XXV

Aproveitando o enthusiasmo e confiança das suas tropas pela derrota

estrondosa de Unimano, avançou Viriatho para o norte, transpondo a

margem direita do Tagus. Não havia tempo a perder; era urgente ir ao

encontro do Pretor Caio Nigidio. As esculcas trouxeram a Viriatho a

aterradora noticia de que esse segundo corpo do exercito romano vagava

pela Beira Alta devastando, incendiando granjas e casaes, roubando gados

e aniquilando as sementeiras para reduzir pela fome a população

trabalhadora e pacifica. Era preciso sustar o passo a Nigidio, agora

enfraquecido pela impotencia de Unimano. Viriatho avançou a marchas

forçadas, contando a cada momento encontrar o exercito pretorial.

Proximo já das faldas dos grandes Herminios, vieram as esculcas trazer

ao cabecilha a noticia, de que Nigidio acampára o seu exercito dentro da

Cava, que já então começava a ser conhecida entre os povos das cercanias

pelo nome de _Cava de Viriatho_, gloriosos por saberem que alli o

Maioral da Mésta abrigava os gados, quando desciam da serra.

A alegria de Viriatho foi vivissima com a noticia do acampamento de

Nigidio dentro da Cava, em que se considerava seguro, sobretudo para o

aquartelamento durante a noite, despreoccupado de toda a surpreza. Um

plano decisivo fulgurou na mente do cabecilha; entreviu uma derrota

inesperada, impossivel de ser prevista pelo Pretor, que considerava a

Cava como uma _Castra aestiva_, para segurança do seu exercito. Qual

fosse esse plano, a ninguem o communicava, resolvendo logo partir para o

grande Herminio, acompanhado dos cavalleiros da trimarkisia, em marcha

forçada. Por ventura iria combinar qualquer feito com os maioraes que

constituem a Cabana da Mésta, seus antigos companheiros?

Viriatho chegára ao fim da tarde á povoação de Sedarça, logarejo na

encosta da Serra, em que passára a infancia. Tudo eram recordações, que

o enterneciam e o alentavam. De uma obscura choupana ouviu resoar um

canto, e risadas frescas e animadas de raparigas que estavam junto de

uma molinheira moendo bolotas, de cuja farinha se fabricava o bolo em

uma larga certã de barro sobre brazas. Viriatho, que seguia sempre mais

adiante dos companheiros, parou diante da porta, escutando o canto

rythmado ao movimento da molinheira. Uma das raparigas ia cantando uma

historia triste, talvez com realidade; era a canção narrativa,

*A Dobadoira*

Estava á porta assentada,

Dobando a sua meada

A velhinha;

Lenço branco na cabeça

A madeixa lhe sustinha,

E envolve-a como toalha:

Com que pressa

Sentada á porta trabalha!

O sol doira

Seu cabello,

Que tem a côr da geada:

Para passar o novello,

A velhinha

De vez em quando sustinha

A gemente dobadoira,

Em que anda branca meada.

Na dobadoira que gira,

Como a mente que delira,

Nem já toda a attenção pondo;

Nem no novello redondo,

Augmentando

Ao passo que o fio tira,

Todo o seu cuidado emprega!

Pobre e cega,

Anciada, de quando em quando

Com que tristeza suspira!

Por vezes, o movimento

Claro exprime

Tumultuar do pensamento,

Que no imo da alma a opprime

E quasi oura!

Muda angustia e paciencia

Reflecte-as a intermittencia

Do andamento

Ao voltear da dobadoira.

Fica-lhe na mão suspensa

O novello,

Concentrada não o enleia:

Na orfã netinha pensa!...

Vem-lhe á ideia

Por sua morte:

«Só, no mundo! entregue á sorte!

Pobre neta...»

Pezadello,

Que tanto a velhinha inquieta.

*

Não ouvindo a dobadoira,

Que gemia intermittente,

Cahindo da mão dormente

O novello...

Com disvello,

A neta, cabeça loira,

Vem á porta

Vêr o que foi; com susto olha:

Uma lagrima inda molha

A face á velhinha morta.

No fim da canção uma das raparigas limpou as lagrimas; disse uma d'ellas:

--Tu, Nilliata, nunca ouves essa aravenga sem chorares.

--É que eu conheci a velhinha cega, e tantas tardes a vi sentada á porta

a dobar.

