linda casa de pedra e cal, novasinha, entre o mar e o jardim; no angulo
estava este nome: _Bravées._ A casa, cuja frente fazia parte da muralha
do porto, era notavel por duas fileiras de janellas, ao norte, do lado
de um cercado cheio de flôres, ao sul, do lado do mar; de modo que era
uma casa com duas fachadas, dando uma para as tempestades, outra para
as rosas.
As fachadas pareciam feitas para os dous moradores: mess Lethierry e
miss Deruchette.
Era popular a casa de Lethierry, porque elle proprio acabou sendo
popular. A popularidade nascia em parte da bondade, da educação e da
coragem delle, parte dos homens que elle salvara de perigos imminentes,
em grande parte do bom exito da Galeota, e tambem por ter dado ao
porto de Saint-Sampson, o privilegio das partidas e chegadas do vapor.
Vendo que decididamente o Devil-Boat era um bom negocio, Saint-Pierre,
capital, reclamou o vapor para si, mas Lethierry conservou-o para
Saint-Sampson. Era a sua cidade natal. Daqui é que eu fui lançado ao
mar, dizia elle. Tinha por isso grande popularidade local.
A qualidade de proprietario e contribuinte fazia delle o que em
Guernesey se chama um _unhabitant._ Deram-lhe um cargo. O pobre
marinheiro galgou cinco degráos, dos seis que tem a ordem social
guernesiana; era mess; estava quasi _gentleman_, e quem sabe mesmo
se não passaria dahi? Quem sabe se algum dia não se havia de ler
no almanack de Guernesey, no capitulo _Gentry and Nobility_ esta
inscripção inaudita e soberba: _Lethierry, esq._
Mess Lethierry, porém, desdenhava ou antes ignorava o que era a vaidade
das cousas. Sentia-se util, era a satisfação delle; ser popular
commovia-o menos que ser necessario. Já o dissemos, tinha dous amores,
e por consequencia, duas ambições: Durande e Deruchette.
Fosse como fosse, Lethierry arriscou-se na loteria do mar, e tirou a
sorte grande.
A sorte grande, era Durande navegando.
VII
O MESMO PADRINHO E A MESMA PADROEIRA
Depois de crear o vapor, Lethierry baptisou-o, deu-lhe o nome de
_Durande._ Não lhe daremos daqui em diante se não este nome. Seja-nos
licito igualmente, qualquer que seja o uso typographico, escrever
_Durande_ sem ser em gripho, conformando-nos nisto ao pensamento de
mess Lethierry para quem Durande era quasi uma pessoa.
Durande e Deruchette é o mesmo nome. Deruchette é o diminutivo. É muito
usado esse diminutivo no oeste da França.
No campo, os santos têm muitas vezes o seu nome com todos os
diminutivos e augmentativos. Parece que ha muitas pessoas e é só uma.
Esta identidade de padroeiros e padroeiras com differentes nomes, não é
rara, Lise, Lisette, Lisa, Elisa, Isabel, Lisbeth, Betsy, tudo isto é
Elisabeth. É provavel que Mahout, Machut, Malo e Magloire sejam o mesmo
santo. Mas não fazemos cabedal disso.
Santa Durande é uma santa de Angoumois e da Charente. Será correcta?
Isso é lá com os bolandistas. Correcta ou não, esta santa tem muitas
igrejas.
Estando em Rochefort, e sendo ainda rapaz, Lethierry tomou conhecimento
com aquella santa, provavelmente na pessoa de alguma formosa
Charenteza, talvez a rapariga das unhas bonitas. Restou-lhe recordação
bastante para dar aquelle nome ás duas cousas que elle amava; Durande á
Galeota, Deruchette á menina.
Lethierry era pae de uma e tio da outra.
Deruchette era filha de um irmão que elle teve. Morreram-lhe os paes.
Lethierry adoptou a criança, e substituio o pae e a mãe.
Deruchette não era sómente sobrinha, era tambem afilhada de Lethierry.
