n'um baile em 1855. Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul, e
ostentava ás luzes o mesmo par de hombros de outro tempo. Não era a
frescura da primeira edade; ao contrario; mas ainda estava formosa,
de uma formosura outoniça, realçada pela noite. Lembra-me que falamos
muito; e lembra-me que não alludimos a cousa nenhuma do passado.
Subentendia-se tudo. Um dito remoto, vago, ou então um olhar, e mais
cousa nenhuma. Pouco depois retirou-se; eu fui vel-a descer as escadas,
e não sei por que phenomeno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me
os philologos essa phrase barbara), murmurei commigo esta palavra
profundamente retrospectiva:
--Magnifica!
Convém intercalar este capitulo entre a primeira oração e a segunda do
cap. CXXIX.
CAPITULO CXXXI
De uma calumnia
Como eu acabava de dizer aquillo, pelo processo ventriloco-cerebral,--o
que era simples opinião e não remorso,--senti que alguem me punha a mão
no hombro. Voltei-me; era um antigo companheiro, official de marinha,
jovial, um pouco despejado de maneiras. Elle sorriu maliciosamente, e
disse-me:
--Seu maganão! Recordações do passado, hein?
--Viva o passado!
--Você naturalmente foi reintegrado no emprego.
--Salta, pelintra! disse eu, ameaçando-o com o dedo.
Confesso que este dialogo era uma indiscrição,--principalmente a ultima
replica. E com tanto maior prazer o confesso, quanto que as mulheres é
que tem fama de indiscretas, e não quero acabar o livro sem rectificar
essa noção do espirito humano. Em pontos de aventura amorosa, achei
homens que sorriam, ou negavam a custo, de um modo frio, monosyllabico,
etc., ao passo que as parceiras não davam por si, e jurariam aos
Santos Evangelhos, que era tudo uma calumnia. A razão desta differença
é que a mulher (salva a hypothese do cap. CI e outras) entrega-se por
amor, ou seja o amor-paixão de Stendhal, ou o puramente physico de
algumas damas romanas, por exemplo, ou polynesias, laponias, cafres,
e póde ser que outras raças civilisadas; mas o homem,--falo do homem
de uma sociedade culta e elegante,--o homem conjuga a sua vaidade ao
outro sentimento. Alem disso (e refiro-me sempre aos casos defesos),
a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e
portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia;
ao passo que o homem, sentindo-se causa da infracção e vencedor de
outro homem, fica legitimamente orgulhoso, e logo passa a outro
sentimento menos rispido e menos secreto,--essa meiga fatuidade, que é
a transpiração luminosa do merito.
Mas seja ou não verdadeira a minha explicação, basta-me deixar escripto
nesta pagina, para uso dos seculos, que a indiscrição das mulheres
é uma burla inventada pelos homens; em amor, pelo menos, elas são
um verdadeiro sepulchro. Perdem-se muita vez por desastradas, por
inquietas, por não saberem resistir aos gestos, aos olhares; e é por
isso que uma grande dama e fino espirito, a rainha de Navarra, empregou
algures esta metaphora para dizer, que toda a aventura amorosa vinha a
descobrir-se por força, mais tarde ou mais cedo: «não ha cachorrinho
tão adestrado, que alfim lhe não ouçamos o latir.»
CAPITULO CXXXII
Que não é serio
Citando o dito da rainha de Navarra, occorre-me que entre o nosso povo,
quando uma pessoa vê outra pessoa arrufada, costuma perguntar-lhe:
«Gentes, quem matou seus cachorrinhos?» como se dissesse:--«quem lhe
levou os amores, as aventuras secretas, etc.» Mas este capitulo não é
serio.
CAPITULO CXXXIII
O principio de Helvetius
Estavamos ao ponto era que o official de marinha me arrancou a
confissão dos amores de Virgilia; e aqui emendo eu o principio de
Helvetius,--ou, por outra, explico-o. O meu interesse era calar;
confirmar a suspeita de uma cousa antiga fôra provocar algum odio
supitado, dar origem a um escandalo, quando menos adquirir a reputação
de indiscreto. Era esse o interesse; e entendendo-se o principio
de Helvetius de um modo superficial, isso é o que devia ter feito.
