticamente, incutiram no seu

espirito a ideia do suicidio que involuntariamente se tornou effectiva.

A sua obra é mais um documento psychologico do que um producto

esthetico; e n'este sentido será estudada e confrontada com a de outros

genios egualmente desgraçados.

CARTA AUTOBIOGRAPHICA

*DIRIGIDA AO PROFESSOR WILHELM STORCK*

Traductor dos _Sonetos completos_

Ponta Delgada (ilha de S. Miguel, Açores),

14 de maio de 1887.

Ex.^{mo} Snr.

Só agora me chegou ás mãos a sua estimada carta de 23 de abril ultimo,

pelo facto de me encontrar, ha dois mezes, n'esta ilha (que é a minha

patria) trazido aqui por urgentes negocios de familia. A demora das

communicações com o continente explica este atrazo.

Agradeço a v. ex.^a as amaveis e para mim tão honrosas expressões de sua

carta, e nada me póde ser, como poeta e como homem, mais grato do que o

apreço que um tal mestre e critico manifesta pelas minhas composições,

ao ponto de querer ser meu interprete e introductor junto do publico o

mais culto do mundo e que mais direito tem a ser exigente. Discipulo da

Allemanha philosophica e poetica, oxalá que ella receba com benignidade

essas pobres flôres, que uma semente sua, trazida pelo vento do seculo,

faz desabrochar n'este solo pouco preparado. Qualquer que seja a sua

fortuna, toda a minha gratidão é devida ao bom e gentil espirito, que

generosamente me toma pela mão, para me apresentar.

As informações biographicas e bibliographicas que v. ex.^a me pede,

podem reduzir-se ao seguinte: nasci n'esta ilha de S. Miguel,

descendente de uma das mais antigas familias dos seus colonisadores, em

abril de 1842, tendo por conseguinte perfeito 45 annos. Cursei, entre

1856 e 1864, a Universidade de Coimbra, sendo por ella bacharel formado

em Direito. Confesso, porém, que não foi o estudo do Direito que me

interessou e absorveu durante aquelles annos, tendo sido e ficando um

insignificante legista.

O facto importante da minha vida, durante aquelles annos, e

provavelmente o mais decisivo d'ella, foi a especie de revolução

intellectual e moral que em mim se deu, ao sahir, pobre creança

arrancada do viver quasi patriarchal de uma provincia remota e immersa

no seu placido somno historico, para o meio da irrespeitosa agitação

intellectual de um centro, onde mais ou menos vinham repercutir-se as

encontradas correntes do espirito moderno. Varrida n'um instante toda a

minha educação catholica e tradicional, cahi n'um estado de duvida e

incerteza, tanto mais pungentes quanto, espirito naturalmente religioso,

tinha nascido para crêr placidamente e obedecer sem esforço a uma regra

reconhecida. Achei-me sem direcção, estado terrivel de espirito,

partilhado mais ou menos por quasi todos os da minha geração, a primeira

em Portugal que sahiu decididamente e conscientemente da velha estrada

da tradição.

Se a isto se juntar a imaginação ardente, com que em excesso me dotara a

natureza, o acordar das paixões amorosas proprias da primeira mocidade,

a turbulencia e a petulancia, os fogachos e os abatimentos de um

temperamento meridional, muito boa fé e boa vontade, mas muita falta de

paciencia e methodo, ficará feito o quadro das qualidades e defeitos com

que, aos 18 annos, penetrei no grande mundo do pensamento e da poesia.

No meio das cahoticas leituras a que então me entregava, devorando com

egual voracidade romances e livros de sciencias naturaes, poetas e

publicistas e até theologos, a leitura do _Fausto_ de Goethe (na

traducção franceza de Blaze de Bury) e o livro de Rémusat sobre a nova

philosophia allemã exerceram todavia sobre o meu espirito uma impressão

profunda e duradoura: fiquei definitivamente conquistado para o

_Germanismo_; e, se entre os francezes, preferi a todos Proudhon e

Michelet, foi sem duvida por serem estes dois os que mais se resentem do

espirito de Alem-Rheno. Li depois muito de Hegel, nas traducções

francezas de Vera (pois só mais tarde é que aprendi allemão); não sei se

o entendi bem, nem a indepencia do meu espirito me consentia ser

discipulo: mas é certo que me seduziam as tendencias grandiosas

d'aquella estupenda synthese. Em todo o caso o Hegelianismo foi o ponto

de partida das minhas especulações philosophicas, e posso dizer que foi

dentro d'elle que se deu a minha evolução intellectual.