Foi elle quem a levou á pia, dando-lhe por padroeira Santa Durande, e
por nome Deruchette.
Deruchette, já o dissemos, nasceu em Saint-Pierre Port. Estava
inscripta no registro da parochia.
Emquanto a sobrinha foi criança e o tio pobre, ninguem se importou com
o nome _Deruchette_; mas quando a mocinha chegou a miss e o marinheiro
a gentleman, _Deruchette_ começou a desagradar a todos. Perguntavam a
mess Lethierry:
--Porque lhe dá esse nome?
--É um nome assim, respondia elle. Tentaram mudar-lhe o nome. Lethierry
não quiz.
Uma senhora da alta sociedade de Saint-Sampson, mulher de um ferreiro
abastado, e que já não trabalhava, disse um dia a mess Lethierry:
--Daqui em diante chamarei _Nancy_ á sua filha.
--Porque não lhe chamará Lons-le-Saulnier? disse elle.
A bella senhora não desistio, e no dia seguinte disse-lhe:
--Decididamente não queremos que ella se chame Deruchette. Achei um
lindo nome: _Marianne._
--Lindo nome realmente, disse mess Lethierry, mas composto de dous
animaes bem ruins, um _mari_ (marido) e um _ane_ (asno).
Lethierry manteve o nome de Deruchette.
Enganar-se-hia aquelle que concluisse pelas ultimas palavras de
Lethierry que elle não queria casar a sobrinha. Queria casa-la,
de certo, mas ao seu modo. Queria um marido da sua tempera, muito
trabalhador, de maneira que Deruchette não fizesse nada. Gostava das
mãos tostadas do homem e das mãos alvas da mulher. Para que Deruchette
não estragasse as lindas mãos que tinha, dava-lhe occupações elegantes,
mestre de musica, piano, bibliotheca e bem assim alguma linha e agulhas
em uma cestinha de costura.
Deruchette lia mais do que cosia, cantava e tocava mais do que lia.
Mess Lethierry queria isso mesmo. Não lhe pedia nada mais que o encanto
a fascinação. Educou-a mais para ser flôr do que para ser mulher. Quem
tiver estudado os marinheiros ha de comprehender isto. As rudezas amam
as delicadezas. Para que a sobrinha realizasse o ideal do tio, era
preciso que fosse opulenta. Era isso o que mess Lethierry comprehendia
perfeitamente. A machina do mar trabalhava com esse fim. Durande devia
dotar Deruchette.
VIII
A MELODIA BONNY DUNDEE
Deruchette occupava o mais lindo quarto da casa, com duas janellas,
mobilia de mogno, cama de cortinas riscadas de verde e branco, tendo
vista para o jardim e para a coluna onde está o castello do Valle. Do
outro lado desta collina é que estava o tutú da rua.
Deruchette tinha no quarto a musica e o piano. Acompanhava-se ao piano
cantando a canção da sua preferencia, a melancolica melodia escosseza
_Bonny Dundee_; a noite encerra-se toda naquella aria, a aurora
encerrava-se toda naquella voz; isto produzia insolito contraste.
Dizia-se: miss Deruchette está ao piano; e os que passavam ao sopé
da collina paravam algumas vezes diante do muro do jardim para ouvir
aquelle canto tão fresco e aquella canção tão triste.
Deruchette era a alegria perpassando a casa toda, e fazendo alli uma
eterna primavera. Era formosa, porém, mais linda que formosa, e mais
gentil que linda. Fazia lembrar aos velhos pilotos amigos de mess
Lethierry aquella princeza de uma canção de soldados e marujos, tão
bella--_que passava por tal no regimento._
--Deruchette tem um cabo de cabellos, dizia mess Lethierry.
Era lindissima desde a infancia. Receiou-se por muito tempo que o nariz
fosse disforme, mas a pequena, provavelmente disposta a ficar bonita,
manteve-se de modo que não adquirio deffeito algum até tornar-se
moça; o nariz nem ficou comprido nem curto; e chegando á juventude,
Deruchette conservou-se encantadora.
