A chegada de Idevor a Toletum com a Viria dos tres Crescentes de ouro,
de que até então se fallára como fabula ou tradição confusa, coincidiu
com o regresso de Viriatho seguido da numerosa cavalgada dos seus
Soldurios, que o fôram esperar ao caminho, e dos tres companheiros que
lhe formavam a trimarkisia, Ditálcon, Andaca e Minouro. Estes tres
bravos eram do pequeno numero dos sobreviventes da mortandade de Galba,
e pela tremenda desgraça se achavam ligados ao agil pastor que matára os
dez elephantes africanos, e com elle andaram pelas cidades da Lusitania
insurreccionando os povos contra a devastação de Roma; vinculava-os uma
decidida dedicação áquelle em quem reconheciam espontaneamente o maximo
ascendente moral. Ditálcon era o mais velho, intelligente e reflectido,
capaz de desempenhar missões difficeis; Andaca, joven e phantasioso,
mostrava-se repentinamente enthusiasta ou desalentado, segundo as
pessoas com quem tratava; Minouro, tinha algumas qualidades d'estes dois
companheiros; mas predominava n'elle a solercia, ou antes a falta de
franqueza no caracter. A victoria e a acclamação de Viriatho ligou-os
mais intimamente ao chefe reconhecido, de quem não tinham inveja. Quando
elles viram Idevor e o triplice Collar, disseram entre si:
--Para o Principe da Lusitania.
Viriatho fitou-os com seccura, e abaixou os olhos desdenhoso, com o
desgosto de que alguem suspeitasse que combatia por outra ambição que
não fôsse a liberdade da nossa Terra.
Os Chefes das Contrebias, avistando Viriatho, caminharam ao seu
encontro, saudando-o com gritos de alegria, e erguendo ao ár as suas
lanças de prata, com que presidiam ao sorteio das terras, e á entrega
dos gados da sua região aos Chefes da Mésta, e mesmo aos tribunaes á
sombra da carvalheira, onde davam as sentenças. E elles proprios, vendo
o sabio Idevor junto de Viriatho com o _Collar de ouro_ na mão, bradaram
com enthuziasmo:
--Lançae-lhe ao pescoço a Viria do Commando, aqui, agora, antes de
entrar na cidade.
Idevor obedeceu com jubilo, e lançou-lhe o Collar de ouro. Disse um dos
chefes das Contrebias:
--Agora, dignificado com a _Viria_, é que Ouriato ficará para sempre
sendo o nosso Viriatho.
Idevor, que conhecia as mais antigas tradições da raça, acudiu com ár
mysterioso:
--Se procurarmos o sentido mystico que se contém no nome de Viriatho,
vamos encontrar na palavra scythica _Vrindus_, que designa o Touro, o
totem da nossa antiga raça e civilisação dos Ligures, a relação com a
valentia do heroe e a sua missão religiosa do combate libertador.
Assim conversando, a brilhante Cavalgada entrou em Toletum, dirigindo-se
ao terreiro da cidade em que estava erecta a columna denominada
Pilumnos, que symbolisa a independencia da communa ou Municipio. Foi
ahi, que antes de destroçarem, pediram a Idevor, para que recitasse a
Saga ou narrativa tradicional que se dizia existir da Viria ou _Collar
de ouro dos tres Crescentes_.
Idevor não se fez rogado, e começou em uma recitação quasi melodica o
poema em que era celebrado este Symbolo da Confederação primitiva dos
estados da Lusonia, antes de um invasor oriental ter penetrado na
Hespanha, explorando-lhe as riquezas, e dissolvendo-a pelo espirito
separatista com que enfraquecera a raça. Como os Aédos de Hellade,
diante das tribus doricas, eolias e acheanas, Idevor unificava
idealmente as tribus lusas recitando o poema de:
*CHRYSAÔR*
Do Herminio Maior na immensa altura
Vê-se o _Corgo das Mós_, que as nuvens fura,
Formado por tres grupos de rochedos,
Como irmãos que se apoiam firmes, quedos!
Sobre o do centro, como em pedestal,
Bloco estupendo, grandioso assenta;
De um Gigante a cabeça representa,
De longe contornando no horisonte
Negro perfil de mysteriosa fronte.
Das convulsões da Natureza activa,
No calor de uma lucta primitiva,
São taes blocos relêvos manifestos:
Mas ha quem reconheça n'esses restos,
No bloco e nos tres grupos de rochedos,
Da Lusonia antiquissimos segredos:
Governou esta terra um patriarcha,
Théron, desde o norte ao sul a abarca,
E aos extrangeiros a fronteira fecha.
