A aldeia de Loriga foi para onde se dirigiu Viriatho, na falda da serra.
Diziam que era d'alli natural; mas outras povoações, como Folgosinho,
Ceia, Covilhã e Vizeu, tambem disputavam a gloria de terem sido seu
berço. Antes d'essas pequenas terras o adoptarem como filho, já elle
estava possuido do sentimento que o levou a dizer de toda a
Lusitania:--Esta é a ditosa patria minha amada. Viriatho sentia um
prazer intenso ao vêr os trabalhos da povoação pacifica; um grande
circulo de raparigas, com suas arrecadas e collares de ouro, e axorcas
nos braços e pernas, estavam occupadas em uma espadellada de linho. Ao
rithmo das pancadas iam cantando, porque na Lusitania o trabalho foi
sempre uma festa, e ao som de cantigas. Approximou-se para escutar a
*Chacoula da Espadellada*
Separa-se o linho
Das suas aréstas,
Nas espadelladas.
Que alegres pancadas!
E com gosto dadas.
Trabalhos são festas:
Quem olha a fadigas!
Já pelo caminho
Vem as raparigas,
Soltando cantigas
Das mais namoradas.
Quem quizer saber
Quantas conversadas
Andam cá na villa,
Sem maior quesila
Póde conhecer,
Vendo nas mãos d'ellas
Como as espadellas
São bem trabalhadas.
Eu, por mim, sei de uma
Que na espadella
Tem um coração
Feito pela mão
De quem é só d'ella.
Para conhecel-a,
Bastará ahi vêl-a
Sempre olhos no chão...
Mais adiante, em outro casal descendo a encosta por onde se estendia
Loriga, havia ruidosos signaes de alegria; era um Fiandão, uma festa em
que das povoações visinhas concorriam muitas raparigas para fiarem em
festivo ajuntamento todo o linho de uma casa. Era de uso concorrerem
tambem os moços namorados, que tocavam seus machêtes, cantando á porfia as
*Endechas do Fiandão*
Que vezes te vêjo
No limiar da porta
De pé a fiar!
Eu, indo a passar,
Cá de longe um beijo,
Que mal me conforta,
Enviava-te então;
N'essa occasião,
(D'isso não te accuso)
Bem notei que o fuso
Te cahiu da mão.
Se te cáe o fuso
Quando estás á porta,
Será por cuidado,
Imaginação,
Que haja eu causado
Com tanta paixão?
Mas, isso que importa!
Ou será ou não.
Seja como fôr,
Certos signaes são
De ânimo confuso;
Talvez falta de uso
De occultar o amor,
Pois te cáe o fuso
Tanta vez da mão.
Com que alegria,
Ou satisfação,
Levantára o fuso
Que te cáe ao chão;
Eu t'o entregaria
Com a cortezia
Que no amor é uso,
Declarando então:
--Eil-o, em homenagem
D'esta vassalagem
De leal coração;
Para sempre agora
Não cahirá, senhora,
Mais da vossa mão.
Emquanto o moço cantava a endecha apaixonada, todos procuravam com os
olhos se se denunciava pelo rubor a rapariga que a inspirára. Por
casualidade cahiu o fuso da mão a uma d'ellas, e logo as risadas
animaram o Fiandão extraordinariamente.