Mas eu já dei o motivo da indiscrição masculina: antes daquelle
interesse de _segurança_, havia outro, o do _desvanecimento_, que é
mais intimo, mais immediato: o primeiro era reflexivo, suppunha um
syllogismo anterior; o segundo era espontaneo, instintivo, vinha das
entranhas do sugeito; finalmente, o primeiro tinha o effeito remoto,
o segundo proximo. Conclusão: o principio de Helvetius é verdadeiro
no meu caso;--a diferença é que não era o interesse apparente, mas o
recondito.
CAPITULO CXXXIV
Cincoenta annos
Não lhes disse ainda,--mas digo-o agora,--que quando Virgilia descia a
escada, e o official de marinha me tocava no hombro, tinha eu cincoenta
annos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo,--ou a
melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agitações, de
sustos,--capeada de dissimulação e duplicidade,--mas emfim a melhor,
se devemos falar a linguagem usual. Si, porém, empregarmos outra mais
sublime, a melhor parte foi a restante, como eu terei a honra de lhes
dizer nas poucas paginas deste livro.
Cincoenta annos! Não era preciso confessal-o. Já se vae sentindo que o
meu estylo não é tão lesto como nos primeiros dias. Naquella occasião,
cessado o dialogo com o official de marinha, que enfiou a capa e saiu,
confesso que fiquei um pouco triste. Voltei á sala, lembrou-me dansar
uma polka, embriagar-me das luzes, das flores, dos crystaes, dos olhos
bonitos, e do borburinho surdo e ligeiro das conversas particulares.
E não me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei
do baile, ás quatro da manhã, o que é que fui achar no fundo do carro?
Os meus cincoenta annos. Lá estavam elles os teimosos, não tolhidos
de frio, nem rheumaticos,--mas cochillando a sua fadiga, um pouco
cobiçosos de cama e de repouso. Então,--e vejam até que ponto póde ir
a imaginação de um homem, com somno,--então pareceu-me ouvir de um
morcego encarapitado no tejadilho:--Sr. Braz Cubas, a rejuvenescencia
estava na sala, nos crystaes, nas luzes, nas sedas,--emfim, nos outros.
CAPITULO CXXXV
Oblivion
E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas paginas, fecha o
livro e não lê as restantes. Para ella extinguiu-se o interesse da
minha vida, que era o amor. Cincoenta annos! Não é ainda a invalidez,
mais já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um
inglez dizia, entenderei que «cousa é não achar já quem se lembre de
meus paes, e de que modo me ha de encarar o proprio ESQUECIMENTO.»
Vae em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo é que se dem todas as
honras a um personagem tão desprezado e tão digno, conviva da ultima
hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do actual reinado; e
mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministerio
Paraná, porque esta acha-se mais perto do triumpho, e sente já que
outras lhe tomaram o carro. Então, se é digna de si mesma, não teima em
espertar a lembrança morta ou expirante; não busca no olhar de hoje a
mesma saudação do olhar de hontem, quando eram outros os que encetavam
a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz. _Tempora mutantur._ E
ella comprehenderá que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do
mato e os farrapos do caminho, sem excepção nem piedade; e se tiver um
pouco de philosophia, não invejará, mas lastimará as que lhe tomaram o
carro, porque tambem ellas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION.
Espectaculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito
aborrecido.
CAPITULO CXXXVI
Inutilidade
Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capitulo inútil.
CAPITULO CXXXVII
A barretina
E dahi, não; elle resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao
Quincas Borba, accrescentando que me sentia acabrunhado, e mil
outras cousas tristes. Mas esse philosopho, com o elevado tino de
que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da
melancolia.
--Meu caro Braz Cubas, não te deixes vencer desses vapores. Que diacho!
é preciso ser homem! ser forte! lutar! vencer! brilhar! influir!
dominar! Cincoenta annos é a edade da sciencia e do governo. Animo,
Braz Cubas; não me sejas palerma. Que tens tu com essa successão de
ruina a ruina ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica
sabendo que a peor philosophia é a do choramigas que se deita á
margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das aguas. O
officio dellas é não parar nunca; accommoda-te com a lei, e trata de
aproveital-a.
