As varas consulares espalhadas por todas as tribus, gentes e federações
da Hispania Ulterior, annunciando a victoria sobre Caio Vetilio, e a
necessidade de sustentar a guerra contra os Romanos, produziram um
effeito surprehendente em todos os espiritos, sobretudo nos Chefes das
Behetrias, ou Cidades confederadas, que até alli se tinham conservado
indifferentes nos seus castellos roqueiros, sem confiança no
levantamento do povo, por falta de um commandante prestigioso. E
comquanto esses chefes das varias Contrebias se entregavam á caça do
javali ou do urso, em luctas de mutuas rivalidades, ou se banqueteavam
opulentamente, os Pretores romanos iam estendendo a rêde das estradas
militares, conquistando ou destruindo Cidades, e firmando o seu poder
inabalavel. As varas dos lictores espetadas por todos os montes e
pequenos herminios, acordaram o sentimento vivo da independencia nacional.
As tribus lusitanas tinham estabelecido as suas cidades, villares e
casaes em volta de diversas montanhas, que eram como o centro da área de
defeza, e o refugio nos assaltos da guerra inimiga. Essas montanhas eram
cercadas de muralhas formadas por grandiosos blocos graniticos, e
escavadas em fundos subterraneos, em que se depositavam cereaes e
comestiveis, e com cisternas para guardar as aguas pluviaes, tendo além
d'isso um escadorio interior e reservado que dava escapula a grande
distancia, em geral á beira de um rio, para o caso de ser tomada a
fortaleza. Alli é que residia o presidente ou chefe das tribus que
viviam em volta do Castro; e pela contagem de todas as familias formavam
uma população de mais de dez mil individuos. Era a esse conjuncto, que
se dava o nome de Contrebia; os seus chefes ou regedores, eram
designados como _regulos_ e _duces_ pelos romanos, que comparavam estes
agrupamentos lusitanos com as phraetrias gregas. Como não havia ordem de
successão n'este poder presidencial, resultavam conflictos e rixas, que
se mantinham por odios de familias, e até de tribus que se hostilisavam,
aproveitando do enfraquecimento d'estas dissidencias o invasor romano.
Agora parecia, que uma intelligencia da missão dos Castellãos se
revelára subitamente com o conhecimento da derrota de Vetilio; e as
tribus, suscitadas pela vista das varas dos lictores, reclamavam que
sahissem da inacção; que prestassem o seu apoio ao extraordinario
Cabecilha, o vingador da matança de Galba. Constava que Viriatho, depois
da sua victoria se recolhera á cidade de Toletum, preparando-se para
novo combate ao Pretor que em breve chegaria de Roma com aguerrido
exercito; resolveram todos esses chefes dirigirem-se a Toletum, levando
ao pescoço os seus colares de ouro, como a insignia do poder senhorial;
os seus braceletes, e lanças de prata com que presidiam aos sacrificios,
e ao tribunal em que arbitravam sentenças sobre a vida e bens dos seus
clientes ou ambactes. Partiram de todos os principaes cantões da
Lusitania esses chefes acompanhados dos seus soldurios, ou guarda-costas
valentões, para conhecerem Viriatho e lhe fallarem deliberadamente sobre
a defeza e independencia do Territorio patrio.
Quando chegaram a Toletum, ainda Viriatho estava ausente, em uma
exploração do territorio em que uma grandiosa Cava se prestava a
imprevistos planos estrategicos, a que em futuro proximo teria de
recorrer. Mas esses optimates cantonaes fôram encontrar na cidade a que
se accolhera o exercito um grupo de homens, a que davam o nome
honorifico de _Anciãos_, EN, e cuja palavra era inspirada e _eloquente_,
por isso nas velhas linguas britonicas se exprimia por _D-eirim_. O
povo, pelo costume antigo, chamava _Endre_ a cada um d'esses homens, a
quem acatavam como depositarios de um maravilhoso poder espiritual. E de
facto os _Endres_ eram propriamente os Antigos das tribus, os que
conservavam a norma e sentido moral ou historico dos costumes; não
formavam um corpo sacerdotal, nem mantinham a estabilidade de qualquer
dogma theologico, mas possuiam um saber do passado, que os tornava
oraculos vivos, conselheiros em todos os momentos arriscados, e
conciliadores nas luctas intestinas e separatistas das varias tribus. Os
_Endres_ eram queridos do povo; despidos de toda a hypocrisia de classe
e de odios doutrinarios dos sacerdocios, mofavam com o seu bom senso dos
ritos e dogmas dos _Druidas_ das Gallias, que elles desprezavam como
macaqueadores das normas cultuaes da religião oriental dos Mobeds de
Mithra, que se propagava pela Europa. O caracter e ascendente moral dos
_Endres_ estabelecia-se espontaneamente, quando o povo reconhecia em um
Ancião das tribus o bom conselho, o saber pratico da vida, e o
conhecimento das Tradições do passado; era então considerado como unico
e como inspirado. Apontavam-se na Lusitania numerosos _Endres_,
venerandos pela sua edade e saber: uns conservavam de memoria as Runas,
ou propriamente as tradições locaes e da raça, e tendo na mão o ramo da
Azinheira coberto de _l'andras_, presidiam ao sorteio annual das terras,
evitando prudencialmente todos os conflictos; outros sabiam as Sagas, ou
narrativas históricas, as _Aravengas_, que recitavam nos banquetes dos
regedores cantonaes e nas festas consagradas a perpetuar successos
memoraveis das tribus; outros conheciam as Sentenças da moral gnomica,
Singvan, os aphorismos ou dictados, que exercem justa auctoridade nas
resoluções da vida, porque condensam em breves phrases, ás vezes em um
só verso, a experiencia de seculos; outros interpretavam o sentido dos
velhos Symbolos, resolviam os mais intrincados Enigmas, e penetravam a
materia numerica dos Quadrados magicos. D'entre todos esses _Endres_
destacava-se um, pelo saber maravilhoso reunido em sua mente
incomparavel; conhecia as mais vetustas tradições da terra da Lusitania,
quando ella ainda se estendia até á falda occidental dos Pyreneos, as
terras de _Lez_, que as convulsões do tempo fôram tornando cada vez mais
ribeirinhas; só elle recitava Poemas de mais de seis mil annos de
antiguidade; conhecia as cavernas e arcas cavadas nas rochas em que
estavam occultos thesouros; e o que mais assombrava, tinha o segredo da
leitura dos Quadrados magicos e dos Bastões runicos, que lhe davam uma
fé inabalavel na independencia e missão vindoura da Lusitania. Esse
_Endre_ chamava-se Idevor, e quando passava pelos povoados saudavam-o
com o titulo de _Sanctum Anderu_, e davam-lhe corôas feitas de ramos de
azinheira. Pela sua paixão pelas antiguidades e liberdade da Lusitania
se justifica o regosijo que em seu espirito provocou o apparecimento de
Viriatho! Como a derrota por elle infligida ao Consul Vetilio o encheu
de fervorosas esperanças! Idevor appresentou-se em Toletum com _Endres_
de varias terras, e pelas conversas que entre si tiveram, facil lhes foi
apurarem um conhecimento completo da personalidade do pastor _Ouriato_,
que o povo acclamava agora pelo titulo de Viriatho. E vendo a chegada
dos chefes das Contrebias, resolveram ir ao encontro d'elles, e
dirigil-os no intuito de prestarem todo o auxilio ao destemido cabecilha.