Viriatho approximou-se da porta da choupana, e saudou as raparigas:

--É bem triste essa historia. O que é feito da pobre orfã?

--Ah, senhor! Houve uma alma apiedada que a tomou como filha. Todos os

seus parentes tinham morrido nas guerras ou na escravidão dos romanos, e

Idevor acudiu-lhe em tanto desamparo. O que nos vale são as boas almas.

E se não fosse agora Viriatho, o que os romanos não fariam por essa

nossa terra...

--E nunca vistes Viriatho? Perguntou o cabecilha com bondade.

As tres raparigas, que estavam em volta da molinheira, depois de

terminado o cantar ou aravenga da _Dobadoira_, encetando uma conversa

intima, trocaram sorrisos maliciosos:

--Muito gostava de vêr esse homem de quem tanto se falla.

--E eu? E dizem que é um homem ás direitas; não é alto nem baixo, de côr

morena e olhos castanhos, cabellos fartos e tambem castanhos lisos;

barba espêssa e corredia; o rosto é oval, o nariz fino, e a bocca

mediana deixa vêr uns dentes alvos e eguaes, que é um encanto! Se o

visse conhecia-o.

--Parece que estás enamorada de Viriatho. Disse com malicia Nilliata.

--Eu nunca o vi, nem espero vêl-o. O que me faz gostar d'elle é a sua

coragem. Quem hade dizer, que um homem costumado aos duros trabalhos da

Mésta, delgado de perna, e pés pequenos, cá como os homens da nossa

terra, tem uma alma generosa, e audaz para sacudir os inimigos da patria!

Caenia fallava convencida.

Viriatho, que entrára na povoação adiante dos tres companheiros, ouvindo

as risadas das raparigas estacára para escutar o que diziam; em breve

conheceu de quem se fallava, e com um sorriso cheio de benevolente

carinho, disse para ellas:

--Fallar no máo, apparelhar o páo.

As raparigas olharam-o com surpreza e viram o homem como o tinham

representado: aquelle rosto oval e trigueiro, aquelles olhos castanhos

de um relance vivo e scintillante; o mesmo pé pequeno mas agil.

Disse a mais reservada das moças para a que era falladeira:

--Ahi tens o moço em quem pensavas. Dize-lhe que gostas d'elle.

--Todas nós devemos amar Viriatho, por que elle sabe defender a nossa

terra. (Volveu a Caenia a rapariga falladeira com decisão). Pois para

vencer o inimigo, Viriatho precisa do amor e da confiança de nós todos.

Mas para amal-o, como a mulher póde amar o homem, isso fia mais fino! Na

Lusitania, que mulher poderá merecel-o?

--Então não ha mulheres lusitanas que me queiram?--Interrompeu Viriatho

com malicia.

--Ai, meu senhor. Das mulheres da Lusitania só tenho ouvido exaltar uma

que é digna de vós, ou vós digno d'ella.

--E eu, que até hoje nunca tinha pensado em amar uma mulher! Queria

saber quem é essa, que tanto exaltas.

--Falla! dize quem é. Insistiram Nilliata e Aponia.

--Não é segredo. Todos sabem qual a belleza e ingenuidade de Lisia, a

filha de Idevor.

--Lisia? ainda tão nova; com pouco mais de dezeseis annos?

--Mas com um tino e juizo, que espanta; com uma graça invencivel; com

uma memoria vivissima dos Cantos e tradições da velha Lusitania. Dizem

até, que ella, pelos dons que possue, não é d'este mundo.

Outra das tres moçoilas, não menos linguareira, proseguiu na revelação

começada:

--É Lisia quem na Torre redonda de Achale, no começo do Anno estival

accende o Fogo novo.

--Ella tem o cuidado do Fogo consagrado a Samham ou _São Homem_, o

_Julgador dos Mortos_, que os não deixa esquecer.

--E como dedilha na Harpa de triplices cordas...

--E lê todas as letras gravadas no _Bastão dos Poetas_...

Viriatho ficou ferido de curiosidade; e pensando n'essa revelação

casual, disse para as tres moças:

--Eu conheço o pae de Lisia, e sei bem que elle é meu amigo a valer.

E dizendo-lhes um adeus com simplicidade, continuou a sua marcha á

chegada dos tres companheiros, subindo a encosta do grande Herminio.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 34 / 81 题