O anno passado, n'uma manhã serena e fresca de maio, fui ao campo para
vêr nascer o sol.
Uma tenue claridade, precursôra do dia, innundava já o ambiente da
aldeia. O ar, sem um movimento, sem a mais leve aragem, conservava as
arvores em completo repouso.
O mez de maio é um bouquet formado de trinta e uma flores. Este dia era
uma d'essas flores, das mais formosas, de petalas mais coloridas e
frescas. Desabrochava garbosamente, acariciado pelo dôce orvalho da
madrugada.
Em frente das ruinas d'uma casa pequena, envolvida n'um massiço de
heras, cantava um rouxinol, pousado n'um sabugueiro. Parei, a ouvir os
seus trinados.
Nos requebros das suas melodias, nas inflexões dos seus variados
garganteios, havia um tão expressivo influxo de dôce sensibilidade, um
tão grande sentimento, que, sob a poderosa influencia d'aquelle
silencio--apenas entrecortado pela voz do rouxinol--que pairava em volta
de mim, eu, em frente d'aquellas paredes derruidas pelas quaes trepava
um massiço de verdes heras, sentia-me infinitamente pequeno--mais
pequeno que o rouxinol.
Absorvido na audição d'aquellas melodias que arrancavam á minha alma
vibrações d'uma indizivel doçura, e contemplando as ruinas d'aquella
casa que, talvez, outr'ora, tivesse sido uma mansão ditosa de felicidade
e amôr ou, quem sabe? de expiação para uma alma desditosa e amargurada,
debaixo da ascendencia que sobre a minha alma exercia a voz do rouxinol,
eu tive o desejo de saber a historia d'aquella casa; porque, com um
rouxinol ao pé a cantar melopêas tão sentimentaes que pareciam
repassadas de pungente saudade, a entoar canções tão tristes como a
solidão em que aquellas paredes estavam mergulhadas, ella devia ter a
sua historia, como a casa da Menina dos Rouxinoes de Almeida Garrett.
Parece que o acaso capricha em deixar ao abandono, para não serem
profanados, os santuarios onde uma alma apaixonada, ou edificada na
pratica da virtude, passou as horas tristes da soledade na mais santa
das resignações, palpitou-me que aquella casa devia tambem ter sido um
d'esses santuarios, e o rouxinol o musico, o cantor incumbido pelo
destino de acompanhar e realçar com as suas melodias sentimentaes
aquelle quadro de saudade...
Fui arrancado á minha meditação pelo ruido do rodar pesado d'um carro de
bois.
O dia aclarava progressivamente; por detraz da serra do Caramulo
estendia-se já uma faixa afogueada, que cada vez se ia alastrando mais.
Era a «bellissima aurora, coroada de resplendores e lirios», na phrase
de Vieira.
O rouxinol interrompeu a sua melopêa e fugiu do arbusto.
O carro approximou-se: trazia um arado e uma grade.
Um homem, que reconheci ser o tio Luiz da Nóra, vinha dentro d'elle,
arrimado a uma aguilhada. Ao pé de si vinham dois rapazes: um, dos seus
14 annos, encostado ao timão do arado; o outro, ainda creança de não
mais de 7 annos, encostado á sebe de vimes, as mãositas mettidas
profundamente nos bolsos do casaco que devia ter sido do irmão, pois não
era cortado segundo as dimensões do seu corpo.
--Eh! Tio Luiz! Bom dia.
--Olá! Bom dia, sr. Antonio. Então por aqui já, tão cedo?--Oh! Pára ahi,
_loura_! Oh! _castanha_!--Isso é que foi madrugar, hein?
--Que quer? Eu gosto muito de respirar este ar fresco e puro da
madrugada.
--Ah! é bom, lá isso é. Pois nós vamos alli abaixo lavrar uma terra para
semear milho. Vamos assim cêdo, que é para fugir ao calôr; porque ahi
por volta das dez horas, elle já apoquenta bastante quem anda no
trabalho. Lá os senhores, é como o outro que diz «se tenho frio vou-me
aquecer, se tenho calôr vou p'rá sombra!» e não sabem o que é andar a
puxar pelo corpo debaixo d'um calôr de rachar!
--Não sei, mas calculo. Mas, meu amigo, você não sabe que todos os modos
de vida têm os seus espinhos? Olhe que a vida do lavrador, apesar de
laboriosa, é a melhor que ha! Diga...
--Ai! ai! ai! Se vamos...
--Espere! Diga-me lá uma coisa: você faz lá uma pequena ideia do que é
uma pessôa levantar-se ao nascer do sol e dizer lá comsigo: «vamos agora
a vêr que tal está o milho d'aquella terra que eu semeei ha tantos dias;
preciso agora de fazer isto, fazer aquillo», etc., e, á noite, fatigado
mas contente, dando graças a Deus por lhe ter feito nascer o milho, as
ervilhas ou a herva muito bem, deitar-se socegado do espirito--do
espirito, que é o melhor socêgo!--e dormir a somno solto a noite
inteira! Você sabe lá quanto isso vale?
