os seus trabalhos de modelos que veem de FranÁa ou da Allemanha ·s
grosas, mas sim do natural; estudando desde as mais rudimentares noÁıes
de traÁos e linhas, atÈ aos intrincados problemas da perspectiva, sÛs
por si, apenas com as indicaÁıes do professor.
S„o tambem para notar as pastas carregadas de estudos que os discipulos
executam em casa, apÛs as liÁıes, e que s„o documentos irrefutaveis do
bom aproveitamento d'este systema de ensinar o desenho e a pintura.
Entre os discipulos de Loureiro, ha um que se torna notavel, porque com
48 liÁıes apenas, uma cada semana, tem feito maravilhosos progressos.
D'este discipulo, j· eu tive occasi„o de fallar, quando em tempo
dediquei duas linhas a uma exposiÁ„o que Loureiro fez e em que
appareceram alguns estudos d'elle.
Ha tempos, porÈm, quando visitei o _atelier-escola_, tive uma boa
occasi„o de vÍr de novo trabalhos seus feitos alli: uma bella copia a
oleo do gesso, correcta de execuÁ„o e de desenho e mais uns trabalhos
que elle fizera fÛra da escola, em passeio d'Arte pelo campo e pela
praia. Havia uma marinha bem tocada, e uma paisagem delicadamente
pintada e superiormente estudada e desenhada, n„o fallando n'um
interessante quadro de camelias, que me encantou. Talvez porque eu gosto
muito de flores, e aquellas estavam t„o frescas, que me fizeram uma
magnifica impress„o.
… elle o sr. Manuel Lucio um dos amadores que, se continuar assim, mais
brilhantemente poder· affirmar o que se tem dito de Loureiro: que se È
grande como artista, n„o o È menos como professor.
Mas, voltemos · escola. Tem ella sobre todos os outros _atelieres_ a
grande vantagem de estar installada nos jardins do Palacio. Quando a
primavera, ridente, enche aquelle recinto de flores e de sol, c· para
fÛra, para o ar livre, vem os discipulos, e, ou recolhem nas suas telas
as flores lindas e frescas e os pontos de vista deliciosos que d'alli se
disfrutam, ou estudam e pintam pequeninos recantos do jardim variados e
bellos. E tudo isto realisa Arthur Loureiro, n„o sem largas e
complicadas difficuldades, que felizmente elle vÍ cobertas de bom
resultado, se bem que com pouco interesse.
Ao vir-me embora depois de ter dado os meus parabens sinceros ao
professor pela sua iniciativa, pensava em como aquelle bello recinto do
Palacio de Crystal poderia ser aproveitado para tanta, tanta coisa util,
em vez de jazer ignominiosamente alli, mudo e sinistro como um crime.
E que tudo isso se poderia fazer se quem o dirige, visse mais alguma
coisa do que umas _reles exposiÁıes de flores e aves_ e do que umas
_festarolas de arraial_ com _musica do ZÈ da Gaita_ e _fogo d'artificio
do Devezas_!...
[Figura: Tigres--ARTHUR LOUREIRO]
III
ARTHUR LOUREIRO e a Academia de Bellas-Artes
Ha tempos n'uns bem elaborados artigos da _Voz Publica_, alguem, que eu
n„o sei quem È, veio apresentar a ideia de que Arthur Loureiro deveria
ser professor da nossa Academia de Bellas-Artes.
Achei t„o acceitavel e t„o util para a Academia essa ideia, que n'este
momento em que me tenho de occupar da sua exposiÁ„o de quadros, entendi
dever acompanhar na sua propaganda quem t„o desinteressadamente a
apresentou. N„o È que eu venha a campo combater afincadamente em favor
d'este artista, n„o, venho sÛ como mero espectador do grande palco da
vida applaudir quem soube apresentar a ideia.
Arthur Loureiro foi um dos mais distinctos discipulos das nossas
academias de Bellas Artes e tem a sua folha de bom profissional,
resplandecendo de brilho e cheio de gloria immoredoira.