A seus tres filhos este Estado deixa:
--Se a terra de Lusonia dividida
Fôr entre vós, por certo enfraquecida
Fica exposta ao assalto do estrangeiro,
D'Africa, ou levantino aventureiro.
Mas se a Lusonia unida se conserva,
Não entra aqui indomita caterva;
E grande, desde o Sacro Promontorio
Até ao mar Cantabrico, este emporio
Que vae dos Pyreneus té á vertente,
Será da Hespanha o estado mais potente.--
Do mundo era por toda a redondeza
Théron, por causa da sem egual riqueza,
De Chrysaôr por nome conhecido.
Pelo pezo da edade amortecido,
Chama os tres filhos; vieram reverentes,
E um aureo _Collar de tres Crescentes_
Lhes entregou, no seu momento extremo:
--Dou-vos a insignia do Poder supremo.
Os trez Crescentes d'este aureo Collar,
Pela crença da religião lunar,
As tres phases da Lua symbolisa.
São a Lusonia integra, indivisa,
Abrangendo a Tartéssida virente,
Tarraconia, e Callaecia, a mesma gente!
Ah, se partirdes este Collar de ouro,
Cae a soberania... escuro agouro.
E receiando o temeroso evento
O velho Chrysaôr exhala o alento.
Deram os tres Irmãos ao pae amado
Nas Cavernas do Cantaro Delgado,
Sepultura em pyramides alpinas,
Que têm o aspecto de um castello em ruinas.
Ante o cadaver, na alta sepultura,
Entre si, cada um dos Irmãos jura
Não partir o _Collar dos tres Crescentes_,
Mantendo unidas as lusonias Gentes.
Em catacumba do Covão do Boi
O Collar de Ouro escondido foi,
Fixando, do local para lembrança,
Aquelle d'onde a vista longe alcança
Sobre o Cantaro Magro ingente bôjo
Que de bruta _Carranca_ tem o antojo.
Resguardado na Arca de um fraguedo,
Os tres Irmãos em mutuo segredo
Conservam da Lusonia, ora indivisa,
Do Poder soberano essa divisa.
Ha entre os tres Irmãos tanta harmonia,
Que sentindo o que cada um sentia,
Ou unidos no mesmo pensamento,
Realisam o accordo em um momento,
Um longe, na Callaecia laboriosa,
Outro áquem na Tartéssida formosa,
Ou já na Tarraconia grande e forte.
Quanta prosperidade d'esta sorte
De Lusonia engrandece os tres Estados,
Rica de bens, dinheiros, e de gados!
Mas a faina do Mar fôra esquecida,
Trocada pelas da agricola vida!
Ah! d'aqui a catastrophe resulta,
Que a liberdade lusa atroz sepulta.
Quantos Povos invejam com insania
Os viçosos Jardins da Bastitania,
E vêm pelos cantares dos Homerides
Buscar o Elysio e os Jardins Hispérides,
Crendo encontrar aqui o Velocino,
Que reconhecem ser gado bovino!
Aventureiros lá do mundo Asiano,
Arribaram ao porto Gaditano,
Affrontando do pélago o terror,
Para roubar o gado a Chrysaôr!
Heracles forte, o tyrio, vinha á frente,
Doésta os tres Irmãos, soberbamente,
Para um combate a corpo, singular.
Terrivel o recontro, atroz o azar!
Caiu dos Tres Irmãos o irmão mais velho,
Heracles o esmaga sob um joelho!
E a mesma dôr, que a vida lhe arrebata
Aos outros dois Irmãos é a que os mata.
Desde então a Lusonia sem commando,
Viu-se roubada de estrangeiro bando,
Que a invade, a devasta e a governa,
Perdida a ideia da união fraterna!
A aspiração moral ficou intacta!
Do _Collar de ouro_ nunca se desata
Nenhum dos Tres magnificos Crescentes;
E á espera de outra Éra e novas gentes,
Aguarda, ao fim do secular destrôço,
Um bravo e audaz a quem cinja o pescoço.
........................................
O sabio Idevor, dominado por uma commoção profunda, interrompeu a
recitação do Poema de _Chrysaôr_, que segundo a tradição contava
milhares de annos de vetustade; e de facto os successos referidos
narravam as primeiras invasões no territorio hispanico, que antecederam
todos os documentos ou monumentos da historia.
Os chefes das cidades confederadas applaudiram com os seus renchilidos e
vivas o recitador, o Endre sapiente; o velho, mostrando o _Collar de
ouro dos tres Crescentes_, avançou para junto de Viriatho, e depois de
fazer uma vénia solemne lançou-lhe ao pescoço a Viria da triplice
soberania.