Como accommodava eu este culto pelas doutrinas do apologista do Estado

prussiano, com o radicalismo e o socialismo de Michelet, Quinet e

Proudhon? Mysterios da incoherencia da mocidade! O que é certo é que,

revestido com esta armadura mais brilhante do que solida, desci confiado

para a arêna: queria reformar tudo, eu que nem sequer estava ainda a

meio caminho da formação de mim mesmo! Consummi muita actividade e algum

talento, merecedor de melhor emprego, em artigos de jornaes, em

folhetos, em proclamações, em conferencias revolucionarias: ao mesmo

tempo que conspirava a favor da União Iberica, fundava com a outra mão

sociedades operarias e introduzia, adepto de Marx e Engels, em Portugal

a Associação Internacional dos Trabalhadores. Fui durante uns 7 ou 8

annos uma especie de pequeno Lassalle, e tive a minha hora de vã

popularidade.

Do que publiquei por esse tempo, ahi vae o que ainda posso lembrar. O

meu primeiro folheto é do anno de 1864. Intitula-se: _Defeza da Carta

Encyclica de S. S. Pio IX contra a chamada opinião liberal_. É um

protesto contra a falta de logica com que as folhas liberaes atacavam o

_Syllabus_, declarando-se ao mesmo tempo fieis catholicos. O auctor,

glorificando o Pontífice pela belleza da sua altitude intransigente em

face do seculo, via n'essa intransigencia uma lei historica, resava

respeitosamente um _De profundis_ sobre a egreja condemnada pela mesma

grandeza da sua instituição a cahir inteira mas não a render-se, e

atacava a hypocrisia dos jornaes liberaes.

O meu ultimo folheto é de 1871. Intitula-se: _Carta ao ex.^{mo} marquez

de Avila e Bolama, sobre a Portaria que mandou fechar as Conferencias do

Casino lisbonense_. As Conferencias Democraticas tinham sido fundadas

por mim com o concurso de homens moços (que quasi todos têm hoje nome na

politica) e eram muito frequentadas pelo escol da classe operaria.

Pareceram perigosas ao governo, que arbitrariamente as mandou fechar. O

meu folheto parece que concorreu, segundo se disse, para a queda do

ministerio, que, de resto, não podia durar muito, sendo dos chamados de

transição. É uma diatribe, mas eloquente.

Entre esses dous extremos, colloca-se a famosa _Questão Litteraria_ ou a

_Questão de Coimbra_, que durante mais de 6 mezes agitou o nosso pequeno

mundo litterario, e foi o ponto de partida da actual evolução da

litteratura portugueza. Os _novos_ datam todos de então. O Hegeltanismo

dos Coimbrões fez explosão.

O velho Castilho, o Arcade posthumo, como então lhe chamaram, viu a

geração nova insurgir-se contra o sua chefatura anachronica. Houve em

tudo isto muita irreverencia e muito excesso; mas é certo que Castilho,

artista primoroso mas totalmente destituido de idéa, não podia presidir,

como pretendia, a uma geração ardente, que surgia, e antes de tudo

aspirava a uma nova direcção, a _orientar-se_ como depois se disse, nas

correntes do espirito da época. Havia na mocidade uma grande fermentação

intellectual, confusa, desordenada, mas fecunda: Castilho, que a não

comprehendia, julgou poder supprimil-a com processos de velho pedagogo.

_Inde irae_. Rompi eu o fogo com o folheto _Bom senso e Bom gosto, carta

ao ex.^{mo} A. F. de Castilho_. Seguiu-se Theophilo Braga, seguiram-se

depois muitos outros, _la melée devint génerale_. Todo o inverno de 1865

a 66 se passou n'este batalhar. Quando o fumo se dissipou, o que se viu

mais claramente foi que havia em Portugal um grupo de 16 a 20 rapazes,

que não queriam saber da Academia nem dos Academicos, que já não eram

catholicos nem monarchicos, que fallavam de Goethe e Hegel como os

velhos tinham fallado de Chateaubriand e de Cousin; e de Michelet e

Proudhon, como os outros de Guizot e Bastiat; que citavam nomes barbaros

e sciencias desconhecidas, como glottica, philologia etc., que

inspiravam talvez pouca confiança pela petulancia e irreverencia, mas

que inquestionavelmente tinham talento e estavam de boa fé e que, em

summa, havia a esperar d'elles alguma cousa, _quando assentassem_.

Os factos confirmaram esta impressão: os 10 ou 12 primeiros nomes da

litteratura de hoje sahiram todos (salvos 2 ou 3) da Escola Coimbrã ou

da influencia d'ella. O Germanismo tomara pé em Portugal. Abrira-se uma

nova éra para o pensamento portuguez. O velho Portugal ainda conservado

artificialmente por uma litteratura de convenção morrera

definitivamente. D'esta especie de revolução fui eu o porta estandarte,

com o que me não desvaneço sobre maneira, mas tambem não me arrependo.