Dava o nome de pai ao tio.
Mess Lethierry concedia-lhe algumas funcções de jardineira e mesmo de
dona de casa. A moça regava os canteiros de malvaisco, de verbasco,
de phlox e herva benta; cultivava oxalida rosada; utilisava o clima
da ilha de Guernesey, tão hospitaleira ás flores. Tinha, como toda a
gente, aloes plantado no chão, e, o que é mais difficil, fazia pegar a
potentilha de Nepaul. Tinha uma horta habilmente arranjada; plantava
espinafres, rabanetes e ervilhas; sabia semear a couve flôr da Hollanda
e a couve de Bruxellas; transplantava-as em Julho; nabos para Agosto,
chicoria para Setembro, pastinaca para o outomno, e rapuncio para
o inverno. Mess Lethierry consentia em tudo isso, comtanto que não
trabalhasse muito com a pá e o ancinho, e sobretudo que não fosse ella
propria quem estrumasse a terra. Deu-lhe duas criadas, uma chamada
Graça, e a outra Doce, nomes usados em Guernesey. Graça e Doce faziam
o serviço da casa e do jardim, e tinham o direito de andar com as mãos
vermelhas.
O quarto de mess Lethierry era retirado, dava para o porto e era
contiguo á sala grande do rez do chão, onde havia a porta de entrada
e aonde iam ter as diversas escadas da casa. A mobilia do quarto
compunha-se de uma maca de marujo, um chronometro, uma mesa, uma
cadeira e um cachimbo. O tecto, construido com vigas, era caiado,
bem como as paredes á direita da porta estava pregado o archipelago
da Mancha, bella carta maritima onde se lia a seguinte inscripção:
_W. Faden,_ 5, _Churing Cross. Geographer to His Majesty_; e á
esquerda estava pendurado um desses grandes lenços de algodão que
trazem figurados os signaes de todas as marinhas do globo, tendo nos
quatro cantos os estandartes da França, da Russia, de Hespanha e dos
Estados-Unidos da America, e no centro a Union-Jack da Inglaterra.
Doce e Graça eram duas creaturas ordinarias, devendo tomar-se esta
palavra á boa parte. Doce não era má, e Graça não era feia. Não lhes
ficavam mal tão perigosos nomes. Doce, que era solteira, tinha um
amante. Nas ilhas da Mancha usa-se tanto a palavra como a cousa. As
duas criadas faziam o serviço com uma especie de lentidão propria
á domesticidade normanda no archipelago. Graça, faceira e bonita,
contemplava constantemente o horisonte com uma inquietação de gato.
Era porque, tendo tambem o seu amante, tinha de mais a mais, dizia-se,
marido marinheiro, cuja volta receiava. Mas nós não temos nada com
isto. A differença entre Graça e Doce é que, n'uma casa menos austera
e menos innocente, Doce ficaria criada de servir e Graça subiria á
posição de criada grave. Os talentos possiveis de Graça eram nullos
para uma moça candida como Deruchette. Demais, os amores de Doce e
Graça eram latentes. Nada chegava aos ouvidos de mess Lethierry, nada
salpicava sobre Deruchette.
A sala baixa do rez do chão, com chaminé é rodeada de bancos e mesas,
servira no seculo passado para as reuniões de um conventiculo de
refugiados francezes protestantes. A parede de pedra núa não tinha
ornamento algum a não ser um quadro de madeira preta com um cartaz
de pergaminho ornado das proesas de Benigno Bossuet, bispo de Meaux.
Alguns pobres diocesanos daquelle genio, perseguidos por elle na
occasião da revocação do edito de Nantes, e abrigados em Guernesey,
penduraram aquelle quadro na parede como um testemunho.