N„o foi no seu paiz natal que elle se completou em arte, foi no
estrangeiro, nas grandes terras onde ser-se pintor n„o È uma mera
galanteria de gente fina; foi nas terras onde se faz da Pintura alguma
coisa mais pratica e mais definida do que entre nÛs.
Voltou tarde · patria, vinte annos passados sobre o seu curso. Quer isto
dizer, que elle vem mais senhor do _metier_ do que aquelles que
meramente se demoram l· por fÛra uns tres ou quatro annos. … certo que
muitos que estudaram no estrangeiro nem sempre ao voltar veem mais
vigorosos e mais trabalhadores do que quando partiram. Mas elle n„o.
Arthur Loureiro, foi unicamente para trabalhar e affirmam-no
exuberantemente os cargos que por l· occupou distinctamente, taes
como:--examinador das classes de Arte da National Gallery of Victoria, e
director e professor de 1.^a classe dos cursos de Dezenho e Pintura do
Presbiteriam Ladier College em Melbourne, na Australia.
[Figura: SÛ no mundo--Quadro de ARTHUR LOUREIRO]
Ora estes cargos dados a um estrangeiro, a um portuguez, o que affirmam
È o que o seu nome era ali conhecido e que estava · altura de occupar
esses logares com toda a hombridade e todo o saber.
Mas ha mais, quando terminou o seu curso em Portugal foi classificado
para pensonista em Paris, onde fez uma larga e profunda aprendizagem
d'arte.
Concorreu a muitas e variadas exposiÁıes, onde os seus quadros foram
sempre apreciados como mereciam. Entre esses deveremos notar como
primordiaes a ExposiÁ„o Religiosa da Belgica onde o seu quadro, _A Vis„o
de Santo Stanislau de Kastka_, foi acolhido com enthusiasmo por toda a
critica, e muito especial referencia mereceu ao celebre critico
religioso, l'AlbÈ Moeller. E ainda em Londres, onde concorreu, a
convite, · Greater Britian Exibition, em 1899 e foi recompensado com
diploma d'honra e medalha de ouro. Ha pouco foi elle eleito Academico de
Merito da Academia da Victoria, em Melbourne.
VÍ-se bem claro, por tudo isto, que Arthur Loureiro era considerado e
muito, l· fÛra, como um verdadeiro artista que È.
Estou d'aqui a vÍr a balburdia que vae no nosso meio artistico por estas
minhas despretenciosas notas, mas n„o s„o ellas mais do que o desejo de
provar que o homem est· · altura de occupar um logar de professor na
nossa Academia.
Porque estou bem certo de que elle, chamado a dar provas publicas do seu
saber artistico, ellas ser„o convincentes.
Se elle È um grande artista, n„o È menos um grande trabalhador,
incansavel; trabalhando, quer em quadros para expÙr e vender, quer dando
liÁıes ·quelles que desejam bem conhecer a arte de pintar, no seu
_atelier_, no Palacio de Crystal Portuense. N'esse mesmo _atelier_ j·
por varias vezes tive o prazer de visitar exposiÁıes organisadas por
elle.
Ali me mostrou elle que embora longe de nÛs por tanto tempo, n„o se
deshabituara das cÙres e da luz da nossa boa terra. N„o veiu inebriado
com o nebulozo da Escocia, com o cinzento da FranÁa, nem com o vermelho
violaceo da Italia.
Veiu isento de escolas, preoccupando-se sÛ com o que via na natureza tal
qual ella se apresentava, vibrante de luz se o sol espadanava
rutilantemente no espaÁo, nebuloso e triste, se a nevoa cobria a
atmosphera e a paisagem que pintava.
Era como que o executor da verdade tal como ella deve ser. Era, emfim,
um paisagista perfeito e definidamente portuguez.
Pois bem, todos ahi viram as suas recentes exposiÁıes, e que eu saiba,
ainda ninguem amesquinhou o seu muito merecimento; pelo contrario todos
foram · uma a dizer que elle tinha valor. A critica, que deve ser
sincera e justa, n„o teve por onde o atacar, nem veiu dizer d'elle sen„o
que era bom, por isso a sua entrada como professor de paisagem na
Academia de Bellas Artes, do Porto, deveria ser acolhida por todos os
professores e alumnos com enthusiasmo, se bem que a nossa Academia n„o
seja para largas manifestaÁıes.