Se a uma ordem artificial se seguia uma especie de anarchia, é isso

ainda assim preferivel, porque uma contem germens de vida, e da outra

nada havia a esperar. Pertence ainda a essa epoca o folheto: _Dignidade

das Lettras e Litteraturas officiaes_.

Durante o anno de 1867 e parte de 68 viajei em França e Hespanha e

visitei os Estados Unidos da America. No fim d'esse anno de 68 publiquei

o folheto: _Portugal perante a Revolução de Hespanha_. Advogava ahi a

União Iberica por meio da Republica Federal, então representada em

Hespanha por Castellar, Pi y Margall e a maioria das Côrtes

Constituintes. Era uma grande illusão, da qual porém só desisti (como de

muitas outras d'esse tempo) á força de golpes brutaes e repetidos da

experiencia. Tanto custa a corrigir um certo falso idealismo nas cousas

da sociedade!

O meu _Discurso sobre as causas da decadencia dos Povos peninsulares nos

seculos XVII e XVIII_, embora pizasse um terreno mais solido, o terreno

da historia, resente-se ainda muito da influencia das ideias politicas

preconcebidas, da critica historica com _tendencias_. É do anno de 1871.

N'esse anno e no seguinte tomei parte activa no movimento socialista,

que se iniciava em Lisboa, e tanto n'essa cidade como no Porto escrevi

bastante nos jornaes politicos. Incidentemente publiquei n'um pequeno

volume, uma serie de estudos com o titulo de _Considerações sobre a

Philosophia da Historia litteraria portugueza_. Creio que é, ainda

assim, o que fiz de melhor, ou pelo menos, de mais razoavel em prosa.

Confesso sinceramente que dou muita pouca importancia a todos esses meus

escriptosinhos de occasião, e até, ás vezes, preciso de certa força de

reflexão para me não envergonhar de ter publicado tanta cousa pouco

pensada. E todavia era applaudido! Porque? Em primeiro logar, creio eu,

porque os que me applaudiam não pensavam, ainda assim, mais nem melhor

do que eu. Em segundo logar, porque me concedeu a natureza o dom da

prosa portugueza, não da prosa de convenção, arremedando o estylo dos

seculos XVI e XVII mas de uma prosa que tem o seu typo na lingua viva e

falada hoje, analytica já nos movimentos da phrase, mas na linguagem

ainda e sempre portugueza. Isso agradou, porque era o que convinha e, em

summa, acabei por ser citado como modelo da prosa moderna! É certo porém

que tudo aquillo são escriptinhos de accasião e que, em prosa, não

produzi ainda o que se chama _uma obra_, isto é, uma cousa original,

pessoal e aprofundada. Ha muito tempo que sei escrever, mas foi

necessario chegar aos 45 annos para ter que escrever. Por isso, deixemos

toda essa farragem que não cito senão para corresponder ao desejo de v.

ex.^a na materia bibliographica. E passemos aos versos.

Além da collecção de sonetos que v. ex.^a conhece, publiquei ainda mais

dois volumes. Um, de 1872, com o titulo de _Primaveras Romanticas_

contêm os meus _Juvenilia_, as poesias de amor e phantasia, compostas na

sua quasi totalidade, entre 1860 e 65, que andavam dispersas por varias

publicações periodicas, e que só em 72 reuni em volume, juntamente com

mais alguma cousa posterior, do mesmo caracter e estylo. Talvez a melhor

maneira de caracterisar esse volume será dizer em francez que é _du

Heine de deuxième qualité_. Como muitas pessoas, por cá, têm achado essa

semelhança, por isso a indico. A 2.^a secção dos _Sonetos completos_ que

não contêm senão composições d'esse periodo dará a v. ex.^a uma idéa

sufficiente do fundo e do estylo d'aquella poesia; assim como a 3.^a

secção lhe dará idéa das _Odes modernas_, cuja 1.^a edição appareceu em

1865. Não sei bem como caracterisar este livro: não é certamente

mediocre; ha n'elle paixão sincera e elevação de pensamento; mas além de

declamatoria e abstracta, por vezes aquella poesia é indistincta, e não

define bem e typicamente o estado de espirito que a produziu. O que ella

representa perfeitamente é a singular alliança, a que atraz me referi

já, do naturalismo hegeliano e do humanitarismo radical francez. Acima

de tudo é, como dizem os francezes, _poesia de combate_: o pamphletario

divisa-se muitas vezes por detraz do poeta, e a egreja, a monarchia, os

grandes do mundo, são o alvo das suas apostrophes de nivelador

idealista. N'outras composições, é verdade, o tom é mais calmo e

patenteia-se n'ellas a intenção philosophica do livro, vaga sim, mas

humana e elevada. A novidade, o arrojo, talvez a mesma indeterminação do

pensamento, apenas vagamente idealista e humanitaria, fizeram a fortuna

do livro, junto da geração nova, o que prova pelo menos que _veiu no seu

momento_: é tudo quanto poderei dizer. Correspondem a este cyclo os

sonetos comprehendidos na 3.^a secção dos _Sonetos completos_, muitos

dos quaes já entraram nas _Odes modernas_. Em 1874 teve este livro uma

2.^a edição muito correcta e contendo varias composições novas que

considero, tal como é e com todos os defeitos inherente á propria

essencia do genero, como definitiva.