Ve-se nas menores cousas o que vale a autoridade de um grande
philosopho. As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir
o torpor moral e mental em que andava. Vamos lá; façamo-nos governo.
Crel-o-eis, posteros? Eu não havia intervindo até então nos grandes
debates. Cortejava a pasta por meio de rapapés, chás, commissões e
votos; e a pasta não vinha. Urgia apoderar-me da tribuna.
Comecei de vagar. Tres dias depois, discutindo-se o orçamento da
justiça, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro
se não julgava util diminuir a barretina da guarda nacional. Não
tinha vasto alcance o objecto da pergunta; mas ainda assim demonstrei
que não era indigno das cogitações de um homem de Estado; e citei
Philopemen, que ordenou a substituição dos broqueis de suas tropas,
que eram pequenos, por outros maiores, e bem assim as lanças, que
eram demasiado leves; facto que a historia não achou que desmentisse
a gravidade de suas paginas. O tamanho das nossas barretinas estava
pedindo um córte profundo, não só por serem deselegantes, mas tambem
por serem anti-hygienicas. Nas paradas, ao sol, o excesso do calor
produzido por ellas podia ser fatal. Sendo certo que um dos preceitos
de Hippocrates era trazer a cabeça fresca, parecia cruel obrigar um
cidadão, por simples consideração de uniforme, a arriscar a saude e
a vida, e consequentemente o futuro da familia. A camara e o governo
deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade
e da independencia, e que o cidadão, chamado a um serviço gratuito,
frequente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuisse o onus,
decretando um uniforme leve e maneiro. Accrescia que a barretina,
por seu peso, abatia a cabeça dos cidadãos, e a patria precisava de
cidadãos cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do
poder; e conclui com esta idéa: O chorão, que inclina os seus galhos
para a terra, é arvore de cemiterio; a palmeira, erecta e firme, é
arvore do deserto, das praças e dos jardins.
Vária foi a impressão deste discurso. Quanto á forma, ao rapto
eloquente, á parte litteraria e philosophica, a opinião foi só uma;
disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ninguem
ainda conseguira tirar tantas idéas. Mas a parte politica foi
considerada por muitos deploravel; alguns achavam o meu discurso um
desastre parlamentar; emfim, vieram dizer-me que outros me davam já
em opposição, entrando nesse numero os opposicionistas da camara,
que chegaram a insinuar a conveniencia de uma moção de desconfiança.
Repelli energicamente tal interpretação, que não era só erronea, mas
calumniosa, á vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete;
accrescentei que a necessidade de diminuir a barretina, não era
tamanha que não pudesse esperar alguns annos; e que, em todo caso,
eu transigiria na extensão do córte, contentando-me com tres quartos
de polegada ou menos; emfim, dado mesmo que a minha idéa não fosse
adoptada, bastava-me tel-a iniciado no parlamento.
O Quincas Borba, porém, não fez restricção alguma. Não sou homem
politico, disse-me elle ao jantar; não sei se andaste bem ou mal;
sei que fizeste um excellente discurso. E então notou as partes
mais salientes, as bellas imagens, os argumentos fortes, com esse
comedimento de louvor que tão bem fica a um grande philosopho; depois,
tomou o assumpto á sua conta, e impugnou a barretina com tal força,
com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me effectivamente do seu
perigo.
CAPITULO CXXXVIII
A um Critico
Meu caro critico,
Algumas paginas atraz, dizendo eu que tinha cincoenta annos,
accrescentei: «Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão
lesto como nos primeiros dias.» Talvez aches esta phrase
incomprehensivel, sabendo-se o meu actual estado; mas eu
chamo a tua attenção para a subtileza daquelle pensamento. O
que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que
quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer,
sim, que em cada phase da narração da minha vida experimento
a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar
tudo.