--Tambem não sei, mas calculo... Mas, se quer que lhe falle com
franqueza, eu trocava com todo o gosto esta vida, que vocemecê está
pr'áhi a elogiar, por um emprêgosito que me desse cinco ou seis tostões
por dia, sem precisar de calejar as mãos nem me vêr obrigado ás vezes a
levantar cêdo com um frio de rachar as pedras. Isso! Isso ó que é uma
vida bôa! Mas, com'assim, quem nasceu p'ra isto, d'isto não póde sair. E
vae a gente assim vivendo n'esta vida tão regalada, como vocemecê lhe
chama...
--Vê? Pois n'isso é que consiste a felicidade: não nos importarmos nem
ambicionar coisa nenhuma. Vive você resignado com a sua sorte, e não
aspira a outra melhor, partindo do principio que foi Deus ou o destino
que assim determinou...
--Pois é isso mesmo. Deus quer, não ha remedio senão sugeitar-se a
gente...
--Ora suppônha o meu amigo que lhe davam um emprego de quatro ou cinco
tostões diarios. Você, ao cabo de algumas semanas, começava logo a olhar
com olhos de cubiça o emprego d'um seu collega que ganhasse um ou dois
tostões mais; punha-se a metter empenhos, incommodava-se a pedir a uns e
a outros influentes politicos, arranjava o emprego, e, chegadas as
eleições, lá tinha de ir dar o seu voto pelo individuo que o favoreceu.
Depois, quando tivesse adquirido uma certa convivencia com essa gente
_fidalga_, como vocês lhe chamam cá, o seu ordenado tinha de ser muito
bem governado para chegar para as despezas caseiras e despezas de
vestuario, etc., para você se apresentar decentemente em publico.
Entretanto ia já deitando o olho a um logar mais vantajoso, isto é, mais
rendoso; supponhamos que o conseguia, e você talvez não saiba que os
empregos publicos, em regra, quanto mais bem pagos são, menos trabalho
dão. Você ia-se habituando a ganhar cada vez mais, e a trabalhar cada
vez menos. Começava o seu corpo a resentir-se do torpôr resultante da
inacção physica, e ahi estava o meu amigo e senhor Luiz atacado da mesma
doença que ataca quasi toda essa gente que só come borôa por desfastio.
La tinha de andar com trinta mil cuidados com o seu corpo, não apanhar
uma corrente de ar frio ou um boccado de sol, não comer de mais nem
d'isto, nem d'aquillo, etc., etc., mil trapalhadas!
--Mas ao menos, ganhava dinheiro que chegasse para tudo isso...
--Podia ganhar e podia não ganhar. Olhe, meu caro: não ha vida como a de
lavrador. Creia! Olhe que eu digo isto com franqueza.
--Mas então porque é que o sr. não tomou esta vida?
A pergunta do tio Luiz deixou-me um pouco embaraçado, e pude
tartamudear:
--É que... bem vê, o mundo é assim... Nós vamos para onde nos
encaminham...
--Ah! Ah! Ah! Será melhor mudar de conversa; vou-me á minha vida, que
está o sol quasi a nascer. Para esta vida--acrescentou elle, rindo-se
zombeteiro ainda do meu enleio--de que o sr. tanto gosta! Ah! Ah! Ah!
Venha d'ahi no carro até alli abaixo, quer vir?
--É verdade. Já o pudera ter feito, escusava você de estar a perder o
seu tempo.
--Ora essa! A grande coisa! Suba! Suba! Eu é que me devia de ter
lembrado d'este offerecimento ha mais tempo.
Saltei para cima do carro, segurei-me com uma das mãos á sebe e o tio
Luiz, tocando levemente com a extremidade da aguilhada no lombo das
vacas, exclamou, na palavra consagrada para pôr o gado bovino em
andamento:
--Eixe!
O carro poz-se em movimento.
--Diga-me cá uma coisa, ó tio Luiz: de quem foi ou quem viveu nesta
casa, que alli está em ruinas?
--Esta casa? Aqui foi onde viveu, em solteira, aquella brasileira, ou,
por outra, a mulher do brasileiro que móra acolá em cima na Herdade.
--Ah! Bem sei! Por signal que até a vida d'essa mulher em solteira é
muito interessante.
--Coitada! Foi infeliz e causou bastantes infelicidades. Mas
arrependeu-se, e depois o que soffreu e fez soffrer foi bem descontado.