N'esse mesmo anno de 1874 adoeci gravissimamente, com uma doença nervosa

de que nunca mais pude restabelecer-me completamente. A forçada inacção,

a perspectiva da morte visinha, a ruina de muitos projectos ambiciosos e

uma certa acuidade de sentimentos, propria da nevrose, puzeram-me

novamente e mais imperiosamente do que nunca, em face do grande problema

da existencia. A minha antiga vida pareceu-me vã e a existencia em geral

incomprehensivel. Da lucta que então combati, durante ou 5 ou 6 annos,

com o meu proprio pensamento o meu proprio sentimento que me arrastavam

para um pessimismo vacuo e para o desespero, dão testemunha, além de

muitas poesias, que depois destrui (subsistindo apenas as que o Oliveira

Martins publicou na sua introducção aos _Sonetos_) as composições que

perfazem a secção 4.^a (de 1874 a 80) do meu livrinho. Conhece-as v.

ex.^a, não preciso commental-as. Direi sómente que esta evolução de

sentimento correspondia a uma evolução de pensamento. O naturalismo,

ainda o mais elevado e mais harmonico, ainda o de um Goethe ou de um

Hegel, não tem soluções verdadeiras, deixa a consciencia suspensa, o

sentimento, no que elle tem de mais profundo, por satisfazer. A sua

religiosidade é falsa, e só apparente; no fundo não é mais do que um

paganismo intellectuel e requintado. Ora eu debatia-me desesperadamente,

sem poder sahir do naturalismo, dentro do qual nascera para a

intelligencia e me desenvolvera. Era a minha atmosphera, e todavia

sentia-me asphixiar dentro d'ella. O Naturalismo, na sua fórma empirica

e scientifica, é o _struggle for life_, o horror de uma lucta universal

no meio da cegueira universal; na sua fórma transcendente é uma

dialetica gelada e inerte, ou um epicurismo egoistamente contemplativo.

Eram estas as consequencias que eu via sahir da doutrina com que me

creara, da minha _alma mater_, agora que a interrogava com a seriedade e

a energia de quem, antes de morrer, quer ao menos saber para que veiu ao

mundo.

A reacção forças moraes e um novo esforço do pensamento salvaram-me do

desespero. Ao mesmo tempo que percebia que a voz da consciencia moral

não pode ser a unica voz sem significação no meio das vozes innumeras do

Universo, refundindo a minha educação philosophica, achava, quer nas

doutrinas, quer na historia, a confirmação d'este ponto de vista. Voltei

a ler muito os philosophos, Hartmann, Lange, Du Bois-Raymond e, indo ás

origens do pensammento allemão, Leibnitz e Kant. Li ainda mais os

moralistas e mysticos antigos e modernos, entre todos a _Theologia

Germanica_ e os livros buddhistas. Achei que o mysticismo, sendo o

desenvolvimento psychologico, deve corresponder, a não ser a consciencia

humana extravagancia no meio do Universo, á essencia mais funda das

cousas.

O naturalismo appareceu-me, não já como a explicação ultima das coisas,

mas apenas como o systema exterior, a lei das apparencias e a

phenomenologia do Sêr. No _Psychismo_, isto é, no Bem e na Liberdade

moral, é que encontrei a explicação ultima e verdadeira de tudo, não só

do homem moral mas de toda a natureza, ainda nos seus momentos physicos

elementares. A _monadologia_ de Leibnitz, convenientemente reformada,

presta-se perfeitamente a esta interpretação do mundo, ao mesmo tempo

naturalista e espiritualista. O espirito é que é o typo da realidade: a

natureza não é mais do que uma longiqua imitação, um vago arremedo, um

symbolo obscuro e imperfeito do espirito. O Universo tem pois como lei

suprema o bem, essencia do espirito. A liberdade, em despeito do

determinismo inflexivel da natureza, não é uma palavra vã: ella é

possivel e realiza-se na santidade. Para o santo, o mundo cessou de ser

um carcere: elle é pelo contrario o senhor do mundo, porque é o seu

supremo interprete. Só por elle é que o Universo sabe para que existe:

só elle realiza o fim do Universo.

