Porto--Imprensa Moderna

A Alma portugueza caracterisa-se pelas manifestações seculares persistentes

do typo anthropologico e ethnico, que se mantêm desde as incursões dos

Celtas e luctas contra a conquista dos Romanos até á resistencia diante das

invasões da orgia militar napoleonica. São as suas feições:

A _tenacidade_ e indomavel coragem diante das maiores calamidades, com a

facil _adaptação_ a todos os meios cosmicos, pondo em evidencia o seu genio

e acção colonisadora;

Uma profunda _sentimentalidade_, obedecendo aos impulsos que a levam ás

_aventuras heroicas_, e á idealisação affectiva, em que o _Amor_ é sempre

um caso de vida ou de morte;

Capacidade _especulativa_ prompta para a apercepção de todas as doutrinas

scientificas e philosophicas, como o revelam Pedro Julião (Hispano), na

Edade Media, Francisco Sanches, Garcia d'Orta, Pedro Nunes e os Gouvêas, na

Renascença;

Um genio _esthetico_, synthetisando o ideal moderno da Civilisação

occidental, como em Camões, reconhecido por Alexandre de Humboldt como o

_Homero das linguas vivas_.

O cantor das grandes Navegações foi quem teve a mais alta comprehensão do

genio nacional; a ALMA PORTUGUEZA achou no seu Poema a incarnação completa.

Quando Camões descreve nos _Lusiadas_, geographica e historicamente

Portugal, referindo-se á tradição da antiga Lusitania, relembra o vulto que

symbolisa a sua vitalidade resistente, diante da incorporação romana da

peninsula hispanica:

Eis aqui, quasi cume da cabeça

Da Europa toda, o reino _Lusitano_,

Onde a terra se acaba, e o Mar começa,

E onde Phebo repousa no Oceano.

Esta é a ditosa Patria minha amada,

Esta foi _Lusitania_...................

D'esta o PASTOR nasceu, que no seu nome

Se vê que de homem forte os feitos teve;

Cuja fama ninguem virá que dome,

Pois a grande de Roma não se atreve.

(Cant. III, st. XX a XXII.)

Deixo... atraz a fama antiga

Que co'a Gente de Rómulo alcançaram,

Quando com VIRIATHO na inimiga

Guerra romana tanto se afamaram.

Tambem deixo a memoria, que os obriga

A grande nome, quando a levantaram

Um por seu Capitão, que, peregrino,

Fingiu na _Cerva_ espirito divino.

(Cant. I, st. XXVI.)

No tempo do grande épico ainda se não tinha perdido o conhecimento da

relação de continuidade historica entre Portugal e a antiga Lusitania,

mais vasta e por isso mais violentamente retalhada pela administração

imperial romana. Esse conhecimento, embora confundido com as lendas

syncreticas dos falsos Chronicões, influiu na consciencia do nosso

individualismo ethnico e nacional. O esforço de _desnacionalisação_ de

Portugal pela politica da unificação _iberica_, veiu até reflectir-se

nos proprios historiadores patrios, levando-os a considerar Portugal uma

formação recente, adventicia, sem individualidade, e a Lusitania quasi

como uma ficção banal dos eruditos da Renascença! Mas o caracter

persistente do typo portuguez, a resistencia tenaz contra todos os

conflictos da natureza e pressões da vida, que tanto o distingue entre

os povos modernos, é a prova manifesta da raça lusitana como a

descreveram os geographos gregos e romanos. Nas luctas pela liberdade

territorial a Lusitania deixou nos historiadores greco-latinos o ecco da

sua resistencia indomavel, sobretudo no Cyclo das Guerras viriathinas,

que se reaccenderam ainda sob o commando de Sertorio.

Pela sua genial intuição teve Garrett a comprehensão d'este caracter

resistente e soffredor da nossa raça lusitana: «Os Portuguezes são

naturalmente soffredores e pacientes: muito arrochada hade ser a corda

com que de mãos e pés os atam seus oppressores, antes que rompam em um

só gemido os desgraçados. Um murmurio, uma queixa... nem talvez no

cadafalso a soltarão! Vendem-nos os desleaes pegureiros de quem nos

deixamos governar; vendem-nos, enxotam-nos para a feira a cajado e a

latido e mordedella de seus mastins; e nós vamos e nem gememos. Se um

clamor de queixumes, se uma voz de desconfiança acaso surde, aqui os

clamores de _rebeldes_, os alcunhas de _demagogos_... e a nação (o

_rebanho_, direi antes) que se resigna e soffre, e continua a caminhar

para o exicio! Tal é, com as differenças de variados nomes e datas, a

historia de Portugal quasi desde que a revolução ou restauração

(restauração seria?) de 1640 fez da nação portugueza o patrimonio de

meia duzia de familias privilegiadas e de seus satelites e parasitos.»

(_Carta de M. Scevola_, 1830.)

Symbolisamos esta resistencia, vivificando o typo de VIRIATHO,

reconstruindo poeticamente as situações laconicas referidas nos

historiadores classicos; representamos artisticamente essa fibra que

ainda hoje pulsa em nós, e pela qual, perante a marcha da Civilisação se

affirma através dos cataclysmos politicos a ALMA PORTUGUEZA.

_Assuetum malo Ligurem_, disse Virgilio (_Georg._, II, 102) d'essa

poderosa raça, de que o Lusitano foi um dos ramos mais activos; as

terriveis desgraças que nos têm acompanhado desde a romanisação da

peninsula até á subserviencia ingleza, como acostumados ao mal, não nos

têm alquebrado: não apagaram a constituição da _Nacionalidade_, não

embaraçaram as iniciativas dos _Descobrimentos maritimos_; não abafaram

a expressão das altas capacidades _estheticas_. Pela expressão artistica

se fixou a lingua portugueza, orgão reconhecido da nacionalidade, cujo

sentimento se manteve pela idealisação poetica, em Camões. Seja ainda

esse recurso poetico o meio de acordar a consciencia do passado de um

Povo, no qual estão implicitos a sua rasão de ser presente, e o ideal do

seu destino futuro.

Um dos fins da Arte moderna é a representação da vida dos povos e dos

aspectos da natureza dos paizes longinquos, e tambem a evocação das

edades passadas, vencendo por este _exotismo_ o apagamento das

impressões de tudo quanto nos cérca; assim se inicia a phase esthetica

constructiva. Pela evocação da _Raça_ penetra-se o sentir da fibra

_nacional_, e por esta o drama das luctas das _Instituições_ que se

fundaram, o vinculo das _Tradições_, que foram germens e impulsos da

_missão historica_ e das _creações artisticas_ que reflectiram a

consciencia da collectividade.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 10 / 81 题