Como ha para cada latitude uma estrela, para cada estrela uma luz sua;
ha para cada evolução da Arte uma forma propria, unica, perfeita.
A forma compteta do lirismo puro é o Soneto.
A _Ode_, como a flor esplendida do cátus, abre aos quatro ventos do
entusiasmo as suas petalas brilhantes, fortes, ardentes como os voos
altivos, mas seguros, do genio que julga o espaço seu e tenta avassalar
o mundo.
Aquela pompa deslumbra: mas quando o vento da tarde passar, talvez vá
achal-a pendida sobre os espinhos da áste, semimorta, sem que do
esplendor da manhã lhe reste mais que a túnica de purpura ja desbotada,
em que se envolve como uma rainha decaída no manto da sua antiga
realeza.
Imaginação luxuriante, profusão de ideas, babel confusa de mil elementos
encontrados--como reduzir tudo isto á unidade, ao simples?
Impossivel. Aquela forma veste uma substancia: é manifestação verdadeira
e exáta d'uma evolução da Arte: mas reduzil-a á simplicidade, ninguem o
pode fazer, por que a substancia d'aquela forma é complexa, como o mundo
que a gerou. Não é o lirismo _puro_.
Entre o Mosteiro da Batalha e essa selva gigantesca de colunas, ogivas,
abobadas, portáes, chamada Catedral de Strasburgo, ha toda a diferença
que vai do simples ao complexo, do belo ao grandioso.
Ora o lirismo--o lirismo puro e estreme--vive do belo e não do grande,
de simplicidade e não de profusão: o sentimento é _um_--simples--por que
é a parte eterna, imutavel, divina do homem: o olho com que vemos a
Deus, a mão com que lhe palpamos o seio. A inteligencia, a fantatasia,
são complexas, profusas, multiplas, por que são o mutavel, o
progressivo, a porta por onde nos entra o mundo, o pulmão com que
aspiramos e respiramos o universo, o imenso.
A Catedral de Strasburgo é a grande obra da arte humana, o trabalho de
mil inteligencias, o pensamento da humanidade n'uma época da sua vida;
um Faust d'estrofes de marmore. O Mosteiro da Batalha é a tocante
tradução do sentimento eterno da alma, da aspiração imutavel a Deus, ao
Amor-unico, um Evangelho escrito a escopro e buril: uma é ainda a terra;
o outro é ja o ceu.
Pois bem: a _ode_, o lirismo de cabeça, aonde se espelha o universo,
será a Catedral da Meia-Idade: mas o _soneto_, o lirismo puro da alma, a
idea que traduz o eterno sentimento, é o Mosteiro da Batalha.
* * * * *
Por que?
Por que ha uma forma para cada idea; por que o vestido deve ajustar-se
ao corpo, por que cada estatua tem o seu molde diferente.
Qual será a forma do simples? A unidade. O que corresponde ao
sentimento? O simples.
Atiremos com uma peça de pano aos hombros d'este _nú_ e vejamos o que
sáe...
O Sentimento não se define: é indefinido; vago; misterioso; aspira, e
não sabe o que quer; sonha, e não vê as visões do sonho; chóra, e mal
sabe o que são lagrimas; corre, e não conhece a terra que pisa; ora, e
não sabe que Deus lhe escuta a prece; exulta, ri, entristece, sisma, e
não conhece quem lhe dêo tristeza ou alegria.
Eil-o aí o _nú_, vergonhoso e timorato, fugindo a luz e o ruido,
ocultando-se no fundo da alma, como em abrigo profundo o desconhecido.
D'aqui, até que apareça á luz do dia, vestido e um pouco proprio para a
sociadade, ainda timido e saudoso de retiro, sim, mas, finalmente, ja um
tanto desafrontado e senhor de si; desde que o tirem do seu abrigo, até
o trazerem para a assemblea dos homens, por quantas transformações, por
quantas fases, por quantas mãos não passará ele?!..
Vejamos como se veste o _nú_, para conhecermos que vestido lhe vai
melhor.
Assim:
O Sentimento é o que há em nós de mais irrefletido, mais fatal (ainda
que, por outro lado, mais livre) na alma do homem, é--o instinto da
alma--Quando o poeta sentiu, na primeira noute em que ergueu ao céu os
olhos do espirito, agitar-se-lhe dentro o hospede estranho, ficou como
que alheio ao mundo e a si, e mal soube da visita do desconhecido.
Mas, quando uma e outra vez e muitas vezes, sentiu tomarem-lhe a mão e
levarem-no pelos espaços ideaes a novos e estranhos mundos, olhou em
roda, por ver a face ao guia misterioso. Não o vio; mas, no silencio da
noute ouvio dentro de si um sussurro brando e sumido como o da agua
entre os arbustos, como confidencia d'amores dita baixinho e em segredo.