CAPITULO CXXXIX
De como não fui ministro de estado
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CAPITULO CXL
Que explica o anterior
Ha cousas que melhor se dizem calando; tal é a materia do capitulo
anterior. Podem entendel-o os ambiciosos mallogrados. Se a paixão
do poder é a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o
desespero, a dôr, o abatimento do dia em que perdi a cadeira da camara
dos deputados. Iam-se-me as esperanças todas; terminava a carreira
politica. E notem que o Quincas Borba, por inducções philosophicas
que fez, achou que a minha ambição não era a paixão verdadeira do
poder, mas um capricho, um desejo de folgar. Na opinião delle, este
sentimento, não sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais,
porque orça pelo amor que as mulheres tem ás rendas e toucados. Um
Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava elle, por isso mesmo que os
queima a paixão do poder, lá chegam á fina força, ou pela escada da
direita, ou pela da esquerda. Não era assim o meu sentimento; este,
não tendo em si a mesma força, não tem a mesma certeza do resultado;
e dahi a maior afflicção, o maior desencanto, a maior tristeza. O meu
sentimento, segundo o Humanitismo...
--Vae para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o; estou farto de
philosophias que me não levam a cousa nenhuma.
A dureza da interrupção, tratando-se de tamanho philosopho, equivalia a
um desacato; mas elle proprio desculpou a irritação com que lhe falei.
Trouxeram-nos café; era uma hora da tarde, estavamos na minha sala de
estudo, uma bella sala, que dava para o fundo da chacara, bons livros,
objectos d'arte, um Voltaire entre elles, um Voltaire de bronze, que
nessa occasião parecia accentuar o risinho de sarcasmo, com que me
olhava, o ladrão; cadeiras excellentes; fóra, o sol, um grande sol,
que o Quincas Borba, não sei se por chalaça ou poesia, chamou um dos
ministros da natureza; corria um vento fresco, o ceu estava nitidamente
azul. De cada janella,--eram trez--pendia uma gaiola com passaros,
que chilreavam as suas operas rusticas. Tudo tinha a apparencia de
uma conspiração das cousas contra o homem: e, comquanto eu estivesse
na _minha_ sala, olhando para a _minha_ chacara, sentado na _minha_
cadeira, ouvindo os _meus_ passaros, ao pé dos _meus_ livros, allumiado
pelo _meu_ sol, não chegava a curar-me das saudades daquella outra
cadeira, que não era minha.
CAPITULO CXLI
Os cães
--Mas, emfim, que pretendes fazer agora? perguntou-me o Quincas Borbas,
indo pôr a chicara vazia no parapeito de uma das janellas.
Não sei; vou metter-me na Tijuca; fugir aos homens. Estou envergonhado,
aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou
nada.
--Nada! interrompeu-me o Quincas Borba com um gesto de indignação.
Para distrair-me, convidou-me a sair; saimos para os lados do Engenho
Velho. Iamos a pé, philosophando as cousas. Nunca me hade esquecer o
beneficio desse passeio, que me restituiu o socego e a força. A palavra
daquelle grande homem era o cordial da sabedoria. Disse-me elle que eu
não podia fugir ao combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir
um jornal. Chegou a usar uma expressão menos elevada, mostrando assim
que a lingua philosophica podia, uma ou outra vez, retemperar-se no
calão do povo. Funda um jornal, disse-me elle, e «desmancha toda esta
egrejinha.»
--Magnifica idéa! Vou fundar um jornal, vou escachal-os, vou...
--Lutar. Pódes escachal-os ou não; o essencial é que lutes. Vida é
luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.
Dahi a pouco demos com uma briga de cães; facto que aos olhos de um
homem vulgar não teria valor. O Quincas Borba fez-me parar e observar
os cães. Eram dous. Notou que ao pé delles estava um osso, motivo da
guerra, e não deixou de chamar a minha attenção para a circumstancia
de que o osso não tinha carne. Um simples osso nú. Os cães mordiam-se,
rosnavam, com o furor nos olhos... O Quincas Borba metteu a bengala
debaixo do braço, encostou o queixo no castão, e parecia em extasis.
--Que bello que isto é! dizia elle de quando em quando.
Quiz arrancar-me dalli, mas não pude; elle estava arraigado ao chão,
e só continuou a andar, quando a briga cessou inteiramente, e um
dos cães, mordido e vencido, foi levar a sua fome a outra parte.