Estes pensamentos e muitos outros, mas concatenados systematicamente,

formam o que eu chamarei, embora ambiciosamente, a minha philosophia. O

meu amigo Oliveira Martins apresentou-me como um buddhista. Ha, com

effeito, muita coisa commum entre as minhas doutrinas e o Buddhismo, mas

creio que ha n'ellas mais alguma coisa do que isso. Parece-me que é esta

a tendencia do espirito moderno que, dada a sua direcção e os seus

pontos de partida, não pode sair do naturalismo, cada vez em maior

estado de banca rota, senão por esta porta do psychodynamismo ou

panpsychismo. Creio que é este o ponto nodal e o centro de attracção da

grande nebulose do pensamento moderno, em via de condensação. Por toda a

parte, mas sobretudo na Allemanha, encontram-se claros symptomas d'esta

tendencia. O occidente produzirá pois, por seu turno, o seu Buddhismo, a

sua doutrina mystica definitiva, mas com mais solidos alicerces e, por

todos os lados, em melhores condições do que o Oriente.

Não sei se poderei realizar, como tenho desejo, a exposição dogmatica

das minhas idéas philosophicas. Quizera concentrar n'essa obra suprema

toda a actividade dos annos que me restam a viver. Desconfio, porém, que

não o conseguirei; a doença que me ataca os centros nervosos, não me

permitte esforço tão grande e tão aturado como fôra indispensavel para

levar a cabo tão grande empreza. Morrerei, porém, com a satisfação de

ter entrevisto a direcção definitiva do pensamento europeu, o Norte para

onde se inclina a divina bussola do espirito humano. Morrerei tambem,

depois de uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de

pensamentos tão irmãos das mais intimas aspirações da alma humana e,

como diziam os antigos, na paz do Senhor!--Assim o espero.

Os ultimos 21 Sonetos do meu livrinho dão um reflexo d'esta phase final

do meu espirito e representam symbolica e sentimentalmente as minhas

actuaes idéas sobre o mundo e a vida humana. É bem pouco para tão vasto

assumpto, mas não estava na minha mão fazer mais, nem melhor. Fazer

versos foi sempre em mim cousa perfeitamente involuntaria; pelo menos

ganhei com isso fazel-os sempre perfeitamente sinceros. Estimo este

livrinho dos _Sonetos_ por acompanhar, como a notação de um diario

intimo e sem mais preoccupações do que a exactidão das notas de um

diario, as phases successivas da minha vida intellectual e sentimental.

Elle fórma uma especie de autobiographia de um pensamento e como que as

memorias de uma consciencia.

Se entrei em tão largos desenvolvimentos biographicos, foi por entender

que, sem elles, se havia de perder a maior parte do interesse que a

leitura dos meus _Sonetos_ pode inspirar. Os criticos allemães acharão

talvez interessante observar as reacções provocadas pela inoculação do

Germanismo, no espirito não preparado de um meridional, descendente dos

navegadores catholicos do seculo XVI. Poderá essa ser mais uma pagina,

embora tenue, na historia do Germanismo na Europa, e porventura parecerá

curiosa aos que se occupam de psychologia comparada dos povos.

Ao bom e amavel espirito que me introduz, a mim neophyto, n'esses

grandes circulos do pensamento e do saber, tributo, além de muita

sympathia, indelevel gratidão.

E sou de v. ex.^a com a maxima consideração

criado m.^o obrg.^o

_Anthero de Quental_.

A OBRA POETICA DE ANTHERO DE QUENTAL

1. _Sonetos de Anthero_. Editor Sténio. Coimbra, Imprensa Litteraria,

1861. In-8.^o de XII e 23 pag. Contém 21 Sonetos, dos quaes 16 foram

incorporados nos _Sonetos completos_; os 5 restantes ficam incluidos nos

_Raios de extincta Luz_. O prologo é uma apresentação em verso por

Santos Valente. A carta a João de Deus sobre a theoria do Soneto foi

reproduzida no vol. II do _Circulo camoniano_.

2. _Beatrice_. Coimbra. Imprensa da Universidade, 1863. In-8.^o grande,

de 40 pag. Este poemeto, formado de trechos lyricos, está incorporado

nas _Primaveras romanticas_.

3. _Fiat lux_. Coimbra. Imprensa da Universidade, 1864. In-8.^o grande,

de 16 pag. Extremamente raro, por que foi rasgado pelo auctor poucos

dias depois de publicado. Fica incorporado este poemeto nos _Raios de

extincta Luz_.

4. _Odes modernas_. Coimbra. Imprensa da Universidade, 1865. In-8.^o

grande, de 160 pag. O texto termina a pag. 150, sendo as ultimas 10 pag.

occupadas por uma nota.