Quem podia decifrar a letra tosca e a tinta amarellada, lia naquelle
cartaz os seguintes factos pouco conhecidos;--«A 29 de Outubro de
1685, demolição dos templos de Morcef e de Nanteuil, requerida ao rei
pelo Sr. bispo de Meaux.»--«A 2 de Abril de 1686, prisão de Cochard
pai e filho por motivo de religião, a requerimento do Sr. bispo de
Meaux. Foram soltos por terem abjurado.»--«A 28 de Outubro de 1699 o
Sr. bispo de Meaux envia ao Sr. de Pontchartrain uma memoria expondo
a necessidade de transportar as Sras. de Chalandes e de Neuville,
donzellas da religião reformada, para a casa das Novas-Catholicas
de Paris.»--«A 7 de Julho de 1703 executou-se a ordem pedida ao rei
pelo Sr. bispo de Meaux de encerrar no hospital um tal Beaudoin e sua
mulher, _mãos catholicos_, de Fublaines.»
No fundo da sala, ao pé da porta do quarto de mess Lethierry, havia
uma pequena divisão de taboas, que tinha sido tribuna huguenote, e era
então graças a uma grade arranjada, o _office_ do vapor, isto é, o
escriptorio da Durande occupado por mess Lethierry em pessoa. Na velha
estante de carvalho um registro com as paginas cotadas, Deve e Hade
Haver--substituia a Biblia.
IX
O HOMEM QUE ADVINHOU QUEM ERA RANTAINE
Mess Lethierry governou a Durande emquanto pode navegar, e nunca teve
outro piloto nem outro capitão; mas lá chegou um dia em que elle foi
obrigado a deixar o mar. Escolheu para substitui-lo o Sr. Clubin, de
Torteval, homem silencioso. O Sr. Clubin tinha em toda a costa fama de
severa probidade. Era o _alter ego_ e o vigario de mess Lethierry.
O Sr. Clubin, embora desse mais ares de tabelião que de marinheiro, era
um maritimo capaz e raro. Tinha todos os talentos que exige o perigo
perpetuamente transformado. Era arrumador habil, gageiro meticuloso,
contramestre desvelado e perito, timoneiro robusto, piloto instruido,
e atrevido capitão. Era prudente e algumas vezes levava a prudencia ao
ponto de ouzar, o que é uma grande qualidade na vida maritima. Tinha
o receio do provavel temperado pelo instincto do possivel. Era um
desses marinheiros que affrontam o perigo em uma proporção conhecida
delles, sabendo triumphar em todas as aventuras. Toda a certeza que
o mar póde deixar a um homem, elle a tinha. Era além disso nadador
de fama; pertencia a essa raça de homens exercitados na gymnastica
da vaga, que se conservam n'agua o tempo que se quer, e que partindo
do Havre-des-Pas, dobram a Collete, fazem a volta da Ermitage e a do
castello Elisabeth e voltam ao cabo de duas horas ao ponto de partida.
Era de Torteval e dizia-se que fizera muitas vezes a nado, o temivel
trajecto desde Manois até á ponta de Plaintmont.
Uma das cousas, que mais recommendaram o Sr. Clubin a mess Lethierry,
foi que, conhecendo ou penetrando Rantaine, assignalou a mess
Lethierry a improbidade daquelle homem, e disse-lhe:--_Rantaine ha de
roubal-o._ Verificou-se a profecia. Mais de uma vez, em negocios pouco
importantes, é verdade, mess Lethierry experimentou a escrupulosa
honestidade do Sr. Clubin e descançava nelle. Mess Lethierry dizia:
Consciencia quer confiança.
X
NARRATIVAS DE VIAGENS DE LONGO CURSO
Mess Lethierry, que se não accomodava de outro modo, vestia sempre a
sua roupa de bordo, preferindo mesmo a japona de marinheiro, á japona
de piloto. Deruchette torcia o nariz por isso. Nada é tão bello como
uma caretazinha da formosura em colera. Deruchette ralhava e ria--_Bom
paisinho_, dizia ella, _está cheirando a alcatrão._ E dava uma
palmadinha na larga espadua do marinheiro.