Notei que ficára sinceramente alegre, posto contivesse a alegria,
segundo convinha a um grande philosopho. Fez-me observar a belleza do
espectaculo, relembrou o objecto da luta, concluiu que os cães tinham
fome; mas a privação do alimento era nada para os effeitos geraes da
philosophia. Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo
o espectaculo é mais grandioso: as creaturas humanas é que disputam
aos cães os ossos e outros manjares menos appeteciveis; luta que se
complica muito, porque entra em acção a intelligencia do homem, com
todo o accumulo de sagacidade que lhe deram os seculos, etc.
CAPITULO CXLII
O pedido secreto
Quanta cousa n'um minuete! como dizia o outro. Quanta cousa n'uma briga
de cães! Mas eu não era um discipulo servil ou medroso, que deixasse de
fazer uma ou outra objecção adequada. Andando, disse-lhe que tinha uma
duvida; não estava bem certo da vantagem de disputar a comida aos cães.
Elle respondeu-me com excepcional brandura:
--Disputai-a aos outros homens é mais logico, porque a condição dos
contendores é a mesma, e leva o osso o que fôr mais forte. Mas porque
não será um espectaculo grandioso disputal-o aos cães? Voluntariamente,
comem-se gafanhotos, como o Precursor, ou cousa peor, como Ezequiel;
logo, o ruim é comivel; resta saber se é mais digno do homem
disputal-o, por virtude de uma necessidade natural, ou preferil-o, para
obedecer a uma exaltação religiosa, isto é, modificavel, ao passo que a
fome é eterna, como a vida e como a morte.
Estavamos á porta de casa; deram-me uma carta, dizendo que vinha de uma
senhora. Entramos; e o Quincas Borba, com a discrição propria de um
philosopho, foi ler a lombada dos livros de uma estante, emquanto eu
lia a carta, que era de Virgilia:
«Meu bom amigo,
«D. Placida está muito mal. Peço-lhe o favor de fazer alguma
cousa por ella; mora no becco das Escadinhas; veja se alcança
metei-a na Misericórdia.
Sua amiga sincera,
[signature]
Não era a letra fina e correcta de Virgilia, mas grossa e desegual; o
V da assignatura não passava de um rabisco sem intenção alphabetica;
de maneira que, se a carta apparecesse, era mui difficil attribuir-lhe
a autoria. Virei e revirei o papel. Pobre D. Placida! Mas eu tinha-lhe
deixado os cinco contos da praia da Gambôa, enão podia comprehender
que...
--Vaes comprehender, disse o Quincas Borba, tirando um livro da estante.
--O que? perguntei espantado.
--Vaes comprehender que eu só te disse a verdade. Pascal é um dos meus
avós espirituaes; e, çomquanto a minha philosophia valha mais que a
delle, não posso negar que era um grande homem. Ora, que diz elle
nesta pagina?--E, chapéu na cabeça, bengala sobraçada, apontava o logar
com o dedo.--Que diz elle? Diz que o homem tem «uma grande vantagem
sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo
ignora-o absolutamente.» Vês? Logo, o homem que disputa o osso a um cão
tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome; e é isto que
torna grandiosa a luta, como eu dizia. «Sabe que morre» é uma expressão
profunda; creio todavia que é mais profunda a minha expressão: sabe
que tem fome. Porquanto, o facto da morte limita, por assim dizer, o
entendimento humano; a consciencia da extincção dura um breve instante
e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar,
de prolongar o estado consciente. Parece-me (se não vae nisso alguma
immodestia), que a fórmula de Pascal é inferior á minha, sem todavia
deixar de ser um grande pensamento, e Pascal um grande homem.
CAPITULO CXLIII
Não vou
Emquanto elle restituia o livro á estante, relia eu o bilhete. Ao
jantar, vendo que eu falava pouco, mastigava sem acabar de engulir,
fitava o canto da sala, a ponta da meza, um prato, uma cadeira, uma
mosca invisivel, disse-me elle:--Tens alguma cousa; aposto que foi
aquella carta?--Foi. Realmente, sentia-me aborrecido, incommodado, com
o pedido de Virgilia. Tinha dado a D. Placida cinco contos de réis;
duvido muito que ninguem fosse mais generoso do que eu, nem tanto.