Mas deixemos agora o artista para fallarmos da sua ultima exposiÁ„o.
No _atelier_ de Arthur Loureiro, ha um n„o sei que de conforto que nos
prende. Sob a sua direcÁ„o tem-se transformado aquella fria sala n'um
bellissimo gabinete, onde se podem passar horas e horas admiravelmente
bem. Decorado com simplicidade, mas com um especial _cachet_ de
galanteria os seus quadros destacam alli maravilhosamente.
Vou fallar delles, como sei, ou como entendo.
Como nota primordial destacarei o grande quadro, cujo titulo È _De
aldeia em aldeia_ e que inspirou ao bello poeta M. Ricca, esta quadra:
Sob a cruz pesada e feia
Da miseria que a consomme
Corre _d'aldeia em aldeia_,
Na Via-sacra da fome.
[Figura: De aldeia em aldeia--ARTHUR LOUREIRO]
… um soberbo trabalho, desenhado com cuidado e pintado com amor. Uma
velhita andrajosa atravessa um trecho de paisagem, por um caminho
encharcado. Que correcÁ„o e que luz, verdadeira obra prima que um grande
mestre n„o se envergonhar· de assignar.
_No pinhal_. … um delicioso estudo de pinheiros, graceis e altos com a
sua coma dum verde _foncÈ_, que parece sussurrar com a aragem que passa.
_Mar agitado_. Agua deliciosamente tratada e transparecendo atravez
d'ella a penedia que ella cobre. Luz deliciosa de grande ar.
_Vaga quebrada_. … um pequeno quadro em que uma vaga se espadana como
champanhe de encontro a um rochedo. Com que vigor est· pintada essa
molle de agua, que n'um desdobrar vertiginoso e bravo encontra um
obstaculo e se desfaz para o ar, como n'um grito de desespero!
_Retrato de G. Nogueira_. Este retrato È um primor de parecenÁa e de
trabalho. Loureiro poz n'elle um cuidado especial e amigo; È uma obra
prima.
_Nevogilde_. Um trecho de paisagem portuense, muito sentida, muito
nossa.
_Padeira de Avintes_. … um delicioso estudo dos nossos costumes
populares. Modelo gracil e airoso como s„o todas as nossas lavradeiras,
correctamente desenhado, primorosamente pintado.
_Barcos_. Um quadrito interessante, onde ha dois barcos que parece
boiarem docemente nas aguas mansas do rio, sob um ceu suave d'um azul
transparente e bom.
Mais outros quadros ainda, todos elles confeccionados com mestria;
alguns estudos de desenho, cabeÁas rigorosamente estudadas nos seus
claros-escuros.
E esta exposiÁ„o n„o est· a abarrotar de exemplares, mas toda ella
comporta coisas lindas e boas.
Ao sahir d'ali, vem-se sob a impress„o sincera de que tudo aquillo È
nosso, e muito nosso.
Vem-se t„o bem disposto, que se fica com o desejo de l· voltar muitas
mais vezes.
[Figura: Paisagem--ARTHUR LOUREIRO]
[Figura: Flora--Quadro de ARTHUR LOUREIRO]
IV
Mais uma visita ao Atelier de ARTHUR LOUREIRO
Eu j· disse algures que Arthur Loureiro era um poeta na pintura e hoje o
repito aqui, no desprendimento sincero de quem o admira pelo seu
talento. Os seus quadros s„o _bucolicas_ de cÙr e de luz. Ha-os que s„o
como deliciosos sonetos camoneanos. Ha-os que s„o verdadeiros poemas. As
pequenas telas veridicamente portuguezas, com a sua cÙr e a sua luz
d'aldeia, s„o como cantigas de namorados entre os rumorejos do trabalho
campestre.
