Este Poema é o preludio da Morte, annuncia a Libertação!
Pela primeira vez, depois duma travessia longa, accidentada e rude,
venho repousar á sombra do que fui, sonhar alto o mais do que tenho
occultado.
O sentimento,--a minha primeira consciencia,--tem-se gasto no mais
exhaustivo conflicto--um conflicto dolorosissimo entre o instincto
proprio e a mesquinhez alheia.
Houve em mim desequilibrios enormes tendentes a perturbar-me. É que nem
sempre a alma se satisfez com os recursos da materia; o corpo foi
algumas vezes o involucro imperfeito da grande alma que arrastava.
Quantas vezes ella pretendeu subir, ganhar altura, do mesmo passo que o
corpo lhe pautou vôos mesquinhos; e, quando lhe deu amplidão,--lances
arriscados, triumphos dolorosissimos! Sempre a materia a entravar tudo,
o pêso a embaraçar o vôo.
Eu fui como os zirros que vivem nas fendas dos rochedos. Vivem alto; a
raça impõe-lhes vida alta e por isso a natureza lhes deu asas largas e
pernas excessivamente reduzidas. Vôam, mas não andam...
Com a seguinte differença contra mim:--o meu ninho fê-lo o Acaso cá em
baixo. Ainda subi e desdobrei as asas em linhas de boa desenvoltura. Mas
o Destino trouxe-me quasi sempre, misturada com aquelles que teimavam em
ser da minha casta; quando a verdade é que meus semelhantes, affins pela
alma, encontrei poucos. Atravessei a vida _procurando alguem_, uma
figura rara que o Deus dos bons tivesse sorteado em meu favor. Encontrei
figuras talhadas por medida que não era a minha. E ainda hoje não perdôo
a Deus que me tenha dado altura excessiva e camaradas infimos.
Permitti-me toda a perversão, se perversão é amar a parte bella da
materia, index da Belleza pura, sem o preconceito de sexos, sem
preconceito algum...
Quizeram que me lavasse na moral de toda a gente, afinal em agua suja;
reagi. Fugi á fraqueza de vencer-me; e, fortalecida pelo instincto,
dei-me ao temperamento. Creei uma vida nova, a vida-conflicto entre as
aspirações supremas e a bruteza da materia.
Tive de roçar por almas que lembravam a lixa grossa. Excepcionalmente
encontrei espiritos brancos em corpos bellos. Os corpos mais brancos e
mais bellos guardam quasi sempre almas mulatas, incaracteristicas,
pessimas.
Vi-me constrangida a amar simples creações,--as minhas creações. Na
impossibilidade de amar as creaturas como ellas eram, dei-me a
estimá-las taes como as suppunha. Menti a mim propria, por servir a
sensibilidade. Ha mentiras nobilissimas! Mas, em regra, os homens mentem
por espirito de trapaça, de torpeza.
Sou um espirito religioso. A primeira razão da minha fé foi a religião
de minha mãe, que a tradição me transmittiu. Mas ella era um
temperamento puro, suave e bello na accepção simples destes termos.
Eu herdei as taras, as predilecções, os requintes de todos os que me
precederam.
Sou uma figura complicada, conseguintemente a minha religião não podia
ser a sua.
Evolui com os nervos, a educação, o temperamento. Descubro-me a todos os
symbolos, pois que tenho para mim que elles se fundem num Deus de
Belleza que começa a surgir, dentre a confusão, aos poetas, aos
artistas.
Creio no Deus de todos os cultos, embora aborreça a liturgia que o
occulta. A alma deu-me um cerimonial differente. No fundo, um cerimonial
de amor, ineffavel...
Alei-me em vicio. Ia comprar quartos de hora daquelle amor ás ruelas
onde se vende o Nu, o contacto, onde a intelligencia e o genio da Carne
se expandem na belleza fresca da adolescencia.
Sou um firmamento de perversão.
Os meus vicios estrellam fatalidade,--caminhos de luz pela _treva_
azul...
Luz intima, discorrendo fados de amargura e magia. Duros fados! Excedi a
Nana, a Manon, a propria Sapho,--todas as mulheres sagradas pela
Desgraça!
Fui o genio da Luxuria, parabolando amores...
A sociedade escorraçou-me. Quando o meu talento brilhava, ella, de mãos
nos olhos, ia vingando a luz que eu derramava, pregoando as
_abominações_ a que me entregava.
Perversos e estupidos, ouvi:
--Tenho a consciencia de que a vida sensual que tenho reflectido é uma
derivação fatal e religiosa dum poder occulto que me tem dominado e
impellido.
Talvez, por isso, tenha pisado os lupanares com o respeito devido aos
templos...
O prostibulo é, tambem, um Templo; a sensualidade uma religião, uma
grande e ineffavel religião, o culto immenso do Amor, para além dos
ritos, dos mil preconceitos dominantes. Mas, a despeito desta
consciencia do Destino, desta razão de talento e de sangue, sinto-me
vencida, desilludida.
Cancei a imaginação no encalço de creações precisas á minha razão
sensual de existir.
A sensibilidade de que fui dotada não me permitte que espere o fim de
toda a gente. Debalde o tentei.
Sinto necessidade de viver em outros mundos. A podridão brilhante que me
atormentou a vida vae compensar-me de bens que presinto marcados para
além desta valla de torpeza _honesta_.
Cumpri; não posso demorar-me: basta de conflictos com o semelhante.
Esta lucta é inacreditavel a quem a não viveu. É o conflicto da idéa
pura feita Arte, sensibilidade, sentimento, contra a bruteza do
temperamento medio.
Quantas vezes afoguei commigo miserias, casos exoticos dum capricho
cruel! Embriaguei-me de dor, daquella dor que á volta de mim cachoou
desgraça--um mar de fatalidades, para que ali naufragasse.
Afrontei este mar ás braçadas. E nesse Atlantico de verdete, absintho de
amarguras, com phosphorescencias tenebrosas me fundi eu toda, alma e
corpo, para batalhar e seguir, louca, ora encapellada contra a penedia
immensa das praias malditas--as que os homens povoam, ora espraiando-me,
numa gaza de mysterio, sobre doirados areaes, suave, ternamente, como um
mar vulgar em horas mansas.
As ondas deste mar foram os meus sentidos:--um infinito de sentidos, os
que se attingem pelo estado sensual...
Alcancei pelo sonho uma vida vallada e circumvallada de sombras.
Fui a somnambula, soffrendo e amando pesadelos que me eram dolorosamente
gratos.