----Segunda edição (Contendo varias composições ineditas). Porto, 1875.

In-8.^o pequeno, de 186 pag. N'esta foi cortada a carta dedicatoria a

Germano Meyrelles, e bem assim a dedicatoria dos Sonetos _A Ideia_, a

Camillo Castello Branco; os versos que começam: «Como a serpente larga a

pelle antiga» (pag. 100), _Á Irlanda_ (pag. 121), e as duas quadras

sobre Mahomet e o Christo (pag. 133).

5. _Primaveras romanticas_ (Versos dos vinte annos). Porto, Imprensa

Portugueza, 1871. Com retrato photographico. In-8.^o grande, VII e 202

pag. Uma grande parte d'estes versos fora primeiramente publicada no

_Seculo XIX_, jornal de Penafiel, em 1864, e outros com o pseudonymo de

Carlos Fradique Mendes. (Vid. n.^o 2).

6. _Sonetos_ (Bibliotheca da Renascença, I). Porto, Imprensa Portugueza,

1881. In-8.^o pequeno, de 32 pag. e 4 não numeradas. Contém 28 Sonetos

colligidos por Joaquim de Araujo.

7. _Sonetos completos_. Publicados por J. P. de Oliveira Martins. Porto,

Livraria Portuense de Lopes e C.^a--Editores. 1886. In-8.^o pequeno; 48

pag. de introducção por Oliveira Martins, e 126 de texto.--Contém a

collecção dos _Sonetos_ da Bibliotheca da Renascença, e todos os Sonetos

dispersos pelas outras obras de Anthero, á excepção de 5 Sonetos

desprezados (Vid. n.^o 1) e do Soneto _Accusação_ (Aos homens de sangue

de Versalhes em 1871), que vem nas _Odes modernas_, a pag. 167 (Vid.

n.^o 4).

----Segunda edição. Porto, 1891. Accrescentada com a traducção allemã do

Dr. Wilhelm Storck, e algumas versões italianas.

8. _Cadencias Vagas_. Separata dos versos colligidos por Joaquim de

Araujo para o volume dos _Raios de extincta Luz_. Lisboa, Typographia da

Academia real das Sciencias, 1892. In-16.^o, VIII e 72 pag. (Tiragem

restricta).

9. _Raios de extincta Luz_. Poesias ineditas (1859-1863) com outras pela

primeira vez colligidas. Publicadas e precedidas de um Escorso

biographico por Theophilo Braga. Lisboa. M. Gomes. Livreiro-Editor, 70,

Rua Garrett (Chiado), 72. Typographia da Academia real das Sciencias,

1892. In-16.^o, de XLVIII pag. de introducção, e 258 pag. de texto.

Entram n'esta collecção as seguintes:

*Folhas avulsas*:

I. _Poesia_ de Anthero de Quental recitada na noite de 13 de maio de

1862, no Theatro Academico, por A. Fialho Machado.

II. _A Gennaro Perrelli_, Ao artista e patriota italiano. Imprensa

Litteraria (Sem data).

III. _Á Italia_. Poesia de Anthero, recitada no Theatro Academico por A.

Fialho Machado, na noite de 22 de outubro de 1862. Coimbra, Imprensa

Litteraria.

IV. _Zara_. Poesia. Imprensa portugueza. Porto. Folha solta, com

restricta tiragem para as pessoas da familia do Dr. Antonio Joaquim de

Araujo.

V. _A casa do Coração_. Impressa sobre um fundo lithographado, com o

retrato de Anthero, e distribuida no Saráo da Liga das Artes Graphicas,

no Porto, em honra do illustre morto.

* * * * *

ORDEM PARA UMA EDIÇÃO DEFINITIVA DAS OBRAS POETICAS COMPLETAS DE ANTHERO

I. _Raios de extincta Luz_ (1859 a 1863).

II. _Primaveras romanticas_ (1863 a 1865).

III. _Odes modernas_ (1865 a 1871).

IV. _Sonetos completos_ (1860 a 1884).

I

PALAVRAS ALADAS

PALAVRAS ALADAS

Raios de extincta luz, eccos perdidos

De voz que se sumiu no espaço absorta--

Meus cantos voarão de edade em edade,

Como folhas que ao longe o vento espalha.

Não sabe a folha já mirrada e secca,

Que um sôpro do tufão levou revolta,

Que outro sopro talvez desfaça em breve--

Não sabe a triste o ramo onde nascera,

A seiva que a nutriu, quando inda bella,

O tronco que adornou com verde galla,

E onde entre irmãs folgou por tarde amena?

Soltos do tronco, sem calor, sem vida,

Filhos orphãos que um seio não aquece,

Um seio maternal ebrio de affectos,

Meus cantos voarão de edade em edade,

Como folhas que ao longe o vento espalha.