E então prestou o ouvido e escutou.
* * * * *
O que significa isto? o que é este inclinar-se do poeta sobre o fundo da
sua alma, interrogando-lhe os écos, escutando-lhe as vozes que lá dentro
murmuram mal-distintas?
É o homem que começa a ter consciencia do sentimento:
É a inteligencia querendo penetrar n'alma:
É o dedo que se põe sobre o coração, para lhe sentir o pulsar:
É o poeta que se interroga.
E o _nú_ oculta-se, disfarça-se, foge, não se deixa apanhar; mas o olhar
prescrutador segue-o por toda a parte, vai-lhe em cima a cada retirada,
fita-o nos cantos mais obscuros, e não podendo segural-o, ao menos
_estuda-lhe_ as feições, _toma-lhe_ os modos, aprende-lhe os geitos,
escuta-lhe as falas e, juntando tudo isto, forma um todo, mais ou menos
semelhante, mais ou menos disforme, mas, em todo o caso, retrato que vai
pendurar na camara mais bela, mais escolhida da casa, como no melhor
lugar do oratorio se guarda a reliquia mais sagrada.
Primeira transformação, pois, do sentimento. O poéta toma conhecimento
do que lhe vae n'alma: estuda-se no intimo: tem consciencia dos fátos
instintivos do espirito: e a inteligencia retrata, como póde, esse
estranho que lhe entrou em casa, a quem quer por força conhecer.
A inteligencia forma _idea do sentimento_.
* * * * *
Eis aí o nosso _nú_ trazido á praça.
Desde que se apossou d'ele a inteligencia, não parece o mesmo:
assaltam-no estranhas veleidades, caprixos desconhecidos. Ele o
_sismador_, o _solitario_, recorda-se do _vae soli_ e lembra-se de
comunicar com o mundo, de se mostrar um pouco á luz do dia.
Caro lhe custa o: caprixo! Quanto não perdeu ele ja com passar de
sentimento ao estado d'idea! Quanto não perderá agora passando d'idea a
fáto!
O seu belo _todo_ ja o vimos desfigurado no retrato que inabil
fotógrapho lhe tirou: d'esse pouco, que lhe resta, lá vai ainda perder o
melhor, la se vai envolver na _forma_, la vai cobrir-se com vestido...
ele... o _nú_..
Por que é preciso vestil-o; e toda a questão está n'isto. Vestil-o! pois
o que tinha ele de melhor senão a sua nudez, a liberdade de movimentos,
tão indefinidos, tão vagos, tão belos?!..
Tudo isto lhe vai cobrir o detestavel vestido.
O sentimento é o misterioso, o escuro, o vago:
A inteligencia, o claro, o preciso, o definido.
Para combinar estes dous termos, quanta dificuldade e, o que é piór,
quanto perdido!
Mas ao menos a idea, sendo ja tão má, pode, ainda assim, existir
denudada: mas a forma! a forma! não só é clara, precisa, mas, mais que
tudo, é _vestido_.
Procuremos pois ao sentimento, pelo menos, vestidura que o não tolha,
que lhe não encubra as belezas, que o deixe senhor de si; finalmente,
vestido que lhe vá bem, e esse só pode ser _um_--Escolhamos:
* * * * *
Aí temos pois o sentimento reduzido a idea, á procura de forma.
Vejamos as transformações por que passou para, em vista d'elas, lhe
escolhermos uma propria.
A inteligencia, tomando conhecimento do sentimento, caminhou
gradualmente; primeiro um lado, depois outro; agora esta face e logo
aquela: assim se foi a idea desenhando até que juntas essas partes se
formou um todo, a _unidade_.
Comtudo essas partes são homogeneas, como homogeneos são os ramos que se
ajuntam n'um tronco commum: é como se um pintor estudasse uma
cabeça--ora de perfil, depois de face, o olhar, o rir, o labio, a
fronte, tudo por sua vez, e ultimamente então fizesse o retrato.
Assim, pois, a forma deve ser tãobem uma só; talhada de uma unica peça;
da mesma natureza; mas que comece por cobrir bem cada parte, e depois
cubrao todo e o envolva.
* * * * *
E que ha no soneto? Uma unidade perfeita: desenha-se cada idea parcial
de per si, mas não tão independente das outras que não haja entre elas
relação, até que a final, juntando tudo n'um só se apresenta por todos
os lados simultaneamente, como em resumo, o fecho--_chave d'ouro!_--
Daí, unidade. E simplicidade? Toda: as partes conservão estreito laço
entre si: é só um sentimento, só uma a idea; não são varias, mas varios
lados: a unidade final funde-os n'um todo.
Resumindo;
O sentimento desenha-se de perfil, aos poucos, gradualmente;
A forma acompanha essa evolução: segue-o em cada manifestação parcial.