No mar de sensualidade em que me afundei, em que muitas vezes me solvi,
tive horas de sêde, duma sêde obsessora, horrivel! Era o desejo
inconsumivel, a febre, a chamma eterna duma aspiração de raça condemnada
pela grossaria dos outros.
Chamma eterna, de certo, pois que falo por mim e pelos temperamentos que
no passado choraram em silencio horas que tenho repetido, e pelos
superiores do futuro, figuras talhadas pelo Destino para continuarem a
Dor!
Coisa horrivel é roçar o semelhante e proximo!
Entre mim e os desgraçados para quem falo, aquelles que entornam as suas
lagrimas no silencio--medeia a minha coragem, um ousio que os passados
não tiveram, que talvez os futuros não tivessem sem este exemplo...
Este mundo, que estimei com amizade amorosa, ousando transformá-lo num
mundo affectivo, parece-me, á hora deste inventario, obra posthuma, uma
ilha de cães vadios, malditos, em saldo de contas com os raros que
sahiram a perturbar a sua orchestra de alegrias.
Miseravel exercicio...
A Belleza é una no seu abraço colossal de todo o concebivel e concebido.
E só para ella deve viver-se. Os superiores começam a sentir aquella
unidade, na fusão das linhas puras, em toda a obra da materia donde vôe
o espirito. Venus e Apollo têem um significado conjuncto; são provas de
Belleza que se completam e ajustam numa synthese que o super-sensivel
realiza.
Sensualizar a vida, descobrindo fontes novas de prazer e dor,
transformá-la num mundo de alma, tal a faina suprema dos apostolos da
Belleza.
Myopes e inferiores, ouvi!
--A liturgia em que geralmente resumis o appetite genesico chega para a
vossa felicidade, basta aos vossos instinctos, porque a alma vos cabe
dentro dos orgãos que vos inculcam o sexo.
Vale uns minutos abjectos o vosso amor...
Nós amamos tudo e sempre. O Amor é para nós a razão unica da Vida.
Por isso Wilde, o condemnado, cantou ternamente o amor dos monstros e
das flores; casou os homens com os habitantes imaginarios dos bosques e
do mar, e expiou na prisão o delicto de ter gostado tudo, amando e
cantando a symphonia das linhas, a intelligencia da Carne, a liberdade
da alma!
Quando será a libertação collectiva? Sei lá! Fecho os olhos e perco-me a
memorar a fileira interminavel das victimas. Quando se realizará a
grande paz no Amor? Talvez nunca... E quem sabe?
Wagner, o mais genial revolucionario do mundo, pretendeu fazer do
Universo um canto.
Assombrosa concepção se a completarmos! Exultemos, sobretudo, a
Sensualidade, no mais largo significado, no bem infinito que é. Cantar é
amar. O Rhythmo das coisas é a expressão sensual do mundo em vibração, a
orchestrar, a melodiar o Amor!... Amemos tudo.
Nesta hora de dor agradabilissima, sinto-me inclinada a amar o proprio
odio que inspirei--o odio que me votaram e o desalento que o Destino me
distribuiu em bem da Morte.
Os philosophos serenos são em regra mentirosos.
Contra Maeterlink affirmo que ha uma fatalidade interna que domina e
rege os actos dos homens. A forma suprema da justiça é a Bondade. Mas
esta forma, acceite pelo conceito medio dos eleitos, está sujeita aos
entraves, ou causas de erro duma força inferior a que imprecisamente
chamamos temperamento.
Um dia, na adolescencia, percorria, sózinha, um atalho. Senti barulhar a
folhagem num carvalhal murado. Espreitei, e vi, ao abrigo duma lapa, o
ultimo acto duma tragedia unica. Uma creança, que podia ter nove anos,
acabava de matar outra de cinco! Aproximei-me. A criminosa segurava uma
lamina, encarando, attenta, a victima.
--Que fizeste? perguntei.
E ella, serena:
--Não sei, ouvi uma voz que disse:--mata a tua irmã. E eu, que móro
além, fui a correr buscar esta faca. Não sei se foi Deus quem mandou...
Já está morta?
E sorria, espectrando na lamina o Deus suave das creanças...
A victima era um bocado de marfim e oiro, abandonada no chão, entre a
serguilha grossa do vestido, a borbotar do peito alvo cravos de sangue.
A outra parecia uma mulhersinha, de olhar quebrado, bandós escuros, face
de cobre e sombras, typo de cigana enlouquecida, duma serenidade
arrepiante junto ao _delicto_ innocente!
--Não sei se foi Deus quem mandou... dizia.
Seria, penso. Que Elle ás vezes capricha em desnortear os commentadores.
Queria as duas creanças; e, por isso, ensandeceu a mais velha que
despedaçou a outra como o faria a uma rosa...
Assim alou as duas. Foram quebrar a monotonia do sagrado mundo,
pintalgar o Ceu de riso e loucura!
Abracei a innocente que pouco depois vestia de afagos um cordeiro branco
que mamava de joelhos, rente á mãe.
Como comprehendo hoje a força duma tal voz, que tutela o genio, o crime,
perversões, loucuras...
É a voz da alma a ordenar. Não sei se a voz de Deus!
Quando confronto os actos communs da vida com aquelles que me perturbam,
vejo que o meu genio não é uma acuidade da intelligencia--é um mysterio
emocional.
Deus reparte-se pelo genio creador dos artistas, e revive o poderio nas
suas dores. É por elles que accrescenta o Bem, ampliando a geographia do
Ceu com o Mal, ainda contra os da sua Egreja. Mas estas provas produzem
as maiores tempestades da alma. E é facil ainda aos mais fortes
succumbirem.
Eu elevei-me pela Dor. De mim desfiro melancholia, torturas,
suavidades...
A Dor foi a minha Arte e teve um largo apprendizado. Primeiro percorri
os museus, dando-me a reconstituir, segundo o meu genio plastico, as
bellezas mutiladas,--isto para apprender a ler as linhas, coisa mais
difficil do que ler os folios.
Depois apprehendi toda a perfeição, e sensualizei a forma. Fundei em
Athenas o Templo de Amor,--um Paço de Luxuria. Havia ali um tracto
sagrado, a Sala sensual, que me abrigou loucuras suaves, e tempestades
de goso, duma nevrose sacudida e bemdita. Nesta sala, vestida de
crystaes, concavos e convexos, duma asymetria e desarranjo de cháos,
gosei dezenas de corpos alvos e morenos, que desenvolviam nus as curvas
das sereias, em danças desvairantes. Tenho no peito o abraço dessas
esculturas enleadas, marmores de innocencia e vicio, corpos sagrados
pela pureza ideal da fórma. Se attentava aquella seara de carne, batida
pelo temporal duma sensualidade abençoada, eu era o suão morno que
beijava e confundia os lindos fructos.