Aquelle velho heróe do mar trouxe das suas viagens, narrativas
maravilhosas. Vio em Madagascar plumas de passaro das quaes bastavam
tres para cobrir uma asa. Vio na India hastes de azedinhas, de nove pés
de altura. Vio na Nova Hollanda bandos de perús e de patos dirigidos
e guardados por um cão de pastor, que naquella terra é um passaro,
e chama-se galinha silvestre. Vio cemiterios de elephantes. Vio em
Africa uma especie de homens-tigres de sete pés de altura. Conhecia
os costumes de todos os macacos, desde o macaco bravo até o macaco
barbado. No Chile vio uma bugia commover os caçadores apresentando-lhes
o filho.
Vio na California um tronco de arvore ouco, no interior do qual um
homem a cavallo podia andar cento e cincoenta passos. Vio em Marrocos
os mozabitas e os biskris baterem-se com matraks e barras de ferro,
os biskris por terem sido tratados de _kelb_, que quer dizer cães,
e os mozabitas por terem sido tratados de _khamsi_, que quer dizer
gente da quinta seita. Vio na China cortar em pedacinhos o pirata
Chanh-thong-quan-harh-Quoi, por ter assassinado o Ap de uma aldêa. Ern
Thudanmot, vio um leão arrebatar uma mulher velha do meio do mercado da
cidade. Assistio á chegada da grande cobra mandada de Cantão a Saigon,
para celebrar na pagode de Cho-len, a festa de Quan-nam, deosa dos
navegantes. Contemplou na terra dos Moi, o grande Quan-Su.
No Rio de Janeiro, vio as senhoras brasileiras collocarem nos cabellos
pequenas bollas de gaze contendo cada uma dellas um vagalume, o que
lhes fazia uma coifa de estrellas. Destruio no Uruguay os formigueiros,
e no Paraguay um certo bichinho, que occupa com as patas um diametro
de um terço de vara, e ataca o homem, por meio dos proprios pellos,
que lhe atira em cima, e que se cravam na carne produzindo pustulas.
No rio Arinos, affluente do Tocantins, nas mattas virgens do norte
da Diamantina, verificou a existencia do terrivel povo-morcego, os
morcilagos, homens que nascem com os cabellos brancos e os olhos
vermelhos, habitam os bosques sombrios, dormem de dia, accordam de
noite, e pescam e caçam nas trevas, vendo melhor de que quando ha lua.
Perto de Beirouth, no acampamento de uma expedição de que fazia parte,
foi roubado de uma tenda um pluviometro; então um feiticeiro vestido de
duas ou tres fachas de couro, assemelhando-se a um homem vestido com os
proprios suspensorios, agitou tão furiosamente uma campainha na ponta
de um chifre que appareceu logo uma hyena trazendo o pluviometro. A
hyena é que o tinha roubado.
Estas historias verdadeiras, assemelhavam-se tanto a historias da
carochinha que divertiam Deruchette.
A boneca de Durande era o élo entre o vapor e a moça. Chama-se boneca
nas ilhas normandas a figura talhada na prôa, estatua de madeira mais
ou menos esculpida. Dahi vem que para dizer _navegar_, a gente das
ilhas usa desta locução; estar entre popa e boneca (_poupe et poupée._)
A boneca de Durande tinha as predilecções de mess Lethierry. Elle
encommendára ao carpinteiro que a fizesse parecida com Deruchette.
Parecia-se como obra feita a machado. Era uma acha de lenha
esforçando-se por ser moça bonita.
Mas a cousa, embora disforme, illudia mess Lethierry. Contemplava-a
como um crente. Estava de boa fé diante daquella figura. Reconhecia
nella a imagem de Deruchette. É mais ou menos assim que o dogma se
parece com a verdade, e o idolo com Deos.