Arthur Loureiro, talvez, porque viveu muito tempo longe da sua patria,
ao voltar, como que tentou, n'um largo sentimento de amor patrio,
desforrar-se d'aqui n„o ter vivido sempre. E n'uma subtileza ideal
desenhou e pintou a grande alma portugueza, desde a Torre dos Clerigos,
atÈ ao mais escondido recanto do Minho. A sua obra È como que o grito
sentido do filho prodigo que volta ao fim de muito tempo · casa paterna.
E que foi elle sen„o um filho prodigo da Arte, que andou por terras
estranhas a expandir o seu talento em grandes manifestaÁıes, e que ao
voltar, um pouco abatido da grande lucta, nos mostrou que, se alguem o
julgava j· um estrangeiro, a sua alma pulsava no mais sublime
enthusiasmo por tudo o que È nosso, por tudo o que era portuguez, desde
as suas paisagens atÈ aos seus homens.
E agora mais uma vez fallemos dos seus quadros, e dos do seu discipulo.
Antes porÈm de entrar na enumeraÁ„o dos seus trabalhos ahi vae uma
opini„o.
Na occasi„o em que eu visitava a exposiÁ„o entravam ali um grande pintor
portuguez (Souza Pinto), um grande actor portuguez (Augusto Rosa), e um
grande actor francez (Coquelin AinÈ). Pois estes tres cavalheiros
insuspeitos para todos, depois de larga apreciaÁ„o aos trabalhos
expostos, quedaram-se em frente d'um quadro que ha muito est· no atelier
_A Primavera_, e Souza Pinto, esse artista cujo nome resÙa no
estrangeiro como um clarim de gloria nacional na arte de pintura, disse
que se admirava que aquelle quadro ainda n„o tivesse sido adquirido para
o muzeu nacional como um especimen de boa pintura e de soberbo desenho.
Tambem eu teria soltado o meu brado de admiraÁ„o, se n„o soubesse que o
Estado e as Camaras n„o teem dinheiro para essas cousas, e sÛ o teem
para _festejos balofos_, para _comesainas opiparas_ e para _bolos_
rendosos aos afilhados; para mais nada. A galeria nacional de pintura no
Porto È talvez mais parca do que a do mais pequeno amador. … uma
vergonha!!...
[Figura: Pinheiros--ARTHUR LOUREIRO]
Adeante, que vamos gastando muito tempo com consideraÁıes philosophicas.
Pois os quadros expostos de Loureiro, s„o 17 novos e uns 8 j· vistos.
Dos antigos nada direi sen„o que s„o soberbos, dos modernos, d'esses
alguma coisa mais escreverei. Entre todos ha um que me encanta
profundamente. … _O Pinhal_!... Um dia ouvi dizer a alguem que o
pinheiral era um motivo que n„o dava nada na pintura, pela sua fÛrma,
pela sua cÙr e pela sua uniformidade. N'essa occasi„o, n„o me quiz
manifestar, eu n„o sou pintor e n„o queria cahir em erro deante de quem
tinha obrigaÁ„o de conhecer o assumpto melhor do que eu, mas, c· para
mim mantinha a minha opini„o formada; o pinheiro presta-se · pintura, a
quest„o È sabel-o desenhar e pintar. E Loureiro com o seu quadro
_Pinhal_ veiu completamente preencher a minha modesta opini„o. Alli,
n'aquella tela esguia, sob a correcÁ„o impeccavel de desenho, erguem-se
uns pinheiros, que parecem balanÁar sob a press„o do vento que passa
assobiando na sua ramaria.
A _Feira Nova_--… uma delicada _pochade_ verdadeiramente caracteristica
do que s„o as nossas feiras no Minho, sob barracas de lona branca, que
se prendem aos troncos das arvores, com o borborinho de centos de
lavradores e lavradeiras, acotovelando-se na furia de serem os primeiros
a vÍr o que ha alli para vender.
A _Carvalheira_--Uma larga arvore de folhas amarellecidas que comeÁam a
cahir sob o ventinho frio do inverno; È deliciosamente estudada.