Fui a haste exotica, o joio genial que, afrontando a seara, colhi a sua
belleza e fui colhida.
Se alongava a vista ou a quebrava sobre os crystaes, descobria as nossas
almas, ricas de imprevisto apocalyptico, desencontros de grotesco,
curvas complicadas pelo genio do Feio, atrophias, que eram as sombras
dos monstros soberbos que os lindos corpos abrigavam. A minha
sensualidade redobrava, e eu, apertada ao corpo moreno ou branco dum
principe em Belleza, mergulhava o olhar nos espelhos, que nos
espalmavam, engrandeciam, ou afilavam, e vivia aquellas silhuetas e
amava nellas o monstro que era, os monstros que eramos!
Fóra, alternavam-se collecções de harpas, violinos, psalterios, e
orpheões cantando a Vida.
E os jorros de luz esparsa através dos crystaes de côr, esbatendo-se em
manchas de esmeralda, roxo-e-oiro, banhavam de melancholia aquellas
notas, deixando suppor que era a Luz que as cantava!
Gosei soffrendo; soffri gosando. Pratiquei actos que foram além de mim;
uni-me a corpos de creanças; tive contactos, commercio de sensualidade
com os mais bellos adolescentes.
Fui anjo e fera, mas fera de asas que partia ás travessias da Ventura,
sem liames, sem programma, viuva de preconceitos. Troquei pela
intimidade com poucos as devassidões, os respeitos, a consideração
vulgar dos chamados homens moraes, seres aleijados pela grossaria do
costume. Mas muita vez o temperamento me chamou a definir-me.
Dahi a predilecção pelos dois adolescentes de Petersfield, e a razão do
mais entranhado sentimento de amor por Nuno, essa figura passiva da
minha loucura, que admirei em sua lassidão.
Ah! depois das nupcias com o morto de Petersfield e das vigilias com
Helen, ninguem me deu ainda a elevação da Dor-prazer em que elle me
afogou, nos afogamos...
Mas todas as sensações que me deu eram afinal acasos da sua carne
abençoada.
Approximei-me daquella alma que me pareceu transparente como a agua dum
ribeiro.
Era geada insoluvel, crystal espelhante, mas denso, que contrafez
dolorosamente a minha doce imagem amoral.
Tal qual o que succedeu um dia a um insecto, corpito de esmalte e oiro,
que se esforçava por beber os diamantes que trago a calçar os dedos...
Nem eu pude solver á força de amor aquella agua congelada, nem o pobre
insecto, sedento, poude mover as duras joias a que se deixassem beber,
liquefazendo-se.
É que almas assim são como os diamantes; têem a bruteza dura da
Fórma-fixa. Solidificaram as primeiras impressões; cortam, sem se
deixarem cortar; são a maldade bella, a estupidez da Plastica!
E é ainda esta sua negação que requinta o culto que lhe voto.
E era a repulsa da sua alma pela minha que lhe quebrava o corpo em
hysterias de goso!
E foram as lubricidades que lhe dei, numa prodigalidade de millionaria
em exotismos, que o afastaram...
Como a alma é grande em capricho! Que mysterioso é o genio da Dor!
E os semelhantes a pretenderem transformar este Valle de Lagrimas em
Valle de Risos, a inventarem palavras, abjecções, religiões de Força, de
Alegria, de mil coisas que são a expressão pretenciosa da sua ignorancia
magoante!
Que gerações as de hoje! Nem obras, nem instinctos!
Vontades de cera, gibbosas de subserviencia, nem a Morte as eleva!
Infimas creaturas!
Almas assim denunciam esteios molles...
E como odeiam o culto da plastica sensual! Se o não percebem... É o
horror dos selvagens pelo Mysterio. Peor do que isso, pois que estes
adoram o que não percebem. Ha na natureza ingenua do barbaro instinctos
de salvaguarda e cautela para a Belleza desconhecida.
É que a Belleza basta-se, por si se impõe, ponto é encontrar bondade em
que se esteie.
O que mal pode é deixar de abrir conflicto com a Biblia burguesa,
balizada em dois preceitos: impor ao homem a conquista do pão, á mulher
a dos filhos. Uma e outro se juntam, mercê de liturgias que enchem
codigos e cartilhas...
Fim primeiro da união, afinal da Vida--a familia, a juncção pelo
casamento de gente em que os chefes escravizam corpos e vontades!
Ah! foi o meu _erro_, rir de taes deveres. Não se foge impunemente da
_carreira_.
Como haviam de ver-me bem as mulheres de ventre cheio,--obesas de
divindades, ou fructos de maldição, se eu era o seu avesso?
Ellas deformavam-se pelo goso limitado.
Eu sensualizei toda a Belleza, illustrei a côres novas a Vida,
sacrifiquei a dor vulgar de ser mãe á dor suprema de crear pela Arte a
segunda alma dos seus fructos.
Podia agitar-me em sofreguidões de prazer, collar o corpo franzino a
homens que se alternassem no mister de fecundar, dar á sociedade filhos
em vez dos meus tormentos de Arte. Podia. E, se as creaturas com quem
commerciasse amores tivessem a marca de _maridos_,--a sociedade
receber-me-ia. A sensibilidade impôs-me uma liturgia propria. Amei a
esmo. E destes amores sahiram os livros que por ahi correm,--paginas
luxuriantes a reconstituirem horas duma tortura celeste e diabolica.
Livros são filhos. Os meus são-no tambem da Luxuria, duma luxuria
extranha...
Assim a _Nova Sapho_ e, sobretudo, a _Emparedada_.
Estas obras, a que uma _élite_ concedeu foros supremos, fluctuam uma
nevrose que a sociedade odeia.
Não fui um pousio. Fecundei á minha maneira. Mas para produzir, crear,
exigi uma liturgia complicada, reflectindo-a ousadamente.
Ingenuos! Ha fructos e fructos.
Que horror a tudo o que é extravagante!
Porque foi Christo enorme?--tão grande que projectou a maior sombra
divina que um homem tem projectado!
É que o genio universal o derivou de Maria de Nazareth
sobrenaturalmente, sem a macula do peccado original.
É filho duma virgem da linhagem de David e de muitas religiões liadas
pelo genio indico.
Só assim podia ser o Homem-Deus--encarnar e representar a Divindade.
Quer dizer, o genio universal, innato, postergou as relações vulgares
quando quiz filhar alguem que fosse um Principio.