Mess Lethierry tinha duas grandes alegrias por semana; uma na
terça-feira e outra na sexta. Primeira alegria, ver partir Durande;
segunda alegria, vê-la chegar. Encostava-se á janella, contemplava a
sua obra, era feliz. Ha alguma cousa assim no Genesis. _Et vidit quod
esset tonum._
Na sexta-feira, a presença de mess Lethierry na janella era um signal.
Quem o via chegar á janella da casa de _Bravées_, acender o cachimbo,
dizia logo: Ah! o vapor está a chegar.
Uma fumaça annunciava a outra.
A Durande, entrando no porto, atava a amarra debaixo das janellas de
mess Lethierry, n'uma grande argola de ferro. Nessas noites Lethierry,
gozava um admiravel somno na sua maca, sentindo de um lado Deruchette
adormecida, do outro Durande amarrada.
O ancoradouro de Durande era perto do porto. Diante da casa de
Lethierry havia um pequeno cáes.
O cáes, a casa, o jardim, as marinhas orladas de sebes, a maior
parte das casas vizinhas, nada existe hoje. A exploração do granito
de Guernesey fez vender os terrenos todos. Aquelle lugar está hoje
occupado por estancias de quebradores de pedra.
XI
LANCE DE OLHOS AOS MARIDOS EVENTUAES
Deruchette ia crescendo e não se casava.
Mess Lethierry fel-a uma moça de mãosinhas alvas, mas tornou-a
exigente. Educações daquellas voltam-se sempre contra os pais.
Elle proprio era mais exigente ainda que a filha. Imaginava um marido
para Deruchette que fosse tambem marido de Durande. Queria de um lance
prover as duas filhas. Queria que o companheiro de uma fosse piloto da
outra. Que é um marido? É o capitão de uma viagem. Porque motivo não
dar um só capitão ao navio e á filha? O casal obedece ás marés. Quem
sabe guiar uma barca sabe guiar uma mulher. Ambas são sujeitas á lua
e ao vento. O Sr. Clubin, tendo apenas quinze annos menos que mess
Lethierry, não podia ser para Durande senão um capitão provisorio; era
preciso um piloto moço, um capitão definitivo, um verdadeiro successor
do inventor, do creador. O piloto de Durande seria o genro de mess
Lethierry. Porque motivo não fundir os dous genros em um só?
Lethierry affagava esta idéa. Via apparecer-lhe em sonhos um noivo. Um
gageiro possante e tostado, athleta do mar, eis o seu ideal. Não era
esse o ideal de Deruchette, o sonho da moça era mais côr de rosa.
Fôsse como fôsse, o tio e a sobrinha pareciam estar de accordo em não
terem pressa. Qnando viram Deruchette tornar-se herdeira provavel,
apresentaram-se pedidos aos centos. Estas sollicitudes nem sempre são
de boas qualidade. Mess Lethierry sentia isso, e dizia entre dentes:
moça de ouro, noivo de cobre. E despedia os pretendentes. Esperava.
Ella tambem.
Cousa singular, Lethierry não fazia cabedal da aristocracia. Por esse
lado era um inglez inverosimil. Difficilmente se acreditará que elle
chegou a recusar um Ganduel, de Jersey, e um Bugnet-Necolin, de Serk.
Houve mesmo quem ousasse affirmar, mas nós não acreditamos, que elle
recusou uma proposta da aristocracia de Aurigny, indeferindo o pedido
de um membro da familia Edou, que evidentemente descende de Edou-ard o
Confessor.