E a _Desfolhada_, e a _Estrada do Gerez_ (sob a chuva), as _Alminhas_ e
o _Caminho de Besteiros_--e todos elles, emfim, como s„o t„o
verdadeiramente nossos, t„o sentidamente portuguezes, verdadeiramente
minhotos, nos seus verdes inconfundiveis, na sua luz inimitavel.
Entre as tres _cabeÁas de estudo_, ha duas de uma velha, que s„o um
encanto. TraÁadas na meticulosidade de pormenores, s„o feitas largamente
com pulso de quem È um verdadeiro artista.
AlÈm dos trabalhos do mestre, que s„o como sempre magnificos, tomando
uma das paredes do atelier, est„o os trabalhos do discipulo, do snr.
Manoel Maria Lucio Junior, que ha unicamente um anno, estuda com
Loureiro, desenho e pintura.
Aos meus collegas da imprensa, como que tem passado despercebido o
trabalho d'este amador, que entra agora no nosso meio artistico. Ora eu,
que inegavelmente sou o mais incompetente dos apreciadores dos quadros,
sempre lhe quero dispensar duas linhas.
Manuel Lucio È um rapaz da nossa fina sociedade, que todos nÛs
conhecemos como sendo um dos elegantes da nossa terra.
Durante muito tempo julguei-o um _bon vivant_, dedicando unicamente o
seu espirito ao talho d'um _veston_ ou ao feitio de uma gravata. Um dia,
porÈm, entrando a visitar Loureiro no seu atelier-escÛla encontrei l·
este cavalheiro dando liÁ„o de desenho. Acabada a aula, Loureiro
mostrou-me trabalhos de varios discipulos e abrindo uma arca artistica
que elle ali tem, tirou de dentro varios desenhos e disse-me:--s„o
feitos pelo Lucio, È um rapaz de habilidade.--E de facto os desenhos que
elle apresentou, revelavam uma certa disposiÁ„o para a Arte.
Passaram-se tempos, o mestre foi para fÛra e ao voltar encontrou-se em
frente d'um discipulo que lhe d· honra, porque Manuel Lucio, dotado
d'uma vontade de ferro em conhecer o methodo de desenho e de pintura tem
trabalhado denodadamente e tem conseguido com isso e com as bellas
indicaÁıes do professor o que muitos com idas ao estrangeiro n„o tem
conseguido.
Quatorze s„o os trabalhos expostos por este intelligente discipulo de
Loureiro. Cinco trabalhos a oleo, cinco pasteis e quatro desenhos a
lapis.
[Figura: D. Adelia Ramos : Discipula de Arthur Loureiro]
Entre os desenhos notarei _O Contador_, que È uma prova irrefutavel do
modo como elle interpretou as noÁıes de perspectiva indicadas; na
pintura a oleo notarei os _Cravos_ e um retalho de paisagem, onde as
cÙres e os tons est„o bem achados, resaltando os planos da chateza
vulgar, propria dos estudos de amadores.
Aonde porÈm eu admiro a disposiÁ„o artistica de Manuel Lucio È nos
pasteis, especialisando uns _Effeitos d'agua_, um _Poente_ e um _Ceus
nublados_.
Innegavelmente o discipulo d· honra ao mestre e o mestre deve estar
orgulhoso por ter achado, quem t„o bem tenha sabido comprehendel-o e t„o
sabiamente aproveite as suas indicaÁıes. E recebam os dous, mestre e
discipulo a sincera express„o do meu applauso.
1903 a 1904.
XIX
AMADORES PORTUENSES
MANUEL MARIA LUCIO JUNIOR
Discipulo de ARTHUR LOUREIRO
O Arthur Loureiro È um velho rapaz, pintor d'alma e coraÁ„o, trabalhador
infatigavel, cavaqueador ameno e interessante, amigo dedicado, e, acima
de tudo isto, professor consciencioso e sabedor.
[Figura: MANUEL LUCIO no Atelier de ARTHUR LOUREIRO]
Ora eu, que gosto de passar bem o meu tempo, vou muitas vezes, e
especialmente aos domingos, ao Palacio de Crystal, dar dous dedos de
cavaco ao Arthur Loureiro, no seu delicado e interessante atelier.