Mas se alguem, vendo a folha abandonada,

Lembrar e vir na mente o tempo antigo

Em que bella, vestindo pompa e gallas,

Brilhou rica de seiva e luz e vida;

Se na mente sonhar a pura essencia

Que animara esse pó ahi revolto;

Se corpo der á sombra fugitiva,

E a voz unir ao ecco, e o foco ao raio;

Se alguem souber do canto o sentir intimo,

Oh, esse ha de entender a vida, a crença

D'essa alma que animara outr'ora o canto.

Se alguem tiver no peito a urna mystica

Onde o Amor se recolhe, esse hade amar-me;

Se livre, por tyrannos não comprado,

Pulsar um coração, esse commigo

Hade a aurora saudar do _novo dia_;

Se uma alma recordar a eterna patria

Que lhe dera o Senhor, do céo saudosa

Commigo a Deus n'um hymno hade elevar-se.

Aos mais será mysterio o canto e a lyra,

Á Liberdade, a Amor e a Deus votada:

E já, soltos do tronco onde medraram,

Meus cantos voarão de edade em edade,

Como folhas que ao longe o vento espalha.

Coimbra, Novembro, 1860.

II

LAÇO D'AMOR

A poesia _As Estrellas_ appareceu pela primeira vez publicada na segunda

parte da _Beatrice_ (p. 27 a 31), mas sem titulo, e com a epigraphe

_Excelsior_. O poeta leu-m'a em 1861 com o titulo _As Estrellas_, como

uma das suas melhores Odes. No manuscripto que possuo tem a

data:--_Figueira, Setembro_--1860; não apresenta variantes apreciaveis

da edição do 1863, por isso a não reproduzimos.

_T. B._

LAÇO D'AMOR

_Ao amigo Santos Valente enviando-lhe para o seu Album a poesia AS

ESTRELLAS_

Que heide dar de melhor? Ai, n'estes tempos

De pobres affeições, de tibias crenças,

--Fonte que os sóes do estio tem seccado--

Aonde ha fé tam viva, que trasborde,

Enchendo um peito n'outro peito amigo?

Que esperanças cá da terra ha hi tam firmes,

Tam ricas de futuro, que dois sêres

Possam firmar-se n'ellas sem receio

E abandonar-se todo ao seu arrimo,

Qual braço de mulher em braço de homem?

E quem pode encontrar-se em egual via,

E ir, com norte egual, seguir seu rumo

Quando tantos caminhos vão cruzando

N'estes tempos o mundo do espirito?

Ah, n'este sec'lo, amigo, solitario

Cada qual segue triste a sua estrada,

Caminheiro de um dia, e silencioso,

Contando, como o avaro, os tristes restos

Das suas illusões, das suas crenças,

A si pergunta o que ficou de tudo;

Olha as bandas longiquas do horizonte

E de novo interroga, em desalento,

Se o futuro lhe guarda alguma esp'rança,

Se o abysmo é o termo da jornada?!

Se lá de longe em longe alguma tenda,

Se uma fonte que ensombra alta palmeira.

Lhe alveja no deserto; se inda um pouco

Lhe repousa a cabeça afadigada,

Não faz, crente no Deus que o tem guiado,

A oração da noite, a acção de graças

E, antes que cerre as palpebras, medita...

No repouso só busca o esquecimento:

Dorme o somno agitado de uma noite

Sob a tenda que o acaso lhe depara;

De manhã, sem levar uma saudade,

Sem as deixar tambem, eil-o seguindo

Do fatal peregrinar a longa via.

Que lhe importa o passado ou o futuro?

P'ra dôr que soffre em si tudo é presente,

Aqui, ali, em toda a parte o punge...

Quem lhe dera esquecer, não recordar-se...

Orações? são incenso cujo aroma

É de lagrimas... e as d'elle se hão seccado!

Orgulhoso na dôr, da dôr o orgulho

Fal-o erguer solitario e silencioso,

Como se ergue o granito no deserto

Ermo, nú... se medita... e só comsigo.

Assim vae cada qual seguindo o rumo

Que o accaso ou o fado lhe depara:

Quem se pode encontrar? que laço estreito

Ha que os aperte? Idéa ou sentimento

Aonde em crença egual juntos communguem?

........................................

........................................

........................................

Com tudo Deus existe! e nós, seus filhos,

--Ingratos--se n'uma hora o olvidámos,

Dentro temos a voz de eterno brado!

Quem pode renegar seu pae? Nós somos

Como esse Adão occulto no arvoredo

Que não quer responder a _quem_ o chama:

Porém se a voz do pae clamou tres vezes,

Não pode resistir--«Eis-me presente.»--

Dissidentes no mais, Deus nos reune:

No impio, ou crente, em todos Deus existe

E todos chama a si, e a todos ama.