--Sabeis bem quem foi Christo? Foi Aquelle que no mundo soube vestir de
grandeza a Humilhação; o mysterio deste poder é ainda da sua Divindade.
Todas as obras de genio, filhas da excepção, têem de ver-se áparte.
Interessae o vosso religiosismo na grande obra de Belleza que annunciei.
Porque as minhas obras são profundamente religiosas. Como todas as obras
definitivas. Ultrapassam-me:--fui o pretexto dum poder que simplesmente
apercebi.
O genio é a intelligencia tocada do sobrenatural.
Fecunda, pois, além da razão.
Lembro-me do papel da intelligencia quando urdia aquellas obras.
Era a escrava duma força desvairante que a superentendia e obrigava fóra
do sentido commum, á mercê dum capricho que era a teia-mestra de tudo...
Assim tambem no desenrolar de intimas paixões.
Não sei se poderia recuar, remeter-me ao vulgar, entregando-me á Moral,
como a sociedade a pratica. Creio que não. Mas quando pudesse fazê-lo,
não o faria.
E ahi está neste mesmo juizo um traço de tutela extranha, pois que a
sensualidade como a Arte que pratiquei só serviram a marcar-me de
relapsa, _emparedando-me_! Sou para toda a gente a desprezivel Sapho,
alma e corpo de monturo. E isto porque não acceitei o phalansterio
commum, e pratiquei o amor lesbico.
Ora a sociedade não quiz receber-me assim.
Logicamente, o publico condemnou as minhas obras.
Tinha a obrigação de dar talento que não excedesse o estalão perro da
sociedade em que vivia!
O meu prejuizo para o grande numero foi mostrar-me toda, dar-me a ler a
uma sociedade inferior. Entornei a alma nas paginas que teci
dolorosamente, sensualmente.
O publico não sentiu essas paginas, nem sequer as percebeu. Peor para
mim como mulher; mas ascendi como Artista.
Este desacordo é a nossa differença em elogio da minha sensibilidade,
posta á prova em todos os sentidos.
É grande esta differença?
Quanto maior fôr, maior sou. Quanto mais afastada estiver da minha
geração, em geral do meu tempo, mais alta é a minha figura.
Quereis saber ao certo o que vale? Medi o espaço que vae da idéa média á
minha Philosophia de Arte.
Esta Philosophia resalta, clara, dos meus versos--moldura propria duma
sciencia nova que elegeu principios grandes, como sejam,--a bondade, a
sensualidade, a fatalidade do temperamento, a Liberdade da alma dentro
de cada homem, salvo o acordo dos espiritos affins.
O _Contracto social_ de Rousseau, que passa por obra de genio, veiu
afinal, sacrificar a liberdade individual á alma collectiva.
Quero o inverso, o avesso dessa lei: a limitação do poder social pelo
individuo; que os medios e os rudes cedam aos grandes as regalias que
lhes são demasiadas, que não cabem na sua inferioridade.
Porque ha de ser millionario o pobre de alma? É bruteza permitti-lo,
como tambem o é sanccionar as miserias dos superiores, assentir em que
sejam ermos de bens os ricos de Espirito.
Em materia de sensibilidade cada vez me allio mais á minha desventura.
Vivo a ultima hora na admiração e amor do que fui.
E é para que os eleitos vivam ao menos uma hora assim que lhes
predico:--entregae-vos ao instincto, ao temperamento, ás taras.
Haveis de soffrer? Claro. Mas o soffrimento é das formas mais
voluptuosas de goso; ponto é que a abnegação e a acuidade o aproveitem.
Não tendes mais do que entregar-vos ao acaso. E o acaso é tão
intelligente! Tanto quanto o cuidado é estupido!
Inferiores, a vossa felicidade é uma trapaça.
Superiores, acima! Corações, acima! Dae elasterio á Alma, subi!
Quereis ler um grande livro, o expositor maximo dos grandes preceitos da
união livre a derivar á fusão no amor? Está em toda a parte. É a
Natureza que interpretaes mal.
Vinde áquella janella. Quero ensinar-vos a ler uma grande pagina.
Além, para lá daquelle renque de arvores mais crescidas, está uma planta
brava. Ha de ser enxertada ao morrer do inverno. Nasceu na mata;
transportou-a o capricho de um camponio áquelle pomar. Parecia fadada a
dar filhos bravos, fruta desprezivel; pois vae ser fecundada pelo garfo
nobre duma arvore de linhagem (tambem as arvores têem genealogia e foros
fidalgos) e dará em breve tumidos pomos.
Vêde aquella roseira, sustentando rosas de tres côres, resultado de
enxertias diversas. Amou e fecundou segundo uma liturgia variada; o
Acaso deu-lhe ainda enxertias que falharam, pois que os garfos exoticos
morreram depois duma justaposição de dias, porventura mais terna e
sensual do que a justaposição fecunda. Bordam o Mondego lindos
laranjaes: ide ver como o homem accrescentou Deus, juntando no mesmo
tronco raças differentes. Ha, por vezes ali, filhos do mesmo abraço,
todos os pomos em que o Divino pôs liga de oiro.
E o vento lá balouça tudo, laranjas, limões e limas, um phalansterio em
ramos, num contacto que elles, os lindos fructos, aproveitam,
sensualmente.
Ha naquella roseira amores incestuosos. Pois as suas rosas são tão
bellas como as das outras roseiras.
Attentae o jardim! Vêde como as flores se collam em beijos de lascivia,
quando o vento, animo do tempo, as vaga--como se roçam suave ou
tempestuosamente, segundo as marés!
O rosal parece agora, reparae, um mar encapellando-se em ondas sensuaes,
num rhythmo religioso, perfumado...
Se vos alcançou a graça do grande sentido da Belleza, attentae bem nas
flores:--São a essencia em fórmas,--o perfume em petalas.
Soberbo espectaculo! Lembram assim o amor das freiras nos conventos,
enlevo das esposas de Deus,--sonhado, fremido por entre incensos e
preces...
Ha naquelle canteiro algumas já fanadas, desfalcadas de petalas, sem
viço.
Vêde como procuram o contacto das mais novas, como se activam a explorar
a belleza adolescente dos botões gomosos.
Como a fraqueza da edade as pende a fortalecerem-se de vicio, na
carnação das mais novas! E ellas lá se lhe entregam, com enleio e graça,
generosamente, cumprindo a lei maxima--a Lei da Bondade, que é do
instincto. Quem o não entende? A alma grossa dos estupidos, os que
arrancam as papoilas da seára, irados de as ver entre os esmaltes dos
trigaes.