AppareÁo alli por volta da hora e meia. … quando elle acaba de dar liÁ„o
ao Manuel Lucio, que, quasi sempre, quando eu entro ainda l· est·
dentro, com a sua _blouse_ vestida, paleta em punho, dando as ultimas
pinceladas no modelo que copia.
Outro dia, copiava elle uma velha; quando entrei, estava j· limpando os
seus pinceis e a paleta para se ir embora.
Nas faces de Arthur Loureiro pairava um alegre sorriso de satisfaÁ„o.
Que se teria passado de extraordinario para que elle estivesse t„o
sorridente?!... Alguma boa nova da familia ausente, ou grande bem estar
na sua delicada saude?!... Talvez as duas coisas juntas!? Quem sabe?...
--Esperemos os acontecimentos, disse eu commigo, avido, no entretanto de
conhecer o motivo d'aquella intima alegria. O que fÙr soar·, pensei,
porque o Loureiro com a sua peculiar franqueza, n„o occulta por muito
tempo o motivo que o faz estar assim satisfeito e alegre. E assim foi...
Mal o Lucio saiu, virou-se para mim e sem mais, disse-me, indicando a
porta por onde saira:--… um discipulo que me ha-de dar honra, podes
crer... Tem bastante disposiÁ„o e È muito applicado... Ha-de dar muito
se continuar assim, e se se convencer que isto de pintura n„o se aprende
em dous dias.
Queres vÍr? E sem esperar resposta levantou o tampo do seu divan-arca,
saccou de l· de dentro uma pasta com desenhos e algumas pinturas a oleo,
dizendo: s„o d'elle.
Eram de facto estudos que o Manuel Lucio tinha executado em casa, longe
das vistas do professor, mas sob a orientaÁ„o e as liÁıes que o Loureiro
lhe dava, proficua e sabiamente aproveitadas.
Era especialmente por isso, porque tinha encontrado, n'aquelles estudos
que n'esse dia o discipulo trouxera · sua apreciaÁ„o, a boa vontade, a
applicaÁ„o e a disposiÁ„o natural de que elle era dotado, que Loureiro
alegremente se sorria.
E elle tinha raz„o. Manuel Lucio, que eu tinha por um exterior, um
balofo, quando o via passar ostentosamente, as suas sobrecasacas
talhadas pelos ultimos figurinos, as suas gravatas espaventosas e ricas,
onde pousavam joias caras e os seus chapeus altos sempre muito polidos e
muito lustrados, n„o era o que eu pensava.
Olhava-nos, parecia ter um ar sobranceiro de _enfant-gatÈ_, ou, como eu
costumo dizer portuguesissimamente, _menino bonito_, e sentia-se por
elle um quer que fosse, que obrigava a pÙl-o, com uma certa reserva, na
devida distancia a que se pıem sempre os infatuados, que n„o valem nada
e que julgam ser verdadeiras notabilidades. Era um juizo errado aquelle
que eu fazia; reconheÁo agora que n„o o conhecia, e nunca lhe tinha
encontrado nem podia encontrar predicados por que o admirasse. Estava de
sobre-aviso a seu respeito.
Hoje, porÈm, ponho de parte essa opini„o errada que d'elle fazia e isso
porque tendo acompanhado com grande interesse os estudos d'esse
discipulo, e o seu aproveitamento n'aquella risonha escola d'Arte, que o
bom Loureiro tem no seu interessante atelier dos jardins do Palacio de
Crystal, e como o reconheÁo digno de ser notado entre os amadores que
n'este momento ha pelo Porto, vou dedicar-lhe algumas palavras de
incitamento, para que n„o esmoreÁa na empreza da Arte em que o seu bom
gosto e as suas disposiÁıes artisticas o metteram. N„o pense, porÈm,
Manuel Lucio que eu vou incensal-o louvaminheiramente; n„o, vou
rapidamente em duas leves pennadas dedicar-lhe algumas palavras de
elogio merecido e sincero.