XII
EXCEPÇÃO NO CARACTER DE LETHIERRY
Mess Lethierry tinha um defeito, e grande. Odiava, não uma pessoa, mas
uma cousa, o padre. Lendo um lia, em Voltaire,--costumava ler e lia
Voltaire,--estas palavras «_os padres são gatos,_» mess Lethierry poz o
livro de parte, e ouviram-n'o murmurar baixinho: _sinto-me cão._
Cumpre não esquecer que os padres lutheranos, calvinistas, e
catholicos, atacaram-n'o vivamente, e pereguiram-n'o docemente, por
causa da construcção do Devil-Boat local. Ser revolucionario em
navegação, tentar introduzir um progresso no archipelago normando,
impor à pobre ilha de Guernesey os esboços e uma invenção nova, era,
conforme dissemos, uma temeridade condemnavel. Lethierry não escapou
a uma certa condemnação. Não se esqueçam que fallamos do clero antigo
differente do clero actual, que, em quasi todas as igrejas locaes, tem
uma tendencia liberal para o progresso. Pearam-n'o de todos os modos;
oppuzeram-lhe toda a somma de obstaculos que póde haver nas predicas
e nos sermões. Odiado pelos homens da igreja, Lethierry aborrecia-os
tambem. O odio dos outros era a circumstancia attenuante do odio delle.
Mas a sua aversão pelos padres era idiosyncratica. Para odial-os não
precisava de ser odiado. Como elle proprio dizia, era o cão daquelles
gatos. Era contra elles pela idéa, e, o que é mais irreductivel, pelo
instincto. Sentia as garras latentes dos padres, e mostrava-lhes os
dentes. A torto e a direito, confessemol-o, o nem sempre a proposito.
É erro não distinguir. Não são bons os odios absolutos. Nem mesmo o
vigario saboyano mereceria as sympathias de Lethierry. Não é certo que
para elle houvesse um bom padre. Á força de philosophar ia perdendo
a circumspecção. Existe a intolerancia dos tolerantes, como existe
o furor dos moderados. Mas Lethierry era tão boa alma que não podia
ser odiento. Antes repellia que atacava. Fugia dos homens da igreja.
Tinham-lhe feito mal, Lethierry limitava-se a não querer-lhes bem. A
differença entre o odio dos outros e o delle, é que o dos outros era
animosidade, e o delle antipathia.
Guernesey, apezar de ilha pequena, tem lugar para duas religiões.
Existem nella a religião catholica e a religião protestante. Devemos
accrescentar que ahi não entram as duas religiões na mesma igreja. Cada
culto tem a sua capella ou o seu templo. Na Allemanha, em Heidelberg,
por exemplo, a cousa arranja-se menos escrupulosamente; divide-se
uma igreja; metade para S. Pedro, metade para Calvino; entre as duas
ha um tabique para prevenir os murros e pescoções; partes iguaes; os
catholicos têm tres altares; os huguenotes tem tres altares; como as
horas do officio são sempre as mesmas, o sino commum chama na mesma
occasião para os dous serviços. Convoca a um tempo os fieis para Deos e
para o diabo. Simplificação.
O fleugma allemão accommoda-se com estas propinquidades. Mas em
Guernesey, cada religião tem casa propria. Ha parochia orthodoxa e
parochia heretica. Póde-se escolher. Nem uma nem outra, foi a escolha
de mess Lethierry.
Aquelle marinheiro, aquelle operario, aquelle philosopho, aquelle
_parvenu_ do trabalho, simples na apparencia, não n'o era em
substancia. Tinha lá as suas contradições e pertinacias. Era inabalavel
a respeito do padre. Daria quináos a Montlosier.
Costumava a dizer chufas muito descabidas. Tinha expressões proprias
delle, extravagantes, mas sem eixar de ter um sentido. Ir a
confessar-se era para elle: _pentear a consciencia._ Os poucos estudos
que tinha, pouquissimos, feitos aqui e alli, entre duas borrascas,
complicavam-se com erros de orthographia. Tinha tambem erros de
pronuncia, nem sempre ingenuos. Quando se fez a paz entre a França
de Luiz XVIII e a Inglaterra de Wellington, mess Lethierry disse:
_Bourmont foi o traitre d'union_ (traidor por traço) _entre os dous
campos._ Lethierry escreveu uma vez a palavra papado (_papauté_) do
seguinte modo: _pape ôté_ (papa arrancado). Não acreditamos que elle
fizesse isto de proposito.