Que lhes importam os grandes bens da Terra--a Côr, a Fórma, o
Perfume?... O ridiculo em que me têem, só porque hei cantado a alma do
rochedo, a symphonia da linha, a perversão sensual, fonte da Morte, e,
conseguintemente, o melhor elo da Vida, pois que solda o corpo á terra,
a alma á planta, fundindo o Universo numa confusão sublime!
Pobre terra que dá videntes cegos, como Milton, e não dá vista áquelles
a quem deu olhos. A Vida é a immortalidade pela transformação, religiosa
no seu movimento, sempre patente e actual. Mas considerar parcellas de
vida é não ver; peor--ver mal.
Nada mais fallivel que o mundo dos aspectos. Acceitemos a Vida como ella
é--profundamente metaphysica, religiosa. Eu vergo-me ante o facto
positivo do meu genio que o arranjo universal systematizou ao poder, e a
toda a fraqueza creada e por crear. Deus resume a Vida. As minhas
fraquezas, as fraquezas de todos os superiores, são a sua ampliação
infinita... Ninguem póde definir Deus com precisão. Está em tudo, mas só
os raros o sentem, dão por si, portanto, por Elle.
Mas, se o vocabulo Deus tem um synonymo, esse synonymo é Amor. Amor
universal, entende-se, sem leis, sem peias, segundo o instincto, á
discrição e diversificação de cada ser.
É claro que este não cabe nos evangelhos, nas cartilhas. O homem de
prazeres restrictos não pode sentir o que de si revela de Universo, de
Infinito...
Este Amor lembra o _Puzzle_, jogo inventado pela nevoenta Inglaterra
para tratar o _spleen_ patricio.
Imaginae um xadrez, em que as pedras se destinam a construcções enormes
e cujo arranjo leva dias, mêses!
Pois a Vida é um _Puzzle_ de numero colossal de peças, com parte das
quaes só Deus joga.
É ainda Elle quem torna o jogo interminavel, infinito, baralhando,
accrescentando, substituindo as pedras... Tudo passa ao rhythmo do
arranjo universal.
O homem segue, em geral, suave e indifferentemente. Só o Artista
desfranze um pouco o cortinado de nevoa que o separa de Deus, para o ver
de longe, ajoelhar á sua inconsciente majestade, buscar alentos á sua
jornada.
Pois que Deus existe nas paginas ingenuas de Bernardes, e nos livros
satanicos e genialmente rebeldes de Annunzio,--curve-nos ante Elle, o
Deus clementissimo, que contrasta almas tão apparentemente oppostas.
A ingenuidade luminosa do frade e as paginas luxuriosissimas do
italiano, que creou para uso da alma um maravilhoso novo,--tudo é de
Deus e para Deus, tudo é Deus!
Que ninguem soffreie o temperamento. Ha um crime maior do que o
commetido para com a liberdade do semelhante: é o que commetemos contra
a nossa liberdade.
Dêmo-nos ao instincto. Só a continencia é delicto. O instincto é
fundamentalmente bom, as leis é que o teem pervertido.
Accusam-me de defender toda a casta de luxuria, de dar nas minhas obras
a resultante mental daquelles defeitos--uma philosophia negativa,
dissolvente, e muito na logica dos meus desejos inconsumiveis.
Que horror o dos meus juizes! Não veem que é esta sensibilidade a mais a
fusão de tantos sentimentos, esta synthese amorosa que a minha alma
comprehende, que vem acabar com as distincções inferiores, que
geralmente demarcam os actos da creança, do homem e da mulher!
Segundo a Physiologia pondera no homem a _razão_, na mulher o
_sentimento_, na creança o _sentido_.
E é isto verdade no que importa á apreciação do typo medio.
Como é um facto, que é a edade de transição--a da vida adolescente--a
que põe maior acuidade e interesse no mesmo typo,--o typo medio.
Sou a mulher superior. Por isso mesmo o temperamento me não demarcou
fronteiras. Junto na alma os encantos, dores, vida sensual,
ingenuidades, fraqueza e forças da creança, da mulher, do homem. Como no
apologo das varas, a intelligencia dos dois sexos, considerada em
conjuncto, ultrapassa o valor das parcellas em desencontro.
A minha obra tem tambem a ingenuidade da creança, a acuidade da mulher,
a razão do homem, sobretudo a uncção, a grandeza, o vago genial da alma
collectiva. Sou a synthese. Excedo o super-homem, sou a essencia da
propria humanidade, na comprehensão e realização transcendente do
Espirito Universal, em Deus.
Sou a super-sensivel!
A minha bondade acceita, em pé de egualdade, o amor idealista de Santa
Thereza de Jesus--a mystica, os impulsos bestiaes de Caligula e as
ordens alucinadas de Nero, determinando-se em sensualidades, ou
incendiando Roma, para mergulhar a alma sublimemente perversa nas
labaredas duma civilização a arder.
O instincto é a primeira força. Depois ha a aspiração vaga, que nos faz
caminhar para o Desconhecido.
Caminhêmos. Sigamos a mão distante que nos acena. Dêmos por tudo o que
formos encontrando.
Chamam-nos visionaria! Que importa? Que tem sido a humanidade, senão
visionaria!
E como é grande a creatura quando sonha! E como é bella a alma a viver
sentimentos, a visionar!
O que é a Vida nua de chimera?!
São factos o proprio sonho, a chimera...
Creio na vida eterna pelo Amor. O Amor, fundiu em mim--Deus, Perversão,
Desgraça...
O Bem e o Mal deram a figura que sou--um bronze de sentimento. Realizo o
genio sensual da humanidade nevrosada e a vida suave de toda a Belleza
humilde!
Sou Shakespeare e Bandarra:--tenho no peito o cachoar tragico da muita
miseria e altanaria heroica, que o inglês referveu em dramas, que são a
perpetuidade da Dor-genio; e, ao mesmo tempo, a simpleza ingenua da
amargura, delida por uma quasi inconsciencia,--aquelle extranho sentir
dos loucos que têem o sestro de viver alegres as suas e as tragedias dum
povo, os bellos crimes, como as grandes melancholias duma raça!
Sinto a alma amarrotada, amarfanhada! Mas ha almas e almas. Ha-as que
são como a estopa grossa que, quando sujeitas vincam traços grosseiros.
A minha alma, é como a seda e as _moires_ luzentes: amarrotada,
maltratada, tem cambiantes e vincos finos, dá traços curvos dum
resplendor desmanchado, a esbaterem-se em sombreados duma belleza
rara...
Tenho na alma a dor latente. O Acaso, fomenta-a por capricho.
