Vetilio deu ordem para que o seu exercito, de mais de dez mil homens
sahisse de Corduba, e seguindo em massa compacta pela Turdetania fôsse
ao encontro das tribus lusitanas; e fortificadas por uma severa
disciplina, contava que as tropas luctariam com vantagem contra Catervas
impetuosas, mas sem a cohesão de um bom e seguro commando, nem a lucidez
de um pensado plano estrategico.
E não se enganava. Ao segundo dia de marcha, Vetilio avistou ao longe,
em um valle immenso, grande numero de Carros de guerra, e Cavalleiros, e
por traz d'elles, negrejando, Catervas de peões, que pela direcção que
traziam, com certeza vinham sobre Corduba com intenção de assediar o
exercito romano, ahi na capital da Turdetania. Era o instante opportuno.
Vetilio manda organisar em columna todos os seus infantes: aos flancos
os seus Carros, com os projectis incendiarios; a Cavalleria mais atraz,
destinada a envolver as tribus lusitanas durante o ataque.
Desde que as tropas romanas fôram avistadas pelos Lusitanos, um grito
immenso como de alegria retumbou nos áres, como os renchilidos e apupos
ou atruxos com que se distinguiam as varias povoações lusonias; e
d'entre esse ruido escutava-se o ecco de cantos, de hymnos, que davam
uma animação indescriptivel ao movimento dos combatentes. Vetilio
contava com o enthusiasmo dos Lusitanos no primeiro assalto, e reservou
todas as suas forças para sustentar o pezo d'esse primeiro impeto. E a
carga dos peões lusitanos foi imponente, mesmo incomparavel. Valeu-lhe
ao Consul o sangue-frio que soube mantêr; e foi assim, que subitamente
reconheceu, que o exercito dos Lusitanos, tão numeroso como o seu, e que
não constava de menos de dez mil homens, não tinha cohesão entre si;
faltava-lhe a disciplina, e mais do que isso pela ordem de combate
descobriu que essa multidão compacta não tinha um general, que
sustentasse intelligentemente o commando. O numero extraordinario dos
combatentes lusitanos complicava a sua propria segurança, pela falta de
um chefe digno d'este nome. Este relance de Vetilio bastou para abranger
a situação, e no seu espirito entrou a segurança de que seria certa a
victoria. E tirando partido da situação comprehendeu que para vencer era
a melhor condição empenhar-se em uma batalha campal com todas as suas
tropas; por que embora os Lusitanos aguerridos apresentassem um egual
numero, faltava-lhes o commando, o que tornava perigosa a sua situação
em campo raso. As Legiões estavam então formadas com quatro mil infantes
de linha, que se dividiam em trinta manipulos ou companhias, manobrando
em campanha como a unidade tactica de uma divisão moderna. E esses
manipulos ou companhias, agrupavam-se em cohortes ou batalhões, em
numero de dez.
Passado o primeiro impeto de uma carga destemida de lanças, que os
soldados de Vetilio apararam rijamente nos seus escudos, o Consul
aproveitou-se da tactica aprendida nas guerras de Hespanha, e
mandando-os formar em _cunha_ rompeu as filas dividindo-as, mandando em
seguida as suas quadrigas a toda a carreira sobre os flancos, para
evitar que tornassem outra vez a reunir-se. Os Cavalleiros dispersos por
entre a multidão desorientada, trucidavam incessantemente os que
encontravam com um furor attonito, mal sabendo defender-se. A Legião
romana mais uma vez, sob o commando de um habil chefe, patenteava a
importancia da sua constituição estrategica. A lucta prolongou-se com
coragem da parte das tribus lusitanas, mas repentinamente ellas
reconheceram-se enfraquecidas, não por falta de valentia, nem de
bravura, mas pela imprevidencia com que entraram em campanha, sem um
chefe que as dirigisse e tivesse firmemente disciplinado.
Toda a lucta n'estas condições era uma temeridade estulta, um inutil
sacrificio. A batalha era agora insistentemente continuada por Vetilio;
milhares de cadaveres cobriam o solo recalcado, e o Consul pensava já em
aniquilar toda essa multidão lusitana que ainda resistia. O sol
declinava; prestes viria a noite, e era de força que o triumpho de Roma
ficasse definitivo. Os Lusitanos sem esperança, sentiam-se cansados; a
fome e a sêde hallucinava-os até ao desespero, e cercados no valle em
que tinham sido surprehendidos, só viam um unico refugio para escaparem
ao inevitavel destroço--renderem-se!
D'entre o campo dos Lusitanos fôram enviados a Vetilio quatro
emissarios, levando erguidos ao alto ramos de oliveira. O Consul
consentiu que chegassem á sua presença, e que appresentassem a mensagem;
um d'elles por nome Diálcon, fallou:
--Vimos aqui pedir a suspensão do combate, e a paz, rendendo-nos em
massa ao Poder de Roma!
O Consul mandou suspender as hostilidades; e perguntou com dureza aos
emissarios:
--Quem responde pela revolta contra a soberania de Roma?
--Nós todos, perdendo o direito de Povos livres; mas conservando sómente
a liberdade individual de cada lusitano.
--É muito! retorquiu-lhes o Consul.
--Se não quereis matar-nos, passando tudo á espada, só poderemos
acceitar a vida com a liberdade individual que pedimos. E é isso bem
pouco, diante do Poder de Roma; porque de hoje em diante podereis
mandar-nos habitar o territorio que á _grande e generosa_ Roma lhe
aprouver conceder-nos. Ahi em campos de concentração, nos conservaremos
quietos e submissos no cumprimento de todas as imposições.
Parecia mais que fallava um traidor do que um vencido; mas o escalavro
das forças lusitanas era estupendo e tudo justificava. O Consul Vetilio,
velho e astuto, determinou que os emissarios se retirassem, voltando na
madrugada para assignarem o pacto da rendição e submissão perpetua,
incondicional e peremptoria, vindo acompanhados de refens nobres, que
pela sua vida ficariam responsaveis pela tranquillidade das tribus
lusas. No resto da noite, Caio Vetilio ficou pensando nas consequencias
da sua incomparavel victoria, no prestigio que teria em Roma, no impôsto
de guerra que cobraria das populações subjugadas, dos escravos que o
acompanhariam na entrada triumphal na Cidade do Tibre! Os sonhos
acordados são mais bellos do que os que se tem dormindo, mas não são
menos fallaciosos.