Desenha-se, por fim, todo e forma-se d'ele idea percisa ou, pelo menos,
completa;
A forma amolda-se a esta reconstrução, e resume-o igualmente, como que
fundindo as partes no todo.
O sentimento é _um_;
Á forma, pela precisão, a que apresenta maior unidade.
É _simples_;
Ainda a estreiteza d'ela não permite abraçar mais que o preciso: tudo o
que for estranho, regeita-o por que o não póde conter.
* * * * *
Esta é pois, a forma lirica por excelencia: o manto alvo e casto com que
tem de se envolver, para ver o dia, aquelas partes mais pudicas, mais
melindrosas, mais puras da alma.
Fazer do soneto o molde aonde o cérebro _só_ despeje o que concebe
independente da alma; as visões da fantasia, apenas; é desconhecer-lhe a
natureza, é dar á boémia das praças publicas o vestido, a cintura da
virgem.
Esta é a forma superior do lirismo do coração.
N'ela tem vindo todos os grandes poetas vasar o que tinham de mais puro
na alma, quando, muita vez, cançados, talvez exautos d'imaginação e de
idea, sentiam, todavia, transbordar-lhe o coração, como se tivesse,
semelhante ao lago que recebe e nunca vasa, muito e muito ainda para
dar, mas que, á falta de quem lh'o receba, guardasse secreto em si.
Recebeu-lhes, então, o balsamo mais puro de suas almas esta forma
generosa e profunda. Dante, Miguel Angelo, Shakspeare, Camões,
admiram-se nas grandes, nas imensas manifestações de suas inteligencias,
o Inferno, S. Pedro, Othelo, Lusiadas: mas conhecel-os, amal-os, só
aonde esta forma bela e pura lhes prestou molde aonde vasassem os
sentimentos mais intimos de suas almas. Ali, admira-se o Artista, mas
aqui ama-se o Poeta: ali arrebata-nos o entusiasmo, mas aqui
rebentam-nos as lagrimas.
Os Lusiadas são a epopea d'um povo; ser-lhe-hão tambem epitafio quando
com a sua mão Deus lhe apagar o nome d'entre as nações. Mas qual ha
poema de sofrimento que iguale este final do soneto CLXXVII.
Triste o que espera! triste o que confia!
Aonde ha epitafio, que melhor narre ás gerações a vida pelo amor
d'aquela alma nobre, do que este (XIX):
Alma minha gentil que te partiste...
Os Lusiadas são a epopea do povo: mas a epopea do Poeta é aquele
livrinho apenas lembrado dos Sonetos.
Um é o monumento da nação; outro o do homem: os Lusiadas escreveu-os o
Soldado; mas foi o poeta quem chorou os Sonetos.
Quem fala ai em colunas e estatuas? Camões não se vê, não se funde, não
se palpa: sente-se! Que melhor retrato, que maior estatua quereis de que
estes versos (CX):
E vou de dia em dia, d'ano em ano,
Após um não sei que, após um nada,
Que, quanto mais me chego, menos vejo.
Depois d'esta, que ele por suas mãos fundiu, ninguem lhe vá tirar as
feições!
* * * * *
Esta grande forma estava perdida: sumio-a um dia Bocage, em meio do
delirio d'alguma orgía _poetica_, e, tão longe a arrojou, que bem
custoso foi achal-a depois. Lembrou-se ainda d'ela, ja quando as
_grandes sombras_ lhe vinham do ceu descendo sobre a alma, a envolvel-a,
para que no caminho não podesse olhar a terra e perdesse de todo a
lembrança d'este desterro.
Foi sublime aquela reminiscencia! mas a troco de quantos esquecimentos
não veio ela?!
Achou-a, depois, um homem--um poeta--digo _poeta_, por que o
esquecimento do seu nome é, n'esta terra, a sua melhor coroa: a gloria
aqui é ser esquecido, por que poetas--_poetas_ não ha ca quem os
entenda...
João de Deus restituiu-nos o _Soneto_ como ele é, como deve ser:
a--forma superior do lirismo--Sem este laço atravez dos tempos, quem
poderia achar aquela forma, para nola restituir em toda a sua pureza?
Certo que não seriam os Castilhos, nem os Lemos, nem...
De Camões até hoje é grande o salto: só alma gémea da do amante de
Natercia, poderia assim transpor o abismo de tres séculos. É-o. Á terra
fecundada por Camões custou-lhe a conceber tamanho _monstro_! Gemeu nas
dores e na fronte do poeta bem se divisam angustias que a mãe deu em
legado ao filho, e as maiores ainda que lhe deixou seu _Pae_... mas,
João de Deus! quem renegará seu Pae?!
Dezembro 1861.