--Mas o que acho esquisito é eu ter aqui passado tantas vezes e nunca
reparar para a casa senão hoje. E estou meio impressionado. Diabo! Estou
capaz de escrever a historia da casa. Você que diz, ó tio Luiz?
-Ah! Ah! Ah! A historia da Maria Luiza, que morou nella! Faz muito bem,
e olhe que é uma historia bem bôa, além de ser verdadeira, que é o
principal!
--Pois está dito. Não descansarei emquanto a não escrever. Mal ou bem,
depressa ou devagar, ella ha-de sair!
--Ó senhor Antonio! olhe que eu depois quero tambem...
--Descance, que ha-de ser você talvez a primeira pessôa que nesta
freguesia ha-de têl-a.
--E isso levará muito tempo, ó sr. Antonio?
--Leva, leva! Vê que a minha vida não me permitte dispôr de muito tempo
para isso. Com certeza que antes de tres ou quatro mezes não a escrevo.
Depois...
--Sim, sim! É preciso tambem depois _imprensal-a_, e tudo leva tempo.
--Pois é isso. Antes de meio anno ou mais, você não a vê.
--Seja lá quando fôr! Mas que Deus não me mate sem a ouvir lêr. E olhe
que ha-de ser vocemecê que m'a ha-de lêr, ouviu?
--Está dito.
O carro seguia por entre duas alas de salgueiros viçosos, cheios de
orvalho, que rolava das suas folhas verdes como perolas da mais fina
transparencia.
O Vouga, a uns duzentos passos, deslisava silencioso. Nas suas ribas
semelhantes a dous grossos cordões que tarjavam o seu leito, os
passaritos, esvoaçando e chilreando, numa alegria infantil, cantavam a
alvorada.
Numa encosta proxima, a vidraça duma janella reflectiu um clarão--era o
sol que emergia por detraz da serra, cujo dorso gigante parecia em fogo.
O tio Luiz fez parar as vaccas, e disse:
--Agora vamos á nossa lida.
Emquanto saltei, respondi:
--Vão, vão; que se não fosse eu, já vocês tinham um bom par de leiras
lavradas.
--Que tem lá isso! retrucou elle bondosamente. Mal tinhamos tempo de pôr
as vaccas á charrua!
--Olhe lá! Que vem cá fazer o petiz? perguntei, indicando o pequeno que,
lesto, saltara do carro e se preparava para fazer algum trabalho; não
podia ter ficado a dormir?
--Quer vir, deixal-o vir! É para se ir acostumando. Como já chega a uma
prateleira que lá tenho na cozinha, diz que já é um homem. Que quer que
lhe faça?
* * * * *
Quando me retirei--já o sol ia alto--o tio Luiz lá andava a revolver a
terra, agarrado á rabiça do arado, o dorso meio curvado pelo esforço.
Preparava a terra para lhe lançar os grãos, cada um dos quaes se
multiplicou em dezenas d'elles.
Semeado naquella manhã formosissima de maio, o milho nasceu, passados
alguns dias, lindo e verde: lançou raizes, cresceu, desenvolveu-se; foi
sachado, mondado, arrendado e, por fim, cortado.
Durante os mezes que esteve na terra, mereceu ao lavrador cuidados e
caricias verdadeiramente filiaes.
Trabalhos e fadigas, chuva e calôr, tudo soffreu resignado, sempre na
sua fronte estampada a alegria e no seu coração a esperança...--A
esperança de quê?
Nem elle o sabe, o lavrador.
Amando religiosamente a sua aldeia, alli vegeta sem ambições,
idolatrando os torrões que seus paes regaram com o suor da sua fronte,
colhendo os fructos das arvores que elles plantaram, e plantando outras
de que seus filhos depois colherão os fructos.
E, sem o saber, vive feliz. Deus compensa-lhe as horas de labor insano
com instantes de suprema ventura, passados, sem preoccupação de
espirito, no dôce convivio da familia reunida em volta da lareira nas
noites amenas do outomno.
Todos os dias, á hora crepuscular da tarde, quando um socêgo religioso
repousa sobre a aldeia depois do toque cheio de ternura das Avè-Marias,
a sua cozinha denegrida, mas alegrada pela claridade intensa duma
robusta fogueira, transforma-se em um cenaculo onde reina a paz e o
amôr; a familia inteira, collocada a magra mas abundante refeição da
noite sobre a tosca mesa de pau de pinho coberta por uma grossa toalha
de estopa, senta-se em volta radiante, semelhando os discipulos do
Nazareno na noite da ultima ceia.
Entretanto, cá fóra, cortando o socêgo da noite allumiada pelo meigo
luar ou pela claridade das longiquas estrellas, o sino da egreja começa
a dobrar ás almas, segundo o tradicional costume da aldeia,
repercutindo-se o som de valle em valle, pelos campos além, penetrando
os limites da freguezia visinha, até se perder na solidão da noite...