Deitei-me a outra noite, triste, sem saber porque. Estava de mal
commigo. Dormi pesadelos. Subito, levantei-me, abri a janella, e vi o
roseiral escuro. Nem uma rosa a alumiar-me! Deus cortou relações
commigo, pensei, angustiada. Cortou as relações com todos os homens, e
por isso escureceu as flores, pintou-as côr do castigo, fê-las côr da
fuligem.
Corria o tempo, e eu, muda, quieta, somnambula, a fitar as rosas, todas
de seda crepe, e, ainda assim, bellas e cheias de graça no seu desenho
fino e desegual!
Depois, a meio da tortura daquella visão sombria, recobrei-me, pensando
em Deus. E vi que defraudando-me, se castigava. Elle não podia, sem
desfalque da sua divindade, abdicar da Côr:--dar ás rosas o tom da
sombra, embora tocado da belleza da noite, podia ser capricho, nunca um
proposito eterno!
Chamei Deus a mim, num esforço ingente de Artista que requer o Elemento
para trabalhar, produzir, crear...
E, desde logo, o sonho se esbateu em claridades. As flores começaram a
colorir--milagre de Deus, da madrugada, do meu olhar!
Deus troca a sua alma com a minha. E sua alma cabe em mim.
Convenço-me de que o lisonjeia a troca--pois a minha abnegação e bondade
não têem a caucioná-las immunidade alguma.
Vivo pelo Amor todo o amor, os maiores desalentos, o proprio odio, os
fados desgraçados...
A intenção da minha ultima jornada foi duma pureza absoluta.
Elevou-me a isenção; por ella desprezei a Moral. Ser moral é servir a
conveniencia; raramente é ser bom. Collidem quasi sempre a Bondade e a
Moral.
Esta é muitas vezes hypocrisia a reflectir trapaça, iniquidade.
A minha coragem afronta o estabelecido. Moral alguma vale a Bondade!
Ainda que sacrificasse a propria vida infinita, eu não recuaria:--outro
Ceu havia de encontrar.
Protegi um dia os amores de dois mendigos. O meu olhar illuminava
aquellas almas, que se trocavam para além das suas miserias.
Esbatia seus enleios um resplendor de sol, que espectrava riquezas e
caprichos de tom:--era a minha bemquerença, a Bondade, eu propria,
desfeita em luz a aquecer aquelles amores, banhando-os de goso divino.
Indifferente aos _grandes nadas_ do mundo--os que geralmente enchem as
canseiras dos semelhantes, perturbo-me ao menor symptoma dum grande
soffrimento.
Deus parece ter-se enganado, extravazando em mim toda a melancholia que
devia ter apartada para uma raça.
Extranha figura sou! No meio de tempestades intimas, as mais batidas, a
alma raramente me deu lagrimas; suggeriu-me desalentos. Outro dia
chorei, convulsa, deante de um numero, que ainda lembro cheia de medos.
Foi sobre a indicação de forçado (C. 3. 3.) com que Oscar Wilde, o
predestinado da Perversão, assignou as paginas magoadas do _De
Profundis_, escriptas no descanço do _hard labour_.
Vi naquelles numeros toda a severidade votada aos degenerados, o
conflicto aberto entre uma sociedade inferior e a sensibilidade
acuradissima dum louco genial.
Tambem eu sou odiada; e, para o grande numero, a Sapho, a larva immunda
que acommete a adolescencia...
Não me defendo. Quantas vezes senti em mim a alma da grande lesbia, que
visitava em meus poemas e loucuras a nova Hellada do Ocidente!
E larva tenho sido. Mas larva a evoluir. A chrysallida que sonha asas.
Sinto-as no auge da nevrose. Prendem á carcassa de linhas finas em que o
Destino veiu pousar uma grande alma. Erguem a minha belleza amoral.
Esta Belleza é pouco e é tudo. Por ella subjuguei forças proprias e
extranhas a um só fim:--_sentir_.
Toda a gente odeia a Morte. Porque?
Ella é o supremo bem. O que o vulgo toma por acabamento é passagem para
o Além... Mas esta passagem sómente é consciente para os que na vida
_sentiram_. Só elles podem avistar com os olhos da alma, áquem da
passagem, o eterno da Vida que segue... Como se adquire esta acuidade?
Desconheço-o em parte.
Mas a atmosphera propria a que se manifeste está na ignorancia das leis
do mundo, no desprezo da Vida.
O estado mais proximo da superioridade--é o _estado sensual_, porque é
elle que superentende, domina a nevrose, dando o maximo de elasterio á
sensibilidade:--é, afinal, a Arte latente, a Belleza no estado puro.
Como obtive o _estado sensual_? Dando-me ao infinito de sentidos que
descubro áquem e para além de mim...
Que ninguem tente reprimir a sensibilidade. Entregue-se-lhe. Ha no povo
inculto, como entre os superiores, grandes temperamentos deformados pelo
Preconceito. São aquelles a quem o Acaso repartiu almas que são
preciosissimos instrumentos, que elles desferem mal.
Foi a guerra movida á minha conducta que melhor acurou os meus vicios,
suggeriu a defesa integra dos meus actos, e creou, parallelamente ao meu
nihilismo de sentido, uma Philosophia que prende a uma Liberdade amoral
que vae além da outra,--a que peja os Codigos, as Biblias...
Sempre que intravazava o odio alheio, reconhecia, após horas de tortura,
estados novos, de que manavam fontes suaves de riqueza espiritual. Ás
vezes, sentia eu propria necessidade de concitar esses odios.
Esta attracção exprimia o braço do Bem e do Mal,--o instincto duma
grande missão de Unidade a colligir os recursos do Novo-Mundo da
Belleza. A grande elementação desse mundo não dispensa o Mal. Toda a
creação é dolorosa.
Gosar o soffrimento é acceitar aquella missão. Mas, porque só os maiores
a acceitam, só elles a gosam, exprimindo em Arte o agridoce daquella
dor.
O vulgo mal comprehende a tortura dos eleitos, o que reflecte de
grandeza sobrenatural. E a Sciencia não alcança mais! Que eram os
apostolos quando se deixavam retalhar, a sorrir, de olhos fitos no Além?
Para o povo eram santos, para a sciencia--loucos. Erro grosseiro é ler a
Dor atravez das lentes escuras que vestem os olhos de tanto myope! Como
falseiam a missão da Belleza!
Loucos os apostolos duma Religião!
Tambem vou ser acoimada de louca! Quantas affinidades com elles hão de
encontrar-me... E talvez, inconscientemente, a Sociedade acerte. O que é
um louco?