[Figura: Marinha--MANUEL LUCIO]
Para isso, soccorro-me de alguns informes que Loureiro me deu e
fallaremos os dous conjunctamente, eu pelo que tenho visto nas minhas
visitas ao atelier-escola, e especialmente na ultima exposiÁ„o de
trabalhos de discipulos, elle pelo que tem apurado do estudo que o
discipulo tem feito e de como tem recebido salutarmente as suas sabias
liÁıes. Comecemos pois.
Um dia, Arthur Loureiro que tinha aberto ao publico a sua escola de
pintura para senhoras, confiado no bom gosto que ultimamente se estava
desenvolvendo entre as _madames_ para esta manifestaÁ„o de Arte, viu
entrar-lhe pela porta dentro este rapaz chic, que perguntava se elle
quereria dar-lhe algumas liÁıes de pintura. Loureiro immediatamente se
promptificou a isso, mas sob condiÁ„o que elle deveria comeÁar por onde
todos devem comeÁar, pelos rudimentos de desenho. SÛ n'essas condiÁıes o
poderia acceitar como discipulo.
Accedeu o nosso amador immediatamente, pois farto estava elle de saber
que o pouco que tinha estudado com um _soi disant_ de nada lhe valia e
logo combinaram dar breve inicio aos seus trabalhos.
Ao principiar estas liÁıes, Manuel Lucio, vinha cheio de uma inegualavel
boa vontade, um honroso desejo de vir a ser na pintura, alguma coisa
mais, do que as habituaes vulgaridades, e por isso, pondo completamente
de parte as noÁıes que recebera de um insignificante professor, que
d'isso sÛ tinha o nome, pois emquanto ao resto era d'uma nullidade
completa, todo elle se dedicou a estudar e a cumprir as instrucÁıes que
Arthur Loureiro lhe ia dando.
E assim, foi desenhar, desde os primeiros rudimentos atÈ · perspectiva,
e isto por longas liÁıes, sem nunca dar mostras de canÁaÁo ou
aborrecimento, pelo contrario sempre cheio d'um grande prazer em traÁar
firme e rapidamente o contorno e o claro-escuro dos objectos que
copiava.
E ainda hoje continua e affincadamente, desenhando todos os dias, mesmo
a fÛra dos esboÁos que fez para os seus quadros.
Depois de ter desenhado muito a lapis e a carv„o, copiando gessos e
modelos, entrou ent„o no desenho a cÙres, (pastel) e fez a paisagem e a
figura, isto tudo do natural, e fel-o com uma tal garridice e um tal
desenvolvimento que os seus trabalhos mereceram os applausos, n„o sÛ do
seu professor, mas da critica conscienciosa e honesta de alguns
entendidos.
ApÛs isto passou a pintar a oleo, no atelier, e sob a vista e a
conceituosa informaÁ„o de Loureiro, lanÁou · tela flores que estudou em
todas as suas minudencias, sem comtudo fazer dos seus trabalhos,
rendilhados e lambidos quadros.
N„o, Manuel Lucio, estudou as flores desenhando-as e colorindo-as depois
nos tons e nos valores que ellas deviam ter.
E emquanto no atelier-escola pintava flores sob a vista do professor, l·
por fora, sÛsinho, apenas com as sabias noÁıes recebidas tentava a
paisagem a oleo.
Eram estas algumas das que Loureiro me mostrava, e de que eu vos dou
umas gravuras.
Vieram em seguida os estudos a oleo de gessos, feitos com muita
consciencia e extraordinaria proficiencia, e hoje estuda valentemente,
como um verdadeiro amador de talento, o modelo vivo, e ainda ha pouco
n'uma exposiÁ„o de alumnos que Loureiro promoveu no seu atelier, elle l·
estava com 19 trabalhos a oleo entre os quaes alguns havia que eram
verdadeiramente maravilhosos de cÙr, de luz e de verdade, e 9 desenhos,
provas irrefutaveis de quanto elle trabalha e do bem como trabalha.