Cinco contos! E que fizera delles? Naturalmente botou-os fóra, comeu-os
em grandes festas, e agora toca para a Misericordia, e eu que a leve!
Morre-se em qualquer parte. Accresce que eu não sabia, ou não me
lembrava do tal becco das Escadinhas; mas, pelo nome, parecia-me algum
recanto estreito e escuro da cidade. Tinha de lá ir, chamar a attenção
dos visinhos, bater á porta, etc. Que massada! Não vou.
CAPITULO CXLIV
Utilidade relativa
Mas a noite, que é boa conselheira, ponderou que a cortezia mandava
obedecer aos desejos da minha antiga dama.
--Letras vencidas, urge pagal-as, disse eu ao levantar-me.
Depois do almoço fui á casa de D. Placida; achei um mólho de ossos,
envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo;
dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fil-a transportar para a
Misericordia, onde ella morreu uma semana depois. Minto: amanheceu
morta; saiu da vida ás escondidas, tal qual entrára. Outra vez
perguntei, a mim mesmo, como no cap. LXXV, se era para isto que o
sachristão da Sé e a doceira trouxeram D. Placida á luz, n'um momento
de sympathia especifica. Mas adverti logo que, se não fosse D. Placida,
talvez os meus amores com Virgilia tivessem sido interrompidos, ou
immediatamente quebrados, em plena effervescencia; tal foi, portanto, a
utilidade da vida de D. Placida. Utilidade relativa, convenho; mas que
diacho ha absoluto nesse mundo?
CAPITULO CXLV
Simples repetição
Quanto aos cinco contos, não vale a pena dizer que um canteiro da
visinhança fingiu-se enamorado de D. Placida, logrou espertar-lhe
os sentidos, ou a vaidade, e casou com ella; no fim de alguns mezes
inventou um negocio, vendeu as apolices e fugiu com o dinheiro. Não
vale a pena. É o caso dos cães do Quincas Borba. Simples repetição de
um capitulo.
CAPITULO CXLVI
O programma
Urgia fundar o jornal. Redigi o programma, que era uma applicação
politica do Humanitismo; somente, como o Quincas Borba não houvesse
ainda publicado o livro, (que aperfeiçoava de anno em anno) assentamos
de lhe não fazer nenhuma referencia. O Quincas Borba exigiu apenas uma
declaração, autographa e reservada, de que alguns principios novos
applicados á politica eram tirados do livro delle, ainda inedito.
Era a fina flôr dos programmas; promettia curar a sociedade, destruir
os abusos, defender os sãos principios de liberdade e conservação;
fazia um appello ao commercio e á lavoura; citava Guizot e Ledru-Rollin
e acabava com esta ameaça, que o Quincas Borba achou mesquinha e
local: «A nova doutrina que professamos ha de inevitavelmente derribar
o actual ministerio.» Confesso que, nas circumstancias politicas da
occasião, o programma pareceu-me uma obra-prima. A ameaça do fim, que
o Quincas Borba achou mesquinha, demonstrei-lhe que era saturada do
mais puro Humanitismo, e elle mesmo o confessou depois. Porquanto, o
Humanitismo não excluia nada; as guerras de Napoleão e uma contenda
de cabras eram, segundo a nossa doutrina, a mesma sublimidade, com a
differença que os soldados de Napoleão sabiam que morriam, cousa que
apparentemente não acontece ás cabras. Ora, eu não fazia mais do que
applicar ás circumstancias a nossa fórmula philosophica: Humanitas
queria substituir Humanitas para consolação de Humanitas.
--Tu és o meu discipulo amado, o meu califa, bradou o Quincas Borba,
com uma nota de ternura, que até então lhe não ouvira. Posso dizer
como o grande Muhammed: nem que venham agora contra mim o sol e a lua,
não recuarei das minhas idéas. Crê, meu caro Braz Cubas, que esta é a
verdade eterna, anterior aos mundos, posterior aos seculos.
CAPITULO CXLVII
O desatino