É o espelho de melhor ou peor crystal, biselado ou lizo duma alma sem
artificio a viver desvairamentos. É o absoluto em sinceridade--o que ri,
e chora, odeia e ama sem trapaça, indifferente á sociedade que o
espreita, o que despe a alma na praça publica sem caridade por si,
alheio a quem o vê.
Na escala da loucura ha os criminosos-loucos, que dão á sociedade
pretexto a que ella os enclausure, para melhor os explorar, e ha os
outros, os que ella frecha de infamias, emparedando-os de preconceitos,
dando-lhes a liberdade de sonharem alto, para que possam ouvir-lhes o
sonho, e impedir-lhes que realizem desvairamentos, por vezes geniaes...
São os criminosos, os santos,--todos os reduzidos de entendimento, como
os que o possuem accrescentado duma sensibilidade incomprehensivel. O
mundo ri egualmente da treva dum inferior, como dos supremos
desvairados.
Os inferiores desconhecem a grande parte da verdade eterna que o sonho
contém, que ha, por vezes, na loucura profecias geniaes.
Parece que os loucos sonham, quando adormecidos, actos que a sociedade
toma por feitos de juizo.
Depois ao acordarem abysmam-se do desapontoado dos sonhos...
Exactamente o inverso do que succede ao Vulgo. Este delira no somno os
grandes feitos e delictos. Uns e outros relegam o que sonharam.
Ora o Artista, ou acorde na Obra uma aspiração do Vulgo, ou desvaire
fóra do tempo e do espaço em que trabalha, é sempre a creatura que vive
na Arte o sonho e sonha na Arte a Vida!
Do louco tem o desvairamento, que lhe distende a sensibilidade até á
abnegação, o alheamento da conveniencia, a fatalidade do temperamento,
agindo livre entre clarões e trevas. Sou a Artista-louca, perdida no
cosmorama dos Paizes-Altos da Belleza. Não conheceis estes paizes! São
aquelles que o meu genio doente aguarella e o Sentimento repinta e vive.
Deslumbro o entendimento na Fé sonhada--a nova Attica do Ocidente.
Valho o abraço de dois povos, que se estreitam e vivem as ultimas
loucuras confundindo as almas!
Sou o Ocidente a alar-se.
Como a Grecia attingi o _estado sensual_. Deliro na ante-camara da Morte
o sonho hellenico que vejo para além...
Triumpho morrendo.
Morrer é simplesmente erguermo-nos. Vou elevar-me, descansar na Altura.
Attingi pela Dor o planalto que me vae ser ponto de vôo. Fui a creatura
que o Destino arrancou da pureza humilde dos montes, e que, ao chegar á
civilização, deslumbrou de torpeza. Aguia nata em ferocidades puras,
quiz o luxo mundano domesticar-me para que eu sommasse á ferocidade
selvagem a hediondez civilizada!
Salvou-me a raça. Vivi o temperamento, as taras, tudo o que era meu, bem
meu, em reacção com os outros.
Raras alegrias me assaltaram. Tinha de ser:--a Alegria jámais fecundou.
Vi chover sobre a minha obra, que era mais do que eu propria, pois que
era eu tocada do sobrenatural, petalas de oiro e lama.
Prosápia, bens, armas, brasões, tudo revôlto, perdido...
Portugal, Hespanha!
As armas, os brasões, vós proprios os derrubastes, esquecidos de que
tambem eram vossos, principalmente vossos!
A Historia ha de gelar no coração das creanças, quando os saxões e os
outros, as raças praticas, vierem tentar o Ocidente... Antevejo
conflictos entre as futuras searas de adolescentes, sortidas de pequenos
demonios dourados, sardentos e gulosos dos meus bens.
Deixae-me beijar-vos, oh adolescentes morenos da minha raça,--corpos de
sombra e sonho, pelo vosso triumpho!
Reviverá na vossa belleza o meu genio--nos Estados que tereis de crear o
meu sonho!
Eu mesma terçarei armas na vossa lucta.
Voltarei, vestida dos vossos corpos de bronze. Sentir-me-eis em vós,
como hoje vos sinto em mim!
Mas só resurge quem morre. Entreguemo-nos ao Deus latente em nós, que
nos dá na Morte o summo poder.
Por tudo elle a repartiu, como a signalar que em tudo é latente.
O infinitamente grande leva a sua grandeza divina até vestir o
infinitamente pequeno.
O infinitamente pequeno é Deus procedendo, transformando. A Morte é o
genio divino, tocado da treva, a simular aniquilamento...
É elle a recolher o material disperso, para modelar e animar novos
sonhos. É o esboço de novas formas a apparecer.
Bemdigamos o Deus que somos, o Deus que vive em tudo e é Tudo. Amemos a
Morte, pois que ella é, definitivamente, Deus.
É isto loucura? Sei lá! Talvez sonho...
Por meu mal, sonho sempre. Batalho ás noites com phantasmas. A outra
noite, foi com phantasmas de Belleza. Assisti a uma refeição nova, a
refeição da madrugada, na Villa-Feia.
Jehovah, entendeu-se com os do Olympo e a pedido de Apollo, que me
convidára, quietou o tempo numa luz branco-cinza. Jupiter emprestou
Ganymedes para servir os nectares, o mel, os fructos; Jehovah mandou
seraphins, rosas...
Os convivas eram Nuno, Apollo, Venus, adolescentes morenos de culpa, que
fui resgatar ao inferno catholico; Sebastião, o ephebo-martyr;
Edgar--muito discreto e lindo no seu nu côr de tocha;--Ruy, abraçado a
Nuno, a afogá-lo no mar de luz do seu olhar velludento, verde de
vicio;--Helen, feita sereia vegetal, erguendo a cabeça airosa e loira
dentre petalas de açucena;--finalmente a Hermaphrodita, a Penedia
enorme, que vi espreguiçar-se, mover o peito, as coxas de gran, e
levantar-se, suprema, para vir tambem tomar parte na refeição,
penetrar-se da essencia, do olor das rosas.
O nectar era servido em flores de magnolia e peonias...
Começou a refeição; pedi mel. Veio Ganymedes servi-lo; mediu cem
violetas do oiro-doce para a copa dum lirio que beijou e correu a
trazer-me. Bebi dum trago o lirio-calice da loira resina. Pedi os
fructos, as flores da figueira--figos tumidos de carne-vermelha, coberta
a seda-amethysta; quiz romãns, damascos, peros de Deus... Sorvi tudo. De
repente, ao tomar a terceira peonia de nectar, senti-me entontecida,
deliciosa e horrivelmente nauseada!