Nós somos como rios que descendem

De varia serra, e em vario leito correm:

Mas, que importa? essas serpes tortuosas,

Após rodeios mil, após mil voltas,

Vão todas dar no mar; some-as o Oceano.

Que importa a crença varia e o vario affecto?

Este laço de amor a todos une:

--Existe um Deus que é Pae; somos seus filhos.

Coimbra, Maio, 1861.

III

FORÇA--AMOR

FORÇA--AMOR

O que destroe os mundos,

E dá que os mar's frementes,

Em volta aos continentes,

Cavem abysmos fundos;

A mão que faz que a noite,

Sem luz, amor, encanto,

Se envolva em negro manto

Aonde o mal se acoite;

Que pôs no olhar o brilho,

E deu ao labio o riso,

Á planta o pomo liso.

Seio de mãe ao filho;

O que é verbo da vida,

Do amor, da luz, do affecto,

O que sustenta o insecto

E a planta desvalida;

E disse á nuvem branca

--Em densas trevas morre,

E disse ao vento--corre,

Assola, espalha, arranca;

Quem faz da vida morte,

De puro incenso, fumo;

E deixa, em mar sem rumo,

O homem luctar co'a sorte;

Se é Deus... oh! não! não pode

Do amor o foco immenso,

Que abraza em fogo intenso,

Se á mente nos acode;

Não pode o sôpro d'elle

Mandar a morte e o pranto,

Em vez do doce encanto,

Que immenso amor revele!

Algum genio das trevas,

--Espirito infecundo--

Espalha sobre o mundo

Estas vinganças sevas.

Não elle; o Deus suave!

D'aquelle seio immenso,

Só manda á terra o incenso

E o balsamo que a lave!

........................................

........................................

--«Estranhas ver a morte?

De vida andas repleto:

O Deus, o Deus do affecto

Tambem é o Deus forte:

Poeta! és tu que ignoras

--Envolto em sonho aéreo--

O revolto mysterio

De mais revoltas horas!--

Dezembro, 1860.

IV

PAZ EM DEUS

PAZ EM DEUS

...pax hominibus bona voluntate.

O Deus que me creou pôz-me no peito

Um thesouro tão rico de esperança,

Que não ha quem m'o roube ou quem m'o gaste;

E pôz-me n'alma fonte tão perenne

D'aquelle Eterno-Amor, que de lá desce,

Que não ha sol ou calma que m'a seque.

A fonte que nasceu em solo árido

Se um dia murmurou, morreu no outro;

Mas a que vem dos montes, que o céo tocam,

Descendo lentamente e sem ruido,

Té que brota entre as flores da campina,

Essa não morre com a luz de um dia...

Fonte de puras aguas abundantes,

Traz do céo sua origem. Lá se esconde,

Entre nuvens, o foco que a alimenta:

Eterna, como o céo d'onde partira,

E serena, como elle, a paz e a vida,

Como elle, tem no seio e d'elle manam.

Assim d'aquelle amor. Constante e puro,

Que ardor ou calma ou sol pode seccal-o?

Que pó da terra conspurcar-lhe o brilho?

A maldade dos homens não te mancha,

Oh minha paz, oh minha pomba candida!

Na terra o caçador te aponta a flecha,

E o tiro parte em vão. Como tocar-te,

Se tão alto voaste, e o dardo apenas

Mediu a meia altura que levavas?

A flecha cae na terra... ao céo tu foges!

Vae pomba immaculada! irei comtigo

Abrigar-me tambem no seio eterno,

Quando um dia o Senhor julgar que é finda

A missão que me deu de aqui servil-o.

Aqui fica-me a esp'rança que me alente,

Fica a luz que me guia, o Amor, a crença.

E foi Deus quem me deu o meu thesouro,

Como á ave que vôa deu a penna,

Que a libra pelo espaço; e ao olho morto

Do ancião, a luz que aponta melhor mundo.

Na assembléa dos homens, se um, olhando-me

Disser--«Aquelle é rei»--irei prostrar-me

Diante do Senhor, abrindo o espirito

Á voz que dentro d'elle Deus murmura;

E Deus vendo-me puro na consciencia

Dirá--«Ergue-te em paz: não és culpado»--!

Se sentir dentro d'alma alguma f'rida

Vertendo sangue e fel, em dor extrema,

Buscarei no Senhor o meu alivio:

E o Senhor, pondo um dedo sobre a chaga,

Dirá--«Fica-te em paz: estás curado»--!

Raios de extincta luz poesias ineditas (1859-1863) · 第 1 / 5 段