Era o olor das rosas, a essencia do nectar, dos fructos, daquella Carne
tocada do genio dos divinos oleiros, o perfume das taças,--tudo a
perturbar-me!
Evoquei os Deuses e acordei ao grito da sua voz, que era a voz da minha
queixa! E, acordada, volvi a pedir-lhes que de novo me remetessem ao
sonho, e me asphyxiassem, de vez, pela Imaginação!
Queria morrer imaginando, abrupta ou suavemente, mas do mal-de-sonhar...
* * * * *
O pensamento fixo é partir, morrer.
Jámais alguem sentiu, _viveu_ assim a Morte. Esta é a sua Elegia, o
derradeiro e mais soffrido dos meus Poemas. É que sou eu em união
hypostatica com o Divino Poeta.
Não obedece ás formas vulgares do verso. Tem as formas espraiadas da
massa da agua em movimento. Resume a forma definitiva da Poesia. Nenhuma
alma soffre medida. Menos podia soffrê-la a minha, immensa como o genio
que a distende.
Eu não poderia contar as sensações intimas da minha tristeza. Quem pode
contar as commoções da labareda? Como havia de sujeitar ao metro o
infinito de melancholia que sinto agora e dar o espectro da
transformação que está a passar-se em mim?
Vou morrer. Nem sinto a dor dos que vão desesperados e sem fé, nem a
alegria dos que partem de vez á conquista doutros mundos. Sou a acropole
do sentimento. Acceito a Morte como um bem. Vou provocá-la como
successão logica duma Vida que só pode continuar-se depois da nova
provação.
Esta provação era fatal... Exulto! Matar é transformar. Vou
transformar-me. Quando voltar serei outra.
Saudades, levo-as das tristezas que vivi.
A tristeza, a nevoa de melancholia que enchem esta hora de partida,
dão-me a nostalgia do mundo que fui, de muitas batalhas de dor, agora
decididas.
A Dor tem o sestro dos maus filhos; aferra-se profundamente aos corações
que tortura, e domina-os. Mas ha dores e dores!
Nas passadas vivo a Saudade, nas presentes a Morte! Abençôo a Morte que
me conduz á nova Vida. E soffro e goso suavemente esta jornada que para
tantos é maldita...
Morro no outomno. O Destino quiz que fosse com as ultimas esperanças dos
primeiros tuberculosos...
Tisicos, iremos todos! Quero ir cercada das vossas figuras brancas,
puras da doença. Os atalhos hão de mandar flores a acompanhar-nos...
Oh! que lindo cortejo. Já as vejo, além, paramentadas! São
papoilas-sangue, risos petalados de boas-idas.
Iremos já. Tenho ali a mascara que, embebida em Ether, ha de dar-me
passagem para a grande Vida. Começo a viver a suprema Vida.
Não sou já a «Emparedada»; a sombra immensa que projecto rompeu de vez a
espessura que me occultava do Deus latente em mim, do Deus que sou.
Que cega estava, que surda fui. Como a Terra, o Mar, tudo é differente!
O Mundo, oh que genial mentira! Como o distingo bem, de longe! Eu
propria fui o que elle é--Confusão. O que avisto:--palacios de
poderosos, columnados de gelo; choupanas de Luz; corações de tritão em
peitos de sereia; fios de aranha alando a Terra; a Humildade a chorar
sob doceis de granadas; a Humanidade em arestas á mercê do vento, a
mergulhar nos pantanos; monstros a florirem amor; e tudo a morrer para
viver, a viver para morrer!
Já converso as sereias, os tritões, as sombras dos Poetas.
Phosphorescencias da agua--oh que mysterios de luz!
Quantos espiritos novos! São sátyros estrebuchando amores, na treva; são
genios lendo á luz verde dos pyrilampos a vida dos pinheiraes; são
levadas chorosas da virtude dos homens e da castidade infame das
donzellas; é a onda a trabalhar o granito, a estatuar Belleza; é o vento
a ramalhar orações, a petalar a agua, a orchestrar a gargalhadas o Hymno
do Desprezo pelas leis da Terra; é a sombra de Wagner, sob o pallio
verde-escuro dos laranjaes a apontar as notas altas dos rouxinoes para
dar a ultima demão ao Hymno de Amor em que vae cantar o Infinito...
São moinhos a moerem bagos de oiro, de que os homens fazem o pão
puro--rodas de moinho a beberem agua e a espadanarem leite, o leite que
o ribeiro entorna pelas sementeiras e amamenta o linho, as papoilas, e
os trigaes!
Cada tronco de arvore é uma columna de Vida. Folhas são asas batendo
Amor. Flores são tulipas, botões de luz... Luz de Carne!
Nem o luar de Granada empresta á noite uma luz como a das flores. É uma
luz de opala com cambiantes suaves, luz que reflecte corpos, almas em
sonho.
Ah! agora, sim! Já vejo, já palpo e goso as figuras que procurava,--as
minhas creações!
Sinto o sussurro, a melodia gemente da transfusão do que fui no que vou
ser, no que já sou...
O que ouço é como o murmurio brando de levadas. É Mozart a sonhar... São
as Fontes.
Oh! figuras sagradas, esculpturas de nevoa, abraçae-me! Assim...
Fundamo-nos!
Chovam sobre mim petalas de borboleta e asas de rosa. Fui na terra irmã
das borboletas, parenta das rosas. Subam até mim columnas de incenso, o
riso vermelho das creanças, as ondas de sensualidade innocente que
encapellam a Terra.
A Artista vae morrer. Distingo o fim da Noite no começo do Dia...
Ahi vem a Madrugada. Abençoada seja a Noite, mãe da Madrugada! Bemdito o
eterno Dia!
Aquellas rocadas de algodão, humidas de Ether, são as nuvens que ha
pouco vi passar além, que tenho ali e posso apertar na minha mão.
Scenarios e scenarios de pureza! O Mar, o Ceu, a Morte tudo é branco,
continuando-se de mim, do meu alvor... Alvor da alma que tudo repassa de
Belleza!
Toda a Belleza permeio, toda a Belleza sou:--a Nuvem, o Mar, a Dor...
Sou o Mar que sóbe em cambraias de nevoa, a Nuvem que desce em veu de
madrugadas e perolas de granizo...
Bemdito sejas, oh Deus!
Vou ser o Ether que me sóbe á nova Vida!
Sou a Onda, a Nuvem que passa, e se esbate em Nada,--a razão, o inicio
de tudo!
Irmãos! vou partir, vou viver! Sou já o Ether, sou a Altura...